Eruda " De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos. Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos. Já não a quero, é verdadeiro, mas talvez a quero. É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento



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Coletânea Pablo Neruda



Pablo Neruda


" De outro. Será de outro.

Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é verdadeiro, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta a tive entre meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que este seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que eu lhe escrevo." 


(do "Poema 20 de Veinte poemas de amor y una canción desesperada)

 


 

Biografia

FICHA - Pablo Neruda nome verdadeiro Ricardo E. Neftalí Reyes Basoalto

Nacionalidade: Chile
nascido em Parral 12-7-1904 morreu em Santiago de Chile em 23-9-1973


Nascido num povoado da região central chilena, era filho de um ferroviário chamado José do Carmen Reyes e de Rosa Neftalí Basoalto, que faleceu de tuberculose quando o menino Ricardo mal tinha num mês de idade. Depois disto, pai e filho se mudaram para a cidade de Temuco, onde o pai se casou com Trindade Candia Valverde. Logo cedo o jovem Ricardo começou a mostrar interesse pela poesia, sendo um de seus primeiros atos a adoção de um apelido, Pablo Neruda, com o que depois seria mundialmente conhecido o pseudônimo o tomou por motivos diversos: "Pablo" que gostou por sua musicalidade e a maneira como soa, enquanto Neruda o adotou como homenagem ao poeta Tcheco Jan Neruda. Cursou estudos de francês para exercer como professor, mas finalmente não conseguiu seu objetivo. A influência de Gabriela Mistral lhe abre a sua vez ao conhecimento dos novelistas russos, cujo estilo literário era muito admirado por Neruda. Depois de marchar a Santiago para cursar estudos universitários no Pedagógico da Universidade de Chile, apresenta seu poema A canção de festa ao concurso da festa de primavera, do que sairá vencedor. Sua estadia na capital chilena lhe põe em contato com uma vida boêmia e intelectual, o que em princípio causa certos problemas de adaptação para um rapaz de províncias e com escassos recursos. Em Santiago esteve entre 1920 e 1927, incrementando sua produção poética e seu prestígio. Assim, publica Crepusculario em 1923, graças à contribuição econômica de vários amigos sem a qual não teria sido possível ser editado. Num ano mais tarde sai uma de suas obras mestras, Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, que já lhe outorga rapidamente grande reconhecimento e benefícios econômicos. Com esta publicação, de claro corte modernista, consegue situar-se como um dos cumes da literatura hispano-americana. Em 1926 saem à luz O habitante e sua esperança; Tentativa do homem infinito e Anéis , que escreve junto a Tomás Lagos. Neles manifesta sua vontade de procurar novos caminhos estilísticos , novas formas de expressão, numa clara tentativa por situar-se na vanguarda literária. Já uma figura nacional, o governo chileno lhe propõe fazer parte do corpo diplomático, o que fará desempenhar cargos consulares na China, Ceilão, Birmânia, Barcelona e Madri (1934-1937), onde entrou em contato com os poetas da chamada Geração do 27. Sua estadia em Espanha é uma das experiências mais de impacto na vida de Neruda. Comprometido politicamente com a causa republicana, sua postura pessoal lhe custou o ser destituído de seu cargo. Depois de viajar para Paris, regressou mais tarde para Santiago do Chile. A vitória do Testa Popular lhe leva de novo para Paris, como cônsul, e à cidade de México. Novamente no Chile entre 1943 e 1945, neste ano se integra no Partido Comunista Chileno, sendo designado senador. Permanecerá no cargo até 1948. Dois anos antes se faz inscrever legalmente como Pablo Neruda. Seu profundo compromisso político lhe levou a denunciar a corrupção política e solicitar reformas, o que lhe obrigou a viver clandestinamente até que conseguiu sair do país, esta vez em direção a Argentina. Novamente tomou as maletas, como tantas outras vezes, para viajar por diversos países europeus até retornar ao México. De um passo à URSS e Chinesa. Depois de voltar a seu país, apresentou formalmente sua candidatura à presidência da nação em 1970, ainda que se retirou a favor de seu amigo Salvador Allende, quem sairia finalmente elegido em 1973. Neruda partiu, depois de renunciar para Paris, onde exercerá como embaixador de Chile (1970-72. De novo ao Chile em 1973, a situação política do país deu uma volta, porquanto o golpe de Estado de Pinochet desalojou a Allende do poder e instaurado uma ditadura militar. Pouco tempo depois do golpe, o 23 de setembro, Neruda, quem tinha regressado enfermo, morre numas pouco claras circunstâncias. Aparte de sua memória, legou-nos uma obra poética que se situa entre as melhores da História da literatura ÀS já citadas teria que adicionar Residência na terra, publicada entre 1933 e 1935; Terceira Residência, de 1947, na que já toma um claro partido pelo marxismo ou Canto geral, de 1950, outra obra mestra. Em prosa, é autor de uma obra teatral, Fulgor e morte de Joaquín Murieta, bem como de suas próprias memórias, Confesso que vivi, publicadas postumamente em 1974. Por sua qualidade literária e seu compromisso humano recebeu o Prêmio Nacional de Literatura (1945), o Prêmio Nobel de Literatura (1971) e o Prêmio Lenine da Paz.


