Escola e cultura no século XX: cadernos escolares de uma educadora paraibana (1948)



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ESCOLA E CULTURA NO SÉCULO XX: CADERNOS ESCOLARES DE UMA EDUCADORA PARAIBANA (1948)
Francymara Antonino Nunes de Assis - UFPB

francym@terra.com.br

Charliton José dos Santos Machado - UFPB



charlitonlara@yahoo.com.br

Tatiana de Medeiros Santos - UFPB



taty_ms11@hotmail.com
Eixo Temático 9: Patrimônio educativo e cultura material escolar
Este trabalho é fruto da pesquisa de doutorado “Práticas educativas no cariri paraibano: memórias da educadora Estelita Antonino de Souza (1947-1991)”, vinculada ao projeto Educação e Educadoras na Paraíba do Século XX: práticas, leituras e representações, do Grupo de Estudos e Pesquisas “História da Educação da Paraíba” – HISTEDBR/GT-PB. Trata-se de uma primeira abordagem dos cadernos escolares e das narrativas sobre o cotidiano escolar do Ginásio de Santa Rita, localizado na cidade de Areia - PB, local onde Estelita Antonino de Souza, professora e historiadora paraibana, cursou o ginásio. Os depoimentos da educadora, assim como seu rico arquivo, composto por livros, atas, cadernos de alunos, planos de aula, fotografias, revistas, publicações diversas, trabalhos escolares, correspondências, dentre outros documentos, são parte do acervo que será objeto de estudo da tese. A pesquisa encontra-se em fase de levantamento e catalogação das fontes, o que permite a construção das primeiras análises. As narrativas que compõem este artigo são resultantes de uma entrevista realizada com a educadora em agosto de 2009. A entrevista, que foi gravada e transcrita na íntegra, não seguiu um roteiro previamente definido, o que permitiu que diversas memórias viessem à tona. Os cadernos escolares objetos de análise são o de economia doméstica e o de trabalhos manuais, datados de 1948. O objetivo é refletir, por meio de relatos orais de vida e dos cadernos escolares, sobre as formas utilizadas para legitimar saberes e disseminar conhecimentos e valores neste nível de ensino. A metodologia adotada para a análise do tema compreende a discussão teórica sobre a cultura escolar, os estudos no território da memória, bem como as contribuições da nova história cultural, na perspectiva do enfoque na vida cotidiana. A narrativa oral de Estelita Antonino lembra os primeiros anos de sua formação no Ginásio de Santa Rita e revela um conjunto de práticas culturais voltadas para a formação das moças. Os cadernos são objetos claros das práticas escolares que confirmam o trabalho organizado e desenvolvido pelos professores na referida instituição, através do treino exigido das suas alunas. A apreciação de suas falas e dos cadernos escolares permite desvelar, mesmo que de forma parcial, práticas culturais implementadas no Ginásio de Santa Rita no momento estudado. Desse modo, é possível apreender as formas de organização do cotidiano escolar e as prováveis estratégias utilizadas para desenvolver os métodos de ensino, como os métodos punitivos e disciplinares.

Palavras-chave: Cultura Escolar. Educadora. Práticas.

Considerações iniciais:

Este trabalho é fruto da pesquisa de doutorado “Práticas educativas no cariri paraibano: memórias da educadora Estelita Antonino de Souza (1947-1991)”, vinculada ao projeto Educação e Educadoras na Paraíba do Século XX: práticas, leituras e representações, do Grupo de Estudos e Pesquisas “História da Educação da Paraíba” – HISTEDBR/GT-PB.

Entendemos que a riqueza de experiências e conhecimentos que os educadores constroem ao longo de suas trajetórias é o que efetivamente constitui as histórias da educação de cada escola, de cada contexto, de cada época.

Nesse sentido, propomos a utilização das narrativas sobre o cotidiano escolar e a análise dos cadernos escolares de Estelita Antonino de Souza, hoje com 79 anos de idade, professora e historiadora, natural do Sítio Ligeiro, zona rural da cidade de Serra Branca, como objeto de estudo e fonte para a escrita da história da educação da Paraíba. Seu nome não está completamente ausente desta história, uma vez que publicou dois livros e é citada como referência na história da educação da cidade de Serra Branca, local onde nasceu e atuou durante a docência. Apesar disso, pouco se sabe a respeito de sua trajetória pessoal e profissional, razão pela qual, neste trabalho, as narrativas da educadora são também objeto de pesquisa e análise.

