Eros ou dioniso na busca de um relacionamento ideal



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EROS OU DIONISO

NA BUSCA DE UM RELACIONAMENTO IDEAL.


Será que o amor ainda existe em nossos tempos? Onde se esconde o sentimento de querer “para sempre”, nessa cultura em que o ficar com cinco ou seis pessoas em uma mesma noite, é completamente o habitual entre os jovens?
Na busca da felicidade, o ser humano encontra-se em caminhos áridos, perigosos e cada vez mais distantes de um final feliz. Aliás, qual seria o final ideal? Visto que os indivíduos, já não se casam com tanta freqüência, ou casam-se e separam-se logo depois. Que dificuldade é esta? Seria falta de intimidade com o AMOR?...Quem são os verdadeiros heróis dos tempos atuais...
Seria EROS? Deus do Amor, na Mitologia Grega, marido de Psique (Alma)? - Ou DIONISO, conhecido como Baco entre os Romanos, o deus do vinho e do êxtase, com quem mulheres adoradoras anualmente procuravam obter comunhão nas montanhas, através de diversões ou orgias?
Ao iniciar este escrito, venho lembrar-lhes de, quem foram estes Deuses tão singulares, na história da Mitologia.
EROS - Cupido para os Romanos - filho de Afrodite, a Deusa da Beleza e do Amor, mulher criativa e amante.

Eros, o deus do amor, é o mais velho dos deuses. A ele é ligado todo tipo de “afeição” emocional, sexualidade, amizade, envolvimento com profissão, hobbies e arte. Eros existe em médicos cujo amor está na medicina, ou em políticos, cujo amor está na política. No amor em que homens têm por mulheres e mulheres por homens. É por mérito de Eros que existe a união entre duas pessoas. Sem Eros, não haveria o relacionar-se. Ele traz o arquétipo da afetividade, da criatividade e do envolvimento.


A ausência de Eros, seria indiscutivelmente a perda do potencial criativo, envolvente e afetuoso.
No mito de Eros, ele apaixona-se por Psiquê (ALMA), a mais linda das mortais, sendo tão maravilhosa que não existem palavras para expressar sua beleza como merece.

Eros, depois de enfrentar os ciúmes de sua mãe em relação à Psique, conseguiu o aval de Zeus e casou-se com ela. Este casamento é sinônimo de amor, de confiança, de afeto, de responsabilidades e crescimento espiritual. O casal que se identifica com o amor de Eros e Psique têm em si, um vínculo duradouro, tranqüilo, estável, criativo e de muito envolvimento afetivo.

Como diz o poeta Antônio Carlos Jobim em sua música “Eu sei que vou te amar”.

Eu sei que vou te amar

Por toda a minha vida eu vou te amar

Em cada despedida eu vou te amar

Ou em outra música do mesmo autor – “Corcovado”


Quero a vida sempre assim

Com você perto de min

Até o apagar da velha chama

Que bom seria se cada uma das mulheres pudesse encontrar seu Eros, e cada um dos homens sua Psiquê.

O que acontece então, visto que, esta união mostra-se tão distante da realidade? Porque EROS E PSIQUÊ encontram-se perdidos à deriva... Apenas em fantasias, contos de fada, ou mesmo nas histórias infantis?
Venho questionar... Quem hoje acredita no Amor?
Quem conhece sua própria alma? Alma aqui, como totalidade. Alma, para simbolizar a interioridade, a espiritualidade, a subjetividade e a profundidade do ser humano.

É a partir deste olhar rumo ao interior, às emoções, que podemos “buscar” um sentido de vida. E falar em conhecer a “alma”, é falar em “encontrar”, este sentido.

O Amor anda perdido, negado, depreciado, como diz Roland Barthes em seu livro “Fragmentos de um discurso amoroso”. Nele, o autor sustenta uma bela discussão sobre este sentimento. Como poderiam, pessoas inteligentes, que vêm no decorrer da sua história, conquistando a ciência, saberes, tecnologia... Aproximarem-se do tão vulgarizado AFETO? Quem somos que não nos permitimos tempo para amar? É fácil compreender-mos, se olharmos para nossa história, para o tempo do Materialismo e da Ditadura, quando os homens do puder eram coronéis. Nessa época, não lhes era permitido as emoções. E suas mulheres... Que mulheres? Não existiam... Assumiam o papel de mãe, que “cuidam” de seus filhos, mostrando um “envolvimento” “afetivo” e “criativo” neste processo. Mas que com o passar do tempo foram desvalorizadas, negligenciadas, quase aniquiladas pela sociedade.
Diante disso pergunto;

Como podemos, querer ter intimidade com o sentimento amoroso?

Como podemos ter essa facilidade em nos relacionar com EROS e PSIQUÊ?

Observando os pacientes em consultório ou as pessoas que me relaciono socialmente, vejo a dificuldade em estabelecer um vínculo tranqüilo com estes Deuses. Percebo também a afinidade de pessoas com outros Deuses da Mitologia... E eles são muitos, porém falarei da grande onda Dionisíaca e Afrodisíaca que se estabelece no mundo. Estes Deuses da história Greco-Romana vêm “ressuscitando” sentimentos até pouco tempo “não permitidos”, devido à grande influência do pensamento religioso presente na sociedade.


Dioniso, o deus do vinho, da loucura e da tragédia, nos remete a sentimentos “conflituosos”, “contraditórios” e “irracionais” contidos nas profundezas da mente humana. Dioniso revela em seu caráter, afinidade com as emoções e paixões. É o deus mais reprimido da cultura ocidental. O deus das mulheres, tendo uma forte conexão com a morte. Sua aparência era de um jovem andrógeno, afeminado.

Rafael Lopes Pedraza, em seu livro, “Dioniso no exílio - Uma história de repressão da emoção e do corpo”, fala deste perfil instintual.


...seu aspecto alegre e generoso e sua faceta repulsiva e tenebrosa... O mesmo deus é aclamado como doador de inumeráveis dons e temido como devorador de carne fresca e esquartejador de homens... Ele proporciona êxtase, comunhão espiritual e a intoxicação selvagem. Ele pode ser chamado de o deus da loucura e do frenesi.

(ibid, 145 – 46)

Conhecendo um pouco sobre Dioniso, podemos pensar que todas estas características “Dionisíacas”, que foram reprimidas por tanto tempo, voltam agora ao mundo em forma de comportamento em massa, com a força de toda energia deste deus.

Ora, vamos abrir os olhos para estes jovens, que curtem a dança das “cachorras”... Que nestes rituais, ficam com quatro ou cinco na mesma noite, à procura desesperada do “prazer”, da “carne”, de “emoções” e do “ÊXTASE”.

Convenhamos... Dioniso está mais presente do que nunca!

É compreensível então perceber a necessidade da busca destes jovens do prazer imediato. Como uma questão de equilíbrio, o que faltou tanto tempo chega como o exagero. Penso ainda além... A busca de prazer com vários sentidos. O da comida, o das drogas e de emoções.


Porém esta é a re-volta de Dioniso.

Estes conteúdos instintivos estão aí sem saber para onde vão, como vão, porque e para quê.

Quem sabe se olharmos para nosso interior, para nossas vidas, tão limitadas em “prazeres”, tenhamos uma abertura, com o nosso lado Dionisíaco... Vejam bem!!! Cuidado!! Abertura, não quer dizer, pôr ele, como “dono da casa”... Mas quem sabe deixemos que ele entre. Quem sabe tenhamos um relacionamento amigável com este lado tão sombrio. Quem sabe nos permitimos dialogar com ele, conhecer nossos corpos e encontrarmos prazeres com nossos companheiros, com os namorados, com o marido, ou seja, com aquele que amamos e que confiamos. Nestes relacionamentos que duram já 10, 20 ou 30 anos... Vamos encontrar um momento para Dioniso e para Eros nestes lugares já descrentes da paixão.

Vamos despertar estes Deuses, vamos vivenciá-los com consciência.

Descobrindo nossos corpos e nossas emoções junto ao amor e a paixão.

Acredito que desta forma, com esta intimidade, com este diálogo interior, possamos estabelecer um vínculo flexível e prazeroso com nossa totalidade... Com nossa alma.

A música de Chico Buarque exprime de maneira precisa à estranheza e a integridade do amor e da paixão.

O que será que me dá

Que me bole por dentro, será que me dá.

Que brota à flor da pele, será que me dá

E que me sobe às faces e me faz corar

E que me salta aos olhos a me atraiçoar

E que me aperta o peito e me faz confessar

O que não tem mais jeito de dissimular

E que nem é direito ninguém recusar

E que me faz mendigo, me faz suplicar

O que não tem medida, nem nunca terá

O que não tem remédio, nem nunca terá

O que não tem receita
O que será, que será

Que dá dentro dagente e não devia

Que desacata a gente, que é revelia

Que é feito uma aguardente que não sacia

Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar

Nem todos os ungüentos vão aliviar

Nem todos os quebrantos, toda a alquimia

Que nem todos os santos, será que será

O que não tem descanso nem nunca terá

O que não tem cansaço nem nunca terá

O que não tem limite
O que será que me dá

Que me queima por dentro, será que me dá

Que me perturba o sono, será que me dá

Que todos os tremores me vêm agitar

Que todos os ardores me vêm atiçar

Que todos os suores me vêm encharcar

Que todos os meus nervos me vêm a rogar

Que todos os meus órgãos estão a clamar

E uma aflição medonha me faz implorar

O que não tem vergonha nem nunca terá

O que não tem governo nem nunca terá

O que não tem juízo.

Não vamos então estabelecer esta relação estranha com sentimentos tão magníficos da natureza humana.



Vamos... vivenciá-los, reconhece-los e senti-los.


Patrice Rother Crepaldi

Psicóloga Clínica

Analista Junguiana


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