Entre ruptura e sutura



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Altivir João Volpe


TEMPO E ESPAÇO:

ENTRE RUPTURA E SUTURA
Durante uma inspeção à fronteira nos confins da Grécia com a Albânia, um soldado mostra ao repórter de televisão uma vila na qual se amontoam refugiados de várias nacionalidades, à espera de partir para um “outro lugar” (MERTEN, 2009). Uma linha tricolor separa o espaço entre os dois países. Um passo além é considerado invasão e os soldados do outro lado estão prontos para atirar.

Observando os rostos parados de turcos, albaneses e curdos sem nome nas portas dos vagões de trem, Alexandre, o repórter, julga reconhecer um político famoso, desaparecido há alguns anos. De volta a Atenas, procura a esposa do congressista, em busca de maiores informações. Convencido de que o vendedor de batatas do povoado é o político grego de outrora, o jovem retorna para desvendar o mistério. Alexandre cruzará essas fronteiras – eu-outro; aproximação-singularização; passado-presente-futuro; o já e o ainda não; íntimo-estranho/estrangeiro? Alexandre, repórter da vida na cidade grande, conseguirá articular via registros da memória, restos perdidos ou soltos das narrações de uma comunidade?

Esse filme, "O Passo Suspenso da Cegonha" (Ta meteoro vim atou pelargou, 1991), de Theodoros Angelopoulos, pode ser visto como uma escuta sobre a vida em cadência de espera dos expatriados e estrangeiros. Para esses deslocados em uma espera sem fim, o tempo apresenta-se em câmara lenta, em permanente ralentando. Se, na cidade, a companheira de Alexandre chega esbaforida do ensaio e mal olha seu rosto, no restaurante do afastado vilarejo grego, de vestido preto, Eleni/Helena mantém o rosto voltado para ele, esperando que a perceba. Ao lado, sobre cada mesa redonda, uma rosa vermelha solitária também à espera de um toque.

A câmera mantém-se distante e paciente, como nas cenas marcantes do casamento em que os noivos surgem, cada um de um lado, separados por um rio impassível e malemolento, na expectativa de um encontro difícil, senão impossível. Olhares distantes, gestos, ritmos, movimentos em suspensão, na tentativa de religar sem palavras, de prolongar tempo e espaço, na esperança de registrar indelevelmente uma presença-ausência. Mudanças e permanências.

Rios e lugares fronteiriços delimitam dois lados, cá e lá, dentro e fora, conhecido e estrangeiro, a separar/aproximar espaços. Cruzar uma ponte ou atravessar o rio em direção à outra margem indicaria um sentido de mudança, passagem a outros cenários ou cenas não vislumbradas. Curiosamente perigo (tentativa, risco) e experiência (passar por provas, sair de si, arriscar, ir mais adiante) têm a mesma raiz: do latim periri. Alexandre, repórter portapalavras e porta-imagens, ocuparia uma terceira margem do rio, nem-lá-nem-cá, a dar sentidos, rompendo ou articulando tempo-espaço? E quando tais fronteiras ou rios que passam em nossas vidas perdem os contornos, emudecem ou apresentam limites inundados e escurecidos, sem nome?

Tais atravessamentos e descontinuidades são apresentados por Serres (1997, p. 24), quando diz:


Quando um nadador corajoso atravessa um largo rio, o itinerário de sua viagem se divide em três partes. Durante o tempo em que observa a margem da partida ou descobre a da chegada, ele habita ainda em sua morada de origem ou já mora no objetivo de seu desejo. Ora, em torno da metade do percurso, vem um momento, decisivo e patético, onde a igual distância das duas margens, durante a passagem mais ou menos durável de uma grande faixa neutra ou branca, ele não é nem um nem outro momento, e torna-se talvez já um e outro, ao mesmo tempo. Inquieto, suspenso, como em equilíbrio em seu movimento, ele reconhece um espaço inexplorado, ausente de todos os mapas e que nenhum atlas ou viajante pôde descrever.

Na literatura, o Ulisses de James Joyce, Leopold Bloom, vagueia sem rumo pela cidade de Dublin. No filme de Angelopoulos, só há olhos para ruínas, pois esse cineasta do tempo transpõe o mito da busca e da errância a outros tempos, lugares e rios a serem descobertos/criados, “espaços inexplorados, ausentes de todos os mapas e que nenhum atlas ou viajante pôde descrever” (SERRES, 1997, p. 24).

