Espiritualidade cristã e recuperaçÃo do corpo



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ESPIRITUALIDADE CRISTÃ E RECUPERAÇÃO DO CORPO

Fazer da vida oração e da oração vida


Isabel Gomez-Acebo

Caderno 5



Maio – 2004

www.fundacao-betania.org


Fundação Betânia

ESPIRITUALIDADE CRISTÃ E RECUPERAÇÃO DO CORPO

Fazer da vida oração e da oração vida
Encontro de oração

Orientadora: Isabel Gomez Acebo


Casa de Retiros de Santo Inácio

Rodízio, 8 – 9 de Maio 2004


Índice



  • 1ª Conferência: Orar com os sentidos (Tradução de Margarida Pereira-Müller)




  • 2ª Conferência: Orar com os elementos (Tradução de Ilda Pires)




  • 3ª Conferência: A Lectio divina (Tradução de Judite Grilo)




  • 4ª Conferência: A oração permanente (Tradução de Luísa Oliveira Martins)


1ª Conferência: ORAR COM OS SENTIDOS*
Porque não te oiço?

Porque não te vejo?

Porque não me falas?

Porque não te sinto?

José Bergamín


O facto de termos uma vida activa com muito trabalho e com dificuldade em nos isolarmos para rezar obriga-nos a procurar caminhos alternativos aos tradicionais. Não há outra maneira para rezar do que com a própria vida. Mas como se reza com a vida? Há muitos caminhos que iremos descobrindo e investigando. Hoje vamos procurar Deus com os sentidos com que caminhamos pela vida. Através deles, vamos tentar descobrir os sinais do Criador do universo. Não procuramos o Deus que está longe, mas o que está perto de nós. Vamos abrir as nossas cinco janelas de par em par para deixarmos entrar esse Deus no nosso interior. Vamo-nos abrir a esse Tu que nos chama, nos interpela, nos espera, nos pede que reajamos e que nos comprometamos. Estou à porta e chamo, como um mendigo sem condições prévias.

É nesta relação pessoal que vamos pedir a Deus que se nos revele como um pai, como um amigo, como um companheiro de caminho. No livro dos Provérbios (18) vem escrito que ninguém pode ser feliz sem amigos. Um amigo fiel é um tesouro, uma poderosa protecção, o que teme o Senhor achará o tal amigo (Ecl 6,14-17). Na vida do nosso século, o amigo é o que nos ajuda a caminhar todos os dias, pois a sua simples presença nos dinamiza. Com Deus vamos encontrar a alegria da sua companhia, a celebração da sua amizade e o abraço do encontro.

Sentido quer dizer caminho. Dos nossos sentidos, há alguns que são mais bem vistos, como a visão e a audição, do que outros. O olfacto, o paladar e o tacto são mais materiais e, como matéria sem valor, são considerados de segunda. No entanto, antes de entrar em cada sentido vamos ver como há poetas como Manuel Machado que afirmam que esses sentidos são o caminho da verdadeira vida:


E eu tinha dito: Vive!

Que é o mesmo que dizer ama e beija

Escuta, vê, toca

Embriaga-te e sonha.
Consideremos, agora cada um dos sentidos.

ORAR COM O OUVIDO

A audição oferece-nos um acesso a uma realidade distinta da visão, pois não vemos os objectos mas ouvimos as suas expressões. Não somos nós que determinamos o que queremos ouvir excepto a música “enlatada” ou os concertos. Nem tampouco podemos ouvir de novo a não ser que se grave.

Ouvir e escutar são duas palavras diferentes; escutar requer a concentração. Ouvimos as notícias que se dirigem a todos mas escutamos as mensagens que levam o nosso nome próprio. Ouvimos as crianças a chorar, mas escutamos quando se trata dos nossos filhos. Escutar é uma disposição de resposta à chamada de um tu. A oração converte-se num diálogo que tem dois pontos de apoio em Deus: a sua palavra e o seu amor. Dois pontos a que nós devemos responder com a escuta e a confiança.

Nesse encontro, a iniciativa é de Deus que nos chamou primeiro. Pelo nosso lado, só temos de escutar, de nos abrirmos, acolher … Não tentar conquistar mas deixar-se conquistar por Ele. Não tentar convencê-lo mas deixar-se convencer por Ele. Por isso, um teólogo alemão muito famoso escreveu um livro que se chama “O ouvinte da Palavra”, um ouvinte que é o ser humano. Ele que abra os ouvindo para Deus com a esperança de que se rompa o seu silêncio e sejamos capazes de escutar a sus voz.