1964 -1973

Manuel Rojas, Dr. San Martín, Pablo Neruda,
Fernando Alegría, Gonzalo Rojas, Talcahuano 1964.


1964

Raúl Silva Castro, crítico e Acadêmico da Língua, publica Pablo Neruda, extenso livro biográfico e crítico. A Biblioteca Nacional de Chile comemora o sexagésimo aniversário do poeta. Palavras do diretor, dom Guillermo Feliú Cruz, ao iniciar o ciclo nerudiano. Pablo Neruda: Como vejo minha própria obra. Conferências de Fernando Alegria, Mario Rodríguez, Hernán Loyola, Hugo Morros, Nelson Osorio, Luis Sánchez Latorre, Volodia Teitelboim,Manuel Rojas, Jaime Giordano e Federico Schop. Publicam números dedicados a Neruda nas seguintes revistas chilenas: Alerce, Aurora e Mapocho.

12 de julho: publica-se Memorial de Ilha Negra, 5 tomos com títulos diversos, editora Losada.

Em 9 de setembro publica-se sua tradução de Romeo e Julieta, de William Shakespeare, Editora Losada. O ITUCH estréia esta tradução em Santiago. Pablo Neruda trabalha intensamente na campanha presidencial percorrendo o país de norte a sul.
1965

Em Fevereiro viaja a Europa. Em Junho se lhe outorga o título de Doctor honoris causa em Filosofia e Letras da Universidade de Oxford, título que se dá por primeira vez a um sul-americano. Em Julho vive em Paris. Depois viaja a Hungria, onde em colaboração com Miguel Ángel Asturias escreve Comendo em Hungria, livro que se publicará em cinco idiomas simultaneamente. Assiste à reunião do PEN Clube, em Bled (Iugoslávia), ao Congresso de Paz de Helsinki (Finlândia). Viaja à URSS como júri do Prêmio Lenine, que se lhe outorga ao poeta Rafael Alberti. Em Dezembro passando por Buenos Aires nuns dias, regressa a Chile.

Neruda y Arthur Miller en Nueva York, 1966.

1966

Em Junho viaja aos Estados Unidos como convidado de honra à reunião do Pen Clube. Dá recitais em Nova York, apresentado por Archibald Mac Leish, decano dos poetas americanos; em Washington e Berkeley; grava para a Biblioteca do Congresso de Washington. Viaja depois a México, onde dá recitais na Universidade; ao Peru, recital no Teatro Municipal, na Universidade de San Marcos e na Universidade de Engenharia; recital em Arequipa. A pedido da Associação de Escritores peruanos, que preside Ciro Alegria, é condecorado com o Sol do Peru. Louis Aragão publica Elégie á Pablo Neruda, Gallimard. Emir Rodríguez Monegal, O viajante imóvel, editora Losada.

Neruda con David Alfaro Siqueiros.

1966

Em 28 de outubro legaliza no Chile seu casamento com Matilde Urrutia, celebrado antes no estrangeiro. Publica-se Arte de pássaros, edição privada, pela Sociedade de Amigos da Arte Contemporânea, ilustrada por Antúnez, Herrera, Carreño e Toral. Audições semanais de rádio e leitura de sua poesia (10 audições). Em agosto recebe o prêmio especial Atenea, da Universidade de Concepción, por toda sua obra literária.

