Esporte para Todos Ditadura e propaganda esportiva no Brasil (1977-1985)



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Esporte para Todos

Ditadura e propaganda esportiva no Brasil (1977-1985)

Nailze Pereira de Azevedo Pazin

Universidade Federal de Santa Catarina
Nos anos de 1970 e 1980 as práticas esportivas ganhavam outra profundidade, os exercícios outros objetivos. Os velhos modelos de investimento “muscular” no início do século XX são transpostos para modelos de “auto-realização integral” e “autocontrole”. O manual técnico da campanha Esporte para Todos (EPT) realizada no Brasil entre 1977- 1985 assinalavam, “cada atividade que você participa, ocorre um enriquecimento seu e dos outros, você ganha mais experiência, desenvolve a sua sensibilidade, fica cada vez mais gente EPT”. A propaganda da campanha EPT empregou também, como meio principal a produção de revistas: Comunidade Esportiva, Esporte e Educação e o uso de quantidade considerável de imagens fotográficas de atos, do instante, da cena esportiva. Qual a natureza desses registros? Como fica a narrativa dos acontecimentos elaborada pela linguagem fotográfica nos manuais técnicos do Esporte para Todos?

Nesse sentido, o objetivo é discutir, nesta fase da pesquisa de doutorado em andamento no curso de pós-graduação em História na Universidade Federal de Santa Catarina, o EPT, como um esforço, conjugado por uma miríade de interesses específicos do período – governo militar, maquinaria e industrialização, emulação das classes trabalhadoras, um meio de desencadear a prática do esporte de modo massivo, o que implica ao mesmo tempo a tentativa de produzir um novo “homem”, “alegre”, “competitivo”, “grupal”, e do uso útil do tempo livre. Daí o sentido novo de uma extrema diversificação dos gestos a multiplicar os modos de ação, os tempos, os lugares, os estilos, os efeitos; do trabalho em equipe, da satisfação por resultados, da superação de força, do otimismo.

No período em que se estende o pós-guerra, vivia-se no Brasil a sensação de que faltava pouco para o país se tornar finalmente uma nação moderna. Entre 1945 e 1964 acelerou-se o processo de industrialização com a instalação de setores tecnologicamente mais avançados e, exigindo investimentos de grande porte, fizeram com que a produção industrial passasse a ter um novo ritmo, imposto não apenas à cidade, mas, sobretudo, aos indivíduos. A aceleração produziu novos movimentos, novos olhares, e as pessoas fizeram do olhar seu principal sentido e da gestualidade sua mais importante expressão sensorial, como destaca Alexandre Vaz, em diálogo com Walter Benjamin.


Ainda segundo Vaz, os avanços da técnica permitem que gestos muito simples disparem processos complexos, como acender um fósforo, tirar um telefone do gancho, clicar uma máquina fotográfica. A experiência moderna reconhece no movimento corporal um de seus temas privilegiados. O choque que o ritmo da cidade determina permite gestar uma “nova pedagogia”, onde corpo, movimento e sentidos são treinados. Nessa pedagogia os sentidos já não reconhecem, mas respondem, assim como os movimentos do corpo, e devem antes de tudo defender-se. Afinal, o choque dos velhos “hábitos” com as “novas” experiências e circunstâncias exigia também novas estratégias criativas, soluções híbridas que mudassem a realidade social, engendrando novos hábitos.

O esporte, por seu caráter prescritivo, identificado como um espaço promissor para a educação dos sentidos e da vontade, ligado à superação de si, à regulação das condutas, à competição regrada, à disciplina e à autodisciplina do corpo e da subjetividade trabalhou muito bem com tais mudanças relacionadas ao progresso, ora mobilizando e/ou canalizando energias, ora despertando afetos, valores, sentidos e sensibilidades. Na euforia pelo moderno, o esporte, no contexto da modernização do Brasil, encontrou nas décadas de 1920 e 1930 as bases e os sentidos para se desenvolver. A adesão ao esporte era interpretada como uma “nova” referência de civilidade. E essa idéia de uma civilização esportiva trazia embutidas novas formas de ver e ser visto, de agir, de lidar com o corpo e o tempo, desenhando uma ética orientada pelo ativismo, estimulação, excitação – afinal, não devemos sucumbir ao desejo de ficar parados.

