Esperanto uma joia educativa desconhecida Claude Piron



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Esperanto - uma joia educativa desconhecida

Claude Piron



Introdução
Toda experiência, todo conhecimento implica numa responsabilidade. Aquele que conhece um modo eficaz e barato de facilitar a vida de seus contemporâneos não tem o direito de se calar. Eu me considero, portanto, culpado. Porque, tendo tirado proveito, desde a minha infância, de uma experiência de grande valor pedagógico, eu a considerei como sendo óbvia e evidente e não soube torná-la conhecida nos meios que poderiam tê-la estudado de forma objetiva e levado-a em consideração em suas decisões. Eu gostaria de me absolver desta culpa indicando, neste artigo, por que, a meu ver, a inscrição do esperanto nos programas escolares ofereceria muito mais vantagens do que parece à primeira vista. Nós examinaremos progressivamente a questão do ponto de vista

  1. do desenvolvimento do intelecto,

  2. do desenvolvimento afetivo e

  3. da utilidade prática.


Desenvolvimento do intelecto
O interesse que reveste, para o desenvolvimento do espírito, a aprendizagem de uma segunda língua não é contestado por ninguém. Mas eu me pergunto se, atualmente, nós abordamos o problema da melhor maneira. Toda boa pedagogia supõe, de fato, que classifiquemos as dificuldades. Como fazê-lo no caso das línguas, em que cada uma se apresenta como um todo, onde o mais corrente é, em geral, o mais difícil?

Uma frase ouvida repetidamente durante minha adolescência ainda ressoa em meus ouvidos: “Parece que você já sabe”. E, sim, para os meus colegas, quando nós aprendíamos latim ou alemão, e mesmo o francês, “eu já sabia”. Entretanto, eu não tinha aprendido nada de mais do que eles em alemão, em latim ou naquilo que diz respeito às sutilezas da minha língua materna. A verdade é que o esperanto, que eu aprendera por brincadeira, me divertindo, havia me dado o conhecimento de uma “gramática pura” e dos hábitos lexicológicos que representavam para mim uma vantagem considerável em relação a meus camaradas. Para eles, a realidade da nova língua tinha surgido de forma brusca; para mim, as dificuldades haviam sido classificadas. Nós não temos o costume de recomendar às pessoas sedentárias, antes de esquiar, de se prepararem com uma ginástica apropriada? Eu tinha feito a minha ginástica, fácil, agradável, porque ao meu alcance, e estava preparado para abordar o estudo das línguas ditas sérias.

Minha experiência está longe de ser a única. Uma escola inglesa realizou um teste de maneira totalmente científica. Uma classe (o grupo de controle) fez dois anos de francês, enquanto que em outra classe de indivíduos equivalentes (o grupo experimental), o ensino do francês foi substituído durante o primeiro ano pelo ensino do esperanto. Os testes de francês efetuados no fim dos dois anos mostraram que os alunos do grupo experimental estavam no mesmo nível que os do grupo de controle. Eles não somente não perderam nada, como o estudo havia sido para eles muito mais agradável, porque tinham começado por aprender uma língua que podiam praticar imediatamente.

Aprender o vocabulário do esperanto é o tipo de jogo educativo. Como no célebre teste de inteligência das Matrizes Progressivas de Raven1, trata-se, seguindo dois eixos, de se chegar a uma intersecção, que é a palavra procurada. Sabendo o primeiro eixo, que o substantivo termina por -o, o verbo no infinitivo por -i, o adjetivo por -a e o advérbio por -e, e o segundo eixo, que fini quer dizer acabar, o aluno aprende a “inventar” as palavras fino ‘fim’, fina ‘final’ e fine ‘finalmente’. A referência ao francês, muito menos coerente em uma série como “fin, finir, final...”, onde o radical permanece constante nas diversas categorias gramaticais, é excepcional em nossa língua, obriga-o a descobrir as relações semânticas entre as palavras. Se helpi significa ‘ajudar’, o que quer dizer helpa? E o aluno percebe, às vezes com estupefação, que o adjetivo francês correspondente é auxiliaire ‘auxiliar’.

Em francês, e na maior parte das línguas nacionais, as séries são raramente completas, e é impossível chegar, sobre o plano linguístico, a essa exploração de todos os casos possíveis que é, para Piaget, o signo da passagem para o estado mais avançado da inteligência, aquele das operações formais. No caso do esperanto, todo estudo de texto conduz a criança a proceder a essa análise linguística dos possíveis, mas concentrando-se unicamente sobre o problema das relações semânticas, porque a ortografia, a pronúncia, a gramática e, muitas vezes, o sentido dos radicais não apresentam nenhum problema.

A introdução dos afixos – dos quais o sentido, mais amplo que qualquer palavra francesa, é, entretanto, bem definido – permitirá à criança formar uma infinidade de palavras. O sufixo -ema indica o traço de caráter, a tendência, o movimento espontâneo: helpema significa ‘serviçal’, ordema ‘ordeiro’, donema ‘generoso’. Quando a criança se deparar com a palavra kantema, que designa aquele que é, em relação ao canto (kanto), o que uma pessoa risonha (ridema) é em relação ao riso (rido), como traduzir? Da mesma forma, ao lado de samlandano ‘compatriota’ (formado a partir de sam- ‘mesmo’ e land- ‘país’), samreligiano ‘correligionário’, como exprimir em francês as noções de samrasano (raso, ‘raça’), samvalano (valo, ‘vale’), samideano (ideo, ‘ideia’)? A assimilação generalizadora não sendo inibida por nenhuma anomalia linguística, a criança consegue rapidamente sentir e apreender o sentido das palavras formadas dessa maneira. Mas a tradução delas será cada vez um desafio que ela só poderá resolver explorando todos os recursos de sua língua materna. Assim, a versão torna-se um exercício, não mais de segunda língua, mas de expressão francesa.

O manejo do léxico do esperanto habitua a criança a coordenar esses dois pólos, aparentemente opostos, que são a liberdade e o rigor: liberdade, porque ela pode formar todas as palavras que quiser; rigor, porque ela somente será compreendida se respeitar as regras de derivação e o sentido preciso dos radicais. É assim que, para traduzir ‘condiscípulo’, ela poderá imaginar todo tipo de soluções: kunlernanto (kun ‘com’, lern- ‘aprender’), samklasano, samlernejano (lernejo ‘escola’), kunlernejano, kunstudanto, studokunulo (kunulo ‘que é ou age com’, ‘companheiro’) ou qualquer outro sinônimo corretamente formado, mas não se poderia admitir kondisciplo, solução preguiçosa que introduz um neologismo inútil, nem kundisĉiplo, que significa ‘co-discípulo’, ‘discípulo de um mesmo mentor’.

Essa coordenação da liberdade e do rigor encontra-se no nível da gramática. Em relação à maior parte das outras línguas, essa é a grande liberdade: “eu te ajudo” pode ser traduzido tão bem por mi helpas vin (estrutura inglesa) ou mi vin helpas (estrutura francesa), quanto por mi helpas al vi (estrutura alemã) ou mi al vi helpas (estrutura russa); mas isso não é a anarquia: dizer mi vi helpas ou mi helpas vi significa não se fazer compreender em uma língua onde a ordem das palavras, como em latim ou nas línguas eslavas, não indica as relações gramaticais. O esperanto foi fundado sobre o princípio do “necessário e suficiente”: para que a mensagem passe, nesse exemplo, basta que o conceito de ajuda seja expresso sob a forma de verbo no presente e que o sujeito seja distinguido do objeto, mas é necessário, sob pena de não saber quem ajuda quem, que essa distinção seja feita; pouco importa que ela seja marcada por uma desinência ou uma preposição. De fato, o interesse psicológico dessa aprendizagem ultrapassa de longe o simples nível intelectual. Não há nenhum mal em descobrir, sobre um terreno afetivamente neutro, que a alternativa rigor/liberdade representa talvez um problema mal colocado.



Desenvolvimento afetivo
Nós chegamos, assim, à afetividade. Aprender o esperanto é uma grande aventura que traz a uma criança profundas satisfações. Todas as crianças amam os códigos, os alfabetos secretos, as línguas misteriosas. As línguas nacionais (e esse também é o caso do latim) não podem responder a esse desejo de jogo simbólico, porque o tempo necessário para poder utilizá-las com desenvoltura é muito mais longo. Em compensação, em uma língua onde todo esforço é imediatamente rentável, a criança progride a uma velocidade surpreendente, e ao final de quinze lições ela já pode manter conversações verdadeiras. Isso é extremamente encorajador. Toda aprendizagem onde os progressos são perceptíveis dá uma impressão de realização, cujo valor não poderia ser subestimado.

A coerência também tem qualquer coisa de extremamente satisfatória. Alguns alunos descobrem-na com a álgebra, mas ela é muito abstrata para a maioria. O esperanto dá à criança um sentimento de coerência em um domínio concreto que não exclui a comicidade (o aluno nota rapidamente que as possibilidades lexicais do esperanto servem maravilhosamente ao humor).

Afetivamente satisfatório também é o esperanto por causa da natureza das dificuldades que apresenta. Elas existem realmente, mas só há problema no nível do significante se há problema no nível do significado. Essas dificuldades não têm nada em comum com as complicações puramente formais que os acasos da história estorvaram nas línguas nacionais.

O gênero, em alemão, oferece um exemplo de complicação parecido. Às variações de gênero não correspondem quase nunca as variações na realidade. Shakespeare não escreveu obras-primas imortais em uma língua onde esse problema é totalmente desconhecido? Outro exemplo: a ortografia do francês, ou uma mesma derivação latina (ad + g) leva a formas diferentes em palavras tais como agression e aggraver (comp. inglês: aggression, aggravate; espanhol: agresión, agravar). As dificuldades formais sobrecarregam a memória sem contrapartida no nível conceitual. Não é por preguiça que a criança prefere o esperanto às línguas nacionais, é por uma recusa bem natural ao arbitrário, porque seu bom senso lhe sugere que a língua é feita para o homem e não o homem para a língua.

Se uma frase como “j’ai cru cet homme sincère” (eu achei esse homem sincero) apresenta um problema de tradução, é porque ela é ambígua. Ela se traduzirá por mi kredis tiun viron sincera se ela significa “esse homem, eu o achei sincero”, mas mi kredis tiun viron sinceran (ou tiun sinceran viron) se ela significa “eu pensei que esse homem (eu acreditei no que esse homem disse) fosse um homem sincero”. Da mesma forma, a frase “je vous aime plus que lui” (eu amo você mais do que ele) será traduzida por mi amas vin pli ol li se queremos dizer “eu amo você mais do que ele te ama”, mas mi amas vin pli ol lin se queremos dizer “eu amo você mais do que o amo”. Tomemos ainda um outro exemplo: a partir de li ‘ele, lhe’ e de si ‘si’, formam-se regularmente os adjetivos possessivos lia ‘seu’, ‘dele’ e sia ‘seu, de si’, que correspondem respectivamente ao latim ejus e suus. A experiência mostra que para os ocidentais o manejo desses adjetivos é trabalhoso. Exercê-lo em uma língua, acima de tudo, fácil, onde a referência ao pronome-radical é transparente, constitui uma preparação muito útil para aqueles que se aventurarão mais tarde no russo ou no latim.

Para a afetividade da criança, as dificuldades formais são como trotes arbitrários. A ausência delas confere um valor particular ao esperanto, que dá ao aluno a ocasião de aceitar com alegria e criatividade a aprendizagem de uma gramática universal e de um núcleo de vocabulário estrangeiro que lhe facilitará plenamente o estudo posterior de outras línguas. Mas esse prazer no trabalho não é a única contribuição do esperanto para a afetividade da criança. Todo um jogo de prefixos e sufixos permite situar as noções ao longo de uma gama que vai do conceito inicial à noção oposta, passando pela simples negação, um pouco como poderíamos ver em francês uma gama na série: brûlant, chaud, tiède, ni chaud ni froid, frais, froid, glacé2. Essa possibilidade permite ao professor ensinar às crianças, cuja afetividade é em grande parte regida pela lei do “tudo ou nada”, que os sentimentos e os julgamentos de valor são suscetíveis de nuanças ao infinito. Como estados intermediários entre a coragem e a covardia, a amizade e a inimizade, a esperança e o desespero! O esperanto permite expressá-las sem tornar pesado o vocabulário, e a aprendizagem do léxico, pelo jogo dessas “gamas linguísticas”, favorece a diferenciação sutil dos sentimentos. Sabemos, depois da psicanálise, a importância que reveste para cada um a verbalização nuançada de seus afetos. Fornecer à criança um instrumento linguístico bem adaptado a esta necessidade é trazer uma contribuição modesta, mas real, à higiene mental.

Todos esses elementos não são negligenciáveis; mas a verdadeira contribuição do esperanto nesse plano afetivo encontra-se no extraordinário desabrochar da sensibilidade que acompanha a descoberta concreta e direta do mundo onde vivemos. Nas crianças que aprendem o esperanto, isto é feito geralmente por dois caminhos: de um lado, a correspondência com crianças de todo tipo de países sem o menor problema de comunicação; de outro, a descoberta das produções literárias dos povos mais diversos. As viagens expandindo-se, um terceiro caminho torna-se cada vez mais frequente: o contato direto com esperantófonos estrangeiros.

Eu aprendi o esperanto durante a guerra e me lembro da frustração que experimentei folheando o compilado de uma revista de jovens, La Juna Vivo, que tinha parado de ser editada por causa das circunstâncias, e em cujos números anteriores trazia listas de garotos da minha idade japoneses, estonianos, brasileiros, islandeses... que desejavam se corresponder com jovens de outros países. Desde que as revistas internacionais em esperanto reapareceram, eu tive vários correspondentes no mundo inteiro, e guardo uma lembrança particularmente comovida de um jovem chinês, morto por uma bala perdida quando o avanço comunista atingiu Chengdu, onde ele morava, e com quem eu me correspondi de 1945 a 1948. Esse intercâmbio me marcou para toda a vida.

No plano cultural, é sobretudo no momento da adolescência que o esperanto pode tornar-se um amigo inestimável. A realidade é, aqui, frequentemente mal compreendida. Ouve-se dizer que seria uma pena fazer os jovens aprenderem uma língua dita “sem alma”, porque ela não possui atrás de si um rico passado cultural. O conceito de “alma” é bem difícil de delimitar no caso de uma língua, e, no entanto, cada um sente intuitivamente que ele recobre uma realidade. Portanto, eu estaria totalmente disposto a aceitar essa objeção se o esperanto fosse uma língua sem alma. Mas todos os que tiveram uma experiência com ele sabem que ele não o é. Milhares de projetos de língua internacional surgiram. Somente o esperanto tornou-se uma língua viva, tendo um estilo, um caráter, uma atmosfera que lhe são próprios. De onde vem isso? Do fato de que é no início a expressão da criatividade de uma criança e não uma construção racional de um homem maduro? Do primeiro meio de difusão da língua: esses citadinos de condição modesta, mas com o espírito muito aberto, animados por um idealismo apaixonado, que marcaram com suas esperanças um pouco utópicas as últimas décadas do tzarismo na Rússia, na Polônia e nos países bálticos? Das perseguições, que, do tzar às autoridades portuguesas, passando por Hitler e Stálin, desempenharam um grande papel na história da língua internacional? Do fato de que se trata menos de uma criação artificial do que da organização de um tesouro linguístico compartilhado por todos os povos indo-europeus (as palavras foram passadas para o esperanto com todas os traços harmônicos que séculos de uso tinham-nas cercado: kanajlo conservou toda a frescura francesa que a palavra “canaille” tinha no século XV, hejme guarda em esperanto a mesma tonalidade de “chaleur du home” que seus equivalentes germânicos, klopodi exprime sempre esse mesmo esforço tenaz em direção a um objetivo pouco acessível que junto aos povos eslavos onde a palavra foi tomada emprestado)?

Seja como for, o fato é que o esperanto tem uma alma, e que ele se mostra menos heterogêneo que o inglês, nascido como ele de um casamento improvável, e como ele largamente tirado das formas gramaticais aberrantes dos idiomas familiares. Durante longo tempo desconhecido pela linguística, rejeitado pela maioria dos intelectuais, ele foi a criança acarinhada de quatro gerações de artesãos e de poetas que souberam transmitir uma espantosa vitalidade ao que poderia ser apenas um conjunto heteróclito de signos convencionais.

Por causa de sua limpidez gramatical, da liberdade que preside à formação do léxico, da flexibilidade de uma frase onde, como em russo e em latim, a ordem das palavras é geralmente uma questão de estilo e não de gramática, ele se revela um excelente intérprete, capaz de desempenhar todos os papéis dobrando-se ao menor capricho dos personagens que encarna. Língua modesta, transparente, ele deixa passar, mais que nenhuma outra, a totalidade dos valores de um original literário.

O exemplo seguinte dará talvez uma fraca ideia de suas possibilidades. As propriedades da língua chinesa permitiram a Confúcio apanhar em quatro palavras uma injunção feita aos pais e aos filhos para aceitarem seus papéis respectivos na família. As quatro palavras chinesas podem ser traduzidas pelas quatro palavras correspondentes em esperanto de maneira perfeitamente clara e natural: patro patru, filu fil’3. Nenhuma outra língua, que eu conheça, pode dar uma tradução ao mesmo tempo tão correta quanto ao sentido e tão fiel quanto à forma. O francês “que les Pères se conduisent comme des pères et les fils comme des fils” (Que os pais desempenhem seus papéis de pais e os filhos, seus papéis de filhos) perde todo o impacto da concisão chinesa e restringe indevidamente o sentido (poderíamos dizer: “assumam seus papéis de pais”, mas as duas expressões não são de forma alguma equivalentes. A frase chinesa, como a versão esperanto, integra as duas ideias em uma fórmula mais ampla). O inglês é considerado uma língua particularmente adaptada às fórmulas concisas que causam choque. Entretanto, a única tradução mais ou menos correta que puderam me dar da fórmula em questão é muito mais pesada que o original: Let the fathers be fathers and the sons sons. Eu finalizo dizendo que pedi a uma dúzia de esperantistas de países e de meios sociais diferentes para me explicarem como eles compreendiam a frase em esperanto: suas respostas detalhadas mostram sem dúvida possível que eles a compreendem, todos, da mesma maneira e que lhe dão exatamente o sentido do original chinês.

Sabe-se que a poesia inglesa é especialmente rebelde à tradução, por causa da concisão das palavras e da força do ritmo. Leia, no entanto, os poemas de Wyatt, de Shakespeare, de Gray, de Blake na Angla Antologio ‘Antologia Inglesa’ (compilado, é verdade, por tradutores do próprio país, sensíveis às sutilezas que um estrangeiro não sentiria; essa é a maior das vantagens, o fato de as traduções literárias em esperanto serem estabelecidas por compatriotas do autor) e você verá que a música dos sons e dos ritmos é respeitada nas traduções,onde nenhuma nuança se perde. E em qual outra língua, a não ser o esperanto, podemos traduzir os jogos de palavras de Omar Khayyam por jogos de palavras equivalentes, sem trair nem o ritmo nem o sentido do original persa?

Para abordar textos literários em esperanto, uma criança não precisa mais do que seis meses de estudo. Isso parece inacreditável, porque é difícil para um ocidental imaginar uma língua desprovida de complicação formal, com um léxico totalmente fundado sobre o princípio da derivação (Em esperanto, aprender as palavras juventude, rejuvenescer, rejuvenescimento, velho, velhice, envelhecer, envelhecimento, juvenil, senil, senilidade..., não significa memorizar um novo vocabulário. Basta aprender o radical jun- ‘jovem’ e aplicar nele regras precisas, como na conjugação de um verbo regular. O alívio que isso implica para a memória é talvez impossível de conceber para quem não teve a experiência. Tentemos fazê-lo sentir por alguns exemplos).

O aluno não tem que aprender palavras tais como “boulanger, boulangerie ; décoloration, bicolore, monochrome ; meute, chiot, chenil, cynéphale ; couteau, tranche, taille, dépecer ; résidence, domicile, population, peupler, habitable, emménager, déménager, inhabité, aborigène, surpeuplé...4 Para saber o equivalente esperanto de cada uma dessas palavras, basta conhecer os radicais correspondentes a ‘pão’, ‘cor’, ‘cachorro’, ‘cortar’ e ‘morar’. Na verdade, esses cinco radicais permitem formar, somente pela derivação, em média 75 palavras correntes.

Textos de todas as épocas e de todas as culturas foram publicados em esperanto em excelentes traduções. Seria uma brincadeira de criança reunir os melhores em uma ou duas antologias onde Dante seria vizinho de Lu-Xin, Tolstói de Sófocles, Madách de Mickiewicz e Goethe de Martin Fierro ou Ono-na-Kamachi. Assim como nomes desconhecidos pelo colegial de hoje em dia, fechado em uma única cultura, com no máximo algumas notas sobre duas ou três grandes literaturas estrangeiras, como se os pequenos países ou os povos distantes também não tivessem produzido obras de grande valor! Todos esses tesouros estão ao alcance da mão das crianças de nossas escolas, bastam-lhes seis meses para que eles tenham acesso a eles. Não é um crime, nessas condições, deixar esta porta fechada?


Utilidade prática
Alguns dirão que os programas estão sobrecarregados e que o esperanto não apresenta nenhum interesse prático. Para o sobrecarregamento dos programas, a questão está mal colocada: a aprendizagem do esperanto faz ganhar muito tempo no estudo do francês e de outras línguas, mortas ou vivas. É uma fundação sólida para a construção posterior. E a experiência de uma primeira aprendizagem linguística agradável é para a criança um encorajamento muito real para aprender outras línguas. Além disso, a aquisição do vocabulário anatômico, zoológico e botânico lhe será largamente facilitado, a maior parte dos radicais correspondentes sendo, em esperanto, tirados do latim.

Isso não é tudo. Quando, aos 40 anos, eu me revi sobre os bancos da universidade para estudar a matemática moderna e a lógica formal, eu constatei com surpresa que muitas das dificuldades dos meus colegas de 20 anos me foram poupadas graças ao conhecimento do esperanto. De fato, eu estou habituado desde a infância a diferenciar as noções de contrário e de contraditório, que são incorporadas de maneira visual e fonética na estrutura dessa língua (elas correspondem a prefixos diferentes). Da mesma forma, as dificuldades que apresenta o manejo da negação em lógica não existem para quem domina a língua internacional. A frase “Tout ce qui brille n’est pas or” é uma pedra no sapato para os estudantes que devem exprimi-la com os símbolos da lógica matemática moderna. Se nós a transpomos em esperanto, percebemos que uma tradução palavra-a-palavra seria incorreta: ĉio kio brilas ne estas oro significa “Tudo o que brilha é feito de uma outra substância a não ser o ouro”, “não há nada de brilhante que seja de ouro”. A tradução exata é ne ĉio kio brilas estas oro ou ne ĉio brilas estas oro, literalmente “nem tudo que brilha é ouro”. O hábito da coerência que exige a prática do esperanto é um auxiliar precioso para o manejo da ferramenta lógico-matemática.

Quanto ao interesse prático no sentido estrito, se eu repenso meus anos de colégio, constato que o esperanto foi infinitamente mais útil em minha vida de adulto do que, por exemplo, o latim ou a geometria. Certamente, o esperanto não tem nenhum status oficial, ele não é a língua dos negócios ou da democracia, mas é uma língua que é falada no mundo inteiro por pessoas comuns. É, antes de mais nada, a língua dos contatos humanos. Entre os numerosos turistas japoneses que visitam a Suíça, os únicos que tiveram contatos reais com as famílias locais foram os esperantistas.

Se você deseja fazer uma viagem ao redor do mundo, queira folhear, antes de partir, o anuário da Associação Universal de Esperanto. Você encontrará aí os nomes dos representantes locais da associação. Tendo aprendido a língua internacional, você poderá manter contato com um habitante local em cada uma de suas etapas; é assim que você encontrará, por exemplo (eu cito a seguir o anuário de 2001): em Porto Príncipe (Haiti), Srta. Christine Théano; em Ulan Bator (Mongólia), Sr. Ganbaatar Deshigsuren; em Plovdiv (Bulgária), Sra. Fani Mihajlova, física; em Erevan (Armênia), Sra. Karine Arakejian, engenheira; em Necochea (Argentina), Sr. Juan Angel Diez, farmacêutico; em Adelaide (Austrália), Sr. Robert Felby, aposentado; em Duala (Camarões), Sr. Mboge Mbele, representante comercial; em Bagdá (Iraque), Sr. Himyar M. As-Rashid, tradutor; em Bangalore (Índia), Sr. S.S. Pradhan, maquinista; em São Francisco (Estados Unidos), Sr. Charles E. Galvin Jr., profissional de informática... Esses não são todos os esperantistas que figuram nesse anuário, mas somente os representantes locais da associação, aqueles que assumem a responsabilidade dos contatos com os estrangeiros. A lista deles, que vai da Albânia ao Zimbábue, cobre 183 páginas no anuário de 2001. Quantos viajantes não-esperantistas podem assim colocar-se em contato direto com um habitante do país sem problema de comunicação? O esperanto, sem interesse prático? Ora vamos!


