Entre fátima e o abismo consideraçÕes e fatos sobre o segredo que desafia o pontificado e assombra a cristandade



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A. DANIELE

ENTRE FÁTIMA E O ABISMO
CONSIDERAÇÕES E FATOS SOBRE O SEGREDO QUE DESAFIA O PONTIFICADO E ASSOMBRA A CRISTANDADE


Capa: reprodução de “A parábola dos cegos” (Bruegel), retratando um mundo em que os cegos são guiados por outros cegos


Edições

EXCELSIOR

São Paulo

© A. Daniele

ISBN 85-85005-71-1

EDIÇÕES EXCELSIOR

Divisão da

T.A. QUEIROZ, EDITOR, LTDA.

Rua Joaquim Floriano, 733 – 9º

04534 São Paulo, SP

1988

Impresso no Brasil


“Isto não diz respeito ao meu tempo.” (João XXIII, ao arquivar o segredo em 1959).
“A Igreja se sente interpelada por essa mensagem.” (João Paulo II, na homilia de 13 de maio de 1982)
“Fátima é o grito lancinante de uma Mãe que vê seus

filhos à beira de um abismo insondável.”

(Cardeal Cerejeira, no Congresso Mariano de Madri,

em maio de 1948)

E o quinto anjo tocou a trombeta;

E vi uma estrela cair do céu sobre a Terra.

E foi-lhe dada a chave do poço do abismo.

E abriu o poço do abismo...

(Apocalipse 9,1)


“... nada há oculto que não se venha a descobrir,

nem segredo que não se venha a saber.”

(Nosso Senhor, em Mt., 10, 26; Mc, 4,22; Lc, 12,2)

“Removidos os limites que contêm no caminho da verdade os homens, que pela sua natureza propensa ao mal já estão atraídos ao precipício, podemos dizer que em verdade foi aberto o poço do abismo, do qual São João viu sair um tal fumo que obscureceu o sol, saindo dele incontáveis gafanhotos para devastar a terra.”

Da encíclica Mirari Vos do papa Gregório XVI, contra: “O delírio do indiferentismo religioso ... pelo qual em qualquer profissão de fé pode a alma conseguir a salvação eterna, conformando-se ao que é justo e honesto”; “O erro venenosíssimo de que se deva admitir e garantir a cada um a liberdade de opinar, a liberdade de consciência, diante da religião...” Trata-se do conceito moderno de liberdade religiosa e direitos humanos, sancionado pelo Concílio Vaticano II e apregoado na Igreja desde então.

Agradecimentos póstumos a


Dom Francesco Putti, Pe. Alessio U. Floridi S.J., Hamish Fraser.

Aos preclaros amigos, pela preciosa colaboração:

Prof. José Benedito Pacheco Salles,

Prof. Hélio Drago Romano,

Prof. Daniel Brilhante de Brito,

Editor José G.M. Orsini.



edições EXCELSIOR

Outro livro para lembrar o extraordinário evento de Fátima?

Isto já seria bastante oportuno neste 71.º aniversário da aparição cuja mensagem de 1917 profetizou a revolução russa e as guerras, perseguições e males que se sucederiam neste século. Mas o alcance dessa mensagem confiada à Igreja e declarada por João Paulo II “sempre mais atual e urgente”, justamente no que tange aos perigos crescentes e aos males extremos da hora presente, continua ignorado e secreto.

O livro focaliza essa oposição velada à mensagem de Fátima que, embora reconhecida pela Igreja como sinal divino e confirmada em suas profecias históricas, é marginalizada. Isto marca uma transformação eclesial sem precedentes.

Que novo espírito pastoral pode opor-se à doutrina católica que sempre ensinou que na origem de toda discórdia, revolução e guerra estão os pecados dos homens e sua volúpia de poder, de posse e de prazer? Que religiosidade autêntica nega que o antídoto dessas insanas e destruidoras seduções é o espírito de modéstia, renúncia e sacrifício, temperados pela devoção e amor a Deus e ao próximo? Este é o cerne da mensagem de Fátima, que para a salvação e a paz pede orações e penitências, identificando-se com a mensagem evangélica. Opor-se a uma é opor-se a outra. Por isso Fátima é agora sinal de contradição, pedra de tropeço no interior da própria Igreja e, assim, espelho de ocultas mutações religiosas. O autor demonstra que planos velados de aggiornamenti e aberturas para o mundo transparecem do ocultamento da mensagem que deveria deixar de ser secreta para tornar-se pública já em 1960.

Um mundo cada vez mais irreligioso e imerso em ideologias materialistas rejeita profecias. Se eclesiásticos também as rejeitam é porque eles estão imersos nesses mesmos erros.

As análises, críticas, denúncias e relatos abalizados contidos nesta obra demonstram cabalmente essa poluição doutrinal: a decadência moral e devastação litúrgica da Igreja conciliar que parece indiferente à geral apostasia e degeneração dos povos.

Essa débâcle religiosa que atinge o próprio âmago da Igreja imobiliza sua ação salvadora e tudo parece comprometer. A mensagem de Fátima é a profecia destes tempos tenebrosos. Mesmo escondida deixa um lume de esperança. Esperança no triunfo do bem, da verdade e do amor, triunfo do materno e imaculado Coração de Maria que, acolhido pelas almas, afugentará as trevas de morte e desespero estabelecendo por fim a paz.

Fecho histórico impossível para o espírito moderno?

A continuidade, dimensão e alcance histórico da infidelidade terrestre e da misericórdia celeste aqui relatados, são convite bastante para aprofundar a leitura da profecia de Fátima, chave do maior evento espiritual desde os tempos apostólicos.


