Escola normal: processo histórico e trabalho



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ESCOLA NORMAL: PROCESSO HISTÓRICO E TRABALHO

Maria José de Sousa Martinelli


Entre as instituições de ensino voltadas à formação de professores para a Educação Infantil e séries iniciais Ensino Fundamental, encontra-se a Escola Normal. Em sua gênese histórica, esta instituição, cuja organização se iniciou na terceira década do século XIX, em sua função formativa visou à formação do contingente necessário para suprir a demanda da escola primária. Havia dificuldade para “encontrar pessoal preparado para o magistério; havia completa falta de amparo profissional, fazendo da carreira algo desinteressante e não motivando um aprimoramento constante” (Ribeiro, 1991:47). A partir da urbanização e complexidade da sociedade industrial brasileira, na Primeira República a evolução desta escola alcança cada vez mais os centros urbanos, ao mesmo tempo em que ocorre os primeiros passos para a profissionalização do professor a ser produzido pela mesma. Todavia, a história da educação brasileira testemunhou que este desenvolvimento da constituição profissional da profissão docente vem sendo construída em bases de uma educação profissionalizante, processo evidenciado a partir do advento da Segunda República, avançando até os tempos mais recentes da história da Escola Normal.

Sendo a Escola Normal o “espaço formativo” inicial do profissional professor, então se constitui em uma instituição que precisa ser analisada do ponto de vista histórico. Por isso, consideramos que esta escola precisa ser compreendida em sua organização e estrutura técnica e pedagógica, a partir dos mesmos processos que produzem o desenvolvimento da profissionalização do professor inicial e do professor formador. Este exercício de análise e de estudo, no contexto concreto da Escola Normal, sobre os processos que ali se desenvolvem, favorece o entendimento da atual organização e do processo de formação constitutivo desta instituição histórica.

A constituição da profissão professor vem sendo desenvolvida historicamente. Desde a sua origem, a profissão professor, portanto a prática profissional docente, se estrutura sob bases e fundamentos epistemológicos, históricos, filosóficos e educacionais. Neste processo, os determinantes político-econômicos, sociais e culturais se configuram como importantes elementos a influenciarem o desenvolvimento da profissão nas diferentes etapas da história da educação brasileira. A análise sobre este processo não pode prescindir também do estudo da categoria teoria e prática. À medida que buscamos compreender o processo e organização do trabalho na escola, do trabalho docente, considerando a organização do trabalho em geral, emerge a categoria teoria e prática como sendo constituinte da categoria do trabalho, daí ser possível que no processo de investigação científica, se descortinem as contradições inerentes à relação teoria e prática, levando à compreensão da intrínseca relação entre esta categoria e a categoria educação/trabalho. Constituindo ainda este processo de desenvolvimento profissional do professor, consideramos uma terceira categoria, subjacente às duas primeiras, a profissionalidade. Dimensionar, neste estudo, o processo de profissionalização dos professores formadores, assim como a formação inicial dos alunos – professores do curso Normal do Centro Municipal de Ensino “Osmar Passarelli Silveira” - CEMEP, Paulínia, SP., a partir da categoria emergente1 da profissionalidade transita no movimento histórico – social e cultural que nos leva a pensar a escola como um local de trabalho, que estrutura em seu projeto educacional uma formação orgânica, pautada na unitariedade do trabalho e da educação como princípio educativo a ser desenvolvido pelos sujeitos deste processo. Neste pressuposto é que a categoria profissionalidade ganha força e emerge das categorias educação-trabalho e teoria-prática como uma terceira ferramenta conceitual, que contribui para compreendermos os aspectos históricos - constitutivos do processo formativo inicial e continuado dos professores no contexto da Escola Normal.

Ao desenvolver este estudo, consideramos que a Escola Normal, bem como os profissionais formadores e os professores em formação, vão sendo gerados historicamente, por isso a concreticidade do real é o nosso ponto de partida e o ponto de chegada; deste modo, a prática no curso de formação de professores hoje se reveste como um elemento rico de possibilidades para a leitura e reconstrução histórica da Escola Normal. Para trazer ao debate as discussões teóricas e reflexões (desconstrução do imaginário) pertinentes à questão da profissionalidade e de sua estreita relação com o princípio educativo de unidade entre o trabalho e o ensino, bem como pensar uma Escola Normal orgânica, que trabalha a unitariedade da teoria e da prática, partimos da problematização e reflexão da prática vivenciada no curso de formação de professores do CEMEP. Em nossa prática cotidiana, observamos a separação entre a teoria e a prática. Isto se evidencia na organização pedagógica para a de construção propostas e de projetos de trabalho para o curso Normal, entre as disciplinas do curso e na própria organização e estruturação do processo de articulação entre os professores e os especialistas da escola (no contexto cotidiano da escola, em momentos de reuniões pedagógicas e de encontros por área do conhecimento curricular). Por que a formação do professor oferecida na atual Escola Normal se distancia da unidade teoria e prática? De onde vem essa separação (gênese histórica) e quais são as possibilidades concretas da superação desta dicotomia no sentido de buscar a unidade teórica e prática, unidade entre o saber e o fazer, entre concepção e execução, entre a educação e o trabalho? Como deve se constituir a Escola Normal atual e qual o seu papel no processo de formação profissional? Como as condições atuais da Escola Normal poderão ser usadas para instigarmos, coletivamente, na reversão do quadro que mantém a visão positivista, pensamento associativo que separa teoria e prática, educação e trabalho? Quais os caminhos/saídas para (re) dimensionar a escola como lugar de trabalho, do saber/fazer, impulsionada pela profissionalidade dos professores formadores, sustentada pela articulação entre os sujeitos pessoais e coletivos?

A ação pedagógica no interior da Escola Normal, no percurso histórico desta instituição e da história da educação , se apresenta articulada com o pensamento pedagógico, bem como com os pressupostos econômicos, políticos e ideológicos que marcam e engendram um determinado contexto e momento histórico em que vão sendo gerados. Por conseguinte, a história da educação encontra-se profundamente marcada pela separação entre o saber e o fazer, entre a educação e o trabalho. Neste momento, o contexto sócio-econômico e educacional, em função do modelo ideológico neoliberal globalizante, das profundas modificações nas relações de trabalho e a emergência de uma concepção que retoma os princípios do pragmatismo e do liberalismo, mantém e alarga a distância entre a teoria e a prática e estreita a visão da profissionalização do professor.

Em síntese, consideramos necessário redimensionar esta instituição formativa; a escola deverá se converter em um lugar de formação para todos que ali interagem: professores formadores, especialistas, pessoal de apoio e de alunos-professores em formação. A Escola Normal assim pensada, se organiza como um local de trabalho e sua organização demanda repensar o projeto de formação para a vida e para a reconstrução histórica da profissão professor.

A emergência deste pressuposto indica desenvolver no interior da Escola Normal os princípios da unitariedade da escola e do trabalho como potencial de transformação do homem. A escola apresenta-se numa concepção que resgata / constrói em seu projeto educativo as relações entre teoria e prática e repensa o conceito de profissionlização numa perspectiva da profissionalidade. O projeto educativo materializar-se-à na medida em que os professores e especialistas, através do estudo sob bases epistemológicas, desenvolvem a reflexão na ação e da ação cotidiana no processo do trabalho escolar e, a partir daí, se organizam para a construção do Projeto Pedagógico para o curso Normal.

Assim, a Escola Normal, estruturada em princípios da escola unitária, orgânica, tenderá a ser um instrumento importante de mediação e de intervenção na realidade para conseguir superá-la, possibilitando aos sujeitos do processo educativo uma visão mais crítica, consciente e humanizante do mundo.

Finalmente, pensar a profissionalidade enseja a pensar a formação profissional em sua totalidade. Articulando teoria e prática. A escola unitária proposta, estruturada conforme a pedagogia Crítico - Dialética, vai além de métodos e técnicas e da transmissão de conhecimentos humanísticos. Esta escola procura associar teoria e prática, ensino e pesquisa, conteúdo e forma; enfim, trabalha as relações pedagógicas de modo que estas ampliem a visão do professor formador (e do professor em formação), acerca do saber de sua profissão e da visão mais ampla de nossa realidade educacional. Isto é possível à medida que o professor, de posse de conhecimentos sólidos (teóricos e práticos) analisa as contradições entre o que é realmente o cotidiano da sala de aula e o ideário pedagógico calcado nos princípios que estão por trás de toda atividade docente. Os princípios que dimensionam a Escola Normal como uma instituição social e histórica pressupõem que a sua preocupação seja a de formar cidadãos – profissionais, constituídos em sua profissionalidade e que possam conquistar melhores condições de participação cultural e política e de reivindicação social. Também, e predominantemente, sugere que esta escola supere, a partir de sua organicidade e unitariedade, o processo de divisão técnica e social do trabalho, que reforça as desigualdades sociais e materiais, porque propõe igualar indivíduos desiguais.

Consideramos as proposições supra anunciadas como meios importantes para a reflexão sobre o processo formativo e formador da Escola Normal. Os pressupostos que fundamentam a constituição da profissionalidade do professor apenas se concretizam à medida que buscamos articular teoria e prática num processo de unitariedade orgânica da Educação e do Trabalho, na escola e na sala de aula. Atividade de reflexão da e na prática histórica, efetiva e concreta da Escola Normal, realizada por todos os profissionais, sujeitos coletivos, que nela atuam.


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1 O conceito de categoria emergente confere com o termo desenvolvido no estudo do Profº Drº Sergio E. Castanho para caracterizar aquelas categorias que surgem da discussão coletiva, ou ainda, trazendo para a nossa questão metodológica de estudo, para o processo de construção do conhecimento científico de onde emergem novas categorias explicativas a partir dos desdobramentos do processo de investigação. CASTANHO, Sérgio. “Ainda Avaliar?” in: Castanho, S. ; Castanho Maria Eugênia LM (org.) O que há de novo na educação superior,2000



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