Entrevista a Laura Tussi sobre histórias de vida



Baixar 40.82 Kb.
Encontro19.07.2016
Tamanho40.82 Kb.
Entrevista a Laura Tussi sobre histórias de vida

Laura Tussi




  1. Você trabalha com histórias de vida há muitos anos. Quer nos dizer brevemente a sua experiência de estudos e valorização da memória histórica? Esta abordagem à história pode ser utilizada validamente para reconstruir a memória e transmitir a experiência e a sabedoria às gerações que virão, também em uma organização religiosa como a Congregação MSCS?

A minha experiência se baseia, sobretudo num percurso de pesquisa e valorização das historias de vida de pessoas e de personagens encontradas no curso de minha existência. Penso que toda pessoa tem o direito de se autonarrar, de dar uma representação tangível a historia da vida pessoal, sobretudo na ótica da autovalorização e recuperação de situações de risco, onde se faz caminho o mal mais insidioso a nível espiritual, ético e moral. O significado do método autobiográfico é cheio do valor imprescindível da transmissão da memória histórica individual entre gerações.


Nos grupos humanos pode acontecer uma ruptura entre memória coletiva, sedimentada e memória individual. Portanto, o individuo pode manifestar dificuldades, não conseguir compor e interagir a própria existência com outras experiências de vida. O testemunho devolve ao legítimo ator dos acontecimentos e ao ouvinte atento o sentido do estar na história, em si mesmos e por si mesmos, na imanência da atualidade do momento presente. Esta experiência pode desencadear outros percursos de re-equilíbrio sócio-comunitários lá onde, exatamente por causa das resistências individuais e incapacidades das pessoas à elaboração das vivencias, as relações e a história se detêm em formas de anonimato, senão até mesmo de hostilidade. A narração de si produz relações e recompõe percursos históricos restituindo-os à consciência.
As potencialidades da autobiografia e da narração de si são desenvolvidas quando a narração se torna escritura que estimula a introspecção e autoconsciência suscitando a concentração reflexiva sobre o próprio ser interior. A escritura da historia pessoal da formação da própria vida e existência abre a psique ao mundo externo e ao eu interior, estimulando processos de auto-reflexão. Assim, a re-elaboração das dinâmicas reflexivas permitem sempre ao narrador novas evoluções psíquicas, reabsorvendo e transformando pensamentos, sentimentos, sensações e estados de ânimo em um processo natural de experiências vividas e intuições, salvaguardando toda a riqueza da comunicação interpessoal. Por meio da escritura é possível atuar uma abordagem hermenêutica através da mesma atenção exigida pela compreensão textual, em um circulo virtuoso no âmbito dos re-envios recíprocos entre escritura e pensamento autobiográfico.
A narração de si favorece o acesso às historias dos elementos particulares dos indivíduos pertencentes ao grupo, onde a mistura dos acontecimentos narrados e ouvidos não devem perder o perfil do conteúdo experiencial, do significado intrínseco que cria pertenças e faz acontecer a participação altruísta. A especificidade da competência da pedagogia narrativa consiste em recolher, re-evocar, re-conectar, relembrar e relacionar historias e relatórios de acontecimentos que o grupo nunca escutou verdadeiramente com interesse. Este processo pede atenção ao conteúdo e ao significado implícito da autobiografia, atualizando assim, a transposição na modalidade da antiga função narrativa dos aedi, griot, e depois repentistas e cantores que narram, re-evocam acontecimentos para se inserirem em grupos e comunidades, através da exposição narrativa de historias e acontecimentos de vida que são re-atualizados, re-exumados do passado, da História e re-lançados para obter o encontro.
A narração como história de vida é o contar a memória, o que não deveria ser a lembrança do passado. A memória cultural e coletiva serve para interpretar o presente e prever, projetar e decidir o futuro. O conhecimento do passado permite ao grupo, à comunidade, coletividade ou sociedade, uma programação global do próprio sistema não coercitivo em sentido nobre e dinâmico, suscetível à mudança e às transições.
A memória representa para aquele que narra a busca de sentido de um acontecimento do passado baseado nas indicações do presente. Este é o grande estimulo do ponto de vista da didática da historia. São as interrogações do presente que levam a evidenciar certas situações e condições vividas no passado. Jedlowskji sublinha a memória como experiência, como um saber fazer e como experiência de saber. Ele é sociólogo, mas, desenvolve uma reflexão sustentando que a forte aceleração da nossa vida leva a uma crescente intelectualização dos contextos artísticos e culturais. E por outro lado, a não avaliar, não absorver e metabolizar as emoções sobre as quais a memória se apóia, como as afeiçoes e os aspectos emocionais, no âmbito dos sentimentos e das paixões que marcam os acontecimentos. A memória é a historia comentada da experiência do homem e da mulher, como afirma a Yourcenar, que faz dizer a Adriano: “Reconstruí muito, e reconstruir significa colaborar com o tempo no seu aspecto de passado, colher seu espírito e modifica-lo, lança-lo para um futuro mais longo...significa descobrir embaixo das pedras o segredo das fontes.”


