Erritório Imaginário: memórias, histórias, lembranças e esquecimentos dos migrantes sulistas na Amazônia brasileira



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Território Imaginário: memórias, histórias, lembranças e esquecimentos dos migrantes sulistas na Amazônia brasileira.

Márcia Rosane Vieira

Hidemi Soares Miyemoto

Universidade Federal da Bahia

Brasil

Julho/2015

Território Imaginário: memórias, histórias, lembranças e esquecimentos dos migrantes sulistas na Amazônia brasileira.

Márcia Rosane Vieira.1

Hidemi Soares Miyamoto.2

O presente texto é parte de uma pesquisa de doutorado em andamento, tendo como objeto empírico as memórias de migrantes oriundos da região Sul do Brasil que se conduziram à Amazônia brasileira, especificamente para o estado de Mato Grosso no processo da migração Contemporânea. Para tal, utilizamos como perspectiva teórica os estudos desenvolvidos por Halbwachs (2004) que colaboram inteiramente para a concepção dos quadros sociais que constituem a memória. Os aportes metodológicos são o etnográfico e a história oral focalizando aspectos da memória coletiva e a identidade desses atores, uma vez que a história oral movimenta-se em terreno pluridisciplinar.

Na Contemporaneidade, a memória atua como constituição feita no presente, a partir de vivências e experiências sobrevindas do passado das pessoas. A memória de um povo pode expressar paixões, sentimentos, pertencimentos e identidades. Sendo assim, os migrantes que vivem na região norte de Mato Grosso que, levando suas vidas em lares comuns, formas próprias e não institucionalizadas de sociabilidade aparecem como sujeitos singulares de uma história de sensibilidades. Seus gostos, crenças, seus modos de vestir-se, alimentar-se, sua arte são mediados por uma “teia de significados”. Assim, as memórias desses atores não podem ser compreendidas em linha reta, não está pronto numa cronologia a ser seguida. Ela, a memória, se desdobra em outras memórias, na memória que pode ser construída por narrativas, pois esta tem sua própria configuração temporal, constrói seu sentido à medida que vai sendo tecida, tramada; escolhendo seus motivos, suas cores e inclinações. A narrativa, assim, se forma como resposta que o narrador dá ao mundo e, talvez a si mesmo, num tempo em que deveres de memória e direitos à memória são reivindicados como formas de pertencimentos a determinados grupos ou como bandeiras de defesa da identidade. Lembrar e esquecer são atos humanos que constituem um dos procedimentos mais elementares do conhecimento, são momentos instituidores da coesão social do tempo, pois os modos de fixação das lembranças na memória são decisivos e constitui o testemunho que revela uma determinada dose de intencionalidade no agir de cada indivíduo transpondo para o conjunto interpretado do tempo, como a história. Portanto, a memória transforma-se num celeiro inesgotável de possibilidades de lembranças. Não existe, assim, lembrança estática, a multiplicidade está conectada ao rearranjo permanente das emoções grupais, retirando do passado aquilo que ele tem na História; seu status antológico.

As lembranças desses atores compõem o mosaico da memória coletiva, as narrativas tais como é contada e recontada na História, na literatura e na cultura popular fornece séries de paisagens e eventos que simbolizam as experiências partilhadas que dão sentido a eles e ao lugar onde viviam. A utilização desses recursos não é somente para reproduzir aquilo que são, mas também aquilo que se tornaram, assegurando a continuação do tempo, resistindo à alteridade, ao tempo que muda e consequentemente as rupturas que fazem parte da vida humana, compondo o elemento fundamental da identidade e da percepção de si.

Palavras chave: Memórias. Migrantes. Lembranças. Esquecimentos.




