Entrevista n.º 7 Profissão: Enfermeira



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Encontro30.07.2016
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Entrevista n.º 7

Profissão: Enfermeira


E: Na sua opinião, o que é um doente mental?

e: Um doente mental é aquele que, segundo a OMS…a doença é ausência de bem-estar físico, mental e social. Portanto, o mental faz parte daqueles problemas a nível de adaptação, de alterações de pensamento, quer seja sobre a forma, conteúdo. Podemos considerar uma doença mental uma pessoa que tenha dificuldades em adaptar-se, também. Uma abrangência de tudo o que é o doente mental. É toda a pessoa que tem alterações ao nível do seu processo mental, seja ele de adaptação, seja ele de personalidade, seja ele de alterações de conteúdo, de forma, de pensamento. Uma pessoa que é incapaz de lidar com o seu dia-a-dia e provoca alterações a nível do sistema nervoso.

E: Qual é a importância da sua profissão no tratamento e reabilitação do doente mental?

e: É muito essencial. Se há uma pessoa que tem dificuldades de adaptação e se está doente, à partida, tem as suas necessidades afectadas. O enfermeiro cuida. Este cuidar é um acto de tentar ajudar o outro a adquirir essas capacidades que estão alteradas. Logo aí temos um papel essencial com a pessoa, no seu dia-a-dia, ajudá-la no seu dia-a-dia a ultrapassar essas dificuldades. E estar lado a lado com ela no sentido de lhe dar todo o apoio e pode ser uma mais-valia de informação para que ela possa ultrapassar esse processo.

E: Como é que é prestado esse apoio?

e: É no sentido de tornar a pessoa capaz de…dependendo da fase da doença. Se está na fase inicial, aí o cuidar…nós vamos cuidando pelas alterações que a pessoa apresenta. Nós não tratamos a doença, tratamos a pessoa pela manifestação que ela tem. Portanto, o enfermeiro aqui não trata uma doença, trata uma pessoa com o sintoma que ela associa. Então, fazemos um plano de cuidado com aquilo que ele necessita para a sua estabilização, e vamos tentando, depois, trabalhar essas questões, quer seja o ensino de formas de lidar com a ansiedade…um conjunto de processos que… o cuidar em saúde mental é mesmo isso, é estabelecer com o utente um conjunto de intervenções que lhe permitam a ele ultrapassar as dificuldades que está a sentir.

E: Na sua opinião, como é que um maior ou menor período de internamento interfere no processo de reinserção social?

e: Eu penso que o tratamento de um doente do foro mental é um tratamento que deve acima de tudo ser feito no seu ambiente. Portanto, quanto mais prolongado for o internamento, esse afastamento vai tornar mais difícil a sua integração. Contudo, não estou com isto a dizer que em situações específicas em que haja algum risco para o próprio de estar no seu meio, que não seja necessário o internamento para protegê-lo um pouco, adquirir uma força ou uma forma de estar para depois ultrapassar essas dificuldades que tem no meio ambiente. Mas acima de tudo, o processo de internamento mais prolongado limita depois o processo de reinserção. O período deve ser o mais curto possível, e o internamento que seja uma situação aguda…de agudização de uma situação para dar resposta. Deve ser privilegiada a comunidade e o meio ambiente do doente.

E: Relativamente a esse assunto, queria a sua opinião em relação à psiquiatria comunitária.

e: Estamos a avançar. Até aqui a psiquiatria era um parente pobre. Pela evolução da história…o doente era colocado o mais longe possível da comunidade. Estamos, acima de tudo, a avançar agora. Já começámos a expandir mais. O hospital psiquiátrico deixou de ser tão fechado, passou a abrir mais as suas portas. E agora, prevê-se que de futuro isso venha ainda a aumentar mais, e serem os técnicos a deslocarem-se à comunidade e não o doente ao hospital. Apesar de ainda não termos atingido o ponto ideal, penso que estamos a caminhar no bom sentido.

E: Como é que o hospital passou a abrir as suas portas?

e: Pronto, a partir do momento…inicialmente os doentes eram internados, e nós vemos pela própria história do hospital que aqui temos, que os doentes eram colocados aqui e ficavam de uma forma indefinida. Ainda temos bastantes doentes residentes. Neste momento não. Há um contacto já com a família, tenta-se estimular a família a vir, tenta-se ir ao meio, a própria reinserção…o doente, todo o processo de internamento…desde que o doente entra tenta-se o contacto com alguém do meio, que haja um contacto com a família, com as pessoas significativas, no sentido de estimular esse acompanhamento. A partir do momento que se construiu uma equipa multidisciplinar, conseguiu-se evoluir. Hoje em dia já não é o modelo biomédico que persiste, há uma equipa multidisciplinar a tratar do doente. Essa abertura tem pernas para continuar a andar.

E: O hospital promove essa integração do doente mental?

e: Penso que sim. Inclusivamente, neste momento temos o Serviço de Reabilitação, temos o Hospital de Dia, uma série de valências que foram criadas para promover essa questão. Se calhar não estamos no ideal que devia ser, mas está a avançar. Estão a dar-se os passos, estamos a aprender a andar.

E: Onde se manifesta a exclusão social do doente mental?

e: A todos os níveis, a doença mental ainda é difícil de compreender. A pessoa com uma aparência dita «normal» manifesta o seu mal-estar, a sua incapacidade para lidar com determinada situação. O que acontece é que as pessoas como não conseguem ver muitas vezes um ponto ligado à doença, como uma perna partida, a pessoa tem dificuldade em aceitar o outro com as suas características peculiares e com a sua doença mesmo. Essa dificuldade, muitas vezes, em aceitar a diferença do outro é que faz com que o doente seja excluído, é nesse sentido. E também tem a ver muito com a falta de informação. Uma das áreas de futuro passa pela psico-educação das pessoas. Afinal o que é a doença mental? Como é que devemos lidar com essa situação e como é que podemos ajudar o outro a ultrapassar essa situação.

E: E o doente mental, auto-exclui-se?

e: Se formos para o diagnóstico médico, há alguns que apontam isso mesmo. O doente se calhar dá uma resposta de acordo com a resposta que tem, com o fedd-back que tem a nível familiar e social. Penso que por vontade própria ele não se auto-exclui, de forma nenhuma.

E: Qual é que é o papel da família no tratamento e reinserção do doente mental?

e: Basta que nós somos seres sociais, o Homem não consegue viver sozinho. Tem de estar rodeado pela família, e quando eu falo em família falo em pessoa significativa. Nós todos temos de ter essas ligações, porque sozinho ninguém consegue sobreviver. Quem está mais próximo é a família ou a pessoa significativa, e o seu papel fundamental é esse. É a primeira ligação. Se falarmos no grande núcleo, há a pessoa, depois à volta há a família, depois existe comunidade, depois existe…a pessoa se não tiver a família ao lado ou a pessoa significativa, aí é difícil a pessoa reinserir.

E: Pela sua experiência, a família é apoiante?

e: Depende. Neste momento, podemos dizer que a família está mais desperta para. Antigamente, e também porque as políticas mudaram…antigamente a pessoa era internada e ficava. A família ia visitar e demitia-se do dever que tinha para com o outro. Neste momento a família não se demite tanto. Aquilo que acontece muitas vezes é que há um estado de saturação, quando a doença é uma doença crónica, com dificuldades de se adaptar e até de se restabelecer após a situação de agudização da doença. A família aí fica um pouco cansada…fica cansada e necessitam de um certo alívio. Essas famílias não são tão apoiantes, porque já estão muito saturadas. Mas podemos dizer, e uma vez que estamos hoje aqui na consulta de gerontopsiquiatria, posso-lhe dizer que aqui é raro o doente que venha sozinho. Vem quase sempre, habitualmente, ou com alguém de família ou com uma pessoa significativa.

E: Nos últimos meses foram internadas algumas doentes menores, qual é a sua opinião relativamente a esse facto?

e: Mais uma vez friso que o internamento é o último passo, é o objectivo final. Ou seja, é a atitude final que devemos ter numa cadeia final de apoios que existem. O internamento de menores num contexto, num serviço que tem múltiplas patologias, doentes de todas as idades, não vejo que seja benéfico. Não vejo porque não são compreendidas pelos outros, e quando digo outros são as outras doentes, o serviço também não está estruturado, não tem uma capacidade de resposta para a idade delas e depois acho que dificulta mais…e vêm adquirir determinados hábitos que se calhar não conheciam alguns e vêm aqui… penso que o internamento de adolescentes devemos sempre equacioná-lo…

E: Seria preferível um internamento numa instituição educacional?

e: Podemos partir por aí, que é uma das respostas. Colocá-las num serviço de psiquiatria que está vocacionado para outro tipo de cuidados não é o melhor. As instituições educacionais podem ser o mais desejável para dar resposta às utentes adolescentes.

E: Qual é a sua relação com os outros técnicos de profissões distintas?

e: Tenho uma boa relação. Acho que há uma boa abertura, há diálogo. Cada um tem o seu papel e o objectivo é comum, prestar um cuidado de qualidade ao doente. Eu falo por mim, não tenho problemas nenhuns.

E: Existe a equipa multidisciplinar, e o trabalho?

e: Há equipa, trabalho não há tanto. Há certos casos que podiam ser mais discutidos. Cada profissional podia dar mais a sua colaboração, de acordo com o seu papel no contexto geral. Não há muita interacção, tirando uma ou outra situação, os casos são só discutidos na reunião de serviço.



E: Bom, terminámos. Obrigada pela sua colaboração!



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