1967

Viaja por Europa. Em julho recebe o prêmio literário internacional de Viareggio (Itália). Edições: Obras Completas, segunda edição, dois volumes, Losada, Buenos Aires, Fulgor e morte de Joaquín Murieta, Editora Zig-Zag, Santiago de Chile, A barcarola, editora Losada. Em outubro estreia-se, no teatro Antonio Varas, Fulgor e morte de Joaquín Murieta, pelo elenco do ITUCH, com a direção de Pedro Orthous.

1968

Publica As mãos do dia, Losada, Argentina. Em fevereiro viaja para o Uruguai e dá uma conferência no paraninfo da Faculdade de Arquitetura (Montevideo). Em Abril recebe a Condecoração Joliot Curie. Em maio é designado Membro honorário da Academia Norte-americana de Artes e Letras e do Instituto Nacional de Artes e Letras. Dá um recital na Universidade de Caracas. Regressa ao Chile e começa a colaborar como colunista da revista "Ercilla", de Santiago (1968-1970)

.1969



Publica Comendo em Hungria, escrito em colaboração com Miguel Ángel Asturias, editora Corvina, de Budapeste e Lumen, de Barcelona. Fim de mundo, edição privada da Sociedade de Arte Contemporânea, Santiago de Chile. Ainda, editora Nascimento, de Santiago de Chile. Sumário (livro Onde nasce a chuva de Memorial de Ilha Negra), edição privada de Livraria Studio, de Santiago de Chile. A copa de sangue, editora A. Tallone, Alpignano, Itália. Em Maio é designado Membro da Academia Chilena da Língua. Em agosto a Universidade Católica de Chile o declara Doctor Scientiae et Honoris Causa. Em setembro o Senado da República de Chile o condecora com a medalha de prata que se outorga aos filhos ilustres de Chile. Em 3 de setembro é designado pré candidato à presidência da República pelo Partido Comunista chileno.

1970

Em Janeiro renúncia a sua candidatura presidencial ao conseguir-se a designação de um candidato único dos partidos populares chilenos (doutor Salvador Allende). Em Abril viaja a Europa. Em Maio assiste à estreia de sua obra de teatro Fulgor e morte de Joaquín Murieta, no Piccolo Teatro de Milão. Dá um recital na Sorbonne, França. Publica: Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, na editora Lord Cochrane, de Santiago de Chile, edição de luxo com ilustrações de Mario Toral; A espada acendida, editora Losada, Buenos Aires; Maremoto, edição privada da Sociedade de Arte Contemporânea de Santiago de Chile; As pedras do céu, Losada, Buenos Aires.

1971

Em 7 de Janeiro viaja à Ilha de Páscoa, com diretores e técnicos do canal 13 de televisão chileno para filmar ali cenas do documentário «História e geografia de Pablo Neruda» que depois se dará por esse canal em meados de ano.



Em 21 de janeiro, o Senado chileno aprova sua designação como Embaixador de Chile em França. Viaja a este país no mês de março, passando antes numa semana na cidade de Buenos Aires. Em 21 de outubro lhe é concedido o Prêmio Nobel de Literatura. Viaja a Estocolmo a recebê-lo e de ali a Polônia à estréia do Joaquín Murieta. Dezembro 7: inaugura sua casa A Manquel.



1972


Embaixador em Paris. Viaja à URSS. No mês de março publica Losada seu livro Geografia infrutuosa. Em 28 de outubro é nomeado Membro do Conselho Consultivo da Unesco, elegido pela Conferência Geral, por um período de quatro anos. No mês de novembro viaja a Chile. Homenagem do povo chileno no Estádio Nacional.



1973
Em 5 de fevereiro renúncia à embaixada em Paris comunicando-se ao presidente Salvador Allende quando este vai visitá-lo a sua casa de Ilha Negra. Depois trocam cartas. Em 18 de fevereiro se publica seu livro Incitação ao nixonicidio e louvor da revolução chilena, que é vendido pelas ruas de Santiago. O 11 de setembro morre Salvador Allende num Golpe de Estado que tomou o Governo até 1990.


