Ensino Religioso e Diversidade Étnico-cultural: um olhar antropológico



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Ensino Religioso e Diversidade Étnico-cultural: um olhar antropológico
Mauro Meirelles1

Graziele Ramos Schweig2

O presente estudo tem por objetivo apresentar algumas das possíveis contribuições que a Antropologia, enquanto ciência que visa compreender a diversidade das culturas humanas, tem a oferecer aos professores de Ensino Religioso no que tange à sua prática docente na Educação Básica. Nesse sentido, enfocaremos no presente texto, o disposto na Lei 10.639, que inclui nos currículos escolares a obrigatoriedade da presença, de forma transversal, de conteúdos relacionados à História da África e à Cultura afro-brasileira. Para isto, buscaremos, a partir da Antropologia, pensar estratégias que facilitem a abordagem de temas relacionados às religiões afro-brasileiras, sobretudo no que tange a uma perspectiva histórico-cultural das várias matrizes religiosas africanas existentes no Rio Grande do Sul. Nosso objetivo reside, portanto, em fornecer subsídios que permitam qualificar a formação de professores de Ensino Religioso, ao mesmo tempo em que visa romper com visões essencialistas que reforçam preconceitos e, muitas vezes, alimentam a intolerância religiosa.



  1. Campo religioso e religiões afro-brasileiras

No Rio Grande do Sul, segundo dados do último censo realizado em 2000, temos que, do total da população, 76,7% se declararam católicos, 14,3% evangélicos, 1,8% espíritas, 1,2% afro-brasileiros, 2,2% como ligados a outras religiões e, 4,7% como sem religião. Já no que se refere às cidades de Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas observa-se um número significativamente maior de pessoas que se declaram afro-brasileiras, da mesma forma que, nas duas últimas cidades, há uma diferença de cerca de 20% no número de católicos, se comparados aos totais gerais obtidos para o Estado, como mostra a Tabela 1.



Tabela 1 – Presença religiosa no Rio Grande do Sul: recorte por cidades (%)





Porto Alegre

Pelotas

Rio Grande

Católicos

73,8

53,3

58,1

Evangélicos

9,3

18,3

9,0

Espíritas

4,3

5,8

3,2

Afro-brasileiros

2,5

3,1

6,7

Outras religiões

1,9

4,9

2,1

Sem religião

8,2

17,4

20,7

Total

100,0

100,0

100,0

Assim, temos que, no Rio Grande do Sul, cerca de 121 mil pessoas se declaram como pertencentes a religiões de matriz africana, sendo que as três cidades citadas concentram um contingente maior de afro-religiosos. Esta distribuição diferenciada de adeptos é explicada por Oro3 a partir do fato destas cidades terem sido forte pólo de concentração de negros de origem nagô, os quais, vieram para cá, trazidos pelos portugueses durante o período escravocrata.

Historicamente, observa-se que a presença das religiões afro-brasileiras no Rio Grande do Sul remonta ao início do século XIX, ocorrendo justamente nas cidades de Pelotas e Rio Grande. Deste modo, como afirma Oro4, é necessário que estejamos atentos à diversidade de matrizes que conformam a presença afro-religiosa no Rio Grande do Sul. Os escravos trazidos para o Brasil pertenciam a diferentes povos africanos, o que se reflete no modo como as religiões afro-brasileiras estão estruturadas.

Assim, podemos dividir a tradição afro-brasileira em três grupos5, quais sejam: 1) o Batuque, denominação exclusiva do Rio Grande do Sul e que é dividido em “lados” ou “nações”, as quais cultuam um total de doze Orixás6; 2) a Umbanda, fundada em Rio Grande em 1926 e que chega a Porto Alegre em 1932, a qual envolve o culto a caboclos, pretos-velhos, e crianças (Ibeji), além do “povo do oriente” e do “povo cigano”; e, 3) a Linha Cruzada, surgida nos anos 1960 e que hoje orienta cerca de 80% dos terreiros no Rio Grande do Sul. Na linha cruzada são cultuados os Orixás do Batuque, os pretos-velhos e caboclos da Umbanda, além dos exus e das pombagiras, os quais se originam da Macumba, presente no Rio de Janeiro e em São Paulo.




  1. Educação e diversidade

Como vimos no item interior, apesar de ter uma presença reduzida no Rio Grande do Sul, se comparada a outras denominações, as religiões afro-brasileiras estão em grande parte pulverizadas em centenas de terreiros, não tendo, como no caso dos protestantes e católicos, escolas confessionais. A falta de uma organização institucional faz com que seja difícil mapear o número exato de terreiros e a amplitude de sua presença no Estado. Desse modo, um trabalho de inserção do Ensino destas religiões nas escolas não se faz tão presente como, por exemplo, em Salvador, onde desde 1986 já são tratados temas relativos à história da África e cultura afro-brasileira7, como preconiza a Lei 10.639.

Apesar da existência de perspectivas secularizantes que propõem a total separação entre as “coisas do mundo” e as “coisas do outro mundo”, é impossível, pelo menos no que tange à cultura e à religião afro-brasileiras, realizar-se essa separação, visto que ambas são baseadas em cosmogonias totalizantes. Portanto, pensar na aplicabilidade da Lei, evoca necessariamente conhecimentos ulteriores da religiosidade desta etnia e a forma como estes se percebem e se colocam no mundo. É sob essa ótica que percebemos aqui a Lei 10.639, assinada em 2003, e a importância de sua incorporação na disciplina de Ensino Religioso. A Lei torna “obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-brasileira” nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, e dispõe o seguinte em seus incisos 1 e 2:
§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Grosso modo, podemos dizer então, que tal Lei é resultado de um conjunto de políticas afirmativas levadas a cabo pelo governo brasileiro, impulsionadas pelas reivindicações do Movimento Negro e de outros setores da sociedade. Nesse sentido, experiências positivas, como a de Salvador na Bahia, são alargadas para todo território nacional, a partir desta promulgação. Sendo assim, em lugar de fazermos uma digressão aprofundada do histórico das políticas de ações afirmativas, nos ocuparemos especificamente acerca da contribuição que a Antropologia pode oferecer à incorporação da Lei 10.639 nas aulas se Ensino Religioso de modo a contribuir para a valorização da religião como parte da cultura e da história afro-brasileira e, assim, dar voz à diversidade.



  1. A Perspectiva da Antropologia da Religião

Muitas são as teorias e conceitos que a Antropologia oferece para a abordagem do fenômeno religioso. Assim, apresentamos aqui algumas abordagens antropológicas que podem auxiliar professores de Ensino Religioso a tratarem da religião a partir de sua diversidade de expressões, de modo a romper com preconceitos e estereótipos e, assim, concorrer para uma incorporação dos preceitos da Lei 10. 639 às suas aulas na Educação Básica.

A primeira dessas abordagens é aquela que prima por uma visão sócio-cultural da religião. Nesse sentido, as religiões são consideradas fenômenos culturais, que envolvem representações, crenças, rituais, cosmologias, mas fundamentalmente pessoas que dão significados à tradição a partir de suas experiências vividas, cotidianas. Dessa forma, a abordagem das religiões deve se dar a partir de uma perspectiva dinâmica, levando em consideração suas diversas atualizações e apropriações feitas pelos diferentes grupos que as professam. Segundo Geertz8 há diversas expressões da “experiência religiosa”, sendo que esta nunca devem ser reduzidas à sua concepção ortodoxa.

Em todos os lugares vemos o movimento dinâmico feito pelas diversas tradições religiosas. Em um mundo globalizado isso ganha proporções ainda maiores quando pensamos na dinâmica do contato que se estabelece entre religiões “globalizadas” e religiões “locais”. Em decorrência disto, identidades são construídas a partir de diferentes teologias e diversas acabam sendo as formas com que cada religião lida com o outro. É, portanto, a partir do reconhecimento deste outro, abstrato, mas real, que o professor pode começar a criar ligações e pensar a temática das religiões a partir da Antropologia, do voltar-se ao “ponto de vista do outro”.

Outro conceito importante a ser considerado, quando pensamos o fenômeno da religião, refere-se à identidade, uma vez que as várias religiões têm papel importante na construção da identidade de muitos de seus adeptos. Segundo Roberto Cardoso de Oliveira9, a identidade de um grupo é constituía a partir do conjunto de relações que esta estabelece com os demais grupos sociais. Nesse sentido, ao tratarmos da identidade religiosa de um grupo, devemos levar em consideração o “contato” que este grupo estabelece com as demais denominações religiosas, já que é a partir da relação com o outro que ela se constitui a si mesma.

Deste modo, defende-se aqui uma concepção dinâmica da experiência religiosa, que leva em conta o contexto social e histórico em que a tradição religiosa se insere, além de uma percepção da identidade religiosa como “relacional”, ou seja, como constituída na relação com o outro. Assim, trabalhar com as religiões afro-brasileiras, na aula de Ensino Religioso, envolve uma percepção da história de lutas e perseguições que estas denominações sofreram, de modo a não abordar estas denominações como algo estático e com uma preocupação meramente ilustrativa das características que as definem. Faz-se necessário, portanto, o uso de uma abordagem contextual da religião, relacionando-a à escravidão e a conceitos como desigualdade social e preconceito, de modo a proporcionar ao aluno uma abordagem reflexiva sobre o tema.





  1. Considerações Finais

Pensar a Lei 10.639 e sua aplicabilidade ao contexto escolar não é tarefa fácil e envolve perceber a relação que as religiões afro-brasileiras estabeleceram com as demais matrizes do campo religioso brasileiro, as quais, muitas vezes foram de intolerância por parte de pentecostais, de sincretismo com católicos e de fusão com o espiritismo. Como conseqüência, pensar a Lei 10.639 é pensar nesta dinâmica, na forma como a identidade cultural e religiosa do negro é, e foi, construída. É trazer elementos que estão para além da história oficial, e envolvem esquemas simbólicos que são únicos, pertencentes a uma matriz de pensamento africana transplantada para o Brasil.



É de posse destes elementos que a Antropologia oferece aos professores de Ensino Religioso subsídios para a qualificação de sua prática docente, colocando em evidência um outro que é estranho a muitos e que, muitas vezes, desaparece ou é dissolvido nas entrelinhas dos livros que contam a história da cultura e do povo brasileiro.


1 Licenciado em Ciências Sociais (UFRGS), Mestre em Educação (PPGEDU/UFRGS), Doutorando em Antropologia Social (PPGAS/UFRGS) e pesquisador do Núcleo de Estudos da Religião – NER/UFRGS.

2 Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais (UFRGS), Mestranda em Antropologia Social (PPGAS/UFRGS) e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Religião – NER/UFRGS.

3 ORO, Ari P. “Religiões Afro-Brasileiras no Rio Grande do Sul: Passado e Presente”. In: Estudos Afro-Asiáticos, vol. 24, 2002.

4 ORO, 2002.

5 Conforme a diferenciação estabelecida por ORO, 2002.

6 Entre estas estão: Oyó, Ijexá, Jeje, Cabinda e Nagô, sendo que cada qual é diferenciada em suas crenças e na língua em que são feitos os rituais. Nem todas existem ainda hoje, dado que a nação com maior predominância é a Ijexá, com língua Ioruba.

7 Para maiores detalhes conferir o site: http://www.sec.ba.gov.br/entrevistas/entrevista5.htm#1

8 GEERTZ, Clifford. Nova Luz sobre a Antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. p. 164.

9 OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. Identidade, etnia e estrutura social. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1976.



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