Entre a cruz e o sigma: integralismo e catolicismo em Teixeira Soares-pr 1935/1938



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Entre a cruz e o sigma: integralismo e catolicismo em Teixeira Soares-PR 1935/1938

Luiz Gustavo de Oliveira (UNICENTRO)

Esta comunicação tem por objetivo relacionar o catolicismo e o integralismo1 no município de Teixeira Soares entre os anos de 1935 e 1938, período de atuação do movimento no município. O texto apresentado se divide em duas partes: na primeira abordamos sucintamente a renovação dos estudos da História Política. Na segunda analisamos as relações entre os domínios da religião e da política no município paranaense de Teixeira Soares.

Os estudos políticos passam por transformações quanto aos seus objetos. A história política no Antigo Regime da França detinha-se, segundo René Rémond, na glória do soberano e exaltação da monarquia. Após as revoluções que derrubaram várias monarquias européias, a história política mudou seu objeto para o Estado e a nação. No entanto, continuou “escrava do relato linear”, com atenção voltada para poucos personagens de prestígio. Após sua renovação pelo contato com as ciências sociais e outras áreas do conhecimento, os historiadores do político direcionaram seus olhares aos fenômenos sociais (RÉMOND, 2003, p.13-37). Atualmente, com a revalorização do sujeito nas ciências sociais, transformado em ator dos seus atos, de suas idéias, de seus gostos, apresentam-se novas formas de fazer e escrever a história política. Há um interesse pelas práticas sociais, pelas vivências, atores e suas intencionalidades: desejos, razões e sentimentos. É sob essa nova perspectiva da história política que olhamos as vivências do espaço político e público em Teixeira Soares.

Essa renovação dos objetos da História Política está ligada à legitimação de outras ciências sociais. Com o desenvolvimento da sociologia religiosa o cristão comum se tornou tão digno de interesse quanto os bispos e altas autoridades da hierarquia da igreja católica ou de outras religiões. Dessa maneira, as manifestações religiosas se tornam objetos de estudo e podem ser exploradas a partir de diferentes interesses, inclusive o político. A História Política lança mão do arcabouço teórico-metodológico da sociologia política para ampliar suas análises e objetos de estudo.

Como aponta Aline Coutrot:

A sociologia política, ao integrar as variáveis religiosas, também contribuiu grandemente para enriquecer a história do político, particularmente no que diz respeito aos fenômenos eleitorais, a tal ponto que estamos em condições de trabalhar com o médio prazo. (COUTROT, 2003, p. 333).

Nessa perspectiva, nos inspira neste estudo discutirmos algumas relações entre religião e política considerando relevante utilizar novas fontes para pesquisar o Integralismo. Utilizamos como fontes o livro tombo e o livro ata de 1935 da Igreja Imaculada Conceição de Teixeira Soares.

A partir das contribuições de outros campos disciplinares a história ampliou a força explicativa de outros domínios como o religioso. As relações entre o político e o religioso, preliminarmente não poderiam estar isoladas de questões como as propostas por Coutrot:

Em que o religioso, particularmente o cristianismo, pode interessar à história do político? O que há de comum entre a religião, que propõe a salvação no além, e a política, que rege a sorte dos homens nesta terra? À primeira vista, parece que uma diz respeito ao íntimo do ser, a outra ao coletivo. Religião e política não são da mesma natureza se não adotamos as teses marxistas e é exatamente por serem distintas que podemos nos interrogar sobre suas relações. (COUTROT, 2003, p. 334).

Em uma breve análise das relações entre estes dois campos, podemos considerar que ambos se manifestam em corpos sociais dotados de organização que difundem ensinamentos. Adentrando a proposta da pesquisa, no caráter político ela se manifestou com o movimento integralista e no religioso na instituição da Igreja Católica, liderada no contexto de Teixeira Soares pelo Padre Fidélis Rota, ou seja, ambos os corpos sociais preocupavam-se tanto com o individual quanto o coletivo. Especificamente, a igreja católica sempre emitiu julgamentos direcionados ao corpo social: advertências, interdições, tornando-se dever dos fiéis segui-las e se submeter a tais sanções morais.

Nesta linha, Alcir Lenharo em seu livro “A Sacralização da Política”, nos mostra que a situação do país na década de 30 favoreceu a aproximação das idéias de autoritarismo, fé e política. Segundo o autor, são dois os planos de auxílio que a Igreja prestou ao Estado no Brasil dos anos 30: “o primeiro, de caráter mais constitucional, significou um apoio político decisivo em momentos cruciais da década; o segundo, não menos importante, relacionou-se à função milenar e indispensável de domesticação das consciências”. (LENHARO, 1986, p. 190).