Em 23 de setembro morre Pablo Neruda na clínica Santa Maria, em Santiago de Chile.

Algumas Obras

Crepusculario

Vinte poema de amor e uma canção desesperada

Tentativas do homem infinito

O hondero entusiasta

Residência na Terra I

Residência na Terra II

Terceira residência

Espanha no coração

Canto geral

As uvas e o vento

Os versos do Capitão

Odes elementares

Novas odes elementares

Terceiro livro de odes

Estravagario

Cem sonetos de amor

As pedras do Chile

Cantos Cerimoniais

Plenos Poderes

Memorial de Ilha Negra

Arte de Pajaros

La barcarola

As mãos do dia

Ainda

Fim do mundo

A espada acesa

As pedras do céu

Geografia infrutuosa

Defeitos Escondidos

Elegia

O mar e os sinos

O coração amarelo

A rosa separada

O livro das perguntas

Internet comemora cem anos de Pablo Neruda



MARIJÔ ZILVETI
da
Folha de S.Paulo

O centenário do nascimento do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), celebrado no próximo dia 12, é lembrado também na Internet, em sites que trazem informações sobre o autor e até a reprodução completa de sua obra.

Neruda recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1971. Na página www.nobel.se/literature/laureates/1971/neruda-bio.html, você descobre que o verdadeiro nome do poeta era Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. Vê também que, na Espanha, durante a Guerra Civil, ele se juntou ao movimento republicano. Depois escreveu a coleção de poesias "España en el Corazón" (1937).

A Universidade do Chile mantém em www.uchile.cl/neruda página com links para textos sobre o centenário do nascimento do poeta. Não deixe de visitar o item Obra, em que pode escutar Neruda recitando "20 Poemas de Amor y una Canción Desesperada" (1968) e "Los Versos del Capitán" (1969).

O site Arte História (www.artehistoria.com/historia/personajes/7381.htm) narra detalhes de sua biografia e seu retorno ao Chile após o golpe de Estado que levou ao poder o general Augusto Pinochet.

Margarita Aguirre, secretária de Neruda, publicou uma cronologia sobre o poeta, que está disponível em www.chilevive.cl/homenaje/neruda/biografia.shtml.



A Fundación Pablo Neruda, em
www.neruda.cl, oferece também uma fotobiografia. Vá até www.centenariopabloneruda.cl e conheça detalhes das casas onde o poeta morou no Chile.

Antes de amar-te




Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio,morto e mudo,
caído,abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.




* * * * *




Áspero amor, violeta coroada de espinhos...
Arbusto entre tantas paixões erguidas,
Lança das dores, coroa da ira,
Por quais caminhos e como te dirigiu a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
Repentinamente, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que te levaram a mim?
Que flor, que pedra, que fumaça mostraram minha casa?
A verdade é que tremeu a noite apavorante,
A aurora encheu todas as taças com seu vinho
E o sol estabeleceu sua presença celeste,
Enquanto o amor cruel me cercava sem trégua,
Até que padecendo-me com espadas e espinhos,
Abriu meu coração um caminho ardente.



Nos bosques, perdido




Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
E aos labios, sedento, levante seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino quebrado ou um coração partido.
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um garoto ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida treva das folhas.
Porem ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
E seu odor errante subiu para o meu entendimento
como se, repentinamente, estivessem me procurando as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e parei ferido pelo aroma errante.




* * * * *




Não o quero, amada.
Para que nada nos prenda
para que não nos una nada.
Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que não disseram as palavras.
Nem a festa de amor que não tivemos
nem teus soluços junto à janela...


Saudade




Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não
foi embora, mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.


Soneto de Amor




Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

sem essa luz que levas na mão


que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses


brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,

e desde então sou porque tu é,


e desde então é, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.

