Escola normal de campinas e os manuais de boas maneiras



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ESCOLA NORMAL DE CAMPINAS E OS MANUAIS DE BOAS MANEIRAS
Ms. Rita de Cássia Luiz da Rocha – Faculdade Guairacá1

e-mail: ritaluiz@faculdadeguairaca.com.br



O presente trabalho desenvolve-se no âmbito dos projetos de preservação do patrimônio histórico educativo desenvolvidos pelo CIVILIS, Grupo de Estudos e pesquisas em História da Educação, Cultura Escolar e Cidadania, da FE/UNICAMP, no qual a autora deste resumo realiza pesquisa em nível de doutorado. A escola, nas primeiras décadas do século XX, foi percebida como agência formadora, em que privilegiaria as regras de condutas dos futuros professores os quais seriam organizadores da alma nacional. Boas maneiras, bons antecedentes, delicadeza, refinamento, entoavam e comporiam a figura das professoras e dariam sentido à profissão docente. Neste sentido, a pesquisa em andamento concentra-se no acervo da Escola Normal de Campinas, precisamente nos manuais de civilidade para a formação de professores. O trabalho se desenvolve na perspectiva de análise processual da micro-história, em que será possível emergir novas reflexões sobre a constituição das práticas pedagógicas desenvolvidas pela Escola Normal de Campinas. Os manuais levantados, até o momento, são exemplos claros de como se almejava a aprendizagem das regras de convivência e civilidade dentro e fora da escola. Alguns destes manuais foram elaborados na Argentina, Portugal e França entre eles estão: O livro das Donas e Donzelas de Julia Lopes de Almeida; O pequeno manual de Civilidade para Uso da Mocidade; Tratado de Civilidade e Etiqueta de autoria da Condessa de Gencé. A utilização destes manuais demonstra as intersecções dos códigos de refinamento adotados no Brasil na busca da auto-imagem como país civilizado. Ao buscar relacionar os códigos de boas maneiras aos modelos civilizatórios estudados por Norbert Elias, verifica-se de que forma estes novos hábitos e condutas foram sendo internalizados por meninas e jovens, a partir dos manuais veiculados pela escola. Sob esse aspecto, infere-se que é no grupo social do qual a individuo participa, que se regula a vida instintiva e naturalizam-se comportamentos, fazendo com que sejam apreendidos, controlados e autocontrolados por meio de mecanismos de internalização combinados a determinadas estratégias ou modelos verificados pelo tempo. Comportamentos que indicariam novos padrões, pautados por preceitos normativos e padrões estéticos a serem seguidos.
Palavras-Chave: Educação - Civilidade – Manuais de Boas Maneiras

NORMAL SCHOOL OF CAMPINAS AND MANUALS GOOD MANNERS
Abstract

This work is developed under the project for the preservation of historical education developed by CIVILIS, Group Study and Research in History of Education, School Culture and Citizenship, the FE / UNICAMP, in which the author conducts research in this summary level PhD. The school, in the first decades of the twentieth century was perceived as an agency trainer, which would favor the rules of conduct of teachers who were organizers of the national soul. Good manners, good background, delicacy, refinement, chanted and compose the picture of the teachers and give meaning to the teaching profession. In this sense, the ongoing research focuses on the collection of the Normal School of Campinas, precisely in the manuals of civility to the training of teachers. The work will give the perspective of processual analysis of micro-history, where you can rise to new reflections on the constitution of the pedagogical practices developed by the Ecole Normale de Campinas. The hand raised, so far, are clear examples of how it is learning the rules of civility and harmony within and outside of school. Some of these manuals were developed in Argentina, Portugal and France among them are: The book of Housewives and Damsels Julia Lopes de Almeida, The Little Manual of Civility for Youth Usage; Treaty of Civility and Etiquette of authorship of the Countess of Genco. The use of these manuals shows the intersections of refinement of the codes adopted in Brazil in search of self-image as a civilized country. In seeking to link the code of good manners to the civilizational models studied by Norbert Elias, it is how these new habits and behaviors have been internalized by girls and young women, as manuals for the school run. In this regard, it appears that is the social group to which the individual participates, which regulates the instinctive life and naturalize themselves behaviors, causing them to be learned, controlled and self-controlled by combined mechanisms of internalization of certain strategies or models verified by time. Behaviors that indicate new standards, guided by normative precepts and aesthetic standards to be followed.
Keywords: Education - Civility - Manners Manuals