  1. A revista Scalabriniane nel Mondo publica desde 1992 a narração de experiências socio-pastorais das irmãs mscs no mundo. Pode-se considerar esta documentação como ‘historias de vida’?Em quais termos?

A experiência pastoral se torna fulcro valorativo de uma narração individual e coletiva, em que a memória histórica assume múltiplos testemunhos no crivo da Historia que recolhe, seja as narrações de pessoas nos respectivos cotidianos como de chefes de Estados ou dos maiores personagens históricos. Uma organização como a de vocês, como toda a sociedade contemporânea necessita de processos de individuação porque atravessamos um período de forte risco de estandardização e homologação segundo dinâmicas e operações perversas impostas pelo sistema e pela mídia, voltados a erradicar o sentido da dignidade individual, pessoal, o valor e o significado de uma dimensão a nível intimo, pessoal, interior, através de mecanismos mercantilizadores de homologação, nos quais a vida interior, secreta, intima da pessoa cai no risco de achatamento e estandardização. Portanto, é necessário que um grupo humano, como uma instituição religiosa seja capaz de encontrar os seus meios para promover a narrativa.


A memória é guardiã do tempo porque nela é contido e mantido. Na memória, o tempo implode porque não é necessário recordar. Na verdade o recordar às vezes nos restitui, contemporaneamente, em um fotograma o inteiro prisma dos acontecimentos. A memória não é absolutamente a réplica de como os acontecimentos aconteceram e não é a restituição de como vivemos os diferentes momentos da vida. É um ato criativo mesmo. Verlaine lembrando um amor dizia: “lembro e lembro as horas e os encontros do melhor dos meus bens”. A memória pode ser uma testemunha inexorável. Existem seres humanos que ficam transtornados por não conseguir tolerar o que a memória entrega a suas consciências. Como sempre, o sol ilumina, mas também queima. Neste caso o sol está dentro de nós. Está em nossa mesma natureza. No entanto, até a nossa interioridade pode ser inauferível, paradoxalmente, porém pode ser observada e descrita e é destas descrições que precisamos. Existem combinações entre o exercício da memória e a dimensão do ser em companhia com outros, com outras historias, com outras vidas reais ou possíveis quando nós buscamos responder à condenação, à solidão involuntária como mal intimo para nós. São combinações inevitavelmente complicadas. A solidão voluntária, o solilóquio é ou pode ser um bem próprio porque nas circunstancias felizes parece uma forma de dialogo consigo mesmo como “outros”. Em tais circunstancias provamos a experiência de não sermos sós e de não ter sido deixados sós, validando a partilha na lembrança de outros acontecimentos, de outras historias que dilatam e alargam os confins do próprio ser conectando-se ao “outro” ou aos “outros”. O mal por excelência para nós é a condenação à solidão involuntária porque esta implica uma rápida desconexão entre nós, os outros, o mundo e enfim entre nós e nós mesmos no tempo.. O fato de ter ou não uma identidade e saber responder as perguntas sobre quem somos depende do equilíbrio instável, provisório, e, todavia precioso entre certeza e incerteza quanto ao reconhecimento e ser aceitos e identificados em certo modo por outros e em certos limites mais radicais por nós mesmos.
Todavia, nas relações entre solidão e identidade existe o exercício da memória. Somos homens e mulheres para os quais lembrar algo ou alguém ou esquecer pode ser objeto de juízos, de vitupério, de louvor, de recomendação, de proibição, interdição ou pedido. Todas as civilizações fundadas na oralidade, ou seja, da pré-escrita vêem uma enorme manobra de interdições, proibições, recomendações e mandamentos quanto ao lembrar ou ao esquecer.