  1. Território Imaginário.

De um modo geral as migrações são determinadas por fatores socioeconômicos. A carência de recursos, de trabalho, condições de vida e a possibilidade de enviar dinheiro para família propicia a motivação para buscar em outros espaços, aquilo que o lugar de origem já não supre mais e para alguns talvez nunca supriu. A mobilidade humana é em geral um sintoma de grandes transições, quando ela se intensifica, algo ocorreu ou está ocorrendo nos bastidores da história. Os anos 70 foi marco da migração de pessoas da região sul do Brasil (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) para o norte de Mato Grosso. Estimulados por propagadas oficiais do governo da época e com as políticas públicas para a Amazônia Brasileira que visavam novas estratégias de ocupação, ou seja, ocupar o espaço vazio que se encontrava essa parte do país, bem como, amenizar o impacto que atingiu a região sul devido ao derrame econômico do café principalmente no estado do Paraná. O governo criou programas de colonização no centro oeste e na região Amazônica como forma de aliviar os problemas surgidos no campo. Para escapar das condições em que se encontravam, esses atores sociais abraçaram os desafios de um migrante e, como tantos outros, lançaram-se na BR 1633 em busca de um lugar promissor, do café sem geada e terras para seus filhos. Assim, as pessoas da região sul tomaram parte das frentes pioneiras do Brasil se deslocando em direção ao centro oeste e à Amazônia matogrossense.

Supostamente, as motivações socioeconômicas justificaram a saída dos sulistas de seus estados, assim, os migrantes partiram rumo a uma nova colonização, fugindo de uma pobreza crescente e aqueles que haviam perdido suas terras, em busca de realizar o sonho de serem novamente proprietários. Porém, as perdas não se limitam somente ao capital, pois o migrante deixa para trás sua origem, paisagens, geografia, rede social, seu modo de viver e festejar, assim, o desenraizamento vivido por ele atinge duramente sua vida e sua cultura. Bosi (1992, p. 16), diz que “o enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana e uma das mais difíceis de definir”. Afirmando que seria mais justo pensar a cultura de um povo migrante em termos de desenraizamento, e que o foco não deve recair sobre o que se perdeu, pois as raízes já foram arrancadas, partidas; ao contrário, deve-se “procurar o que pode renascer”. Sendo assim, o migrante, por vezes traz consigo as sequelas da vulnerabilidade, deixando para traz um cenário marcado pelo desenraizamento de uma terra que talvez não o acolha mais.

Aparentemente os motivos mais contundentes que os fizeram partirem rumo à região centro oeste do país foi ascensão social. A explicação da “crise do café” no sul do país supostamente provocou desesperança para muitos deles, dando impulso à migração dessas pessoas para outra região. As redes sociais por sua vez, são responsáveis pela manutenção do fluxo migratório após a década de 1970 até nos dias atuais, talvez as mesmas justifiquem também o fluxo de pessoas da mesma cidade ou de cidades próximas, com o grau de parentesco ou não, reforçando o movimento transregional por ter passado a fazer parte da vida dos sulistas. Assim, essas pessoas ficam em permanente contato com o estado de origem podendo, metaforicamente estar nos dois lugares.

As migrações ocorrem na maioria das vezes por laços de parentesco, amizade ou profissional. Assim, as redes estimulam a migração interligando as sociedades de origem e a de destino servindo de uma espécie de “porto seguro” para essas pessoas. No caso dos migrantes em Mato Grosso, os elementos agregadores às redes são: o CTG4, as Festas Típicas, os conterrâneos, a igreja (em geral a católica) e o contato com os parentes que ficaram no sul. É muito comum que um conterrâneo na sua chegada seja recebido na casa de alguém, parente ou não, e, na maioria das vezes já com a possibilidade de trabalho, mas, caso seja o contrário, essa pessoa terá apoio da família que o acolheu até que consiga trabalho e um lugar para ficar. Essas redes podem indicar a transregionalidade deste movimento migratório, no entanto, não rotula essas pessoas como moradores temporários ou permanentes, apenas ratifica que as decisões de retorno são complexas, pois não envolvem somente questões econômicas, mas também questões pessoais e familiares.




