Ernesto Bozzano Breve História dos “raps”



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Ernesto Bozzano
Breve História dos “raps”
Título Original em Italiano

Ernesto Bozzano - Breve Storia Raps

Roma (1911)

As Irmãs Fox

(Margaret, Kate e Leah)




Conteúdo resumido
Ernesto Bozzano faz um estudo compacto dos conhecidos fenômenos denominados “raps” (pancadas produzidas por entidades mediúnicas), que serviram, particularmente no início da expansão do Espiritismo com as Irmãs Fox e outros, para chamar a atenção dos seres humanos sobre a existência dos seres espirituais e, conseqüentemente, a sobrevivência do espírito além da morte do corpo físico.
Sumário

Breve história dos “raps”
(golpes medianímicos) 2

1
Os “raps” nos fenômenos de assombração 4

2
Os “raps” nos fenômenos telepáticos 12

3
Os “raps” nos fenômenos mediúnicos 22

Conclusão 48




Breve história dos “raps 1
(golpes medianímicos)


O prof. Charles Richet, em seu último livro A Grande Esperança, se expressa nos seguintes termos a respeito dos “golpes medianímicos”:

“Um dos fenômenos físicos mais belos da Metapsíquica são os raps (golpes), porém não é fácil obter golpes bastante sonoros de modo a podermos ouvi-los com clareza. Eis em que consistem: Se, num grupo de experimentadores, entre os que colocam as mãos sobre uma mesa, se encontra um médium de certa potencialidade física, percebem-se, ocasionalmente, vibrações sonoras na estrutura da madeira. Muito amiúde, essas vibrações sonoras, que o médium não pode produzir todas as vezes que suas mãos repousam imóveis sobre a mesa, são de natureza inteligente.

A história dos raps é interessante e eu aconselharia um jovem metapsiquista a escrever uma monografia pormenorizada acerca dos mesmos.” (pág. 221).

Já não sou um jovem metapsiquista, porém me disponho a satisfazer o modesto desejo do prof. Richet, ainda que tenha de fazê-lo de forma sumária, pois que é largo o caminho a percorrer, ao passo que o fenômeno em si, se o considerarmos do ponto de vista apenas físico, não se mostra suficientemente variado em suas modalidades de manifestação a ponto de revelar-se interessante e esclarecedor, se bem que, considerado o seu caráter freqüentemente inteligente, possa resultar teoricamente importante e até mesmo assaz valioso, tanto quanto qualquer outra forma de manifestação metapsíquica.

O fenômeno dos “golpes supranormais” se produz nas seguintes categorias de manifestações metapsíquicas:


  • nos fenômenos de assombração;

  • nos fenômenos telepáticos;

  • nos fenômenos mediúnicos.

Neste último caso, os “golpes” podem ser espontâneos, experimentais ou produzidos a pedido, nas proximidades ou em locais afastados do médium.

Não me deterei em ilustrar a história dos “golpes medianímicos” antes do advento do Neo-Espiritismo, limitando-me a observar, a tal respeito, que, assim como todos os demais fenômenos supranormais, este também se produziu através de todos os tempos e entre todos os povos: civilizados, bárbaros e selvagens.

A categoria a que se refere o prof. Richet é a dos “golpes” nas experiências medianímicas, categoria que, do ponto de vista teórico, é também a mais interessante. De acordo com sua vontade, proponho ocupar-me, sumariamente, das duas primeiras categorias, para estender-me mais longamente sobre a terceira.

1
Os “raps” nos fenômenos de assombração


A manifestação dos “golpes supranormais” quase nunca deixa de produzir-se nos fenômenos de assombração, com o seu caráter geralmente físico (poltergeist).2 Nos casos chamados de “apedrejamento” ou dos fenômenos das campainhas que soam ininterruptamente, também se notam com freqüência fatos dessa natureza, o mesmo sucedendo nas manifestações fantasmagóricas, quando se percebem audições que acompanham os “golpes” e outros ruídos, ocorrências que geralmente servem para chamar a atenção dos percipientes para tal ponto da habitação ou de um lugar qualquer em que se manifesta a aparição.

O prof. Richet faz notar, com toda razão, que nas experiências medianímicas a sonoridade dos “golpes” é raras vezes acentuada, a menos que se disponha de um poderoso médium de efeitos físicos. O ruído é, entretanto, bastante acentuado nos fenômenos de assombração, nos quais os golpes, as pancadas, as quedas e os estouros são muito comuns.