Esta intrincada trama de juízos positivos ou negativos, de comandos e exortações que acompanham a memória e o esquecimento introduz uma vasta gama de questões. A complicação é introduzida pelo papel de nossas escolhas e responsabilidades respeito ao lembrar e o esquecer. O estado de lembrar ou esquecer algo ou alguém pode ser para nós um objetivo importante, objeto de preferência escolhida ou ao menos em parte de responsabilidade.
Cada instituição como cada cidade ou bairro deveria organizar a nível sócio-educativo laboratórios de narração de si, arquivos-museus da memória popular onde se guardam as histórias do povo que vive no território ou que não existe mais, mas que deixou traços de si no âmbito da comunidade. Desta forma cada pessoa fica inserida em um contexto relacional que se reconecta a outras esferas comunicativas concêntricas até formar histórias de vida, de história popular inseridas na História global com o “H” maiúsculo e desta ultima são causas propulsoras.
O encontro com a alteridade, sobretudo quando esta se torna portadora de sofrimento e mal estar, realiza e pressupõe sempre um intercambio cultural, ou seja, o especifico caracterizante do operador e também daquele que sofre, que se podem encontrar também em contexto transcultural. O mundo da globalização está progressivamente encontrando o processo e o fenômeno da creolização das culturas, portanto é difícil imaginar fronteiras mais ou menos virtuais e mais ou menos portadoras de dor, sofrimento e mal estar que subdividam o mundo em um mosaico de cultura. É necessário e indispensável levar em consideração o paradigma ou parâmetro cultural no encontro com o outro, independentemente das origens étnicas e da proveniência, cujos contextos permitem perceber as diferenças simbólicas, as diversidades semânticas, na analise detalhada da variedade de linguagens, no sofrimento e no mal estar de matriz bio-psicossocial que muitas vezes brotam em dependência das raízes culturais e etnocêntricas.
A cultura é partilha de símbolos e significados como a diversidade cultural é um modo diferente de considerar a própria interioridade através de uma concepção “outra” do próprio estar-no-mundo. Reabrir o dialogo com uma adversidade desencadeia um processo de adesão ao novo em modo critico e reflexivo, com o resultado de atribuir sentido e espessura ao sofrimento, contextualizando-o no âmbito de uma trama narrativa existencial e pessoal, no âmbito da historia de vida do sujeito e de sua dimensão cultural, étnica, racial.


  1. Qual é a importância da utilização das histórias de vida hoje? De que modo a narração de uma pessoa sobre a sua vida e experiência pode favorecer a integração e as relações em contextos locais como os nossos marcados pela presença simultânea de diversidades culturais, lingüísticas, generacionistas e até mesmo, étnicas?

Somente tornando-se atores do próprio ser, protagonistas conscientes da história pessoal de vida e de formação será possível recuperar os valores do altruísmo, da solidariedade, da acolhida, do confronto e enriquecimento cultural, interétnico, do intercambio e aceitação, não falsamente e hipocritamente tolerante, do outro, do diferente, do imigrante, do estrangeiro portador de mudanças e novidades. Um compromisso cultural de memória autobiográfica exercita um extraordinário valor educativo, criativo, recreativo e cultural na sua pratica concreta de formação permanente, conseguindo assim alcançar objetivo fundamental de recuperar e de proteger as especificidades das várias e diferentes experiências subjetivas e sua respectiva unicidade.