  1. Histórias, Lembranças e Esquecimentos.

No cotidiano desses atores percebem-se, mesmo hoje, com a prosperidade, recursos que proporcionam certa tranquilidade financeira, há sempre a lembrança do lugar deixado e o sentimento de que, se tivesse sido possível, não teriam saído do espaço para viver em Mato Grosso porque o “sonho” do retorno para muitos ainda perdura, como também as lembranças de um passado guardado em suas memórias e retratado no seu modo de viver quando dizem:“mesmo aqui o chimarrão não pode faltar... o vinho e o churrasco também não podem faltar... a gente mantém sim essas tradições de nossa terra” (F., 59 anos). Quando enfatiza a expressão “nossa terra”, me faz pensar que a presença do passado na vida dos migrantes talvez seja o primeiro sentido da palavra memória para eles, pois quem sabe esses atores sociais possuam suas memórias composta de uma construção psíquica e intelectual, constituindo uma representação do passado, não individualmente, mas inserida no contexto familiar e social. Assim, transitar pelas memórias é revisitar os lampejos de boas lembranças que alguns migrantes entoam quando falam dos estados do sul e são essas alegrias que saltam dos olhos dessas pessoas quando falam do Paraná, Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, embora teçam criticas a condições de vida que vivenciaram, nos diz: “do meu lugar eu não me esqueço, lá também era muito bom, tem coisas boas pra lembrar”. O tempo em que viviam no sul é rememorado com tamanha vivacidade e alguns até dizem que ao fechar os olhos visualizam o espaço em que viviam juntamente com os amigos e os lugares de lazer que frequentavam. Percebo nas falas de muitos uma entonação de saudade do local, dos amigos e das conversas, embora os sentimentos expressos nessa memória permitam um diálogo ambíguo. Talvez seja a lembrança de laços sociais, momentos de lazer, alegrias e peculiaridades naturais do sul entrelaçados também às lembranças de dissabores, que não despertam o desejo de retorno. Penso ainda que sejam recordações de um espaço que o migrante ainda concebe formador de sua identidade, mas sem relevância para justificar um regresso. Por outro lado, não podemos “esquecer” dos migrantes que não fazem questão de se lembrarem do seu lugar de origem, do “lugar deixado” (VIEIRA, 2011). Consequentemente, delinear os espaços do sul de modo a transparecer sentimentos de desencanto foi algo recorrente nos relatos desses atores que abriram suas vidas e me permitiram revirar suas memórias ora perdidas ora guardadas no tempo. Quando eles falam a respeito do Paraná, por exemplo, e da vida que tinham lá, sua memória está voltada para o tempo da agricultura, da geada e das dificuldades locais. As narrativas pontuam a precariedade em que ficou a região depois da geada de 19755, do derrame econômico do café referido anteriormente, ainda que a caracterização das condições agrícolas do estado de origem ceda lugar à lembrança do tempo da chegada e da reorganização de suas vidas no estado de Mato Grosso. Embora as conversas no meu cotidiano buscassem reavivar as memórias desses atores do tempo em que vivia na região sul do país, para assim compreender esse espaço enquanto propulsor do fenômeno migratório, muitos deles conduziam a conversa para o tempo de vida na cidade receptora, Sinop6 ou Sorriso7 quando dizem: “Não tô lembrando de nada mais de lá. Pra mim, é um lugar estranho. Pra mim, eu não tenho lembrança de nada de lá [...] não tenho lembrança de nada lá não”( M, 47 anos). Mesmo que algumas dessas conversas tenham sido informais, ao pensá-las na escrita do projeto e da reescuta de gravações de estudo piloto observo atentamente sons, relembro as afeições e as entonações desses atores ao descrever suas histórias de vida, penso que a realmente a memória é seletiva como afirma Halbwachs (2004), e que tendemos a guardar os acontecimentos, afeições, cheiros e sabores que, por algum motivo nos marcam, sejam tais lembranças boas ou não tão boas. Porém, não se pode perder de vista, o deslembrar, ainda que parcialmente desenvolvemos a habilidade camuflar e guardar nas gavetas do esquecimento aquilo com que não queremos nos identificar, tampouco lembrar, que por algum motivo nos traz dor, sofrimento ou que simplesmente desejamos “esquecer”. Quando o migrante diz não se lembrar de sua vida e do tempo em que residiam no sul, as falas podem ser decorrentes do fato destes talvez não considerar como algo relevante as experiências que ali vivenciou e, portanto, não expresse tais experiências presas à parede da memória, fixadas aquilo que o define ou que este avalia como importante lembrar ou, mesmo lembrando, mencionar. Assim, podemos dizer que o sujeito pode atribuir suas ações a si mesmo agindo na condição de verdadeiro autor daquilo que narra. Estratagemas possibilitados à memória, “tesouro de todas as coisas” que como pontua Ricceur (2007), podem apresentar caminhos virtuosos que levam ao “paraíso” ou caminhos perniciosos que levam ao “inferno”. Sendo assim, podemos dizer que a memória anda de “mãos dadas” com o “não lembrar”, com o ato de esquecer. Isso ocorre não porque não se queira lembrar, mas porque aquilo que ocorreu não tomou corpo nos corações, anseios e na dimensão do vivido no momento em que aconteceu e, justamente por isso, caiu no abismo do esquecimento.

As memórias contribuem no sentido de que somos capazes de recuperar aspectos de nosso passado, é como se contássemos histórias a nós mesmos. Talvez o relato principal seja o que pode ser feito a outras pessoas, pois através dele o que vivemos e o que é subjetivo, ganha uma dimensão social, faz com que os outros entendam sua experiência através das nossas palavras.




  1. Metodologia e Espaço Empírico.

A história de vida dos migrantes em Mato Grosso talvez nos permita entender a migração a partir da interpretação que os sujeitos fazem da sua própria trajetória. Penso que ao narrar sua vida, cada uma dessas pessoas busque em suas memórias elementos que expliquem e dão sentido a suas escolhas. Deste modo, a história oral constitui num caminho interpretativo específico a ser seguido neste estudo. A memória evocada pelas histórias de vida dos migrantes reflete identidades presentes na vida dos mesmos não revelados até então, pois narram suas vidas baseados nas recordações que fazem parte de uma memória coletiva, justificando a partir disto a sua opção por outro estado e afirmando a sua identidade sulista. Segundo Halbwachs (2004, p. 36) “nossos sentimentos e nossos pensamentos mais pessoais buscam sua fonte nos meios e nas situações sociais definidas”. E ainda ressalta o autor que “a sociedade antes de uniformizar os indivíduos, diferencia-o na medida em que os homens multiplicam suas relações (...) cada um deles toma consciência de sua individualidade”. A subjetividade por sua vez é definida por sua inserção em uma comunidade afetiva. No entanto, para haver comunidade afetiva,
é necessário que esta reconstrução se opere a partir de dados ou noções comuns que se encontram tanto em nosso espírito como nos dos outros, porque elas passam incessantemente desses para aqueles e reciprocamente, o que só é possível se fizeram e continuaram a fazer parte da mesma sociedade, só assim, podemos compreender que uma lembrança pode ser ao mesmo tempo reconhecida e reconstruída (HALBWACHS, 2004, p. 34).
A história oral consiste em realizar entrevistas, estimuladas e gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, conjunturas, modo de vida ou outros aspectos históricos na contemporaneidade. De acordo com Neves (2003), a história oral movimenta-se em terreno pluridisciplinar, pois utiliza muitas vezes a música, literatura, lembranças, fotos, documentos, entre tantas outras ferramentas, para estimular a memória. A opção pela história oral deu-se pela busca em compreender aspectos dessa migração, como, as motivações complexas que levam essas pessoas a migrar, que talvez possam não aparecer utilizando outras metodologias isoladamente.

