Ensaios Filológicos um manuscrito português do século XVI e o problema guanche



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Ensaios Filológicos

UM MANUSCRITO PORTUGUÊS DO SÉCULO XVI E O PROBLEMA GUANCHE

CAP. X DO QUE SE DIZ DAS LINGOAGENS DE TODAS ESTAS ILHAS CANÁRIAS

Já disse q. tinhão os moradores destas Ilhas de Canária sua lingoagem barbara, cada Ilha a sua com que se entendião. Dizem que fazendo guerra os Romanos aos de Carthago, e uencendoos nella, cortando as lingoas a muitos, os poserão em nauios no mar os quaes saindo pello estreito de Gibral­tar, forão ter ás Canárias, q. naquelle tempo estauão desertas, e destes Carthagenienses se povorão, e como não tinham lin­goas inteiras com que falassem, seus filhos e descendentes inuentarão cada huns na Ilha, q. hábitauão noua lingoage: e por isso cada huma destas Ilhas tinha a sua differente das ou­tras, e em huma mesma Ilhia se achauão também differentes lingoagens em diuersas partes delia, onde em diuersos lugares desembarcarão com as lingoas cortadas. Também se diz nes­tas Ilhas canárias, e ha esta presumpção que algum Rey da-quella parte de Berberia a elas mais chegada uezinha com algum noio que teria dalguns seus vassal (sic), ou pouos seus súbditos por castigo de alguma rebellião, ou delicio, lhe man­daria cortar parte das lingoas, com que os aluoroços e amo­tinações se fazem, e os deitaria fora de sua terra em embar­cações donde uierão ter ás Canárias a pouoar aquellas sete Ilhas desertas, e em cada huma dellas inuentarão os sem lingoas, ou os seus descendentes nouas lingoagens. Também pode ser

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que sem trazerem estes canários as lingoas cortadas, cortou o discurso do tempo (que tudo muda) e mudou a primeira lin-goagem, que elles de principio falauão em differentes, e diuer-sas, como agora tem, por se elles diuidirem huns dos outros em diuersas Ilhas, e em uarios lugares de cada huma delas, e assi uariarão as lingoages pello muito numero dos annos cor­romper a primeira lingoa antiga, que todos traziam junta­mente, e parece isto ser assi pella razão que deu hum André Miz homem nobre e honrado filho de Antão Miz da casta dos Monizes desta Ilha de sam Miguel, morador que foi no lugar de Rabo de peixe, termo da villa da Ribeira grande desta mesma Ilha, o qual passando a Ilha de Tenarife, huma das sete Ilhas Canárias, e haueudo la residido muitos annos tendo particular amisade com hum homem honrado Canário, natural de Oram Canária, que se chamaua Antão delgado, espantandosse de não terem memória os naturaes daquellas Ilhas, donde procederão, e perguntando-lhe se tinha disso alguma noticia, lhe respondeo Antão delgado sorrindosse, que donde podiam proceder, senão dessa Berberia, que estaua alli tam perto, e André rniz lhe replicou q não podia isso ser, porque, se forão dahi tiuéram a lei e seita dos mouros, e a mesma lingoa, a que Antão delgado respondeo, dizendo, pa­rece que naquelle tempo em que os moradores destas Ilhas Canárias vieram aqui ter da terra de África, não hauia ainda a seita de Mafamede, que agora tem os Mouros: por q eu entendo três lingoas, conuem a saber, a de Canária, e a de Tenarife, e a de Gomeira, e todas uão quasi parecendo a lin-goagem dos mouros. E disse mais Antão delgado, que bem parecia isto ser assi, pois os canários toda a maneira tinhão dos Mouros, e parece que ainda que mudarão a lingoagem, que trazião de principio não mudaram alguns costumes de sua terra, que cõ os olhos uirão, e lá antre si costumauão. E ainda que os canários tinhão uariedade, suas lingoages quasi todas tem hum modo da dos mouros.



Mas com todas estas razões sobre dictas nada disto affirmo para que se aja de ter por certo, porque os outros affirmão, que estas Ilhas de Canária tem muy antigo principio, e forão ia em tempo de Traiano aquelle insigne e notauel emperador de Roma descubertas, e achadas por seu grande saber, e industria, e pouoadas por seu mandado. Dizem, que era este Emperador Traiano gram philosopho, astrólogo, e mathematico, e que foi natural de Calis de Hespanha. O qual gouernando o império, & mandando fazer gente de guerra

