Este trabalho monográfico pretende articular a construção da narrativa audiovisual na microssérie



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2.7 Articulação do Folhetim com elementos e caracterização própria da dramaturgia

A Dramaturgia e seus aspectos são a base da produção ficcional encenada e, assim, é interessante estudar essas questões básicas ao analisar a modalidade específica da Teledramaturgia. Segundo a observação de Renata Pallottini sobre a teoria estética de Aristóteles, o drama é um gênero encenado, de construção racional, em que personagens vivas perseguem alvos opostos, entram em conflito e chegam ou não a um desenlace. Mescla o caráter objetivo, através da ação representada e também com o caráter subjetivo, os motivos interiores que estimulam as personagens, provocando fortes emoções ou um estado irreprimível de gozo ou maravilhamento. O site Wikipédia apresenta o seguinte conceito de dramaturgia:

Dramaturgia é a arte de composição do drama e sua apresentação no palco. Algumas obras são escritas especificamente para a representação no palco, e outras são adaptadas por um profissional chamado dramaturgo. Difere da escrita comum literária por ser mais como uma estruturação da história aos elementos específicos do teatro. É característico da dramaturgia compor histórias para serem faladas no palco, pois trata-se do estudo do drama propriamente dito, onde o dramaturgo, ao escrever uma peça teatral, cria personagens e conflitos que, ao serem apresentados, dão a impressão de que aquilo está acontecendo "aqui e agora". Porém a dramaturgia não está relacionada somente ao texto teatral, ela está presente em toda obra escrita com o intuito de se contar uma história como; roteiros cinematográficos, romances, contos e telenovelas.22

Na televisão, a dramatização aparece em diferentes formatos produtivos como programas unitários (casos especiais, telecontos, teleteatros), seriados, minisséries, telenovelas e telefilmes. A diferença da dramaturgia (Teatro) para a Teledramaturgia é a valorização de alguns aspectos, como o enredo, em detrimento de outros, como o conflito interior das personagens, considerando que a Televisão possui uma linguagem própria, marcada por técnicas no momento da gravação e edição que determinam a visão do telespectador sobre a obra, além da específica forma de fruição dos produtos audiovisuais e a essência de sua finalidade, geralmente relacionada ao entretenimento puro e aos interesses econômicos.

A linguagem dramatúrgica possui três pilares: personagem, ação e enredo. A palavra personagem vem do grego Persona e remete à máscara usada pelos atores gregos em suas representações cênicas. A palavra Persona também é explorada pelo psicólogo Carl Gustav Jung, como um dos arquétipos que compõem o inconsciente coletivo e designa a parte da psiquê que forja uma imagem do Self para apresentá-lo ao mundo.

A personagem é uma construção do gênero drama que funciona como tipo exemplar, composto a partir de fatos reais, possuindo todos os traços possíveis de serem encontrados numa ou em muitas pessoas, seus modelos, assim, relacionado tanto com o microcosmo cênico quanto com o macrocosmo da realidade. 23A personagem é dessa forma uma imitação, um simulacro, partindo de traços selecionados pelo autor.

O drama e o personagem surgem a partir do momento que a personagem fala em primeira pessoa. O drama nasceu das festividades gregas destinadas ao deus Dionísio, em que ritos eram cantados, pessoas e grupos começavam a representar papéis, porém, com o narrador como promovedor da ação. O representante do papel do deus Dionísio falando em primeira pessoa, traz todo o significado para si e promove a ação, como nos chama atenção Renata Pallottini:

Ele é, sem dúvida, uma projeção pessoal das invocações do coro; um grupo de pessoas excitadas, meio ébrias de vinho e música, ébrias de entusiasmo, suscita a fictícia aparição do próprio Dionísio que, a partir daí, passa a falar e agir em seu próprio nome, num verdadeiro aqui e agora. Isso é claro, é o embrião de uma representação teatral.24

A criação da personagem também passa pela mudança da percepção de religiosa para estética. No culto à Dionísio, a passagem do acreditar no sacerdote que representa seu deus para a admiração pelo artista; “em suma: a que altura o templo passa a ser um teatro e o deus uma ficção? Nesse momento, sem dúvida, nasce a personagem.”25

Para concretização total da personagem, ou seja, para a mesma adquirir uma existência no espaço cênico e um sentido para a história e para quem a assiste, são necessários também elementos simbólicos para compor seu interior e expressar-se no exterior, através do figurino e da expressão corporal e vocal.

No capítulo XV de Poética, Aristóteles expõe os aspectos importantes para a construção de uma sólida personagem; ela tem que ser boa, conveniente, semelhante (ou verossimilhante), coerente e necessária. Ao propor essas qualidades para a personagem, Aristóteles quer dizer que uma boa personagem é aquela bem construída, coerente e pertinente em relação à essência da obra e à trama dramática.

A idéia de verossimilhança da personagem e da história está mais relacionada com a coerência dentro da narrativa do que com o macrocosmo que a cerca, como melhor explica Antonio Candido:

Quando, lendo um romance, dizemos que um fato, um ato, um pensamento, são inverossímeis, em geral, queremos dizer que na vida seria impossível ocorrer coisa semelhante. Entretanto, na vida tudo é praticamente possível. O que julgamos inverossímil, segundo padrões da vida corrente, é, na verdade, incoerente, em face da estrutura do livro.26

Completando, segundo Pavis 27, o verossímil também pode consistir “num código ideológico e retórico comum ao emissor e ao receptor”, um pré-acordo simbólico entre o autor e seus leitores.

Para a exteriorização das questões interiores das personagens e produção de um entrelaçamento desses aspectos e os demais externos, é necessária a adição de ingredientes como ação, conflito e enredo.

Renata Pallottini na tentativa de discutir a construção da personagem recorre à teoria de Hegel sobre a dialética:

... a lógica concreta, dialética, busca surpreender, dentro do princípio da identidade, indispensável a um pensamento coerente, a sua mobilidade, o seu conteúdo verdadeiro. “A” é igual a “A”, é claro, mas esta afirmação, conquanto lógica e indiscutível, não tem sentido se permanecer assim. É estática e inútil. Hegel explica que o princípio de identidade e, mais ainda, o princípio da contradição, são de natureza sintética, contendo também o outro na identidade, e mesmo a não identidade, a contradição imanente. Quando se diz homem se diz também o não-humano e quando se diz mortal deve-se saber o imortal, para que se possa estabelecer a diferença. Diferença é relação, relação entre diferentes.28

Alia-se a perspectiva teórica deste trabalho monográfico sobre a questão da elaboração da personagem ao mesmo ponto de vista analítico de Pallottini e dessa forma considera-se que a teoria filosófica de Hegel aplica-se coerentemente ao estudo do drama, como uma dialética interior e exterior que produz novas situações dramáticas, provocando as ações e os conflitos, como comenta Hegel:

Ora, o movimento interno, implícito nestas considerações, é, no terreno do drama, correspondente a ação. Ação é o resultado de posições antagônicas, contraditórias, excludentes, resultando que, numa terceira posição, incorpora e supera as antecedentes.29

Ainda citando Hegel, a ação parte sempre do subjetivo, primeiramente do desejo da personagem, presente em seu inconsciente, e após a relação com seu consciente torna-se vontade e, assim, ação ou não. As ações das personagens não acontecem como fruto de fatos exteriores, “mas sim da vontade dos personagens”.30 Na visão de Hegel:

Essa perpétua relação dos acontecimentos com o caráter moral dos personagens, que os explica e constitui seu fundo e substância, é princípio, propriamente dito, lírico da poesia dramática. Só deste modo a ação aparece como ação, como desenvolvimento real das intenções e pensamentos dos personagens, os quais põem toda a sua existência na persecução de seus desejos e, por conseqüência, também devem responder por tudo o que suceda. O herói dramático leva em si mesmo os frutos de seus próprios atos. 31

Na observação de Renata, Hegel defende que os desejos, as vontades e os fins relacionados à ação devem ser de interesse geral da natureza humana, sendo o particular dentro do universal, “alguma coisa que, referida à experiência, às crenças, diríamos modernamente, à cultura de um povo, encontre nele ressonância”.32

A ação se constrói a partir das personagens, impulsionada pelos conflitos, que podem ser interno, externo e abstrato. O conflito interno é o relacionado à conciliação racional entre os desejos do inconsciente e o mundo, derivando em uma vontade ou não, de caráter subjetivo, que no dizer de Pallottini é a luta de Deus e o Diabo dentro do ser, fala em que é possível apontar a necessária dialética entre conteúdo inconsciente (Diabo) e o filtro consciente (Deus) ou, até mesmo, entre Eros (pulsões ou instintos) e a Civilização (padrões morais de comportamento). Já o conflito externo ocorre entre a personagem e outros personagens antagônicos ou grupo antagônicos ou, até mesmo, situações antagônicas. No conflito abstrato, “o personagem é obrigado a se confrontar com o abstrato ou coletivo, com forças naturais, sobrenaturais, ou a fatalidade, com o preconceito ou com Deus”.33 O conflito é levado sempre ao extremo da emoção e provocar um desenlace bom ou ruim, permanente ou vulnerável, tranqüilizador ou angustiante, mas solucionado de forma que ofereça ao espectador ou leitor a sensação de uma coisa acabada.

Para reunir essas personagens, seus conflitos e relações, é necessário um enredo, uma formalização da história a partir das ações das personagens, em um roteiro ele é apresentado primeiramente no chamado storyline. É a organização racional das ações, podendo ser linear ou não. É um aspecto bastante explorado pelo melodrama.



3. CAPÍTULO II - CONSTRUÇÕES DO CAMPO TEÓRICO PARA A ANÁLISE DA MICROSSÉRIE

É interessante recorrer ao campo teórico da Psicologia para construir e utilizar alguns conceitos que possibilitarão interpretar o conteúdo, as temáticas, os personagens e seus conflitos em uma obra ficcional. É pertinente a promoção da interface entre o conteúdo e as interpretações teóricas provenientes da psicologia na análise sobre a linguagem e, conseqüentemente, no formato do programa ficcional, como a microssérie Hoje é dia de Maria (Luiz Fernando de Carvalho – 2005). Este capítulo apresenta alguns conceitos psicológicos desenvolvidos por Carl Gustav Jung e seus discípulos, como Marie Louise von Franz e Emma Jung, que servirão como aporte teórico de sustentação ou fundamentação para uma posterior aproximação ou análise do objeto empírico, a microssérie Hoje é dia de Maria. Esta linha teórica da psicologia foi escolhida após inferências em relação aos símbolos e possíveis construções entre eles.

As especulações científicas e do senso comum sobre a existência de uma parte não consciente do homem são encontradas desde a Antigüidade e estão presentes na religião, tanto ocidental como oriental, expressadas através de seus signos e significados e seu próprio papel social. Segundo Marc Jimenez34, na filosofia grega de Platão e Aristóteles já eram explorados os sentimentos, chamados de paixões, sendo que o segundo desenvolveu o conceito de catarse na arte que consisti no processo de fruição e projeção das paixões a partir da dialética artística, com base em uma razão contemplativa que busca a compreensão intelectual da ordem causal das coisas.

Na Antigüidade, os mitos e a religião, terrenos que muitas vezes se misturavam, trabalhavam com as angústias da alma, como um espelho dos esquemas ocultos da psiquê. Porém, essas questões não eram sistematizadas teoricamente, mas buscavam a conformação entre mundo exterior e interior, a cultura daquela região e os desejos humanos. Segundo Jung, as religiões pagãs, como a grega, romana e egípcia, trabalhavam através dos mitos dos deuses, seus signos, significados e os processos inconscientes da coletividade, configurando-se de maneira diferente da cultura judaico-cristã e islâmica que, segundo o autor, retiraram de cena aspectos inconscientes vitais, chamados por seus seguidores de valores da deusa esquecida.35

De acordo com estudos históricos referentes à Idade Média, com a emergência do cristianismo sistematizado com a teologia, essa troca psíquica entre inconsciente e consciente é suprimida pela busca incessante da suprema bondade e perfeição proposta pelo catolicismo. Na arte, era colocado que o mal nunca deveria entrar nas obras plástica e que, além disso, o bem deveria ser exaltado com uma estética superior, apresentando-se maior e acima dos demais; o teatro profano foi proibido e somente pequenos grupos, chamados de mambembes, continuavam a levar o imaginário pagão através de suas representações pela Europa. É neste contexto que ocorre a chamada “caça às bruxas”, com a perseguição tanto dos intelectuais que buscavam a verdade científica, contrapondo-se a Igreja, como também dos judeus, mas, principalmente, remanescentes da cultura pagã, como bruxas e feiticeiros e ainda os alquimistas, acusados de heresia. Nise da Silveira observa que Jung se identificou fortemente com algumas considerações alquímicas e também ocultistas, que contrastavam com os ideais polarizados cristãos. 36 Marie Louise von Franz, teórica jungiana, discorre sobre a supressão desses valores:

Com a supressão da alquimia e o declínio do folclore, as pessoas se desvincularam das conexões com os deuses pagãos dentro dos seus inconscientes. Antes disso acontecer, era na alquimia, no folclore e na astrologia que os deuses pagãos tinham espaços onde podiam viver; esses eram seus últimos redutos.37

É ainda na Idade Média que começam as lendas relacionadas à busca do Santo Graal, que influenciou a literatura da época como em obras protagonizadas pelo Rei Arthur e seus cavaleiros e também as próprias cruzadas, através dos chamados cavaleiros. Colocado como o receptáculo divino ou a taça que Jesus Cristo usou na última ceia, o Santo Graal é colocado por discípulos de Jung como o símbolo da totalização ou do Self e a sua procura significa a jornada que a psiquê faz em busca do equilíbrio, aqui entendido também como equilíbrio espiritual. Ainda baseando em Jung, Jesus Cristo é um símbolo mítico da busca e totalização da psiquê, porém a proposta cristã medieval o coloca somente no pólo do bem e não permite a dinâmica entre bem e mal, entre consciência e demais arquétipos da psiqu, como a sombra e a persona, e que as práticas cristãs anteriores ao sistema religioso romano, como o cristianismo gnóstico38, eram bem mais ricas na expressão do processo de individuação ou, mais espiritualmente, redenção da alma humana a partir da narrativa mítica de Cristo. A fundação de Jung, localizada em Zurique, possui e estuda os chamados Evangelhos apócrifos39, documentos ligados à linha gnóstica do início do cristianismo, pois reconhece neles grande expressão da inconsciência coletiva e um retrato mais significativo e profundo de Jesus.

Retornando ao contexto histórico, com as mudanças econômicas, sociais e culturais da Baixa Idade Média, forma-se o terreno para a construção de uma nova civilização, a Modernidade, contexto relatado no capítulo anterior. Edificada a partir da razão moderna, focada no antropocentrismo, na acumulação de capital, na ciência instrumental e demais fatores, a Modernidade também abriu as portas, de forma controversa, para o estudo sistematizado e específico das questões humanas, através da independência da ciência da Psicologia, com Wilhelm Wundt40 no século XIX. A psicologia moderna é o estudo científico do comportamento humano e dos processos mentais, patológicos ou não, com base nas formas de expressão do indivíduo, como andar, sorrir e falar, e também fantasias e sonhos. Considerada o estudo da alma, muitos intelectuais não vêm a psicologia como ciência, pois seu objeto de estudo não é compatível com o das ciências naturalistas, sendo mais especulativo e fundamentado em hipóteses, sem fornecer uma “cura” final e definitiva.

Mas é com a teoria psicanalítica que os processos não conscientes entram em discussão. Historicamente, Sigmund Freud é reconhecido como o formulador deste conceito, juntamente com demais intelectuais interessados no estudo da alma humana, como Carl Gustav Jung. A teoria da psicanálise foi desenvolvida a partir da investigação da patologia histeria pelo mestre de Freud, o médico francês Jean-Martin Charcot, e a adição de outras dinâmicas terapêuticas, como a hipnose e a catarse. Após essa experiência, Freud escreveu o livro Estudo sobre a Histeria (Sigmund Freud e Josef Bauer -1895), juntamente com seu colega Josef Bauer, e, assim fundou a psicanálise. A psicanálise foi denominada por uma paciente de Freud como “Cura pela fala”, ou seja, é a construção e apresentação de um discurso para o psicanalista a partir da fala em que o paciente oferece apontamentos do inconsciente, através da linguagem, palavras e os chamados atos falhos. Depois desse período, Freud se concentrou nas pesquisas do inconsciente e nas pulsões da sexualidade infantil, o último conceito repudiado por seu discípulo Carl Gustav Jung, que defendia a idéia de que para além do inconsciente pessoal, proposto por Freud, existe também um inconsciente coletivo ou transpessoal, constituído a partir de conteúdos e processos universais da psiquê, denominados arquétipos, que servem como matriz para a construção do aspecto subjetivo da psiquê. Com base nesses conceitos, Jung estruturou a Psicologia Analítica ou Complexa, que mais tarde será tratada com especificidade neste capítulo.

Retornando ao pressuposto do inconsciente, segundo Freud o inconsciente é uma estrutura da psiquê em que se situam todos os instintos primitivos41, ou melhor, pulsões como também todo o material excluído da consciência, reprimido ou censurado que possuem alta energia psíquica. Todos esses aspectos estão obrigatoriamente ligados ao processo de formação da personalidade. Jung explicita o conceito, a partir de Freud: “Denominamos um processo psíquico inconsciente, cuja existência somos obrigados a supor – devido a um motivo tal qual inferimos a partir de seus efeitos – mas do qual nada sabemos.”42 Dessa forma, os conteúdos inconscientes só são percebidos a partir do momento em que seus sintomas, físicos, orgânicos, psicológicos ou mentais se manifestam, ou a partir de representações simbólicas conscientes ou oníricas que são apresentados pela consciência, através de códigos lingüísticos, como a fala e a arte. Jung ainda afirma:

Aprendemos pela experiência que os processos mentais inconscientes são em si mesmos “intemporais”. Isto significa em primeiro lugar que não são ordenados temporalmente, que o tempo de modo algum os altera, e que a idéia de tempo não lhe pode ser aplicada. 43

Fundamentado na idéia da existência de um inconsciente, Jung propôs, como já foi citado, que para além desse inconsciente pessoal ou subjetivo, existe um conteúdo psíquico recalcado que corresponde a uma inconsciência universal a partir de experiências vivenciadas pela humanidade, que se expressam em códigos lingüísticos ou simbólicos regionais ou nacionais, como cultura, religião e folclore. A partir dessas afirmações, Jung começou a desenvolver pesquisas relacionadas às religiões, ocidentais e orientais, ao mitos, lendas e contos populares. Relacionando seus estudos, encontrou traços e finalidades semelhantes nas diferentes manifestações, que se diferenciavam por causa de suas simbologias próprias. Conectou a idéia de inconsciente coletivo e suas representações com o processo da psiquê universal e da individuação.



    1. Apresentação de alguns conceitos da Psicologia Analítica 44

Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo como sendo o local em que residem materiais psíquicos que não são fruto de experiências pessoais, que estão nos seres humanos, desde sua infância. Jung chama o inconsciente de uma arca ou depositário divino das relíquias do passado. Jung postula:

O inconsciente coletivo ... é constituído, numa proporção mínima, por conteúdos formados de maneira pessoal; não são aquisições individuais, são essencialmente os mesmos em qualquer lugar e não variam de homem para homem. Este inconsciente é como o ar, que é o mesmo em todo lugar, é respirado por todo mundo e não pertence a ninguém. Seus conteúdos (chamados de arquétipos) são condições ou modelos prévios da formação psíquica em geral.45

Dentro do inconsciente coletivo existem estruturas básicas que colaboram para a formação da personalidade individual, com base em matrizes ou imagens primordiais chamadas de arquétipos, que canalizam o material psicológico, porém, não possuem representação unilateral, mas o mesmo motivo próprio são freqüentemente encontrados em mitos, contos e lendas populares. A partir desse material universal, fantasias e representações individuais se firmam no inconsciente pessoal e também na coletividade. Entre as figuras arquetípicas estão a criança divina, o duplo e a mãe primordial. A discípula de Jung, Marie Louise von Franz faz uma importante afirmação sobre os arquétipos, sua importância e relacionamento entre si:

Um arquétipo é um impulso psíquico específico que produz seus efeitos como um único raio de irradiação e, ao mesmo tempo, um campo magnético expandido-se em todas as direções. Então, a energia psíquica de um “sistema” particular de um arquétipo está em relação com todos os outros arquétipos.46

O arquétipo da mãe primordial ou da Grande Mãe tem como representações a natureza e figuras religiosas como a Virgem Maria, como detentora do milagre da vida que na psicologia consiste na energia existente na alma ou psiquê humana. Jung explicita o conceito de arquétipo:

O arquétipo é uma tendência a formar tais representações de um motivo – representações que podem variar muito em detalhes, sem perder sua configuração original. Há, por exemplo, muitas representações do motivo irmãos inimigos, mas o próprio motivo permanece o mesmo.47

Durante a vida, o indivíduo dialoga seus processos psíquicos individuais com os conteúdos arquetípicos, através das relações cotidianas, religiosas, artísticas e culturais, numa relação dialética que parte do inconsciente coletivo e que encontra ressonância na vida empírica do indivíduo:

Os arquétipos são como que órgãos da psique pré-racional. São sobretudo estruturas fundamentais características, sem conteúdo específico e herdadas desde os tempos mais remotos. O conteúdo específico só aparece na vida individual em que a experiência pessoal é vazada nessas formas.48.

Além dos arquétipos figurativos, há também as chamadas estruturas básicas para a formação da personalidade, também arquétipos, que são o Ego, a Persona, a Sombra, a Anima, o Animus e o Self.

Baseado na teoria de Jung, o Ego é a construção consciente da personalidade e um dos maiores arquétipos, responsável pela divisão do material inconsciente e consciente, sendo que ele próprio emerge do inconsciente. Nas experiências de vida individuais, somos levados a supervalorizar o Ego, constituído somente de conteúdos conscientes e racionalizados, a partir de vivências pessoais e da moralidade social vigente, em detrimento do inconsciente, dissociando-os porque na maior parte das vezes há uma contrariedade entre esses pólos.

Estreitamente ligado ao arquétipo do Ego, está a Persona, uma estrutura psicológica social que funciona como uma “personagem”, o eu que é apresentado para o mundo, através dos papéis sociais desempenhados assim como formas de comportamento e indumentária, podendo conferir pontos positivos e/ou negativos para o processo de individuação. Ela pode favorecer as relações sociais e proteger o ego das atitudes sociais ou enfraquecer o processo de autoconhecimento e crescimento do indivíduo e, por isso, Jung a chama de “arquétipo da conformidade”. Entre os símbolos relacionados à Persona estão os carros, as roupas e instrumentos de trabalhos, que representam características e identidades sociais, diretamente relacionadas ao indivíduo.

No extremo oposto do Ego e da Persona, arquétipos conscientes da psique, está a Sombra que corresponde ao centro do inconsciente pessoal, que guarda todo o material reprimido da consciência ou aspectos que não foram desenvolvidos. Ao analisar os contos de fadas a partir da psicologia analítica, Marie Louise explica a representação da sombra nos heróis desse tipo de história:

A sombra do herói, por exemplo, pode aparecer como uma figura mais primitiva e mais instintiva do que o próprio herói, porém, não necessariamente inferior em termos morais. Em alguns contos de fadas o herói ou a heroína não tem a companhia da sombra, mas possui em si traços positivos e negativos e, algumas vezes, traços demoníacos.49

A sombra deve ser reconhecida e trazida à consciência para diminuir seu poder dominador, por ser um aspecto instintivo. Ela se expressa através da projeção de qualidades indesejáveis nos outros ou pela dominação da sombra, expressada através de atos imaturos e egoístas, e deve ser trabalhada, não abolida, porque um ser sem sombra é um ser incompleto, um ser caricatural que rejeita a dinâmica do bem e do mal e a existência de ambos em todo ser humano. A partir dessa conscientização, a energia altamente poderosa da sombra que pode prejudicar o indivíduo tem a possibilidade de reverter em pontos positivos, colaborando para o desenvolvimento do Self, como comenta von Franz:

Quando formos capazes de enxergar nossas próprias mesquinharias, ciúmes, ódios, rancores etc., então isso poderá se reverter num bem positivo, pois em tais emoções tão destrutivas está armazenada muita energia vital, e quando se tem tal energia à disposição, ela poderá ser encaminhada para fins positivos.50

Ainda segundo Jung, a origem da sombra é o inconsciente coletivo, um depósito de instintos e vitalidade. Segundo Fadiman “lidar com a sombra é um processo que dura a vida toda, e que consiste em olhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos lá”.51 Para ilustrar essa relação, Jung utilizou a obra Fausto, de Goethe:

Como se a lâmina

De uma faca afundada até o punho

Meu coração fendesse ao meio

Uma parte de mim aspira ao que é grande

Abandonando os lucros e as vantagens

Esquecendo a si mesmo;

De outro lado, no entanto, inconscientemente,

Eu desejo o proveito.

Homem, abrigas em teu seio

Duas almas.

Não escolhas só uma;

Duas não são demais;

Luta contigo mesmo,

Um que sejas, mas sempre dividido,

Unindo o alto e o baixo,

Unindo brutalidade e doçura

Unindo estas duas almas!52

Marie Louise comenta as características da Sombra, seus símbolos e o processo de conscientização da mesma que corresponde ao caminho que deve ser traçado por todo ser humano, para que o indivíduo se conheça e reconheça seus defeitos e angústias para enfim crescer e amadurecer, fortalecendo sua personalidade e seu equilíbrio emocional e psicológico perante a dinâmica da vida. Segundo Marie Louise a sombra é constituída de aspectos não desenvolvidos do ser humano, logo, imaturos e representada por signos como animais e crianças que agem a partir do instinto: “A expressão “assimilação da sombra” tem significado quando aplicada aos aspectos infantis, primitivos e subdesenvolvidos da natureza do ser humano, sombra essa retratada na imagem de uma criança, de um cachorro ou de um estranho.”53

Os arquétipos Anima e Animus são estruturas presentes no inconsciente de acordo com a sexualidade orgânica apresentada pelo indivíduo, sendo que no homem está a Anima e na mulher, o Animus, e funcionam como uma balança para o equilíbrio da energia psíquica. Marie Louise ressalta a relação nos contos de fada entre Anima e Animus:

Existem muitos contos de fadas cujos personagens principais podem ser interpretados como representantes da anima ou do animus. Estes contos destacam modelos de relacionamento humano: os processos que ocorrem entre homem e mulher ou os fatos fundamentais da psique que estão além das diferenças entre o masculino e o feminino. Muitos contos sobre a redenção mútua são este tipo.54

As imagens ligadas ao feminino e ao masculino foram construídas durante as experiências relacionais desde o início da humanidade e possuem forte reflexo no estabelecimento dos conceitos de Anima e Animus desenvolvidos por Jung. A Anima representa valores femininos universais inconscientes na psiquê do homem, enquanto o Animus consiste em aspectos relacionados ao masculino e inconscientes na alma feminina. A existência desses arquétipos na psique do homem e da mulher possibilita uma concordância entre fatores culturais masculinos e femininos e ainda pode promover ou dificultar o processo de crescimento. Assim, na medida em que uma mulher se define como feminina, a partir de valores culturais femininos, o Animus cuida da parte dissociada de sua personalidade e que corresponde aos valores masculinos.

De acordo com Jung, nas vivências psíquicas individuais, as figuras opostas ao sexo orgânico do indivíduo, como os pais, resultam em uma grande influência para o desenvolvimento, atrofiamento ou equilíbrio das energias opostas que residem na psiquê. Além disso, esses dois arquétipos desempenham a função de regular o comportamento interior do indivíduo, enquanto a persona trabalha a relação externa individual com o mundo.

A anima é a imagem feminina presente no inconsciente do homem, como explica Jung:

Todo homem carrega dentro de si a eterna imagem da mulher, não a imagem desta ou daquela mulher em particular, mas uma imagem feminina definitiva. Esta imagem é (...) uma marca ou “arquétipo” de todas as experiências ancestrais do feminino, um depósito, por assim dizer, de todas as impressões já dadas pela mulher (...) Uma vez que esta imagem é inconsciente, ela é sempre inconscientemente projetada na pessoa amada e é uma das principais razões para atrações ou aversões apaixonadas.55


No homem, a Anima inconsciente promove o chamado conhecimento da alma, sensibilizando e equilibrando o indivíduo, porém, a ação contrária pode torná-lo altamente vulnerável aos problemas das relações humanas, entregando-se fortemente às emoções e sentimentos. Segundo von Franz: “O Animus traz solidão às mulheres, enquanto que a Anima joga o homem de cabeça nas relações humanas, com toda a confusão decorrente.” Jung relaciona a anima da psiquê masculina com o Eros materno.
O Animus, que significa mente ou espírito, é colocado como o Logos paterno que oferece à mulher o caminho para cumprir seu destino, ou seja, é o fio mediador entre a consciência feminina e o inconsciente, é responsável também por pré-opiniões carregadas de emoção e, proporcionando à mesma uma racionalização das situações e sentimentos que colabora para o equilíbrio ou saúde da psiquê, porém essa dialética depende da forma como a mulher lida com seu Animus e, desta forma, este arquétipo tem também suas conseqüências positivas e negativas para seu processo de individuação. Jung discorre sobre a relação entre o Animus e a pisquê da mulher:

Assim como a anima, o animus também tem um aspecto positivo. Sob a forma de pai expressam-se não somente opiniões tradicionais mas também aquilo que se chama "espírito" e de modo particular certas concepções filosóficas e religiosas universais, ou seja, aquela atitude que resulta de tais convicções. Assim o animus é também um psicopompo um mediador entre consciente e o inconsciente e uma personificação do segundo.56

As estrofes abaixo exemplificam de forma poética a função do animus como um dos guias no processo de individuação da mulher:

Da essência feminina guardas a chave.


E, com segura mão manténs
O fio de Ariadne desse labirinto ...
Se, com desvelo és tratado,
Percorres com a mulher.
Os tortuosos e intrincados caminhos
Por onde se pode encontrar a brilhante tocha,
Que lhe devolve à palavra a lucidez.
Mas, se te desconhecem ...
Se estrangeiro permaneces em tua pátria
Tua luz devastadora arrebata
A presa incauta e louca
Lançando-a cegamente ao trágico destino.57

É importante o desenvolvimento da anima no homem e do Animus na mulher, pois representa o equilíbrio de forças comumente opostas, por isso o papel do pai de sexo oposto ao da criança é tão importante - a mãe para o menino e o pai para a menina.

O Self representa o arquétipo central da personalidade, conciliando inconsciente e consciente, formando uma totalidade e costuma ser representado por símbolos de equilíbrio e unificação, como mandalas, divindades, uma criança divina, dentre outros. Segundo Fadiman: “Todos estes símbolos da totalidade, unificação, reconciliação de polaridades, ou equilíbrio dinâmico – são os objetivos do processo de individuação”.58

Jung conceitua o Self como o centro da personalidade e engloba todos os arquétipos em harmonia: “O Self não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente”.59

Com o desenvolvimento do Self, o Ego se torna mais uma das inúmeras estruturas da psiquê, deixando de ser o centro da consciência, porém, o desenvolvimento do Self está relacionado com o reconhecimento da sombra e conciliação da mesma com o consciente. Um trabalho árduo e difícil para a maioria dos indivíduos, pois pressupõe um processo de autoconhecimento e afirmação de qualidades e defeitos psicológicos e morais.

Os símbolos estão relacionados às construções arquetípicas do inconsciente, representando-as, sendo que quanto mais o símbolo estiver conectado ao arquétipo, maior será a carga emocional.

Os símbolos podem ser encontrados também nos sonhos individuais, mas possuem mais força quando evocam uma coletividade, como os símbolos religiosos: Estrela de Davi, por exemplo, ou a Cruz, para os cristãos. Segundo Fadiman: “O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dado momento”, desta forma, diferente da análise psicanalítica de associação livre de símbolos, na psicologia analítica os símbolos devem ser interpretados a partir de uma interface entre significado coletivo e as experiências empíricas de formação do indivíduo. Jung define a amplitude do significado dos símbolos:

Aquilo a que nós chamamos de símbolos pode ser um termo, um nome ou até mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significado convencional e óbvio. Implica algo vago, desconhecido para nós... Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto “inconsciente” mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.60

Ainda segundo a teoria jungiana esses símbolos são expressos através da cultura, da religião, das construções oníricas, dos contos populares e de fadas e no folclore, esses três últimos com bastante relevância nos estudos psicológicos propostos para a análise da microssérie Hoje é dia de Maria e cujos aspectos próprios serão tratados mais à frente.

O processo de assimilação da sombra, equilíbrio da Anima ou Animus, e Ego e Persona é chamado por Jung de crescimento psicológico ou processo de individuação.61 Jung explicita esse conceito:

Individuação significa tornar-se um ser único, homogêneo, na medida em que por “individualidade” entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo. Podemos, pois, traduzir “individuação” como “tornar-se si mesmo” ou “realização do si mesmo”.62

Ainda segundo Carl Gustav Jung, o processo de individuação é a melhor e mais completa realização das qualidades coletivas do ser humano, o equilíbrio de forças pares e contrárias, mas que esse processo é extremamente difícil para a maior parte das pessoas, pois pressupõe o desenvolvimento de um auto-conhecimento e tratamento de pontos positivos e negativos, conscientes e inconscientes e a harmonia entre esses pólos. O Self é o arquétipo de representação do êxito da individuação.

Jung afirma que, é através da cultura, do folclore, dos contos populares e de fadas que as mais básicas experiências arquetípicas ou de inconsciência coletiva são representadas, refletidas e interiorizadas. Os contos de fada são chamados por Jung por anatomia comparada da psiquê por apresentar processos próprios do inconsciente coletivo e trazer para a linguagem símbolos exonerados da cultura ocidental judaíca-cristã. Marie Louise comenta a importância do estudo do conteúdo e narrativa dos contos de fada com base na psicologia analítica:

Contos de fadas são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa. Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da pisque humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fadas existe um material cultural consciente muito menos específico e, conseqüentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da pisque. 63

Ainda segundo Von Franz, os contos de fada possuem diferentes formatos de narrativa e conteúdo, atendo-se a temas como a individuação, a relação Anima e Animus, homem e mulher, pais e filhos, sempre a partir de imagens universais. Sobre essa questão Marie discorre:

Diferentes contos de fadas fornecem quadros de diferentes fases dessa experiência. Algumas vezes eles se atêm mais aos primeiros estágios que lidam com a experiência da sombra, apresentando somente um pequeno vislumbre do que vem depois. Outros contos enfatizam a experiência de animus e anima e das imagens de pai e mãe por trás deles, não se fixando no problema anterior da sombra, nem no que viria a seguir. Outros enfatizam o tema do tesouro inacessível ou inalcançável, e das experiências centrais. Em termos de valor não há diferenças entre esses contos, porque no mundo arquetípico não há hierarquia de valores pela simples razão de que cada arquétipo é, na sua essência, somente um aspecto do inconsciente coletivo, ao mesmo tempo que representa, também, o inconsciente coletivo como um todo. 64

Hegel, teórico do século XVIII, também afirmava que narrativas ficcionais com idéias, imagens ou processos universais tinham muito mais chance de permanecerem e tocarem a alma humana, como afirma:

Quanto mais uma obra dramática abandona os interesses substancialmente humanos para limitar-se a caracteres e paixões puramente locais, determinados somente pelas tendências particulares de uma nação, mais facilmente será perecível e passageira, a despeito de todos os méritos que, por outra parte, possa ter.65

Logo, a universalidade das dramatizações provoca projeções e identificações entre espectadores e representações, diminuindo as diferenças culturais e evidenciando as experiências individuais que, ao mesmo tempo, se constituem a partir de uma base coletiva. Von Franz afirma essa hipótese fundamentada na existência de milhares de contos populares que possuem como essência as mesmas temáticas, personagens e conflitos semelhantes, que circulam em diversos lugares do mundo, desde a França até a Rússia ou Brasil, como comenta abaixo:

Em todos os países, pessoas começaram a colecionar histórias e contos de fadas nacionais. De repente todo mundo estava perplexo com o número enorme de temas que se repetiam. O mesmo tema, em milhares de variações, apareciam tanto nas coleções da França como da Rússia, Finlândia e Itália. Os irmãos Grimm, por exemplo, usaram tais comparações como um “cristal quebrado cujos fragmentos a gente ainda pode encontrar espalhados na grama. 66

Além dessa coincidência de conteúdos e imagens em diferentes locais do mundo, a permanência e a força dessas representações explicitam a resistência de valores psíquicos universais, como novamente discorre von Franz: “É notável constatar como um Conto de Fadas pode sobreviver vários séculos, quase inalterado. Isso se explica pelo fato de que ele reflete uma estrutura psicológica humana de base e, portanto, universal”.67

É importante salientar a facilidade e receptividade das crianças frente aos contos de fada e o aprendizado desenvolvido através da dinâmica do contar, narrar um conto. Paulo Urban comenta sobre a intensidade da dialética entre a psiquê representada nos contos de fadas e sua relação individual com as crianças:

De estrutura mais simples que os mitos e as lendas, mas de conteúdo muito mais rico que o mero teor moral encontrado na maioria das fábulas, são os contos de fada a fórmula mágica capaz de envolver a atenção das crianças, despertando-lhes (idem nos adultos sensíveis) sentimentos e valores intuitivos que clamam por um desenvolvimento justo, tão pleno quanto possa vir a ser o do prestigiado intelecto.68

Sobre o impacto individual entre as narrativas dos contos e o psiquismo infantil individual, Urban expõe:

Em essência, os contos de fada podem ser vistos como pequenas obras de arte, capazes que são de nos envolver em seu enredo, de nos instigar a mente e comover-nos com a sorte de seus personagens. Causam impacto em nosso psiquismo porque tratam das experiências cotidianas, e permitem que nos identifiquemos com as dificuldades ou alegrias de seus heróis, cujos feitos narrados expressam, em suma, a condição humana frente às provações da vida. Não fossem assim tão verdadeiros ao simbolizar nosso caminho pessoal de desenvolvimento, apresentando-nos as situações críticas de escolha que invariavelmente enfrentamos, não despertariam nem sequer o interesse nas crianças que buscam neles, além da diversão, um aprendizado apropriado à sua segurança. Neste processo, cada criança depreende suas próprias lições dos contos de fadas que ouve, sempre consoante seu momento de vida, e extrai das narrativas, ainda que inconscientemente, o que de melhor possa aproveitar para aí ser aplicado. Oportunamente, pede que seus pais lhes contem de novo esta ou aquela história, quando revive sentimentos que vão sendo trabalhados a cada repetição do drama, ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os por outros mais eficientes, conforme as necessidades do momento.69

Os contos de fadas fazem parte de um acervo cultural e psicológico coletivo que relaciona-se diretamente com o folclore, como espaços de representação da inconsciência coletiva, através, principalmente, de símbolos pagãos e funciona como uma forma de conciliação da consciência e dos valores cristão ocidentais e os anseios inconscientes universais que persistem na psiquê humana. Von Franz estabelece essa relação:

Se, por um lado, os contos de fadas são, na sua maior parte, inteiramente, pagãos, alguns deles, especialmente aqueles dos últimos tempos (como este que nós analisamos), contêm símbolos que podem ser compreendidos como sendo uma tentativa do inconsciente para unir a tradição pagã abafada com o campo cristão da consciência.70

O resgate do folclore pelas culturas nacionais ou mesmo a resistência desse aspecto cultural à globalização e culturas dominantes é a resposta sobre a necessidade do tratamento de imagens universais através de símbolos locais identificáveis a uma nação ou comunidade. É através do folclore e dos contos populares, mesclados com contos de fada internacionais, que a microssérie Hoje é dia de Maria apresenta as identidades culturais brasileiras, como também as formas de representação dos arquétipos na simbologia folclórica nacional. É a partir da descoberta gradual de sua identidade brasileira que a protagonista inicia seu crescimento interno ou psicológico.


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