Esta exposição deseja ser um relato de três anos vividos no Haiti, como Leitora e Diretora do Centro Cultural Brasil-Haiti Celso Ortega Terra [ccbh]



Baixar 14.7 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho14.7 Kb.
Esta exposição deseja ser um relato de três anos vividos no Haiti, como Leitora e Diretora do Centro Cultural Brasil-Haiti Celso Ortega Terra [CCBH]. Minha ida ao Haiti resultou de estudos realizados sobre a literatura haitiana na Universidade Federal Fluminense. Meu interesse pelo Haiti começou quando, em 1999, me preparava para ingressar no doutorado com um projeto sobre a obra literária Amour, colère et Folie da escritora haitiana Marie Vieux-Chauvet, sob orientação da Profa. Dra. Eurídice Figueiredo. Mas, já no mestrado nos anos 90, ao ingressar nos Estudos Francófonos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fui iniciada na cultura e literatura das Antilhas e do Caribe. Neste período tive os primeiros contatos com escritores como Aimé Césaire, Edouard Glissant, Jacques Roumain, Jacques Stephen Alexis, René Depestre. Estes, e posteriormente Marie Vieux-Chauvet, são escritores que abriram às portas ao imaginário da cultura e da literatura haitianas.

Durante os três anos vividos no Haiti, - pequeno país do Caribe, ilha em uma ilha, originado pelas revoltas contra a escravidão e pela Revolução que, em 1804, pôs fim à escravidão na Colônia francesa de Saint-Domingue, e criou uma República negra nas Américas, - pude aprofundar meu conhecimento da cultura e da literatura do país. Como Leitora, atuei junto a estudantes da Universidade de Estado do Haiti [UEH), ensinando a língua e a cultura brasileiras; como Diretora do CCBH, realizando mostra de filmes brasileiros, ciclo de palestras e exposições de arte durante as quais tive contato com professores, de várias áreas do conhecimento, e artistas haitianos - pintores, escultores e músicos. Pude também viajar pelo país, realizando atividades não somente em Porto Príncipe, mas também em outras cidades do país como Abricots, Gonaïves, Cap Haïtien, e conhecer várias manifestações culturais do país, como os carnavais de Jacmel et de Petit Goâve; o Rara [festa popular]; o vilarejo de Noailles, onde se encontram os artesões da arte em metal, o complexo arquitetônico da Cidadela Laferrière, do Palácio Sans Souci e da Catedral de Milot, construído sob a Monarquia do Rei Henri Christophe na primeira metade do século XIX; as feiras de artesanato e de literatura que acontecem todos os anos em Porto Príncipe, festivais de dança e rituais do Vodu.

Este relato áudio-visual, que procura abarcar todos os sentidos, é parcial, como o é todo relato de uma experiência vivida em um país e cultura estrangeira. Os objetos, as telas, as fotografias, os desenhos, os textos, os vídeos e sons expostos nesta exposição perfazem uma narrativa cuja intenção é a de mostrar uma visão do Haiti não veiculada pela mídia, ávida de imagens sensacionalistas e catastróficas, freqüentemente redutoras e produtoras de uma visão distorcida e preconceituosa da realidade. Concluo esta singela introdução à exposição com palavras de um grande escritor haitiano Frankétienne:

Por que esta pintura, por que esta riqueza da criação plástica, artesanal, musical, literária em um país de analfabetismo? Por que uma literatura vigorosa em um país sem estruturas básicas? Este é o milagre. O milagre é o da criação popular, da música, da dança, da pintura. Há uma explicação. Os numerosos traumas que nos marcaram. [...] Os traumas continuam. As desgraças acumulam-se. Nenhuma porta, nenhuma janela. [...] Estamos em presença de um povo traumatizado em sua história e em seu cotidiano. O que lhe restou? Restaram-lhe as grandes portas do imaginário. As grandes portas do imaginário, que no interior do vodu, abriria o mundo ao maravilhoso. São estas portas do imaginário que nos permitiram fazer todas as viagens. O traumatismo de 1804 foi uma das fontes da criatividade haitiana que vemos, freqüentemente, de fora e de dentro, como um milagre.

