Ensino de literatura: história literária ou formação de leitores?



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Ensino de literatura:
história literária ou formação de leitores?


William R. Cereja

De Caminha a Oswald de Andrade e a Caetano

“Ali andavam, entre eles, três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, caídos pelas espáduas abaixo; e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as olharmos muito bem, não tínhamos nenhuma vergonha.”

(Pero Vaz de Caminha. Carta (fragmento). In: VOGHT, C. e LEMOS, J.G. Cronistas e viajantes. São Paulo: Abril Educação, 1982).



as meninas da gare

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis

Com cabelos mui pretos pelas espáduas

E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas

Que de nós as muito bem olharmos

Não tínhamos nenhuma vergonha

(Oswald de Andrade. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971, p. 177.)


Manifesto da Poesia Pau-Brasil (fragmento)

[...]


Temos a base dupla e presente ─ a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a álgebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de “dorme nenê que o bicho vem pegá” e de equações.

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Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola.

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Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. [...]

(Oswald de Andrade, 1924.)


Jóia

beira de mar beira de mar

beira de maré na América do Sul

um selvagem levanta o braço

abre a mãe e tira um caju

um momento de grande amor

de grande amor

Copacabana Copacabana

louca total e completamente louca

a menina muito contente

toca a coca-cola na boca

um momento de puro amor

de puro amor

(Caetano Veloso, Jóia, 1975.)

BATMAKUMBA

Batmakumbayêyê batmakumbaobá

Batmakumbayêyê batmakumbao

Batmakumbayêyê batmakumba

Batmakumbayêyê batmakum

Batmakumbayêyê batman

Batmakumbayêyê bat

Batmakumbayêyê ba

Batmakumbayêyê

Batmakumbayê

Batmakumba

Batmakum


Batman

Bat


Ba

Bat


Batman

Batmakum


Batmakumba

Batmakumbayê

Batmakumbayêyê

Batmakumbayêyê ba

Batmakumbayêyê bat

Batmakumbayêyê batman

Batmakumbayêyê batmakum

Batmakumbayêyê batmakumba

Batmakumbayêyê batmakumbao

Batmakumbayêyê batmakumbaobá

(Gilberto Gil e Caetano Veloso, 1968.)

Diálogo entre linguagens e suportes



É a vaidade, Fábio, nesta vida,

Rosa, que da manhã lisonjeada,

Púrpuras mil, com ambição dourada,

Airosa rompe, arrasta presumida.


É planta, que de abril favorecida,

Por mares de soberba desatada,

Florida galeota empavesada,

Sulca ufana, navega destemida.


É nau, enfim, que em breve ligeireza,

Com presunção de Fênix generosa,

Galhardias apresta, alentos preza:
Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa

De que importa, se aguarda sem defesa

Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

(Antonio Candido e José A. Castello. 1976, p. 61)





Diálogo entre culturas

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas de Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste

(ALENCAR, José de. Iracema. 2ª ed. Ed. Crítica de M. Cavalcanti Proença.
Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Edusp, 1979. p. p. 12.)

Carta de um Contratado
Eu queria escrever-te uma carta

amor,


uma carta que dissesse

deste anseio

de te ver

deste receio de te perder

deste mais que bem querer que sinto

deste mal indefinido que me persegue

desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta de confidências íntimas



uma carta de lembranças de ti

de ti


dos teus lábios vermelhos como tacula

dos teus cabelos negros como dilôa

dos teus olhos doces como macongue

dos teus seios duros como maboque

do teu andar de onça

e dos teus carinhos

que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

que recordasse nossos dias na capôpa



nossas noites perdidas no capim

que recordasse a sombra que nos caía dos jambos

o luar que se coava das palmeiras sem fim

que recordasse a loucura

da nossa paixão

e a amargura de nossa separação...


Eu queria escrever-te uma carta

amor


que a não lesses sem suspirar

que a escondesses de papai Bombo

que a sonegasses a mamãe Kieza

que a relesses sem a frieza

do esquecimento

uma carta que em todo Kilombo

outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta que te levasse o vento que passa



uma carta que os cajus e cafeeiros

que as hienas e palancas

que os jacarés e bagres

pudessem entender

para que se o vento a perdesse no caminho

os bichos e plantas

compadecidos de nosso pungente sofrer

de canto em canto

de lamento em lamento

de farfalhar em farfalhar

te levassem puras e quentes

as palavras ardentes

as palavras magoadas da minha carta

que eu queria escrever-te amor...

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas ah meu amor, eu não sei compreender

por que é, por que é, por que é, meu bem

que tu não sabes ler

e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também!

(António Jacinto. Em: Manuel Ferreira (org.). No reino de Caliban.


Lisboa: Seara Nova, 1976. p. 133-5.)
Glossário

contratado: termo que designa a pessoa contratada para ir trabalhar na monagamba, isto é, região agrícola de Angola, caracterizada pelas péssimas condições de vida e trabalho.

maboque: fruto do tamanho e da cor da laranja, cuja casca é dura;

tacula: árvore nativa de Angola, de madeira vermelha.



ITINERÁRIO DE PASÁRGADA
Saudade fina de Pasárgada...
Em Pasárgada eu saberia

onde é que Deus tinha depositado

o meu destino...
E na altura em que tudo morre...

(Cavalinhos de Nosso Senhor correm no céu;

a vizinha acalenta o choro do filho rezingão;

Tói Mulato foge a bordo de um vapor;

o comerciante tirou a menina de casa;

os mocinhos da minha rua cantam:

indo eu, indo eu

a caminho de Viseu...)

Na hora em que tudo morre,

esta saudade fina de Pasárgada

é um veneno gostoso dentro do meu coração.

(Baltazar Lopes, em

(http://cabodostrabalhos.ces.uc.pt/n1/documentos/200611_caderno_de_poesia.pdf)


ANTI-EVASÃO
Pedirei

Suplicarei

Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão

e prenderei nas mãos convulsas

ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei

Berrarei


Matarei
Não vou para Pasárgada

(Ovídio Martins, em:

(http://www.guesaerrante.com.br/2005/12/1/Pagina494.htm)



VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água.

Pra me contar histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

Lá sou amigo do rei

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada.

(http://www.culturabrasil.org/bandeira.htm)







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