A narrativa de Angelopoulos volta-se das duas margens ou fronteiras, nem lá nem cá, meio-rio, meia-ponte, nem que seja dramaturgicamente no limite, para o dia-a-dia das guerras civis e deslocamentos populacionais em tempos de globalização. Diante da experiência de espanto e de horror, não se constroem experiências para si e para os outros, antes silêncio e vazio nos diferentes espaços inter e intrasubjetivos. Como o filme se apresenta, o que se produz é fugacidade, precariedade e desertificação dos laços sociais, à margem da palavra e da comunicação silenciosa.


As idéias associadas à pós-modernidade, supermodernidade, hipermodernidade, modernidade líquida, modernidade radical, era do vazio e outras designações têm sido discutidas por diferentes autores (Lyotard; Castoriadis; Giddens; Baudrillard; Agamben; Zizek; Lipovetsky; Bauman; entre nós, Birman, Calligaris, Freire Costa, para citar alguns). Com ênfases variadas e partindo de perspectivas nem sempre coincidentes, o que existiria de comum em tais “terminologias” ou “construções subjetivas” é o acento na dispersão e fragmentação dos laços sociais, sobretudo a partir dos anos 80 do século XX (intensificação da globalização, do ultraliberalismo e das novas tecnologias de comunicação – sobretudo a internet).

Com a expansão da modernidade, os organizadores tempo e espaço são separados da prática da vida e entre si, com uma territorialização precisa da vida social e imprecisa em termos globais: “o tempo adquire história uma vez que a velocidade do movimento através do espaço (...) se torna uma questão do engenho, da imaginação e da capacidade humanas” (BAUMAN, 2001, p. 16). Os tempos modernos transformaram-se em armas na conquista do espaço e a velocidade e os recursos para a mobilidade apresentam-se como ferramentas de poder e dominação. Não importa mais onde está quem dá as ordens!

Na supermodernidade é acentuado o encurtamento e achatamento dos espaços, a individualização do coletivo. Tentativas são feitas no sentido de abolir os vínculos entre passado e presente, transpor o fluxo do tempo “como se este fosse um ajuntamento solto, uma sequência arbitrária de momentos presentes” (BAUMAN, 2001, p. 113). O homem contemporâneo vive em permanente confronto com uma multiplicidade de identidades possíveis e mutáveis, com as quais temporariamente pode se identificar: “vivemos em um mundo no qual ainda não aprendemos a olhar” (AUGÉ, 2003, p. 33). Se hoje o mundo se transforma de maneira mais acelerada que antes, isso também implica uma mudança na produção das subjetividades, na construção de novos tempos sociais.

A assim chamada pós-modernidade acentua a violência intrusiva ao generalizar o exílio, o desenraizamento e ruptura dos laços sociais, a experiência dos não-lugares (AUGÉ, 2003), espaços anônimos, sem rosto; um tempo vertiginoso feito de flutuações, de descontinuidades e “figuras de excesso”:

Com a aceleração do tempo, buscamos incessantemente um sentido para o “mundo” (presente e passado). Somos instados a atribuir um sentido a uma sobrecarga de acontecimentos, a um excesso de estimulações (“superabundância factual”). Ao mesmo tempo, produz-se uma comunicação instantânea entre diferentes espaços (reais; imaginários; virtuais), uma informação que invade, sobretudo via mídia e publicidade, diferentes áreas do si-mesmo, trazendo novos cenários de necessidades a serem realizadas ou incessantemente buscadas (“superabundância espacial”) – com perturbações no pensar e forte submissão a ideais arcaicos. Cada um desejaria para si o direito de decidir sobre sua vida, sobre tais informações que chegam de todas as frentes e com diferentes intensidades. Tal sujeito se cobra e é cobrado a fazer interpretações de tudo e de todos (“superabundância das referências individuais”).

Como conseqüência, nesse mundo do excesso e transbordamento (tempo, espaço, interpretação), existe um sentimento que perpassa a sociedade contemporânea e o filme de Angelopoulos: a solidão e o anonimato, aqui destacados como sinônimos de isolamento e abandono, pela ameaça de perda do sentido de pertença e de vinculação a redes de sustentação.