Uma palavra sobre o AUTOR
A singularidade do autor deste trabalho está no fato de não ser, A. Daniele, nem estudioso diplomado nem escritor tarimbado, mas comandante de aviação.

Nascido em São Paulo em 13 de maio de 1934, ao meio-dia de um domingo de sol, como quando se deu a aparição de Fátima, estudou no tradicional Colégio São Luís dos Jesuítas. Entre os estudos de física e a aviação civil acabou optando, por motivos contingentes, por esta carreira que o conduziu desde muito jovem pelos céus do Brasil e do mundo. Mas o piloto, absorvido pelo progresso tecnológico que sua profissão exigia e os contactos mundanos que o vagar pelo mundo propicia, foi-se distanciando das questões espirituais de sempre.

No embate com a dura realidade da vida e da morte, já pai de família, sentiu-se chamado de volta à Igreja da sua juventude. Nela, porém, encontrou um porto assolado, como a vinha devastada de que falam os profetas. Diante das dificuldades de uma aproximação segura, vislumbrou, apesar das nuvens escuras dos enganos e dos impetuosos ventos contrários, o luminoso espaço de Fátima.

Eis a rota que vem percorrendo desde então, perscrutando e divulgando o conhecimento dessa inestimável mensagem de paz e salvação que tem sido misteriosamente ocultada. Isto ele tem feito multiplicando escritos e palestras, nova missão de seus vôos pelo mundo.




SUMÁRIO

Apresentação (dom Antônio de Castro Mayer)................................................ XI

Introdução: a profecia de Maria nos últimos tempos; a profecia

para o nosso século........................................................................................... XIII

índice cronológico essencial dos eventos de Fátima........................................ XXXVII
PARTE I

O SINAL DE CONTRADIÇÃO DO SÉCULO XX (1917-1958)
Quando o papa pediu, Nossa Senhora atendeu.............. 3

Os avisos e as promessas da mensagem de Fátima.......... 5

Bento XV e a resposta de Fátima......................... 8

O aggiornamento de Bento XV............................ 12

Os pedidos da mensagem de Fátima....................... 18

Cristo Rei no reinado de Pio XI........................ 21

A luta de Pio XI contra os erros da Rússia............. 25

“O papa fará a consagração, mas será tarde”............ 29

A devoção católica na França antiga.................... 32

Luis XIV perante a história e um pedido................ 33

“Homem de pouca fé, por que duvidaste?”................ 34

Papas e reis diante de sinais celestes................. 36

Pio XII, chamado o papa de Fátima...................... 40

A Áustria católica recorre a Fátima.................... 43

O discurso cristão sobre a história, de Bossuet........ 45

Projeto para um mundo melhor.......................... 47

“Um acordo entre Montini e Stalin”.................... 51

A tristeza de Nossa Senhora........................... 56



PARTE II

O ESPÍRITO DA IGREJA CONCILIAR (1958-1978)
As duas cidades: de Deus e dos homens (Santo Agostinho). 64

João XXIII e o segredo de Fátima........................ 64

Censura a um segredo apocalíptico?...................... 68

Segredo do papa ou mistério do pontificado?............. 70

A inspiração de João XXIII.............................. 73

O concílio inspirado ao papa João....................... 75

O modernismo antimariano do concílio.................... 78

O esquema especial de Maria Santíssima reprovado........ 80

O ato de consagração eludido............................ 82

O inferno esquecido pela pastoral conciliar............. 83

O espírito conciliar estende a mão ao comunismo......... 84

Paulo VI proclama na ONU sua liberdade religiosa........ 87

Cardeais denunciam a nova missa......................... 89

Queixa ao santo padre de 1972........................... 91

Fátima profanada........................................ 93

Carta de d. Antônio de Castro Mayer a Paulo VI (jan. 74) 98

Três estudos — Três previsões verificadas............... 102

Declaração de Monsenhor Marcel Lefebvre (nov .74)....... 106

A continuidade na autodemolição da Igreja............... 107

A morte de Paulo VI..................................... 109

O sucessor dos papas João e Paulo....................... 110

Foi João Paulo I envenenado?............................ 111


PARTE III

CUIDAI QUE NINGUÉM VOS SEDUZA (O tempo está próximo)
Carta ao papa João Paulo II (nov. 78)................... 120

Fátima, 62 anos depois: carta a Sua Santidade (maio 79). 122

O resumo apócrifo do “terceiro segredo”................. 123

Segredo de La Salette ou de Fátima?..................... 125

Fatos acerca do segredo de La Salette................... 127

Carta a Sua Santidade (nov. 80)......................... 131

João Paulo II diante do aborto.......................... 134

A resistência católica ao aborto legalizado............. 135

Treze de maio - 1917 e 1981............................. 138

João Paulo II fala do terceiro segredo.................. 140

João Paulo II responde sobre Fátima..................... 143

A visão conciliar de João Paulo II...................... 145

Foi o pedido de consagração satisfeito?................. 147

O papa tem deveres para com Fátima?..................... 151

Conversão ou reconciliação entre homens?................ 154

O sínodo conciliar de 1983.............................. 158

É possível reparar um erro sem denunciá-lo?............. 160

Novos cristãos e novas doutrinas........................ 163

Carta aberta ao papa — Manifesto episcopal (nov. 83).... 165

A consagração do dia 25 de março de 1984................ 168

Quanta vergonha! ....................................... 171

Nova etapa ecumênica irreversível....................... 174

As perseguições à Igreja e ao santo padre............... 176

Conservar sempre o “dogma da fé”........................ 178

A infalibilidade na fé lembrada por Gustavo Corção...... 182

O cardeal Ratzinger fala sobre o terceiro segredo....... 185

Não há segredo que não seja descoberto.................. 188

O impasse de tempos finais.............................. 191

O sínodo de 1985 recicla o concílio..................... 194

Carta dos dois bispos ao papa para o sínodo............. 198

A ruptura abissal de Assis.............................. 201

“Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”............ 201



Obras citadas........................................... 213

APRESENTAÇÃO
Pio XII foi chamado papa de Fátima porque foi sagrado bispo precisamente no dia 13 de maio de 1917, data em que a Virgem Santíssima visitou seus filhos da Terra, aparecendo a três pastorzinhos em Fátima, Portugal, e consignando-lhes salutar mensagem de paz.

