Entrevista com Neto Rocha e Marcello Gabbay, de o campo e a Cidade



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Encontro31.07.2016
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Entrevista com Neto Rocha e Marcello Gabbay, de O Campo e a Cidade
Disponível em vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=FG_SP_fzl0I

Junho de 2013, Casa de Mario de Andrade, São Paulo.


P: Qual a origem do nome/conceito “O Campo e a Cidade”?
Marcello: O nome “O Campo e a Cidade” se originou de um livro do escritor inglês chamado Raymond Williams, que é um dos expoentes dos Estudos Culturais Britânicos, na década de 1960. É um livro que analisa a relação idílica com o campo, o interior, em contraponto a vida na cidade, através do texto literário.

Então a ideia era a gente se juntar em dupla, e trabalhar uma série de canções que, direta ou indiretamente, abordasse essa relação entre o campo e a cidade, sendo a cidade materializada numa experiência paulistana, quer dizer, na experiência da vida em São Paulo, na maior, talvez a única legítima, megalópole brasileira, a maior cidade da América Latina; e um ponto de encontro – durante muitos momentos do século XX foi e agora volta a ser – de artistas independentes. Então, a nossa chegada em São Paulo, duas pessoas que vêm de territórios bem distantes, culturalmente bem distantes, apesar do Neto ser do Estado de São Paulo, mas culturalmente de um cotidiano bem diverso do dessa capital, e eu do Pará, falar sobre essa experiência por meio da canção.

Então “O Campo e a Cidade” ao mesmo tempo diz respeito a esse paradoxo da vida na cidade com a cabeça num certo ideal campestre, ideal de território, de origem, de pertencimento, que é sempre ideário, é sempre imaginado. E ao mesmo tempo a coisa da ambiguidade de uma dupla, o campo de um lado e a cidade de outro, então há uma balança, um contrapeso entre aquilo que é do interior e aquilo que é da metrópole, mas também aquilo que é da saudade e aquilo que é da esperança, aquilo que é do bom ou do mal humor, enfim, toda dupla carrega um nível de contradição, então diz respeito a isso também.
P: Sore a forma dupla, o se extrai de bom daí?
Neto: Trabalhar em dupla primeiramente é... O formato, por ser pequeno, é mais fácil de você transportá-lo, como um show de bolso, você pode ir pra qualquer canto, não importando se esse espaço é pequeno ou grande.

Um outro fator, é porque é mais fácil também, você não tá lidando com uma equipe inteira, com cinco pessoas dentro de um grupo, são ideias... Apesar de duas pessoas terem ideias diferentes, é mais fácil de você conseguir trabalhar elas, juntas.

Por exemplo, a formação dos instrumentos. Eu e Marcello somos instrumentistas, baixista e violonista, instrumentistas de cordas. Então, a gente consegue, por exemplo, usufruir de alguns instrumentos de cordas, e de todos eles, no show. Então, é o banjo, o ukelele, o violão, violão de náilon, o contrabaixo. E contrapor à falta dos instrumentos, por exemplo dos instrumentos percussivos, o uso da percussão que há nos instrumentos de corda, na batida, ou no tipo de arranjo que está sendo feito.

Então, no disco, por exemplo, vocês vão encontrar alguns instrumentos percussivos que não são instrumentos. Por exemplo, uma cadeira de madeira, uma mesa de madeira, copos de vidro, taças de champanhe com águas, pra equilibrar o tom.

O que mais a gente usou?

O garrafão de água. E aí, na mixagem, a gente usa como se fosse uma bateria mesmo. Então tem essa percussividade. Mas como a gente não consegue fazer isso tudo sozinhos no show, pois temos que tocar os instrumentos, a gente tenta tirar a percussividade do próprio instrumentos... das cordas.


Marcello: Tem um caráter artesanal nisso que remonta ao formato de dupla também, porque são as duplas que, remotamente na história da canção brasileira, faziam esse trabalho meio mambembe, meio nômade, de botar na sacola o seu violão e aí ir aonde o povo está, de território em território levando a sua canção.

Então a canção tem esse caráter artesanal por um lado, e por outro lado é de bolso. É uma expressão artística que você leva no bolso, que você monta e desmonta, quase como um ato circense.

E a gente foi se dar conta que existe na história fonográfica da canção brasileira uma tradição de duplas, ligadas àquilo que se entende como a MPB.

As décadas de 1970 e 80 foram frutíferas em duplas. Teve Sá e Guarabira, Kleiton e Kledir no Sul. Depois teve duplas menos duradouras, mas muito frutíferas também, como Moraes Moreira e Pepeu Gomes, Vinícius e Toquinho. E internacionalmente as duplas como Paul Simon e Art Garfunkel.

As duplas estão sempre ligadas a um trabalho menor, e relacionado com o território, com a memória de um pertencimento. Estão sempre ligadas de alguma forma ao interior, ao campo, e a experiência de saudade, de deslocamento rumo a cidade.
P: Qual o estilo, onde se rotula a dupla?
Neto: Bom, o estilo tem sido uma conversa muito complicada pra gente, nos últimos dias, porque você definir, rotular... Na verdade, tem muito rótulo hoje em dia. E se você fala que é MPB, você rotula pra MPB, que eu imagino que seja Caetano, Chico, Gil. Se você rotula pra uma música popular brasileira, no pop, por exemplo, você vai pro rock and roll dos anos 1980. Se você rotula pela bossa nova, enfim. Eu acho que é mais música brasileira mesmo.

As influências são essas. A influência vem dessas duplas que foram faladas pelo Marcello mesmo. A influência mineira é muito grande, por exemplo, a música mineira de Lô Borges e de Milton Nascimento, de Beto Guedes. A música do Sul, a música o Pará, de Nilson Chaves, de Vital Lima.

Então, eu acho que a gente mesclou tudo isso, e tentou de uma certa forma transferir isso pra nossa música. Então, se tivesse um rótulo, seria uma música brasileira.
Marcello: E se tivesse um rótulo mais preciso, seria essa coisa da canção.

E todas essas duplas, elas se definem como duplas cancionistas. Os próprios Nilson Chaves e Vital Lima são uma dupla que teve efetivamente um disco, que se chama “Interior”, por acaso. Da década de 1980, 1984 se eu não me engano. Um único disco chamado “Interior”, que é um disco de canções.

Então o que é o estilo cancionista, o cancioneiro? É uma música que preza pela brasilidade no sentido das múltiplas referências que a gente tem no país, mas preza também por essa dicção, por essa fala do cantar. E pela sonoridade das cordas, que é muito marcante pro Brasil.

Todas as regiões do Brasil são perpassadas por várias formas de recuperação das cordas. Desde o samba, desde as músicas regionais, tradicionais, até na música mais contemporânea, o violão, graças a compositores, artistas como Heitor Villa-Lobos, passa a se tornar, no século XX, o instrumento do nosso país. A corda, a nossa pegada.



Então, quer dizer, eu acho que o estilo é a canção.
Neto: Cancioneiros.
Marcello: É, cancioneiros. De voltas às raízes, de volta ao mambembe, de volta a uma certa rudimentaridade, que está na moda hoje, graças a toda uma cena independente. Está na moda derrubar os rótulos, retornar às raízes daquele músico que vai, que anda, que peregrina.
Neto: A gente coloca no bolso, na mochila, no caso, na mala, na bag, e toca em qualquer esquina. Qualquer tipo de música se pode tocar. Então se encaixa realmente na música brasileira, na canção, no cancioneiro.




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