As cidades de Sinop/MT e Sorriso/MT foram os espaços eleitos para o desenvolvimento da pesquisa. Embora esteja apenas a 80 km de distância de Sinop, as duas cidades têm características diferenciadas. Sorriso é a capital de agronegócio e sua sociedade é formada em grande maioria por gaúchos, diferente de Sinop que se destaca por ser polo estudantil e prestação de serviços, com predominância de paranaenses, que constituem a maioria de sua população, no entanto, mescla bem os três estados enquanto que Sorriso não ocorre o mesmo. Aparentemente a sociedade sorrisense se porta de forma mais “cerrada” em sua sociabilidade, tornando assim, os relacionamentos numa ótica de cordialidade e profissionalismo. Essa é uma peculiaridade de Sorriso, pois em Sinop não ocorre o mesmo, a sociabilidade entre as pessoas incide independente de ser gaúcho, paranaense ou catarinense.

Fundada em 14 de Setembro de 1974, da prancheta dos colonizadores para a realidade, nasceu Sinop. Entre os pioneiros que foram motivados pelos incentivos e benefícios governamentais, em 1970, estava o Grupo “Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná” 8, de propriedade de Enio Pipino, então colonizador também de outras áreas no norte e noroeste do Paraná. O Grupo adquiriu uma enorme extensão de terras localizadas no centro norte do Estado em 1972, daí a origem do nome da cidade de Sinop (Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná). O projeto urbanístico inicial segue os parâmetros similares ao desenho urbano da cidade de Maringá/PR (local de origem da empresa colonizadora), refletindo na cidade vínculos afetivos com a cidade originária de seus fundadores.

Em 13 de maio 1986 foi sancionada a lei que elevou Sorriso a categoria de município. O nome da cidade quer dizer “futuro feliz” com base numa natureza rica e de vitória. Sobre a origem do nome, a versão oficial é que o termo Sorriso foi dado por aqueles que gostavam do lugar que viviam porque concluíram que mesmo diante das dificuldades dos primeiros tempos, ter sempre um sorriso nos lábios seria um grande incentivo à permanência na luta do cotidiano. A predominância dos colonizadores era e ainda é gaúcha, de origem italiana e viviam em forma de entre ajuda, em estreita comunidade. Com o êxito no plantio de arroz os migrantes formaram uma pilhéria italiana, pois diziam, "oh... só Rizzo"! Quando telefonavam para os familiares no sul do país, porque arroz em italiano se diz Rizzo, contribuindo para a confirmação do nome da cidade. Esta "estória" ainda é contada pelos migrantes pioneiros nos dias atuais quando rememoram os tempos de migração.