A memória pode perseguir o desejo, o sonho, a ilusão que desde sempre acompanha-nos como seres humanos, ou seja, de tentar parar o tempo e sobreviver ao nada...O sonho buscado e perseguido nas alucinações e nos desejos pode encontras às vezes somente um reflexo concreto lá onde a memória se torna autobiografia e se encontra com a escrita e é por esta capturada, onde os eventos, os rostos, os sonhos, os desejos são retidos pela emoção do escrever.
Tudo isso se opõe àquilo que é aleatório, esporádico, passageiro, efêmero como quando a lembrança propõe à mente as pessoas queridas, os acontecimentos, as imagens, os fantasmas do passado. O escrever é um ato de heroísmo cotidiano na tentativa de reter a lembrança e lutar contra o oblio inexorável, cruel que na realidade se encarrega de deixar-nos algo. É o grande protagonista de nossa existência porque doa a possibilidade de rememorar novamente. Quando a memória se transforma em texto escrito e autobiografia e obedece ao sentido e ao fim da reflexão escrita, nascida para lutar contra o efêmero, para ajudar-nos a reter por mais tempo os traços de nossa passagem pela existência, toma forma de escrita de nós mesmos que busca fazer reflorescer as imagens perdidas. Nascem os diários íntimos, os epistolários, as autobiografias na busca de um tempo perdido, de um traço tangível da nossa breve parada na realidade do ser. Cada vida merece um romance, um conto, uma página de diário, uma poesia e alguém deveria poder recolher esta mensagem.
A experiência de escrever sobre si mesmo necessita de rituais em momentos imprescindíveis sem os quais não se cumpre o desafio contra o oblio lancinante. Uma das condições para escrever é a solidão. A solidão é a capacidade de apreciar e agüentar a relação interior intima com o próprio ser, alma dos conflitos, medos, angustias, trabalhos penosos do viver, narcisísticas aspirações patéticas de sobrevivência ao tempo, inexorável correr dos acontecimentos, devastador esquecimento que permeia a realidade pós-moderna. Às vezes levantamos da escrivaninha, no quarto das lembranças e das solidões viscerais com a impressão que o mundo interior tenha mais significado que o mundo real. O estar só é condição e convicção, portanto todo nosso trabalho criativo não é algo a ser ensinado, mas algo a ser tragicamente conquistado. Seguidamente as pessoas evitam a solidão, que acaba não sendo considerada uma pratica humana necessária, um valor intenso. Quem não evita de estar só, em relação com a própria interioridade se encontra inevitavelmente com o escrever, com a exigência de se tornar outro em respeito a si mesmo, de dar formas às imagens de um passado muitas vezes doloroso. Pode-se também sublinhar que a narração de si evidencia e suscita a mudança, enquanto a narração da própria vida é um laboratório de criação e atribuição de sentido e significados, de onde parte uma transformação, uma oportunidade de crescimento.
A narração da historia pessoal de vida emancipa o sujeito de qualquer risco de manipulação, de “revisionismo histórico” da própria existência. A autobiografia1 resulta um método pedagógico re-cognitivo que põe uma historia diante do seu legitimo autor reconstruindo e relembrando uma historia pessoal, no desejo de auto-representação que gera um espelho de acontecimentos partilhados por outros. O segredo do altruísmo e da alteridade à qual atende o biógrafo consiste na capacidade de ser no “aqui e agora” e nos tepoi do passado, gerando e suscitando a reminiscência de si (anamnese) em uma perspectiva de bi-locação cognitiva: capacidade de se descobrir dotados da possibilidade de “dividir-se sem perder-se” na relembrança re-evocativa dos acontecimentos. A autobiografia não representa somente o lugar do retorno àquilo que se foi no passado, mas o desejo de novas explorações nas sinuosidades da existência, onde a memória resulta depositaria da experiência, consentindo à re-cordação de tomar forma. A autonarração resulta, na verdade, em uma tomada de distância para rever e verificar o desenvolvimento evolutivo pessoal e narra-lo à alteridade/altruísmo, em uma perspectiva reapropriação da responsabilização individual respeito à própria autoformação.


  1. As histórias de vida têm também um valor pedagógico e terapêutico para as pessoas que fazem tais narrações. Poderia ilustrar melhor esta convicção?

A narração autobiográfica evidencia claramente o seu poder curativo enquanto representa um eficaz instrumento terapêutico, educativo e formativo utilizável com diversas tipologias de usuários. A exigência da intima narração de si brota muitas vezes do mal estar e do sofrimento existenciais e também a nível psíquico que desabrocha na ajuda da palavra em uma re-elaboração mental medicamentosa em relação a dor interior. A ação confortante ocasionada pela narração consiste na potencialidade de exteriorizar as dificuldades implícitas (White, 1992) em uma condição liberatória gerada pela expulsão simbólica dos fantasmas interiores porque a narração comporta a necessária tomada de distância indispensável à aceitação e à elaboração das vivências dolorosas e problemáticas. Neste sentido verifica-se muitas vezes nas narrações autobiográficas o uso da terceira pessoa e a freqüência de analogias, metáforas, heterônomos que constelam as narrações pessoais como estratégias para se dualizar ou duplicar, tornando-se outros de si, projetando simbolicamente o mal estar e as dores intimas e pessoais sobre figuras vividas como desdobramento do narrador. Muitas narrações dramáticas manifestam uma forte qualidade teatral reconduzível, neste caso especifico, ao processo projetivo de distanciamento através da catarse autobiográfica, na realização de um equilíbrio interior benéfico. O aspecto lenitivo do narrar sobre si não depende do ambiente contextual circunstante, mas extrai fonte direta do mesmo autor, em qualidade de artífice e ator, que age em modalidades espontâneas.


A autobiografia como todas as formas de narração de si é sempre uma hermenêutica do existente, representa uma possibilidade de comunicar com as varias identidades a nível individual e recuperar, reapropriando-se da história de si para viver melhor as diversidades inter-subjetivas, consigo, para os outros. Compreende o ato simbólico, mas efetivo do doar e re-entregar ao presente para enfrentar o futuro com renovada consciência, os traços, os sinais do tempo de uma memória re-exumada através da “pedagogia da memória”, para reconstruir e recuperar uma identidade a nível individual, local, nacional, global da complexidade ontológica do existente, na consciência de um mais extenso conceito de educação e cultura militante.


  1. Portanto a narração de si não é somente um modo para dizer-se, mas é um modo para comunicar e até mesmo ‘dar’, por exemplo, em uma ótica de relações de ajuda ou nas relações intergeneracionais?

A memória re-confirma as identidades tornando-as legitimamente verdade, dignidade, justiça. Portanto, uma forte identidade sufragada pela lembrança através da narração em relação com outros, re-evocativa dos acontecimentos vividos, reforça a memória individual inserida por meio de nexos inter-relacionais. A busca do próprio passado nas raízes do tempo pode funcionar como coadjuvante para iluminar o próprio presente e a narração da atualidade cotidiana permite reavaliar o passado sob uma outra ótica e visual. A introspecção autobiográfica lança um olhar aéreo através das estreitas sinuosidades, das amplas clareiras, das ásperas descidas, dos horizontes serenos das nossas existências, que leva a conferir um sentido global, um amplo significado ao cenário complexo da vida, facilitando a compreensão dos nexos interconexos, dos significados profundos e recônditos, evitados ou não ainda compreendidos e aceitos.


A memória é mapa para se orientar entre passado, presente e futuro. Sem a memória não se pode escandir o tempo, conectar-se ao passado ou ao futuro, nem existe o preço do sentido da vida. Este fenômeno acontece nas sociedades em crise que mudam radicalmente os parâmetros da vida coletiva. A promoção da narração da memória em uma comunidade é ato cultural e antropológico para as pessoas que narram não menos para aquelas que hoje ou amanhã poderão ler e reencontrar, naquelas linhas, traços de identidade e indicações de percursos construtivos de identidade e interpretativos da historia.


  1. Pode-se afirmar que narrar a própria experiência tem a ver com a feminilidade? Como as comunidades de mulheres consagradas, podem valorizar a utilização da para transmitir e até mesmo para ‘gerar’?

A escrita sobre si, poesia, a narração como contribuição autobiográfica, através da pedagogia da memória narrativa do passado, da história resultam praticas criativas que constituem importantes e significativas ocasiões de interiorização de valores intergeneracionais e de introspecção, onde a força motriz da educação consiste no desencadear o estímulo da recuperação e da reavaliação de um recurso interior de uma forma mentis criativa e recreativa, catártica porque é regenerante, no despertar de uma consciência pessoal, individual da qual cada história constitui uma experiência, uma vida e um dialogo interior. Estes podem reunir, fazer encontrar em comunidade e em afinidades para recuperar o próprio ser, para se reencontrar subjetivamente e individualmente, aprendendo a tolerar e elaborar condições inevitáveis de solidão existencial, mesmo pertencendo a um todo.


