Escola de Ciências da Saúde – cerimónia de graduaçÃO 8 de Outubro de 2007 Intervenção de Joaquim Pinto Machado, director do Curso de Medicina



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Escola de Ciências da Saúde – CERIMÓNIA DE GRADUAÇÃO

8 de Outubro de 2007

Intervenção de Joaquim Pinto Machado, director do Curso de Medicina


  1. Esta cerimónia tem um significado eminentemente ético: MISSÃO CUMPRIDA.

Ao autorizar, pelo despacho nº 19 281/99, publicado no D. R. II Série, nº 236 de 9-10-1999, a efectivação da proposta apresentada em 1998 pela Universidade do Minho, elaborada por uma Comissão Científica nomeada pelo Reitor Sérgio Machado dos Santos e constituída por cinco professores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e um da Universidade do Minho, de um Curso de Medicina integrado numa Escola de Ciências da Saúde, por ela responder aos requisitos de inovação nos domínios pedagógico, de gestão e de articulação com estabelecimentos de saúde definidos na Resolução do Conselho de Ministros nº 140/98, de 4 de Dezembro, o Ministro da Educação, em nome do Governo, exprimiu um voto de confiança na capacidade e na honorabilidade da Universidade do Minho em cumprir o que prometia. Esta proposta, recordo, assumia a concepção fundamental da que tive a honra de elaborar a solicitação da Comissão Instaladora da Universidade do Minho, e por esta apresentada ao Governo em Novembro de 1974.

É esta a leitura que faço do despacho do Ministro da Educação: à Universidade cumpria realizar, ao Governo cumpria facultar os recursos necessários para tal e que são da sua responsabilidade garantir. O “Contrato de desenvolvimento” firmado pelo Estado e pela Universidade, assinado em sessão solene do “Dia da Universidade” em 17 de Fevereiro de 2000, para além da sua natureza legal, era um compromisso moral que obrigava com igual imperativo as duas partes.

No que se refere ao Curso de Medicina, a tarefa de o efectivar foi cometida pelo Reitor da Universidade do Minho a uma Comissão Científica a que se seguiu um Conselho Científico e, por estes órgãos, a docentes sucessivamente contratados, a docentes de outras Escolas da Universidade do Minho ao abrigo do modelo matricial de gestão desta Universidade, a médicos dos Hospitais de Braga e Guimarães e de Centros de Saúde da região onde se realizavam as residências clínicas, a personalidades quer de carreira académica, quer de formação médica, quer ainda de acção marcante em diferentes domínios de cultura.

No cumprimento desta missão desempenharam papel importante os alunos, pois das obrigações que lhes foram atribuídas pela Escola constava a avaliação crítica do curso, tanto ao longo do ano lectivo como no seu termo. Refiro em último lugar, não por minimizar mas para relevar, a “Comissão Consultiva Externa” (External Advisory Committee) maioritariamente constituída por professores de Escolas Médicas da Europa e dos Estados Unidos de elevado prestígio.

Esta Comissão acompanhou o desenvolvimento do Curso desde o seu início, e fê-lo com uma competência e dedicação que muito contribuiu para o aperfeiçoar com as suas recomendações e a todos nos animar com os seus votos de apreço e confiança.

Foi pela contribuição de todas estas pessoas, com diferentes âmbitos de atribuições e competências e diferentes graus de responsabilidade, organizados em grupos com níveis de coordenação verticalmente integrados, que se construiu a obra que agora festejamos. E que dizer dela, da sua qualidade?


  1. Admito que se considere que os mais directamente implicados na docência e na gestão do Curso não são as pessoas mais credíveis, aos olhos de quem está de “fora”, para depor a tal respeito: “ninguém é bom juiz em causa própria”, diz-se. Por isso, embora fôssemos sempre juízes incansáveis para fins internos – adiante voltarei a este assunto – nunca usamos trombetas para espalhar à nossa volta exaltados auto-elogios. Por decisão reiterada a que nunca fomos infiéis, sempre nos mantivemos mudos a tal respeito. O nosso lema é “venham ver e depois julguem”. Assim, deixamos aos nossos alunos, às pessoas externas que colaboram connosco, àqueles que, por qualquer razão, vêm à Escola e mostram interesse em conhecer o Curso, aos membros da Comissão Consultiva Externa, que fossem eles a falar, se assim o entendessem, sobre a qualidade do que tinham visto e verificado.

