Estudo toponímico em bahia de todos os santos: breves consideraçÕES



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ESTUDO TOPONÍMICO EM BAHIA DE TODOS OS SANTOS: BREVES CONSIDERAÇÕES
Analídia dos Santos Brandão1; Celina Márcia de Souza Abbade 2

Introdução
É através da linguagem nas suas mais variadas manifestações que o homem, desde os primórdios da humanidade, traduz o seu pensamento e estabelece suas redes de relações sociais. É por meio da linguagem que se podem partilhar histórias, experiências, conhecer os elementos que constituem a cultura da comunidade e as marcas de identidade que identificam cada sujeito.

Segundo Eugênio Coseriu (1982. p.17), a linguagem é um fenômeno multifacetado que permeia as demais manifestações do homem, ou seja, no processo de construção da identidade. Dessa forma, pode-se entender que é por meio do ato linguístico que o homem expõe valores, crenças, convicções, ideologias e todas as formas de pensar que testemunham a história e a cultura do seu povo.

A linguagem na sua modalidade escrita traz á tona toda essa manifestação social, histórica e política, pois é por meio do universo lexical de uma comunidade que todos esses aspectos são revelados. O léxico é, portanto, a forma primeira de relacionar o homem como ser social e, por isso, é possível revelar os aspectos que envolvem língua e cultura a partir de seu estudo.

Este trabalho que aqui apresentamos tem como objetivo apresentar o corpus do trabalho, bem como as primeiras considerações sobre nossa pesquisa de mestrado vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens da Universidade do Estado da Bahia. Nesse estudo, visamos analisar os aspectos que envolvem o modus vivendi e que representam a relação identitária do povo baiano retratados na obra de Jorge Amado intitulada Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios (2002) a partir do estudo toponímico.

Analisar e buscar entender os elementos identitários de um povo sob essa ótica linguística é compreender o que Abbade (2006) afirma, ao dizer que a “[...] língua, história e cultura caminham sempre de mãos dadas”, particularizando cada sujeito dentro da sociedade, pois os topônimos caracterizam o olhar do denominador que outrora “fotografou” o tempo, o espaço a cultura e forma de pensar que caracterizam as comunidades, mostrando que a nomeação de um lugar não ocorre de maneira despropositada, ao contrário, sempre traz o bojo de sua história um conjunto de particularidades definidoras daquela comunidade linguística e que configuram a identidade sociocultural de seus falantes. Como assegura Aparecida Negri Isquerdo (1996, p.80) “a Toponímia resgata a substância de conteúdo que cada topo carrega consigo, independente da sua natureza”.

A obra em estudo é um guia que Jorge Amado apresenta a cidade de Salvador da Bahia nos mais variados aspectos, desde os bairros dos trabalhadores e dos nobres, as feiras e os mercados, as inúmeras ladeiras e ruas da cidade, as praias locais até as personalidades históricas, políticas e artísticas que caracterizaram a cidade. O autor não se esquece de apresentar a religiosidade, marcada pelas inúmeras igrejas católicas e diversos terreiros de candomblé, e alguns contrapontos como as belezas naturais que encantam qualquer turista, mas, sobretudo, o que é posto para “debaixo do tapete” e fica invisível aos turistas - as mazelas de um povo sofrido. O livro foi escrito em 1944, mas somente foi publicado um ano mais tarde. É um guia endereçado a uma “moça”, uma turista imaginária e, como anfitrião, Jorge Amado faz as honras de apresentar a sua cidade à convidada.



Metodologia
O objetivo geral da nossa pesquisa é analisar como o léxico, mais especificamente o estudo toponímico, representado em uma obra literária, organizado e observado em campos lexicais pode contribuir para a construção identitária do povo retratado em Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios, de Jorge Amado. Para tanto, far-se-á a elaboração de um glossário do vocabulário toponímico presente na obra, verificando as influências étnicas, culturais e históricas desses nomes de lugar que contribuem para a construção identitária do povo retratado.

A análise do vocabulário toponímico contido no romance Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios, dar-se-á a partir da teoria dos campos à luz do que propõe Eugênio Coseriu (1977) e da categorização taxionômica proposta por Maria Vicentina do Amaral Dick (1992). Serão apresentados os macrocampos, subdivididos em seus respectivos microcampos, que são formados pelas lexias pertencentes a um mesmo campo do conhecimento. A partir dessa classificação serão verificados aspectos de cunho qualitativo como: a história, a estrutura morfossintática, as informações sobre a motivação e contexto dos termos destacados. Essas informações serão dispostas em fichas e organizadas em um glossário.