O integralismo, que tinha por lema “Deus, Pátria e Família” e ideologia anticomunista, arregimentou milhares de membros e simpatizantes por todo o país. Sua relação com a Igreja Católica naquele período é um dos temas que ganham interesse dos historiadores do movimento e nos inspiram discutir nesse texto conexões entre representantes da Igreja Católica e da Ação Integralista Brasileira em Teixeira Soares. Tais conexões se expressavam através do posicionamento não contrário da igreja local à AIB no período em que atuou na legalidade entre 1935 e 1937 e por favorecer militantes integralistas, mesmo após a implantação do Estado Novo. Em 1938 o padre Fidélis Rota defendeu integralistas acusados de conspirar contra o governo contrariando a posição oficial da Igreja Católica que apoiava o varguismo.

A pesquisa partiu de um texto do Padre Fidélis Rota, datado de maio de 1938 e intitulado: “Religião une - política divide”. Tal afirmativa suscitou novas questões, partindo das propostas por Aline Coutrot sobre as mediações entre o campo político e religioso, como: Em primeiro lugar, como a filiação a uma Igreja modela as atitudes políticas dos cristãos? Em segundo, por quais vias as forças religiosas intervêm no domínio do político a ponto de constituir uma dimensão deste? Tais questões não poderiam ser respondidas apenas se considerarmos pessoas que freqüentam aos ritos religiosos ou missas apenas uma vez por semana.

Na tentativa de responder tais questões, levamos em consideração a trajetória de alguns católicos integralistas. A tais questões poderíamos acrescentar outras mais pontuais: Em que medida a relação entre os integralistas e representantes da igreja católica contribuiu para o voto verde2 nas eleições de 1935 e para a eleição de um prefeito integralista no município? Como a presença integralista no município influenciou a posição da Igreja perante outros movimentos religiosos como a maçonaria que dividiu a população do município? Para responder a tais questões, seria necessário analisar a geografia eleitoral do voto. Sem a possibilidade prática desse aprofundamento, buscamos verificar o perfil de integralistas considerando seus capitais adquiridos no campo religioso.

Ao discutir a relação entre Igreja-Estado, vale aqui destacar a separação entre estes dois campos após a proclamação da República, em função da laicidade do Estado sob regime republicano. Antes, na monarquia, o imperador é quem nomeava bispos e interferia nas questões religiosas. O Estado republicano deixou de ter uma religião oficial, ao contrário do que ocorria no império. Mas, tanto no império como na república, havia liberdade de culto no Brasil e a igreja manteve-se em posição privilegiada na república velha. Os padres tinham importância política na medida em que apoiavam esse ou aquele coronel. Estado e igreja, se unem para benefícios mútuos. Isso se evidenciou no governo Vargas e no município de Teixeira Soares, na relação entre a família Molinari e o Padre Fidélis Rota.

Estas buscas por legitimidade perante o poder político estão ligadas a reação católica advinda da década de 20, com marco específico em 1922 com a Semana de Arte Moderna que teve uma repercussão mais urbana e restrita a algumas poucas capitais e meios literários. Nesta década houve a fundação a do PCB (1922), a Revolução de 1924 e a Coluna Prestes. O conservadorismo católico certamente via tudo isso com preocupação e a criação do Centro Dom Vital foi uma iniciativa de ação da ala conservadora da Igreja Católica que tinha na figura de Jackson Figueiredo sua autoridade. Após sua morte, assumiu a liderança, Alceu Amoroso de Lima (Tristão de Athaide). Percebemos que estas ações católicas influenciaram uma das mais expressivas vertentes3 da Ação Integralista Brasileira, a vertente de Plínio Salgado, que via na revolução de espírito e na família - célula da nação, segundo Salgado - a integração de toda a sociedade. Os integralistas utilizavam sua “imprensa verde” 4 para difusão de sua doutrina. Para esses fins fundaram vários jornais e revistas e distribuíam panfletos nos quais veiculavam mensagens comoventes e com forte apelo religioso.

A recente historiografia do integralismo no Paraná revela o quanto esse movimento político-ideológico foi atuante no estado. Esses estudos analisaram os núcleos provinciais e municipais, seus chefes e militantes e sua relação com a sociedade e incluíram o Paraná na historiografia do movimento que, entretanto, ainda é bastante restrita. Entre estes estudos destacam-se os de Carmencita de Mello Ditzel5, Niltonci Batista Chaves6 e Rafael Athaides7.

Para relacionarmos a Igreja Católica e o Integralismo em Teixeira Soares na década de 1930 nos remetemos a personagens políticos e religiosos desse período. Uma figura importante naquele contexto foi o primeiro bispo que o município de Ponta Grossa teve, Dom Antonio Mazzarotto, representante da Diocese de Ponta Grossa. E em Teixeira Soares o Padre Fidélis Rota foi o primeiro padre do município após a elevação da capela de Teixeira Soares ao estatuto de Paróquia em 1934.

Segundo Chaves:

Levando-se em consideração que cerca de 90% da população ponta-grossense na década de 1930 era composta por católicos, torna-se importante o posicionamento do Bispo de , Dom Antônio Mazzarotto, com relação ao Integralismo. Ultramontano, profundamente ligado a Roma, Dom Antônio Mazzarotto pertencia à ala conservadora da Igreja Católica e não emitiu nenhum posicionamento contrário ao Movimento Integralista, seja em matérias publicadas pela imprensa local (Diário dos Campos), ou em documentos oficiais (Cartas Pastorais). (CHAVES, 2001, p. 120).

Ponta Grossa se constituiu como um campo fértil para a difusão e aceitação de ideais como o integralismo. Percebe-se que a posição de não contrariedade do Bispo Dom Antonio Mazzarotto8 pelo período de legalidade da AIB, foi um fator significativo para o estabelecimento do integralismo no município. A Igreja católica neste contexto visceralmente anticomunista autoritária e buscando sua legitimidade contra o comunismo e outras vertentes religiosas, encontrou no integralismo um forte aliado ao combate de outras ideologias que não faziam parte das posições da instituição católica, como o comunismo e a maçonaria, grupos minoritários neste município9.

Sob esta justificativa, em uma carta enviada ao padre Fidélis Rota de Teixeira Soares, o Bispo de Ponta Grossa destacava a necessidade “de poder haver uma assistência parochial mais directa e assídua por parte dos respectivos parochos e attendendo ainda as investidas dos herejes e cismáticos em algumas dessas localidades” (Livro Tombo da Paróquia Imaculada Conceição, 1934, p. 16), que segundo o padre Fidélis, tal cisma teria dividido a população do município de Teixeira Soares. Este objetivo de ação por parte da Igreja católica elevou a capela de Teixeira Soares a estatuto de Paróquia na segunda metade do ano de 1934, tendo como primeiro pároco o padre Fidélis Rota10.

Sobre esta outra vertente religiosa que dividiu os habitantes do município temos o indício da presença da Loja Maçônica Verdade e Caridade nº 1061. Fundada em outubro de 192911 a loja atuou até meados de 1934. Entre seus participantes de maior destaque está Adélio Ramiro de Assis que se tornaria chefe municipal da Ação Integralista no município. Em âmbito nacional, o integralismo era um movimento antimaçônico como se evidencia nos jornais integralistas e obras de integrantes do movimento. Porém com estudos mais específicos percebemos que o movimento não era um bloco monolítico. A presença de Adélio Ramiro de Assis de orientação maçônica ocupando em 1935 o cargo mais alto na hierarquia municipal da AIB nos revela a heterogeneidade do movimento integralista e que fatores como a presença católica majoritária em algumas localidades não podem ser considerados como regra para a adesão a este movimento. Assim como ser maçom não era fator de impedimento para pertencer ao sigma.

O município se estabeleceu como um ponto significativo da presença do Integralismo na política e um local estratégico para pregação da doutrina do movimento, pois também tinha anexo o distrito de Fernandes Pinheiro e fazia fronteiras com outros municípios como Ponta Grossa, município pioneiro do sigma no estado do Paraná12. O núcleo de Teixeira Soares se estabeleceu oficialmente em maio de 1935. A atuação dos militantes municipais se destacava na imprensa integralista, o que deu ao município o título de “Cidade Integralista”, após a eleição em 1935 do primeiro prefeito integralista do Brasil, João Molinari Sobrinho.

Havia, segundo o jornal integralista A Razão (05/08/1935, p.4), uma importante rede de contatos políticos entre o núcleo central de Teixeira Soares, seus sub-núcleos e com outros núcleos como os de Curitiba e Ponta Grossa. As lideranças principais da AIB em Teixeira Soares eram os irmãos Adélio Ramiro de Assis e Osmar Ramiro de Assis e João Molinari Sobrinho. Os irmãos Assis eram contadores e estavam no ramo ervateiro13. João Molinari Sobrinho era juiz distrital, gerente da Serraria São Sebastião e filho de Domingos Molinari, ex-prefeito, proprietário da serraria São Sebastião e sócio da família Gubert em um banco e na Serraria Gubert – Molinari. Ambas as serrarias exportavam lenha pela ferrovia São Paulo - Rio Grande e também forneciam lenha para suas locomotivas.

João Molinari Sobrinho também era presidente da comissão da Igreja e participava ativamente das realizações da Igreja Católica do município. Molinari se candidatou pelo partido integralista nas eleições para prefeito em setembro de 1935.

A família Molinari tinha estreitas relações com o Padre Fidélis Rota e com membros da comissão da igreja católica no município. Domingos Molinari participou da comissão para a construção da igreja matriz a partir de 1926. Angelina Molinari, esposa de Domingos Molinari, participava assiduamente das reuniões religiosas. Segundo o livro tombo de 1935, foi Angelina quem doou imagens de santos e alfaias para o altar da igreja após a elevação da Paróquia Imaculada Conceição. Se essa estreita relação do Padre Fidélis com a família Molinari não pode ser considerada uma adesão ou simpatia às ideias integralistas defendidas pelos Molinari, sua posição neutra quanto ao movimento pode ser considerada ao menos favorável aos integralistas do município. Em 1938, quando já havia iniciado a repressão aos integralistas pelos agentes do Estado, o Padre Fidélis escreveu um texto favorável aos integralistas contrariando a posição oficial da Igreja católica que deu apoio ao Estado Novo e à via autoritária.

O integralismo atuou na legalidade no município de Teixeira Soares de maio de 1935 até novembro de 1937 com o início do Estado Novo. Com a suspensão de todos os partidos políticos Vargas frustrou as expectativas integralistas de eleger Plínio Salgado presidente da república nas eleições marcadas para janeiro de 1938. Durante o período de sua atuação no município os integralistas ocuparam cargos no executivo e no legislativo municipal realizando a proeza de eleger João Molinari Sobrinho como primeiro prefeito integralista do Brasil e único da região dos Campos Gerais, além de contar com praticamente toda a câmara municipal integralista. Esse contexto político local peculiar produziu vários conflitos14.

Tais conflitos se evidenciaram a partir do Estado Novo envolvendo episódios de repressão generalizada aos integralistas. O prefeito João Molinari Sobrinho foi destituído do cargo e a utilização dos uniformes, símbolos e manifestações integralistas foram proibidas.

A agitação política em Teixeira Soares levou o Padre Fidélis Rota a se posicionar:

Religião une – política divide

Gravíssimo acontecimento registrou-se no dia 13 de abril - quarta-feira santa. Em conseqüência de alguns movimentos reacionários e motins políticos contra o governo constituído, que explodiram numas cidades do País, foi enviado aqui um tenente investigador da policia, com o alvitre de inquirir sobre boatos que acusavam os ex-integralistas desta cidade como envolvidos e participantes nessas insurreições. Nada de mais falso; era efeito de animosidade política. Esse investigador, tomando atitude de déspota, foi mandando prender a todos os inscritos no partido político integralista e, depois de maltratados na sede do Município, mandava-os, sob escolta policial, na cadeia pública. Como esta não cabia a todos, muitos delles, encorporados, foram enviados em Irati, onde ficaram presos muitos dias. A patentear, porém a ineptidão dos funcionários públicos – tenente de Irati e Delegado Policial de Teixeira Soares, em levar a efeito tão delicada tarefa, bastará saber que foram exigir dois contos de reis da família Mulinari para soltar um filho della, enquanto os outros, que não puderam pagar, continuaram sendo presos para muito tempo ainda. As descomposturas, as humilhações infligidas pelo tenente a todos os integralistas e a prisão para muitos delles, provocaram alvoroço, protestos, pranto e desespero nas famílias, que espiando nos outros de diferente idea política uma mal oculta complacência, foram levada a serias ameaças de hostilidade, provocando de lado a lado um estado de rancor e até de ódio mutuo, que dividiu os habitantes em dois grupos, numeroso um, pequeno outro, com grandíssimo prejuízo da caridade cristã e da I. Religiosa; situação essa que aturou muito tempo, e que infelizmente tudo indica ir para longe ainda mais. (LIVRO TOMBO DA PARÓQUIA IMACULADA CONCEIÇÃO DE TEIXEIRA SOARES, 1935, p.22).

Este texto além de nos trazer informações sobre a repressão aos integralistas do município, nos revela também a posição de uma autoridade religiosa perante a política. Neste contexto, Vargas utilizou o rádio como instrumento de propaganda. O golpe do estado novo foi anunciado ao povo pelo rádio. Tais informações circulavam pelo tecido social, filtradas pela ótica do governo. Nesse aspecto, Rota como a maioria das pessoas conhecia a versão do governo sobre os movimentos contrários. Refere-se em tom irônico aos representantes do governo de Vargas com os termos “déspotas” constatando excessos na conduta destes representantes, entre eles o delegado municipal e o tenente de polícia. Segundo o Padre, tal justificativa para a prisão dos integralistas no município foi facilmente explicada após saberem que exigiram dinheiro para soltar João Molinari Sobrinho da cadeia, enquanto outros continuaram presos.

O tom crítico do padre ao relatar esse episódio se articula à divisão gerada entre os habitantes da cidade em parte integralistas, em parte governistas. Para Rota essa situação teria gerado prejuízos à caridade cristã e da igreja.

Observamos que a estreita relação entre o Padre Fidélis e integralistas do município, especialmente a família Molinari, criou um ambiente favorável ao estabelecimento do integralismo no município, que poderia ser considerado um aliado contra a maçonaria e outras ideias divergentes da igreja católica local após a implantação da Paróquia em 1934.

Por outro lado, percebemos que o integralismo no município não se constituiu como um bloco monolítico em função da presença de um maçom enquanto chefe municipal do núcleo da AIB15. A autoridade de Adélio Ramiro de Assis como chefe municipal poderia significar para o integralismo uma estratégia de coesão da população que estava dividida entre distintas orientações religiosas. Esse fato pode revelar a possibilidade de uma vertente laica dentro do próprio movimento integralista, associado, quase que automaticamente, ao catolicismo.

A utilização do poder simbólico enquanto autoridade religiosa católica pelo padre Fidélis Rota e a utilização do poder econômico por parte de alguns integralistas como João Molinari Sobrinho, foram aspectos decisivos para o fortalecimento de ambos os grupos no município. A relação integralismo-catolicismo em Teixeira Soares constituiu uma via de mão dupla, na qual buscavam se fortalecer no campo político e religioso naqueles agitados anos da década de 1930.



Notas

1 Compreende-se neste texto integralismo como o movimento político-ideológico da Ação Integralista Brasileira (AIB), formalmente constituída a partir do manifesto de outubro de 1932. O movimento atuou nacionalmente na legalidade até o início do Estado Novo, em novembro de 1937.

2 O termo “verde” refere-se ao movimento integralista que adotou esta cor para seu uniforme, elemento ritualístico pelos quais se identificavam. A camisa-verde, a gravata preta, calça preta e a braçadeira com o sigma completavam o “uniforme” integralista.

3 Sobre as raízes do movimento da AIB, doutrina integralista e as vertentes de Plínio Salgado, Miguel Reale e Gustavo Barroso, ver: SOUZA, Francisco Martins de. O Integralismo. In: BARRETO, Vicente; PAIM, Antonio (Org). Evolução do Pensamento Político Brasileiro. São Paulo: EDUSP, 1989. p. 313-343.

4 Entre os jornais de mais destaque estão: A Offensiva do Rio de Janeiro, A Razão de Curitiba, a Revista Anauê de São Paulo. Entre outros percebemos jornais locais de propriedade de integralistas.

5 DITZEL, C. de H. Mello. Imaginários e representações: o Integralismo dos Campos Gerais (1932-1955). Ponta Grossa: Editora UEPG, 2007.

6 CHAVES, Niltonci B. A cidade civilizada: discursos e representações sociais no jornal Diário dos Campos na década de 1930. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2001.

7 ATHAIDES, Rafael. A instalação da província paranaense da AIB: do “início esquecido” à fundação oficial (1932-1934). Em Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.

8 Sobre o bispo Dom Antonio Mazzarotto de Ponta Grossa, ver: ZULIAN, Rosangela Wosiack. Entre o aggiornamento e a solidão: práticas discursivas de D. Antonio Mazzarotto, primeiro bispo diocesano de Ponta Grossa – PR (1930-1965), 2009. 429 f. Tese (Doutorado em História) Universidade Federal de Santa Catarina, Santa Catarina.

9 Sobre o comunismo, integralismo e maçonaria em Ponta Grossa, ver: CHAVES, Niltonci B. A cidade civilizada: discursos e representações sociais no jornal Diário dos Campos na década de 1930. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2001, p. 95-148.

10 O padre Fidélis Rota era de origem italiana, participou da primeira guerra, em decorrência desta perdeu sua família. Após a Primeira Guerra se tornou padre e imigrou para o Brasil.


11 Participaram da Loja Verdade e Caridade nº 1.061, neste período: Adelio Ramiro de Assis, Alberto Foggiato, Amadeu Fernandes Duarte, Benjamin Wood, Carlos Justus, Deocleciano Gomes de Miranda, Deolindo Augusto Teixeira Pinto, Elesbão Rodrigues dos Santos, Ernesto Budzinsky, Eurico Muller, Francisco Borges Filho, Francisco Ogg, Henrique Vergés, João Christiano dos Santos, José Augusto Gumy, Luiz da Costa Schmidt, Nilo Benford Wood, Olympio Odorico da Silva, Oswaldo Pereira Silva, Plinio da Cunha Teixeira, Rodrigo Pinto Sobrinho, Rodrigo Teixeira Pinto, Tertuliano Carvalho de Oliveira, Walter Webscki. Informações sobre as Lojas Maçônicas de Teixeira Soares e outros municípios do Paraná ver: http://www.museumaconicoparanaense.com/MMPRaiz/LojaPRate1973/1061_Hist_Loja.htm

12 Rafael Athaides em seu trabalho A instalação da província paranaense da AIB: Do “início esquecido” à fundação oficial (1932-1934) nos alerta para o silêncio dos jornais integralistas sobre a instalação da província da AIB no Paraná. Os jornais integralistas mostram que Curitiba foi a primeira província da AIB neste Estado a partir de 1934. Athaides nos atenta para o trabalho de Niltonci Batista Chaves sobre o Integralismo nos Campos Gerais, em que o jornal Diário dos Campos revela que nos fins de 1932 já havia se estabelecido o primeiro núcleo integralista do Paraná com Brasil Pinheiro Machado de Chefe.

13 Pelas atas da Câmara Municipal não encontramos a participação política desta família antes de 1930. Percebemos a união e participação da família Assis na política, a partir da instalação do núcleo integralista no município.

14 Sobre conflitos entre os integralistas e getulistas no município: OLIVEIRA, L. G. Getulistas e Integralistas: Conflitos no Município de Teixeira Soares (1933-1938). In: Semana de História - Irati - UNICENTRO – PR; VIII Semana de História; I Encontro Regional dos Estudantes de História; Fórum sobre Documentação e Memória, 2012.

15 No município paranaense de Guarapuava o chefe do núcleo municipal da AIB também era maçom, David Moscalesque, que foi assassinado em 1938, momento que a repressão aos integralistas, inclusive violentas, iniciou.

Referências

ATHAIDES, Rafael. A instalação da província paranaense da AIB: Do “início esquecido” à fundação oficial (1932-1934). In: ANAIS DO XXVI SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – ANPUH. São Paulo, 2011. Disponível em: <http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1312814552_ARQUIVO_RafaelAthaides-textocompleto.pdf>. Acesso em: maio 2013.

ATHAIDES, Rafael. As paixões pelo sigma: afetividades políticas e fascismos. 2012. 304 f. Tese (Doutorado em História) Universidade Federal do Paraná, Paraná.

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. São Paulo: Bertrand Brasil, 1998.

CHAVES, Niltonci B. A cidade civilizada: discursos e representações sociais no jornal Diário dos Campos na década de 1930. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2001.

COUTROT, Aline. Religião e política. In.: REMOND, René (Org). Por uma História Política. 2ª ed. Rio de Janeiro: FGV, 2003, p. 331-363.

DITZEL, Carmencita de H. Mello. Imaginários e representações: o Integralismo dos Campos Gerais (1932-1955). 2004. 305 f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Santa Catarina, Santa Catarina.

LENHARO, A. Sacralização da política. Campinas: Papirus, 1986.

RÉMOND, René. Uma história presente. In: ______ (org.). Por uma história política. Rio Janeiro: Ed. UFRJ, Fundação Getúlio Vargas, 1996. p. 13-37.

SOUZA, Francisco Martins de. O Integralismo. In: BARRETO, Vicente; PAIM, Antonio (Org). Evolução do Pensamento Político Brasileiro. São Paulo: EDUSP, 1989. p. 313-343.




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