INTRODUÇÃO

Refinar os indivíduos, sociedade civilizada, tirar o povo da barbárie, foram invocações difundidas fortemente por grupos de políticos, intelectuais e religiosos no século XIX. A idéia de instituir modelos de moral, cortesia, costumes, correção nos modos, aparência na maneira de ser, tornaram-se imprescindíveis para toda a sociedade civilizada, conceitos que foram difundidos fortemente por todo o Ocidente.

Desta forma, inúmeras nações se autodenominaram civilizadas ou perquiriram esta condição. A civilização se apresentaria pelo alto padrão de comportamentos pessoais esperados, estes permeados por um ideal de grande significação emocional, o processo de vir a ser. “as unidades sociais que chamamos de nações diferem muito na estrutura da personalidade de seus membros, nos esquemas através dos quais a vida emocional do individuo é moldada sob pressão da tradição institucionalizada e da situação vigente”(ELIAS, 1994: 49).

A maior evidência deste processo é exatamente a introdução da educação compulsória, e da educação como dever do Estado. Ocorre que, tanto quanto a seguridade social e a saúde, a educação esbarrou em limitações sociais para o seu crescimento. A crescente competitividade no interior do sistema educacional, e entre os educandos, criou, como no medo do insucesso, um custo psicológico muito alto, provavelmente em oposição aos grandes objetivos da educação. Do mesmo modo, a educação passou a servir como um caminho sempre lembrado, tanto para 'corrigir' situações psicológicas derivadas de incertezas existenciais comuns no universo contemporâneo, quanto para 'salvar' as novas gerações e os projetos políticos de suas crises, as quais, como as psicológicas, são exteriores à educação.

Como se pode ver, este tipo de abordagem desafia brutalmente auto imagens e identidades nacionais construídas apoiando-se em concepções de vida civilizada.

Neste sentido, a caracterização do que se entende por escola, como lócus de difusão de cultura e conhecimento cientifico, e compreendida como uma das instituições organizacionais da vida em sociedade, percorrera um longo trajeto. Entender a constituição da instituição escolar moderna, os processos que desencadearam a criação de inúmeros colégios, as culturas escolares e as bases que a sustentaram, devem partir das análises sócio-históricas a longo prazo.

David Hamilton (2001) ensina que, a forma escolar moderna não teve ancestrais institucionais – a escolarização moderna veio de lugar nenhum. A reconfiguração do conhecimento com novas técnicas e versões para a sala de aula dar-se-ão fortemente, no Renascimento, constituindo configurações marcantes na história das instituições escolares. Para esta efetivação, Hamilton destaca alguns meandros que balizaram a estrutura da escola moderna. Dentre estes estão: A distinção entre pedagogia (educação) e didática (instrução); método e disciplina; ensino e pregação; retórica e doutrina; Igreja e Governo; fé e cidadania. Tais meandros entrelaçados vieram imprimir organização à vida dos estudantes.

Petitat (1994) escreveu que neste período da Renascimento à Revolução Industrial “a secularização do ensino e a secularização da moral andam de mãos dadas”. O Estado interfere e investe forças na instrução dos indivíduos, campo, que de acordo com a tradição era ocupado pelas igrejas católicas e protestantes. Neste sistema, a educação torna-se o cerne de um processo brutal de persuasão e prevenção do Estado, ou seja, a instrução pública tem como finalidade essencial retirar os indivíduos da ignorância, outrora vista como natural.