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para ajuntar grande exercito contra seus imigos, lhe foi dicto que hauia certa nasção de gente bellicosa, e usada nas armas perto de seu império, ou poruentura seus súbditos, os quaes por serem montanhezes, peleiauam a pé tam esforçadamente, que hauidos em seu exercito, se podia auer com elles gram uictoria, mas que arreceauão usassem os taes de sua má incli­nação, e costume, que era serem muito mudáveis e faciles de tornar atraz, como dizem que fazem alguns Tudescos, indosse para quem mais soldo lhes dá, ainda que seia a tempo, que os exércitos estam a ponto de se romper, pello que se hauião causado ia muy notaueis danos em outros encõtros semelhan­tes; e exércitos de alguns seus antecessores. Sabido isto por Traiano, e que sempre ficarão sem castigo, ordenou hum meo por onde não podesscm executar sua malícia, nem causar al­gum dano sua mudança, ou cobiça mandando a seus capitaens que a todos matassem, reseruando uiuos somente os uelhos, molheres, e moços, e os que não podessem tomar armas, & cortadas as lingoas lhos trouxessem. Trazidos deante delle os mâdou leuar em nauios, dando regimento, que entrados no mar Oceano nauegassem não muito longe da costa de África direito ao Sudueste, e que a certos grãos achariam as sete Ilhas bem afortunadas, e nellas deitassem aquella gente sem lingoas, repartindo em cada ilha certo numero delles, onde os deixassem pellos extinguir, e apartar de seu máo nasci- mento, e para que os que. delles sucedessem, não soubessem dar conta de seu principio. O que paresse ser assi, porq.e em todas estas sete Ilhas, os de huma não entendiam a lingoagem das outras, ainda que nos costumes erão, e são semelhantes, porque todos são rnuy ualentes, e animosos, destros, e ligeiros em todolos exercícios de guerra, correm, saltão, lutão e tirão funda, e lança mais q outra nação, sam affabiles, alegres, e amigos de banquetes, mas não dados a uinho. As molheres são pella maior parte limpas, polidas, louçãas e de rara for­mosura, pello qual muitos dos conquistadores, ou quasi todos se casaram nestas Ilhas, e não tornarão a Hespanha solteiros. Agora ia tem perdido estes islenhos a constellação, ou inclinação de rnudaueis, e sam firmes na amisade, que promettem, e na religião christãa, e deuotos de Nossa snora, são dados a criação de gado, e não buscando curiosidade de ca­sas morão nas cauernas da terra, e couas, e furnas das rochas, ainda que na policia, e traios do uestido são ia agora quasi todos tam custosos elles, e ellas como os mais polidos caste­lhanos, de Hespanha.

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O Cap. X. do que se diz das lingoagens de todas estas Ilhas Canárias que. ora damos à publicidade, é extraído das Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso, obra dos fins do século xvi, em parte ainda inédita, que compreende seis livros nos quais se desenrola a história dos arquipélagos das Ca­nárias, Cabo Verde, Madeira e Açores.

No dizer do principal biógrafo de Frutuoso, .o P.e An­tónio Cordeiro (1641-1722), autor da História Insulana de escasso mérito e que não passa dum decalque pouco cons­ciencioso do grande trabalho do autor do século dezasseis, as Saudades da Terra eram vulgarmente conhecidas pela designação de Descobrimento das Ilhas.

A largos traços, com os limitados elementos que nos restam, faremos a biografia deste ignorado autor do período áureo da nossa literatura que, não obstante ser parcialmente conhecido desde 1873, devido aos esforços do benemérito editor da parte relativa ao arquipélago madeirense, Dr. Ál­varo Rodrigues de Azevedo, não logrou, apesar do alto valor histórico do seu trabalho è ainda mesmo do seu incontestável valor literário, o acolhimento oficial dos historiadores da nossa literatura (1).

O que sabemos da sua vida —e bem pouco é devemo-lo ao jesuíta, António Cordeiro, como já dissemos. Nem sempre são exactos alguns dos dados cronológicos que nos fornece. Diogo Barbosa Machado na Biblioteca Lusitana, limitou-se a reproduzir o que o autor da História Insulana diz no Ca­pítulo 2.°, do livroII da sua obra, acrescentando-lhe uma

(') O Sr. Dr. Fidelino de Figueiredo nem o cita na sua História da Literatura Clássica. É possível que tenha sitio o "despotismo das datas,, para empregar uma expressão deste autor, o que obstou a que o incluísse na sua História que cronologicamente não ultrapassa o ano de 1580, ao passo que as Saudades da Terra foram compostas em 1590.

O Sr. Dr. Mendes dos Remédios na sua História da Literatura Portuguesa, citando apenas das Saudades da Terra, a Hjstória Genea-lógica de Sam Miguel, que foi publicada em 1876 por Francisco Maria Supico e José Pedro Cardoso e que compreende 36 capítulos do liv. iv do M.S., mostra desconhecer a ;parte mais importante até hoje publicada; a História das ilhas do Porto Santo, Madeira, Desertas e Selvagens, pu­blicada por Álvaro Rodrigues de Azevedo em 1873, alem dos excertos relativos aos Açores publicados na revista Arquivo dos Açores.

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resenha bibliográfica de todos quantos a Frutuoso se refe­riam (1).



Nasceu em 1522, em Ponta Delgada, de família nobre e rica, proprietária de grandes terrenos na ilha de S. Miguel. Como desde tenra idade revelasse decidida propensão para o estudo, foi na altura conveniente, estudar preparatórios na Universidade de Salamanca onde se afirmou como estudante muito distinto, e onde, segundo Barbosa Machado tomou o grao de Mestre em Artes. Concluídos estes estudos preli­minares na célebre Universidade peninsular, regressou a S. Miguel onde tomou ordens sacras, pois certamente foi durante a sua estada em Salamanca, que se definiu a sua vocação religiosa e mística, que o levou a enveredar pela senda do sacerdócio. Voltou, a Salamanca, matriculando-se em Teologia, tendo tomado o grao de Bacharel a 9 de feve­reiro de 1558.