O título atribuído a Pio XII está a indicar que Fátima e sua mensagem não são um fato particular, que visaria apenas os três videntes da Cova da Iria. Fátima alcança todos os homens. Pertence à história da Igreja. É elemento que interessa à salvação de todos os homens.

Não é uma revelação pública. A revelação pública, com efeito, impõe o ato de fé, sob pena de pecado grave; e terminou com a morte do último apóstolo.

No entanto, com o encerramento da revelação pública, não ficaram os fiéis privados da graça de revelações que os auxiliassem a viver sempre mais fielmente como cristãos e a melhor cuidarem de sua salvação eterna. Tais revelações são ditas privadas, embora sujeitas ao controle da Santa Igreja.

Entre elas há muitas que interessam, de modo geral, a toda a Igreja, a todos os fiéis. Exemplo palpitante são as revelações de Jesus Cristo a Santa Margarida Maria Alacoque, às quais está vinculada a difusão, altamente santificante, da devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

Revelações como esta a Santa Margarida Maria não são públicas no sentido clássico. Mas também não podem ser chamadas meramente privadas, como se colimassem o bem tão-só da pessoa, ou das pessoas que a receberam. Elas têm caráter universal, como atesta o exemplo citado das revelações a Santa Margaria Maria.

Entre estas estão, sem dúvida, as aparições e mensagem de Fátima. Poderíamos, mesmo, dizer que a mensagem de Fátima é a revelação ou profecia universal da nossa época, para indicar a amplitude de seu alcance. Marginalizando Fátima, afasta-se o fator da paz legado aos filhos pela Medianeira de todas as graças.

Eis que, sobre ela, há toda uma literatura e não poucos documentos papais. Não é só. Pois, à medida que correm os anos e se agravam no mundo as desordens de toda espécie, o silêncio, que acoberta a revelação do Terceiro Segredo confiado aos três videntes de Fátima, e que, de si, já deveria ter sido rompido, sublinha sempre mais o alcance e valor inestimável dessa graça que, com as aparições e mensagem de Fátima, a misericórdia de Deus concedeu à Igreja e aos homens.

Com o fim de auxiliar a apreciação dos eventos de Fátima, o sr. Daniele, apreciado colaborador de revistas altamente qualificadas, torna públicos os seus estudos sobre as vicissitudes que vêm acompanhando [XI]1 a revelação e o significado do último segredo de Fátima. Trabalho sério, altamente recomendável por si mesmo e mais ainda pelo assunto que versa.
+ ANTÔNIO DE CASTRO MAYER BISPO
INTRODUÇÃO
A PROFECIA DE MARIA NOS ÚLTIMOS TEMPOS

Em todas as épocas e lugares os homens receberam sinais sobrenaturais para serem guiados pelos labirintos da vida. A Sagrada Escritura é a história destes sinais que foram dados a todos, aos judeus como aos ninivitas, aos reis como aos escravos, numa seqüência secular que, de monte em monte e de profeta em profeta, conduziu até o sinal supremo: o Verbo Encarnado.

O sinal de Belém foi visto pelos sábios reis de países remotos como pelos pastores simplórios das cercanias. Os sinais do Céu são dados para serem entendidos e guiar todo homem de boa vontade. Se antes do Advento serviram para anunciar o Salvador, depois continuaram para confirmá-Lo nos séculos como o Senhor da História. Para este testemunho perene Jesus Cristo instituiu Sua Igreja, a fim que os falsos sinais e profetas do mundo não prevalecessem.

Deter-se, pois, a perscrutar os sinais dos tempos em que vivemos não é passatempo ocioso nem curiosidade gratuita, mas cuidado inalienável para a vida espiritural e social de cada um. É vigilância sobre o que pode ameaçar nosso tempo terreno, momento em que fica decidido nosso destino eterno. “Sabeis distinguir o aspecto do céu e não reconheceis os sinais dos tempos?” (Mt. 16,4)

Devemos, pois, perscrutar esses sinais, mas como reconhecê-los?

Antes de tudo porque vêm na linguagem do Evangelho, não do mundo. Depois, porque são um claro reforço para a nossa débil fé, esperança e caridade, não para nossas ilusões e emoções mundanas. Mas sobretudo porque são dirigidos à Igreja que os reconhece, justamente pela oposição às tramóias terrenas e, portanto, pelo reflexo dos desígnios divinos para extirpar estas.

São sinais de contradição que antepõem o sobrenatural ao naturalismo mundano, a palavra divina aos projetos humanos, a intervenção da Providência às táticas e compromissos dos potentes. Aqui veremos como tudo isto resplende no grande sinal de Fátima.