O momento não é chegado de dispor-me a investigar sua gênese do ponto de vista assombratório, tanto mais que o tema particular se identifica com outro de ordem geral, relacionado com a origem das próprias manifestações, tema por demais intrigante e misterioso, a requerer uma análise mais minuciosa e que já o fiz em meu livro Les pnénomènes de Hantise (Os fenômenos de assombração), ao qual remeto meus leitores que se interessarem por tão perturbador quão fascinante assunto.

Feita esta explicação, ofereço, sucintamente, alguns exemplos típicos desta categoria.


Caso 1


No famoso caso de assombração no vicariato de Epworth (Inglaterra) descrito pelo Rev. Wesley (fundador da seita metodista) e por membros de sua família (dos quais existem cartas sobre o assunto), o fenômeno dos “golpes” foi o primeiro que se manifestou, para logo alternar-se com pancadas e estrondos misteriosos, associados a fenômenos de telecinesia 3 não muito agradáveis, como levantarem-se camas com pessoas deitadas.

A Sra. Wesley escreveu a seu filho com data de 12 de janeiro de 1917 o seguinte:

“Na noite passada, teu pai e eu pedimos ao Sr. Hoole que dormisse em casa e permanecemos acordados até às duas da madrugada, ouvindo os costumeiros raps e outros vários ruídos. Às vezes era imitado o som produzido ao dar-se corda a um relógio de parede, outras o ruído de um carpinteiro ao serrar uma tábua, porém geralmente deixavam-se ouvir três golpes alternados com uma pausa, o que se repetiu durante muitas horas seguidas.”

Com data de 24 de março, a Srta. Suzana Wesley escrevia a seu irmão:

“Ouvimos três golpes tremendos debaixo de nossos pés e imediatamente interrompemos as nossas costuras para nos refugiarmos em nossa cama. Logo se fez ouvir um ruído na tranqueta, como se a tivessem manejando, e em seguida golpes metálicos no braseirinho. Depois disso, nessa noite nada mais ouvimos...”

Em data de 27 de março:

“Ouviram-se raps fortes em cima e embaixo do meu quarto, depois na cabeceira da cama das crianças. Eram os mesmos tão fortes que o leito se sacudia todo. O Sr. Hoole ouviu-os do seu quarto e veio juntar-se a nós. Os golpes se repetiram em sua presença.” (Journal of the S. P. R.,4 vol. IX, pág. 40-45).

No caso exposto, assim como em vários outros, se evidenciam provas de intencionalidade sob formas variadas, as quais, todavia, se mostram pouco importantes na circunstância dos golpes. O Rev. Wesley escreve a propósito:

“Quando eu batia no chão com a bengala, se verificava uma pancada igual. Quando rezávamos juntos as orações da tarde e chegávamos ao ponto em que recomendávamos a Deus o rei e o nosso príncipe, imediatamente se ouviam “golpes” fortíssimos.”

Caso 2


Tiro-o dos Proceedings of the S. P. R., vol. XI, pág. 144. Também desta vez se trata de assombração em um vicariato, sendo relator o próprio vigário que foi, depois, alto dignitário da Igreja Anglicana. Os dirigentes da S. P. R. não se julgaram autorizados a publicar o nome desse sacerdote.

Nessas circunstâncias, além dos fenômenos dos “golpes”, percebiam-se pesados passos que iam e vinham num corredor, fortes ruídos no desvão em que baús, caixotes e vasilhas se encontravam e agitavam-se em conjunto, chocando-se, acavalando-se, rodando pelo solo, produzindo um barulho ensurdecedor e, sobretudo, um terrível e infernal estrondo, o mais aterrador dos fenômenos. Todas as vezes que faziam as pessoas despertar em sobressalto, ao consultar-se o relógio, invariavelmente, verificava-se que eram duas horas da manhã de um domingo.

Com referência aos “golpes” o narrador escreve:

“A título de entretenimento complementar, éramos brindados com fortes golpes consecutivos que pareciam saudar nosso aparecimento. Variavam em timbre e tonalidade: às vezes eram rápidos, veementes, impacientes, outras lentos e hesitantes, porém, como quer que fossem, deixavam-se ouvir durante quatro noites por semana como termo médio, sendo este o fenômeno mais comum, de maneira que ficávamos decepcionados quando não os ouvíamos. Como, porém, de nenhum modo eram inquietantes, logo nos familiarizamos com eles. A propósito disso merece ser notada uma circunstância interessante: algumas vezes, quando, já recolhido ao leito, percebia os “golpes”, embora estes parecessem festivos, sentia-me impulsionado a apostrofá-los sarcasticamente. Por exemplo, dirigia-me ao hipotético agente, dizendo-lhe. “Fica quieto e não perturbes as pessoas honradas que dormem” ou bem o desafiava, acrescentando que se tinha algo a comunicar ou alguma pergunta a formular, que o fizesse direta e francamente. De vez em quando esses ditos eram mal acolhidos e, então, as batidas “vibravam com maior força, sucedendo-se com vertiginosa rapidez, de modo que se podia defini-los como “golpes indignados”...”

Como complemento ao tema, termino acrescentando que a assombração do vicariato se verificou anteriormente à chegada do novo vigário e continuou a produzir-se depois da sua partida, o que demonstra que se tratava não de fenômenos determinados por faculdades mediúnicas possuídas, inconscientemente, por qualquer membro da família. Verificou-se também que a assombração correspondia a tradições de fatos dramáticos ocorridos naqueles lugares.

Caso 3


Foi publicado em dois números dos Annales des Sciences Psychiques 5 (1892-1893) e reproduzido por mim no capítulo II da minha obra Fenomeni d’Infestazione. Trata-se de um caso interessantíssimo, cujo relato tem a vantagem de consistir de um diário redigido dia a dia, no momento mesmo em que se produziam os fenômenos, o que serve para eliminar toda a possibilidade de erros mnemônicos.

O advogado M. G. Morice o comunicou ao prof. Richet, que, depois das necessárias investigações, publicou-o em sua própria revista. Os fenômenos assombratórios se verificaram no castelo de T., na Normandia, entre os anos de 1865 e 1875. O autor é o próprio proprietário do castelo, o senhor F. de X.

Os fenômenos que se produziram foram imponentes, com predomínio absoluto dos “golpes” e ruídos de um poder aterrador, os quais eram percebidos desde a granja do castelo, distante 500 metros.

Limitar-me-ei a citar alguns trechos do diário que se refere aos “golpes” e ruídos:

“Domingo, 31 de outubro de 1875 – Noite muito agitada. Ouvem-se no patamar da escada cinco “golpes” a tal ponto violentos que fazem sacudir todos os objetos suspensos na parede. Dir-se-ia que uma pesada bigorna ou uma grossa barra de ferro teria sido arrojada contra a parede de modo a sacudir todo o edifício, porém nenhum de nós pode precisar em que ponto são desferidos os golpes...

Segunda-feira, 8 de novembro – Às 22:20, despertamos todos ao ouvir uns passos retumbantes que sobem rapidamente pelas escadas; logo uma série de golpes fortíssimos que fazem tremer as paredes. Levantamo-nos todos... Seguem-se uns pequenos golpes saltitantes que parecem ser produzidos por patas de animais que correm...

Sábado, 13 de novembro – À meia-noite e um quarto deixam-se ouvir dois gritos roucos no patamar. Já não são gritos de mulher que chora e sim urros furiosos, desesperados, horríveis, rugidos de condenados ou de demônios. Seguem-nos, durante mais de uma hora, golpes violentos.

Domingo, 8 de janeiro de 1876 – 6:30 da manhã. Alguns golpes fortes no corredor. Destaco o fato de que, durante três manhãs consecutivas, todo aquele que desce as escadas é seguido até o andar térreo, passo a passo, degrau a degrau, por golpes que cessam ou prosseguem com o mesmo. Também o vigário da paróquia é seguido por golpes sem que nada consiga ver.

Noite de 25 de janeiro – 1:30 da madrugada. Por vinte vezes consecutivas o castelo é sacudido desde os seus alicerces. Seguem-se sete golpes na sala verde; logo uns golpes tão rápidos que não é possível contá-los; dois golpes mais sobre a porta da sala verde; doze sobre a porta do quarto de Maurício; treze tão fortes que fazem tremer toda a casa; mais logo cinco, depois dez e, em seguida, dezoito; tudo treme, paredes e móveis. Não há tempo para escrever. Ouvimos uns mugidos de touro, logo uns urros inumanos, furiosos, junto à porta de minha esposa, no corredor. Minha esposa se levanta e toca a sineta para fazer todos se levantarem. Quando nos achamos reunidos no quarto do abade, ouvimos dois mugidos mais e um urro. Às 4:20 voltamos para as nossas camas. Minha senhora sente um forte golpe sobre o harmônio, a dois metros de distância, seguido de três outros golpes que não logra localizar. Os rumores desta noite foram distintamente ouvidos na granja a 500 metros de distância do castelo.”