As “figuras de excesso” ou não-lugares (AUGÉ, 2003) designam dispositivos ou métodos que se propõem à provisoriedade, à circulação rápida das pessoas. Opõem-se à noção sociológica de “lugar”, ou seja, à idéia de enraizamentos e expressões simbólicas identitárias, relacionais e históricas.

Como não-lugares, Augé se refere especificamente às instalações necessárias à circulação humana, à circulação dos bens (vias rápidas; estações de metrô; terminais rodoviários; aeroportos; ruas; hotéis e supermercados...) e também aos meios de transporte (carros, trens, ônibus, aviões). Mais: Augé considera ainda como não-lugares os campos de refugiados, obrigados a deixar sua família, terra e bens por ocasião de guerras e conflitos internos de diferentes matizes num deslocamento quase ininterrupto. No dizer do etnólogo francês, a sociedade supermoderna cria espaços de trânsito, passagem e nomadismo constantes, da quase impossibilidade de investimento afetivo, apesar de serem espaços muito habitados. O que se esvai ou deixa de ficar “sólido” são os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas (BAUMAN, 2001).


Os fundamentos da identidade e o sentido de pertencimento a redes de sustentação encontram-se abalados, afetando os processos de ligação e de religamento no campo da cultura, do trabalho e da vida social. Com o enfraquecimento ou ruptura dessas redes de articulação tempo-espaço, dá-se uma confusão entre o dizer e o fazer, entre ação e representabilidade. O humano é metamorfoseado em autômato, como um acossado. Este está com medo, desamparado e sem rumo pois o tempo subjetivo não pode ser projetado num futuro, seu projeto intercalando-se entre o império do presente e a certeza da morte.


Faz pouco, pacientes ou mesmo grupos e instituições apresentavam-se como contadores e narradores de si mesmos, com relatos impregnados de continuidade. Na cultura da vertigem de nossos dias, com o esgotamento das narrativas de legitimação (institucionais, políticas e religiosas), é de se perguntar que desdobramentos e ressonâncias são instaurados com a forte interiorização desse presente vertiginoso que pulveriza e estilhaça a temporalidade historicizante, sem uma perspectiva ou projeto coletivo?
O que se ausenta não é simplesmente o relato do vivido, (...) mostra a relação inseparável entre experiência e relato (...). Chamamos experiência ao que pode ser transformado em relato, algo vivido que não somente se padece ou sofre, mas que também se transmite. Existe experiência quando quem sofre se transforma em testemunha (SARLO, 2005, p. 31. Nossa tradução.).
Na contemporaneidade, os lugares que ocupamos ou que nos habitam em movimento e no tempo escorrem em ações simultâneas que desalojam aqueles que pretendem sentir-pensar-conhecer sua própria temporalidade, cadência e carência. A metáfora, paradigma do humano e dimensão que busca liberar uma realidade aprisionada rigidamente, pretende ser abolida... com pouco tempo ao tempo, tempo para recordar, entretecer e levar adiante o que está adormecido (cum versare) --, para viver! Retorno às ilusões ou utopias da modernidade que feneceram no final do século XX? “Tempo, tempo, tempo!”;“o tempo não para!”;“terra, terra, por mais distante ou errante, eu jamais te esqueceria!”;“... ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais!”

Talvez o grande desafio da contemporaneidade seja cada um sentir-se enraizado, ter uma morada -- o acolhimento e permanência em uma casa própria, “um quarto todo seu”, diria Virginia Woolf; a proteção e sustentação dos grupos e redes de referência. Ao mesmo tempo e paradoxalmente, poder transitar, sentir-se cidadão do mundo, eterno viajante, a expansão dionisíaca das ruas, buscar a multiplicidade dos novos espaços e a flutuação de suas fronteiras, um lugar de permanente devir... colocar-se em um luto permanente. A liberdade de “ser sempre um pouco estrangeiro” (CALLIGARIS, 2004, p. 12).


Um terceiro em constante interlocução

Em um trabalho de grupo como parte de uma tese de doutorado em psicologia social (VOLPE, 2007) foram utilizadas fotografias pessoais trazidas pelos integrantes do trabalho. Angélica, uma das participantes apresenta uma foto tirada por ela durante o curso de Arquitetura. Trata-se de uma passagem de nível na linha férrea: “um lugar onde eu sempre passava nos deslocamentos urbanos de um bairro a outro. Foi quando comecei a descobrir a cidade, o que estava em volta de mim... nunca tinha parado para observar... foi quando descobri esse gosto pelos interstícios da cidade!”