É indubitável em face da documentação publicada no Arquivo dos Açores (2) que nesse mesmo ano da sua forma­tura nas letras sacras, foi paroquiar a igreja matriz da vila da Lagoa onde se conservou até 1560, facto que Cordeiro e Barbosa Machado passam em julgado, errando, no que res­peita à cronologia, quando afirmam que a fama das suas virtudes e talentos, a quando da sua formatura em Teolo­gia, havendo transposto fronteiras e chegando ao conheci-mento do então. Bispo de Miranda, D. Julião de Alua, este com grande empenho, porfiara e alfim conseguira que o P.e Frutuoso se passasse a Bragança onde até 1554 ou 1556 (:3) se conservou auxiliando o referido Bispo no cum­primento do seus deveres pastorais. A ser certo e verda-

(1) "Fazem ilustre memória do seu: nome Joan. Soar. de Brit., Theatr. Lusit. Litter., lít., G. n. 21. Cardoso, AgíoL Luzit., Advért do Tom. 1., § 14. pág. 53, Fr. Luiz dos Anjos, Jard. de Port., p. 539, n. 179. Cordeiro, Hist. Insulam., liv. 2, cap. 2. Mello, Vid. da V. Marg, de Chav., p. 343. D. Anto-nio Caet. de Souz., Cat. dos Bisp. de Angra e no Agiolog. Lusit., Tom. 4, p. 647 Marangoni, Thezaur. Paroch., Tom. 2., pag. 244,,.

Biblioteca Lusitana — vol. 2.°, pag. 352. Referindo-se ás Saudades da Terra, informa que "na livraria do Conde de Vimeiro se conserva huma Copia, que foy do insigne antiquário Manoel Severim de Faria, Chan­tre da Cathedral de Évora, o qual persuadido a João Franco Barreto como affirma na Bib. Portug., M. S., reduzisse esta obra a milhor forma e estilo,,.

(2) Vol. 1.º , pág. 403 e seg.

(3) Os carreadores de materiais da nossa História, são por via de regra, muito pouco escrupulosos no concernente a datas. Assim Barbosa Machado diz que o sucessor de D. Julião de Alua no bispado de Miranda

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deiro o facto em si, da estada de Gaspar Frutuoso em Bra­gança, deve ter ocorrido depois de 1560 e antes de 1566, data da elevação de D. Julião de Alua à dignidade de capelão-mór por D. Sebastião, pois até 16 de Março de 1560 (l) se conservou em S. Miguel na vila da Lagoa e a 15 de Agosto de 1565 (2), tomou posse do lugar de Vigário da igreja de N. Senhora da Estrela da vila da Ribeira Grande. Dentro destas duas datas, 1560 e 1565 é que devemos pôr a hipótese do seu doutoramento em Teologia na Universi­dade de Salamanca, Coimbra ou Évora (3) e da sua chamada a Bragança onde não quiz continuar a desfrutar os pingues rendimentos dos seus benefícios (4) sob o episcopado de D. António Pinheiro, o sucessor de D. Julião de Alua, pre­ferindo voltar para a sua Ilha, tendo, na passagem por Lisboa, recusado a mitra de Angra e o governo provisório deste bispado.



Pastoreando a igreja da vila da Ribeira Grande se con­servou até 1591, ano em que faleceu (5), tendo deixado me­mória de invulgar zelo religioso, perfeita caridade cristã e humildade e modéstia notáveis que comprovou exube­rantemente, não aceitando os elevados cargos eclesiásticos

foi D. António Pinheiro e cita a data de 1566 em que D. Julião deixou a diocese. Outras fontes dão D. António Pinheiro como bispo de Miranda já em 15ó4.

(1) Documentos publicados In, Arq. dos Açores, vol. 1º.

(2) Ibidem, ob. cit., vol. 1.°.

(3) Parece incontestável que Frutuoso se doutorou em Teologia, pois no Alvará de acrescentamento da côngrua do Dr. Fructuoso datado de 1585 em que lhe são acrescentados de 5.000 anuais os 10.000 e 4 moios de trigo que auferia é designado por Doctor Fructuoso. Não há, porém, a mínima alusão nos registos das Universidades de Salamanca e de Coimbra e na da Évora muito menos, pois só em 1608 é que começam a fazer-se tais registos —Arquivo dos Açores.

(4) Ultrapassavam mil cruzados de renda anual, segundo o Padre Cordeiro.

(5)Barbosa Machado transcreve um de três epigramas que em sua honra compôs o Jesuíta Manoel Gonsalves.

Doctori Gaspari Fructuoso instar arboris vitae talem fructum


habentis.

Arbor vitalis vitalibus undique ramis

Cum sis; vitalis non nisi fructis eris.




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