As narrativas fornecem pontos de apoio para o trabalho historiográfico, seja no sentido mais amplo de informá-lo sobre seu objeto de estudo ou sobre a conjuntura pesquisada, seja no sentido de, até mesmo, fornecer-lhe problematizações e perspectivas de análise. No caso do presente estudo, as narrativas serão utilizadas, sobretudo, para o resgate da pessoa do educador na sua história de vida. A história de vida pode ser considerada um relato autobiográfico no qual a escrita (que define a autobiografia) está ausente. Na história de vida, é feita a reconstituição do passado pelo próprio indivíduo, sobre o próprio indivíduo.

Nesse percurso, pretendemos, através da recuperação da memória feminina e das experiências de vida, enunciar algumas possibilidades de leitura acerca das relações pedagógicas e dos processos de formação escolar da educadora.

O desenvolvimento desse trabalho implica inevitavelmente na busca da compreensão do conceito de memória. Este esforço se justifica, pois a história oral tem como suporte as lembranças, evidenciando uma memória coletiva. Esta última pode ser entendida como somatória de experiências individuais passíveis de serem utilizadas como fontes históricas.

Concordamos com Maurice Halbwachs quando afirma que lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar com imagens e idéias de hoje. Não conhecemos o passado tal como foi porque o tempo transforma as pessoas em suas percepções, idéias, juízos de realidade e de valor. A partir dos estudos de Halbwachs, que apontam o caráter coletivo da memória e assim lhe atribui uma função social, é que se torna possível colocar a questão memorialista sob o ponto de vista histórico-sociológico. Esta reconfiguração permite reavaliar e apresentar o depoimento oral como fonte para o historiador.

Assim, a história, com as facetas social e pessoal da educadora entrevistada, será construída entremeando-as de modo que os depoimentos orais (as narrativas) de vida sobre seu cotidiano escolar relacionem-se fortemente às histórias de vida pessoal e social, isto é, às memórias da entrevistada.

No acervo particular da educadora encontramos livros, cadernos de alunos, atas, planos de aula, fotografias, revistas, publicações diversas, trabalhos escolares, correspondências, discursos, recortes de jornais, dentre outros documentos. Acumular e guardar esses objetos auto-biográficos1 é um traço de identidade que sugere a intenção de narrar sua vida através de escritas diversas. Estelita Antonino coleciona papéis que podem reconstruir sua trajetória na medida em que destacam sua singularidade e sinalizam como elaborava o sentido da vida, registrava suas vivências e práticas cotidianas.

Percebemos num primeiro olhar sobre o arquivo da educadora a grandeza do trabalho a ser realizado na tentativa de traçar sua trajetória de vida. São centenas de documentos com folhas amareladas pelo tempo, acumulados em estantes, guarda-roupas, gavetas, pastas, álbuns, alguns quase a se desfazerem, exigindo um folhear cuidadoso daquele que busca colocar alguma ordem na desordem dos papéis, fragmentos de uma vida. Quais selecionar? Quantos descartar?

Podemos apenas proceder como quem observa uma paisagem, percebendo as variações do terreno, indo aos poucos elaborando um mapa do caminho que permita orientar aqueles que poderão passar pelos mesmos lugares no futuro. Estes poderão escolher outras rotas, ou registrar novas alterações, refazendo o mapa, que será sempre transitório.

Neste momento, pretendemos, a partir das narrativas da educadora e da investigação dos cadernos escolares de Economia Doméstica e Trabalhos Manuais, compreender parte do percurso de sua trajetória escolar, a singularidade de seu itinerário pessoal, buscando também refletir sobre as práticas de memórias femininas, as práticas de memória docente e a cultura escolar no período estudado. As narrativas que compõem este artigo são resultantes de uma entrevista realizada com a educadora em agosto de 2009. A entrevista foi gravada e transcrita na íntegra, e como não seguiu um roteiro previamente definido, permitiu que diversas memórias viessem à tona.
Cadernos escolares: reflexos da cultura escolar no Ginásio de Santa Rita
No arquivo de Estelita Antonino, hoje com 79 anos, velhos cadernos escolares documentam a singularidade da sua formação na escola confessional Ginásio de Santa Rita, em 1948. Os cadernos nos foram apresentados, assim como todos os demais documentos, um a um, cuidadosamente, sem antes passarem pelo olhar da educadora, que decidia qual informação poderia nos servir. Nessas ocasiões afirmava: “[...] isso não deve interessar, não [...]”. Procuramos recompor parte desta memória da cultura escolar paraibana através da análise dos cadernos escolares de Economia Doméstica e Trabalhos Manuais, ambos do curso ginasial.

Entendemos cultura escolar conforme a define Dominique Julia (2001):


[...] um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a incultar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas ou simplesmente de socialização). Normas e práticas não podem ser analisadas sem se levar em conta o corpo profissional dos agentes que são chamados a obedecer a essas ordens e, portanto, a utilizar dispositivos pedagógicos encarregados de facilitar sua aplicação, a saber, os professores primários e os demais professores.

Os cadernos escolares inserem-se nessa perspectiva na medida em que se constituem como fontes históricas emblemáticas e reveladoras da cultura escrita no período estudado, além de ajudar a entender o funcionamento escolar de uma maneira diferente daquela veiculada pelos textos oficiais ou discursos pedagógicos (CHARTIER, 2006).

O caderno escolar, além de possuidor de materialidade, também tem características que o distingue de outros materiais de registro. A organização dos cadernos assegura que cada página mantenha relação com a outra, de modo que não é possível retirar páginas sem que se quebre sua estrutura e a compreensão da mensagem. Pelo caderno é possível debruçar-se sobre cada etapa do que foi ensinado sem perder de vista o conjunto dos saberes escolares veiculados no Ginásio de Santa Rita no tempo estudado.

A partir da análise da entrevista e dos cadernos escolares, destacamos o caráter disciplinador da experiência escolar de Estelita Antonino. A disciplina no Ginásio de Santa Rita funcionava como instrumento eficiente de dominação e controle, destinada a domesticar os comportamentos divergentes da norma. Foucault (1987) descreveu como, na modernidade, o corpo se tornou alvo do poder disciplinador, sobre o qual se impõem obrigações e proibições, no intuito de submetê-lo, utilizá-lo e transformá-lo num corpo dócil. No relato da educadora, a seguir, percebe-se o rigor da disciplina no cotidiano escolar do Ginásio de Santa Rita:

[...] tudo era norma, tudo era regra, sabe. Do amanhecer do dia quando a gente acordava, até quando a gente ia se deitar. Inclusive [...] nem na hora de dormir ficava (só) sabe. E tinha uma, um quartinho que era um quarto da freira que a gente chamava cela. Naquele andar o dormitório só tinha uma cela, que era a cela da freira que tomava conta, sabe. Aí, por exemplo, quando era assim de manhãzinha, aí tocava, assim, pra gente se levantar. Era, como se diz ...., era um toque. A gente levantava, arrumava a cama, a gente ajeitava tudo direitinho e descia pra tomar banho e depois de tomar banho, ia pra igreja assistir a missa.
Procuramos, também, determinar quais os usos dos cadernos escolares. Segundo a educadora, os professores faziam exposições orais e/ou utilizavam o quadro-negro. Os alunos anotavam tudo com grande esmero, em cadernos dos quais se serviam em todas as aulas.

Os cadernos de Estelita Antonino têm textos “pontos”, organizados de diversas maneiras, modelando a apropriação dos saberes na sala de aula e as atividades desenvolvidas como tarefas escolares. Os cadernos de Trabalhos Manuais e Economia Doméstica têm configuração muito distinta dos demais, pois são registros de práticas que, no cotidiano escolar não se esgotam no registro da lição ou no exercício. Eles são suportes de outras atividades: desenhar, pintar, costurar, bordar.

Os cadernos assim utilizados, diariamente, constituem-se numa forma especial de registro dos produtos escolares do ano de 1948 no Ginásio de Santa Rita. Estelita Antonino relembra o uso dos cadernos no período dos estudos:

[...] o professor de história usava o caderno todo dia. Todo trabalho que fosse fazer, fosse prova, fosse exercício de qualquer disciplina era no caderno. Não tinha outra coisa pra escrever não. [...] O professor de História mesmo, ele chegava na classe, [...] pegava os livros e quem quisesse escrever, baixava a mão sem levantar nem a cabeça, porque se levantasse, não dava nem tempo, porque quando chegava na hora ele recolhia (os cadernos).


Segundo a educadora, os cadernos eram recolhidos pelo professor que examinava e corrigia as lições. Compreendemos que, enquanto documentos escritos e registros do cotidiano, o exame desses cadernos, realizado pelo professor de forma individual e coletiva, servia de base para a avaliação contínua, uma vez que permitia conhecer o aproveitamento de cada aluno, o cumprimento do programa de ensino e o andamento da sala de aula. Nessa perspectiva, o caderno pode ser considerado um instrumento de trabalho e de controle, tanto do aluno como do professor (Viñao, 1990).

Estelita Antonino afirma que no Ginásio de Santa Rita, na década de 1940, prevalecia o ensino verbalístico, com rígidas chamadas orais ou provas escritas para o registro das notas. Sua fala, a seguir, relembra o período das provas:

[...] usávamos os cadernos pra fazer as provas e as tarefas. [...] vamos dizer de História, de Geografia [...] assim como Inglês, como Francês, [...]. Essas tarefas (de inglês e francês) era mais difícil, assim, era tarefa que a gente nunca tinha visto [...] eram provas que exigiam muito da gente [...] tinha meninas que passavam a noite em claro.
Neste período, a educadora já se interessava pela atividade docente. As colegas, ao perceberem sua capacidade de explicar e fazer com que as outras entendessem, pediam-lhe para ensinar as que tinham dificuldades. Assim, suas experiências da vida escolar podem ter contribuído para a construção de saberes e concepções relacionadas ao trabalho docente. A fala a seguir ilustra a prática da educadora e o rigor disciplinar da instituição:
Eu ensinava demais às minhas colegas, quando a gente subia para o dormitório tinha que fazer silêncio, mas as meninas me chamavam e o que eu sabia eu ensinava pra elas. [...] muitas vezes elas saiam do lugar que tava e vinha pra perto de mim, acocorada na cama pra freira não ver. E assim a gente dava uma estudada. Eu explicando e ela estudando com o livro, sabe.
O relato de Estelita Antonino permite inferir que estes saberes escolares, objetivados em livros, eram apreendidos a partir dos textos que os alunos poderiam ler e escrever nos seus cadernos.

Com relação à disciplina Economia Doméstica, sabemos que surgiu no campo do ensino com o nome de “trabalhos manuais”, colocada no currículo secundário pela Reforma Capanema, sendo vista como um curso de Educação Doméstica, fazendo parte do ensino técnico profissional. O Plano Nacional de Educação de 1937 previa a existência de um ensino doméstico reservado para meninas entre 12 e 18 anos. Tratava-se de um ensino feminino contendo dois ciclos: um para o preparo das mulheres para a vida no lar, e um outro para a formação de professores pela Escola Normal Doméstica (SCHWATZMAN, BOMEHY, COSTA, 1984). A partir da promulgação da Lei Orgânica do Ensino Secundário2, em 1942, foi incluído o ensino de Economia Doméstica em todas as séries dos cursos ginasial, clássico e científico. Os objetivos da Economia Doméstica estavam voltados para a educação feminina, sobre a qual Capanema teria definido, segundo Vilhena, (1988):

[...] o que viria a ser estatuído para o ensino secundário: a necessidade de uma educação especial para a mulher com a intenção de prepará-la para a vida doméstica e para a conservação da família. Este seria, inebitavelmente, o tipo de serviço que a mulher deveria prestar à sociedade brasileira.
Enquanto disciplina do ensino secundário, a Economia Doméstica deveria estar voltada para a formação de jovens que se preparassem para a vida doméstica e exercessem a função de “mães de família”. É o que transparece na lição que Estelita Antonino registra em seu caderno de Economia Doméstica: “É o sonho da moça possuir sua casa, penhor de felicidade, segurança, tranqüilidade e paz.”