Para Jon Beasley-Murray, tais processos de subjetivação encontram-se tanto em grande escala como em escala molecular, microfísica. Em Poshegemonía: teoria política y América Latina, o autor nos convida a pensar nos aparatos de captura que confinam o afeto e as emoções e nas linhas de fuga que os atravessam e ao longo das quais o afeto foge. O autor define afeto como uma “intensidade impessoal, em contraste com a emoção, que chama de intensidade qualificada”, isto é, a fixação sociológica da qualidade de uma experiência definida como pessoal. Propõe o estudo do afeto como forma desterritorializada, uma energia flutuante e impessoal que circula através do social sem submeter-se a normas nem reconhecer fronteiras.

Segundo Mabel Moraña, o impulso afetivo – nas suas mais diversas manifestações, paixões, emoções e sentimentos – modela a relação de uma comunidade com seu passado, as formas de leitura de seu presente e a projeção para um futuro possível, desejado e imaginado em concordância ou não com os projetos dominantes. No Brasil, a dimensão afetiva do esporte na campanha EPT realizada nos anos de 1977 e 1979 representou uma estratégia política, que avançava muito fluidamente (entre o afetar e ser afetado), principalmente quanto à circulação de percepções, saberes e sentimentos no espaço compartilhado. A propaganda epetistai, através de suas cartilhas, boletins, revistas, programas de rádio e TV, material didático distribuído gratuitamente nas escolas, encarregava-se de produzir desejos e reforçar imagens como "gente EPT é mais feliz", "gente EPT participa", "gente EPT faz sua comunidade feliz”, “o esporte como atividade física é parte da visão otimista do mundo.” ii

É importante lembrar que o aumento das práticas esportivas na década de 1970 estava acontecendo em vários países do mundo. O esporte tornava-se um dos mais importantes espetáculos do século XX, por sua efervescência e por sua aparente demonstração do progresso. Nesse sentido, é importante compreender como no esporte, a construção e reafirmação de imagens às quais são agregados valores virtuosos e salutares que, ora mais, ora menos, movimentam os pensamentos, sonhos, desejos, afetos e fantasias dos sujeitos são capturadas por debaixo dos discursos e representações. Minha hipótese é que no contexto da ditadura militar brasileira, as políticas públicas esportivas, ao fazer referência à falta de “aptidão física do povo brasileiro”, expandiram amplamente o significado de “aptidão física”, designando com o termo não apenas a aquisição de uma “boa forma e capacidade orgânica”, mas, antes de tudo, a adesão a um novo modo de ser e de se comportar, a construção de um novo ethos da felicidade e do otimismo, via práticas esportivas.

Desde as primeiras décadas do século XX, a “falta” de vigor e “energia” dos brasileiros se destacavam nos discursos dos defensores da Educação Física como o cerne da problemática nacional. Nessa trama o “olhar” dirigia-se ao corpo fazendo emergir o fenômeno que se aproxima daquilo que Michel Foucault chamou de biopolítica. A Educação Física como saber-poder foi utilizada na reformulação de práticas cotidianas que assegurassem um indivíduo disciplinado, moralizado, livre de “taras” e “vícios”. Faltava ao povo brasileiro, segundo os teóricos eugenistas, no início do século XX, vigor e pujança e, nesses termos, se os corpos fossem “energizados” poderiam render mais no trabalho, transmitindo ainda para gerações sucessivas o “seu vigor físico”, a “pureza de seu sangue” e “seu vigor psicológico”.

Esse discurso procurava se firmar na ciência como uma arte que recriava práticas sociais através de uma política que saneasse o povo brasileiro sobre o tripé: saúde, força e beleza.iii Os investimentos no corpo eram cada vez mais intensos, a ação do Estado se fazia presente, através de práticas culturais que priorizavam a educação no corpo. De maneira auspiciosa, o esporte participou desse projeto cultural, pois se apostava em sua eficiência educacional como recurso de organização e disciplinarização da vida social. Afinal, segundo Georges Vigarello, o esporte permite sonhar com uma perfeição social, sem levar em conta as cumplicidades obscuras, os desvios financeiros, abandonos sanitários, violências abertas ou mascaradas.

Porém, a prática desportiva, destinada principalmente a combater o ócio e os hábitos mundanos da juventude, nas primeiras décadas do século XX no Brasil, adquiriu especial relevo nos anos que se seguiram à ditadura militar de 1964. Segundo a Federação Internacional de Educação Física (FIEP), fundada em 1923, a mais antiga organização internacional de Educação Física, seu objetivo agora era “o de contribuir, no plano mundial, para ação educativa por meio das atividades físicas [...] entre tais atividades o desporto deve ter um importante lugar.” (Grifo meu). iv Os membros da FIEP eram especialistas em diversas áreas do conhecimento “ciências anatômicas, fisiológicas, psicológicas, sociológicas e pedagógicas e educadores físicos ou responsáveis político-sociais.” v Os repertórios herdados começam a ser reordenados sob a presença dominante da ciência e das diversas áreas que a compunham, fazendo emergir também a ciência dos esportes.

Por tudo isso é importante problematizar a campanha Esporte para Todos (EPT) dentro de sua dinâmica de transformações, levando em conta as múltiplas atividades culturais/educacionais que as forças de oposição ao regime militar brasileiro desenvolviam. De acordo com Carlos Fico, é na rotina dos atos de poder que reside a força da tradição do otimismovi à qual a propaganda governista se vincula, é importante pensar a percepção do poder como um processo que não se realiza em via única; será preciso compreendê-lo – em toda sua complexidade – como um fenômeno dos mais importantes para o entendimento de atitudes e representações mentais de uma dada época. Convém, portanto, investigar e entender a forma pela qual o poder pretende aparecer e a maneira pela qual é percebido.vii

Segundo o professor de literaturas e culturas da América Latina, Abril Trigo, o universo afetivo tem desempenhado um papel primordial na configuração da subjetividade, pois constitui o lado escuro das identidades e dos imaginários sociais. É no prazer que produz a identificação com o simbólico (ideologia, imaginário, Estado ou religião) que o indivíduo interpelado se realiza como sujeito. O privilégio dado às emoções na campanha EPT pode ser visto como um repertório de modelos de comportamentos sugeridos, com maior ou menor sutileza, como os comportamentos adequados, aos quais corresponderiam atitudes apropriadas para se viver em sociedade.
Você participa porque está motivado, estando motivado a participar você acaba incentivando e despertando nos outros suas próprias motivações e, assim, todos irmanados, unidos, participam e buscam o bem-estar no Esporte para Todos (EPT).viii
Assim, como problematizar o EPT sem levar em consideração o elemento emocional em sua campanha esportiva? Desempenho que vincula corpo, trabalho, esporte e sentimentos? Para Jon Beasley-Murray, o afeto indica a capacidade de um corpo (individual ou coletivo) afetar ou ser afetado por outros corpos. Ele sublinha que o estudo do afeto torna-se uma via de acesso para o real, o simbólico e o imaginário, uma latência, que depende das formas de dominação, e dos processos de subjetivação que elas geram, a partir das quais o poder mesmo é configurado e reconfigurado em constantes devires.

De acordo com Norbert Elias, esporte é mais do que uma modalidade de uso do corpo. Nomear certas práticas como esportivas pressupõe reconhecer nelas um vínculo com o ideário moderno, civilizado, disciplinado, codificado, espetacularizado. As atividades esportivo-recreativas nas sociedades modernas movimentam, liberam e controlam o fluxo dos sentimentos e emoções, tratando de mantê-lo na forma equilibrada, daí todo o sentido especial e fundamental do esporte na sociedade atual.