Continua Angélica: “a paisagem urbana mudou muito nesses 8, 10 anos, mais casas, mais casas; a linha de trem que cruzava essa rua de minha infância foi tirada... preenchida por barracos, depois casas de alvenaria. A idéia de abertura e de passagem que existia não existe mais. As coisas foram se deteriorando! As condições de saúde... hoje as pessoas não se encontram mais!” Pode-se pensar aqui em tentativas de elaboração e integração de diferentes experiências intermediadas temporoespacialmente: os limiares da adolescência; o estreitamento e ultrapassagem do conhecido/familiar que se tornou repetitivo, pobre, em direção ao estranho/estrangeiro a ser desvelado na outra cidade. Olhar os “interstícios”, como diz.

Interstícios, brechas, fendas que se entreabrem, espaços entredois que conectam dentro e fora, privado e público: a passagem do tempo; o luto pelos pais da infância. Na sequência, entrada no mundo do trabalho; novos vínculos socioafetivos... mundo, vasto mundo! Ao se referir a tais tentativas de articulação tempo e espaço, Kaës evoca (2003, p. 15-16) o enfraquecimento dos mapas mentais, das instâncias de continuidade e permanência:“a mutação das estruturas familiares e a fratura dos vínculos intergeracionais; a notável mudança nas relações entre os sexos (notadamente no estatuto da mulher); a transformação dos laços e sociabilidade, de estruturas de autoridade e de poder; e a confrontação violenta resultante do choque entre as culturas”.

Na vida moderna, as pessoas estão submetidas à ditadura do “tempo homogêneo e vazio, um tempo saturado de agoras”, afirmava Benjamin, em O narrador, obra de 1936 (1994, p. 229). No mundo da alegoria próprio da grande cidade, as pessoas são levadas de uma alusão a outra, submetidas a uma presença artificial, à transitoriedade do momento, a experiências fragmentadas, a uma existência como se. O fenômeno da publicidade, da tevê e da internet acentua esse caráter de irrealidade, esse sentimento de virtualidade. Tal quadro ameaça seriamente o repouso e a reflexão necessários ao desvelamento da palavra na experiência coletiva (Erfahrung).

Finalizando sua fala no grupo, Angélica traz a foto de uma pichação com um gato estilizado, primeira foto que a alemã Ingrid tirara, “a amiga da antiga Alemanha Oriental que me acolheu no ano e meio que fiquei em Praga... Ingrid também estava sozinha”.

Ao trazer experiências partilhadas com a amiga que conhecera após o término da faculdade, Angélica fala de uma viagem ao sul da República Tcheca e do encontro importante entre ela, Ingrid e um rabino chileno que conhecem ao entrar em uma sinagoga vazia situada no caminho. Durante duas horas compartilham suas diferenças, tempos e espaços “modernos”, a singularidade de cada uma: o familiar/o estrangeiro; o coletivo e o mundo subjetivo; alemão/judeu; alemão/chileno; “sou brasileira/sou alemã/sou chileno”; “falar espanhol/português/alemão/tcheco/hebraico/inglês”; “ser judeu/ainda acreditar no comunismo”; estar sozinha com...

A presença e a escuta do rabino no espaço da synagogé, (em grego, lugar de encontro, de religamento e articulação tempo-espaço), possibilitam a Angélica transitar entre a tradição herdada e aquilo que descobre no caminho entre “Praga”, até aquele momento, lugar de fronteiras e delimitação do conhecido e familiar, e o “sul da República Tcheca”, a chegada a novas fronteiras, desvelando diferentes espaços entredois de sua vida: a separação da casa dos pais; casa da infância/adolescência; cidade de São Paulo/arquitetura em Ouro Preto; República Tcheca/Brasil... Novos horizontes e interstícios se entreabrem e se desdobram quando Angélica compartilha tais experiências no grupo. Como no silêncio sustentador da sinagoga, no espaço grupal também se sente escutada... A palavra torna-se novamente fundante. O curso de Planejamento de Espaços Públicos que realizou na República Tcheca ganha então outros contornos e significados em sua vida.

