Estado do conhecimento juventude



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ESTADO DO CONHECIMENTO



JUVENTUDE



Marilia Pontes Sposito (coord)
Ana Paula Corti

Juarez Dayrell

Maria Carla Corrochano

Maria Cecília Cortez C. de Souza

Marilena Nakano

Paulo Cesar Rodrigues Carrano
2000
Sumario

NOTA INTRODUTÓRIA................................................................................2
CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO CONHECIMENTO SOBRE JUVENTUDE NA ÁREA DA EDUCAÇÃO...................................................6
OS ESTUDOS SOBRE ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DE ADOLESCENTES........................................................................................41
JUVENTUDE E ESCOLA............................................................................88

JOVENS, MUNDO DO TRABALHO E ESCOLA.....................................128

ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS...........................................................185

ADOLESCENTES EM PROCESSO DE EXCLUSÃO SOCIAL................219

JOVENS E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA...................................................263

A PESQUISA SOBRE JUVENTUDE E OS TEMAS EMERGENTES......292

NOTA INTRODUTÓRIA


Este trabalho exprime os resultados do primeiro balanço sobre o tema Juventude no interior da área da Educação, realizado por uma equipe de pesquisadores de várias instituições. Esse grupo tem partilhado seus esforços com a equipe de investigadores coordenada por Sérgio Haddad que realiza Estado do Conhecimento sobre a Educação de Jovens e Adultos. As fontes privilegiadas nesse momento foram as dissertações e teses apresentadas e defendidas nos Programas de Pós-Graduação em Educação, compreendendo um período de dezoito anos (1980-1998). Os recortes inicialmente selecionados advinham exclusivamente da Sociologia mas, tendo em vista o próprio perfil da produção discente na área foi preciso incorporar os estudos que se apoiaram também na Psicologia, responsável por grande parte da produção1.

Trata-se, assim, de resultados de pesquisa que ainda demandam novos empreendimentos, sobretudo tendo em vista a necessidade de incorporação de novas fontes. No entanto, é preciso ressaltar, que o universo delimitado foi percorrido de maneira exaustiva, tomando-se como ponto de partida os catálogos de teses em Educação e o CD-ROM da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – ANPEd que reúne as referências bibliográficas sobre a produção discente da área no período de 1980 a 19982.

O início da constituição desse acervo ocorre em 1995, sendo intensificado em 1997, resultando em um Banco de Dados que contempla atualmente 387 registros somente na área de Educação e Juventude, disponibilizados pela Internet na homepage de Ação Educativa (www.acaoeducativa.org).

Graças ao apoio financeiro da FAPESP e CNPq, o grupo de pesquisa também realizou levantamento da produção discente em Ciências Sociais, recobrindo os Programas de Pós-Graduação do eixo Rio – São Paulo, além das seguintes universidades: UFMG, UFRGS, UFSC. Atualmente, em nova fase desse empreendimento, também apoiada pelo CNPq, procura-se realizar o balanço da produção sobre juventude nos periódicos mais relevantes nacionais, atingindo além da área da Educação, o campo das Ciências Sociais e Psicologia. Certamente, em um período relativamente breve, será possível contar com novas e diversificadas fontes que permitirão um tratamento mais abrangente do Estado do Conhecimento sobre o tema iniciado com o estudo que ora apresentamos.

A conclusão dessa base de dados e a produção desse Estado do Conhecimento foram asseguradas pela participação do INEP que ofereceu as condições para que o produto final viesse a público.

Os trabalhos foram selecionados e indexados em uma base de dados mediante a utilização do software MicroIsis, sob a orientação e supervisão do Serviço de Informação e Documentação – SID, de Ação Educativa. Após a recuperação do exemplar original, a dissertação ou tese foi submetida a uma análise mediante utilização de planilha (modelo anexo ao trabalho) que permite identificar suas principais características. Um conjunto de descritores foi consolidado em um tesauro específico da área de juventude, desenvolvido pelo SID, tendo sido também elaborado um novo resumo para cada documento. Não obstante os esforços empreendidos pela equipe não foi possível obter a cópia de todas as teses e dissertações, sendo recuperados 319 trabalhos, perfazendo um índice de 17% de perdas, aproximadamente. Para a realização desse Estado do Conhecimento foi possível analisar, de modo completo, 296 exemplares, pois alguns volumes foram enviados após a conclusão da redação dos artigos.

Os textos aqui reunidos exprimem um esforço coletivo de classificação, descrição e análise desse amplo conjunto que constitui a produção discente sobre juventude em educação. O artigo inicial - O Estado do conhecimento sobre juventude em educação - apresenta os dados gerais do levantamento e os traços mais marcantes que constituem essa produção. Os sete artigos que sucedem esse texto, examinam de modo mais aprofundado as questões que se apresentaram inicialmente e tentam identificar os principais eixos articuladores da produção, suas orientações, avanços e eventuais lacunas. Esse conjunto se inicia com um texto – O estudo dos aspectos psicossociais dos adolescentes – voltado para a análise da produção que dialogou mais proximamente com a psicologia da educação, representando um eixo importante da pesquisa discente no período estudado. A seguir, um bloco de três artigos examina as relações que os jovens mantêm com os processos formais do ensino, ou seja a escola, quer seja a educação básica ou superior, sendo que um deles investiga essa relação incorporando a dimensão do mundo do trabalho: Juventude e Escola, Jovens mundo do trabalho e escola e Estudantes universitários. Os estudos voltados para o exame dos que vivem em condições extremas de pobreza e processos de exclusão estão reunidos no texto Adolescentes em processo de exclusão social. Um dos temas clássicos dos estudos sociológicos sobre juventude, voltado para os processos de mobilização e ação política dos jovens, é analisado no tema Jovens e Participação Política. Concluindo, o último texto examina os eixos de investigação ainda pouco presentes nos estudos de juventude mas que já indicam direções importantes para o desenvolvimento da pesquisa como é o caso da violência e jovens, grupos juvenis, adolescentes e mídia e, finalmente, questões relativas à etnia e raça.

O resultado final de um trabalho desenvolvido durante os últimos cinco anos, certamente é produto da participação de muitos bolsistas e técnicos que viabilizaram essa empreitada. Sou particularmente grata ao SID – de Ação Educativa, sobretudo na figura competente e segura de Miro Nalles. Agradeço à equipe que se aventurou a enfrentar o volume de dissertações e teses para estabelecer um quadro ordenado da produção discente, compartilhando as reflexões em todo esse percurso: Ana Paula Oliveira Corti, Juarez Dayrell, Maria Carla Corrochano, Maria Cecilia Cortez C. de Souza, Marilena Nakano e Paulo Cesar Rodrigues Carrano.

São Paulo, novembro de 2000

Marilia Pontes Sposito



CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO CONHECIMENTO SOBRE JUVENTUDE NA ÁREA DA EDUCAÇAÕ*

Marilia Pontes Sposito**

A produção de conhecimento na área de Educação, sobretudo aquela derivada dos Programas de Pós-Graduação, demanda a intensificação de estudos que permitam aferir sua trajetória, realizar avaliações críticas e propor novas possibilidades de investigação. Além dos trabalhados dedicados a uma avaliação global da pesquisa na área (Gatti, 1983; Warde, 1993), há alguns anos temas já consolidados vêm sendo objeto de investigação, estabelecendo os principais contornos da pesquisa e oferecendo, ao mesmo tempo, profícuas orientações para o desenvolvimento de novos estudos, como é o caso dos balanços sobre Alfabetização, Educação de Jovens e Adultos, Formação de professores, Trabalho e Educação, entre outros.

Produzir um Estado do Conhecimento sobre o tema da Juventude na área da Educação, constitui, de certa forma, um desafio. Trata-se de um objeto de estudo ainda pouco consolidado na pesquisa, não obstante a sua importância política e social. Sendo várias as fontes possíveis, tornou-se necessário estabelecer alguns recortes que permitissem a realização de um primeiro diagnóstico capaz de oferecesse um conteúdo relevante e estimular novos estudos. Optamos, assim, por traçar um balanço exaustivo da produção discente da Pós-Graduação em Educação de 1980 a 19983. Trata-se de um período importante, pois marcou profundas inflexões na produção acadêmica, derivadas do intenso crescimento dos cursos de pós-graduação na área da educação e da consolidação de algumas instituições e grupos de pesquisadores vinculados aos Programas de Pós-Graduação e à ANPEd – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação.

Inicialmente, torna-se necessário considerar que os problemas da análise da produção de conhecimento sobre juventude recobrem um elenco significativo de questões que incidem, principalmente, sobre o próprio tema eleito para investigação e sua eventual presença nos estudos que constituem o campo da pesquisa educacional.

Para Mauger, o trabalho “aparentemente inocente, técnico, de constituição e de apresentação de uma bibliografia, de recenseamento de unidades de pesquisa, de pesquisadores e de trabalhos em curso, coloca um primeiro problema clássico: o da delimitação do domínio dos objetos” (1994, p.6). Buscando oferecer um quadro amplo do estado das investigações sobre os jovens na França, esse pesquisador evidencia as dificuldades presentes nesse intento, pois a primeira questão que se apresenta é a da própria definição da categoria juventude, considerada “epistemologicamente imprecisa”.

Poderíamos concluir que, aparentemente, os pesquisadores interessados em estudar e realizar balanços sobre o tema da juventude estariam diante de uma situação paradoxal de difícil resolução. De um lado, qualquer investigação em torno da produção de conhecimento exigiria, como pressuposto, a eleição de uma definição, ainda que provisória, do objeto de estudo de modo a orientar os critérios de seleção. De outra parte, como afirma Mauger, para formular essa categorização inicial as dificuldades não são desprezíveis, pois seria quase impossível recorrer a um uso da categoria juventude que se imporia de modo igual a todos os pesquisadores. Assim, se para ordenar fosse preciso recorrer a critérios comumente utilizados e se, de fato, é problemática a adoção desse mínimo já estabelecido, estaríamos diante de um impasse de difícil resolução.

Uma das formas de resolução desse impasse, para tornar exeqüível o empreendimento investigativo, reside em reconhecer que a própria definição da categoria juventude encerra um problema sociológico passível de investigação, na medida em que os critérios que a constituem enquanto sujeitos são históricos e culturais. A juventude é uma condição social e ao mesmo tempo um tipo de representação (PERALVA, 1997). Assim sendo, os estudos podem ser também investigados a partir do modo peculiar como construíram seu arcabouço teórico sobre a condição juvenil.

Pais (1990), ao examinar um conjunto expressivo de autores que se dedicaram ao tema da juventude na sociologia, realiza um esforço de sistematização, configurando, ao menos, dois grandes blocos que indicam a construção social do campo de estudos: o primeiro compreenderia os trabalhos que consideram a juventude como um conjunto social derivado de uma determinada fase de vida, com ênfase nos aspectos geracionais; para outros a temática estaria subsumida no interior de outras dimensões da vida social, definida a partir de universos mais amplos e diversificados, sobretudo aqueles derivados das diferentes situações de classe (p. 140).

Certa polaridade se estabelece, assim, em torno desses estudos, pois a partir da metade dos anos 60 ocorre um debate no interior da sociologia: trata-se de saber se a juventude “existe” como grupo social relativamente homogêneo, ou se ela é “apenas uma palavra” (Bourdieu, 1980). Para uns, especialmente Morin (196..), a juventude existiria como um grupo de idade identificado aos modelos culturais das sociedades de massas. Para outros, como Chamboredon (....), a juventude enquanto categoria estaria dissolvida em uma inerente diversidade recoberta pelas múltiplas classes sociais.

Propondo um outro olhar sobre essa aparente dicotomia, Dubet observa que, para se estabelecer um tratamento analítico sobre a noção de juventude é preciso, preliminarmente, reconhecer, que a moderna condição do jovem encerra uma tensão intrínseca. Para esse autor, a experiência desse momento de vida é construída em torno da formação moderna de um mundo juvenil relativamente autônomo e, ao mesmo tempo, como momento de distribuição dos indivíduos na estrutura social (1996).

É evidente, como afirma Atias-Donfut que as divisões sociais acabam por se impor, sem diluí-las, às divisões de idade, existindo mesmo o risco de manipulação das categorias de idade (1996). Para essa autora, a realidade efervescente e essencialmente mutante dos jovens não poderia ser reduzida a uma dimensão unidirecional. Ela não será enfrentada a não ser que se conjugue várias perspectivas para revelar suas diversas facetas e levar em conta sua complexidade. Segundo Atias Donfut três eixos possibilitariam uma aproximação multidirecional da juventude: 1.o período da juventude, no quadro da organização de conjunto das etapas de vida; 2.a inscrição dos jovens na filiação e nas relações de gerações implicando no reconhecimento da distribuição social; 3.a formação de “agregados sociais”, na origem dos movimentos sociais ou formas específicas de ações e expressões, suscetíveis de exercer uma influência nas sociedades (1996).

Embora ocorra um reconhecimento tácito na maior parte das análises em torno da condição de transitoriedade como elemento importante para a definição do jovem - da heteronomia da criança para a autonomia do adulto - o modo como se dá essa passagem, sua duração e características têm variado nos processos concretos e nas formas de abordagem dos estudos que tradicionalmente se dedicam ao tema4. No entanto, a idéia da transição tem sido também objeto de críticas que incidem, ao menos, sob dois aspectos tidos como relevantes: o primeiro diz respeito a uma caracterização da transição como indeterminação; jovens não são mais crianças e também não são adultos, jovens viveriam uma espécie de hiato na acepção de Salem (1986) sendo definidos pelo que não seriam. Assim, este momento cada vez mais alongado no percurso de vida continuaria, paradoxalmente, sofrendo um conjunto grande de atribuições que o desqualificam exatamente porque se trata apenas de uma passagem. O segundo aspecto incide sobre uma necessária subordinação dessa fase à vida adulta, referência normativa caracterizada pela estabilidade em contraste com a juventude, período da instabilidade e das crises. Como afirmam Melucci (1992) e Vianna (1997), este modo de ver a juventude como mera transição decorre de uma compreensão da ordem social adulta como estática e rígida em posição à pretensa “instabilidade” juvenil, fato que não se sustenta hoje, pois parte significativa do que denominamos condições contemporâneas da vida se inscrevem na insegurança, na turbulência e na transitoriedade.

É preciso reconhecer que, histórica e socialmente, a juventude tem sido considera como fase de vida marcada por uma certa instabilidade associada a determinados “problemas sociais”, mas o modo de apreensão de tais problemas também muda. No artigo “De quoi parle-t-on quand on parle du ‘problème de la jeunesse’?”, Bourdieu (1986) examina as ambigüidades presentes nessa expressão. Pais (1990) também alerta para as diferenças existentes entre a definição da juventude enquanto problema social e a definição da juventude enquanto problema para análise sociológica. Os estudos de feitio psicológico tendem a privilegiar os aspectos negativos da adolescência, sua instabilidade, irreverência, insegurança e revolta. A sociologia ora investe nos atributos positivos dos segmentos juvenis, responsáveis pela mudança social, ora acentua a dimensão negativa dos “problemas sociais” e do desvio.

Assim, se nos anos 60, a juventude era um “problema” na medida em que podia ser definida como protagonista de uma crise de valores e de um conflito de gerações, essencialmente situado sobre o terreno dos comportamentos éticos e culturais, a partir da década de 70 os “problemas” de emprego e de entrada na vida ativa tomaram progressivamente a dianteira nos estudos sobre a juventude, quase transformando-a em categoria econômica (Pais, 1990, Abramo, 1997).

Do mesmo modo, Jankowski (1992), ao realizar balanço sobre estudos de gangues nos EUA - tema que participa do foco de interesses da sociologia norte-americana desde o início dos anos 20 com a Escola de Chicago - verifica que houve um arrefecimento desses estudos nos anos 60. Nesse momento a atenção dos pesquisadores voltava-se para os movimentos de contracultura e para as manifestações estudantis que atingiam a sociedade norte-americana. A partir da década de 80, as pesquisas sobre gangues ocupam novamente o interesse dos estudiosos, não só em virtude do decréscimo da visibilidade das manifestações anteriores, como em decorrência da escalada de violência juvenil que atingiu o país.

Poderíamos considerar, como hipótese, que na pesquisa em Educação, ênfases temáticas e categorias de análise não se despem das influências das conjunturas históricas e dos processos sociais em que se movem, tornando-se mais ou menos permeáveis a essas situações. Parte importante do seu modo de construção se desvela nessa interação. Mas outro elemento a ser considerado é a dinâmica do próprio campo de conhecimento, caracterizado pela adoção de matrizes disciplinares que, segundo Oliveira (1988), “articulariam de modo sistemático um conjunto de paradigmas, a condição de coexistirem no tempo, mantendo-se todos e cada um ativos e relativamente eficientes” (p15)5.

Por essas razões cabe realizar, no âmbito da exame da produção de conhecimento, a análise de como um determinado campo de estudos também vem constituindo teoricamente o tema da juventude enquanto objeto de investigação, seus modos de aproximação do fenômeno em questão, seus recortes principais e, se possível, suas relações com os processos históricos que permitiram a visibilidade desse segmento na sociedade brasileira nos últimos anos.

A adoção desse escopo não isenta o pesquisador da necessidade de utilização de critérios explícitos de classificação, mas essa exigência deve contemplar a idéia de um certo grau de flexibilidade para possibilitar, inclusive, o exame de estudos que realizaram aproximações indiretas sobre a temática.

A fixação de alguns critérios relativos à faixa etária constituiu o procedimento inicial e útil para a seleção dos trabalhos, pois compreende uma primeira delimitação como ponto de partida. Mas, mesmo neste caso - a delimitação da faixa etária - foi preciso considerar as condições sociais em que se opera o desenvolvimento dos ciclos de vida em sociedades como a brasileira6. Integramos no conjunto amplo denominado juventude os segmentos etários que vão de 15 a 24 anos, seguindo as orientações de trabalhos na área demográfica (CNPD: 1998). É preciso considerar os estritos limites em que essa delimitação opera e seu caráter preliminar, pois há enorme diferenças de tratamento dos dados inclusive sob o ponto de vista sócio-demográfico. Sob o ângulo restrito das estatísticas, em alguns países europeus, os estudos tendem a alongar os limites superiores da faixa etária pela incorporação da população com a idade de 29 anos (BAUBY e GERBER, 1996). Esse alongamento tem sido tratado como um desafio para a investigação, revelador de uma nova fase - a pós-adolescência - que estaria configurando um período de latência ou de moratória social, pois o jovem, ao concluir sua escolaridade, não consegue se inserir nas atividades profissionais do mercado de trabalho formal (CHAMBOREDON, 1985 e MUXEL, 1994). Mas, para o conjunto da sociedade brasileira, a tendência maior é a de antecipação do início da vida juvenil para antes dos 15 anos, na medida em que certas características de autonomia e inserção em atividades no mundo do trabalho - típicas do momento definido como de transição da situação de dependência da criança para a autonomia completa do adulto - tornam-se o horizonte imediato para grande parcela dos setores empobrecidos.

De qualquer modo, a delimitação da faixa etária para levantamento das dissertações e teses não implica em mera atribuição burocrática, mas sofreu cuidadoso critério de definição da pertinência ou não do estudo em questão, possibilitando, em alguns casos, a incorporação de pesquisas de faixas etárias um pouco anteriores ou superiores ao universo 15-24 anos.

As questões acima enunciadas são, visivelmente, expressão de processos históricos peculiares que resultaram, nos últimos anos, na superação do “modelo de instalação” na passagem para a vida adulta (GALLAND, 1991). Para Galland, a entrada na vida adulta significa ultrapassar três etapas importantes, delimitadas pela partida da família de origem, pela entrada na vida profissional e pela formação de um casal. Segundo este autor, os segmentos operários eram caracterizados, no início do século, pela instantaneidade da passagem da infância à vida adulta e pela concordância necessária dessas três etapas. Em oposição, o modelo burguês delineava-se pela idéia do “diletantismo” que possibilitava adiar o momento e as etapas definitivas de entrada na vida adulta sem renunciar, no entanto, a conhecer certas formas de independência.

As transformações observadas nos sistemas escolares ao longo do século XX, que definiram um alongamento da permanência no interior da escola para novos segmentos sociais e as condições diferenciais de acesso ao mundo do trabalho - sem significar a formação de uma nova unidade conjugal ou o abandono da casa paterna - exigiram novas modalidades de compreensão para essa passagem, sobretudo nas sociedades urbanizadas, tanto centrais como periféricas. Chamboredon (1985) propõe, assim, a multiplicidade e a desconexão das diferentes etapas de entrada na vida adulta. Em decorrência, tanto a descristalização, significando dissociação no exercício de algumas funções adultas, e a latência, que separa a posse de alguns atributos do seu imediato exercício, seriam elementos importantes para o estudo dos jovens nos dias atuais. O primeiro caso - a descristalização - oferece como exemplo o exercício das atividades adultas da sexualidade já na puberdade, dissociado das funções reprodutivas e familiares. O segundo caso - a latência - seria ilustrado pela situação de posse de habilitação profissional oferecida pelo sistema escolar sem o imediato ingresso no mercado de trabalho, situação típica de países como a França (CHAMBOREDON, 1985, 21). Considerando as relações presentes nos modos de reprodução das diversas classes sociais, torna-se também um desafio conceber a multiplicidade e a desconexão das diferentes etapas dessa passagem para a vida adulta, incorporando as situações peculiares da vida urbana e rural e as inevitáveis dimensões de gênero, tão pouco consideradas nos estudos sobre juventude7.

Nessa mesma direção, Atias-Donfut (1996) afirma que a entrada na vida adulta se faz cada vez de modo progressivo segundo etapas variáveis e “desreguladas” ou “desnormatizadas” . Estaríamos, assim, diante da “desinstitucionalização” do ciclo de vida ternário, centrado sobre o trabalho e da “descronologização” do percurso das idades que participa, assim, na reconstrução dos grupos sociais, com a entrada no mercado de trabalho dos velhos jovens e a saída dos jovens velhos (KOHLI , apud ATIAS-DONFUT, 1996).

As observações anteriores incidem sobre o fato irrecusável do alongamento da transição como produto da modernidade, que exige, cada vez mais considerar a juventude como um momento do percurso de vida capaz de reter sua peculiar forma de vivê-lo e menos como mera etapa preparatória para a vida adulta. No entanto, como afirma Chamboredon (1985) não se trata de uma simples extensão da duração dessa fase mas de um processo de reestruturação e recomposição dos atributos sociais da juventude e das formas de inserção da maturidade nas sociedades modernas.

Além do critério etário e dos cuidados teórico-metodológicos de sua adoção, foi preciso recorrer a outros procedimentos que permitiram incorporar os usos associados, ainda que indiretamente, à noção de juventude8. Esses procedimentos foram essenciais, pois, como se trata de um campo de pesquisas ainda em constituição, a própria categoria jovem, enquanto momento do percurso de vida, pouco aparece na maioria das teses e dissertações selecionadas. Tratando-se de pesquisas realizadas na área da educação, observa-se que o modo mais freqüente de identificação dos sujeitos foi a partir da condição de aluno ou de estudante, mas também foi recorrente a designação estudante-trabalhador, indicando outras dimensões presentes na experiência juvenil brasileira. Parte significativa da produção discente recorreu ao descritor adolescente, aproximando-se das orientações calcadas na psicologia da educação

Por essas razões, embora a ênfase do Estado do Conhecimento seja o tema da juventude tal como vem sendo trabalhado pela Sociologia, tornou-se inevitável a incorporação dos estudos que examinaram os adolescentes a partir do olhar da Psicologia, disciplina responsável pelas orientações teóricas de parte significativa da produção discente9.



De posse desses critérios iniciais foi preciso percorrer a vasta produção do período (1980-1998), sintetizada nos resumos publicados pelo CD-ROM da ANPEd, compreendendo 1167 Teses e 7500 dissertações, perfazendo um total de 8667 trabalhos10. Desse conjunto, foram identificadas 332 dissertações e 55 teses (Tabelas 1, 2 e 3), correspondendo a 4,4% da produção total em Educação11.

Tabela 1 - Participação da produção acadêmica em juventude sobre o total nacional 1980-1998*


Produção total em educação



Produção em juventude




Dissertações

Teses

Total Nacional

Dissertações

Teses

Total


Total Juventude sobre Total geral%

1980**










9

0

9




1981

150

4

154

16

0

16

9,6

1982

161

4

165

7

1

8

4,8

1983

227

11

238

4

0

4

1,7

1984

318

17

335

18

0

18

5,4

1985

205

22

227

16

3

19

8,4

1986

211

16

227

9

1

10

4,4

1987

244

26

270

12

0

12

4,4

1988

340

35

375

8

1

9

2,4

1989

383

58

441

17

7

24

5,4

1990

419

41

460

11

4

15

3,3

1991

404

47

451

14

1

15

3,3

1992

537

87

624

11

5

16

2,6

1993

526

88

614

15

1

16

2,6

1994

612

86

698

13

1

14

2

1995

695

107

802

42

6

48

6

1996

693

142

835

39

8

47

5,6

1997

685

206

891

34

10

44

5

1998

690

170

860

37

6

43

5

Total

7500

1167

8667

332

55

387

4,4

*Os dados relativos à produção nacional foram obtidos no CD-Rom da ANPED, 3ª edição.

**O ano de 1980 não consta no CD-Rom da ANPED.






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