O debate sobre o esporte na década de 1970 acontecia como um exercício de demarcação de identidades compartilhadas e politicamente posicionadas por intelectuais de diversas áreas do conhecimento. Suas ideias circulavam em jornais, revistas, livros e conferências. Merece destaque o artigo intitulado Esporte e desenvolvimento, de Arlindo Lopes Corrêa, engenheiro-economicista e secretário executivo do Centro Nacional de Recursos Humanos (CNRH), publicado na Revista Brasileira de Educação Física e Desportiva em 1971:
O esporte, manifestação estética vigorosa, pela sua expressividade objetiva, é um componente indispensável da cultura de um povo e como tal deve ser encarado, atribuindo-se-lhe a importância de um setor de desenvolvimento prioritário para o atingimento de níveis mais elevados de bem-estar e felicidade da sociedade. ix
Portanto, não se tratava apenas de utilizar o esporte para dominar o corpo, mas de agir diretamente nele, não para cerceá-lo, mas para agilizá-lo e discipliná-lo, para melhor dispor dele, no lazer e no trabalho. Mas, que tipo de energia, sentimentos, emoções se pretendia mobilizar para torná-lo mais eficiente? Como “capturar” seus afetos para melhor dispor, energizando o caráter de cada brasileiro, seu temperamento e sua índole?

Foi no governo Geisel, quando já se divisava o fim do milagre econômico, que se retomou a noção de "crise moral" e de certo "pessimismo" que pairava no país: era preciso "dedicação ao trabalho", "amor à pátria", "dignificação do homem brasileiro", para transmitir a "verdadeira imagem do Brasil”. As campanhas esportivas incitavam a busca por um corpo são e equilibrado, mas, sobretudo “alegre”, um ideal a ser conquistado por meio do lazer e da compra de inúmeros produtos industrializados.

A campanha EPT passa a ser um suporte que atrai mensagens, um meio de focalização tão mais poderoso quanto mais difundido. Talvez venha daí sua permeabilidade acentuada para o político, mesmo que a princípio certo “apolitismo” esportivo na campanha tenha resistido. A política de comunicação do EPT apresentava como eixo condutor o respeito à ordem moral e espiritual. Suas campanhas eram elaboradas visando o fortalecimento do "caráter nacional", pressupondo como valores brasileiros positivos o "civismo", a "coesão familiar", a "valorização da natureza", o "serviço voluntário à comunidade" e o “combate ao pessimismo”,x entre outros.

Mas, para a Assessoria de Relações Públicas (ARP), criada em 1974, crise moral e pessimismo se curavam com ampla ação mobilizadora, e para isso, era necessário dar visibilidade a um projeto esportivo que passasse a ser como nunca o de uma nação que apresentasse vigor e saúde. Nessa perspectiva, a penetração do esporte no tecido social avivava essas imagens patrióticas. Seu esbanjamento, seu ludismo reinventado, eram o fermento principal dos “fervores” coletivos e ainda o são. Mabel Moraña sugere que o estudo dos níveis emocionais no esporte, comumente associados ao ideológico, também podem ser nomeados como um impulso, que, assim como a sexualidade estudada por Freud e Foucault, permite problematizar as formas de conhecimento e as condutas sociais bem como os processos de assentamentos (inter) subjetivos.

Por exemplo, certas cenas nos parecem muito naturais hoje, quando vemos peças publicitárias sobre as Olimpíadas de 2016 que ocorrerão no Rio de Janeiro exaltando nossas conquistas esportivas, resumindo em 30 segundos o futebol, o carnaval, a alegria, a mulata, o samba, a baiana do acarajé, a sensualidade, as praias, o índio, a cidade cosmopolita e/ou a cidade pequena e pacata. Imagens cindidas, valores “espirituais” do espaço rural com aparições tecnológicas da civilização que transpõe o segundo milênio. Tudo é Brasil? Nada disso se deu naturalmente. São leituras do país que se configuram como definidoras de "brasilidade" e de certos "valores brasileiros".