Diante da “cultura do vazio” pós-moderno, da ruptura das solidariedades grupais, os seres humanos insistentemente buscam rostos que acolham, gestos que nomeiem e presentifiquem o caminhar. Uma resposta singular... outra escuta. O desvelamento de um saber enraizado na vida mesma, a elaboração de uma experiência própria. Afirma Ricoeur (1994, p. 15): “o tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado de um modo narrativo. Em compensação, esta narração é significativa na medida em que esboça os traços da experiência temporal”. Em outras palavras: a narrativa humaniza o tempo e este, em troca, lhe dá sua condição de inteligibilidade.

Nos espaços de fronteira criados/descobertos no dia-a-dia, existe (ainda) um trabalho de costura artesanal, marcado pela entrega paciente, por intensidades e rupturas – lugares de resistência e possibilidades singulares que distinguem a vida de (muitas) crianças, o talhar do poeta, do contador de histórias, dos retratistas e narradores do cotidiano que se debruçam sobre o imaginário e a memória do ouvinte/leitor. Como os repentistas, os cantores do rap e do hip-hop, alguns jornalistas e escritores --, enfim, profissionais (ou não) que auscultam a intimidade, os silêncios e a explosão dionisíaca da vida... Tais artesãos transformam palavras, sonhos, fantasias, imagens, objetos -- a vida e a morte --, em música, história, fotografia, relato biográfico, literatura, arte, escrita, psicossociodrama, mil e uma noites..., um terceiro em constante interlocução, produtor de sentidos.

Ao transformar a experiência em relato, tais barqueiros ou parteiros das forças criativas desvelam espaços sociais para viver, para compartir experiências nos grupos de referência, ingredientes básicos de humanização. Trata-se de uma tentativa de se dar uma história, de estar no mundo e habitá-lo, de contar a realidade, dar um contorno às experiências assustadoras ou desconhecidas, a falhas de sustentação e a agonias primitivas, fazendo aproximações com áreas do si mesmo até então isoladas e incomunicáveis. Em poucas palavras, elaborar uma experiência autêntica, no sentido que Benjamin (1994) dá ao termo.

Se a vida acontece como um saber surpreendido nos entremeios da linguagem e nas possibilidades do cotidiano, ela é sempre narrativa em construção, uma tentativa fragmentária de capturar o mundo e seus instantes decisivos, dando-lhes um sentido.

Para que o tempo humano não se petrifique ou se torne insensível, para que as angústias não se convertam em aniquilamento de si e do outro, como um antídoto a diferentes intrusões, violências ou situações disruptivas, as pessoas trabalham, fazem arte(s), escrevem, brincam e conversam em meio a diferentes rios ou fronteiras. Encontram nesses espaços intersubjetivos anteparos à dor e à morte, como respiros e ritmos que liberem as pessoas da inundação e do afogamento, como no poema “Emergência”, de Mario Quintana (1976):
Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada,

Esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

para que possas enfim,

profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.
Desvelamento de experiências próprias

O papel dos objetos como elementos de articulação da história e da tradição de um grupo de referência, de projetos coletivos compartidos por uma comunidade de destino, foi se esgarçando e se fragmentando, no contexto da ampliação e predomínio das relações modeladas pelo sistema capitalista, como bem lembrava Benjamin em 1936. Ao mesmo tempo, Moreno, na proposta de desvelamento e construção coletiva de acontecimentos espontâneo-criativos e Winnicott na criação de áreas de experimentação entre ilusão e desilusionamento, levantam a possibilidade de os objetos e algumas situações, grupos e instituições do cotidiano constituírem lugares de repouso e de passagem da vida humana. Nesse sentido, tais práticas podem se tornar espaços potenciais, lugares de experiências prévias à simbolização e da busca de autonomia.

Especificamente com relação aos grupos, Kaës (2005) propõe um trabalho a partir das formações intermediárias entre crise, ruptura e superação – tendo em vista uma troca e uma distribuição --, em uma multiplicidade de tempos, espaços, sentidos e vozes. A seu ver, a crise libera ao mesmo tempo as forças de morte e de regeneração. Diz ele (KAËS, 1979, p. 11):
Pensar o homem em crise é pensá-lo como capaz de ter crise, como um ser vivo em organização, desorganização e reorganização permanentes. Pensar a crise é tentar imaginar uma ruptura. (...) É possível que não possamos encontrar uma saída em direção à vida, mas somos obrigados a buscá-la. (...) O homem torna-se homem graças à crise, e sua história transcorre entre crise e resolução, entre ruptura e sutura (Nossa tradução.).
Cada um expressaria seu estar-no-mundo em diferentes espaços potenciais compartilhando a transitoriedade das formas no presente, as ambigüidades, reviravoltas e incertezas do caminho (presença e ausência)... para se encontrar. Seria possível discernir os intervalos entre o progresso científico, tecnológico e cultural trazido pela globalização e as interrogações humanísticas descobertas/criadas pela tradição? Se o que mudou não foram somente as respostas como também as perspectivas e novas configurações de tempo e espaço? Não há certezas. Somente uma aposta, uma esperança, “recorrendo à experimentação criadora de novos estilos relacionais e de expressão... a invenção de novos equilíbrios” (KAËS, 1979, p. 10).