O Dr. Dariex, diretor dos Annales des Sciences Psychiques, interrogou, a respeito, o abade D, ao qual se alude com freqüência no diário do Sr. F. de X, e esse confirmou a escrupulosa exatidão das imponentes manifestações descritas.

Que pensar de semelhante pandemônio? Não é possível se conceber a natureza da vontade produtora de manifestações tão terrificantes e, ao mesmo tempo, absurdas e inexplicáveis; porém, ao contrário, não parece racional a presunção de que as mesmas tenham sido produzidas por um cego desencadeamento de forças físicas ignoradas e muito menos pela exteriorização de faculdades ou forças inerentes à subconsciência humana. A circunstância de que os ruídos foram ouvidos, distintamente, da granja situada a meio quilômetro do castelo prova que os mesmos eram reais, objetivos e não subjetivos; e, assim sendo, parece até inverossímil presumir que tal potencialidade de manifestações sonoras terrificantes tenha sido um produto ignorado de faculdades supranormais desencadeadas com alucinado ímpeto pela subconsciência de algum dentre os presentes, tanto mais se se considerar que os precedentes moradores do castelo já haviam assistido a fenômenos análogos (com o acréscimo da percepção de fantasmas), o que complica enormemente a questão para os que sustentam a origem puramente anímica ou subconsciente dos fenômenos assombratórios.

Como, pois, explicar os fatos? Não podendo desenvolver o tema em poucas páginas, limitar-me-ei em responder, observando que a intuição popular interpretou sempre de modo muito diferente e menos gratuito os fenômenos de tal gênero e que tudo concorre para fazer presumir que nessa concordante opinião universal deve encontrar-se essa centelha de verdade que é a única capaz de orientar o pensamento para a solução do enorme mistério.


Caso 4


Na introdução à presente categoria de fenômenos, dissera eu que nas manifestações assombratórias com aparições de fantasmas os “golpes” tinham, com freqüência, o propósito de chamar a atenção dos seus percipientes para o lugar de uma peça ou para outro ponto qualquer em que se produzia a aparição. Eis um exemplo do gênero.

No Journal of the S. P. R. de Londres (vol. VI, pág. 146, e vol. IX, pág. 298), se relata um episódio importante de localidade assombrada em que um espectro apareceu, numerosas vezes, a várias pessoas durante um período de nove anos. O caso foi levado ao conhecimento de Myers um ano depois da primeira aparição, de modo que ele teve a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento dos acontecimentos. A principal percipiente foi a Srta. Scott, que escreveu um longo relato a respeito e do qual extraio o episódio seguinte:

“A título complementar, referir-me-ei a dois incidentes análogos sucedidos a outras pessoas naquela época. Duas moças da aldeia, atraídas pelas amoras silvestres que cresciam nas sebes da localidade mal-assombrada, se detiveram em colhê-las, quando, subitamente, ouviram um golpe surdo, vibrado perto do terreno em que pisavam, porém, como nada vissem, continuaram a colher as amoras. Pouco depois ouviram outro golpe surdo e, voltando-se para esse lugar, viram um homem de elevada estatura que as olhava fixamente. A expressão espectral daquele rosto as fez gelar de espanto e, agarrando-se convulsivamente uma a outra, empreenderam a fuga.

Correram, assim, um breve trecho e depois se voltaram para trás tremendo, percebendo o vulto imóvel no mesmo lugar, mas enquanto o miravam, viram que pouco a pouco ia desaparecendo. As jovens me informaram que o indivíduo em questão estava vestido da forma que lhes descrevi, que seu rosto era extremamente pálido e que a sua pessoa parecia envolta em uma nuvem de vapor...”

O fato de um fantasma que vibra golpes no solo com o fim evidente de chamar a atenção dos presentes para esse lugar é teoricamente importantíssimo, pois prova que no local se havia concretizado algo não perceptível de nenhuma outra parte, e não apenas isso, mas prova, também, que naquele ponto estava uma entidade inteligente, com plena consciência do lugar em que se achava. Nada mais acrescento por ora, porque me reservo para desenvolver o tema por ocasião de um segundo caso análogo, mas de ordem telepática (caso 8) e os argumentos expostos em apoio aos fantasmas telepáticos são igualmente aplicáveis aos fantasmas assombradores.

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