Estado da arte da formaçÃo inicial de professores interdisciplinares no banco de teses e dissertaçÕes da capes cristiane da Cunha Alves1, Rafaele Rodrigues de Araújo2



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ESTADO DA ARTE DA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES INTERDISCIPLINARES NO BANCO DE TESES E DISSERTAÇÕES DA CAPES
Cristiane da Cunha Alves1, Rafaele Rodrigues de Araújo2

1 Universidade Federal do Pampa/Campus Dom Pedrito/Licenciatura em Ciências da Natureza/crisalves1917@hotmail.com

2 Universidade Federal do Rio Grande – FURG/Instituto de Matemática, Estatística e Física/Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências/ rafaelearaujo@furg.br

RESUMO: No presente trabalho apresentamos como objetivo realizar um estado da arte sobre as discussões em torno da formação inicial de professores interdisciplinares. Nesse sentido, a investigação ocorreu no Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a partir das pesquisas que continham a palavra interdisciplinaridade. Após uma leitura crítica de todos os resumos dos trabalhos que emergiram, chegamos a doze pesquisas que trabalharam de alguma forma com a temática interdisciplinaridade na formação inicial de professores. Os trabalhos foram divididos em três categorias: Concepções, Políticas Educacionais e Propostas Didáticas. Esses demonstraram que a investigação não ocorre em relação a formação inicial de professores, durante todo o período de graduação e de como esses estão se constituindo interdisciplinares. No entanto, temos a perspectiva que com surgimento das Licenciaturas Interdisciplinares poderá emergir outras pesquisas voltadas para essa formação.

Palavras Chaves: Formação inicial de professores, Interdisciplinaridade, Estado da arte.

1 INTRODUÇÃO

As discussões sobre interdisciplinaridade estão a um longo tempo imersas nos meios de educação, e, ainda hoje percebemos uma continuidade nessas problematizações devido sua polissemia. No Brasil, de acordo com Fazenda (2012) o conceito emerge no final da década de 60, no entanto sua utilidade não tinha um significado real. Dessa forma, sua utilização se tornou um modismo por aqueles que tentavam refletir o novo, porém sem nenhuma compreensão. No início de 1970, procurava-se uma estrutura conceitual, pois a palavra era algo difícil de ser pronunciada e principalmente de ser compreendida, surgindo assim à necessidade de construir um novo método de ciência e de conhecimento.

Nos outros anos a problematização sobre o tema continuou na busca de um significado teórico para a palavra, a partir dos equívocos surgidos anteriormente. Em 1990, partiu-se para a construção de uma teoria, momento considerado como ápice das contradições para as pesquisas, pois os educadores percebem que não é mais possível ignorar o fato da existência dessa prática interdisciplinar, sendo ela uma nova proposta para a Educação (FAZENDA, 2012).

Essas mudanças continuam ocorrendo atualmente, ou seja, houve um retorno as problematizações anteriores, sendo que as práticas interdisciplinares estão sendo inseridas nos variados meios da Educação. Percebemos a inserção da interdisciplinaridade com a mudança do currículo do Ensino Médio, onde o ensino passa a ser por áreas do conhecimento, sendo elas: Ciências da Natureza e suas tecnologias, Ciências Humanas e suas tecnologias, Linguagem, código e suas tecnologias e Matemática e suas tecnologias.

A partir disso, o currículo escolar deveria contextualizar o conhecimento e relacionar com as outras áreas do saber, ou seja, ser interdisciplinar. Dessa maneira, esse passaria a relacionar a realidade do aluno com o meio onde vive, para uma melhor compreensão das áreas. Toda essa mudança trouxe muitas discussões, críticas e debates, pois as escolas estão tentando se adaptar a essa proposta curricular, pois o tempo entre a teoria (Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio) e a prática na escola foi muito pequeno (BRASIL, 2012).

Além disso, para a efetivação de práticas interdisciplinares é necessário que o corpo docente entenda o significado e tenha disponibilidade e vontade para estar executando as mesmas. Como explicita Fazenda (2011, p. 14) “perceber-se interdisciplinar é o primeiro movimento em direção a um fazer interdisciplinar e um pensar interdisciplinar”.

Devido essas modificações, surgem então as licenciaturas interdisciplinares, onde o licenciando é formado para atuar em uma das áreas do conhecimento, ou seja, necessita articular as disciplinas, e, durante o curso tornar-se apto a fazer a conexão entre elas. Segundo Fazenda (2003) a interdisciplinaridade é uma exigência natural e interna das ciências e busca trazer uma melhor compreensão da realidade, mas que para isso aconteça é necessário um diálogo entre as áreas do saber. Nesse sentido, para conseguirmos obter um ensino sem a fragmentação do conhecimento, torna-se necessário o diálogo e o trabalho em conjunto constante entre ás áreas.

Dessa maneira, com intuito de compreender como está ocorrendo esse processo de formação inicial de professores interdisciplinares e o andamento das discussões sobre esse tema, realizamos uma pesquisa do tipo estado da arte no Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES para investigar as discussões a respeito desse assunto.




2 METODOLOGIA

A formação inicial de professores interdisciplinares ainda apresenta poucas discussões e pesquisas, pois a interdisciplinaridade como método de formação para cursos de licenciatura, por ser algo ainda novo, enfrenta resistência. Isso ocorre, muitas vezes, devido a formação disciplinar dos docentes que atuam nesses cursos, o sistema de funcionamento das Instituições de Ensino Superior, entre outros.

Nesse sentido, para conhecermos o que as produções acadêmicas brasileiras têm pesquisado sobre a formação inicial de professores interdisciplinares realizamos um estudo através do estado da arte dessas produções. A escolha por esse tipo de pesquisa ocorreu devido esses estudos apontarem para os “caminhos que vêm sendo tomados e aspectos que são abordados em detrimento de outros” (ROMANOWSKI e ENS, 2006, p.38 e 39).

Nosso levantamento de dados ocorreu através das produções disponibilizadas no Banco de Teses da CAPES¹ até o mês agosto de 2014. Ressaltamos que nossa investigação ocorreu somente no banco de dados da CAPES, visto que estamos iniciando a busca por essas produções, sendo esse o primeiro passo da pesquisa.

Dessa forma, inserimos inicialmente a palavra interdisciplinaridade, para identificar todos os trabalhos que continham a mesma. Obtivemos um total de 516 trabalhos, sendo que essas teses e dissertações que surgiram foram a partir do ano de 2011 até 2012.

Na próxima fase da pesquisa, realizamos a classificação das mesmas com assuntos relacionados a “Formação inicial de professores”, através da leitura atenta de cada um dos resumos encontrados. Como resultados, obtivemos os seguintes dados: 504 documentos não apresentam relação com o assunto de formação inicial de professores interdisciplinares e apenas 12 possuem ligação com o que foi pesquisado, como mostra a Tabela 1.



Desse modo, em posse dos doze resumos, que foram publicados fizemos uma nova leitura a fim de focar no assunto da pesquisa. Ressaltamos que ao realizar a classificação dos trabalhos restaram somente aqueles que discutem a formação interdisciplinar na graduação, ou seja, as licenciaturas que trabalham com a interdisciplinaridade como método de formação dos sujeitos.





Título

Autor

Ano

1

Interdisciplinaridade no contexto do curso de pedagogia: pertinência das concepções e ações didático-pedagógicas

Amaral, Emilia Karla de Araujo

2011

2

Ensino de ciências: perspectivas na prática interdisciplinar

Souza, Simone Correa

2011

3

Em busca do sentido da leitura: uma investigação interdisciplinar

Pires, Celia Silva Andrade

2012

4

O desenvolvimento da compreensão interdisciplinar discente em cursos de formação de professores: construção de significados e sentidos

Freire, Ludmila de Almeida

2011

5

Resolução de situações-problema interdisciplinares: um caminho na formação e prática do professor dos anos iniciais da educação básica

Carvalho,Valeria Goncalves de

2011

6

Políticas de formação de professores da área de ciências da natureza: uma análise do processo de criação e implementação da licenciatura em Biologia do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia de Rondônia

Souza, Aparecida Gasquez de

2011

7

O jornal o estudante uma proposta interdisciplinar aplicada na formação de professores de matemática

Vieira, Carlos Alberto

2012

8

Contribuições da perspectiva freireana de educação para a interdisciplinaridade na formação inicial de professores de ciências

Fiestel, Roseli Adriana Blumke

2012

9

Leituras sobre processo de implantação de uma licenciatura em ciências naturais e matemática por área do conhecimento

Barbosa, Edson Pereira

2012

10

A disciplina de fundamentos da educação especial no curso de pedagogia

Pazianotto, Juliana Tais Bragion

2012

11

A formação do pedagogo e a educação inclusiva: experiência de uma universidade pública federal

Bastos, Amanda Macitelli

2012

12

Práticas de leitura propostas por professores na formação inicial em diferentes licenciaturas: investigando relatórios de estágio supervisionado

Cruz, Alline Lais Schoen Diniz

2012


Tabela 1: 12 trabalhos selecionados
A partir dos doze trabalhos e da leitura realizada, classificamos por categorias, obtendo:


Código

Categorias

Trabalhos

1

Concepções

1, 2, 4, 8

2

Políticas educacionais

2 e 6

3

Propostas didáticas

3, 5, 7, 9, 10, 11 e 12

Tabela 2: Trabalhos por categoria
Desse modo, as três categorias em que os trabalhos se encontram são: Concepções, Políticas educacionais e Propostas didáticas. Visto que, um dos trabalhos se encaixou em mais de uma categoria, pois apresentava aspectos de ambas. Podemos perceber pela Tabela 2, que a maioria dos trabalhos discutem em seu texto uma proposta didática, ou seja, a tentativa de aplicação de alguma forma da interdisciplinaridade nos cursos de formação de professores.


3 RESULTADOS E ANÁLISE

Ao analisarmos as três categorias obtidas, podemos perceber que a discussão da interdisciplinaridade na formação de professores está relacionada com as concepções dos sujeitos, as políticas educacionais e propostas didáticas.

Na primeira categoria a busca das pesquisas é em torno do desenvolvimento da concepção interdisciplinar que vem sendo cada vez mais inserida nos cursos de formação inicial de professores, mediante a necessidade docente de suprir a mudança ocorrida. De acordo Berti (2007, p.33) essa organização “tem como base a reunião dos conhecimentos que compartilham objetos de estudo, facilitando a comunicação e criando condições para que possam se desenvolver trabalhos numa perspectiva interdisciplinar”.

No entanto, para ocorrer essa mudança é necessário um aprendizado contínuo, um trabalho em grupo, espaços para diálogos e discussões e, ainda, articulação entre as diferentes áreas, no sentido de buscar uma visão mais integrada e contextualizada para o ensino.

Da categoria “Concepções” duas das pesquisas analisaram Projetos Políticos Pedagógicos, do curso de Pedagogia e Química, através da investigação das concepções de interdisciplinaridade de professores e alunos. Como resultados emergiram pontos negativos e positivos como a falta de planejamento dos professores, a fragilidade de referencial teórico que interferem nas ações pedagógicas, e, até mesmo, produtos educacionais.

Esses trabalhos apresentam como intuito investigar espaços que deveriam ocorrer a aproximação da prática com a teoria, contribuindo assim para uma formação reflexiva e interdisciplinar dos estudantes. Nesse sentido, Favarão et al (2004, p. 109) explicitam que:


a necessidade da interdisciplinaridade impõe-se não só como forma de compreender e modificar o mundo, mas como uma exigência interna das ciências que buscam o restabelecimento da unidade perdida do saber. (2004, p. 19)
Dentro ainda dessa categoria, as duas pesquisas restantes, analisaram as compreensões de licenciandos dos cursos investigados a fim de entender práticas realizadas e metodologias utilizadas.

A categoria “Políticas Educacionais”, refere-se a contribuição de políticas públicas educacionais para a promoção de práticas interdisciplinares. A pesquisa nº 2 aparece também dentro dessa categoria, pois além de trabalhar com as concepções sobre interdisciplinaridade, busca compreender as políticas educacionais a partir dos projetos políticos pedagógicos voltados para a formação de professores.

A dissertação nº 7 apresentou como finalidade analisar o processo de criação do curso de licenciatura em Biologia com intuito de perceber sinais de recontextualização da política nacional para formação de professores. A interdisciplinaridade nesse trabalho emerge como resultado dos sinais procurados, ou seja, a questão da concepção de interdisciplinaridade vinculada a projetos articuladores das disciplinas que compõem o currículo.

A última categoria, Propostas Didáticas, engloba várias pesquisas, com propostas que permeiam desde projetos, propostas de cursos, implementações de práticas, entre outros.

Os trabalhos 5 e 12 trazem como objetivos refletir e analisar práticas interdisciplinares, como estratégia de aplicação. Apesar de relacionarem a interdisciplinaridade, um dos trabalhos trouxe o conceito somente em seus resultados como uma forma de motivação, consequência da prática realizada na pesquisa.

As pesquisas 3 e 8 investigam propostas interdisciplinares, como um projeto de leitura na formação do professor baseado em cinco princípios interdisciplinares, e, um projeto de jornal que apresenta um formato contextualizado e interdisciplinar para formação de docentes em Matemática.

Os outros trabalhos referem-se a compreensões de propostas interdisciplinares em disciplinas em cursos superiores e análise de formação de professores a partir de um curso que parte de princípios interdisciplinares. Uma das pesquisas dessa categoria chamou nossa atenção, visto que a partir da busca de compreensão de um curso por área do conhecimento, ocorreu a análise da viabilidade da implementação do mesmo, ou seja, a possível formação inicial de professores interdisciplinares.


4 CONCLUSÕES

Ao realizarmos este trabalho nos dispomos a descobrir como está ocorrendo às discussões e pesquisas sobre interdisciplinaridade no Brasil, na formação inicial de professores, e, assim como a sua prática.

A partir dos doze trabalhos selecionados, notamos que apesar da classificação em categorias diferentes, alguns possuem características em comum. Essas especificidades podem ser na reflexão sobre a concepção de licenciandos, nas políticas públicas desenvolvidas ou nas propostas didáticas aplicadas. Nesse sentido, as três categorias visam inserir a interdisciplinaridade a fim de constituírem cursos de formação inicial voltados para a formação dos sujeitos. Segundo Fazenda (2013):
Nesse contexto, a interdisciplinaridade é compreendida como a busca de um “olhar epistemológico” que deseja atravessar e desacomodar os saberes bem estabelecidos, tendo em vista a articulação disciplinaridade-interdisciplinaridade no currículo, para dar fecundidade ás disciplinas escolares e significar seus conteúdos nessa relação teoria e prática.
Percebemos a necessidade de estudos mais profundos voltados a essa temática, pois as mudanças que estão ocorrendo no meio escolar requerem mais avanços dessas discussões, ou seja, que a interdisciplinaridade seja compreendida na sua concepção, teoria, e, assim desenvolvida nas práticas de sala de aula. Nota-se com a análise realizada das pesquisas que discutem o assunto da formação inicial de professores, que um dos pontos que necessitam ser problematizados é referente a falta de planejamento curricular visando a ampliação e as possibilidades de relações entre áreas do conhecimento.

Dessa forma podemos concluir que apesar dos trabalhos estarem relacionados à formação inicial e a interdisciplinaridade, nenhum trabalho pesquisou realmente sobre a formação inicial de professores interdisciplinares, ou seja, de como esses estão se constituindo interdisciplinares a partir da inserção e formação nos cursos. Porém, temos perspectiva que com surgimento das licenciaturas interdisciplinares serão inseridas e investigadas propostas que abordem essa temática, e devido a isso poderão emergir mais pesquisas voltadas para esse tipo de formação.




5 REFERÊNCIAS


BRASIL. RESOLUÇÃO CNE/CEB Nº 2, DE 30 DE JANEIRO 2012. Define Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Disponível em < http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=17417&Itemid=866>. Acesso em: 15 mar. 2015.

BERTI, P. V. Interdisciplinaridade: um conceito polissêmico. São Paulo: USP, 2007. 235 p. Dissertação. Instituto de Química, USP, São Paulo, 2007.

FAVARÃO, N. R. L., et al. EDUCERE - Revista da Educação, vol. 4, n.2, p. 103-115, 2004.

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: Qual é seu sentido? São Paulo: Paulusm 2003.

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Formação de docentes interdisciplinares. 1 ed. – Curitiba, PR: CRV, 2013.

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: História, pesquisa e pesquisa. 18ª ed. São Paulo: Papirus, 2012.

FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Práticas Interdisciplinares na escola. 12ª ed. São Paulo: Cortez, 2011.

ROMANOWSKI, Joana Paulin; ENS, Romilda Teodora. As pesquisas denominadas do tipo “estado da arte” em educação. Diálogo Educacional, v.6, n.19, p.37-50, 2006.



URI, 10-12 de junho de 2015 Santo Ângelo – RS – Brasil.



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