  1. Finalizando.

O presente trabalho abrange o campo das Ciências Sociais e da Sociologia. Assim, se filia num campo de investigação denominado “memória coletiva”. Os escritos de Halbwachs (2004, p.53) ressaltam que:
{...} se a memória individual pode, para confirmar algumas de suas lembranças, para precisá-las, e mesmo para cobrir algumas de suas lacunas, apoiarem-se sobre a memória coletiva, deslocar-se nela, confundir-se momentaneamente com ela, nem por isto deixa de seguir seu próprio caminho, e todo esse aporte exterior é assimilado e incorporado progressivamente a sua substância. A memória coletiva por outro, envolve as memórias individuais, mas não se confunde com elas.
O conceito de memória, no seu sentido mais amplo, para esse sociólogo francês pioneiro nos estudos da memória social, é a reconstrução de um evento passado, a partir de um conjunto de lembranças que, podem ser particulares e também de outras pessoas pertencentes ao seu grupo social, ou não. E ainda explicita o autor que, “voluntariamente cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar muda segundo as relações que mantenho com outros meios” (2004, p. 51). Aludimos essa percepção aos migrantes componentes deste texto, pois, é resgatando e analisando as lembranças, de forma que coincidam com a maioria dessas pessoas, que se pode ter maior segurança para construir suas memórias. Assim, a memória opera sempre como uma construção, desempenhada no presente, a partir de vivências e experiências acontecidas no passado. No entanto, embora sejam os indivíduos que lembram literalmente dos fatos ocorridos, são os grupos sociais que determinam o que deve ser memorável e o modo pelos quais será lembrado, ou seja, os indivíduos se identificam com acontecimentos relevantes para o grupo o qual pertence. Assim, a memória é construída ao longo da vida, a partir de um cotidiano muitas vezes corriqueiro, mas, certamente relevante. Partindo da premissa de que a memória é seletiva, faz-se indispensável desvendar os princípios dessa preferência e, observar como os mesmos mudam de lugar para lugar, de um grupo para outro e como se modificam com o decorrer do tempo. Deste modo, podemos dizer que a memória que é uma reconstrução do passado, vai se constituindo a partir dos aportes de várias gerações, neste caso, dos migrantes que compõem este trabalho. O legado da memória dessas pessoas é transmitido ao longo do tempo, de um para o outro, por meio de suportes da própria memória. Nesse contexto, podemos dizer que a memória dos migrantes, mesmo que individual, é formada no coletivo, pelas trocas de experiências entre o indivíduo e o seu meio e, ainda contém a habilidade de se integrar à memória coletiva.

A vida cotidiana e as memórias dos migrantes em Mato Grosso estão relacionadas ao senso comum, à rotina, usos e costumes, aos aspectos rotineiros da vida de todos os dias como alega Martins (2000). Contudo, o autor nos alerta que o cotidiano não deve ser restrito ao banal, ao indefinido, situado tão somente no espaço familiar ou de trabalho, mas ser visto como um instante qualitativo, objeto até das mediações que edificam as construções históricas. Assim, as histórias que estão gravadas nas memórias dos migrantes em Mato Grosso, e em nenhum outro espaço, são eventos de um cotidiano passado que só eles podem explicar, são vistas sumidas que só eles mesmos podem lembrar. Portanto, ao conectarmos memória e cotidiano partindo das lembranças dessas pessoas podemos perceber que há vários espaços nessa mesma memória, replenos de cheiros, cores, barulhos, risos e palavras que ficaram retidos em suas memórias pela sua força e espontaneidade. Esse lembrar nos permite conhecer o cenário de um mundo que não fizemos parte e que foi se transformando com o passar do tempo, encontrando nele fragmentos das velhas casas, dos antigos caminhos, dos antigos costumes e hábitos contados e rememorados por seus protagonistas. Sendo assim, nos deixamos guiar pelos “recordadores” para que pudéssemos apreciar o seu cotidiano, sem deixar de levar em conta que a memória é a reconstrução através do tempo, que separa o momento rememorado do momento do relato.

Podemos dizer que a memória dos migrantes não é o retrato fiel dos acontecimentos, ou seja, ela gira em torno da relação passado/presente e está replena de sentimentos de cada época, alterando-se de geração para geração. Para Bosi (2003), esse momento “é uma reconstrução orientada pela vida atual, pelo lugar social e pela imaginação daquele que lembra”.

As memórias contadas por eles transcorrem como um relato quase que poético, pois essas pessoas tem o talento de captar o pormenor, dignificando assim o seu cotidiano. É deste modo que eles se referem, ao trabalho, a tranquilidade da cidade quando cai à noite, o movimento nas calçadas que vão sumindo aos poucos quando as janelas se iluminam e as ruas se esvaziam. Posteriormente, as janelas vão se apagando e fechando, menos algumas que resiste ainda, da qual escapa um som que finalmente silencia. O local de onde eles falam, ou seja, o estado, a cidade, o bairro, tem sua infância, juventude e velhice. Assim, as casas crescem do chão e vão mudando: canteiros, cercas, muros, escadas, cores novas, a terra vermelha no período da seca e depois o verde umbroso na época das chuvas.