CARTA NO CAMINHO






Adeus, porém comigo serás, sempre irás dentro
de uma gota de sangue que circule em minhas veias ou fora,
beijo que me abrasa o rosto ou cinturão de fogo na cintura.
Doce minha, recebe o grande amor que me saiu da vida e que em ti não achava
território como o explorador perdido nas ilhas do pão e do mel.
Eu te encontrei depois da tormenta, a chuva lavou o ar,
na água, teus doces pés brilharam como peixes.
Adorada, me vou a meus combates. 
Arranharei a terra para te fazer uma cova e ali teu Capitão te esperará com 
flores sobre o leito. Não penses mais, amada,
no tormento que passou entre nós dois como um raio de fósforo nos deixando talvez,
a queimadura.
A paz chegou também porque regresso à luta em minha terra,
e como tenho o coração completo com a parte do sangue que me deste para sempre,
e como levo minhas mãos cheias do teu ser desnudo,
olha-me, pelo mar, que vou radiante, olha-me pela noite que navego,
e o mar e a noite, amor, serão os teus olhos.
Eu não saio de ti quando me afasto. 
Agora vou te contar: vai ser tua a minha terra, vou conquistá-la,
não só para te dar, mas para dar a todos, para todo o meu povo.
Um dia o ladrão deixará a sua torre, e o invasor será expulso.  
E todos os frutos da vida crescerão em minhas mãos acostumadas antes à pólvora.
 E saberei acariciar as novas flores porque tu me ensinaste o que é ternura.
Doce minha, adorada, virás comigo lutar corpo a corpo,
porque em meu coração vivem teus beijos como bandeiras rubras,
e se caio, não só me recobrirá a terra, também o grande amor que me trouxeste,
que viveu circulando por meu sangue.Virás comigo,
e nessa hora te espero, nessa hora e em todas as horas,
em todas as horas te espero.

E quando venha a tristeza que odeio a golpear a tua porta,


diz a ela que te espero, e quando a solidão queira que mudes esse anel em que está meu nome escrito,
diz pra solidão falar comigo, que eu precisei partir porque sou um soldado,
e que ali onde eu estou, sob a chuva ou sob o fogo, amor meu, te espero.
Te espero no deserto mais duro e junto do limoeiro florescido,
em qualquer lugar onde esteja a vida, onde esteja nascendo a primavera, amor meu, te espero.

Quando digam: "Esse homem não te quer", recorda que meus pés estão sós nessa noite e procuram os doces e pequenos pés que adoro. Amor, quando te digam que eu já te esqueci, e quando seja eu mesmo quem diga, e quando eu te disser, não me creias, quem e como poderiam te cortar do meu peito e quem receberia meu sangue quando em teu ser me fosse dessangrando?  Porém tampouco posso esquecer o meu povo. Vou lutar em cada rua, atrás de cada pedra. O teu amor me ajuda: és uma flor fechada que me enche cada vez com seu aroma e que súbita se abre dentro de mim como uma grande estrela.  Amor meu, é de noite. Essa água negra, o mundo dormindo, me rodeiam. Já está chegando a aurora, enquanto vem, te escrevo para dizer que te amo. Para dizer: "te amo", cuida, limpa, levanta, defende nosso amor, alma minha. Aqui te deixo como se deixasse um punhado de terra com sementes. Do nosso amor nascerão vidas.


Em nosso amor beberão água. Talvez chegará um dia em que um homem e uma mulher, iguais a nós dois, tocarão este amor, que ainda terá força para queimar as mãos que o toquem. Quem fomos? O que importa? Tocarão este fogo e o fogo, doce minha, dirá teu simples nome e o meu, o nome que só tu soubeste porque só tu sobre a terra sabes quem sou, e porque ninguém me conheceu como uma, como só uma de tuas mãos, porque ninguém soube como, nem quando meu coração esteve ardendo: tão só teus olhos grandes pardos o souberam, tua vasta boca, tua pele, teus peitos, teu ventre, tuas entranhas e essa alma que eu despertei só para que ficasse cantando até o fim da vida. Amor, te espero.
Adeus, amor, te espero. 
Amor, amor, te espero. E assim termina esta carta sem nenhuma tristeza: sobre a terra estão firmes os meus pés, minha mão escreve esta carta no caminho, e no meio da vida estarei sempre junto ao amigo, frente ao inimigo, com teu nome na boca e um beijo que jamais se separou da tua.

Pablo Neruda - ( Thiago de Mello) - Versos do Capitão -


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