Que significa escutar Deus, quando nós, a maior parte das vezes, não ouvimos nada? É simplesmente ficar perante Deus à espera. Como dizia um aldeão rude e simples, que passava horas a fio diante do sacrário, quando lhe perguntavam o que fazia: estou a olhar para Ele e Ele a olhar para mim.

As experiências sensíveis não dependem de nós e a maioria das vezes não sentimos nada mas mantemo-nos no posto como o sentinela de serviço. Deus não tem de intervir, só quer que o recebam. Hoje ouvem-se muitas queixas em relação à oração de petição que supõe que o homem recite perante Deus uma litania de pedidos. Há possivelmente formas de orar mais perfeitas mas o Amigo escuta com gosto as nossas angústias.

O mundo inteiro transforma-se em palavra de Deus. As “mirabilia dei” ("maravilhas de Deus") falam-nos do Criador. Os salmos de louvor dão-nos esta certeza. O mar, a montanha, a beleza do cônjuge, a arte, a música… tudo nos deve fazer ver Deus e levar-nos a exclamar: Que bonito! Que pena! Que sorte! Palavras que dirigidas a Deus são uma maravilhosa oração de acção de graças ou de petição pelo que se necessita. A criação não tem palavras e nós podemos dar-lha.

As pessoas queridas são um lugar privilegiado de oração. Os cônjuges entre si são palavra de Deus, os filhos e os pais, os amigos especiais.. Que nos diz Deus através do seu eu? Falam-nos de amor, de necessidade de afecto, de escuta das necessidades recíprocas… Contam que São Francisco, um dia, rezou assim a Deus: Senhor, eu amo o sol e as estrelas, amo a Clara e as suas irmãs, amo os corações dos homens, mas somente te deveria amar a Ti. Ao que Deus respondeu: também eu amo o sol e as estrelas, a Clara e as suas irmãs… não tens que te lamentar, pois eu também os amo.

Na liturgia temos a voz e a escuta comum, nela representamos toda a humanidade. Os índios recentemente vítimas de terramoto e os americanos com os seus altos níveis de vida. Ouvimos toda a humanidade e queremos que a nossa oração a represente. As suas necessidades e os seus louvores, as suas alegrias e as suas tristezas que fazemos também nossas. Também temos necessidade de nos escutarmos a nós mesmos. Ali, dentro no silêncio da nossa vida interior, encontrar-nos-emos com Deus. Temos de nos aceitar como somos na realidade e não como aparentamos ser. Além disso, devemo-nos sentir bem com a nossa realidade, pois Deus ama-nos como somos. Devemos apresentar-nos perante Deus como somos sem angústias mas com toda a confiança, pois estamos perante a nossa mãe/ o nosso pai. Esta autenticidade requer que eu escute e aceite os meus próprios sentimentos, não posso transformar-me na pessoa que não sou; basta mostrar-me tal como sou. Por isso, não necessito como primeiro passo a censura mas sim a serenidade, o silêncio acolhedor.

Nenhum som pode perturbar esse silêncio pois todos os ruídos têm um silêncio profundo no seu interior. Os ruídos distraem se tentas suprimi-los mas se os aceitas como parte da vida descobres neles um sentido, um meio para gozar o silêncio, para nos escutarmos a nós mesmas/os como somos e sem dissimulações. Mas também para escutarmos os nossos irmãos, pois perante Deus nunca estamos sós. Estamos todos, mas sobretudo as vítimas da história que ninguém recorda. Dizia Frei Chenu que um monge dominicano deveria rezar com o Evangelho numa das mãos e o jornal na outra; só assim, poderia escutar a voz dos homens. Junto à dor da humanidade, temos também as suas ânsias pois se bem que o que reza esteja carregado de história de dor, tem também uma grande alegria que nasce da confiança de estar nos braços de Deus.

Nesta escuta de Deus que nos oferece o ouvido, temos que ser capazes de discernir, o que me diz hoje a mim e nas minhas circunstâncias. É difícil pois os nossos desejos confundem-se com os de Deus mas conhece-se pelos frutos. Se esta oração nos conduz ao amor, então, e para lá de todas as suas outras facetas, é autêntico. Dizia Inácio de Loyola que o amor há-de pôr-se mais nas obras do que nas palavras. Fazer o bem e agora que falamos de ouvir não fazer ruído. Fazer o bem, passando despercebido. Bonhoeffer dizia que ter paz é fazer-se silencioso, é a paz de Deus que está para além da razão. Somente nas orações caladas da nossa alma encontramos essa paz.

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