Estado de Minas Belo Horizonte



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Estado de Minas

Belo Horizonte

21 de março de 1998

Silviano Santiago


GERAÇÃO ANOS DOURADOS. COMPLEMENTO ERA O NOME DA REVISTA

Os grandes escritores mineiros do Modernismo nos legaram o mistério de um paradoxo que cumpre a nós, póstemos, cultivar para melhor entender a eles e entendermos melhor a nós mesmos. Êi-lo: As montanhas de Minas são tanto grades de prender quanto grades de libertar. São tanto um convite ao confinamento para que melhor se realize o trabalho da terra, quanto um impulso à transgressão que se canaliza pelas viagens por idéias e terras estrangeiras. Por isso, Minas, de todos os Estados da República, é o mais brasileiro, sendo o mais brasileiro dos Estados, é ainda onde o Brasil se vê mais universal.

Com os nossos modernistas aprendemos que Minas é lugar de soltar papagaios poéticos no alto do morro, é lugar de encontrar o princípio do movimento de dentro para fora e do céu para o chão; é lugar de descobrir no sertão mais profundo que o poder do pensamento é mais alto do que o poder local; é lugar onde se começa a trilhar uma rua de Itabira para depois continuar caminhando por ela quando, de repente, se espicha, se arredonda para abraçar outras terras e outros povos.

Peço emprestado mais uma frase a Guimarães Rosa para configurar a abrangência do lugar Minas: “O sertão é do tamanho do mundo”.

Volto aos dois triângulos eqüiláteros de que falei há pouco, o literário e o político, para agora selecionar o segundo deles. Estou me referindo ao triângulo vermelho que está desenhado no fundo branco na bandeira dos revolucionários de Vila Rica. Dele extraio o grito de liberdade que, sob a forma de lema e em latim virgiliano, cerca pelo exterior e em letras negras as linhas da figura geométrica qual um friso em templo grego: “Libertas quae sera tamen”. Por esse segundo triângulo falam o tempo futuro, que tem de se concretizar agora e o triângulo que ainda não é, mas que um dia será. Esse outro triângulo fala da História e das infatigáveis utopias mineiras.

Em Minas a liberdade humana não será dada de presente pelos deuses, é vitória a ser conquistada pelos próprios homens que, por vontade própria, abaixam o céu até o chão e abrem caminhos pelas idéias estranhas ao círculo da opressão. A liberdade não está no presente, a ela só se chega ao final de uma infindável corrida de revezamento. Por isso, a liberdade, para os mineiros, antes de se recobrir pelo fausto da celebração, sustenta alicerce cotidiano, sempre renovado, de onde salta o grito e vai tecendo a manhã.

Esse grito por um Brasil mais justo, a nossa geração, a Geração Complemento, o detectou no amanhecer dos versos do maranhense Ferreira Gullar. O novíssimo poeta foi aclimatado, no início dos anos 50, nestas terras do triângulo modernista pelo olhar crítico do poeta Jacques do Prado Brandão. Aqui estou para lhes narrar de maneira capenga um pouco dessa velha história. Das mãos de Jacques nos chegou a coletânea intitulada A Luta Corporal que o mineiro Lúcio Cardoso lhe tinha enviado do Rio de Janeiro. O livro circundou entre nós como o mais imediato sinal da modernidade no planeta Brasil. Por ele começamos a captar os sinais que nos enviavam então os movimentos experimentais do Rio e de São Paulo, conhecidos mais tarde pelos nomes de poesia concreta e neoconcreta.

Naquela época – 1955, se não me falha a memória – Ary Xavier, Ezequiel Neves, Heitor Martins, Teotônio dos Santos Júnior, tínhamos os cinco a ambição de fundar uma revista que pudesse exprimir literariamente a nossa razão de ser em tempos de Juscelino Kubitschek. A revista tinha colaboradores, mas não tinha um nome.

Os colaboradores eram legião: da pintura vinham Augusto Degois, Wilma Martins e o marido, Frederico Morais; do cinema, Fabrício Gomes Leite e Flávio Pinto Vieira; do teatro vinham o Carlos Kroeber, Carlão e o João Marschner; do balé vinham Klauss e Angel Vianna, Ricardo, Dedé e todas as maravilhosas moças lideradas por Sigrid, Nena e Duda; na literatura sobressaíram Teresinha Alves Pereira, Pierrô Santos, Affonso Romano e Ivan Ângelo; João Etienne Filho nos deu algumas cartas de Mário de Andrade e Chanina e Yara Tupinambá alguns desenhos. Sobravam colaboradores, faltava um nome para a revista.

Os cinco jovens fundadores da revista acabaram por encontra-lo no poema Galo, galo de A Luta Corporal, de Ferreira Gullar.

“Grito, fruto obscuro

e extremo dessa árvore: galo.

Mas que, fora dele, é mero complemento de auroras”.

Naqueles versos de Gullar havia o grito como um fruto obscuro e extremo que saía de dentro de uma árvore-ave, o galo, ou seja, qualquer um de nós caminhando pelas noites brancas e bisonhas da Afonso Pena. No poema, o galo, apesar de todo o seu porte marcial, apesar da sua alarmante crista medieval, está só, desamparado num saguão do Mundo. Na terra desolada do poema, na waste land de que também nos fala T. S. Eliot em tradução de outro mineiro, Paulo Mendes Campos, o galo elaborava um grito que, tão logo virava canto a ecoar pelos ares e a ferir a paisagem, passava a ser única e apenasmente um complemento de auroras.

Complemento foi o nome da revista.

Se a grande literatura era a meta dos mais próximos, o escurinho do cinema era a nossa redenção cotidiana. Depois da sessão das oito nos cinemas do centro da cidade, ou, aos sábados, depois de um clássico exibido e debatido no Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), invariavelmente nos encontrávamos em roda de alguma mesa da Camponesa (situada num casarão na rua da Bahia, a Camponesa ainda não tinha o churrasco como especialidade, mas o pão de queijo), ou em torno de uma mesa da leiteria Tirolesa, na avenida Amazonas, ponto final dos ônibus que levavam a Lourdes, Barroca e Gameleira. Pouco depois, abonados pelo dinheiro que começou a pintar nas nossas vidas, instauramos o restaurante Alpino como ponto de encontro definitivo. Para a alegria do Ivan e ódio do Marschner, ali éramos sempre servidos pelo prussiano Max.

Aprendizes de boêmios, saíamos altas horas da noite desses lugares onde a cordata burguesia de então passava as primeiras horas da noite, de lá saíamos em busca de algum lugar madrugador e receptivo, onde o gosto pelas trevas e a bebida barata confundiam jovens intelectuais com os marginais que rondavam a rua Guaicurus e o dancing Montanhês. Na avenida Paraná, na praça da Estação encontrávamos as portas abertas de um bar e a paciência de um garçom. Aguardávamos a aurora de um novo dia, conversando demais, discutindo muito as artes, puxando angústias de pequenos casos do individualismo ferido pela incompreensão familiar, deixando palpitarem desejos refreados pela vida provinciana, construindo pela cumplicidade a necessária camaradagem intelectual.

Alguns de nós, tinha como lema a epígrafe do romance A Náusea, de Sartre: “Trata-se de um rapaz sem importância coletiva, trata-se apenas de um indivíduo”. Havia em muitos um prazer em estar à margem da boa sociedade belo-horizontina, um gosto pela marginalidade, que não se concretizava – como em gerações posteriores se concretizaram – pela palavra de engajamento político-partidário, ou pela luta armada. Era o gosto de se aproximar, não do operariado nebuloso, mas da marginalidade urbana que era então, em oposição à pequena-burguesia de que descendíamos, depositária de gozo sem freios e delícias imoderadas. Antes da redescoberta de Oswald de Andrade em meados dos anos 60, dizíamos com ele que nesta bosta mental sul-americana, contrário do burguês não era o proletário – era o boêmio!