Um católico não pode ter outra referência para entender um sinal sobrenatural senão a Igreja e o papa. Deus, que dá os sinais, antes deu Sua Palavra e instituiu Sua Igreja. Tudo foi dado para a fé. Esta é a referência de tudo que vem de Deus, e para a qual existem também a Igreja e o papa.

Um sinal extraordinário de fé justifica-se para confirmá-la nos fiéis, ou reforçá-la nos tíbios, solicitá-la nos incrédulos, ou, então, interpelar sobre a fé os seus guardiães negligentes. Assim como é certo que um sinal autêntico do Céu é submetido à Igreja e ao seu chefe terreno, também é certo que um sinal de fé tem por objetivo amparar a fé dos homens e também do papa. [XIII]

Essa graça a Igreja conheceu no extraordinário evento de Fátima. Nas aparições de Nossa Senhora a três pastorzinhos em 1917, Deus deu aos homens e às sociedades um claro e eficaz sinal da Sua Vontade e desígnios de graça e misericórdia para o nosso século convulso. Também os fatos transcorridos desde então e profetizados na mensagem registrada pela pastora Lúcia, confirmam a origem deste evento portentoso e as razões por que foi necessário: a crise da Fé na Igreja.

A Sabedoria dá sinais proporcionais à gravidade do perigo.

Para aprofundar estas razões seguirei neste trabalho as seguintes considerações lógicas inerentes ao próprio evento e relativa mensagem, que se confirmam e completam como um sinal único:

— O evento apresentou-se, desde o início, como um grande aviso cujos termos da mensagem dada aos pastorzinhos eram válidos desde 1917, salvo a parte reservada para ser conhecida em 1960. Os fatos históricos confirmaram isto, no que tange aos “erros espalhados pela Rússia” e suas implicações fora e dentro da Igreja.

— Pela natureza mesma da intervenção sobrenatural e pelas palavras da mensagem, fica claro que atender o pedido-ajuda de Nossa Senhora de Fátima não só é necessário como consiste na única saída para os problemas de nossa época: “Se atenderem a Meus pedidos a Rússia se converterá e terão paz; se não espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja...” Não há alternativa.

— Palavras tão graves demandavam para a fé tremulante dos homens atuais um aval proporcional à entidade dos perigos profetizados. Este sinal no sinal foi previamente anunciado desde a terceira aparição e seguidamente até o majestoso, mas também terrificante, Milagre do Sol, de 13 de outubro de 1917, “para que todos pudessem acreditar”.

Em síntese: em 1917 a Igreja militante recebeu um sinal visível de dimensões incomparáveis e únicas na História, para ser avisada do grande perigo que pendia sobre os povos da Terra e dispor dos meios eficazes para enfrentá-lo com a força da fé. Não há dificuldade em identificar o perigo objetivo na revolução bolchevique russa, pela data, 1917, em que se impôs esse programa de ateísmo militante. Para enfrentar esse mal, convertendo a Rússia e salvando muitas almas, não eram propostos meios impossíveis ou insuportáveis, mas devoções normais para a Igreja. Todavia, o evento de Fátima foi hostilizado e sua mensagem censurada, desprezada e reduzida, até hoje. Por quê? Esse fato não pode revelar uma situação de declínio da fé na Igreja? Não pode ser um aviso implícito no aviso explícito? Não ensinou Jesus que sem Ele nada podemos? E que quem não recolhe com Ele, dispersa? A Igreja reconheceu a autenticidade do sinal que representa claramente os desígnios de Deus em favor dos homens. Por que não foram atendidos?

Às considerações lógicas inerentes ao evento de Fátima, acima expostas, será preciso acrescentar o fato implícito das graves e crescentes dificuldades na fé da Igreja, a espantosa crise da Igreja no século XX. [XIV]

Neste trabalho isto será visto cronologicamente conforme as datas que, representando a Vontade divina, não podem ser casuais. Deve-se, pois, começar pela causa próxima das aparições de 1917, o pedido de intercessão feito universalmente pelo papa Bento XV à Rainha da Paz, cuja resposta não foi reconhecida na época e permanece esquecida.

Segue a desconfiança misturada à indiferença em procurar reconhecer um sinal de autenticidade previsto para 13 de outubro de 1917, já desde a terceira aparição, de 13 de julho: “farei um milagre que todos hão de ver para acreditar”. Os fiéis e especialmente os padres podem não aceitar sinais sobrenaturais não comprovados, mas recusar as provas do que possa vir de Deus é mau indício.

O interesse pelo conteúdo da mensagem contida nas aparições que culminaram com o “milagre do sol” é mais que natural para quem tem fé. A prudência na aceitação desta pela Igreja é certamente necessária, mas ordenada ao reconhecimento da verdade, não ao seu ocultamente

O aval histórico ao conteúdo da mensagem foi dado nestes quase 70 anos de guerras, revoluções, fornes e perseguições à Igreja e ao santo padre, conseqüências de erros espalhados pela Rússia, como já dizia a mensagem em 1917. O aval implícito do declínio e desvio da fé dentro da Igreja é o que acho urgente considerar.

Na verdade, o fato de que desde 1917 na Igreja militante se tenha evitado reconhecer e atender devidamente um sinal da divina Vontade é, mais que um indício da moderna crise de fé, uma razão fundamental para explicar por que o sinal foi dado e por que não foi bem aceito. Mais: para explicar que passou a predominar na Igreja uma vontade diversa representada pelo “espírito do Concílio”, que não pode tolerar que se anunciem crises quando se proclamam novos Pentecostes.

Hoje, pretende-se negar na Igreja que o segredo fale da sua crise. Essa negação de uma evidência já é uma assustadora confirmação da crise, senão pela incapacidade de reconhecer a realidade atual da Igreja, pelo descaso em defendê-la, ou pior, pela intenção de mudá-la. Nisto o evento de Fátima coloca-se como uma “pedra de tropeço”.

Para considerar essa crise de maneira sintética, aqui dirigiremos a atenção para quem ocupa a cátedra de São Pedro. Veremos as atitudes, as palavras e as ações do papa, de 1917 até hoje, em relação a Fátima, que é um sinal de referência oferecido pelo Céu para iluminar os homens, como foi reconhecido pelos próprios papas.

Vivemos hoje impregnados de naturalismo e por isto, juntamente com a visão da fé, perde-se o senso cristão da História e os católicos chegam a esquecer que sua religião é a história mesma da intervenção de Deus no mundo pela encarnação do Seu Verbo. Esquecer este fato central da História pode afetar também a vida pessoal e social, que se esvazia de sentido. E isto especialmente na vida da Igreja.

Se for obliterada na Igreja a prioridade do reino de Deus e sua justiça e abalada a idéia de Cristo, Rei da História, que detém todo o po-[xv]-der no Céu e na Terra (Mt. 28,18), tudo na Igreja perde sentido a começar da suprema reverência ao papa, Seu vigário, e aos bispos, Seus apóstolos. A majestade que reveste a cátedra papal não representa decerto um primado fraternal, uma cidadania honorária, mas a realeza de Cristo, Senhor da História.

O evento de Fátima veio iluminar o sentido cristão da História. Como explica dom Guéranger: “O destino humano é sobrenatural; disto se deduz que uma história que não se inspira nas fontes sobrenaturais não é história verídica, por mais cristãs que possam ser as convicções de quem a escreve.”

Pela mensagem de Fátima fomos lembrados de que as múltiplas guerras do mundo são conseqüência de uma causa essencial: a rebelião e as ofensas à lei de Deus. Eis que a única verdadeira guerra é feita pelos homens e pelos povos contra Cristo e Sua Igreja. Sendo Ele a via, a verdade e a vida, e Sua Igreja a vitória sobre o mundo, também a única verdadeira derrota dos homens e povos consiste em perdê-Lo. Que desgraça, se os próprios cristãos se esquecerem disto!

Infelizmente, estas verdades tornaram-se hoje incompreensíveis porque foram obscurecidas na própria Igreja. O comportamento de seus chefes diante do sinal de Fátima está a demonstrá-lo. Este, lembrando o ensinamento de sempre, os interpela tacitamente. O reino de Cristo não é imposto, mas deve ser invocado antes de todos pelo papa. Nele todas as vitórias são possíveis. Sem ele, domina o que se lhe opõe, porque visto que as idéias regem a vida social, o recuo da idéia cristã permite o avanço de todos os erros.

Vejamos então as contraposições de nossa época, para localizarmos melhor a de nossos dias. Ao sobrenatural opôs-se o naturalismo do mundo com os seus racionalismos, materialismos e, dentro da Igreja, modernismos e progressismos. Estes levam às indiferenças e compromissos que se opõem à Providência, privilegiando projetos humanos em detrimento dos sinais da Vontade divina de que é intérprete a Igreja,

Disto deduzimos que a contraposição mais insidiosa e nefasta estaria dentro da própria Igreja, quando um modernismo ativo imporia um projeto de aspecto eclesial aberto a todas as indiferenças religiosas, ecumenismos doutrinais e compromissos libertários. Isto aconteceu no Concílio Vaticano II que, como veremos, opõe-se — não, certamente, de modo frontal, mas entranhadamente — a Fátima. Isto eu irei mostrar.

O cardeal patriarca de Lisboa, Antônio Ribeiro, na Assembléia do Episcopado português realizado em Fátima, em maio de 1972, disse: “Pelos silêncios, negações, pelas hostilidades levadas a cabo contra Fátima, a nossa peregrinação de hoje deseja ser também um ato de desagravo.” Nessa mesma homília para apontar a razão do “furor anti-mariano” que seguiu o Concílio Vaticano II, é citada a frase de K. Rahner: “As ideologias não precisam de mãe”. [XVI]

Ora, como toda verdade cristã é sinal de contradição com o mundo, diante da hostilidade à mensagem de Fátima e dos aplausos festivos ao Vaticano II por parte dos inimigos declarados da Igreja, podemos aquilatar o alcance dessa contraposição. Assim foi com Jesus. Poderia ser Nossa Senhora melhor recebida, hoje, pelos grandes da Terra do que o foi seu Filho na Judéia pelos sumos sacerdotes?

A chave de leitura do evento de Fátima está sempre na Igreja, mas como depois de tanto tempo ainda não foi revelada toda a sua mensagem nem atendidos seus pedidos, para o bem das almas e da Igreja, é necessário ver a razão disto, que não é devida à oposição externa. Diante disto não é possível continuar mencionando vagamente Fátima sem enfrentar as conclusões a que inevitavelmente leva.

Afinal, por que foi necessário um sinal extraordinário para lembrar o que deveria ser ensinamento ordinário da Igreja sobre a paz? Estava este esquecido ou em vias de ser alterado pelos pastores? É claro que assim sendo a hostilidade a Fátima é a mesma que existe de modo velado contra a própria Doutrina. Esta é bastante clara para sustentar-se por si mesma na mente de qualquer fiel. Igualmente, a mensagem de Fátima, enquanto a repete. Eis, então, que a oposição a esta vai refletir o lastimável estado de fé de muitos pastores.

Por exemplo: contestar a mensagem dada depois da visão do inferno pelos pastorzinhos. Como o castigo eterno é uma verdade doutrinal, o problema do contestador é antes descrer no Inferno do que em Fátima.

Para aduzir outro exemplo: a mensagem de 1917, vésperas da revolução soviética, fala dos erros que a Rússia espalhará pelo mundo, isto é, o comunismo e o ateísmo militantes. Este enorme perigo já fora advertido pela Igreja antes de 17. Portanto, quando emergiram, virulentos, os hierarcas da Igreja poderiam ignorar a mensagem de Fátima, mas não o imenso perigo. Sobre este deveriam pronunciar-se de modo veemente mas ordinário, como em Fátima aconteceu de modo extraordinário para lembrá-los. O sinal era uma ajuda para que operassem na defesa dos valores do cristianismo, como era dever de seus cargos.

A vigilância dos eclesiásticos sobre os perigos do mundo e em defesa de verdades doutrinais estava abalada nos contestadores de Fátima. Não lhes valeu nem mesmo uma mensagem celeste, da qual se julgaram mais juizes que beneficiários. A situação da Igreja dirigida por essa mentalidade só podia degenerar, permanecendo a mensagem como testemunho de uma atitude de abdicação, senão apostasia.

A Igreja sempre ensinou que é o espiritual que determina o material, e pôs isto em prática na oração impetrante das rogações públicas, das peregrinações, dos rosários e principalmente das santas missas. Mas, seria temerário dizer que hoje bem poucos crêem na eficácia desses atos de fé? E em 1917? Quantos prelados e sacerdotes acreditavam ao pé da letra que Maria Santíssima poderia interceder diretamente pela paz [XVII] do mundo? Que as aparições de Fátima pudessem ser uma resposta ao apelo de Bento XV?

Parece lógico que se não acreditavam nessa possibilidade também não acreditariam nas promessas da mensagem, isto é, que se a Igreja adotasse a devoção pedida ao Imaculado Coração de Maria e a Rússia lhe fosse consagrada pelo papa junto a todos os bispos, esta seria convertida e o mundo teria paz. Menos ainda poderiam acreditar, então, que se isto não fosse feito adviriam guerras, fornes, perseguições.

Todavia, diante da magnitude do benefício prometido pelo atendimento desse pedido, diante das promessas de paz neste mundo e salvação de muitas almas pelo cumprimento de algo que não comportava riscos ou sacrifícios de cruzadas militares ou flagelações sangrentas, diante da disparidade enorme entre o dar e o haver, por que não fazê-lo? Bastaria um pouco de fé no poder de intervenção do Onipotente neste mundo para, no mínimo, tentar obter esses benefícios, senão a glória de Deus, como um ato politicamente pacífico e conforme as devoções e consagrações que a Igreja sempre promoveu.

Consideremos agora as ações dos papas desde 1917 a esse respeito. Bento XV pediu a intervenção de Maria Santíssima pela paz universal. Não cogitou, porém, que em Fátima veio a resposta; Pio XI, citado na mensagem, apoiou o culto de Fátima e instituiu a festa de Cristo Rei, mas não fez a consagração pedida; Pio XII, chamado o papa de Fátima, atendeu pessoalmente à solicitação, mas sem ordená-la aos bispos. Cabe concluir que a esperança posta no cumprimento da promessa de intervenção do Céu era insuficiente. Como seria em seguida?

João XXIII mandou arquivar a parte ainda secreta da mensagem e Paulo VI, embora indo a Fátima em 1967, evitou mencioná-la. Na véspera da viagem leu a exortação apostólica Signum Magnum, com a qual reconhecia em Nossa Senhora a mulher vestida de sol do Apocalipse, mas deu seu pedido por atendido. Não escondeu que punha sua última esperança de paz na ONU. Foi o papa que adaptou a Santa Missa aos protestantes, transferiu a liberdade da Igreja aos cidadãos e a tiara, símbolo da soberania de Cristo Rei, aos pobres. Seus sucessores houveram por bem continuá-lo e ao seu Concílio.

Ficava assim instaurada uma Igreja Conciliar onde o projeto de paz passou a depender de iniciativas humanas sem vínculos espirituais. Além do quê, seria a liberdade de consciência e de religião a constituir o fundamento da dignidade dos homens, e como desta destoa prostrar-se contrito diante de Deus para elevar-lhe súplicas de misericórdia, a oração transformou-se em simples e vulgar diálogo. Aos homens livres competiria mais julgar que acatar mistérios.

Essa liberdade de “julgar” o que deve ser verdade é a premissa da grande apostasia, desde o início insuflada pelo iníquo sedutor: “Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Gn. 3,5). São Paulo (Ts.II, [XVIII] 2) fala desse mistério de iniqüidade presente também na Igreja desde o início, mas retido até que alguém com o poder das chaves lhe franqueasse a saída do abismo de onde se erguerá para impor na Igreja o culto e o domínio do homem.

Podemos ainda considerar essa liberdade quanto à verdade uma insídia remota e hermética nos nossos dias? É claro que pôr em dúvida a verdade única e os sinais da vontade de Deus é manifestação de apostasia e adesão a poder que, “com sinais e prodígios enganosos, com todas as seduções da iniqüidade para aqueles que se perdem porque não abraçaram o amor da verdade para serem salvos. Por isso Deus lhes enviará o artifício do erro de tal modo que creiam na mentira” (Ts. II, 9-10). Qual artifício do erro maior que o culto do homem, o homem que se faz deus na Igreja de Deus que se fez Homem?

Jesus deu-nos o sinal do momento culminante dessa iniqüidade: “Quando pois virdes a abominação da desolação, que foi predita pelo profeta Daniel, posta no lugar santo...” (Mt. 24,15). Daniel fala do Templo onde cessou o sacrifício e a oferta (9,27), do santuário da fortaleza onde cessou o sacrifício perpétuo (11,31).

É sempre à Igreja do Sacrifício que somos chamados a dirigir os olhos. Esta é a Nova Jerusalém, o lugar santo, o templo e o santuário, a fortaleza da fé. Dela vêm os chamados à vigilância e à oração, mas nela veremos o assédio, a invasão, a abominação da desolação no altar, o iníquo que “se sentará no Templo de Deus, apresentando-se como se fosse Deus” (Ts. II 2,4).

Naturalmente, quando o engano atingir tal ponto tudo será possível e os católicos seduzidos defenderão e respeitarão tal invasor. A quem apelar, então?

Certamente Deus não abandonará Sua Igreja nesse momento de paixão e apostasia. O mesmo profeta Daniel fala da “pedrinha que se desprende dum monte sem intervenção humana”, que derrubará o colosso. Para o nosso tempo temos também a profecia de São Luís Maria Grignion de Montfort, que mostraremos em seguida, para melhor entendermos qual intervenção sobrenatural devemos esperar.

Estamos diante de fatos abissais. Mas animados pela fé com que pastorzinhos derrubaram gigantes, guiaram reis e advertiram papas, devemos perscrutar desassombradamente os sinais de nossos tempos: presenciamos a tentativa de transformação religiosa pela abertura da Igreja às liberdades do mundo, que constituem repúdio à verdade divina. Procura-se adaptar as escrituras, os catecismos e a liturgia, além do mesmo magistério eclesiástico, para uso de uma revolução conciliar dessacralizante e inimiga da tradição. Quanto ao sacrifício perpétuo, se não é certo dizer que cessou em muitas missas, certamente foi reduzido e alterado para agradar aos protestantes e ao mundo.

Eis o colosso revolucionário que ocupou a Igreja de Deus e pontifica o erro por toda a Terra, seduzindo com uma união religiosa pela [XIX] felicidade e pela paz que é ofensiva à religião única revelada por Deus e lembrada pelo portento sobrenatural de Fátima. Este colocou a pedrinha que destruirá o leviatã infernal para glória de Deus e triunfo de Maria, Mãe da Misericórdia que não deixaria de avisar seus filhos na abertura do abismo de perdição.

Aqui serão colocados os fatos relativos ao evento de Fátima em ordem cronológica e entremeados por textos clássicos que lembram a visão cristã da História e a transcendental oposição entre a Cidade dos Homens e a Cidade de Deus, entre os projetos humanos e os desígnios divinos. Se soubéssemos ler o apocalipse imbuídos de seu espírito, ali encontraríamos tudo o que deve acontecer, à luz dos fatos já acontecidos. Mas precisamos de ajuda para fazê-lo.

Para melhor reconhecer então a Profecia para o nosso tempo vamos recorrer a São Luís Maria Grignion de Montfort, que viveu entre os séculos XVII e XVIII e escreveu obras proféticas como o Tratado da verdadeira devoção à Maria e Carta aos amigos da Cruz. Com estas, e sua pregação e exemplo, preparou os católicos franceses para enfrentarem a onda de libertações mundanas que culminariam com a Revolução Francesa, antepondo-lhe justamente a escravidão de amor mariano e a submissão à Cruz, única libertação na vontade de Deus.

Essa visão profética, porém, era sinal de escândalo e contradição na França do Rei Sol, que mandou demolir em 1710 o grande Calvário que o Santo havia construído com os camponeses em Pontchâteau. Do mesmo modo suas obras escritas e seus discípulos foram durante o século XVIII alvo dos ataques jansenistas. O precioso manuscrito do Tratado, escondido para escapar à Revolução, só foi encontrado em 1832 num caixote de livros velhos. Mas nessa ocasião o autógrafo mandado a Roma a fim de ser examinado no processo de canonização, foi declarado isento de erros (Decreto de 12 de maio de 1853).

Realizara-se assim uma predição escrita em sua mesma obra: “Vejo no futuro feras frementes precipitarem-se furiosas para dilacerar com seus dentes diabólicos este pequeno manuscrito e aquele de quem o Espírito Santo se serviu para escrevê-lo, ou ao menos para que fique envolto nas trevas e no silêncio de uma arca a fim de desaparecer. Atacarão e perseguirão até aqueles e aquelas que o lerem e o puserem em prática. Mas não importa! Tanto melhor! Esta visão me encoraja e me dá a esperança de um grande sucesso, isto é, um esquadrão de bravos e destemidos soldados de Jesus e de Maria, de ambos os sexos, para combater o mundo, o demônio e a natureza corrompida nos tempos perigosos que virão e como ainda não houve igual. “Quipotest capere, capiat” (Mt. 24,15 e 19,12).

O famoso teólogo ascético inglês, padre Faber, apresentando essa obra na metade do século passado, diz que poucos homens no século [xx] XVIII traziam tão fortemente gravados em si os sinais de homem da Providência, como esse novo Elias, missionário do Espírito Santo e de Maria Santíssima, novo São Simão Salus, São Filipe Neri, São Vicente Ferrer, precursores do juízo final e portadores de uma mensagem divina que pede maior conhecimento, honra e amor ardente à Virgem Maria, intimamente ligada ao segundo Advento de Seu divino Filho.