Exposição Haiti: Arte e Resistência

Esta exposição sobre o Haiti traz o tema Arte e Resistência. Dois conceitos e duas realidades vastos e complexos, com uma longa história que é a da humanidade ao longo de sua História. Nossa exposição aborda o tema na perspectiva do Haiti, pequeno país do Caribe, comumente conhecido por sua trágica miséria. Em 12 de janeiro de 2010, a destruição causada por um terremoto que atingiu, sobretudo, a capital de Porto Príncipe, trouxe o Haiti à cena mediática. O mundo comoveu-se com imagens terríveis de morte e desespero. Fotos, vídeos, documentários circulavam mostrando o horror. Eu vi o horror. Como muitos viram o horror. Como muitos o vêem cotidianamente. Mas, esta espécie de narrativa de minha experiência no Haiti, de outubro de 2008 a agosto de 2011, quer mostrar outras imagens, quer contar outra história. Nesta também tem fome, tem desespero, tem tristeza, tem morte; mas nela também têm criação e criatividade, têm luta e resistência a tudo o que nega a vida. A História do Haiti é de luta e resistência contra o encarceramento do homem nas “prisões” da miséria da escravidão do colonialismo e do racismo. O Haiti testemunha a capacidade do homem de resistir à desumanização através da criação do espírito. Parafraseando o escritor Frankétienne, diante do fechamento de todas as portas, restaram ao haitiano as portas abertas do imaginário místico e mítico do vodu e da criação artística. Nos anos 40, Aimé Césaire, Alejo Carpentier, Wilfred Lam, André Breton, figuras ilustres que visitam o país, movidos então pela art nègre e pelo “primitivismo”, ficam impressionados com o imaginário descortinado pela História e pela arte popular haitiana. Mais tarde, é a vez de André Malraux atraído pelo movimento Saint-Soleil, criado por Tiga. Poderíamos dizer que o Haiti foi, nos anos 40, um dos centros de radiação da arte produzida na época e de novos conceitos, como o de Realismo Maravilhoso, cuja conceituação surge da visita do escritor cubano Alejo Carpentier ao país.

Não podemos falar de arte e resistência no Haiti, sem entrarmos um pouco na História do Haiti, surgido das cinzas das revoltas dos escravos e da Revolução de Saint-Domingue (1793-1804). Trata-se de um povo negro que forjou sua emancipação da escravidão e do colonialismo quando vigorava, em pleno vapor, o sistema colonial escravagista. Ao se declarar primeira República Negra nas Américas em 1804, Haiti vê-se confrontado com o isolamento, o estigma, a negação de sua existência e à hipoteca de seu desenvolvimento e de sua soberania. Ameaçado constantemente em seu corpo e em sua identidade (em sua língua e em sua religião), o povo haitiano forjou uma cultura de resistência. Alias, poderíamos dizer que a cultura do negro no mundo moderno, é uma cultura de resistência. O percurso da África às Américas e da escravidão à modernidade, é de resistências e de lutas contra a morte, a desumanização, à alienação. O grande poeta da Negritude, Aimé Césaire, nascido na Martinica de avós escravos, definiu, em uma entrevista, a cultura como tout ce que l’homme a inventé pour rendre le monde vivable et la mort affrontable [tudo o que o homem inventou para tornar o mundo vivível e a morte afrontável”. Profundamente engajado com a condição e a situação do negro e consciente da profunda alienação produzida pela escravidão e pelo colonialismo, Césaire via a arte, mais especificamente a poesia, como uma “arma milagrosa” de liberação e emancipação. Ao aliar a razão e a imaginação, o consciente e o inconsciente, a arte seria um instrumento de ressubjetivação, de recriação de uma identidade roubada e alienada. A criação artística no Haiti está em toda parte e pertence a todas as classes sociais. Nesta exposição apresentamos uma perspectiva desta criação em suas diversas expressões: pintura, escultura, em pedra e em metal, e música. Os vídeos-documentários presentes abordam a arte de alguns pintores renomados como André Pierre, Tiga, Préfète Duffaut, Cédor, Lazard e Marithou. Um deles é consagrado à escultura em metal, arte tipicamente haitiana. Todos eles realizados pelo cineasta Arnold Antonin que tem se dedicado a preservar e divulgar a memória cultural e artística do país. Um traço é recorrente nestas obras: a referência ao imaginário vodu.

Texto Margarida Rache (Curadora)

A mostra que aqui apresentamos reúne um conjunto de objetos de arte de diferentes linguagens - pintura, escultura, vídeo, música, - permitindo conhecer aspectos da vida cultural e social do povo haitiano, expressa em temáticas que estão, pode-se dizer, no cerne de sua formação: a África, a Negritude, o Vuduísmo, a resistência e a luta contra a escravidão e o colonialismo. O registro fotográfico traça um roteiro, revelando lugares paradisíacos de um país banhado pelo mar do Caribe. Uma arquitetura que apresenta vestígios de um passado colonial próspero e descreve a existência de um cotidiano simples, precário e ao mesmo tempo de grande intensidade em suas manifestações populares.



O tempo dedicado a criar e organizar esta exposição, ouvindo histórias e relatos, vendo filmes e livros, selecionando fotos aos sons dos troubadours, colocou-me muito próxima do povo haitiano e de sua cultura. Primeiro país a abolir a escravidão moderna, sofrendo até hoje as conseqüências deste gesto: o isolamento, o estigma de um povo bárbaro e selvagem, ditaduras e catástrofes naturais, mas que ainda teima em resistir contra o preconceito contra a sua língua, sua religião, sua origem africana.


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal