Esporte e cidade: aspectos da formação dos clubes de regatas na Belle Époque carioca



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Esporte e cidade: aspectos da formação dos clubes de regatas na Belle Époque carioca

Cláudia Maria de Farias - Universidade Federal Fluminense


Esta comunicação faz parte da pesquisa de mestrado - "Febre esportiva": esporte náutico e modernidade carioca (1895-1914) - que desenvolvo, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal Fluminense, desde 2003.

Ressaltando a importância do remo/regatas como prática social reveladora de uma visão de mundo elitista e aristocrática, imbuída de símbolos representativos de uma ordem burguesa-capitalista em construção, pretendo reconstruir, no trabalho, o conjunto de crenças e representações sociais surgido em torno deste esporte, discutindo também suas relações com a modernidade que se inaugurava. Neste sentido, a crescente ocupação dos bairros à beira-mar valorizando a praia, a proliferação de clubes de regatas a partir de 1895 e a presença constante de autoridades na celebração deste espetáculo esportivo, são elementos significativos da estreita relação entre este esporte, o poder público e os preceitos de saúde, higiene, beleza e progresso embutidos na idéia de civilização/civilidade. A análise proposta, portanto, visa desvendar uma complexa trama de relações costurada na consolidação de um projeto civilizatório, explorando o esporte como objeto de estudo capaz de revelar novas nuances de uma realidade social.


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A realização das regatas na orla marítima da cidade iniciou-se em torno de 1850 intensificando-se nos anos de 1880/1890, com a formação de diversos clubes, no Rio de Janeiro: Clube de Regatas Paquetaense (1884); Cajuense (1885); de Regatas Internacional (1887); Union de Cantioners e Fluminense (1892); Botafogo (1894); Gragoatá, Icaraí e Flamengo (1895); Natação e Regatas (1896); Boqueirão do Passeio e Caju (1897); São Cristovão e Vasco da Gama (1898); Guanabara (1899); Náutico e Internacional de Regatas (1900). Atuando como novos espaços de sociabilidade e lazer para os grupos urbanos emergentes - estudantes, comerciantes e banqueiros -, o desenvolvimento destes clubes ocorreu no contexto de fortalecimento das teorias higiênicas que, desde meados do século XIX, viam na prática de exercícios físicos, a solução para o aprimoramento físico e moral da nação brasileira. Com efeito, a prática do remo respondeu amplamente ao projeto civilizador que se impôs, na medida em que disciplinava os corpos, hierarquizava os espaços e divulgava um novo estilo de vida baseado no ideário mens sana in corpore sano

João do Rio assim registrou o crescente avanço do remo: "Rapazes discutiam 'muque' em toda parte. Pela cidade, jovens outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais, a cinta fina, a perna nervosa e a musculatura herculeana dos braços. Era o delírio do 'rowing', era a paixão dos esportes. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos".1



Em sua narrativa, ele enaltecia a criação do Clube de Regatas do Flamengo, em 1895, afirmando que este "deveria cobrar dos cariocas uma dívida de 20 anos, pois dali partiu a formação de novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e da alma".2 Observador atento da vida mundana da cidade, João do Rio percebeu a nova experiência de sociabilidade urbana inaugurada pela prática esportiva, como fator de distinção entre dois tempos: o da Monarquia - "outrora" - onde os jovens eram "raquíticos e balofos", preparados apenas para a vida intelectual, e o da República, onde os mesmos jovens tornavam-se, agora, musculosos e fortes. Fato revelado também, na crônica, de Olavo Bilac, compilada por Alberto de Mendonça, em sua História do Sport Nautico, de 1909: “Basta comparar a grande geração, que atualmente envelhece no Rio de Janeiro, à geração nova que aí está se formando com o exercício do remo, para ver que benefícios estão se colhendo do desenvolvimento do esporte náutico. Ver essa mocidade, exuberante de saúde e alegria - é coisa que encanta e orgulha... O contato com o ar livre e com os perigos do mar salva-a do desânimo e do abatimento moral”.3

Compartilhando dos ideais republicanos de civilização, progresso e modernidade, o poeta parnasiano se entusiasmava com o crescimento do esporte náutico, vendo nele um perfeito aliado na tarefa de regeneração social, conforme anunciava o primeiro editorial da revista A Canoagem, lançada em 4 de julho de 1903: "... nosso fim é propagar e estimular os esportes que mais vantagens apresentam sob o ponto de vista do desenvolvimento físico de uma raça, inculcando o assunto de nossa particular eleição".4