São Luís Maria foi de fato um profeta de Maria Precursora e Mãe. Somente mais de um século depois de sua morte (em 1716) começaram as grandes aparições de Nossa Senhora, que se multiplicaram como luminosos sinais dos tempos para convocar os homens à oração e à penitência preparando-os para enfrentar os anos da grande apostasia que precederá o dia do Senhor. Nos livros do Santo já se falava dessa ação poderosa da Mãe SANTÍSSIMA para converter os filhos e fortificar os fiéis, diante das insídias e seduções dos tempos finais. Vejamos o Tratado:

— Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que Ele reinará no mundo.

— Se Moisés pela força de sua oração conseguiu sustar a cólera de Deus contra os israelitas, e de tal modo que o Altíssimo e infinitamente misericordioso Senhor, não podendo resistir-lhe, lhe disse que o deixasse encolerizar-se e punir aquele povo rebelde, que deveremos pensar e com muito mais razão da prece da humilde Maria, a digna Mãe de Deus que tem mais poder junto da Majestade divina que as preces e intercessões de todos os anjos e santos do Céu e da Terra? (Santo Agostinho, serm. 208 in Assumpt. n. 12).

— O sinal mais infalível e indubitável para distinguir um herege, um cismático, um réprobo, de um predestinado, é que o herege e o réprobo ostentam o desprezo e indiferença pela Santíssima Virgem e buscam, por suas palavras e exemplos, abertamente ou às escondidas, às vezes sob belos pretextos, diminuir e amesquinhar o culto e o amor a Maria. Ah! Não foi nestes réprobos que Deus Pai disse a Maria que fizesse Sua Morada, pois são filhos de Esaú.

— A Maria somente Deus confiou as chaves dos celeiros do divino amor, e o poder de entrar nas vias mais sublimes e mais secretas da perfeição para nestes caminhos fazer entrar os outros.

— “Ser vosso devoto, ó Virgem Santíssima, é uma arma de salvação que Deus dá àqueles que quer salvar.” (São João Damasceno)

— Por meio de Maria começou a salvação do mundo e é por Maria que deve ser consumada. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria quase não apareceu, para que os homens, ainda insuficientemente instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de Seu Filho, não se lhe apegassem demais e grosseiramente, afastando-se assim da verdade. E isto teria acontecido devido aos encantos admiráveis com que o próprio Deus lhe havia ornado a aparência exterior. São Dionísio o Areopagita o confirma numa página que nos deixou e em que diz que, quando a viu, a teria tomado por uma divindade, tal o encanto que emanava da beleza incomparável de sua pessoa, se a fé em que estava bem confirmado [XXI] não lhe ensinasse o contrário. Mas, na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deverá ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de que por Ela seja Jesus Cristo conhecido, amado e servido, pois já não subsistem razões que levaram o Espírito Santo a ocultar sua esposa durante a vida e a revelá-la só depois da pregação do Evangelho.

— Deus quer, portanto, nestes últimos tempos, revelar-nos e manifestar Maria, a obra-prima de suas mãos, entre outras razões porque, visto ser ela a aurora que precede e anuncia o sol da justiça, Jesus Cristo, deve ser conhecida e notada para que Jesus Cristo o seja.

— Maria gerou com o Espírito Santo a maior maravilha que existiu e existirá — o Homem-Deus, e ela realizará, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos. A formação e educação dos grandes santos que aparecerão no fim do mundo lhe está reservada, pois só esta Virgem singular e milagrosa pode produzir, em união com o Espírito Santo, as obras singulares e extraordinárias.

Maria deve ser, enfim, terrível para o Demônio e seus sequazes como um exército em linha de batalha, principalmente nesses últimos tempos, pois o Demônio, bem sabendo que lhe resta pouco tempo para perder as almas, redobra cada dia seus esforços e ataques. Suscitará em breve perseguições cruéis e terríveis emboscadas aos servidores fiéis e aos verdadeiros filhos de Maria, que mais trabalho lhe dão para vencer.

— É principalmente a estas últimas e cruéis perseguições do Demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do anticristo, que se refere aquela primeira e célebre predição e maldição que Deus lançou contra a serpente no Paraíso terrestre. Vem a propósito explicá-la aqui, para glória da Santíssima Virgem, salvação de seus filhos e confusão do Demônio.

— Mas o poder de Maria sobre todos os demônios há de patentear-se com mais intensidade nos últimos tempos, quando Satanás começar a armar insídias ao Seu calcanhar, isto é, aos Seus humildes servos, aos Seus pobres filhos que ela suscitará para combater o príncipe das trevas. Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo e rebaixados diante de todos como o calcanhar, calcados e perseguidos como o calcanhar em comparação com outras partes do corpo. Mas em troca eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura, por seu zelo ativo, e tão fortemente amparados pelo poder divino que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do Demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo. — Serão os apóstolos dos últimos tempos.

— Quando meu amável Jesus vier em Sua glória uma segunda vez à terra (como é certo), o caminho que escolherá será Maria Santíssima, o mesmo pelo qual Ele veio com segurança e perfeitamente na primeira vez. A diferença entre a primeira e segunda vinda é que a primeira foi secreta e oculta, e a segunda será gloriosa e retumbante. [XXII]

— Maria sozinha esmagou e exterminou as heresias como diz a Igreja com o Espírito Santo que a conduz.

Guiados por São Luis Maria Grignion de Montfort vemos que a força da Igreja está em glorificar a Deus conforme Sua divina vontade, e esta passa pelo louvor, honra e amor a Maria Santíssima De Maria nunquam satis, já era dito antes de suas extraordinárias aparições. Como deve ser então depois que a Medianeira de todas as graças visitou seus pobres filhos na Terra?





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