Assim, a ideia de progresso anunciado pelos Estados-nação viria especificamente pela escolarização e sua institucionalização. A educação mencionada, os saberes elementares (ler, escrever e contar) eram vistos como alicerce da vida civilizada, ou seja, a educação estava vinculada à civilidade e ao progresso, um caminho para o desenvolvimento social e econômico. Nesta configuração, a reforma social seria mediada pela escola e com probabilidade de propagação de uma educação utilitária aos indivíduos e para o Estado. A par disso, o processo de elaboração da legislação sobre educação pode ser considerado como antecedente em relação a projetos e propostas educacionais pedagogicamente orientadas, desta maneira é possível admitir que, existindo uma precedência do legal sobre o pedagógico, haveria uma inferência centralizadora e estatal delimitando, senão o destino do sistema, ao menos os espaços de possibilidades das propostas pedagógicas, seja ela, pública ou privada. Desta maneira, o poder Estatal interferiu efetivamente nas instituições escolares, em seus currículos, programas, manuais, e organização do tempo e espaço.

No estudo proposto, a contribuição está em avançar na reflexão destas questões sobre a apresentação e discussão de um processo civilizador, em que modelos trazidos de vários países percorreram o sistema educacional brasileiro. Uma visão sustentada, como parte de um programa de civilidade em que a internalização de inúmeras regras de etiqueta influenciaram o modo de ser de professores que estavam em formação.

A exemplo tem-se os tratados advindos do legado de Erasmo de Rotterdam – A Civilidade Pueril – esta coletânea postulou por três séculos a pedagogia de aprender e ensinar as boas maneiras, por isso seus escritos humanistas, sobre os comportamentos dos indivíduos, tem um caráter especial e significativo na história da educação.

Ao referenciar Norbert Elias sobre o tratado de Erasmo, Costa indica:

É uma obra marcante dentre uma série de trabalhos humanistas sobre comportamentos, que formam uma espécie de ponte entre os da Idade Média e da Modernidade. Seu tratado é uma coletânea de observações que realizou sobre a vida e a sociedade. Um aspecto interessante ressaltado por Elias (1993, p.84) é que o importante não são as maneiras a que Erasmo se refere, ou as maneiras apontadas em outras obras humanistas, mas sim a forma como estas são abordadas, seu tom, sua maneira de ver (...) analisando a obra de Erasmo. A forma como foram se instituindo os processos civilizadores, está relacionada aos processos culturais pertinentes àquele momento histórico (COSTA, 2009).

No Brasil, segundo Cunha (2006), inúmeros manuais de etiqueta circulavam no final de século XIX, com a pretensão de formar uma burguesia emergente desejosa em aparentar boas maneiras. Mas foram as primeiras décadas do século XX que marcaram fortemente os currículos das Escolas Normais enredados por livros que compunham o material didático utilizado em aulas de Educação Moral e Cívica, Economia Doméstica, Trabalhos Manuais, Higiene, Puericultura, Literatura, Didática, Boas Maneiras. É possível verificar aí uma das representações significativas de projetos para o Brasil. O curso normal ofertado no período deveria estar de acordo com orientações voltadas não especificamente para a profissionalização, mas uma formação voltada para aspectos vocacionais, a mulher e o dom de ser boa mãe e educadora de seus filhos. Dessa forma, o magistério seria quase uma extensão do lar, e era pela via desses parâmetros que os colégios almejavam formar esta professora virtuosa, capaz de propagar conhecimentos à educação da infância, enfim, uma mulher voltada para a abnegação às crianças.

A circulação cada vez mais ampliada destes manuais especializados, na expectativa de que a mulher-professora aprendesse de forma racionalizada nas instituições educacionais brasileiras, conforma uma dimensão histórico–nacional ao demonstrar as intersecções dos códigos de refinamento adotados no Brasil na busca da autoimagem como país civilizado, uma vez que toma a escola de professoras como difusora de saberes e práticas afinadas com os desejos da sociedade, ou seja, formar um homem progressista e urbano.