Em 1976, o presidente Ernesto Geisel, sobre a imagem do Brasil e dos brasileiros no exterior, em seus discursos reiterava "este povo generoso e ordeiro",xi em contraposição ao restante do mundo, onde existiria uma "crise de confiança na estabilidade do futuro, fomentando a inquietação social e surtos de violência irracional e destruidora".xii Mas, o país se constituía num "oásis de tranquilidade e de ordem, de estabilidade política e de generosas e multiformes oportunidades de investimento”.xiii Sabemos que essas leituras do Brasil e do brasileiro não se constituíram com os militares, foram por eles (re)significados, pois estavam presentes num vasto material histórico.xiv

Nesse sentido, a campanha Esporte para Todos (EPT) não serviu apenas a propósitos ideológicos. O "material histórico" produzido pelos epetistas em seu conjunto de convicções faz uma leitura do Brasil apoiada em suas grandes potencialidades e na consequente visão do brasileiro como um “povo alegre, esperançoso, generoso, ordeiro, patriótico e crente no futuro”. Mas, além dessa identificação com a nação, além da exploração claramente política, é necessário entender também o espetáculo esportivo produzido pelo EPT, objeto de festa, jubilosa celebração esportiva, mistura de distensão, de efervescência e de mercado. Desse modo, tentou-se ocultar, afastar ou recontextualizar aqueles traços que, entendidos como próprios ao povo e ao país, eram interpretados como negativos: sensualidade permissiva, falta de civismo, preguiça, indolência, enfim, características do "caráter nacional" que precisavam ser combatidas.

Nas décadas de 1970-1980 o modelo de corpo “atlético” se reforçava e se diversificava ganhando novos horizontes. Além da certeza pedagógica, a massificação das práticas esportivas chegava ao seu auge, multiplicando não apenas as práticas, mas, sobretudo os praticantes. Sobre essa questão, o professor Manoel Gomes Tubino, em seu texto intitulado “A importância de Kenneth Cooper na melhoria da aptidão física do homem brasileiro”, diz:


Quando vemos a nação brasileira num nível de aptidão física melhor e percebemos que na cultura brasileira o hábito da atividade física está inserido no contexto nacional, e ao mesmo tempo tivemos a honra de testemunhar a evolução dessa extraordinária transformação do homem brasileiro, não podemos deixar de homenagear esse norte-americano simples, cientista e amigo, por constituir-se sem menor dúvida, como um renovador cultural e principal contribuidor da melhoria da aptidão física do homem brasileiroxv
No entanto, esses projetos de massificação esportiva não foram implantados no ambiente de possibilidades democráticas, muito embora tais projetos reivindicassem uma verdadeira “revolução” democrática através do esporte. O Brasil assim como boa parte dos países da América do Sul viveram nesse período regimes políticos que foram conhecidos como ditaduras militares, apoiadas pelo governo dos Estados Unidos em sua política de Guerra Fria. A campanha Esporte para Todos, em 1977, assumia caráter festivo e democrático, em contraposição à atmosfera carregada das manifestações da sociedade civil em favor da ampliação da abertura anunciada pelo presidente Geisel dois anos antes.

O estudo sobre história dos esportes se constitui num campo marcadamente interdisciplinar, e se mostra bastante promissor na medida em que as investigações não têm se limitado às questões formuladas por metodologias tradicionais. Novos temas foram e vão sendo sugeridos à medida que se aproximam dos estudos culturais. Para Jon Beasley-Murray, é preciso cartografar a história em função do fluxo de afeto que atravessa (e resiste) na sua ordenação linear. Um ponto de partida seria notar como o afeto marca e produz a história e como as mudanças históricas se registram diretamente sobre o corpo.

Dessa forma, entendo que, se o movimento EPT foi importante no contexto de sua atuação, ainda o é na atualidade, porque permite conhecer a produção de diferentes mulheres e homens, seus discursos e suas práticas corporais, forjando e criticando novas formas de cuidar de si. Afinal, "articular historicamente o passado não significa conhecê-lo como ele de fato foi. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo.” xvi O tempo não se revela de uma só vez, portanto. O passado é uma referência de realidade, sem a qual o presente é pura irreflexão.

Pretendo com este texto contribuir para a reflexão e o debate no âmbito da História Cultural, levando em conta as motivações menos evidentes na implantação de políticas públicas (em seus conteúdos e métodos) e a produção de diversas pedagogias que tomam por base preceitos científicos da Educação Física para legitimar projetos de intervenção corporal.




i Como se autodenominavam os que estavam envolvidos com a campanha Esporte para Todos.

ii COSTA, Lamartine Pereira da; TAKAHASHI, George (Org.). Fundamentos do Esporte para Todos 1983. Rio de Janeiro: Secretaria de Educação Física e Desporto do MEC, 1983. 98 p. (Acervo CEFID/UDESC). Livro Técnico destinado à distribuição gratuita aos alunos do ensino superior de Educação Física e outros profissionais interessados no movimento Esporte para Todos.

iii Para saber mais, ver FLORES, Maria Bernardete R. Tecnologia e estética do racismo: ciência e arte na política da beleza. Chapecó: Argos, 2007.

iv MANIFESTO Mundial de Educação Física da Federação Internacional de Educação Física. Tradução Gen. Jayr Jordão Ramos. Revista Brasileira de Educação Física e Desportiva, ano 4, n. 10, p. 9-17, 1971.

v Ibidem.

vi Para Carlos Fico, os tópicos do "otimismo" brasileiro como a exuberância natural, a democracia racial, o congraçamento social, a harmônica integração nacional, a alegria, a cordialidade e a festividade do povo brasileiro, entre outros, foram ressignificados pela propaganda militar em vista da nova configuração socioeconômica que se pretendia inaugurar, assim, como a própria ideia-força do pessimismo. Cf. FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.

vii Ibidem.

viii S/autor. Fundamentos do Esporte para Todos 1983. MEC, p.6.

ix CORRÊA, Arlindo Lopes. Esporte e desenvolvimento. Revista Brasileira de Educação Física e Desportiva, ano 3, n. 9, p. 7, 1970.

x BRASIL. Esporte para Todos. Princípios Básicos. Rede Nacional de Esporte para Todos. Central de difusão. MEC. 1983.

xi GEISEL apud FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.

xii Ibidem.

xiii Ibidem, p. 321.

xiv Para Renato Ortiz, a constituição de certa imagem sobre o Brasil foi um movimento intelectual importante para as gerações do século XIX e início do século XX. Pode-se compreender bem o significado desse período quando se examina a atuação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, criado em 1838. Logo após a declaração da Independência em 1822, a elite ilustrada incorporava à sua retórica um discurso científico e a necessidade de organização de novas Instituições de saber que dessem conta de justificar o "projeto civilizatório brasileiro". O objetivo do IHGB era a reunião, a sistematização e a guarda de documentos para a composição de uma história nacional. Na busca de elementos fundantes da nação, a construção de uma identidade nacional e as problemáticas relacionadas à raça, à moral dos indivíduos, sobretudo dos negros e índios, e à vocação para o trabalho tomavam boa parte das interpretações sobre o Brasil na época.

xv TUBINO, Manoel Gomes. A importância de Kenneth Cooper na melhoria da aptidão física do homem brasileiro. In: COSTA, Lamartine Pereira da. Teoria e prática do Esporte para Todos: 1982-1983. Brasília: Secretaria de Educação Física e Desporto, MEC, 1983. p. 81.

16 BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. 6. ed. São Paulo: Brasiliense,p.224, 1985.

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