Este trabalho monográfico pretende articular a construção da narrativa audiovisual na microssérie



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3.2 Folclore

Antes de iniciar o estudo específico do folclore brasileiro, é interessante contextualizar o conceito e seu desenvolvimento teórico. O termo folclore vem da língua inglesa e foi criado pelo arqueólogo William John Thoms, que etimologicamente significa conhecimento do povo – folk significa povo, enquanto lore conhecimento ou ciência. Megale explicita o conceito como: “o folclore pode ser definido como a ciência que estuda todas as manifestações do saber popular.”71

O folclore pode ser considerado a história não escrita de um povo ou narrativa oral, que está presente no cotidiano desde a mais tenra infância e possui forte influência na maneira de se pensar, agir e sentir de uma comunidade, região ou país. Também relacionado às mudanças sociais e solicitações das mesmas, o folclore é a base que sedimenta os principais distintivos de cada povo.

Segundo a Carta do Folclore Brasileiro, aprovada pelo Congresso Brasileiro do Folclore de 1951, o fato folclórico constitui “as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular, ou pela imitação, e que não sejam diretamente influenciadas pelos círculos eruditos e instituições que se dedicam ou à renovação do patrimônio científico e artístico humano ou à fixação de uma orientação religiosa ou filosófica.” 72

Além dessa mais ampla definição, critérios específicos devem ser aplicados para definir uma manifestação ou costume como folclórico. Qualidades como anonimato, aceitação coletiva, oralidade, tradicionalidade e função são imprescindíveis a um fato folclórico, pois representam uma coletividade e o mínimo de racionalização e/ou erudição das manifestações de cunho folclórico. Megale comenta a popularidade expressa no folclore:

O folclore não é estático, mas essencialmente dinâmico. Somente o que é popular é folclórico e o folclore é o retrato vivo dos sentimentos populares e das relações do povo ante as transformações sociais.73

Segundo Nilza Botelho, várias ciências necessitam da colaboração do estudo do folclore para aprofundar suas teorias e, desta forma, a psicologia pode utilizar o conhecimento folclórico para melhor interpretar o comportamento humano individual e coletivo ao analisar vários fenômenos mitológicos e artísticos. Na educação, o estudo do folclore é pertinente para que, desde a infância, o indivíduo compreenda e busque compartilhar os mecanismo morais, sociais e lingüístico de seu povo. O antropofágico Mário de Andrade dizia: “Nada melhor do que as tradições para retemperar a saúde da nossa alma brasileira”.74

As manifestações folclóricas são divididas em categorias de acordo com sua funcionalidade e características. A sabedoria popular é uma das facetas do folclore e engloba os conhecimentos ou ciência de um povo, como as chamadas simpatias, chás, formas de plantio e é caracterizada como uma forma de ação perante as questões cotidianas. Como expressão mais artísticas destes conhecimentos e sentimentos, estão as artes folclóricas, com uma estética própria e de origem popular, expressada através dos contos populares, representações e ações, como as Folias de reis, Dança das fitas, Festa de São João, entre outras modalidades.

No Brasil, a religião e o folclore caminham de mãos dadas e oferecem um retrato do sincretismo religioso presente no país ao agregar valores teológicos dos negros, oriundos, por exemplo, do candomblé e da umbanda, indígenas, provenientes das religiões pré-colombianas e dos brancos com sua herança judaica-cristã. Entre as manifestações folclóricas religiosas estão os rituais e festas que possuem como função o culto de divindades e a experiência espiritual-religiosa.

As demais dinâmicas folclóricas estão relacionadas à forma de produzir ou exercer uma profissão, chamado de ofícios e técnicas, além das formas de alimentação, de indumentária, de construção e adorno de residência e a forma de relação estabelecida pelos integrantes daquela comunidade, a partir de regras e normas morais pré-estabelecidas que são, na maioria, tradicionais.

É relevante considerar a associação e o entrelaçamento dessas expressões folclóricas em um mesmo ato folclórico, como ocorre em grande parte das festas tradicionais da cultura brasileira.

3.3 Especificidades e manifestações do Folclore Brasileiro

As origens do folclore brasileiro estão relacionadas, principalmente, às práticas de outros três povos: os indígenas, os portugueses e os negros. Os indígenas ofereceram valores como o cuidado com a natureza e as formas de cura medicinal rústica, além de figuras lendárias clássicas, como Curupira e Mãe d’água, em uma clara associação entre as experiências humanas e os acontecimentos naturais.

Dos portugueses foram herdados valores religiosos ocidentais, com raízes judaicas, cristãs e até mesmo mulçumanas ou mouras e também introduziram no Brasil uma religião dominante, o catolicismo romano, além de formas próprias de pensamento e racionalização, através da escrita e do desenvolvimento de instituições de ensino formal, como escolas e universidades. É interessante perceber ainda que os contos de fadas tradicionais, constituídos de personagens como princesas, bruxas, madrastas e príncipes foram introduzidos pelos imigrantes portugueses e tiveram forte influência na formação dos contos populares próprios do Brasil.

Já o povo africano negro trouxe em seu sangue a tristeza, a sensualidade e a resistência, exprimidos, principalmente, em seus rituais religiosos e artísticos, exemplificados pelas cerimônias do candomblé e do jogo da Capoeira.

Além desses três principais povos, outras etnias tiveram forte influência na construção do folclore brasileiro, como os árabes, os italianos e os alemães. Os árabes chegaram ao Brasil entre o século XIX e XX, fugindo dos conflitos no Oriente Médio, especialmente nas regiões que correspondem ao Líbano e à Síria. Sua cultura adicionou ingredientes às formas simbólicas e costumes brasileiros, em setores como o comércio e a culinária. Os italianos tiveram forte participação na formação da cultura do sudeste e sul, a partir da imigração dos mesmos para o Brasil também entre os séculos XIX e XX e deixaram para trás a fome, a falta de terras produtivas e as guerras. Os italianos introduziram valores na alimentação e nas formas de trabalho, colaborando para a sustentabilidade das lavouras e o desenvolvimento da indústria do Brasil, com base em uma qualificação e preparo superior aos habitantes do Brasil naquele período. Os alemães, como os italianos, trouxeram com suas comitivas aspectos próprios da cultura germânica que sobrevivem até hoje em regiões como Blumenau, no sul do Brasil.

Cada região do Brasil possui suas características folclóricas próprias. Essa especificidade está ligada tanto aos fatores geográficos e ambientais quanto às influências recebidas de outras comunidades, porém é possível perceber a tentativa de estabelecer uma integração territorial e cultural entre as regiões brasileiras.

A região Norte, que corresponde aos estados do Amazonas, Pará, Acre, Roraima, Rondônia, Amapá e Tocantins, possuem como característica as densas florestas e sua rica fauna e flora. Suas manifestações folclóricas têm estreita relação com a cultura indígena, desde a alimentação, composta, especialmente, de mandioca, milho e peixes, até os mitos e lendas relacionados à natureza. Segundo Nilza Botelho, os principais folguedos da região são: Boi-Bumba, a dança do Maraxibo e a festa do Círio de Nazaré.

A festa do Boi-Bumba é a mais famosa da região e é caracterizada pela luta entre dois bois, conduzidos por dois personagens chamados de Pai Francisco e Mãe Catirina, sendo que no Amazonas esse folguedo é realizado no Bumbódromo de Paritins com os famosos Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul) que se enfrentam durante a manifestação. Luis Câmara Cascudo no livro “Dicionário do Folclore Brasileiro” descreve essa manifestação:

O enredo desse folguedo apresenta uma série de variantes. Uma delas é narrada como fato acontecido: Caterina ou Catirina, mulher do escravo Pai Francisco, solicita que lhe tragam uma língua de boi, para satisfazer seu desejo de mulher grávida. Para atendê-la, Pai Francisco rouba um boi de seu patrão, dono da fazenda, e tão logo inicia a matança é descoberto. Sendo aquele o boi predileto do patrão, a fazenda toda se mobiliza para “salvar” e ressuscitar o animal. Entram em cena Pai Francisco, Pajés e Caboclos de pena que, numa movimentadíssima coreografia, seguindo o ritmo dos instrumentos musicais, encerram a primeira parte da apresentação. 75

É interessante ressaltar a presença de animais e a personificação dos mesmos nos diferentes contos folclóricos mundiais, como ocorre no Boi-bumba ou Bumba-meu-boi.

Na região Nordeste, que corresponde aos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, são comuns as festividades relacionadas aos bois, como as Vaquejadas e as relacionadas com figuras tradicionais nordestina exemplificadas pelos Cangaceiros e pelos místicos, como Padre Cícero. Entre uma das maiores expressões, está a literatura de cordel, genuinamente popular. O filme “O auto da Compadecida”, baseado na obra do pernambucano Ariano Suassuna, por exemplo, retrata bem a alma sertaneja nordestina, com personagens típicos como beatas, miseráveis e coronéis.

Da região litrorânea do Nordeste são conhecidas manifestações como: Fadangos, Reisados e Marujadas, especialmente influenciadas pela colonização européia (principalmente de holandeses e franceses). Muitas das festas giram em torno da cana-de-açúcar, do engenho, antiga fonte econômica que estruturou também a hierarquia social e as relações entre as classes daquela região. A África também teve grande influência nas práticas nordestinas, com práticas religiosas-culturais como o candomblé, a capoeira de Angola e o samba, principalmente no estado da Bahia.76

Na Região Sudeste, que inclui os estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo, diversos fatores influenciaram sua construção folclórica, que mesclam valores de diversas culturas e em sua maioria com origem religiosa cristã. Entre as festas que se destacam estão: de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, festa Junina, de Nossa Senhora Aparecida e o Carnaval. Além da forte influência européia, o legado negro adicionou às expressões folclóricas do sudeste símbolos provenientes de suas religiões de origem, através de figuras como Iemanjá e a mescla de características cristãs e africanas em santos, como Nossa Senhora do Rosário e Cosme e Damião.

Um dos folguedos mais importantes e também presente em outras regiões brasileiras é a Folia de Reis, realizada após o Natal e possui como referência o ritual de entrega dos presentes a Jesus Cristo pelos reis magos. Cascudo descreve essa manifestação:

Antigamente, em Portugal, era uma dança rápida, ao som do pandeiro ou do adufe, acompanhada de cantos. Fixou-se posteriormente, tomando características e modos típicos diferenciadores. Um grupo de homens, usando símbolos devocionais, acompanha com cantos o ciclo do Divino Espírito Santo, festejando-lhe a véspera e participando do dia votivo. Especialmente na Beira, a Folia do Espírito Santo popularizou-se e resiste. Não tem em Portugal o aspecto precatório da folia brasileira (mineira ou paulista). Há a bandeira, como o Espírito santo (a pomba), pintado ou desenhado, a varinha de madeira com fitas de seda, flores artificiais e uma coroa de folha-de-flandres, ornamentada. O rei leva a varinha (cetro), os Alferes a bandeira, o Pajem a coroa, os Mordomos lanternas, um dos Fidalgos o tambor e outros instrumentos, quando eram usados. Os seis fidalgos dividem-se em dois grupos, a fala ou sonora e o segundo-contra, baixo-falsete ou tipi, cantando os versos tradicionais, improvisados ou decorados, bendito, louvado, etc. de Ressurreição ao Pentecostes a Folia percorre as ruas onde é de praxe passar a procissão e, depostas as insígnias na igreja, vai jantar. Esse jantar é protocolar, com cardápio especial, e tem um cântico para cada um dos pratos. No fina, cada componente recebe do anfitrião um ramo de flores, obrigando a um novo canto. (...) No Brasil a folia é banco precatório que pede esmola para a festa do Divino Espírito Santo (Folia do Espírito Santo) ou para a festa dos Santos Reis Magos (Folia de reis). 77

Na Região Sul, que engloba os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, é indiscutível a forte presença da cultura européia. Deve-se destacar que no Rio Grande do Sul há um centro de preservação do folclore, com práticas que têm como referências os valores folclóricos europeus, especialmente o alemão e o italiano. Entre as manifestações típicas estão o Fandago, a Chimarrita e a Dança-de-Fitas. Entre os folguedos há a Cavalhada de Mouros e Cristãos e o Vilão. As principais festas sulinas são: Festa da Uva, de S’anta Ana e de Nossa Senhora dos Navegantes (Porto Alegre).

Na Região Centro-Oeste, que inclui os estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal, tem como influências folclórica indígenas e a brancas, porém são poucas as manifestações específicas da região, muito parecidas com as da região Sudeste. Entre elas estão: Festa do Divino, de Nossa Senhora da Abadia, da Santíssima Trindade e as corridas de cavalo, como as Lutas de Mouros e Cristãos (em Pirinopólis) e a Vaquejada.

Fundamentado nesta análise básica, esta investigação monográfica parte do pressuposto que na microssérie Hoje é dia de Maria a protagonista mergulha e promove a narrativa do inconsciente coletivo a partir das expressões folclóricas brasileiras, com a participação de figuras emblemáticas da cultura popular, adaptações de contos populares e de fadas e cantigas que povoam o imaginário nacional desde a infância, como exprime o slogan de campanha do programa: “A magia da infância vai surgir diante de você”. É sobre esta dialética, promovida através da relação consciência e inconsciência estabelecida entre o programa e seus esquemas de conteúdo que a análise do objeto deste trabalho monográfico trata.



4. CAPÍTULO III - OS ASPECTOS DE CONSTRUÇÃO DE CONTEÚDO E LINGUAGEM NA MICROSSÉRIE HOJE É DIA DE MARIA
A análise do objeto desta investigação monográfica parte da interpretação de que a microssérie Hoje é dia de Maria – 1ª jornada (Rede Globo – 2005) possui em sua narrativa aspectos psicológicos e culturais estudados pela psicologia analítica, através da exploração dos arquétipos na composição das personagens e seus conflitos, dos contos folclóricos brasileiros e estrangeiros com temáticas universais e um formato de editoração e exibição diferenciado em relação às outras produções televisivas, o que a coloca como uma iniciativa de produção diferenciada.
Esta análise científica é dividida em categorias, hierarquicamente apresentadas de acordo com a ligação estabelecida entre elas na configuração da obra, primeiramente as personagens até a estética audiovisual proposta pelo programa.
4.1 PERSONAGENS E CONFLITOS – DE TE FABULA NARRATUR (A HISTÓRIA É A RESPEITO DE TI)78
As personagens que compõem o espaço ficcional de Hoje é dia de Maria se baseiam em arquétipos, segundo a teoria da psicologia analítica, ou seja, são imagens primordiais do inconsciente coletivo, não indivíduos específicos médios com questões psicológicas próprias, mas seres transcendentais que representam valores universais. Olavo de Carvalho comenta a especificidade desse tipo de personagem em narrativas fundamentadas na busca pelo autoconhecimento:

Os heróis da narrativa iniciática, sem terem poderes divinos nem falarem diretamente em nome de Deus, são seres humanos de excepcional envergadura, protegidos ou guiados de perto por forças divinas, cuja presença e atuação no mundo eles representam de maneira mais ou menos sutil e indireta.79


Olavo de Carvalho ainda observa que “os personagens, não agindo segundo causas psicológicas redutíveis à escala da humanidade média - do homem médio são ou do psicopata médio -, tornam-se, literalmente, seres fora do comum: gigantes em luta. Do médio ou do típico, passamos ao arquétipo”.80
Desta forma, a microssérie Hoje é dia de Maria é construída a partir de uma narrativa iniciática, em que as personagens buscam o crescimento psicológico e espiritual em um tipo de narrativa teorizada por Northrop Frye81, com base na classificação dos gêneros narrativos proposta por Aristóteles, chamada modalidade imitativa elevada que caracteriza-se por uma construção ficcional em que o ser humano é um excepcional ser, de forte envergadura moral, que rompe barreiras e obstáculos com a ajuda não explicita de forças sobrenaturais ou divinas. Este é o caso das personagens da microssérie, especialmente a protagonista, Maria (Carolina Oliveira e Letícia Sabatella). Neste contexto narrativo, é certo o processo de identificação entre a obra e os telespectadores, pois a personagem heróica, como arquétipo, apresenta aspecto inerentes e tocantes a qualquer ser humano, como enfatiza von Franz:

Retornando ao herói e à heroína, identificar-se a esse estilo de personagem é tão evidente e espontâneo que é difícil manter uma certa objetividade em relação a elas; nós nos reconhecemos nelas, vivemos suas aventuras imaginárias, mas não nos questionamos sobre o que são ou o que representam. 82


Maria, como personagem arquetípica, inicia sua jornada como criança, chega à idade adulta e retorna à infância, percorrendo sempre os mesmos caminhos, mas transformando cada vez mais sua forma de enxergar o mundo e si mesma. No momento da partida para a caminhada em busca de sua realização pessoal e no momento do retorno em que alcança seu objetivo, Maria aparece na imagem de uma criança. Marie Louise discorre sobre a utilização dessa imagem nos contos de fadas e o que ela representa:

Existem muitos contos de fadas cujos personagens principais podem ser interpretados como representantes da anima ou do animus. Estes contos destacam modelos de relacionamento humano: os processos que ocorrem entre homem e mulher ou os fatos fundamentais da psique que estão além das diferenças entre o masculino e o feminino. Muitos contos sobre a redenção mútua são este tipo. Em tais histórias, em geral, as crianças têm os papéis principais – como, por exemplo, Hansel and Gretel (João e Maria). Sendo as crianças relativamente indiferenciadas tanto sexualmente como psiquicamente, elas estão muito mais próximas da imagem do ser hermafrodita original. Esta é a razão pela qual a criança também é um símbolo do SELF – de uma totalidade interior futura e, ao mesmo tempo, dos aspectos não desenvolvidos da individualidade. A criança significa uma parte da inocência e do maravilhoso que sobrevive em nós desde um passado remoto; ela é aquela parte de nossa infância pessoal que já passou, como também a forma nova e recente da individualidade futura. Vista sob esse enfoque, dizer que a criança é o pai do homem tem significado profundo. 83


Fig. 1: Maria criança (Carolina Oliveira) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Maria começa sua trajetória em seu desequilibrado lar, sem sua mãe e irmãos, ao lado de um pai confuso e deprimido pela perda da harmonia que existia em sua família e pela decadência exposta em sua pequena propriedade rural. Maria, porém, prossegue forte e disposta a ajudá-lo a sobreviver às adversidades.
No primeiro capítulo, a narradora já apresenta a história nos moldes lingüísticos dos contos de fadas, com o tradicional: “Era uma vez, num lugar ainda sem nome, uma menina chamada Maria”.A partir desse momento, inicia-se a apresentação de alguns arquétipos: a Criança Divina (Maria), Pai (Logos paterno), a Mãe (humana e divina concomitantemente) e a Madrasta (parte má da imagem universal de Mãe). É interessante constatar também que nesta primeira jornada não foram utilizados nos principais personagens nomes próprios, mas sim substantivos que denotam suas funções psicológicas e sociais dentro do contexto da obra.
Em um ambiente rural, tipicamente brasileiro com características da região nordestina, é construído o primeiro e principal conflito da existência humana, a relação com os pais e a representação que eles fornecem de arquétipos como a Anima e o Animus.
Maria sem a figura materna, procura respostas em Pai (Osmar Prado) que está em intensa introversão de sentimentos, entregue aos vícios e a tristeza. No primeiro capítulo, uma passagem importante acontece quando o Pai tenta violentar Maria e é impedido pelo pássaro.
Este tipo de representação da relação entre pais e filhas é explicado pela psicanálise através da teoria do complexo de Electra, em que a filha possui paixão pelo pai e vice-versa e busca no exterior um homem que corresponda à imagem ideal deste pai.