Os migrantes retratam seu espaço como um local que acompanha o ritmo da respiração e da vida dos seus moradores. O cotidiano dessas pessoas se mistura e é nesse momento que percebemos nas ruas, nos lugares. E é assim que eles relatam sobre o trabalho, as simples casas que não merecem tombamento porque lá não morou nenhuma pessoa renomada, mas, adquiridas com esforço e muitas delas construída por eles mesmos. Em muitas destas casas simples, de decoração, lá estava à antiga máquina de costura num canto da sala, a televisão enfeitada por uma toalha de crochê, o sofá com sua capa colorida, protegido da poeira. É nestas salas que ficamos escutando-os, com a água fervendo no fogão para um mate e uma canção dominical tocando no rádio, episódios simples da vida de pessoas simples.

Por fim, profiro que as trilhas teóricas e conceituais apresentadas neste texto constituem num caminho dentre tantos outros a serem percorridos no decorrer da pesquisa, cujos resultados consistem na possibilidade de descobrir chaves analíticas que, propiciem uma melhor compreensão de como são constituídas as memórias dos migrantes sulistas na Amazônia brasileira.

Referências.
BOSI, Eclea. Cultura e Desenraizamento. In: BOSI, Alfredo. Cultura brasileira: temas e situações. São Paulo: Editora Ática. 1992.

BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social/Ecléa Bosi. - São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva/ Maurice Halbwachs; tradução Lais Teles Benoir. –São Paulo: Centauro, 2004.

MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala. São Paulo, Hucitec, 2000.

NEVES, L. A. Memória e história: potencialidades da história oral. Art Cultura,

Uberlândia, nº 6, 27-38, 2003.

RICCEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Campinas, São Paulo: Ed .Unicamp, 2007.

VIEIRA, Márcia Rosane. Reinventando a tradição sobre “o lugar chegado” e o “lugar deixado” na migração contemporânea: uma análise sobre a juventude em Sinop-MT. – São Leopoldo, 2011





1 Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia/UFBA - Brasil. Endereço eletrônico: marciavieira23@hotmail.com.

2 Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia/UFBA – Brasil. Endereço eletrônico: hidemi.soares@hotmail.com

3 A BR-163 é uma rodovia longitudinal do Brasil. Tem 1780 km de extensão, sendo que apenas 702 estão asfaltados. Liga os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pará. É a rodovia que integra o Centro-Norte do Brasil ao Centro-Oeste e Sul. Encontra-se asfaltada do Sul para o Norte até Guarantã do Norte, MT, a 702 km de Cuiabá, MT; daí, no sentido Santarém, PA, são 1152 km de estradas de chão. Possui fundamental importância para o escoamento da produção da parte paraense da Região Norte e norte da Região Centro-Oeste do Brasil.

4 Centro de Tradições Gaúchas.

5 A Geada Negra de 1975 foi um fenômeno climático que ocorreu no Norte Pioneiro do estado brasileiro do Paraná na madrugada de 18 de julho daquele ano. As consequências para a economia do estado foram devastadores, pois dizimou a principal riqueza da região: a produção cafeeira.O fenômeno meteorológico da baixa temperatura cobriu quase todo o território paranaense, inclusive a capital, Curitiba, fato conhecido como “A Nevasca de 1975”.

6 Espaço empírico da pesquisa.

7 Espaço empírico da pesquisa.

8 Fundada em 1948 pelos empresários Ênio Pipino e João Pedro Moreira de Carvalho, se chamou inicialmente Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná , com sede em Presidente Venceslau, SP. Posteriormente conforme alteração da razão social, passou a denominar-se Sinop Terras LTDA, com sede na cidade Maringá, PR. Atualmente situa-se na cidade de Sinop , em Mato Grosso, cidade cujo nome originou-se do nome da própria empresa, responsável pela sua ocupação. Nas décadas de 1960 e 1970 a empresa especializou-se em fazer surgir do nada ambientes propícios à formação de cidades.


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