Escola superior de teologia I simpósio do mestrado profissional em teologia



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ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA

I SIMPÓSIO DO MESTRADO PROFISSIONAL EM TEOLOGIA




A ORIGEM CONFESSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL


Maria da Penha Almeida Fehlberg

Mestranda em Teologia



RESUMO

Este trabalho tem por objetivo a busca pela construção de conhecimentos na área do Serviço Social, bem como promover o aprofundamento do conhecimento na área teológica, tendo em vista que vivemos hoje num mundo globalizado, neoliberal, pós-moderno em que a mudança nas demandas para a profissão são uma constante, visto que o Serviço Social é uma profissão que trabalha as expressões da questão social, visando à ampliação da cidadania e a garantia de direitos aos cidadãos.

O Serviço Social é aqui apresentado levando em conta sua origem confessional, surgindo da prática da ajuda, caridade, solidariedade, impregnado pela filosofia tomista, gerado pela convocação da Igreja católica às damas da caridade, para o desenvolvimento da ação social católica. Alguns autores negam esta origem confessional, pontuando que este “ranso” da religião que existe na profissão deve ser superado, pois a profissão teria surgido com o agravamento da questão social advindo do capitalismo.

Palavras - chave: Serviço Social, Igreja, Solidariedade, Gênero.
INTRODUÇÃO

Ao longo da história da profissão Serviço Social, a Igreja exerce importante papel para o exercício da caridade, solidariedade, organização de ajuda, preocupação com a moral e bons costumes e com a estruturação das famílias.

Isto se percebe inclusive nos dias de hoje, mesmo com a existência de Políticas Públicas, como a Política de Assistência Social, que visa à inclusão social do cidadão nas demais políticas sociais.

Assim na busca pelo conhecimento do processo histórico de como se deu esta mudança da ajuda, da caridade para a profissão Serviço Social, nos deparamos com as transformações societárias, impulsionadas pelo surgimento do capitalismo e aceleradas com o neoliberalismo, a globalização, o pós - modernismo.

Estas transformações foram à mola propulsora para a pesquisa do Mestrado em Teologia, que está em fase de elaboração pela autora, com a pretensão de ajudar na produção de conhecimento na área de Serviço Social, e busca por aprofundar o conhecimento na área teológica, tendo em vista a forte herança confessional da profissão Serviço Social, com vinculação católica, filosofia tomista e prática positivista em seus primórdios.

Ainda hoje a prática dos assistentes sociais apresenta uma vertente de religiosidade impregnando suas ações, mesmo com a presença de um novo projeto ético-político profissional em vigor e a luta pela garantia de direitos de cidadania.

Para o desenvolvimento da pesquisa, parte-se da hipótese da existência de uma forte influência religiosa na profissão Serviço Social, no desenvolvimento de suas ações sócioassistênciais, principalmente vinculadas a ONG e ou Fundações religiosas.

Será utilizada pesquisa bibliográfica e documental e também aplicado um questionário, com questões aberta e fechadas, a profissionais do Serviço Social, que atuam em Instituições de cunho religioso, como ONG’s e Fundações, entre outras.



1 DESENVOLVIMENTO

Segundo Aguiar1, existe forte relação entre o Serviço Social e a Igreja Católica e o Neotomismo, pois o Serviço Social surge com inspiração na Igreja católica e Neotomista inspirada na visão da dignidade da pessoa humana e de mundo até hoje. Sendo que o surgimento das Escolas de Serviço Social no Brasil esteve ligado à Igreja Católica (PUC-SP - 1936), uma vez que o agravamento das questões sociais, a ameaça do liberalismo e comunismo levaram a intervenção da igreja no social (Encíclica Rerun Novarum) para suavizar a miséria.

Em 1931, quarenta anos após Encíclica Rerun Novarum, surge a Encíclica Quadragésimo Anno, que pregava a reforma social, restauração dos costumes, vida mais digna para o proletariado, sendo que em 1937 com o papa Pio XI surge a Encíclica Divini Redenptoris que propõe erradicar o egoísmo da economia liberal, restaurando a moral. Assim, de dentro da igreja, surge o movimento dos leigos para a reconstrução da sociedade na perspectiva de reforma, numa luta contra a decadência da moral e dos costumes atribuídos ao Liberalismo e Comunismo.

Para Aguiar2, o Serviço Social no Brasil é fruto da Ação Social da igreja, que segue as diretrizes papais para a Reforma Social, formando o Laicato. Neste período histórico Nossa senhora Aparecida é proclamada padroeira do Brasil em 1931 e foi também inaugurado o Cristo Redentor no Corcovado apesar de protestos dos não católicos e livres pensadores.

No Rio de Janeiro Escola de Serviço Social surge em 1937, a Pontifícia Universidade Católica (PUC), criando as “semanas sociais”, que nasceram na Europa objetivando a formação social dos católicos, daí funda – se o Instituto de Educação Familiar e Social, que objetiva a formação de mulheres, via Congregação de Filhas do Coração de Jesus vindos da França.

O Serviço Social nasce ligado à igreja a sua ideologia (ligação prática e teórica) e a sustentação filosófica é o Neotomismo: o homem é racional, inteligente, capaz de escolher, saber, ter vontade, é o que mais perfeito há no universo por possuir inteligência o que lhe permite buscar DEUS. Esta capacidade intelectiva transforma o homem em autor do progresso, que afirma que o homem é um ser social ou animal social, segundo Aristóteles, daí a necessita viver em sociedade.

Assim, o homem é um animal político, e como toda autoridade (Estado) deriva de Deus. Então o homem deve respeitar o Estado, o governo, pois isto é respeitar a Deus, a Igreja. Cada um deve cumprir sua tarefa, não havendo conflito entre Igreja e Estado.

Portanto o Serviço Social com esta visão, não questiona, mas busca reformar a sociedade, melhorar a ordem vigente, ignorando a luta de classes.

A partir de 1944, no Brasil, as escolas de Serviço Social no preparo de profissionais se preocupam em introduzir estudos de disciplinas científicas como sociologia, psicologia, biologia e moral levando em conta os aspectos da vida física, moral, mental, econômico, jurídica e social dos homens. Passando, portanto os cursos a terem: formação técnica – formação prática e formação pessoal.

A formação técnica é específica com a técnica de “como fazer, noções de técnicas auxiliares e moral profissional para combater os desajustes individuais e coletivos”.

A formação prática é a aprendizagem de “como fazer” - estágios, supervisões.

Além da formação pessoal que é preparar a personalidade integrando princípios cristãos, com círculos de estudos e orientação individual, já que a doutrina é mais importante que a técnica e o Serviço Social era uma vocação.

Os alunos eram selecionados num período probatório, e se exigia boa conduta moral, não podendo ser nervosos em excesso e tendo os professores como exemplos a serem seguidos. Esta formação foi objeto de debates em congressos como p do Chile em 1945 e o do Brasil em 1949.

Nestes congressos é marcante a posição católica, mas se apresenta a influência norte americana, com técnicas e pressupostos funcionalistas e aspecto técnico. No 1º Congresso discutiram-se critérios de admissão de candidatos, disciplinas, seriação e função do profissional. No 2º Congresso, discutiram-se as dificuldades e soluções para a formação e o aspecto ético-profissional.

Surge então a ABESS - Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (hoje ABEPSS), que influi na reconceituação com estudos que mostram a doutrina Católica, a filosofia Tomista, a importância das aulas de religião e ética profissional, sobre o mundo e a relação com Deus, sobre fé e ciência, tecnologia e filosofia, conhecimento e realidade.

Com surgimemto no meio católico, ocorre a profissionalização e legitimação do Serviço Social na década de 40, com a expansão da industrialização e com o surgimento das estatais e o aumento do proletrariado urbano, migrações internas e a necessidade de controlar e absorver estas situações, por parte dos governantes, sendo que o Estado tenta incorporar as reinvidicações populares e cria instituições que ampliam o mercado de trabalho para os Assistente Sociais, que eram considerados profissionais essenciais para cooptação popular.

Para Iamamoto3, agora, já assalariados, os Assistentes Sociais já não são da classe dominante, mas da classe dominada e passam a ser uma das engrenagens de execução de politica social do Estado se colocando a serviços dos usuários (setores dominados na sociedade). Isto se dá mais em práticas de universidade, ONGS, igrejas, mas também em organismos públicos.

Os Assistentes sociais pretendem ser os intelectuais orgânicos do proletariado, segundo Fialho4 numa identificação com o que descreve Gramsci, eles têm o papel de investigar, educar, organizar a hegemonia, coerção e conciência de classe. A prática se renova politicamente definida superando a burocracia e as tendências empiristas, o desconhecimento do saber popular e a alienação do povo.

Assistente Social, é então o profissional da coerção e do consenso, atuando em programas sociais, que as vezes mantém os individuos sob controle (coerção), como no caso de atuação na administração de pessoal planejando ações voltadas para a humanização das relações de trabalho, pode servir para atenuar insatisfações e esvaziar o potencial organizativo e reinvidicatório.

Mas o papel do intelectual pelo Assistente Social tem sido instrumental, de difundir teorias e ideologias, de articular as classes trabalhadoras na órbita das instituições da classe dominante, principalmente atuando na organização da hegemonia, na educação, o que pode levar o Assistente Social a ter um papel de coerção das classes, ou mediador dos serviços sociais, buscando o consenso. Assim, o profissional vive uma ambiguidade em que incorpora a utopia reformista conservadora de cunho humanitário-cristão e a tensão com resultado de sua prática, onde se percebe também como um trabalhador assaláriado.

Outro fator é o perfil da profissão, que é predominantemente feminino, o que incorpora os esterióticos do papel de mulher na sociedade (mãe, cuidadora, educadora). O fato de ser um profissional liberal, geralmente “assalariado” também pode ser um fator de tensão para o profissional, mas ele se resguarda no código Ètica de profissão para estabelecer limites éticos à sua ação e assim se organizar coorporativamente (Conselhos Regionais de Assistentes Sociais).

O Serviço Social possui uma cultura profissional que carrega fortes marcas confessionais em sua formação histórica, atualizados no presente por um discurso profissional laico que reatualiza a herança conservadora original, mas cultiva uma subalternidade profissional, com desdobramentos na baixa auto-estima dos assistentes sociais diante de outras especialidades, o que favorece a internalização como profissionais de segunda categoria, que acaba por não ter um fazer próprio e fazendo a sobra de outras profissões, passando assim a uma profissão sem status nem prestígio, já que a subalternidade profissional no Serviço Social vem de sua origem ligada à caridade e filantropia por sua origem religiosa.

Hoje, com um novo projeto profissional percebe-se que mesmo com a questão da subalternidade profissional e a predominância feminina na profissão, a competência teórico-metodológica e ético-política tem consolidado socialmente a profissão e contribuído para as relações de respeito e igualdade entre as diversas profissões e, para modificações nas relações entre os gêneros.

Segundo Iamamoto e Carvalho5,

[...] A partir do Código de ética profissional de 1993 e uma nova lei de regulamentação da profissão, com pilares básicos de reconhecimento da liberdade como valor ético central, a defesa intransigente dos direitos humanos, a recusa ao arbítrio e do autoritarismo, a ampliação e consolidação da cidadania e a defesa e aprofundamento da democracia a profissão vem construir uma representação nova sobre o Serviço Social e sobre o “ser mulher” que rompe com a representação tradicional [...].

Para Borges6, a sociedade européia ocidental está, no período que é considerado como início da Modernidade com a grande expansão comercial, em plena desestruturação do sistema feudal que se estende a frente dos homens da Europa Ocidental.

O que acontece é que a sociedade então durante o renascimento, despreza os dez séculos medievais, procurando retomar a Antiguidade greco-romana, seus valores, sua arte, etc. e assim passando no século XVIII para uma sociedade em transformação devido à desestruturação pelo final do sistema feudal e o avanço da ordem burguesa.

Surge então o Iluminismo, que é uma corrente filosófica que defende o desenvolvimento linear progressivo e ininterrupto da razão humana.

Segundo o autor Borges7 citado acima, a burguesia, depois das guerras napoleônicas, fica cada vez mais presente na Europa, indo procurar reorganizar suas formas de pensamento, buscando explicar a nova realidade. Assim surge o Liberalismo, que é a explicação, a justificação racional dessa nova sociedade em que se reclama o progresso através da liberdade contra a forte autoridade das monarquias e da Igreja, que dominaram durante muito tempo toda sociedade.

Segundo ele, a expansão colonialista levou a Europa a entrar em contato com outros povos, outras formas de vida, outros costumes, outras instituições, mas essas outras formas de organização social eram sempre comparadas com a forma de organização européia, que era considerada como o padrão, a melhor, percebendo-se, a partir da segunda metade deste século XX, que a história que fica escrita é sempre marcada pela visão, pelos desejos, pelos interesses da chamada “classe dominante” e que a dominação tem suas próprias contradições e ambigüidades.


1. 1 O SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL


Segundo Iamamoto e Carvalho8, o Serviço Social,

[...] esteve diretamente ligado à questão social nas décadas de 1920 e 1930. Assim as protoformas do Serviço Social, se dão com o agravamento da questão social, pelo desenvolvimento do capitalismo, que levou a alienação do trabalho e se estabeleceu claramente o antagonismo entre burguesia e proletariado [...].

Para Iamamoto e Carvalho9, a implantação do Serviço Social: dá-se no decorrer desse processo histórico, surgido da iniciativa particular de grupos e frações de classe, que se manifestam, principalmente, por intermédio de igreja católica, originando uma demanda que necessita manter a ordem vigente: as diversas frações de classe e em seguida as classes dominantes, sendo que a pressão do proletariado permanece como pano de fundo a partir do qual diferentes atores sociais mobilizam políticas diferenciadas. Sendo estas políticas que demarcarão os limites dentro dos quais irá surgir e atuar o Serviço Social (a caridade e a repressão).

Iamamoto e Carvalho10 apontam à situação de vida do proletariado, como angustiante, amontoados em condições insalubres, em casas infectas, com condições de trabalho precárias, sendo que as empresas funcionavam em prédios insalubres, sem higiene e segurança e com salários ínfimos, e com muitas horas de trabalho, se contrapondo a isto, e preocupados com o comunismo,a ação assistencialista da elite católica brasileira se mobiliza, implantando a ação social católica.

Para Estevão11, o Serviço Social era realizado por moças boazinhas, convocadas pela igreja, que tinham dó dos pobres. Assim a assistência era respaldada em justificativas religiosas e ideológicas. Mais tarde, o que se fazia por vocação religiosa passa a ser profissão. Amplia-se a prática para Caso, grupo e comunidade e com o fortalecimento da luta de classes o profissional volta-se para a classe operária / desfavorecida, já que o Assistente Social se identifica com classes subalternas enquanto também assalariado.

Estevão12 afirma que com a implantação do desenvolvimentismo o Serviço Social sente necessidade de se modernizar, sendo que na década de 60 ele buscava a neutralidade, frieza, distanciamento para aprimoramento de métodos; na década de 70, se pautava pelo respeito à pessoa humana, respeito à dignidade humana e considerar que todo ser tem capacidade de se aperfeiçoar e se desenvolver, sendo hoje um intelectual orgânico, que no dizer de Gramsci13, coloca seu saber a serviço de outro, atuando nos direitos/cidadania, considerando o sujeito capaz de modificar sua realidade.

Para Vieira14, o Serviço Social é por sua própria natureza, dinâmico. Serviço do latim servitium tem o sentido de ser escravo, na linguagem moderna, designa uma atividade feita para outrem. A palavra social vem de sociedade, definida como união durável, em vista de um fim comum. Neste sentido os Serviços sociais são os recursos postos à disposição da sociedade, para melhorar a vida das pessoas, incluindo as políticas sociais, como previdência, assistência, entre outras. (Definição de 1928 na I Conferência Internacional de Serviço Social em Paris).

O Serviço Social é então definido como a profissão da ajuda, sendo então um conjunto de princípios, normas filosóficas e científicas, aplicadas através de processos e técnicas diversas.

É uma atividade profissional através da relação com o seu usuário, visando o empoderamento do mesmo. O Serviço Social é uma das instituições humanas que existem desde o surgimento da humanidade, nasceu e se desenvolveu como um produto da civilização, e assume definições diferentes, de acordo com as diversas sociedades, embora mantenha como certo que o Serviço Social focaliza os aspectos sociais da vida humana, se efetivando através do relacionamento, procurando trabalhar as questões sociais e assim se impondo como profissão.

Ezcurra15 considera que é a partir do diagnóstico da realidade que se baseia a concepção do trabalho do Assistente social, já que o Serviço Social trabalha com a base, que protesta contra as suas condições enquanto população dependente, oprimida e despersonalizada para que acessem a condição de vida compatível com sua dignidade de homens para que tenham um pleno desenvolvimento humano com acesso às políticas sociais como educação, saúde entre outras. Mesmo influenciado pelas Encíclicas e situando o Pan-americanismo como fator da construção da hegemonia norte-americana no continente, a profissão assume o “Desenvolvimento de Comunidade”, com concepções funcionalistas e ideológicas.

