Eusébio Gomes



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Eusébio Gomes | Sá da Bandeira (Angola)

«FUGI DE ANGOLA PELO DESERTO»

Eusébio Francisco Gomes tornou-se, em 1975, num dos protagonistas daquela que foi uma das mais míticas fugas à guerra civil angolana. Ao todo, demorou mais de um mês para percorrer cerca de mil quilómetros – sempre sob a égide da fome, da sede, do frio e do calor. Viveu na Costa da Caparica e reside hoje em Évora. Mas, embora se sinta mais português do que muitos, garante que voltaria a Angola “nem que fosse para varrer ruas”. Eis a história de uma autêntica odisseia.

Nome: Eusébio da Silva Gomes.
Idade: 52 anos.
Naturalidade: Sá da Bandeira/Lubango.
Profissão: técnico electrotécnico e vigilante.



Eusébio Gomes em Évora, onde reconstituiu a vida, depois da odisseia da fuga à ameaça da guerra civil angolana. (foto: Alexandre M. Silva)

Comer esferovite ou papelão, beber gasóleo ou mesmo urina – durante dias, Eusébio Gomes foi obrigado a tentar de tudo para sobreviver. Convidados a integrar uma caravana de fuga de Angola através do deserto da Namíbia, no Inverno de 1975, Eusébio e um vizinho, de nome Álvaro, avançaram antes do resto da comitiva, na expectativa de serem apanhados por esta ainda antes da foz do rio Cunene, que então separava os territórios angolano e sul-africano (a actual Namíbia era ainda, na altura, uma região da África do Sul). Sem víveres ou ferramentas, a expedição acabou porém por fracassar. Ou quase. Chegados ao Cunene, Eusébio e Álvaro tiveram de esperar três dias à fome, à sede, ao calor e ao frio pelos restantes companheiros de viagem. Só depois foram socorridos pelo exército sul-africano – e só depois ainda viriam a atravessar o rio em direcção à liberdade, travessia que no entanto também não foi completamente destituída de perigos.


“Trabalhava numa firma de electrónica, fazendo electrotécnica básica para traineiras e outras embarcações, quando a situação em Angola rebentou. Embora sendo ‘cabrito’, tinha a tez clara e, por isso, era considerado branco. Podia ter tentado ficar, mas fugir era a melhor solução. E, quando o meu patrão me propôs fugir pela Namíbia, na companhia de outras pessoas, não hesitei.”


“Eu e outro moço, Álvaro, fomos portanto os primeiros a arrancar de Moçâmedes. Íamos num camião Ford 600 D, que desenterrámos à mão durante uma noite inteira. Pretendíamos chegar ao rio Cunene, onde nos encontraríamos com o resto da caravana, mas atolámos a 25 quilómetros do destino. E já então a viagem se tinha tornado numa odisseia. Tinha só 21 anos, mas nunca até hoje voltei a viver uma situação semelhante.”
A primeira parte da aventura é, portanto, vivida a dois. Com o camião atolado. “Foram três dias sem comer e sem dormir, desidratados e cheios de fome. Até o taipal do camião tentámos roer, para além de esferovite e papelão. E, como não havia água, também tentámos beber gasóleo e até urina. Estávamos de tal maneira que tanto éramos capazes de matar como de morrer”, explica Eusébio. Só depois disso o resto da caravana destinada ao deserto da Namíbia começou a aparecer. A conta-gotas – mas sucessivamente, até que a comitiva chegou a uma centena de carros. E é nessa altura que começa a segunda parte da aventura da Eusébio Gomes: a travessia do rio Cunene, um dos maiores cursos de água de África, no limite Norte de um deserto que, sendo talvez o mais pequeno de todo o continente, era também considerado o mais perigoso.

“Foi então que construímos uma jangada em ferro, na intenção de atravessar o rio. Tivemos de passar vários cabos de uma margem para a outra, dentro de tambores, e eu ainda fui obrigado a nadar entre jacarés para passar um desses cabos. Mas conseguimos passar toda a gente e quase todos os carros. Só o último camião, um Mercedes, que era o maior veículo da caravana, se perdeu. Era muito pesado e fez afundar a jangada.”


“Nessa altura, e embora o nosso inglês fosse muito incipiente, começámos a enviar pedidos de socorro, nomeadamente com mensagens SOS e Bread escritas na areia. Primeiro, fomos atendidos por uma avioneta de um civil que estava a sobrevoar a zona com a família, em passeio, mas que nada podia fazer. Só no dia seguinte fomos socorridos por um helicóptero do exército da África do Sul. Primeiro, foram evacuadas todas as mulheres e crianças. Depois, os homens seguiram caminho até Swakopmund, perto de Walvis Bay, onde chegaram com a ajuda de Deus tanto como com a ajuda do diabo. Pessoalmente, perdi quase vinte quilos de peso.”
Muitas foram as caravanas que escaparam à guerra civil angolana através da Namíbia, mas aquela em que Eusébio Gomes participou é ainda hoje considerada uma das mais acidentadas e supliciosas. “Desde que saí de Moçamedes até chegar a Swakopmund, tinha-se passado mais de um mês. Para percorrer cerca de mil quilómetros, mesmo tratando-se de deserto ou de estradas de terra batida fustigadas pela rebentação das ondas do mar, é muito tempo”, diz o funcionário electrotécnico. “Mas valeu a pena. Tinha nove irmãos e, naquela altura, fui o único a conseguir fugir.”
Embarcado de Walvis Bay em direcção a Lisboa num navio da Oceanic Independence, Eusébio viria a passar os primeiros dois anos nas instalações do INATEL na Costa da Caparica, constituídas nomeadamente por ‘bungalows’ e camaratas. Aí, entre milhares de retornados, empregou-se de novo como técnico de electrónica e encontrou a mulher com quem viria a casar – uma prima direita, também ela fugida em circunstâncias mais ou menos épicas de Angola, e que então ele já não via há meses. O pai, fugido um ano depois, viria a juntar-se-lhe na Margem Sul do Tejo. Um ano mais tarde, a família juntou-se toda em Évora, onde veio a reconstituir o curso normal da vida.

“Tenho feito de tudo para voltar a Angola. Voltava nem que fosse para varrer ruas, embora preferisse ir ensinar electrónica. Estou divorciado, os meus filhos são adultos – não tenho muito que me prenda aqui. Mas tenho falado com ‘A’ e ‘B’, e nada.”


“De qualquer forma, mantenho o conceito de ser português. Respeito muito a bandeira portuguesa e levanto-mo quando ouço o hino. Sei que sou um português de segunda, mas às vezes sou muito mais português do que os de primeira”, acrescenta.
Membro da OPVDCA, da Mocidade Portuguesa e dos Escoteiros, Eusébio Gomes chegou porém a viver no mato, sem ver um único cidadão branco durante períodos de mais de três meses. Duas das suas quatro bisavós eram negras, mas conceberam ambas de homens brancos. Um dos bisavós, costuma recordar Eusébio com um certo orgulho, teve 53 filhos vivos. Outro era um dos colonos notáveis de Nova Lisboa, onde se destacava como o principal alfaiate da praça.
Hoje, a vida de Eusébio Gomes é passada tranquilamente em Évora, entre a profissão principal de técnico electrotécnico e, para compor o orçamento, um suplemento nocturno como vigilante num condomínio, em ambos os casos na qualidade de profissional liberal. Adepto do vídeo, Eusébio ocupa quase todos os tempos livres em experiências com imagem, recorrendo à muita aparelhagem que acumulou ao longo dos anos. “Mas o meu melhor momento é quando ando de bicicleta. Não tenho carro, tal como não tenho telefone. Só ando de bicicleta. Faço mais de dez quilómetros por dia”, explica. E está em forma, como é fácil de perceber.

Eusébio Gomes (último à direita, em baixo) em Sá da Bandeira, pouco antes da épica fuga através do deserto da Namíbia. (foto: D. R.)

O DESEJO DE CONTAR UMA HISTÓRIA


“Procurei incessantemente pelo contacto de Steven Spielberg, mas mais tarde, quando o arranjei, acabei por não escrever.” Tem sido assim, a vida de Eusébio Gomes: a constante tentativa de responder ao desejo imenso de contar a sua odisseia de 1975. Há sete anos, quando elaborou a série de documentários chamada ‘Século XX’, a estação de televisão SIC entrevistou-o no episódio dedicado às fugas pela Namíbia. Fotos e filmes da época – Eusébio teve então a oportunidade de rever imagens que apenas havia presenciado, sem alguma vez ver registadas em papel ou celulóide. Mais tarde, os mesmos produtores dos referidos documentários, desta vez sob a coordenação de António Barreto, voltaram a contactá-lo na intenção de ouvi-lo para uma série da RTP dedicada aos últimos 50 anos da história de Portugal. Mas não chega. Eusébio insiste que a sua história vale mais. Já chegou, inclusive, a pensar publicá-la na revista ‘Selecções’, do Reader’s Digest. “Foi uma grande aventura. E gostava muito de poder enviar um abraço de solidariedade a todos os que passaram por ela. Muitos ficaram na África do Sul, e nunca mais os vi…”, diz.

(Correio da Manhã, 30 de Julho de 2006)


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