Embora fosse um fã ardoroso das regatas, Bilac não deixava de expor seu contentamento diante de outras manifestações esportivas. Em outra crônica, publicada na Gazeta de Notícias, em 24 de fevereiro de 1907, ao estabelecer uma identificação exagerada entre suas convicções e preocupações e as de “toda gente contemporânea"5, ele ratificava a “religião do exercício físico” para a “salvação da espécie", único remédio capaz de “retardar um pouco a irremediável catástrofe”. Interessado em cristalizar as suas crenças, dissolvendo todo o pensamento refratário à "mania do esporte", o poeta foi buscar nos Jogos Olímpicos da Antigüidade - “idade de ouro da humanidade, no berço daquela Grécia divina cuja misteriosa e indizível saudade arde perpétua, por um milagre físico, na alma de todo o homem que pensa” -, a inspiração para despertar e provocar aqueles que porventura se mantinham indiferentes a esse movimento iniciado, ainda no final do século XIX, com a exploração de diversas modalidades esportivas.

Em requerimento enviado ao Prefeito municipal, em 16 de agosto de 1893, Carmo Salomão e Eduardo Rios, solicitavam uma licença para a construção, na Praça da República (antigo Campo de Santana), de "um vasto estabelecimento de diversões públicas, esgrima, ginástica, natação, corridas a pé e a velocípedes, regatas e tiro ao alvo para crianças e rapazes". Para tanto, os suplicantes alegavam que "em todas as grandes cidades européias, são usados em grande escala, os exercícios e divertimentos deste gênero, como meio de proporcionar à infância e à adolescência não somente as alegrias puras e sãs que constituem a melhor higiene do espírito na primeira idade, mas também o vigor e aptidões físicas que tanto influem sobre a saúde e sobre o caráter do homem".6

Explorando habilmente as expectativas sociais do discurso higienista, empresários capitalistas inauguravam, por toda a cidade, frontões, belódromos e velódromos, oferecendo corridas de bicicletas, de touros, a cavalo e jogos de pelota. Neste último, de origem espanhola, dois competidores arremessavam com raquetes uma pequena bola contra um paredão, perdendo aquele que não conseguisse rebater a jogada do adversário. Despertando cada vez mais o interesse da população carioca atenta aos modismos e hábitos europeus, as lucrativas diversões transformavam-se numa justificativa moral para os nossos ousados empreendedores que, freqüentemente, argumentavam estar contribuindo para o desenvolvimento físico da mocidade brasileira e, conseqüentemente, para o progresso da Capital Federal. Nesse ambiente, o esporte náutico se caracterizou como uma ação 'nova' própria de uma sociedade em transformação, de uma cidade que se pretendia cosmopolita, como o Rio de Janeiro - capital da República e cenário das profundas transformações pelas quais passava o Brasil.



Segundo o famoso historiador inglês, Eric Hobsbawn, o esporte se impôs como elemento de distinção social, uma "tradição inventada". Considerado, em seu estudo, uma das práticas sociais mais importantes do nosso tempo, o esporte representou para a classe média uma tentativa de desenvolver um novo e específico padrão burguês de lazer e estilo de vida, bem como um critério flexível e ampliável de admissão num grupo.7

No início do século XX, especialmente durante a gestão do Prefeito Pereira Passos (1902-1906), a atividade esportiva chegou ao apogeu; as regatas eram anunciadas e celebradas como um grande evento social, um espetáculo cujo símbolo maior era o Pavilhão de Regatas, construído na Enseada de Botafogo, em 1905, exclusivamente para o deleite da "melhor sociedade carioca". Em sua administração, Passos foi considerado Presidente Honorário da Federação Brasileira das Sociedades do Remo, pelos auxílios prestados ao esporte náutico através de subvenções anuais, construções de arquibancas, rampas de acesso e garagens para os barcos dos clubes, além dos melhoramentos no cais de Botafogo. Essas imagens/equipamentos urbanos tornavam-se símbolos da nova ordem social, evidenciando as relações entre o remo e a "regeneração" da cidade do Rio de Janeiro. Daí, a valorização do sportsman, visto como modelo de homem moderno, gentil, atlético e valente, semelhante ao perfil construído, na revista A canoagem, para os irmãos Saliture, campeões de remo e natação, diversas vezes.
Os clubes de remo: novos espaços de sociabilidade e lazer
A crescente ocupação da zona sul da cidade pelas elites, a partir do último quartel do século XIX, à procura de locais mais arejados e adequados para residir, fez da praia um novo espaço de lazer, introduzindo o banho de mar no cotidiano da cidade, ao mesmo tempo em que lançava as bases para a prática de esportes aquáticos, como o remo e a natação, visando à melhoria da saúde e o aperfeiçoamento físico do corpo. Contudo, inicialmente praticado sem as condições organizacionais propícias para a sua difusão, o remo só atingiu sua popularidade com a fundação das primeiras associações náuticas, em meados da década de 1880.