Castro16 afirma que com a Reforma Social, voltada a humanização do capitalismo, o Serviço Social passa a compartilhar de ilusão do desenvolvimentismo assumindo o papel de agente de transformação, impulsionando a participação popular, buscando melhoria das condições econômicas, sociais culturais das comunidades na luta contra o subdesenvolvimento, uma vez que é um eficiente mecanismo de sujeição das organizações populares à tutela oficial. Assim as contradições surgidas das estratégias desenvolvimentistas geram o aumento do protesto popular e redescobrem as ciências sociais na América Latina e as lutas para a democratização das Universidades. No Serviço Social surge o movimento de reconceituação latino-americano.

Para ele, os avanços de industrialização capitalista trouxeram expansão do emprego assalariado, reconhecimento de direitos de proteção ao trabalho e políticas redistributivas de renda, avanços na química, biologia e outros ramos científicos além de aprofundarem o fosso das desigualdades sociais. A sociedade civil, reduzida ao “Terceiro setor” passa a partilhar com o governo a responsabilidade perante a questão social, a solidariedade da sociedade numa reedição dos primórdios da profissão.

Esta participação da sociedade, traz a participação de ONG’s e igrejas como entidades filantrópicas empregadoras de Assistentes Sociais que atendem a usuários levando em conta sua orientação religiosa.

Esta realidade leva a um repensar do movimento de reconceituação e da tradição Marxista no processo de renovação crítica da profissão e o que é o Serviço Social na Contemporaneidade, visto a tradição e a origem confessional da profissão.



1. 2 RELIGIOSIDADE, MULHERES E SERVIÇO SOCIAL

Segundo Iamamoto e Carvalho17, a identidade mulher e homem estão forjadas no imaginário judaico-cristão, que se solidificou na sociedade ocidental, formando homens e mulheres com identidades opostas. Portanto, temos homens formados para serem fortes, provedores, protetores e mulheres para serem frágeis, protegidas, submissas, dóceis. Observa-se que a representação social do “ser mulher” prepara-as para profissões que exijam das mesmas as características que se supõem próprias das mulheres, portanto as profissões que educam, cuidam, ajudam, são associadas às mulheres e são as mais procuradas por elas.

Acerca desta questão, Iamamoto e Carvalho18 citam o discurso da oradora da primeira turma de Serviço Social, formada no Brasil em 1938:

[...] Intelectualmente o homem é empreendedor, combativo, tende para a dominação. Seu temperamento prepara-o para a vida exterior, para a organização e para a concorrência. A mulher é feita para compreender e ajudar. Dotada de grande paciência, ocupa-se eficazmente de seres fracos, por isso, particularmente indicada a servir de intermediária, a estabelecer e manter relações. De acordo com sua natureza a mulher só poderá ser profissional numa carreira em que suas qualidades se desenvolvam, em que sua capacidade de dedicação, de devotamento seja exercida. (...) Como educadora é conhecida sua missão. Abre-se agora também com o movimento atual, mais um aspecto de atividade: o Serviço Social [...].

O Serviço Social surgiu e se consolidou historicamente, como uma profissão destinada a “mulheres”, com forte ligação com valores cristãos e humanitários e um histórico de subalternidade, chamado pelos estudiosos de gênero de divisão Sexual do Trabalho, devido ao seu perfil feminino, que vem trazendo em seu bojo a imagem social da mulher e as discriminações a ela impostas , seja no mercado de trabalho, seja em outras áreas.

O Serviço Social possui uma cultura profissional que carrega fortes marcas confessionais em sua formação histórica, atualizados no presente por um discurso profissional laico que reatualiza a herança conservadora original, mas cultiva uma subalternidade profissional, com desdobramentos na baixa auto-estima dos assistentes sociais diante de outras especialidades, o que favorece a internalização como profissionais de segunda categoria, que acaba por não ter um fazer próprio e fazendo a sobra de outras profissões, passando assim a uma profissão sem status nem prestígio, já que a subalternidade profissional no Serviço Social vem de sua origem ligada à caridade e filantropia por sua origem religiosa.

A influência do confessional vem trazendo a humanização, a solidariedade e dedicação que caracterizaram o Serviço Social tradicional, mas também se apresenta um novo projeto profissional e uma nova representação de mulher, que é a coragem, a conquista, determinação, fortaleza, amor, ação, cidadania, luta, fortaleza, trabalho, incorporando-se assim elementos novos, advindos das transformações sociais.

De acordo com Iamamoto e Carvalho19,

[...] Se a imagem social predominante da profissão é indissociável de certos estereótipos socialmente construídos sobre a mulher na visão mais tradicional e conservadora de sua inserção na sociedade, o processo de renovação do Serviço Social é também tributário da luta pela emancipação das mulheres na sociedade brasileira, que renasce com vigor no combate ao último período ditatorial, em parceria com as lutas pelo processo de democratização da sociedade e do Estado no país [...].

Hoje, com um novo projeto profissional percebe-se que mesmo com a questão da subalternidade profissional e a predominância feminina na profissão, a competência teórico-metodológica e ético-política, tem consolidado socialmente a profissão e contribuído para as relações de respeito e igualdade entre as diversas profissões e, para modificações nas relações entre os gêneros.

Com o passar do tempo o papel da mulher vem se modificando na sociedade, inclusive sendo profissional do Serviço Social empenhada na luta por uma sociedade mais justa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho houve a busca pelo repensar, redimensionar o papel do profissional de Serviço Social.

Tratou-se de uma busca pelas protoformas da profissão que se mostra com origem confessional, prática da ajuda, caridade e solidariedade, impregnadas pela filosofia tomista e a serviço da classe dominante.

Na atualidade, percebe-se a mudança no perfil do assistente social, tendo em vista tendo em vista que a profissão trabalha as expressões da questão social, objetivando a ampliação da cidadania e a garantia de direitos aos cidadãos, que exige um profissional crítico com competência teórico-metodológica, técnico operativa e ético-política, dotado de habilidades como criatividade, versatilidade, iniciativa, liderança, capacidade de negociação, resolutiva e de argumentação.

É preciso ainda que o profissional tenha habilidade para o trabalho interdisciplinar, que participe ativamente na formulação de políticas públicas, que esteja inserido em equipes interdisciplinares, em redes sociais e que busque a capacitação continuada, o que não deve levar o profissional a perder a dimensão do ser e do estar no mundo.

REFERÊNCIAS

AGUIAR, Antônio G. Serviço Social e Filosofia: das origens a Araxá. São Paulo: Cortez, 1995.

IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 8 ed. São Paulo: Cortez, 2005.

FIALHO. A. Veiga. Roteiros para Gramsci. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007.

IAMAMOTO, Marilda Vilela; CARVALHO, Raul. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico – metodológica. São Paulo, Cortez, 1983. P. 245.

ESTEVÃO, Ana Maria Ramos. O que é Serviço Social. 6 ed.São Paulo:Cortez, 1992.

VIEIRA, Balbina O. História do Serviço Social. Rio de Janeiro: Agir, 1977.

EZCURRA, Marta. Conceituação do Serviço Social. Cadernos Puc nº 6. São Paulo, 1970.



CASTRO Manuel M. História do Serviço Social na América Latina. São Paulo: Cortez, 1993.



1 AGUIAR, Antônio G. Serviço Social e Filosofia: das origens a Araxá. São Paulo: Cortez, 1995.

2 AGUIAR, 1995.

3 IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 8 ed. São Paulo: Cortez, 2005.

4 FIALHO. A. Veiga. Roteiros para Gramsci. Rio de Janeiro: UFRJ, 2007.

5 IAMAMOTO, Marilda Vilela; CARVALHO, Raul. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico – metodológica. São Paulo, Cortez, 1983. P. 245.

6 BORGES, Vavy Pacheco. O que é História. São Paulo: Brasiliense, 1993.

7 BORGES, 1993.

8 IAMAMOTO; CARVALHO, 1983, p. 180.

9 IAMAMOTO; CARVALHO, 1983.

10 IAMAMOTO; CARVALHO, 1983.

11 ESTEVÃO, Ana Maria Ramos. O que é Serviço Social. 6 ed.São Paulo:Cortez, 1992.

12 ESTEVÃO, 1992.

13 in FIALHO, 2007.

14 VIEIRA, Balbina O. História do Serviço Social. Rio de Janeiro: Agir, 1977.

15 EZCURRA, Marta. Conceituação do Serviço Social. Cadernos Puc nº 6. São Paulo, 1970.

16 CASTRO Manuel M. História do Serviço Social na América Latina. São Paulo: Cortez, 1993.

17 IAMAMOTO; CARVALHO, 1983.

18 IAMAMOTO; CARVALHO, 1983, p. 87.

19 IAMAMOTO; CARVALHO, 1983, p. 230.



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