Estes informais embaixadores devem ter feito bom trabalho, face a factos indiscutivelmente credíveis. É o caso do aumento sistemático do número de alunos que escolheram o curso de Medicina da Universidade do Minho em 1ª opção.

É também o caso da disponibilidade das escolas médicas da Jefferson University e da Columbia University, de receberem alunos nossos para a fase de doutoramento do programa MD/PhD, que já se iniciou em Setembro último. É ainda o caso da apresentação desta Escola de Ciências da Saúde como “Case Study” europeu de inovação na educação, numa conferência promovida pela Embaixada do EUA em Portugal, pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Janeiro deste ano. Outros factos poderia referir, de testemunhos vindos de fora, sobre a qualidade do curso de Medicina da Universidade do Minho. Por ser o mais recente, e a pela sua originalidade, acrescento o de o Director Regional para a Europa da Organização Mundial de Saúde, Dr. Marc Danzon, ter, a seu pedido, frequentado este Curso como “aluno” nos dias 24, 25 e 26 do passado mês de Setembro, face ao interesse que lhe despertou na visita que fez à Escola em Julho.



  1. Onde estão as traves-mestras deste Curso?

Em meu entender, as mais mestras das mestras são as seguintes:

  1. Aprendizagem por objectivos de desempenho nos domínios da capacidade de adquirir e utilizar o conhecimento, do saber fazer (incluindo a comunicação interpessoal), do saber estar (as atitudes que decorrem do conceito de “profissionalismo”) e da interiorização dos valores que situam o exercício da medicina como actividade eminentemente ética e radicalmente não administrativa e não comercial;




  1. Protagonismo do aluno, enquanto autor da sua própria formação médica. Consequentemente, aprendizagem activa, crítica e personalizada, reconhecimento da dignidade do aluno enquanto pessoa, respeito pela singularidade da identidade de cada um, nomeadamente por projectos e residências clínicas de opção. Docentes como tutores da aprendizagem, a quem cabe não só informar, mas também e sobretudo orientar, esclarecer, questionar, estimular e avaliar.




  1. Integração disciplinar, reunindo as disciplinas científicas necessárias à compreensão de determinado tema numa mesma unidade curricular. Também integração vertical descendente, de aplicação clínica das ciências biomédicas e integração vertical ascendente, de fundamentação das ciências clínicas nas ciências biomédicas.




  1. Ligação à comunidade, proporcionando a vivência dos alunos fora dos hospitais, nomeadamente em centros de saúde e no seio das famílias.




  1. Inclusão da prática da investigação e da convivência com investigadores, como meio privilegiado de desenvolvimento do espírito crítico, de estimulação da curiosidade intelectual, de percepção de cada situação clínica como um problema novo, de educação do rigor, da paciência, da persistência e da humildade.




  1. Integração das “humanidades” como área curricular própria, a percorrer todos os anos do curso, pois, tal como Terêncio dizia 2 séculos a.C. “Sou Homem: nada do que é humano me é estranho”, também se pode e se deve dizer “Sou médico: nada do que é humano me é estranho enquanto médico”.


São estas as seis cintilantes estrelas dum Curso que se pretende …. de seis estrelas.

O resultado final em vista é formar diplomados em Medicina aptos a prosseguir, com êxito, a sua ulterior formação profissional e empenhados em ser, por toda a vida, peritos em ciência, arte e consciência.

Bons médicos e médicos bons.

Para manter fortes e sãs estas traves-mestras e, muito especialmente, para evitar que, sub-repticiamente, nelas penetre o caruncho, utilizamos uma “poção mágica” de que, gratuitamente, dou a receita:

Ingredientes:

- Cognitivos: Saber o que se quer e porque se quer

Saber o que não se quer e porque não se quer

- Volitivos: Querer mesmo o que se quer

Não querer mesmo o que não se quer

- Afectivos: Realizar com paixão e em cooperação.

Veículo:

Sentido de responsabilidade:

- avaliação contínua consequente

- prestação de contas.
Não competimos com ninguém, competimos connosco próprios: que o ano lectivo em curso seja de melhor qualidade que o anterior, que o próximo ano lectivo seja de melhor qualidade que o actual.


  1. É tempo de terminar. Faço-o com uma declaração, uma evocação e três saudações.

A declaração, feita com a frontalidade da convicção de dizer a verdade, é que a Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho cumpriu integralmente, e de modo altamente qualificado, o compromisso de honra que assumiu perante o Governo de construir e realizar um Curso de Medicina que obedecesse aos requisitos expressos na Resolução do Conselho de Ministros nº 140/98, de 4 de Dezembro.

A evocação é da Ana Franky e do Tiago Gil, ausentes em Filadélfia e Nova Iorque, respectivamente, onde, na Jefferson e na Columbia, estão a iniciar o seu programa de doutoramento, concluído que foi o seu 5º ano de Medicina. Todos lhes desejamos o maior êxito, porque o merecem e porque esta Escola o merece também.

Quanto às saudações, a primeira é aos alunos que iniciaram neste ano lectivo de 2007/08 o seu curso de Medicina nesta Escola. Reitero-lhes as palavras que lhes dirigi na Sessão de Acolhimento realizada em 24 de Setembro: “Sede bem-vindos. Tudo faremos ao nosso alcance para que sejais médicos competentes e compassivos, numa opção de vida ao serviço da vida”.

A segunda saudação é para os novos diplomados.

Parabéns! Estou muito feliz por vos ver chegar ao fim do vosso curso, apenas com duas baixas.

Agradeço-vos todo o vosso empenhamento no contínuo aperfeiçoamento do Curso, bem como a qualidade do vosso modo de estar nos estabelecimentos de saúde e noutras instituições que, no âmbito das Residências Clínicas e dos Projectos de Opção, frequentastes, e ainda a criatividade, dedicação e camaradagem da vossa acção no seio da Associação Académica da Universidade do Minho e do seu Núcleo de Estudantes de Medicina que vocês fundaram e também da Associação Nacional dos Estudantes de Medicina e da Federação Internacional dos Estudantes de Medicina.

Estou certo de que sereis fiéis cumpridores do vosso dever supremo enquanto médicos, que vos apontei no “Guia do Caloiro” de 2001 e poucos dias depois repeti na Aula Inaugural: Serdes competentes, compassivos e virtuosos; gente de confiança, pessoas a quem se pode pedir, com a certeza de ser bem atendido e bem entendido: “Ajude-me!”

O que lamento – e lamento-o profundamente, indignadamente – é que o acesso ao internato do domínio vosso preferido não dependa da vossa competência clínica – que para o efeito conta zero – mas duma obsoleta e dinossáurica prova de seriação, que consta da memorização de cinco capítulos de um livro. Para sucesso seguro, mais valia um curso de Medicina em que em cada ano se decorasse um capítulo e, no sexto, se refrescasse a memorização de todos…

Como vocês sabem, esta Escola de Ciências da Saúde não corta a sua ligação convosco, uma vez terminada a sua responsabilidade “legal”, isto é, imposta por lei:

Ela impôs-se a si mesma acompanhar o vosso percurso profissional, no âmbito de um “Projecto Longitudinal” que começou com a vossa passagem por esta Escola.

Tal será feito de modo estruturado, seguindo a metodologia seguida desde há muitos anos pelo Jefferson Medical College e com a sua assessoria. Iniciado convosco, o projecto integrará todos os actuais e futuros alunos de Medicina da Universidade do Minho e constituirá preciosa fonte de informações para o permanente aperfeiçoamento do curso e, obviamente, um meio de manter e reforçar a ligação afectiva entre a Escola de Ciências da Saúde e os seus ex-alunos.

Não me passa pela cabeça que um projecto destes, que só em poucas escolas médicas do mundo vigora, não seja compreendido, acolhido e apoiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Apraz-me referir que uma ligação institucional à Escola foi também desejada por vós, e daí a vossa iniciativa da criação da “Alumni Medicina – Núcleo de Antigos Alunos de Medicina da Universidade do Minho”.

A terceira saudação dirijo-a à professora Cecília Leão, desde há minutos presidente desta Escola, a quem exprimo o meu maior apreço e a quem desejo as maiores felicidades.


  1. Nos empenhamentos existenciais, naqueles que afectam a totalidade da pessoa em doação de si, é indispensável ponderar em que entrar e depois, quando sair.

Miguel Torga, na segunda parte do seu poema “Canção do Semeador”, diz:

“… todo o Semeador

Semeia contra o presente.

Semeia como vidente

A seara do futuro,

Sem saber se o chão é duro

E lhe recebe a semente.”


Senhor Reitor e Senhora Presidente:

No que ao Curso de Medicina da Escola de Ciências de Saúde da Universidade do Minho respeita:

Um semeador semeou.

Muitas vezes o Governo recusou,

Até que por fim aceitou.

A semente germinou,

A seara brotou.

A missão do semeador terminou.

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Cerimónia de Graduação – 8 de Outubro de 2007



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