E mais adiante:


Conta-se de um príncipe que, para escolher a noiva, mandou colocar uma vassoura no chão, em lugar por onde passariam as candidatas. E escolheu dentre todas aquela que, antes de se lhe dirigir, se abaixou para retirar a vassoura e encostá-la à parede. Quanta moça não deixaria de desposar o príncipe, se lhe fosse imposta a mais insignificante prova referente à ordem e à arrumação.
O Ginásio de Santa Rita, na década de 1940, adotava plenamente a função de colégio de moças quando as alunas se reuniam para as aulas de trabalhos manuais, afinal, cuidava-se da instrução das meninas, mas também da formação para o cumprimento do destino de “esposa e mãe de família”. Segundo Tanure (1970), preenchia-se a função de formar moças, “a fim de que pudessem desempenhar suas funções de mães de família e senhoras da sociedade”.

A seguir, ilustração do caderno de Trabalhos Manuais da aluna Estelita Antonino:





Figura1: Conserto doméstico

Fonte: Arquivos de Estelita Antonino de Souza: caderno
Nas figuras abaixo, percebemos que os pontos de cruz e franzidos faziam parte das aulas de Trabalhos Manuais, tornando-se um padrão para o enxoval da moça, pois adornavam toalhas de mesa, bandejas de café, lenços, guardanapos, panos de prato e roupinhas de bebê:



Figura2: Conserto doméstico Figura2: Roupas de bebê .Figura3: Pontos de bordar

Fonte: Arquivos de Estelita Antonino de Souza: Cadernos
Na entrevista que realizamos, as práticas dos trabalhos manuais são lembradas com grande carinho, como um legado da formação recebida. Ainda assim, é percebida como forma de controle da escola, pois ocupava as moças mesmo durante os recreios. A esse respeito a educadora comenta:

[...] Depois do almoço, a gente tinha um intervalozinho, que é nesse intervalo que a gente ficava conversando e as freiras não queriam que a gente só conversasse. Botava um trabalhozinho manual pra gente fazer [...].


Desse modo, a moça ao aprender os pontos de bordado para fazer o seu enxoval, ia adquirindo algumas formas de comportamento e atitudes que a tornavam uma “moça prendada”.

Podemos compreender a importância atribuída à educação doméstica e às noções de higiene quando nos remetemos a uma escola confessional destinada à formação de moças, como o Ginásio de Santa Rita. No contexto da época, elas para lá eram enviadas para aumentar seu conhecimento e instrução, com a intenção realizar melhor suas tarefas de esposas e mães de família. Nesse sentido, o caderno de Economia Doméstica enfoca conteúdos específicos de educação doméstica e higiene, destinados à formação da dona de casa e mãe de família. Abaixo, fragmento da lição escrita no caderno da aluna Estelita Antonino:


Depois que a empregada limpa e arruma, descobre ainda a dona de casa muito o que aperfeiçoar: um canto por onde não passou a vassoura, um móvel onde o pano de pó não esteve, o arranjo das flores na jarra, a posição de um pano bordado para corrigir, tantos outros requintes e minúcias que os olhos de uma empregada nunca enxergam.
Além da limpeza diária, lava-se a casa a cada sábado [...] Uma vez por mês, em semana preestabelecida, far-se-á uma arrumação minuciosa, cada dia em um aposento da casa. [...] Anualmente caiar, pintar, esfregar palha de aço no assoalho e encerar de novo, envernizar os móveis, ferver a louça toda em soda cáustica.
O caderno de Trabalhos Manuais organizava-se num caderno de desenho, tamanho ofício, e prestava-se a recolher desenhos do próprio aluno. No caderno de desenho, ilustrado abaixo, Estelita Antonino pinta com lápis de cor, combinando e graduando as cores. Para cada desenho, uma identificação escrita:


Figura5: Desenho

Fonte: Arquivos de Estelita Antonino de Souza: caderno

As alunas se dedicavam a desenhar seguindo as orientações da professora. No caderno observado, figuram pássaros da fauna brasileira.



Considerações finais:
As primeiras análises decorrentes da catalogação das fontes do arquivo particular de Estelita Antonino de Souza permitem inferir que a intenção autobiográfica orientou o processo de acumulação de papéis. Os inúmeros documentos guardados por ela permitem apreender valores, representações, formas de conceber o mundo, constituindo-se numa forma particular de narrar sua vida e compreender o lugar social de sua produtora, suas redes de sociabilidades e afetos, projetos compartilhados com homens e mulheres que fizeram parte de sua história.

No arquivo da educadora predominam sua vida escolar e profissional. Seus documentos podem sugerir que as professoras são produtoras de arquivos nos quais abordam o cotidiano escolar. Seus diários de classe, cadernos escolares, planos de ensino, fotografias de alunos, anotações de leituras, constroem um modo de inscrição das mulheres na sociedade, revelando atuações anônimas ou silenciadas.

A análise da entrevista realizada com a educadora e dos cadernos escolares de Economia Doméstica e Trabalhos Manuais revelou uma seqüência de precauções em torno dos comportamentos, por meio das quais se procurava, através do ensino propugnado no Ginásio de Santa Rita, formar uma moça prendada.

Percebemos através da voz da educadora que um dos objetivos da Instituição era a educação da mulher tendo como princípios de vida a obediência, a ordem, o estudo, o respeito, tudo o que pudesse ajudá-las a se constituírem moças a serviço da família e da sociedade.

No cotidiano, as práticas educativas e disciplinares submetiam as alunas a um sistema de controle, com espaços e horários delimitados, que visava à formação de jovens submissas, cultas e com boas maneiras.

Podemos sugerir que no interior do Ginásio de Santa Rita as famílias tinham a segurança de que suas filhas receberiam uma educação que as moldaria ao perfil que a sociedade daquela época exigia em relação ao sexo feminino, qual seja: uma mulher dócil, meiga e dedicada a cumprir suas funções de mãe e de esposa.

A leitura de seu arquivo permite reconhecer em documentos as experiências que a singularizam na história da educação da Paraíba. Ao guardar seus documentos, ela não só se deu a conhecer, mas também permitiu compreender as condições culturais de seu tempo, o modelo de mulher propugnado, o significado do magistério em sua vida.

No contexto dessas considerações, tentamos dar a perceber que a materialidade da cultura escolar, utilizada como ferramenta de investigação, pode nos remeter a um universo complexo, permeado de intencionalidades e significados, que interferem nas relações e práticas desenvolvidas na escola. Os componentes materiais, como os cadernos escolares, relacionados ao campo de sua produção e compreendidos como portadores de sentidos, atrelados ao sistema de valores e significações sociais, transcendem sua função elementar de facilitar o processo ensino-aprendizagem, tornando-se fontes para a problematização desse processo.


Referências:
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
CHARTIER, Anne Marie. Os cadernos escolares: organizar os saberes, escrevendo-os. Revista de Educação Pública, Cuiabá, v. 16, n.32, set-dez. 2007.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.


JULIA, Dominique. A cultura como objeto histórico. Revista Brasileira de História da Educação, Campinas, n.1, 2001.
KOTRE, John. Luvas Brancas: como criamos a nós mesmos através da memória. São Paulo: Mandarim, 1977.
POLLAK, Michael. Memória e Identidade social. In: Estudos Históricos. Vol. 5, n. 10. Rio de Janeiro, 1992.
SCHWATZMAN, S., BOMEHY, H. M. B., COSTA, V. M.R. Tempos de Capanema. Rio de Janeiro: Paz e Terra, São Paulo: Universidade de São Paulo, 1984. (Coleção Estudos Brasileiros, v. 81).
TANURE, L.M. Contribuição para o estudo da scola normal no Brasil. Pesquisa e Planejamento, São Paulo, v. 13, dez. 1970.
VILHENA, C. P. S. Família, mulher e prole: a doutrina social da Igreja e a política social do estdo novo. São Paulo: Doret, FEUSP, 1988.
VIÑAO FRAGO, A. Historia de la educación e historia cultural: posibilidades, problemas, cuestiones. Revista Brasileira de Educação, n. 0, 1995.
Entrevista:
Estelita Antonino de Souza. Entrevista realizada em sua casa, no município de Serra Branca, no dia 22 de julho de 2009.

Fontes utilizadas:
Caderno de trabalhos manuais – Curso Ginasial - Ginásio de Santa Rita, 1948.

Caderno de economia doméstica – Curso Ginasial - Ginásio de Santa Rita, 1948



1 Aqueles que servem de suporte para a recuperação das lembranças evitando que elas desapareçam ou se deteriorem (KOTRE, 1977).

2 Decreto-lei n.4.244 de 9 de abril de 1942, Lei Orgânica do Ensino Secundário. Título III, Do ensino secundário feminino. Art. 25 – “Prescrições especiais”.

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