Nos últimos cinco anos do século, a criação do "Grupo de Regatas do Flamengo" deu um novo impulso a este esporte. Note-se aqui que a denominação inicial de "grupo" ao invés de "clube", é bastante significativa da imagem/identidade que jovens estudantes "do Flamengo", forjavam para si ao fundar esta agremiação. Em seus anseios, tratava-se de fazer frente a uma outra associação esportiva, já existente, também formada por estudantes: a "do Botafogo". Conta-se que os remadores do Flamengo tomaram tal decisão, movidos pela indignação diante do grupo rival "do Botafogo" que, dispondo de embarcações por serem "mais ricos e endinheirados conseguiam levar as moças do bairro para um passeio à beira-mar". Tal fato, levou os jovens "do Flamengo" a promover as primeiras reuniões, nas mesas do Café e Restaurante Lamas, para a fundação do grupo. Em 15 de novembro de 1895, nascia o Grupo de Regatas Flamengo. Logo após sua fundação, Domingos Marques de Azevedo, José Agostinho Pereira da Cunha, Mário Spínola, José da Cunha Meneses, Nestor de Barros, Felisberto Laport e Augusto da Silveira Lopes, entre outros, se cotizaram na compra da Baleeira "Pherusa" e no aluguel de uma garagem na praia.8

Nas ações e estratégias implementadas por esses remadores para se expressarem e se diferenciarem, revelam-se suas representações sociais de comportamento (honradez, cavalheirismo, ousadia e virilidade), bem como seus novos padrões de consumo e lazer. A formação dessas associações esportivas, funcionou como mecanismo de criação de identidade social para esses grupos emergentes, no sentido de estabelecer diferenças tanto para "os de fora", - aqueles que não compartilhavam dos mesmos códigos de conduta - quanto para "os de dentro", na medida em que estabelecia uma disputa entre clubes formados por estudantes, mas localizados em bairros distintos da cidade. A construção da identidade, então, se operou por meio de uma relação de concorrência, implicando na demarcação de territórios nos espaços da cidade.



Outro exemplo pode ser dado pela fundação do Clube de Regatas Vasco da Gama, em 1898. Surgido no bairro da Saúde, local onde moravam muitos comerciantes, foi criado "porque seus fundadores já estavam cansados de viajar à Niterói para remar com barcos do Club Gragoatá". Depois de uma reunião na rua Teófilo Ottoni, o número de interessados cresceu e os encontros foram transferidos para o Clube Recreativo Arcas do Comércio, "cujo intuito era conseguir o auxílio financeiro de caixeiros portugueses para a aquisição das embarcações". Em 21/08/1898, com 62 sócios assinando presença, no Clube Dramático Filhos de Talma (Rua da Saúde, 293), nascia o Clube de Regatas Vasco da Gama.9 Deve-se aqui arriscar uma interpretação: até que ponto esta associação não nasceu do desejo de comerciantes portugueses inscreverem simbolicamente sua presença na cidade e assim fortalecerem seus laços de identidade, em virtude das manifestações de xenofobia praticadas pelo jacobinismo mesmo depois do governo de Floriano Peixoto?

A inauguração do Clube de Regatas Guanabara, em 5 de julho de 1899, é outro episódio significativo dessa conjuntura. Tudo começou no desmonte do Morro do Senado para aterro de faixa costeira da Saúde, onde situava-se a sede náutica do Clube de Regatas Vasco da Gama, recém-criado. Uma dissidência surgiu na escolha do local para a montagem da nova sede que o presidente, Gonçalves Couto, queria localizada em Botafogo, nas vizinhanças da raia oficial do pavilhão da União de Regatas Fluminense. Reunidos em assembléia, a maioria dos sócios do Vasco da Gama, optou pela mudança para local próximo ao Passeio Público, junto aos clubes Boqueirão do Passeio e Natação e Regatas, por considerar a dificuldade de deslocamento do centro da cidade para Botafogo. A decisão causou a renúncia do Presidente do Vasco e de toda a diretoria que, juntos, fundaram um novo clube em Botafogo, com o nome Grupo de Regatas Guanabara.10 Neste exemplo, a vivência da identidade surgiu de embates travados no interior de um grupo vinculado a um mesmo setor ocupacional, fruto de uma relação contraditória e conflituosa. Ao mesmo tempo em que gerou uma "coesão grupal" inicialmente, pôde demarcar uma nova diferença, indicando outra cisão. Diferentemente da fundação do "Grupo de Regatas Flamengo", esta associação surgiu da divergência entre indivíduos portugueses de uma mesma categoria ocupacional.