Neste universo de aprendizagens, o controle estava na contenção de sentimentos e pulsões e ainda na conformação de uma formação voltada ao recato de sensibilidades, consideradas modelos de refinamento e excelência em comportamento. Assim, as mulheres tornaram-se divulgadoras de normas e tendências, das quais seus alunos e alunas seriam os vigilantes atuantes destes ensinamentos prescritos nos manuais, exemplos claros de como se dava a aprendizagem das regras de convivência e civilidade dentro e fora da escola.

O estudo destes manuais de civilidade tem apontado para a importância do mapeamento destes tratados que percorreram as escolas normais do país. Considera-se aqui o projeto de pesquisa em andamento do qual fazemos parte, sobre a preservação do patrimônio histórico escolar, desenvolvido por pesquisadores do CIVILIS, Grupo de Estudos e Pesquisas de História da Educação, Cultura Escolar e Cidadania, da FE/UNICAMP, e participantes da RIDPHE, Rede Iberoamericana para a Investigação e a Difusão do Patrimônio Histórico Educativo. Destaca-se o trabalho, realizado pela Profª.Drª. Maria Cristina Menezes –FE/UNICAMP, no âmbito de projeto, contou com o apoio da FAPESP e do FAEPEX/UNICAM, e possibilitou a recuperação do arquivo histórico documental da antiga Escola Normal de Campinas, São Paulo, cujo inventário foi publicado em 2009.

A partir deste projeto, Menezes (2003) indica, que a Escola Normal obteve em 1911 a denominação de Escola Normal Primária e o 2º grupo escolar da cidade passou a grupo escolar modelo. Em 1924, quando a escola passou a funcionar em prédio apropriado às suas funções, o 2º grupo escolar começou a funcionar em seu interior. Menezes (2003) ainda escreve “Tal movimento não foi privilégio dessa escola, fez parte de uma época e que atualmente constata-se nas pesquisas que se vêm desenvolvendo em tantas outras instituições”. Infere-se aqui a exemplo, o Projeto de Pesquisa “Tenha Modos! Educação e Sociabilidades em Manuais de Civilidade e Etiqueta (1845-1960)” da professora Maria Teresa Santos Cunha da Universidade do Estado de Santa Catarina realizado de 2004 a 2005. Este projeto possibilitou no período, a localização de 80 títulos das bibliotecas públicas do sul do país especificamente Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que foram digitalizados e compõem o acervo do Museu da Escola Catarinense.

O acervo da Escola Normal de Campinas traz documentos escritos, iconográficos, museológicos, e um grande número de itens bibliográficos, que deram forma à biblioteca infantil “Pequenos Bandeirantes” e à biblioteca da escola Normal cujo prédio posteriormente passou a instalar outras modalidades de instituições o que acarretou o aumento do acervo em número e títulos de obras. Dentre os tantos itens encontrados, pretende-se apresentar um mapeamento, ainda que modesto desta biblioteca, dentre os manuais levantados, destaca-se: O livro das Donas e Donzelas de Julia Lopes de Almeida; O Pequeno Manual de Civilidade para Uso da Mocidade; Tratado de Civilidade e Etiqueta de autoria da Condessa de Gencé. Estes manuais, encontrados na Escola Normal de Campinas, se confrontados com o projeto de Maria Teresa Santos Cunha, indicam a circulação destes nas diferentes regiões do Brasil:

O mais famoso (e provavelmente mais antigo) manual chamava-se Código do Bom tom, de autoria do cônego português identificado apenas como J.I.Roquette, publicado em 1845, (já em sexta edição em 1900) procurava normatizar os rituais do Brasil Imperial e se tornou leitura obrigatória para aqueles que almejavam ser bem sucedidos na sociedade. Relançado em 1984, este manual introduziu regras de como comportar-se em festas, eventos da sociedade, artes de bem viver, inspirado em manuais franceses. Data de 1932, a propagação e divulgação nas Escolas Normais da edição brasileira do “Pequeno Manual de Civilidade para uso da Mocidade”, editado pela Livraria Francisco Alves (...) Um dos manuais mais conhecidos e utilizados em Escolas Normais, especialmente em Santa Catarina, chamava-se Tratado de Civilidade e Etiqueta, de autoria da Condessa de Gencé, editado em Portugal em 1909 e que, em 1951, já se encontrava na 14ª edição (2006, p.352)

Considerados por Cunha (2006, p.352) como “vetores de sistemas de valores, ferramentas para a consolidação das formas e dos códigos morais e sociais” os manuais descrevem e inscrevem nos indivíduos os ensinamentos e as aprendizagens do que é ser civilizado. Não sendo diferente a utilização deste tratado na Escola Normal de Campinas, objeto de análise neste momento.




Condessa de Gencé: Modelo Civilizador para Brasil
Ao pesquisar a condessa francesa autora do manual, Cunha anuncia:

confirmam o desconhecimento do nome verdadeiro da autora que se assina com o pseudônimo de Condessa de Gencé e que tem nacionalidade francesa. Há uma breve referência que indica o ano de 1872 como o de seu nascimento não havendo qualquer indicação sobre seu falecimento. A primeira edição desse manual de civilidade foi publicada na França em 1895 e, em 1909, apareceu a primeira tradução em português que foi publicada pela Livraria Editora Guimarães & Cia., de Lisboa. Com este pseudônimo a Condessa publicou outros trabalhos, tais como: “Le cabinet de toilette d’une honnéte femme “, em 1909, sem tradução conhecida para o português e o“ Guia mundano das meninas casadoras”, em 1910, pela mesma Editora , em Lisboa. Sua presença nas bibliotecas escolares catarinenses data do início dos anos de 1930 (CUNHA, 2006, p.354).

A utilização do manual encontrado na Escola Normal de Campinas, não difere na organização dos capítulos divulgados por Cunha em seu artigo, que consta: em quatro (4) partes, a saber: Preliminares – Cortesia; Em Casa (contendo quatro capítulos); Acontecimentos que Modificam a Família (quatro capítulos) e Na Sociedade (oito capítulos), mas no ano 1916, 3ª edição – Escola de Campinas; 1925 e 8ª edição – Museu Catarinense.

Figura 1: Capa/Contra Capa do Manual: Tratado de Civilidade. Fonte: Acervo Colégio Carlos Gomes




Em seu Capítulo I Usos e Educação, o tratado anuncia as regras de bem viver. Enfatiza-se que para se chegar a se constituir como escrita legitimizadora, estas regras e condutas foram construídas ao longo dos processos históricos, ou seja, a história das boas maneiras está diretamente relacionada às regras de comportamento social. Estes processos não envolvem somente as normas da etiqueta, mas também perpassa à moral, à ética, vergonha, pudor, valores intrínsecos e extrínsecos dos indivíduos, aspectos que se desvelam nas relações uns com os outros. Neste sentido, o grau de estreitamento entre os indivíduos, faz com que cada um realize uma função social, que deve ser mais e mais regular, distinta, constante e estável.Deste modo, os indivíduos ao conviver e viver em sociedade exige-se um padrão civilizado, em que envolve um alto grau da transformação das emoções, estas, condicionadas para se tornarem hábitos. Esta questão se confirma no manual francês quando anuncia sobre a educação em que haveria tratamentos diferenciados por posição social:

A verdadeira educação, manda que sejamos sempre delicados com os outros tanto mais alta é a nossa posição social, tanto mais amáveis e delicados nos devemos mostrar para com os modestos e humildes. Aos mais modestos compete, também, mostrarem-se delicados (TRATADO DE CIVILIDADE, 1916, p.16).