Conclusão
É preciso concluir? Os fatos falam por si mesmos. Basta olhá-los sem ideia pré-concebida para saber em que sentido deve-se dirigir uma ação educativa realista. Desconfiemos de uma primeira reação irracional. Muitas pessoas têm medo de que o esperanto roube alguma coisa à riqueza cultura do mundo, enquanto que o que ele faz é colocá-la ao alcance de todos. Quando a fotografia foi descoberta, acreditou-se que ela mataria a pintura e o desenho, e o comércio dos discos conheceu um momento de pânico quando os primeiros gravadores magnéticos surgiram. O mesmo reflexo de medo, tão injustificável, não pode ser encontrado aqui?

A contribuição que o esperanto pode dar ao desenvolvimento intelectual, afetivo e cultural da criança merece um exame reflexivo. Os prejulgamentos teriam tornado esse estudo impossível alguns anos atrás, mas a evolução das mentalidades que estamos vendo atualmente é muito encorajadora. O grande sucesso do esperanto na Internet (ver por exemplo www.esperanto-panorama.net; muitos grupos de discussão em esperanto: http://groups.yahoo.com/group/veki/), a publicação de obras que apresentam uma informação confiável: René Centassi e Henri Masson L’homme qui a défié Babel ‘O homem que desafiou Babel’ (2 ed. L’Harmattan, 2002, sem tradução para o português), Georges Kersaudy Langues sans frontière ‘Línguas sem fronteira’ (Autrement, 2002, sem tradução para o português), Claude Piron O desafio das línguas: da má gestão ao bom senso5, ao lado de Que Sais-je? ‘Que sei eu?’ nº 1511, Pierre Janton, L’espéranto, a importante documentação acessível, por exemplo, em http://www.esperanto-sat.info ou http://claudepiron.free.fr/articles.htm ou, para a literatura, http://donh.best.vwh.net/Esperanto/Literaturo, são certamente, o sinal de uma atitude mais aberta por parte do grande público.



O país que inscrever o esperanto em seus programas escolares estará na ponta do progresso pedagógico. É uma decisão que exige coragem: a solução de facilidade consiste em se fechar os olhos sobre as relações reais entre os esforços exigidos dos alunos e o benefício que eles retiram disso, uma vez terminado o período escolar. Mas é também uma decisão que não implica nenhum julgamento sobre o valor extra-escolar da língua internacional. Começar a prática da música pela flauta doce não significa que julgamos esse instrumento superior ao violino ou ao piano. É simplesmente levar em consideração uma realidade pedagógica. O esperanto não merece, no programa geral, o mesmo lugar que a flauta doce no ensino da música? Vale a pena se perguntar. Que o presente testemunho possa estimular a reflexão e a busca por uma informação objetiva!
Artigo traduzido por Leandro Freitas

São José do Rio Preto, SP – Março, 2010


1 Matrizes Progressivas de Raven (ou SPM, na sigla em inglês: Standard Progressives Matrices) são testes de múltipla escolha utilizados para aferição do Q.I. (Quociente de Inteligência). Foram desenvolvidos por John Carlyle Raven na Universidade de Dumfries, Escócia, sendo padronizados e publicados em 1938. (N.T.)


2 Em português: ardente, quente, morno, nem quente nem frio, fresco, frio, gelado.

3 Em esperanto, o -o final sempre pode ser elidido (a forma normal é filo ‘filho’). A utilização dessa possibilidade, da mesma forma que a inversão do segundo sujeito, dá à frase um clima ao mesmo tempo poético e solene, que corresponde bem ao tom original.

4 Em português: padeiro, padaria; descoloração, bicolor, monocromo; matilha, filhote de cachorro, canil, cinófilo; faca, fatia, decepar; residência, domicílio, população, povoar, habitável, mudar, mudar de casa, inabitado, nativo, super populoso.

5 Tradução e adaptação de Ismael M. A. Avila. 2a ed. revisada e atualizada. Campinas, SP: janeiro de 2007. Versão eletrônica disponível em: http://www.kunlaboro.pro.br/download/o-desafio-das-linguas.pdf






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