Estudos históricos



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1.º ANO — N.°3 Julho-Setembro, 1924

REVISTA


DE

ESTUDOS HISTÓRICOS


BOLETIM DO INSTITUTO DE ESTUDOS HISTÓ­RICOS DA FACULDADE DE LETRAS DO PORTO

director: Prof. Damião Peres

Ensaio sôbre a idade do bronze em Portugal

(Conclusão)

VIMOS já o que a antropologia nos diz sôbre os povos do eneolítico peninsular. Da edade do bronze não conhecemos um só esqueleto humano, de cronologia segura, no território português. Os ossos das cistas e sepulturas do sul do país, dessa época, não são em número bastante nem estavam suficientemente conservados. O rito fu­nerário da incineração teria destruído muitos documentos. Há, porém, a registar em Espanha os restos osteológicos da edade do bronze inicial de El Argar e Solsona, estudados respectiva­mente por Victor Jacques e Aranzadi e aos quais já fizemos rápida referência.

Em 64 crânios de El Argar, o índice cefálico médio era de 76,76. A maioria era de dolicocéfa-los e subdolicocéfalos. A braquicefalia e a sub-braquicefalia surgiam na percentagem global

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de 13%, aproximadamente. Em média, os crâ­nios eram, sob o ponto de vista dos índices ver­ticais, ortocéfalos. A fronte seria relativamente larga, o occiput saliente, a face menos alongada do que a dos Portugueses actuais. O índice nasal médio, de 48,8, é correspondente a uma mesor-rinia visinha da leptorrinia. Como em Cezareda, encontramos ali, dum modo geral, valores deste índice intermediários entre os dos epipaleolíticos de Muge e os mediterrâneos actuais. A platirri-nia aparece em El Argar numa proporção de 11%, a mesorrinia na de 41%, a leptorrinia na de 48%. O índice orbitário acusava, em média, cameconquia, mesmo mais acentuada do que a dos Portugueses actuais. Os ângulos faciais cor­respondem em média a uma proeminência facial intermediária entre a dos Europeus e a dos Ne­gros actuais. A capacidade craniana é superior à de Muge. A estatura era baixa. As proporções dos membros, avaliadas sobre alguns ossos, não parecem mais próximas das dos esqueletos de Muge do que dos Portugueses de hoje (1): ape-
nas o índice antebraquial seria intermédio.

Segundo Victor Jacques, na população inu-mada na necrópole de El Argar encontravam-se vários elementos antropológicos: a raça de Cro-Magnon, a de Grenelle, a pirenaica ocidental, a de Muge e talvez a de Furfooz. Para aquele an-tropologista, a raça de Cro-Magnon aparece em



(1) Cf. estes números em: Mendes Corrêa—Nouvel-les observations sur 1'Homo afer taganus, nob, op. cit.

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quási todas as estações prehístóricas da Penín­sula (1), o que hoje se sabe não ser exacto. A sua concepção desse tipo antropológico parece, pois, duma exagerada amplitude: a estatura alta dos trogloditas de Cro-Magnon não se con­cilia, por exemplo, com a baixa estatura dos homens de El Argar. A designação de raça de Grenelle corresponde aos elementos protobra-quicéfalos europeus de que já fizemos um ensaio de sistematização (2): trata-se crìvelmente dos braquioides que encontramos em Muge, Liceia, Carvalhal, etc. O tipo de Furfooz seria a forma de braquicefalia atenuada, o nosso sub-braqui-morfo. Porventura em muitos casos essa sub-braquicefalia será a expressão da influência dos elementos dolicocéfalos. Quanto à raça pirenaica ocidental seria a que, segundo Jacques, perdura nos Bascos espanhóis actuais: vimos já o que a tal respeito deveríamos pensar. Quanto à pre­sença do tipo de Muge, é necessário acentuar que em El Argar, a capacidade craniana se eleva relativamente àquele tipo, cuja interferência di­recta não admitimos ali sem alguma reserva. O que é licito concluir é que na necrópole da edade do bronze inicial de El Argar não há homogeneidade de tipo, predominando os ele­mentos dolicocéfalos, de baixa estatura, tendên-


  1. Victor Jacques—Etnologia (apêndice antropoló­-
    gico à obra de L. e H. Siret—Las primeiras edades, etc.,
    op. cit.), p. 452.

(2) Mendes Corrêa—Estudos da etnogenia portu­-
guesa (Crânios braqnicéfalos), op. cit., p. 38 e seg.

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cia leptorrínica, capacidade regular, occipitali-zação acentuada, órbitas baixas—em suma, um tipo muito afim do actual tipo mediterrâneo. Havia braquicéfalos em minoria, como em ou­tras estações peninsulares, e pode talvez falar-se dum elemento mais ou menos negroide, também em minoria, tendo porventura afinidades com os negroides capsienses e constituindo crivel-mente mais um índice da origem africana das populações de Almeria ou de parte delas.

Uma necrópole, da primeira edade dos me­tais, em Monachil, Granada (1), forneceu, numa das sepulturas, três crânios, cujas medidas foram determinadas pelo Prof. Barras de Ara-gón. São três exemplares dolicocéfalos (ind. cef. de 73,95 a 14,19), altos, de face pouco alongada (ind. facial de Monaco em dois: 49,22 e 50,38), e de tendência meso-platirrínica (ind. nasal em dois: 48,9 e 53,2). Juan Cabré inclue-os no 1.° tipo indicado por V. Jacques em El Argar, embora um dêles se aproxime talvez um pouco do Cro-Magnon. A necrópole tem no tipo de sepul­turas e no respectivo mobiliário os caracteres da civilização argárica.

Em crânios de sepulcros da edade do bronze inicial da região de Solsona (nordeste espanhol) Aranzadi (3) encontrou índices cefálicos variando


  1. Juan Cabrá—Una necrópoli de la primera
    edad de los metales en Monachil, Granada—Memória
    III da «Soc. Españ. de Antrop., Etnogr. y Prehistoria»,
    t
    . I, fase. I, Madrid, 1921-1922.

  2. T. d'Aranzadi—Apêndice antropológico, cit.

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entre 66,7 (?) é 86,7 e dando, sôbre 12 casos, a média de 79,5, bastante alta para a média actual da Península, para o que contribuíram 5 exem­plares com o índice superior a 80. Das tíbias (14) poucas seriam platicnémicas. No fémur os índi­ces platimérico e pilástrico médios eram respec­tivamente de 76,0 e 110,3.

Os crânios não estão, em geral, tão conserva­dos que permitam identificações perfeitas. A parte facial apareceu quási sempre muito pouco íntegra. No entanto, parece que podemos reco­nhecer naqueles exemplares o tipo dolicocéfalo mediterrâneo (1) e uma proporção elevada de braquicéfalos, afectando várias formas desde o

protobraquimorfo, de contôrno horizontal trape­zoidal e occiput vertical, até ao neo-braquimorfo, globuloso e curvo-occipital. A existência duma maior proporção das formas braquioides em Solsona do que na mesma época de El Argar, é um facto a registar. Não sabemos se poderá rela­cionar-se com a braquicefalia eneolítica de Ciem-pozuelos ou com o aumento do número de bra­quicéfalos em França durante a edade do bronze, relativamente ao princípio de neolítico.

Vimos já, porém, que Serra i Vilaró men­ciona noutras estações do eneolítico e princípio do bronze da mesma região numerosos docu­mentos osteológicos que, mostrando alguma heterogeneidade antropológica, revelam entre­tanto predomínio de dolicocéfalos, dotados,

(1) Bosch—Ensayo, etc., op. cit., p. 26.

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em geral, do tipo mediterrâneo. É preciso, no entanto, notar-se que alguns dos restos mencio­nados, como os de Espluga Negra, parecem duma cronologia pouco segura, o que não diminui a importância do que fica dito, desde que a maioria das jazidas corresponde, sem dúvida, segundo se depreende da memória publicada, às épocas referidas.

A falta de exemplares da edade do bronze em Portugal (1) não exclui inteiramente a pos­sibilidade de formular hipóteses. A penetração da cultura argàrica entre nós sugere a hipótese de novos movimentos de população de sudeste para o ocidente da Península. Ê possível que novos deslocamentos dos descendentes do povo de Ciempozuelos se dessem também para oci-dente. No entanto, é crível que o substracto somatológico eneolítico perdurasse essencial­mente na população do território português na edade do bronze, desde que nessa gente eneolítica encontramos as origens de grande parte da população de hoje. Quando muito, assinalar-se-iam talvez novas penetrações de neo-braqui-morfos (proveniências: Solsona; ainda Ciempo-zuelos?)

A identificação dos elementos antropológicos encontrados nas estações da edade do bronze e anteriores, com os Iberos ou os Lígures surge



(1) Escassos fragmentos ósseos duma cista algar­via permitiram a Estácio da Veiga somente a suposição de se tratar de ortognatas.

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duma extrema dificuldade. Se por Iberos deve­mos entender o dolicocéfalo mediterrâneo que ainda hoje perdura na Península, é legítimo afir­mar a sua presença no território desde o eneó-lítico, pelo menos. Se por Lígures devemos supor elementos braquicéfalos do tipo alpino, é lícito também dá-los como tendo penetrado na Penín­sula, e porcerto em Portugal, desde data igual­mente remota. A uniformidade cultural que se tem afirmado existir na província ocidental da edade do bronze, não significa, porém, necessa­riamente unidade antropológica: nem mesmo aquela uniformidade é perfeita. Além disso, a heterogeneidade dos restos antropológicos em El Argar, Solsona, Palmela, etc. leva a crêr que de muito longe vinha já a correspondência de grupos étnicos e culturais com populações soma-tológicamente mixtas. Os Iberos e os Lígures seriam populações desta ordem. Quando muito, poderemos neles falar de tipos dominantes, não de pureza racial.

Para se afirmar que os povos da cultura de Almeria eram Iberos (stricto sensu), seria neces­sário demonstrar que aqueles povos eram os antepassados dos que mais tarde, na segunda edade do ferro, quando a História começa a falar de Iberos, desenvolvem no leste da Espanha a cultura chamada ibérica. Ora nem sequer se pode estabelecer com clareza continuidade cul­tural entre uns e outros; e, se a sua identificação é verosímil, ela não se apoia mais do que em presunções, as mais fortes das quais são ainda

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a nossa ignorância de movimentos étnicos inter-correntes e a comunidade de distribuição geo­gráfica—o que é pouco.

Duma data correspondente à fase final da edade do bronze peninsular há já indicações em textos históricos averiguados. O Velho Testa­mento fala das navegações tírias para Tartesso, pelo menos desde o séc. XI a. C., e as viagens e colonizações fenícias no S. da Península em remotos tempos, são registadas em autores da época romana. Fixa-se geralmente cerca do século XII a. C. a data da fundação da colónia fenícia de Gades (Cádiz). É crível que os Fenícios tives­sem levado as suas navegações, desde muito, pelas costas atlânticas até aos países do norte. O que é certo é que ocultavam em geral a pro­veniência dos seus tráficos, com propósitos de exclusivismo mercantil, e dessa sorte contribuí­ram para manter as sombras de mistério que pairavam sobre estas regiões. Em épocas menos remotas do que o segundo milénio antes de C. ainda a influência fenícia se revela em moedas e achados arqueológicos variados. Atribuem-se a influências fenícias e púnicas certos detalhes do mobiliário de alguns ópidos alentejanos e de artefactos do Algarve.

Carteia, Malaca, Abdera, etc. foram entre­postos dos Fenícios. Á influência dêstes se deve, ao que se julga, o alfabeto ibérico. Na Póvoa de Varzim, no litoral do N. de Portugal, isolou Fonseca Cardoso, na população piscatória actual, um elemento antropológico dolicocéfalo, de nariz

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aquilino, que considerou semito-fenício (1). Mas não seria de admirar que os Fenícios fôssem também portadores de espécimes de braquicefa-lia (2), da bem conhecida braquicefalia síria, da qual Duckworth descreveu um exemplar de Damasco, com a região parieto-occipital acha­tada, alto índice vertical, cameconquia, leptor-rinia, grande capacidade, tendência ortog-nata (3).



Barras de Aragón deu em 1912 as medidas de dois esqueletos achados em sepulturas fení­cias de Cadiz, uma das quais antropoide, com a cabeça esculpida segundo um tipo egípcio con­vencional, com cabeleira egípcia e barba à assí­ria. Tratar-se-ia de pessoas de distinção, portanto provavelmente do povo dominador de Gades. Objectos de ouro as acompanhavam. Ao que parece, porém, vários elementos, particularmente objectos de ferro encontrados num lúculo da mesma série, fazem avançar para a edade do ferro a cronologia dêstes achados. Segundo Hübner, o sarcófago antropoide teria sido escul­pido no séc. V a. C. No entanto, registemos desde já alguns caracteres dos dois esqueletos estuda­dos por Barras (4). São indivíduos masculinos

  1. Fonseca Cardoso—O poveiro—«Portugalia», t.
    II, Pôrto; 1908.

  2. Mendes Corrêa—Estudos da etnogenia portu­-
    guesa (crânios, braquicéfalos), op. cit., p. 64.

(3) W. L. Duckworth — Note on a skull from Syria
—«Journ. of the R. Anthrop. Institute», London, 1899.

(4) Francisco de las Barras de Aragón — Algunas
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mesaticéfalos, mesorrínicos (um deles quási pla-tirrínico—ind. nasal 52,8), e um deles mesopró-sopo e ortognata. Pelo comprimento dos ossos longos, a estatura devia ser baixa.

Pelas suas relações e tráficos com os Fení­cios, os Tartéssios são, na verdade, os povos da etnologia antiga da Península que primeiro são designados nas fontes literárias. As suas mais antigas menções remontam ao fim da edade do bronze, mas não é possível sôbre a arqueologia precisar as suas características culturais nessa época, e muito menos as suas características somáticas. Confundir-se-iam na cultura com as outras populações peninsulares? Representariam fisicamente as populações de El Argar e da Cata­lunha do princípio da edade do bronze? As lacu­nas dos nossos conhecimentos nestes pontos são de tal modo profundas e amplas que não ousa­mos arriscar hipóteses, tão vagas e tão precá­rias seriam.

Só na edade do ferro as relações entre os povos citados nos textos e os documentos arqueo­lógicos vão ganhando alguma nitidez e precisão — embora ainda poucas.



mendes corrêa.

medidas e indices de los esqueletos hallados en las se­pulturas fenicias de Cádiz—«Bol. De la R. Socied. Españ. de Hist. Nat.», Madrid, 1912.
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