Para a organização do vocabulário toponímico serão adotados alguns critérios, a saber:


  • As lexias serão catalogadas em fichas por categorias dentro do campo semântico específico;

  • As lexias serão apresentadas em letras maiúsculas e em negrito e dispostas em ordem alfabética;

  • Será apresentada a motivação para designação do topônimo;

  • Finalmente, serão acrescentadas as indicações relativas a dados históricos, etc.



Resultados e Discussão
Como já foi mencionado na introdução, este trabalho traz breves considerações sobre o livro estudado e os recursos teóricos e metodológicos que serão usados na pesquisa que ainda está na fase inicial. Até o momento foi feito o levantamento de quase todos os topônimos presentes no livro, juntamente com os seus respectivos contextos..

No livro, o autor descreve como em um mapa a orientar a sua turista, a cartografia do lugar, fazendo a espécie de uma “crônica”, mostrando os costumes da população baiana: as práticas de macumbas e os terreiros mais frequentados, as comidas típicas, as personalidades intelectuais, os artistas, as principais igrejas e comemorações religiosas. Fica claro nas páginas do romance a busca pela valorização da mestiçagem do povo baiano e a relação que Jorge Amado tem com a sua gente, ao se descrever com igualdade com o seu povo nos mais variados aspectos.

O “cartão-postal” que Jorge Amado busca descrever no seu livro-guia representa a necessidade de traçar uma Bahia que deve ser visitada da forma que ela é, com as suas belezas e seus defeitos.

Ao apresentar cada bairro e ruas da cidade de Salvador, Jorge Amado deixa transparecer que muitos lugares têm a íntima relação com a história de sua criação, muitos testemunhando a agonia dos negros na época da escravidão, outros decorrentes de pequenas fazendas e propriedades particulares, outros, pertencentes a antigos donos tupinambás.

Segundo Dick (1990, p.10), “ao designar, tradicionalmente, o nome próprio de lugar, o topônimo liga-se ao acidente geográfico que o identifica, com ele constituindo uma relação binômica”. Dessa forma, pode-se perceber a relação dos “topos” com a motivação, que envolvem os elementos extralinguísticos.

Até o momento foram levantados 90 topônimos, como por exemplo: Bahia, Salvador, Amaralina, Itapoã, Peri-Peri, Paripe, São Caetano, Canela, Cabula, Itapegipe, Calçada, Baixa dos Sapateiros, Pirajá, Rio Vermelho, Campo da Pólvora, Pelourinho, Garcia, Federação, Nazaré, Mirante dos Aflitos, Rua da Cabeça, Rua da Agonia, Ladeira da Água Brusca, dentre outros. Para melhor classificação dos topônimos segundo a sua motivação, recorreremos ao modelo taxionômico proposto por Dick (1992), no qual são apresentados 27 categorias divididas em 11 taxes de Natureza Física e 16 taxes de Natureza Antropo-Cultural.



Enfim, mesmo na fase inicial de pesquisa fica evidente que o texto literário em estudo como retrato artístico é um documento que preserva as marcas linguísticas de uma época, podendo observar a importância histórica, cultural e linguística trazidas pelos topônimos, o que evidencia os aspectos de identidade do povo baiano.

Referências Bibliográficas
ABBADE, Celina Márcia de Souza. O estudo do léxico. In: TEIXEIRA, Maria da Conceição Reis; QUEIROZ, Rita de Cássia Ribeiro de; SANTOS, Rosa Borges dos (Org.). Diferentes perspectivas dos estudos filológicos. Salvador: Quarteto, 2006. p. 213-225.
AMADO, JORGE. Bahia de todos os santos: guia de ruas e mistérios. 42. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
COSERIU, Eugenio. Hacia uma tipología de los campos léxicos. In: Princípios de semántica estructural. Vers. esp. de Marcos Martinez Hernández, rev. por el autor. Madrid: Gredos, 1977. p. 210-42.
______. O homem e a sua linguagem. Rio de Janeiro, São Paulo: Presença/Edusp, 1982.
DICK, Maria Vicentina P. A. Toponímia e antroponímia do Brasil: coletânea de estudos. 3. ed. São Paulo: Serviço de Artes Gráficas da FFLCH/USP, 1992.
______ A motivação toponímica e a realidade brasileira. São Paulo: Edições Arquivo do Estado, 1990.
ISQUERDO, A. N. O fato lingüístico como recorte da realidade sócio-cultural. Araraquara-SP, Tese de Doutorado. UNESP, 1996.

1 Mestranda em Estudo de Linguagens na Universidade do Estado da Bahia - UNEB, campus I Salvador, bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia - FAPESB. E-mail: ninhalydia@yahoo.com.br.

2 Orientadora. Professora do Programa de Pós- Graduação em Estudos de Linguagens da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. E-mail: celinabbade@gmail.com.

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