Assim, nós mulheres interagimos, operamos uma pequena realidade, em um definido e delimitado lugar de educação, em situações circunscritas que nos apaixonam rebuscando nas minúsculas dimensões do agir cotidiano em que “educação e vida” se compenetram. Aprendemos, escrutando quanto a existência possa ser educativa e ao mesmo tempo deseducativa, levando-nos a aprender e desaprender, consentindo-nos um olhar a mais sobre os grandes cenários sócio-culturais. Aprendemos, sobretudo refletir e considerar, relembrando, a nossa vida cotidiana no âmbito da nossa história subjetiva, sempre em crescimento, com o voltar-se sobre si através da recordação dos acontecimentos. Tudo isso implica num conceito de autoformação, autoreflexividade e ocasião de aprender e conhecer durante o curso da vida e da experiência em relação aos fatos cotidianos e aos raros ápices, ao nascer, ao morrer, como as vicissitudes existenciais grandes ou pobres que cada um de nós vive. Trata-se de cultivar uma própria biografia e de nos interrogarmos sobre quanto, em nossas pequenas realidades no nosso cotidiano, nas dobras da existência, nas suas situações marginais, podemos colher como experiências potencialmente educativas. Os amplos cenários analíticos e críticos do universo feminino compreendem aspectos reconduzíveis a um pensamento complexo que reencontramos sintetizado em nossa cotidianidade, nas nossas relações com qualquer entidade, em uma dimensão menor, mais cotidiana e minúscula, propriamente micro pedagógica, da educação. Mas não por isso menos importante. A via da introspecção da análise e do domínio de si, da busca de algo que é fugaz em nossa cotidianidade, é para todos nós, homens e mulheres, fonte de autoformação.


  1. Scalabriniane nel Mondo continuará a publicar textos de histórias e de vida das irmãs mscs. Quais são os aspectos importantes a considerar na redação de um texto narrativo que queira ser valorizado como história de vida?

O primeiro aspecto a considerar é que a memória é sujeita ao oblio do tempo, ao cancelamento e remoção. É continuamente manipulada. Quem plasma hoje a memória coletiva? Oscila-se entre a opinião que não existe memória ou que é produzida pela mídia mesmo que mais do que memória a mídia gera um senso comum. A construção da memória exige necessariamente relações interpessoais, enquanto que os meios de comunicação de massa compõem uma operação autoritária porque a mensagem resulta unívoca, com a qual não se pode interferir ou interagir. É um conteúdo não participado dialogicamente, dialeticamente, através da interação relacional e racional entre sujeitos, como ao invés poderia ser uma atividade de narração de si ao interior de uma instituição como faz Scalabriniane nel Mondo.


A memória coletiva deve marcar passo com as relembranças individuais, com a tomada de consciência de possuir uma personalidade inserida no mundo, atriz protagonista da Historia dos tempos, dos acontecimentos tecidos por homens e mulheres, através da recuperação da dignidade da narração de si, através do discurso autobiográfico. A narração de si ajuda a pessoa em causa a interpretar e valorizar a existência pessoal em modalidades artísticas e potencialidades criativas, aprendendo a refletir, a colher e a elaborar em modo espontâneo, os nexos, as conexões, os entrelaçamentos, as interconexões e os vínculos entre os acontecimentos. Se a revista Scalabriniane nel Mondo favorece um tal processo, o seu trabalho tem mais é que ser encorajado.

 Professora de Letras e Jornalista. Ocupa-se de temáticas relativas ao âmbito das ciências humanas. Escreve em diversas revistas entre as quais www.psicopedagogika.it e www.didaweb.net.

1 A escrita sobre si mesmo, sobre a própria história de vida ou autobiografismo consiste essencialmente em uma pratica pedagógica, comunicativa, de longa tradição já utilizada em tempos antigos por Marco Aurélio, S. Agostinho, Pascal, Rousseau e, em seguida também por toda a literatura feminina relativa ao tema da emancipação da mulher no ‘900 (De Beauvoir, Cardinal, Aleramo, Weil). O método (auto) biográfico inicia a se desenvolver como corrente educativa, em situações de grande pobreza e miséria existencial, em torno da figura do grande estudioso Paulo Freire que preparava um a nova pedagogia social, “da estrada”, recolhendo e utilizando as trágicas historias de vida dos sem-terra nas favelas brasileiras (anos 60 e 70). Literatura pessoal ativa, narração em primeira pessoa é autobiografia (do grego AUTOBIOGRAFÉ), ou literatura pessoal passiva ou biografia, quando os autores escrevem historias de vida de outros.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal