Escrita de si na revista Blumenau em cadernos



Baixar 19.85 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho19.85 Kb.



Escrita de si na revista Blumenau em cadernos
Elizandra Oestreich Siveris(PIBIC/Fundação Araucária/Unioeste), Méri Frotscher(Orientador), e-mail: merikramer@hotmail.com
Universidade Estadual do Oeste do Paraná/Centro de Ciências Humanas, Educação e Letras/Marechal Cândido Rondon-PR
Grande área e área: Ciências Humanas - História
Palavras-chave: Memória, Escrita de si, Revista Blumenau em Cadernos.
Resumo
O projeto visou investigar memórias autobiográficas de imigrantes inseridas na revista Blumenau em Cadernos, publicada pelo Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, de Blumenau – SC, entre 1997 e 2014. Primeiro foi lido o material contido nas revistas publicadas entre 1997 e 2014 e feito um banco de dados, no qual foram inseridas somente as narrativas de conteúdo autobiográfico, com indicação de autores, títulos, tipo de narrativa autobiográfica ou escrita de si, sessão da revista na qual se encontra, breve resumo e referencia.
Introdução
Este trabalho teve como objetivo apresentar alguns resultados do projeto de pesquisa intitulado “Memória Autobiográfica de Imigrantes na Revista Blumenau em Cadernos (1997-2014)”, que visou investigar narrativas autobiográficas inseridas na revista mencionada, publicada pelo Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, de Blumenau – SC. Este periódico tem como objetivo divulgar fontes e traduções de fontes sob guarda do arquivo e possibilitar espaço para a publicação de outras fontes, como memórias, autobiografias, entrevistas, crônicas, divulgação de obras, assim como de artigos científicos. O projeto foi proposto a partir da constatação de que a revista, ao longo de sua existência, teve e tem um papel importante na publicação de textos de memória e narrativas autobiográficas. Devido ao grande volume de material publicado desde o surgimento da revista, em 1957, o projeto se dedicou à análise dos números publicados a partir de 1997, quando houve uma mudança no seu projeto editorial, mas a revista manteve sua política de divulgar fontes históricas a um público acadêmico e não acadêmico. O projeto faz parte de uma pesquisa maior, intitulada “História e memória autobiográfica em narrativas de imigrantes alemães no Brasil”, coordenado pela professora orientadora.
Materiais e Métodos
Ao longo do projeto foi feita a leitura de todos os números da revista Blumenau em Cadernos publicados entre 1997 e 2014 e criado um banco de dados, com a utilização da ferramenta do Word. O banco de dados é composto por colunas contendo autor, título da publicação, coluna da revista na qual se encontra o texto, o tipo da escrita de si/narrativa autobiográfica publicada, o assunto principal abordado, uma breve descrição do texto e sua respectiva referência. O banco de dados serviu para uma análise quantitativa dos textos de memória e das escritas de si publicadas na revista no período. Após a alimentação do banco de dados foi produzida uma tabela, com a utilização do Excel, para identificar a quantidade de publicações, conforme a tipologia estabelecida, os autores mais frequentes e os temas mais citados. Este procedimento subsidiou a posterior análise qualitativa do material.

Para a concepção do banco de dados e, sobretudo, para a classificação dos tipos de textos, tomei como base as considerações de diversos autores que tratam de memória, escritas de si e narrativas autobiográficas. Também procurei refletir sobre as próprias condições de possibilidade e de publicação de “escritas de si” no mundo contemporâneo e problematizar a construção e os sentidos dados às vidas narradas.

Considerando que todas as tipologias de fontes publicadas na revista que têm um conteúdo autobiográfico são fontes de memória, foi necessário refletir sobre os trabalhos da memória na constituição de narrativas sobre o passado. Segundo o historiador Michel Pollak, a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si (POLLAK, 1992, p. 5).

Também refletimos sobre como a escrita de si se constitui. Segundo a historiadora Angela de Castro Gomes, a escrita auto-referencial ou escrita de si integra um conjunto de modalidades do que se convencionou chamar produção de si no mundo moderno ocidental. Essa denominação pode ser melhor entendida a partir da ideia de uma relação que se estabeleceu entre o indivíduo moderno e seus documentos (GOMES, 2004, p. 10). Gomes ainda acentua que os registros de memória dos indivíduos modernos são, de forma geral e por definição, fragmentados e ordinários, como suas vidas. Seu valor, especialmente como documento histórico, é identificado justamente nessas características, e também em uma qualidade decorrente de uma nova concepção de verdade, própria às sociedades individualistas (GOMES, 2004, p. 13).

Em relação à autobiografia, Contardo Calligaris pressupõe uma cultura em que o indivíduo se coloca acima da comunidade a que pertence e concebe sua vida como uma aventura a ser inventada, e não como um destino pré-determinado a ser cumprido. (CALLIGARIS apud PEREIRA, 2000, pg.117). Assim, os relatos autobiográficos, evidentemente, não são escritos somente para ‘transmitir a memória’ (o que se faz pela palavra e pelo exemplo em todas as classes). Eles são o lugar onde se elabora se reproduz e se transforma uma identidade coletiva, as formas de vida próprias às classes dominantes. Essa identidade se impõe a todos aqueles que pertencem ou que se assimilam a essas classes e rejeitam as outras numa espécie de insignificância.” (Lejeune, 1980, p.252 in: PEREIRA, 2000, pg. 121).