Fig. 2: Pai (Osmar Prado) na microssérie Hoje é dia de Maria. . Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Já na psicologia analítica, a figura paterna nos contos de fadas remetem ao animus, aspecto masculino inconsciente nas mulheres e projetado na figura externa exercida pelo pai. Em um conto chamado Pele de Asno, após a morte de sua esposa, o pai resolve se casar com a própria filha, que foge vestida com a pele de asno e acaba encontrando um príncipe, por quem se apaixona e se casa. Essa fábula mostra a relação de transferência feita pela menina com a figura do pai, que na psicanálise é explicada pela busca externa e sexual de um indivíduo que corresponda à idealização feita por ela do pai e na psicologia analítica é o equilíbrio do Animus inconsciente a partir da representação do mesmo na vida cotidiana, através do pai.
Após esse importante acontecimento, Maria conhece Madrasta (Fernanda Montenegro), que a seduz com sua falsa bondade e consideração ao oferecer mel para adoçar sua vida. A figura da madrasta é explicada na psicanálise e na psicologia analítica como a outra face da imagem materna e caracteriza-se pela dissimulação e uso de artimanhas para chegar aos seus objetivos, como ser um ser perverso e amoral.

Fig. 3: Madrasta (Fernanda Montenegro) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Para se afastar do amor de Pai, Maria propõe para ele o casamento com Madrasta, que ocorre ao som de um grupo de Folia de Reis. Como nos contos de fadas, após o casamento o Pai parte e deixa Maria aos cuidados de Madrasta, que a faz trabalhar incessantemente.
Nesses momentos difíceis, Maria busca conselho e conforto nas palavras de Nossa Senhora da Conceição (Juliana Carneiro), sempre próxima às águas. A Nossa Senhora representa para Maria sua mãe perdida e, mais simbolicamente, o arquétipo da Grande Mãe, expressada pelas forças da natureza e valores femininos, funcionando também como representação desenvolvida da anima, o quarto estágio, o mais desenvolvido deste arquétipo, o espiritual.
No primeiro encontro entre Maria e Nossa Senhora, o diálogo entre elas explicita essa relação, quando a última diz que a mãe de Maria era “boa que nem terra, que tudo dá”. Não é por acaso que na cultura popular fala-se que quem governa as forças naturais é a Mãe Natureza.
Outro conselho importante e triunfal para sustentar a caminhada de Maria foi: “Bondade tem que ser fortaleza, tem de ter gana de lutar para não padecer”.Fortaleza é uma das virtudes promovidas pelo cristianismo e proporciona ao crente subsídios para enfrentar os obstáculos da vida.
Jung comenta as características e formas de expressão da Anima:

A anima é a personificação de todas as tendências psicológicas femininas na psique do homem – os humores e sentimentos instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas nem por isso menos importante, o relacionamento com o inconsciente. A anima (o elemento feminino da psique masculina) é muitas vezes personificada por uma feiticeira ou por uma sacerdotisa – mulheres ligadas às “forças das trevas” e ao “mundo dos espíritos” (o inconsciente). 84


Fig. 4: Nossa Senhora da Conceição (Juliana Carneiro) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Há ainda um texto místico medieval que explica claramente as características, funções e a importância da Anima que representa, segundo Goethe, o Eterno Feminino:

Sou flor dos campos e os lírios dos vales, sou a mãe do terno amor, do medo, do conhecimento e da sagrada esperança (...) Sou a mediadora dos elementos, fazendo com que um entre em comunhão com o outro; o que está quente torno frio e o que está frio, quente, o que está seco faço úmido, e vice-versa; o que está rijo eu amacio (...) Sou a lei na boca do padre, a palavra do profeta, e o conselho do sábio. Mato e dou vida, e ninguém pode escapar às minhas mãos. 85


Assim, Nossa Senhora passa para Maria valores originais que mesclam aspectos femininos, como a prudência, a abnegação e a paciência, e masculinos, como a disposição para a luta, o comportamento ativo e lhe dá a chave que abrirá o coração do amado ou Animus. Mas Maria ainda precisa enfrentar Madrasta, que decide por fim em sua vida, apagando a vela que a menina ofereceu para Nossa Senhora e que era sua arma, sua força contra os jogos do mal.
Nesse momento, Maria morre entoando o canto:

“Meu querido nhô meu pai, não me cortes os cabelos. Minha mãe me penteou, minha madrasta me enterrou, pelo figo da figueira que o pássaro embicou.” Marie Louise ao analisar contos de fadas, observa o cabelo como símbolo do inconsciente:

Cortar o cabelo e sacrificá-lo significa, freqüentemente, submissão a um novo estado coletivo, um renunciar e um renascer. A arte de arrumar (coiffure) é uma expressão de uma Weltanschauung cultural. Contos folclóricos primitivos falam de demônios que, sendo capturados, são penteados e seus piolhos catados, o que significa a confusão no inconsciente tem que ser ordenada e conscientizada. Por causa desse significado é que no início da análise é freqüente sonhar com cabelos selvagemente desalinhados. O pente, conseqüentemente, representa a capacidade da pessoa ordenar seus pensamentos, clareá-los e torná-los conscientes.86
Interpretando o canto de Maria, com base na observação de Von Franz, Maria pede ao pai que a deixe como está, ela não deseja mergulhar em seu inconsciente, tão pouco mergulhar nele e que sua mãe consegue conscientizá-la de sua situação psíquica e acalmá-la, como realmente ocorre nos diálogos entre Maria e Nossa Senhora. Logo, ao apagar a vela que Maria oferecia a sua santa de devoção, Madrasta rompeu o laço que ligava Maria com o divino, com a sabedoria feminina e morre psicologicamente.
Pai volta de viagem, procura por Maria, descobre que ela foi morta por Madrasta e está enterrada em um campo florido do sítio. Pai saí em busca da cova da filha, orientado por uma borboleta, símbolo de renascimento e beleza, e a encontra enterrada. Com a volta da atenção de Pai, Maria se reconcilia com seu Logos paterno e volta para casa, carregada pelo pai. Madrasta rejeita e humilha Maria, que decide partir em busca de seu “tesouro”, em uma jornada sem fim em busca de si mesma. Mas Madrasta a adverte:

Ocê de certo tá cuidando que é coisa fácil, não é não. Por essas estradas aí de longura não tem noite nunca. Deu-se o caso que roubaram a noite e não tem esse nascido de mulher que agüente viver sem noite. Vai, vai, vai, ocê hai de morrer sequinha, esturricada.


Ao dizer essas palavras, Madrasta afirma que o mundo que Maria enfrentará vive somente na razão, já que o sol, como símbolo masculino, representa a racionalidade. Para um ser humano, é impossível sobreviver somente na razão, sem noite, sem alma, sem o princípio feminino. É relevante citar que, além das narrativas míticas pagãs, o arquétipo da jornada em terras secas aparece duas vezes na doutrina cristã, primeiramente no velho testamento, na travessia dos judeus do Egito rumo à Palestina que durou 40 anos, e posteriormente no novo testamento, quando Jesus padeceu 40 dias no deserto lutando contra as tentações oferecidas por satanás, ação relembrada liturgicamente através da Quaresma.
A narradora explicita essa mudança de Maria:

Entonce, de maneiras que foi assim por esta forma. Maria ganhou estrada, vergou caminhada sem querer ter fim. O pai fingia que ela sabia nem da Terra do Sol a Pino que secava bicho, homem e menino. Mais fecha a janela dos olhos, dorme e sonhe, que a noite lhe seja risonha ...”.


Ao expulsar Maria de seu lar, Madrasta a impulsionou para o crescimento, para a busca do auto-conhecimento e da realização individual. Marie Louise observa essa influência das figuras maléficas, como a madrasta, no sucesso do herói:

Então, a madrasta tem um caráter ambíguo: com uma das mãos ela destrói e com a outra leva ao bom êxito. Sendo uma mãe temível, ela representa uma resistência natural que bloqueia o desenvolvimento mais elevado da consciência, uma resistência que exige do herói suas melhores qualidades. Em outras palavras, perseguindo-o, ela o ajuda.”87


A atitude de Maria de sair de casa é bastante reveladora e explicita a sua necessidade de encontrar algo novo que a liberte. Marie Louise comenta a representatividade da saída do herói de seu reduto familiar e sua correspondência com o processo de individuação:

Este herói está completamente sem destino. Ele não tem compromissos em casa e nenhum destino específico fora dela. Esta é uma boa pré-condição para uma ação heróica – um ponto que é freqüentemente enfatizado. Ele está cansado de casa, pela sua herança e sai pelo mundo – tudo isso indica que a energia já deixou o consciente e reforçou o inconsciente. Só se pode descobrir o mistério do inconsciente como uma realidade quando se é despretensiosamente curioso, e não quando se quer atrelar força e poder em algum planejamento prévio do consciente.88


Cláudio Paiva ainda completa:

O signo mais evidente na estória de Maria diz respeito ao tema da jornada, presente no imaginário coletivo desde as épocas mais remotas, sendo o seu relato mais conhecido a Odisséia, de Homero, que reaparece atualizado na modernidade de Ulisses (James Joyce, 1922). No entanto, como se trata de um arquétipo que estrutura a imaginação popular desde os primórdios da civilização, significa também a busca de si e o conhecimento do grande outro enunciado pela psicanálise. Em Hoje é dia de Maria o foco incide sobre uma figura feminina, uma menina de oito anos, algo já explorado na literatura, cinema e televisão, como Alice no país das Maravilhas e O mágico de Oz. “... Maria” possui a originalidade de situar poeticamente o tema da “odisséia”, como signo de expansão da consciência feminina, no contexto da realidade social brasileira. Mas não podemos esquecer que no centro da trama está a questão da infância e percebemos que, se num primeiro momento o trajeto se perfaz em direção ao exterior, pois a menina Maria vai à estrada descobrir o mundo, num segundo momento, após de ter passado pela transformação de menina à moça, tendo enfrentado desafios e vencido obstáculos, a sua viagem, então, será de retorno à casa, e nesse processo vai olhar o mundo e os seres (os amigos e os inimigos) com outros olhos.89


No segundo capítulo, Maria avança efetivamente em sua caminhada, e descobre que ao seu lado está um estranho pássaro, a personagem Pássaro Incomum, que se torna seu companheiro no processo.

Fig. 5: Pássaro Incomum na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Maria em sua jornada mistura aspectos femininos e masculinos ao oferecer feminilidade ao discurso patriarcal vigente e subvertendo em diversos conflitos o papel da mulher nessa sociedade. A música Constança exemplifica um aspecto feminino importante para o desenvolvimento de Maria: “Constança, meu bem, Constança, constante sempre serei, constante até a morte, constante eu morrerei.”
Maria encontra uma figura importante, que aparece como um anjo, como ser um ser sábio, enviado para ajudá-la em sua caminhada ao fornecer informações importantíssimas para que Maria siga com a bagagem necessária para o seu êxito final. Primeiramente, esse ser aparece como um Maltrapilho que fala de forma poética e sólida sobre o humano: “Esse é um mundo que está para ser feito e no fundo de tudo um defeito é degrau importante na escada do perfeito. Torto, pobre, mal feito, todo ser vivente pode andar reto porque humano não é ruim nem bom. Humano é ser incompleto”
Com esta fala, Maltrapilho assinala que o homem não é um ser perfeito e que seus erros devem colaborar para o seu crescimento e redenção. Maria, porém, não concorda com ele, dizendo que existe sim, gente perfeita, cheia de bondade.
Maria faz sua primeira boa ação ao cuidar das feridas de Maltrapilho e este deixa para ela um amuleto que lhe ajudará a enfrentar os executivos, sumindo sem deixar rastros.

Fig. 6: Maltrapilho (Rodolfo Vaz) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Maria prossegue caminhando e encontra o Homem de Olhar triste, outra faceta do “anjo”, que tem ao seu lado um cadáver que não pode ser enterrado porque não pagou suas dívidas.

Em seguida, chega um grupo de executivos que lhe informam que naquela terra não se pode morrer deixando dívidas e que só se alguém bom pagasse os débitos do cadáver ele poderia ser enterrado.



Fig. 7: Homem de Olhar triste (Rodolfo Vaz) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Maria então resolve usar o presente dado por Mendigo, um pequeno arame coberto com retalhos que se transforma em serpente e assusta os executivos. Rapidamente, Maria surrupia dos próprios executivos a quantidade de dinheiro necessária para pagar a dívida do infeliz cadáver. Ao receber o pagamento, os cobradores permitem que Maria e o Homem de Olhar Triste enterrem o defunto.

Fig. 8: Executivos (Charles Fricks e Leandro Castilho) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Essas duas boas ações de Maria funcionam como provações aos seus desejos e exaltam valores morais como a generosidade e a solidariedade, que serão muito importantes nos momentos de enfretamento com a sombra, representada por Asmodeu.
Enquanto isso Pai parte em sua busca por Maria. Simultaneamente, Maria encontra os retirantes nordestinos que pedem a Jesus forças para chegar às terras das franjas do mar e dizem a Maria: “Ei, se a menina conseguir chegar ao mar, não se esqueça de quem se perdeu no caminho. Estamos todos na mesma jornada.”Além dos signos universais e psicológicos apresentados pela microssérie, a mesma propõe uma discussão sobre as questões sociais brasileiras, como a seca no Nordeste e o descaso por parte do poder público frente à população residente essa região.
Mais uma vez o anjo pede ajuda à Maria, mas agora como Mendigo implora por água. O diálogo irônico entre Maria e Mendigo explicita como compete à ela a escolha de ajudar ou não o próximo:

Maria: - Ué, você já tava, aí já?


Mendigo: - Desde que o mundo é mundo eu tô aqui. Ocê que não percebeu! Tem sede!
Maria: - Minha língua também, tá uma secura só.
Mendigo: - Mas eu tenho mais sede. Eu penei mais no mundo.
Maria: - Cada um que sabe da sua sede.
Mendigo: Tá certo, decide quem tem mais sede é quem tem a água, né?!
Ao perceber, inconscientemente, que está em um mais teste de bondade forjado pelo destino, Maria entrega com bom grado a água para Mendigo, que lhe oferta em troca mais uma pista para o seguimento de sua jornada: encontrar a noite, que está na posse dos índios.

Fig. 9: Mendigo (Rodolfo Vaz) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Enquanto prossegue, Maria não percebe conscientemente a companhia de seu amigo Pássaro Incomum, mas este a ajuda e projete do calor intenso da Terra do Sol a Pino, lhe fornecendo uma armadura natural, semelhante a um ninho, que guarda sua pele do sol enquanto descansa. Como símbolo masculino e divino, por estar acima de Maria, voando, Pássaro Incomum pode ser considerado psicologicamente o Animus inconsciente e próprio de Maria, que lhe disponibiliza a energia necessária para a racionalização em seus momentos de tristeza e indecisão. Em todo o percurso realizado na Terra do Sol a Pino, Maria depara-se com símbolos masculino: o anjo, o pássaro, o sol, até encontrar a noite com uma tribo de índios.
Após seu descanso, Maria vê os índios, lhes pergunta sobre a noite e eles a entregam presa em um coco. A retenção da noite dentro de um recipiente oco e natural remonta ao mito do ovo cósmico que guarda o princípio da vida, a dualidade entre dia e noite e o renascimento após uma sucessão de acontecimentos caóticos. Em Hoje é dia Maria, o ovo cósmico presente nas lendas chinesas e celtas, por exemplo, é substituído pelo coco, signo fortemente estabelecido como brasileiro.
Ao devolverem a noite ao mundo, os índios e Maria restabelecem a harmonia natural da dualidade, com o nascimento e o pôr-do-sol, aspecto masculino, expressado através da luz e seu poder racionalizador, e a volta da noite, de aspecto feminino e sensual. Nesta cena, Maria observa, hipnotizada, Pássaro Incomum brincar esfuziante na água e agradece a mãe por encontrar a noite. De acordo com Cláudio Paiva, a noite na microssérie demonstra o retorno de valores como a paixão, a sensualidade e o êxtase:

O princípio noturno historicamente tem uma significação ligada à sensualidade, antes mesmo de remeter às pulsões eróticas, e pelo viés do noturno, a partir deste momento, a narrativa vai ganhar uma aura de sensualidade e a trilha sonora contribuirá vigorosamente para isso.90


Outro símbolo que evidencia o fato da narrativa estar voltada para o resgate do feminino é a presença de opulentas rosas vermelhas nas cenas que evocam o clima noturno. Chevalier comenta o significado semiótico da rosa:

A Rosa simboliza o dom do amor e sua pureza. “A rosa tornou-se um símbolo do amor e mais ainda do dom do amor, do amor puro (...) a do Romanceda Rosa, de Guillaume e Lorris e Jean de Meung transformaram no misterioso tabernáculo do Jardim de Amor da Cavalaria, rosa mística das litanias da Virgem, rosas de ouro que os papas oferecerão às princesas dignas, enfim a imensa flor simbólica que Beatriz mostra a seu fiel amante, quando este chega ao último círculo do Paraíso, rosa e rosácea ao mesmo tempo.91


Maria se retira desse ambiente mitológico e encontra, na mesma escura noite, os pequenos meninos carvoeiros, explorados e maltratados pelo temível Asmodeu. Esta ação exemplifica mais uma vez a tentativa dos autores de promover uma crítica social, ao abordar o trabalho infantil e a desigualdade social, situações que permeiam a sociedade brasileira e mundial e precisam ser discutidas nos âmbitos ético e político. Além da denúncia social, um aspecto simbólico também ocorre na cena da carvoaria quando uma menina conta à Maria que todos que ali estão venderam suas sombras para o maléfico Asmodeu, o que deixa Maria abismada. Asmodeu aparece recriminando os pequenos trabalhadores, porém, não tem um diálogo específico com Maria.
No terceiro capítulo, a narradora alerta para um dos mais importantes encontros de Maria e seu comportamento frente a Asmodeu: “Entonce, acende os olhos, alerte os ouvidos, porque a vida é tesouro que nem por ouro se faz trato com o demo, nem coma no seu prato.”
A primeira aparição oficial de Asmodeu acontece na festa em homenagem a São José, com características típicas das festas religiosas brasileiras: com procissão de velas, estandartes com imagens do santo e uma pequena quermesse. Maria acha uma pequena lata no chão e resolve chutá-la, mas o objeto ganha vida, emitindo sonhos estranhos, como a música Xô Satanás e logo após transforma-se em Asmodeu Bonito (João Sabiá).

Fig. 10: Asmodeu Bonito (João Sabiá) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Antes de prosseguir o paralelo entre a narrativa e sua interpretação, é imprescindível evidenciar o papel de Asmodeu no contexto ficcional de Hoje é dia de Maria. Esta personagem aparece como um símbolo do arquétipo sombra, inclusive cobiçando esse aspecto da psiquê nas outras personagens, caracterizado pela sua morfologia que mescla o humano e o animal.
Asmodeu significa no hebraico “aquele que faz perecer” e é uma personagem pouco importante no velho testamento da Bíblia e era designado como um ser maléfico e leviano que, primeiramente, atrapalhou as uniões conjugais de Sara, filha de Ragüel e acabou preso por Rafael, anjo da presença e protetor dos humanos. Asmodeu reaparece nos livros hebraicos no Testamento de Salomão, novamente como um ser lascivo e a amoral, que sabia o paradeiro do precioso shamir, necessário para a construção do Grande Templo e que dizia poder ver além das aparências.92
Ainda segundo a herança judaica, os demônios foram criados ao anoitecer da sexta-feira da criação e são espíritos desencanados, sem sombra, nem polegares, como os bodes, que vagueiam incomodando a vida humana, com conhecimento do futuro. Entre os grandes demônios personificados estão Samael, o arquidemônio ou Satã e Lilith, a primeira esposa insubmissa de Adão, que seduz os homens no escuro da noite. 93
Asmodeu retorna nas narrativas do novo testamento, porém como um dos vários demônios e, posteriormente, sua representatividade é transferida para Lúcifer, o anjo caído que fracassa perante a força benévola de Cristo. Asmodeu assim representa as forças amorais e instintivas humanas que devem ser banidas da consciência individual e coletiva, como propõe o Cristianismo unilateral, em que só o bem existe. Porém, como já foi dito por Maltrapilho, o ser humano não é mal nem bom, é um ser incompleto que pode buscar ou não a mais intensa e profunda exaltação de sua alma, assimilando seus defeitos, encontrados na sombra inconsciente e reconciliando-os com sua personalidade consciente.
A partir das teorias jungianas, é nisso que consiste o processo de individuação ou crescimento psicológico, um caminho que nunca termina e que é a meta da jornada de Maria.

Desta forma, Asmodeu exprime os desejos inconscientes e obscuros de Maria e das demais personagens, especialmente Quirino. Maria aponta as forças ocultas nos contos de fadas como a sombra reprimida do herói: “A sombra do herói é, pois, aquele aspecto do arquétipo que foi rejeitado pela consciência coletiva.”94


Olavo de Carvalho ao analisar o filme O Silêncio dos inocentes (Jonathan Demme, 1991) percebeu a mesma proposta de jogo arquetípico que acontece em Hoje é dia de Maria, através da protagonista, mulher que luta perseverante contra as energias malignas de um ser ultrajante e unilateral, inteligente, porém comandado por seus instintos mais mórbidos. Olavo comenta o que é o mal:

O mal é uma “relação”, não uma “substância”; uma “sombra”, não um “corpo”. Estudando uma seita satanista contemporânea, um autor informado compara o mal a uma somatória de ausências, a qual dá origem a uma força de sucção que, não podendo subsistir em si e por si, se gruda e se apóia no lado obscuro ou mal conhecido das coisas.95


Como Clarice Starling em O Silêncio dos inocentes, Maria representa o depositário de valores arquetípicos femininos, convertidos em uma sabedoria feminina redentora, que se coloca frente a frente aos valores mais obscuros do ser humano e de si própria, como coloca Carvalho:

O fascínio, a subserviência ante o mal, brota justamente daquelas zonas da alma que nos são mais desconhecidas — do “inconsciente”, se quiserem, depósito, segundo o Dr. Freud, dos desejos e imagens rejeitados pelo consciente. Procurando esquivar-se do olhar malicioso que perfura as defesas conscientes, a vitima amedrontada se prosterna ante o adversário, na esperança de obter sua clemência. É precisamente este o flanco que Clarice não oferece a Lecter: quando ele tenta desmascará-la psicologicamente, ela não foge, não se resguarda atrás de defesas vãs, nem procura enternecer o adversário para aplacar a dureza do seu olhar penetrante; com singela franqueza, ela reconhece a veracidade dos sentimentos infantis que Lecter discerne em seu íntimo; a transparência de seus motivos e a firme aceitação da verdade acabam por transmutar o olhar suspicaz de Lecter, subjugando e pondo a seu serviço toda a malícia do pérfido doutor. Pretendendo desarmá-la, Lecter encontra no fundo dela a fortaleza invencível da intenção reta. E o diabo, que despreza quem o cultua, rende-se com admiração ante a heroína que ama a verdade. Marco Aurélio dizia, por exemplo, que o aspirante a sábio não deve fugir do mal, mas habituar-se a olhá-lo de frente para neutralizá-lo, tornando-se imune ao seu fascínio. 96



Fig. 11: Asmodeu (Stênio Garcia) e Maria (Carolina Oliveira na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria.


Fig. 12: Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) e Clarice Starling (Jodie Foster) no filme O Silêncio dos Inocentes. Fonte Site CineClick


Fisicamente, Asmodeu engloba todas as facetas folclóricas relacionadas aos demônios, com chifres e patas de bode, como relatam Marly Vidal e Jane Marques:

Descrever Pã é aproximar-se muito do nosso Asmodeu: meio homem, meio bode, chifrudo, cascos fendidos, olhos oblíquos e orelhas pontudas. A luz verde que incide sobre parte de sua cara o torna ainda mais horripilante. Arcado, torto, tal e qual o corcunda sineiro de Victor Hugo, pernas arqueadas, pulando como que impulsionado por uma mola, um andar ‘macaqueado’. Bocarra gargalhante, dentes pontiagudos. Voz ao mesmo tempo estridente e cavernosa. Medonho, horripilante, assustador – um monstrengo. Eis o Asmodeu brasileiro. Em tudo similar aos seres fantásticos, que povoaram o mundo antigo e que foram reduzidos a seres inferiores pelo cristianismo.97

Fig. 13: Asmodeu (Stênio Garcia) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Igualmente como ocorre na relação entre Maria e Madrasta, Asmodeu a impulsionará mais uma vez para o crescimento, através dos obstáculos que o mesmo introduz em sua vida. Novamente, a obra Fausto: “Sou parte da Energia, que sempre o Mal pretende e que o Bem sempre cria.” 98
Com sete peles, Asmodeu surge pela primeira vez vestido de homem bonito, que persuade e compra a sombra do ingênuo Zé Cangaia por um simples sanduíche. Zé Cangaia representa um típico brasileiro, de origem nordestina e humilde, que batalha para conseguir simplesmente se alimentar. Ao perceber a empreitada de Asmodeu Bonito contra Zé Cangaia, Maria o enfrenta e ele lhe diz que ela pagará por seu comportamento atrevido.

Fig. 14: Zé Cangaia (Gero Camilo) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Maria inicia uma amizade com Zé Cangaia e lhe fala que não está certo ele vender sua sombra para o diabo. Zé Cangaia arrepende-se do trato e Maria o ajuda invocando Asmodeu em uma encruzilhada, superstição bastante disseminada na cultura popular brasileira. Mas enquanto isso, Asmodeu Sátiro parte para atazanar a vida de Pai, com uma amizade falsa e tenta fazê-lo desistir da busca por Maria, falando que nada vale a pena: “Descansa homem porque a busca não vale a pena. A vida é só uma cena mal escrita, o papel é pouco, pequeno, cheio de sofrimento. (...) Aproveite o momento, eu lhe digo. Troco sua sombra por um brinde sincero de amigo.” Desta maneira, Asmodeu tenta consumir a esperança consciente de pai ao retirar o sentido da vida humana.

Fig. 15: Asmodeu Sátiro (Ricardo Blat) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Mas nesse momento, Maria invoca Asmodeu para conseguir de volta a sombra de Zé Cangaia e ele lhe diz que para isso ela necessita acertar três charadas e ganhar um desafio tipicamente nordestino, na estrutura de um repente. Maria vence e Asmodeu lhe jura vingança dizendo:

Aproveita menina. Eu vou encurtar a felicidade dos seus dias. Eu vou pôr peso em sua sina Maria e vou dobrar cada lágrima que a você se destina. Eu vou estar em cada dobra de esquina, em cada curva de estrada, em cada parada eu vou estar lhe esperando. (...) aproveita o pouco tempo que é seu, o lote de tempo mais longo vai ser meu, porque eu sou aquele que entorta os caminhos, amarga as águas no pote, azeda o vinho, planta a magoa no fundo do coração humano. Aproveita esses seus anos de menina, essa alegria boba de vida. Aproveita! Que sua infância já tem dono e logo vai desaparecer e aí vai ser só você, eu e o mundo. Ai de você que cruzou o meu caminho.


Nesta prosa Asmodeu evidencia ainda mais o seu papel no crescimento de Maria. Além do primeiro duelo entre bem e mal, entre Maria e Asmodeu, o capítulo comenta a necessidade do verdadeiro valor da amizade, representando na afinidade e preocupação mútua estabelecida por Maria e Zé.
No quarto capítulo, Maria encontra Asmodeu brincante, com sua falsa e medíocre alegria, em um falacioso fandango e ele a chama para dançar, mas Maria foge chingando-o de demo, coisa ruim e ele lhe ameaça: “Se você é vivaz e com esperteza não lhe pego, vou bater prego onde a madeira racha: seu Pai!”Asmodeu transforma-se em Asmodeu Mágico e diz ao Pai de Maria que a menina morreu, fazendo-o tentar o suicídio, entretanto a imagem de Maria lhe traz esperança e o faz desistir. Revoltado, Asmodeu lança mais uma maldição: “A roda da desventura começa a girar!”

Fig. 16: Asmodeu Brincante (Antônio Edson) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Fig. 17: Asmodeu Mágico (André Valli) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Arcano presente no jogo de tarô, a Roda da Fortuna representa o processo de crescimento rumo ao êxito, que aparecendo invertido determina o retrocesso deste processo, além disso, representa estágio de mudanças ou o próprio ciclo da vida, pois em volta da roda estão um bebê e um velho, ambos abaixo de um ser ambíguo, com feições angelicais e diabólicas ao mesmo tempo. O tarô foi estudado por Jung por ser composto de imagens arquetípicas, como o diabo, a morte, o sol e a lua, configurada como uma linguagem que pretende a adivinhação, mas que, nas culturas pagãs, possuía como principal objetivo o auto-conhecimento. O tarô está presente em Hoje é dia de Maria através de diversos arquétipos como a morte, as figuras masculinas e femininas, o nascimento, o sol, a lua e o diabo, como também diretamente na forma de jogo adivinhatório, através da personagem cartomante Rosa.

Fig. 18: A roda da fortuna no tarô. Fonte: Site Wikipédia


A partir desta cena, o destino de Maria parece desandar e ela perde sua chave para Asmodeu. Segundo Marie Louise von Franz, a chave e símbolos constituídos de ouro correspondem ao processo e a finalização do processo de individuação ou fortalecimento do Self, como comenta a seguir: “O autoconhecimento é simbolizado pelos objetos de ouro”. 99
Ao perder sua chave, Maria entrega nas mãos do detentor do mal o seu destino, mas sua consciência e constança permanecem firmes, o que a ajudará a retomar seu caminho. Logo, Asmodeu faz com que Maria se torne uma mulher:

Sua sombra vai ser minha, mas primeiro, lhe roubo a infância. E agora, cumpro o prometido. Se alevante vento, desse chão batido de sol. Ano vai correr como dia, hora como segundo, porque ligeireza de futuro não pára e não se adia. Maria, Maria agora você não tem mais seguro. E agora avante não tem mais brincadeira de criança. Avança tempo, voa!


Maria menstrua pela primeira vez e Asmodeu se apodera da pequena boneca de palha de Maria, símbolo de sua infância, que só voltará às suas mão em seu retorno mítico. Maria se vê mulher no espelho das águas, quando Nossa Senhora da Conceição aparece e lhe fala com sabedoria feminina sobre essa nova fase na vida de Maria:

Nossa Senhora: - É verdade que muita coisa mudou, mas as águas continuam correndo para o mar!


Maria: - Mas o que aconteceu comigo, com o mundo?
Nossa Senhora: -É o mando da vida e as forças do tempo. No córrego corre sem desalento as águas do mundo e em você começa a correr as águas da vida. Você agora faz parte do grande ciclo da vida. Você não sente que dentro de você o coração bate e retumba diferente, querendo sair de dentro da prisão do peito?
Maria: - Sinto e tenho medo.
Nossa Senhora: - De onde já se viu ter medo das forças da vida, filha?! O que vem não se adia e chegou. Ri e celebra porque agora o mundo pode se refazer em você.
Maria: - Mas ainda agora eu era menina!
Nossa Senhora: - A menina morreu para os olhos do mundo, mas mora dentro de você, vai estar lhe acompanhando.
Maria: - Perdi minha infância, a chavinha que minha mãe me deu.
Nossa Senhora: - Chora o que não foi não filha, porque um dia tudo volta a ser. E o que há de ser tem muita força. Coragem filha, recorda o que foi e celebra o que vem. Coragem, vai buscar seu tesouro que a caminhada é longa, mas lhe juro, há de valer.

Fig. 19: Maria adulta (Letícia Sabatella) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Crescida, Maria trabalha em uma fazenda próspera, mas que vive em um eterno pôr-de-sol desde que o filho caçula da família, chamado Príncipe, partiu sem rumo e nunca mais voltou.
Ao entrar em sua casa, Maria depara-se com Madrasta e sua filha Joaninha, já moça como ela, e permite que elas morem em sua casa. Triste, Maria sai para brincar com o pássaro e acaba vendo o retorno do Príncipe.

Fig. 20: Príncipe (Rodrigo Rubik) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


O quinto capítulo da microssérie faz uma releitura de um clássico conto de fadas: A gata borralheira ou Cinderela. Com o retorno ao lar de Príncipe, sua família resolve comemorar e oferece uma festa para todos os residentes da região em que Príncipe escolherá uma mulher para se casar. Interesseira, Madrasta arruma Joaninha para ir à festa e despreza Maria, dizendo que ela não poderá ir porque não possui trajes para a ocasião, mas o anjo de Maria aparece novamente, agora como Mascate, de origem árabe, e ele lhe dá um belo vestido, um sapato vermelho e adverte que ela deve estar em casa à meia-noite.
Maria vai para a festa na sede da fazenda, mas primeiro participa de uma festa de cultura negra, abaixo da casa principal. Os convidados ricos da comemoração de Príncipe aparecem fisicamente mais altos e vestidos com roupas de papel, como gigantes revestidos de papel, não seres humanos, mas Príncipe encontra Maria entre os altivos e a chama para dançar, elevando-a a sua altura. Enquanto isso, Pai se aproxima da fazenda, guiado por sua intuição, mas é desviado pela fala maldosa de Asmodeu velho.

Fig. 21: Asmodeu Velho (Emiliano Queiroz) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria

Como em Cinderela, Maria perde seu sapatinho e ele é encontrado por Príncipe que no outro dia pede ao seu capaz que lhe traga a moça que servir o sapatinho vermelho. Segundo Fausto Motta, de linha psicanalista, o encaixe do sapatinho simboliza a união sexual harmoniosa entre Cinderela e Príncipe, a partir do saneamento do Complexo de Electra sofrido por ela.100
Porém, na psicologia analítica o tema da relação anuncia a dinâmica existente entre anima e animus e é exatamente o que ocorre entre Maria e as figuras masculinas presentes na obra: Pai, Príncipe e Amado (Pássaro Incomum).
O sapatinho, logicamente, serve em Maria e ela segue para a casa grande onde terá que passar por três provas: da cama, da mesa e do banho, como exemplifica a música cantada pela mucama da fazenda:

A merecer seu marido, como nos tempos antigos, moça prendada ativa, mantém servidão sempre viva. Servidão é bordar e cozinhar, muito ouvir e bem pouco dizer. Servidão por servir, servidão por bordar, ao senhor o prazer, todo sempre há de ser. Servidão é o segredo menina, para o bom proceder.


Maria passa pelas provas e vai para o casamento, mas desiste de Príncipe quando vê Pássaro Incomum sendo atingindo por flechas. Essa seqüência pode ser interpretada como o ferimento do verdadeiro Animus de Maria quando a projeção do falso Animus ou Animus negativo na microssérie Hoje é dia de Maria, o Príncipe, a faz se identificar com a imagem tradicional e patriarcal da mulher, a da dona de casa e mãe, como comenta von Franz:

Identificar-se inteiramente à imagem coletiva da boa esposa – boa mãe – boa dona-de-casa é uma grande tentação. Se isso vai longe demais, é obra da sombra: a mulher entra nos esquemas coletivos e não existe mais como indivíduo. Também, para encontrar sua verdadeira personalidade e poder manifestar-se, deve tornar-se consciente desse perigo e se afastar dessa imagem standard de si mesma. 101


Von Fraz ainda completa:

O perigo implícito que existe quando o animus esvazia uma atitude feminina é a perda da capacidade da mulher de refletir sobre si mesma. Isso acarreta uma lassidão e, ao invés de pensar, ela preguiçosamente fia seus sonhos acordada e desfia suas fantasias de desejos ou anda trama complôs e intrigas.102


Após desistir do casamento, Maria retira seu belo vestido de papel e entrega nas mãos de Madrasta o Príncipe para Joaninha, que sai voando depois de uma alfinetada que a própria mãe dá para que ela emagreça e o vestido sirva nela.