Para Norbert Elias a mudança no comportamento se dá muito mais por pressão que as pessoas exercem uma sobre as outras, de uma maneira pacífica e não violenta.


Torna-se imediatamente claro que esta maneira polida, extremamente gentil e relativamente atenciosa de corrigir alguém, sobretudo quando exercida por um superior, é um meio muito mais forte de controle social, muito mais eficaz para inculcar hábitos duradouros do que insulto, a zombaria ou ameaça de violência física (ELIAS, 1994, p.93).
Esta correção aparentemente pacifica, nos dois grupos, pais e professores, em suas relações com a criança, possibilitaram algumas definições, marcando espaços, orientando caminhos, fundamentando valores, comportamentos, estabelecendo assim, as normas a serem obedecidas e seguidas nas relações entre as pessoas e a sociedade. Esta percepção por um padrão de comportamento, exigido em códigos posturais a educação das crianças, está mencionada nesta passagem:
O primeiro dever da creança, para com o seu professor, é respeital-o Pela sua superioridade intellectual, pelo seu valor profissional e pela auctoridade que lhe é concedida pelos paes dos seus discípulos, o professor tem o direito a ser respeitado (TRATADO DE CIVILIDADE, 1916, p.17).
Aspectos como a disciplina, regras e controle nas condutas, foram procedimentos considerados no manual, concepção de educação, que aparece explicitamente a ser seguido para a melhor formação dos indivíduos. Uma dessas conformações seria a nobreza em comportamento: “A creança deve ouvir com attenção as palavras do professor. Não deve brincar nem mostrar-se distrahida, em-quanto elle falla. Essa distracção seria considerada como falta de respeito e melindraria o mestre” (TRATADO DE CIVILIDADE, 1916, p. 17).

Destarte, o manual da condessa indica a existência de um padrão para a infância. Este baseado em normas de conduta inscritas pelas aulas de etiqueta. Segundo Elias (1994, p.95) a civilidade ganhou um alicerce, por meio da divulgação de livros, muitos estilos de comportamentos, instrumentos diretos de “condicionamento ou modelação” foram utilizados para estruturar muitas situações de convívio na sociedade, como indica o excerto: “A creança apresentar-se-há sempre correctamente, perante o seu professor, quer na escola, quer na casa” (TRATADO DE CIVILIDADE, 1916, p.17). As influências dessas ações empreendidas nas lições das coisas, realizada por apropriações de conhecimentos internalizam-se inscrevendo preceitos, como ensina Chartier (1991, p.180) “à apropriação, ao nosso ver, visa uma história social dos usos e das interpretações, referidos a suas determinações fundamentais e inscritas nas práticas específicas que a produzem”.

Este padrão para a infância fora determinante para a sua inserção na sociedade. Sociedade que via na criança a possibilidade de mudanças, mas para isto a família deveria estar munida das melhores formas de educá-la, para tal, haveria na figura do professor uma expectativa muito grande, em fazer com que a criança desenvolvesse toda a sua potencialidade, para melhor perfilar nesta sociedade civilizada que perquiria. Desse modo, a inserção da criança e/ou seu controle, passa a constituir uma tarefa e poder da família, ora feita pela sociedade num processo mais amplo, ora realizada pela família dentro dos padrões de privacidade... “os paes devem ter todo o cuidado na escolha dos mestres, para seus filhos. E, quando feita essa escolha, teem, o dever de não prejudicarem a auctoridade desse que escolheram para desenvolver a intelligencia de seu filho” (TRATADO DE CIVILIDADE, 1916, p.18).