Para crescer é preciso deixar o Paraíso. Neste, não há diferenças nem espaço para a inscrição do intervalo, da experiência, literalmente, transpor caminhos ou buscar um desvio: “não é isso mas pode ser outra coisa!” Ou nas palavras de Kaës (2005, p. 12), tratar “as relações entre continuidade e ruptura, entre permanência e transformação”.

Pode-se pensar que a insegurança dos laços fragmentários e a incerteza quanto ao futuro, características próprias da contemporaneidade, levam os sujeitos a experimentarem fortemente a ambigüidade dos tempos modernos. O que faz pensar que é sempre entre o risco contínuo de perda das referências e a possibilidade de constituição de novos espaços criativos ou da busca de reasseguramento, que se vai processando o intenso trabalho próprio do devir humano.

Angélica, por meio de sua escuta silenciosa e participativa, recolhe ao longo da atividade grupal alguns fragmentos da vida dos demais (relatos familiares; rotinas da infância e adolescência; jogos e brincadeiras marcados pelo humor; processos de separação ou ruptura, transformações no tempo-espaço), ampliando-os e trazendo outras versões e significados à sua história e à dos outros participantes do grupo. Por sua vez, a cena final de O passo suspenso da cegonha, de Angelopoulos, não permite tantas perspectivas transformadoras. Talvez algumas conexões e construções na linha do horizonte...

Os sentidos da vida com esse outro olhar residiriam talvez no constante movimento de transformação e de alargamento dos dispositivos psíquicos e culturais para tornar pensável o não-significado, o não-nomeado. Dispositivos grupais, novos enquadres e configurações nas práticas comunitárias, institucionais e familiares poderiam, quem sabe, organizar uma cena na cena, lugares onde as janelas e as pálpebras se entreabrem.

O psicossociodrama pode intensificar e potencializar para além das amarras da realidade, das fronteiras de tempo e espaço, a mediação com o simbólico e o imaginário, com os sentimentos, objetos, fatos e palavras. A construção de pontes entre diferentes mundos, pessoas e contextos sociohistóricos, por meio do desenvolvimento da espontaneidade. Desdramatizar o não-dito, inaudito, estranho/estrangeiro, sublime ou inexorável da existência. Atravessar as fronteiras, cruzar rios e mares, tornando-se um “homem da experiência”, como diz o poeta Kaváfis, em Ítaca:

Se partires um dia rumo a Ítaca,


faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Cíclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Cíclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.


Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.


Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho, enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.


Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

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BIBLIOGRAFIA

ANGELOPOULOS, T. O passo suspenso da cegonha (filme). Grécia/França/Suiça, 1991.

AUGÉ, M. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 2003.

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BENJAMIN, W. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: _____. Magia e técnica, arte e política. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

CALLIGARIS, C. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004 – (101 Crônicas).

KAËS, R. Crisis, ruptura y superación. Buenos Aires: Cinco, 1979.

KAVÁFIS, K. “Ítaca”. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Trad. José Paulo Paes)

MERTEN, L.C. “Theo é Deus”. O Estado de S.Paulo, seção CINEMA, 24.03.2009.

QUINTANA, M. “Emergência”. Apontamentos de história sobrenatural. Porto Alegre: Globo, 1976.

RICOEUR, P. Tempo e narrativa 2ª. ed. Campinas: Papirus, 1994, tomo I.

SARLO, B. Tiempo pasado. Cultura de la memoria y giro subjetivo. Buenos Aires: Siglo XXI, 2005.

SERRES, M. Atlas. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.

VOLPE, A.J. Fotografia, narrativa e grupo: lugares onde pôr o que vivemos. Tese (Doutorado) em Psicologia Social e do Trabalho. São Paulo: Instituto de Psicologia/USP, 2007.


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