Fig. 22: Joaninha adulta (Rafaella Oliveira) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Maria procura entre os trigos seu Pássaro e o acha ferido. Quando retira a lança, ele transforma-se em homem e declara que se tornou humano para estar próximo dela, mas somente se personifica na noite:
Maria: - Quem é você? É aquele que eu já adivinho? Minha voz pergunta quem é você, se meu coração já lhe reconhece. Me fala, foi você que eu esperei sem saber, foi você que sonhei a noite sem lembrar de manhã?
Pássaro / Amado: - Ainda não sou homem, sou incompleto Maria. Homem só sou na sombra da noite, na luz do dia minha sina é ser pássaro.
Impossibilitado de andar, Maria o ajuda e diz que a parte de um é o que falta no outro.
Esse encontro entre forças opostas, masculina e feminina, corresponde ao processo de equilíbrio entre Anima e Animus e neste caso no reconhecimento do último por Maria, como mulher. A partir de agora, a personagem de Rodrigo Santoro deixa de ser Pássaro Incomum e se torna Amado.
Jung explica a representatividade do animus para a mulher:

A personificação masculina do inconsciente na mulher – o animus – apresenta, tal como a anima no homem, aspectos positivos e negativos. Mas o animus não costuma se manifestar sob a forma de fantasias ou inclinações eróticas; aparece mais comumente como uma convicção secreta “sagrada”. Quando uma mulher anuncia tal convicção com voz forte, masculina e insistente, ou a impõe às outras pessoas por meio de cenas violentas reconhece-se, facilmente, a masculinidade encoberta. No entanto, mesmo em uma mulher que exteriormente se revele muito feminina o animus pode também ter uma força igualmente firme e inexorável. De repente, podemos nos deparar com algo de obstinado, frio e totalmente inacessível em uma mulher. 103


Amaldiçoado por Asmodeu, Amado só pode encontrar Maria fisicamente, como homem na noite, em meio ao ambiente inebriante da paixão, composto por rosas, plantas e a observadora Lua.
A forma do romance entre Maria e Amado ecoa o clássico mito Eros e Psiquê, em que Eros, semideus do amor e filho de Vênus, se apaixona por Psiquê e vivem em harmonia até o dia em que Psiquê vê sua face e é expulsa de seu lar. Após três provas estabelecidas pela deusa Vênus, Psiquê retorna para Eros e dessa união entre opostos surge a filha Volúpia, que significa prazer. 104

Fig. 23: Amado (Rodrigo Santoro) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria



Fig. 24: Amado (Rodrigo Santoro) e Maria (Letícia Sabatella) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria

Jung comenta a repetição dessas maldições em mitos e contos de fadas e o que representa:

Um grande número de mitos e contos de fada conta a história de um príncipe transformado por feitiçaria em animal ou monstro, que é redimido pelo amor de uma jovem – processo que simboliza o processo de integração do animus na consciência. Muitas vezes a heroína não tem a permissão para fazer qualquer pergunta a respeito do seu misterioso e desconhecido marido e amante; ou então só o encontra no escuro e nunca pode olhar-lhe o rosto. Está implícito que amando-o e confiando nele cegamente, ela poderá libertá-lo. Mas isso não acontece nunca. Ela sempre quebra a promessa feita e só vai encontrar novamente seu amado depois de longa e penosa busca e de muito sofrimento.105


Jung prossegue sua análise:
A analogia desse tipo de situação mitológica com a vida comum está em que a atenção consciente que uma mulher tem de dar aos problemas do seu animus toma muito tempo e envolve bastante sofrimento. Mas se ela se der conta da natureza deste animus e da influência que ele exerce sobre a sua pessoa, e se enfrentar esta realidade em lugar de se deixar possuir por ela, o animus pode tornar-se um companheiro interior precioso que vai contemplá-la com uma série de qualidades masculinas como a iniciativa, a coragem, a objetividade e a sabedoria espiritual. 106
Maria encontra uma simpática companhia teatro chamada Vai e Volta, de estrutura artística semelhante a dos teatros mambembes da Idade Média, que levavam a cultura popular, de origem pagã, ao interior da Europa, de forma marginalizada. Participam desse grupo os irmãos Rosa e Quirino, a primeira também cartomante e o segundo que se apaixona perdidamente por Maria e perde a razão.

Fig. 25: Quirino (Daniel de Oliveira) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Fig. 26: Rosa (Inês Peixoto) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


No sexto capítulo da microssérie Hoje é dia de Maria, Maria continua com seus encontros noturnos com Amado e, assim, desfaz todas as esperanças de Quirino, que de palhaço transforma-se em pierrô sem o amor de sua colombina Maria.
Caminhando desgovernado pelo deserto sertão, Pai pede ajuda a Deus para escolher o caminho correto que o faça chegar à Maria e surge mais uma vez o anjo guia, o Vendedor, que lhe diz: “Os sinais não estão cá fora, estão cá dentro. Escuta o coração e escolhe o caminho.” O vendedor lhe entrega um espelho e ao se ver refletido nele Pai recupera as esperanças e enxerga a sabedoria da sua idade.
O pierrô Quirino já não se identifica com a máscara e a imagem que enxerga em seu espelho: “A donde está perdido o seu verdadeiro rosto, palhaço? Amor não pode ser peso, quero leve o coração. Água lava a máscara e liberta meu rosto e minha alma dessa prisão.” De olho na fraqueza alheia, Asmodeu incita Quirino: “ Olhe o que a vida mostra: vence na guerra quem melhor peleja, vence no amor quem melhor domina.”
Agindo como a sombra inconsciente de Quirino, Asmodeu faz com que ele aja irracionalmente contra Amado para ficar com Maria e prende o pássaro em uma grande gaiola.
No sétimo capítulo, Pai reencontra Maria e eles se perdoam, enquanto Quirino declara seu amor e tentar matar Amado. Mais um exemplo do resgate da cultura pagã e de símbolo arquetípicos ocorre quando Amado, preso na gaiola, faz uma prece às forças da natureza (valores femininos), ao sol (valor masculino) e à lua (valor feminino) para que sua energia seja libertada e possa ficar com Maria. Cláudio Paiva comenta essa cena:

No sétimo capítulo, preso, Amado faz uma oração à Deusa Terra, com respeito aos mistérios do mundo, louvando o sagrado da vida, rogando pela liberdade. Através da oração pagã de Amado, enuncia-se um retorno místico ao mundo da natureza. 107


Esta passagem designa a ainda falta de entrosamento entre o animus de Maria e o restante de sua psiquê, já que Maria só o via na noite, como nos sonhos.
Amado sai da gaiola, mas Asmodeu faz nevar no sertão e mata Amado em forma de pássaro. Quirino conta a Maria sobre a maldade que fez a Amado e ela parte em busca de seu pássaro.
Mais um símbolo arquetípico aparece no momento da morte de Pai. Uma caveira, símbolo da morte, que significa renascimento para uma nova vida ou um novo estágio, reflete-se no corpo de Pai e o duplo dele o chama para a passagem, durante um sonho:
Morte/Duplo: - Construíste teu barco? Construíste teu barco?
Pai: - Quê barco?
Morte: - É outono, os frutos caem e há uma longa viagem para ser feita que começa agora. Já construíste teu barco?
Pai: - Por causa de quê eu careço de um barco?
Morte: - Constrói teu barco e nele põe alimento, pão e vinho, com o vigor de um coração tranqüilo parte para a maior aventura. Constrói o teu barco porque o mar misterioso e escuro do fim já está lavando nossas feridas.
Pai: - Quem é você e o quê fala? Eu não consigo entender.
Morte: - Constrói o teu barco da morte, da morte bela e profunda. Constrói teu barco para a viagem rumo ao esquecimento.
Após essa dinâmica onírica, Pai parte junto com Mãe para o mar do esquecimento, ou seja, retornam como imagens primordiais para a área inconsciente da psiquê de Maria.
Maria encontra o corpo de Pai morto e se desespera, mas Rosa lhe diz que é necessário que ela o deixe partir.
Ao partir em busca de Amado, Maria encontra mais uma personagem de Asmodeu, o Poeta:

Asmodeu Poeta: - Em troca de curar esse seu coração por um só momento.


Maria: - Por um só momento.
Asmodeu Poeta: Não mais que um segundo.
Maria: - O que é meu de direito ninguém vai se apossar! (Maria retira sua chavinha que estava no pescoço de Asmodeu)
Maria: - Foi-se o tempo que lhe tinha medo, maldito que até atrás das palavras bonitas se oculta.

Fig. 27: Asmodeu Poeta (Luiz Damasceno) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Revoltado, Asmodeu começa a torturar a cabeça de Maria e a torna confusa sobre qual caminho seguir. Mas ela enfrenta: “Meu coração vai me guiar. Pai, Mãe, agora que vocês estão juntinhos sustenta meu caminho. Embora Maria, esperança não é esperança, esperança é caminhar.”
Maria encontra Amado morto e em forma de pássaro, mas com o calor de seu corpo o embala e derrete o gelo, seu coração volta a bater e com sua pequena chave abre o vão que o guarda, libertando-o de sua prisão maldita.
Asmodeu se rebela:

Que poder tem essa mulher de mudar maldição e benção, desandar o mal que faço, sorvete todo o destino que traço? (...) O poder do amor não pode vencer, o poder do mal tem que ser maior. Não vai tripudiar, não vai triunfar, não vai alçar poder maior que o meu. Eu sou o pai de todo dano. Aquele que embaça os caminhos e tortureia o coração humano. O que eu lhe roubei, só eu posso lhe devolver. Pra desfazer esse amor, como maldição e castigo, lhe devolvo a infância.


Mais uma vez enfeitiçada por Asmodeu, Maria volta a sua condição infantil, após libertar Amado, seu Animus.
Criança, Maria se sente perdida, rodeada pelo ambiente em que antes transitava e encontra uma ossada viva, a marionete de um grande dinossauro, o que denota o primitivismo do conteúdo da narrativa ou o retorno de Maria ao início da humanidade.
Neste último capítulo, Maria realiza o mito do eterno retorno, presente nas estruturas míticas ocidentais, como as gregas, e também nas religiões monoteísta: o retorno de Jesus à Jerusalém antes da crucificação e o de Maomé à Meca.
Marie Louise, ao analisar outro conto, explica como é comum a volta do herói ao ponto inicial da narrativa e o quê essa ação representa:

O herói, em última análise, termina no ponto em que ele partiu, mas no seu circuito ele ligou-se ao cachorro (2ª ring), à princesa e ao rei. Todo o processo é um contínuo somar, um processo de complementação crescente, ordenado como um mandala. Esse é o modelo típico dos contos de fadas.” 108


Maria encontra seu companheiro transcendental personificado em um mascate árabe. É relevante o diálogo que ambos estabelecem:
Maria: - Estou aqui, plantada aqui no meio desse mundo, sem saber se eu estou indo ou se eu estou voltando.
Mascate: - Mas isso não importa. Se o mundo é redondo, vosmicê está indo sempre para o mesmo lugar. O que importa não é chegar, é caminhar.
Maria: - Isso é para você que sabe de onde vem. (...) É que tem acontecido tanta coisa. Ontem até parecia que já era crescida, que era moça-mulher, que já tinha conhecido o amor. Será que isso tudo foi um sonho, seu mascate?!
Mascate não a responde e pede para que ela escolha um presente entre suas preciosidades e ela opta por um presente oculto e que só deve descobri-lo quando seu coração mandar.
Em seu retorno, Maria consegue recuperar sua chave, lutando com Asmodeu próxima

às mesmas águas em que encontra sua mãe e onde perdeu anteriormente o objeto.


Em seu reencontro com Zé Cangaia, Maria o indaga sobre a vida: “Viver é assim Zé, essa coisa que muda sempre, andança sem parada, parece tudo sonho! E o amor Zé, quando é de verdade? E a felicidade, quando é de verdade? E na vida, o que vem depois da morte?
Zé Cangaia não responde, mas pede que a roda da fortuna de Maria comece a girar. Maria percebe que as coisas começam a melhorar no sertão quando vê os meninos carvoeiros livres e desimpedidos, com sua sombra de volta.
Maria reencontra Mendigo que lhe aponta mais uma vez a necessidade de seu retorno: “Se o sol nasce toda manhã, não quer dizer que ele traz sempre o mesmo dia. E se você volta pelo caminho trilhado, você volta diferente. E olha, nem os caminhos são mais os mesmos.”
Novamente, ele deixa um amuleto para Maria, uma garrafa de água que ela entrega aos retirantes, que a jogam no chão e faz chover no sertão.
Maria se depara novamente com os Executivos, símbolos da tecnocracia da contemporaneidade, e o Homem do Olhar Triste que fala para Maria, enquanto ela admira as flores que nasceram sobre o túmulo do endividado, que ela terá uma recompensa por sua boa ação no início da sua trajetória: “Isso é Deus, agradecendo sua boa ação. Seus sonhos vão ser atendidos, viu menina. Segue!”
Pela última vez, Maria conversa com Nossa Senhora na beira do córrego e lhe fala da sua angústia por sentir que está voltando a sua vida triste e conturbada de antes, mas a Virgem a alerta: “Escuta menina! Na vida, tem duas épocas boas, épocas de ouro. A primeira fica lá nos comecinhos da vida e a gente recebe de graça. A segunda, a gente tem que buscar, tem que fazer.”
Maria passa em frente da antiga casa de madrasta e a vê feliz com o primeiro marido que não morreu. Ela pensa que algo deve estar errado, mas aproximando de sua casa vê o sítio bonito e bem cuidado, a volta da produção de polvilho e seus irmãos trabalhando. Quando vê Mãe, lhe pergunta se é ela realmente, se está viva e ela lhe diz que desatino é esse, que todos estão bem. Assim, Maria conta à família sua aventura e Pai lhe diz: “É claro que é verdade, tudo que a gente imagina também é verdade!”
Mais calma, Maria conhece Ciganinho, a forma criança de Amado, seu primeiro e grande amor. Feliz, ela abre o presentinho que o mascate árabe lhe deu e encontra um espelho, mas quando se vê refletida, vê também Asmodeu, atrás dela, e ele lhe diz que refará todas as maldições contra a sua família, matará sua mãe, enfeitiçará Ciganinho e ela nunca terá mais paz em sua vida.

Fig. 28: Maria (Carolina Oliveira) e Ciganinho na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot site da microssérie Hoje é dia de Maria


Segundo Jung, o espelho é o símbolo do reconhecimento do verdadeiro que há no indivíduo, como comenta:

Nos sonhos, um espelho pode simbolizar o poder que tem o inconsciente de “refletir” objetivamente o indivíduo – dando-lhe uma visão dele mesmo que talvez nunca tenha tido antes. Só através do inconsciente tal percepção (que por vezes choca e perturba a mente consciente) pode ser obtida – tal como no mito grego onde a repulsiva Medusa, cujo olhar transformava os homens em pedra, só podia ser contemplada em um espelho. 109


Astuta, Maria vira o espelho para Asmodeu e suas personalidades são gradativamente neutralizadas e sua matriz tenta fazer um acordo com Maria, mas ela não aceita, e Asmodeu transforma-se em uma singela rosa vermelha.

Fig. 29: Asmodeu e suas sete peles na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: hot site microssérie Hoje é dia de Maria


Fig. 30: Asmodeu redimido na rosa na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site Hoje é dia de Maria


Maria recupera sua boneca, símbolo da infância e de sua caminhada, e parte com Ciganinho para as franjas do mar. Como seu Animus, ele lhe diz que estará sempre ao seu lado, para o que precisar. E assim, como a narradora aponta:

Entonces, de maneiras que foi assim que tudo sucedeu. Eita que lá no fundo todo mundo sabe que não é a espada, é a inocência que renova o mundo. Maria virou, mexeu, lutou e mereceu e até hoje vive feliz com o seu Amado. Tenho muitas histórias nas ribeiras, encontro você em uma festa na beira, lá nas franjas do mar. Atrasar inté pode, só não pode faltar.



Fig. 31: Maria (Carolina Oliveira) e as franjas do mar na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte Hot site Hoje é dia de Maria


Maria finalmente alcança a individuação de sua psiquê passeando pela cultura universal expressada através de signos regionalistas brasileiros. Esta etapa da história está ligada ao quarto estágio, o mais espiritual e mais profundo, quando Maria reconcilia consciente e inconsciente, sua sombra, seu animus e suas imagens demais imagens arquétipicas projetadas em Pai e Mãe, por exemplo. A Maria criança do início representava a criança divina, a Maria adulta a fase de maturidade e a Maria criança novamente o fechamento deste ciclo, em um signo que configura o Self, o grande objetivo do processo de individuação que proporciona um relacionamento mais estável e forte entre mundo interior e exterior.
Demais passagens da microssérie Hoje é dia de Maria explicitam sua narrativa arquetípica, até mesmo na segunda jornada, não analisada nesta investigação científica. Na segunda jornada, a figura da narradora transforma-se em um ser uma velha sábia, que tece a vida de Maria, a convida a experimentar experiências arquetípicas, mas também reais e sociais, e na verdade aparece no final desta etapa como a avó de uma menina real, que adoentada, foi consolada por ela, através destes contos populares.
Desta forma, Maria construiu sua jornada em um ambiente arquetípico ou psicologicamente universal a partir da expressão do mesmo em símbolos e significados oriundos do inconsciente coletivo e da regionalidade, da cultura brasileira.



Fig. 32: Maria (Carolina Oliveira) sendo cuidada por Pai (Osmar Prado) e Avó (Laura Cardoso) na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: Hot Site microssérie Hoje é dia de Maria



Fig. 33: Avó (Laura Cardoso) conta histórias na microssérie Hoje é dia de Maria. Fonte: hot site Hoje é dia de Maria

De acordo com Jung, para as mulheres as imagens de sacerdotisas e senhoras sábias significam o fortalecimento do Self, logo, mais uma vez é apontado o objetivo de Maria nesta obra ficcional, já que é a avó que lhe conta as histórias, lhe encaminhando para o mundo inconsciente e a trazendo de volta à realidade. Assim, Luiz Fernando de Carvalho e Luiz Alberto de Abreu, roteiristas da série, baseados na obra de Carlos Alberto Sofredini, construíram uma narrativa do inconsciente coletivo que foi em parte desvendada na segunda jornada da microssérie, quando a menina real aparece e as personagens dos contos da avó são colocados como estrelas, no infinito do seu, como os heróis.


Outro aspecto importante é a colocação da ótica feminina, já que a protagonista é uma heroína que rompe com diversos padrões patriarcais da sociedade atual, matriz de uma sociedade feudal portuguesa e que ainda aparecem na sociedade atual, assim como a forma tradicional sedimentada nos contos de fadas tradicionais, como evidencia Paiva:

A narrativa assume explicitamente a ótica do feminino e este fato traz conseqüências importantes, pois autoriza uma nova leitura da sociedade patriarcal. Ou seja, faz recorrência aos signos estruturantes das culturas populares, predominantemente machistas, mas impõe uma outra lógica de sentido. As figuras do pai, da madrasta, do príncipe encantado, assim como as imagens do desejo feminino (e suas interdições), estão configuradas na fábula, como evidências da anima e do animus que regem a completude espiritual e psicológica do ser. Então, a nossa personagem vai se equilibrar em meio à relação de confronto e complementação das instâncias do masculino e do feminino.110


Paiva comenta a personalidade de Maria:

Maria é altiva, destemida e encarna a personagem corajosa que não se deixa abater pelas adversidades, seguindo o seu caminho em busca da realização pessoal. 111


É a partir dessa criação e desenvolvimento diferenciados das produções teledramaturgias atuais que a microssérie Hoje é dia de Maria – 1ª jornada se destaca como uma nova proposta de entretenimento que colabora para a reflexão e o crescimento da audiência televisiva, com personagens e conflitos que falam do ser humano em sua complexidade, não o maniqueísta apresentado especialmente nas telenovelas, além de mostrar um Brasil cheio de manifestações culturais próprias que devem ser valorizadas para que o povo se reconheça nas diversas mídias, como o audiovisual.
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