A margem também levava a nos manifestar contra os grupos políticos organizados em partidos, ou os que então queriam organizar as ruas com posturas católicas. Fomos talvez a primeira geração de escritores mineiros a não querer freqüentar os corredores e sentar nas cadeiras burocráticas e polpudas do Palácio da estética, o poder era uma brincadeira de mau gosto. Como o estrangeiro de Albert Camus, revoltamos contra o espírito de rebanho dos velhos comunistas e amávamos, - como esquecer a inenarrável figura de Fritz Teixeira de Salles. Entusiasmados pelo espírito beat e embalados pelos primeiros acordes em acetato do rock-and-roll, rebelávamos contra o puritanismo dos grupos católicos que viravam facções partidárias entre os estudantes universitários. Se a agressividade é uma arma tosca de que servem os tímidos e solitários, então éramos politicamente tímidos e solitários.

Sem saber, se embebidos com uma mistura de conhaque Castelo com coca-cola, “mosca”, inauguraríamos a ideologia do prazer.

Mas que vem a ser uma revista como Complemento? Contrastada contra o pano de fundo das grandes revistas da época, todas fechadas e impenetráveis aos assaltos de bárbaros, salienta-se hoje o caráter contraditoriamente gregário e generoso do grupo fundador. Cada novo colaborador era um complemento, uma peça que mostrava como o panorama das artes em Minas teria de ter necessariamente a forma de mosaico. Parece que a nossa revista funcionou com a mecânica inerente aos suplementos literários (como o posterior a nós, o do Minas Gerais): sempre havia lugar para mais um. Foi dessa maneira – vejo hoje – que uma revistinha meio rastaquera e intelectualmente raquítica, conseguiu seu núcleo inicial e passageiro de uma geração vibrante de grandes artistas e pensadores, que hoje atuam nos vários setores da vida pública nacional. Alguns chegaram a atuar no estrangeiro. Outros ainda hoje lá estão, como é o caso de Heitor e da Teresinha, ou do João Marschner que conversa com o Brasil de uma rádio na Alemanha. Outros mais desapareceram prematuramente do nosso convívio. Lembro-me com saudades de Degois, velho de guerra, do bom Maurício Gomes Leite, do genial Klauss Vianna e do engajado José Nilo.

Do trampolim dessa revistinha é que muitos deram o salto para as páginas do Estado de Minas, Folha de São Paulo, e O Diário, para a redação da Revista de Cinema, para as salas da UFMG, para o palco do Teatro Universitário, para as folhas do Suplemento do Jornal do Brasil, para aventuras na Bahia, ao lado do grupo de Glauber Rocha, e assim por diante.

Uma revista de jovens transforma dúvidas em certezas, torna concreto o difuso, dá forma ao tosco, consagra a juventude como formadora de opinião, torna o palpite dado no privado o teste público da idéia, arrebanha e arregimenta. Palavras e palavras trocadas em madrugadas infindáveis e alimentadas pelas discussões e polêmicas, de repente, se cristalizam em algumas poucas laudas de papel que, ao definir cada uma das personalidades envolvidas, ao mesmo tempo constitui o grupo como tal. Uma nova geração sempre está por detrás de uma revista. A revista de jovens sacraliza as especulações e hierarquiza os colaboradores pela imprevisibilidade da recepção pelos poucos leitores mais velhos. Ela cimenta as possibilidades do presente para esclerosa-las no dia seguinte.

Complemento era o nome da revista. Complemento era o nome da minha geração.



Silviano Santiago é escritor e professor universitário no Rio de Janeiro. Sobre ele, ver o livro “Silviano Santiago – Navegar é preciso, viver”, organização de Wander Melo Miranda e Eneida Maria de Souza, estudos críticos, autores diversos, Editora da UFMG em parceria com a EDUFBA e EDUFF, Belo Horizonte, 365 páginas, 1997.


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