A obrigação de participar da escola está associada à obediência de um comportamento exigido para aquele espaço, o qual também tinha uma etiqueta a ser respeitada e esta marcada no manual, seguida pelos professores e imposta pelos pais. Compreende-se ao controlar as ações dos filhos na escola, pela disciplina do corpo, da fala, do tempo, eram aspectos fundamentais que representavam boa civilidade para este compor espaço. Assim, exigia-se um acompanhamento dos pais, pelas suas escolhas educacionais, tendo na figura do professor aquele que internalizará nas crianças experiências e situações presenciadas no cotidiano, e estas aprendizagens promoveriam posteriormente sua inserção social.

Para tal feito, caberia ao professor perseguir condutas aceitáveis e dar o bom exemplo “ o professor deve ser pontual, para dar o exemplo ao discípulo, e porque a pontualidade é uma prova de delicadeza e de deferência.”As observações indicam que os indivíduos, são regidos por uma nova organização temporal.

A pedagogia marca ritmo, significando mudanças nas configurações na vida dos indivíduos. “A pedagogia rege uma parte da vida dos indivíduos confiados às instituições. Dentro das paredes da escola, o aluno se vê regulamentado por uma nova disposição dos horários, das classes e dos graus” (PETITAT, 1994, p.91).

Notadamente, o tempo é ocupado com aprendizagens para a vida social, com regras de etiqueta e de moralidade, o que se deve saber e seguir “todos estes elementos encontram-se em estreita ligação com a estrutura do poder dentro dos colégios” (PETITAT, 1994, p.93). Entende-se assim, que é no tempo escolar que a criança experimenta o seu caráter coercitivo, este traz representações de deveres, perdas, ganhos, avanços e retrocessos, dentro do universo pedagógico, se humaniza. Sendo assim, a criança percebe, vivencia, aprende e desenvolve um sistema de autodisciplina de acordo com esta instituição social.

A instituição escolar tornar-se, no mundo civilizado, um dos mais importantes meios de aprendizagem destes signos temporais. Desta forma, o tempo é institucional e organizativo. As condutas que foram sendo determinadas pelos grupos, deram indicações da consciência temporal, por meio da autodisciplina, e estas são verificadas nos comportamentos dos indivíduos indicando que “a enorme internalização das restrições sociais relativas ao tempo é, com efeito, um exemplo paradigmático de um tipo de cerceamento ligado à civilização, que encontramos com freqüência nas sociedades desenvolvidas” (ELIAS, 1998, p. 30).

Outro aspecto em destaque seria sobre a vestimenta e o asseio do professor: “o professor deve apresentar-se bem vestido, e com o maximo aceio. Os collarinhos, os punhos, o lenço devem estar irreprehensivelmente limpos” (TRATADO DE CIVILIDADE, 1916, p.19). O vestuário tinha uma linguagem própria, a sua correta utilização, são marcadas como sendo importante em determinados espaços, em que levaria ao prestígio, respeito e orgulho, indicando a harmonia, higiene e a elegância. Nesta análise, o controle da vestimenta indica o que é socialmente apresentável, prescrição obrigatória da civilidade, representando um aumento da sensibilidade e da vergonha com tudo que entra em contato com o corpo “a vergonha passou a acompanhar formas de comportamento” (ELIAS, 1994, p. 166).

Estes ideais civilizatórios conformam na figura do professor, como transmissor de conhecimentos úteis e também responsáveis pela formação de bons hábitos e de bons comportamentos nas crianças. O projeto inscrito no manual, com vistas a civilizar, refinar e moralizar as crianças e, por extensão, suas famílias, se configurou em ações de orientar e intervir nos atos, percebidos como código mais apropriado para a vida social. “A mudança é o desenvolvimento de uma forma que se ajusta a nosso padrão avançado de delicadeza e da situação específica em que a atual vida social coloca no indivíduo” (ELIAS, 1994, p. 167). Esta afirmação é encontrada na escrita contida no manual: “o mestre deve ser grave, sem ser severo. Deve ser paciente, explicar á creança, todas as suas duvidas, procurar incutir-lhe o amor pelo estudo, tornando as licçoes o menos aridas possível” (TRATADO DE CIVILIDADE, 1916, p.19).

Desse modo, era preciso moldar as crianças no caminho do bem. Em face disso, o tempo da infância é propício para as aprendizagens, quando a criança participa da construção social, cultural e histórica do seu grupo, ou seja, ao mesmo tempo nos momentos vividos pelas crianças juntamente com os adultos. A infância seria um terreno fecundo para as professoras, pois ao inscreverem comportamentos ditos adequados nas crianças, estabeleceriam determinadas formas de relacionamento, que seriam necessárias posteriormente na sua vida adulta e a gerações futuras, “as mudanças nas emoções ocorrem com o tempo, pois, a vida emocional do indivíduo é moldada sob pressão da tradição institucionalizada e da situação vigente (ELIAS, 1994 p.49).

Considerações
Campo de investigação do historiador, os manuais em seus conteúdos desvelam aspectos, de como a sociedade dos indivíduos foram abrandando suas emoções, nos eventos e rituais, tempos e espaço, público ou privado, fatores constituídos, num longo processo histórico.

Considerado legado, a obra de Erasmo – A Civilidade Pueril – difundiu preceitos de condutas, que foram alargados por inúmeras compilações. Sendo veículo de afirmações, os manuais de civilidade ou tratados, tiveram na esfera social um valor inexorável. Inspirados em sua maioria francesa, estes manuais podem ser considerados fonte de inspiração para muitos Estados-Nação para tirar seu povo da barbárie, da ignorância. Impetrados com objetivos muitas vezes diferenciados, mas tendo em seu projeto maior a modelagem das estruturas psíquicas, os manuais alcançaram indistintamente a todos os indivíduos, pois codificaram e orientaram as relações da vida cotidiana, ensinando a conduta da arte do saber viver.

Notadamente, a partir da verificação da circulação destes manuais no Brasil, será possível constatar um modelo fortemente imbricado na escola, espaço de formação e conformação dos indivíduos. Neste universo institucional, a figura do professor é legitimada como detentora de um modelo ideal a ser seguido, enfim aquela dos organizadores da alma nacional.

A pesquisa indicada no texto revela uma pequena parcela destes tratados no Brasil. A procura desses indícios que diretamente ou indiretamente influenciaram no processo civilizador, campo fecundo para demais produções.




Referências
CHARTIER, R. O mundo como representação. Estudos Avançados, vol. 5, nº11. 1991.
COSTA, Márcia Rosa da. Infância, educação e processos culturais: um estudo a partir da sociologia configuracional de Norbert Elias In: 3º Seminário Brasileiro de Estudos Culturais e Educação, Canoas. 2008,
CUNHA, M. T. dos Santos. VI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação.Tenha Modos!manuais de civilidade e etiqueta na Escola Normal (1920-1960). 2006. (Participações em eventos/Congresso).
ELIAS, N. O Processo Civilizador. Uma História dos Costumes. Trad. Ruy Jungmann. 2a. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

GENCÈ, C. Tratado de civilidade e etiqueta. 3ª edição. Lisboa: Livraria e Editora Guimarães, 1916.


HAMILTON, D. Mudança Social e Mudança Pedagógica: A trajetória de uma pesquisa histórica. Teoria e Educação. Porto Alegre, 1992.
MENEZES, M. C. (org) Inventário de fontes documentais. Escola Estadual Carlos Gomes (1903-1976). Campinas, 2003.
PETITAT, A. Produção da Escola Produção da Sociedade. Porto Alegre. Artes Médicas: 1994.

1 Doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – FE/UNICAMP sob orientação da Profª. Drª Maria Cristina Menezes; pesquisadoras do CIVILIS, Grupo de Estudos e Pesquisas de História da Educação, Cultura Escolar e Cidadania, da FE/UNICAMP.




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