Estes são apenas alguns casos, entre muitos outros relativos às origens dos clubes de regatas, que surgiram na cidade do Rio de Janeiro a partir de 1894. Cumpre destacar que, além de servirem como espaços de representações vinculados às diversas vivências dos grupos sociais urbanos em ascensão, os clubes de remo atuavam também como lugares de excelência para o convívio e lazer da elite carioca, voltados para uma nova sociabilidade e materialidade urbanas, plenamente associadas aos signos da modernidade. Desse modo, muitos desses clubes já apresentavam em suas instalações, instrumentos e aparelhos para a prática de ginástica, esgrima e tiro ao alvo, e ofereciam aos seus sócios a possibilidade de participarem das festividades oficiais promovidas na cidade durante a "belle époque", como as festas venezianas, as revistas náuticas e a batalha das flores. Além disso, o divertimento constituía-se em excelente oportunidade de fechar contatos e fazer negócios.


Para concluir...
O advento do regime republicano, mais do que mera transição política, assinalou uma profunda mudança na estrutura econômica do país, assim como nos padrões de comportamento e sociabilidade que regiam a vida nas cidades.

Símbolo da modernidade brasileira, o Rio de Janeiro tornou-se uma "vitrine viva", lugar onde a burguesia desfilou seu estilo de vida "moderno e civilizado". Essa ordem burguesa, ao promover a abertura de amplos espaços públicos de lazer e divertimento, instaurou um cenário urbano propício à difusão dos esportes. A ritualização do espetáculo das regatas, ao privilegiar o embelezamento da orla e sua acessibilidade, alterando profundamente a paisagem urbana, ofereceu aos setores da elite carioca a possibilidade de externarem sua maneira de ver o mundo, veiculando comportamentos tidos como mais apropriados para os habitantes de uma cidade cosmopolita. Neste sentido, a cidade passa a ser lugar de significação que faz sentido para quem o vivencia, é suporte de sentidos variados produzidos pelos diversos grupos que a compõem tornando-se, então, "lugar de memória", conforme sugere Pierre Nora.



A "febre esportiva" vivenciada pela cidade, que aqui foi delineada através de certos aspectos relativos ao remo e a modernidade carioca, bem como através da fundação de alguns clubes de regatas, merece ser estudada mais detidamente. Tal enfoque, pode contribuir para iluminar o processo de transformações vivido pela sociedade carioca nessa conjuntura, marcada muito mais pela aristocratização da vida urbana do que pela sua democratização.



1 BARRETO, Paulo. "O futebol". apud. COSTA, Nélson. Páginas cariocas. Guanabara, Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1961. p. 278

2 BARRETO, Paulo. "O futebol". Apud. COSTA, Nélson. Páginas cariocas. Guanabara, Secretaria de Educação e Cultura, 1961. p. 278

3 BILAC, Olavo. "Chronica". Apud. MENDONÇA, Alberto de. História do sport nautico no Brazil. Rio de Janeiro, Federação Brasileira das Sociedades do Remo, 1909. p. 397

4 A Canoagem, 4 de julho de 1903, ano 1, n. 1, p. 1

5 BILAC, Olavo. "Chronica". In: Gazeta de Notícias, 24 de fevereiro de 1907, p. 3

6 AGCRJ, códice 42-3-32 (diversões públicas). p. 1

7 HOBSBAWN, Eric e RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984

8 Informação disponível em http://www.flamengo.soccerage.com. Acesso realizado em 5/05/03

9 Informação disponível em http://www.crvascodagama.com/história. Acesso realizado em 5/05/03

10 Clube de Regatas Guanabara. Um século azul. 1899/1999. Rio de Janeiro, Clube de Regatas Guanabara, 1999. p. 2-3






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