Assim a compreensão destes conceitos se tornou importante na pesquisa pelos textos publicados na Revista Blumenau em Cadernos serem escritos de memórias, autobiografias e acima de tudo escritas de si.



Resultados e Discussão
Foi possível perceber que nos números publicados entre 1997 e 2014 há uma quantidade significativa de narrativas autobiográficas. Foram publicados, no total, 209 textos, entre elas 164 memórias, 41 cartas, 1 memória de terceiros, 2 memória/biografia e 1 autobiografia. A grande maioria dos autores é oriunda da região do Vale do Itajaí. Entre os colaboradores mais frequentes estão a escritora blumenauense Urda Alice Klueger, com 42 textos de memórias, a memorialista Brigitte Fouquet Rosenbrock, com 9 e Ellen Crista da Silva, também com 9 . Entre as cartas publicadas, destacam-se o memorialista Siegfried Carlos Wahle, com 14 cartas, e cartas do fundados da colônia Blumenau, Hermann Bruno Otto Blumenau, com 12 cartas. O número de memórias publicadas é significativamente maior do que as cartas.

As memórias tem por assunto principal a cidade de Blumenau, em diferentes contextos, a infância dos escreventes, o período da colônia Blumenau, a vinda dos imigrantes para a Colônia de Blumenau e as dificuldades encontradas. As memórias narram sobre o cotidiano das famílias da cidade. Muitas delas narram costumes e tradições, como as festas natalinas, as tradições referentes à páscoa e dos momentos que a antecedem. O passado é frequentemente descrito com saudosismo, como um momento do qual se tem saudades, que não retorna mais, submerso nas águas do tempo. Em relação ao espaço, as memórias se referem ao município de Blumenau e região. Muitas das memórias tratam da transformação do espaço, das ruas, do comércio, dos locais de lazer, como o cinema, lanchonetes e praças, das cheias do Rio Itajaí-Açu. Segundo Ecléa Bosi (1994), a memória poderá ser conservação ou elaboração do passado, mesmo porque o seu lugar na vida do homem acha-se a meio caminho entre o instinto, que se repete sempre, e a inteligência, que é capaz de inovar. Assim, a memória seria um passado possível no presente.

Já as 41 cartas publicadas foram escritas entre os anos 1854 e 1889 . Elas narram muitos detalhes do cotidiano de Blumenau. Todas, com exceção de uma (que foi recebida da Alemanha), são cartas que foram enviadas para a Alemanha, onde moravam os pais e parentes dos remetentes, para quem contavam suas frustrações e alegrias no Novo Mundo. Portanto, houve uma priorização da publicação de cartas relativas ao século XIX e à imigração e colonização alemãs.

Dentro da revista as publicações foram divididas em sessões, sendo algumas destas, assim intituladas: Memórias, Crônicas do Cotidiano, Correspondências e Documentos Originais. Parte desses textos foi traduzida para português, por estarem escritos originalmente em alemão. Em geral estes textos estão na coluna “Documentos Originais” ou “Correspondências”. Em algumas publicações de memórias, o escrito em alemão está ao lado da sua respectiva tradução.

A Revista Blumenau em Cadernos foi e é suporte de memórias principalmente de Blumenau e região. A revista, neste aspecto, pode ser vista não apenas como suporte para a publicação, mas também de preservação de determinadas memórias sobre a cidade e parcelas de sua população no passado e no presente.
Conclusões
Com a leitura das edições da revista e com a construção do banco de dados e tabela foi possível perceber como memórias de uma Blumenau de outrora aparece constantemente na revista, como através destas publicações foi possível se ter um espaço de preservação da memória. Os textos publicados pela Revista Blumenau em Cadernos se constituem como sendo memórias que contém um saudosismo, certa nostalgia em relembrar o passado. São memórias em sua maioria de velhos que relembram de sua infância, seu passado com o intuito de preservar essa memória. A psicóloga social Ecléa Bosi, em seu livro Memória e Sociedade: Lembranças de velhos, trata do ato de lembrar na velhice, perguntando-se de onde vêm a saudade e a ternura pelos anos juvenis expressa pelos idosos que entrevistou. Para ela, teria ficado no adulto a nostalgia dos sentidos novos. (BOSI, 1994 p. 83). Na revista, a forma como se lida com o passado também legitima a ideia de um desenvolvimento da cidade.

Outro aspecto que me deparei ao longo da pesquisa foi o papel do próprio arquivo histórico, por meio de sua revista e da publicação de tantas memórias e escritas de si, enquanto guardião de determinadas memórias da cidade.


Agradecimentos
Agradeço à Fundação Araucária pela concessão da bolsa de IC.
Referências
Gomes, A.C. (2004). Escrita de si, escrita da história: a título de prólogo. In: ____. Escrita de si, escrita da história (pp. 7-24). Rio de Janeiro: Editora FGV.

Pereira, L. M. L. Algumas reflexões sobre histórias de vida, biografias e autobiografias (2000). Revista História Oral 3, 117-127.


Pollak, Michael. Memória e Identidade Social (1992). Estudos Históricos 10, 200-212.




©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal