Eva Cristina Leite da Silva – mestranda fe/Unicamp



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ENTRE A MEMÓRIA E O ARQUIVO: UMA CONTRIBUIÇÃO AO RESGATE DA CULTURA ESCOLAR CAMPINEIRA


Eva Cristina Leite da Silva – mestranda FE/Unicamp


Oscar Teixeira Junior – mestrando FE/Unicamp
Na sociedade contemporânea encontramos diversos problemas relacionados a fontes documentais e à realização de pesquisas quando se busca trabalhar com história das instituições1, entre eles, tanto a não existência das fontes, em função de não terem sido conservadas, quanto a não organização e o descaso com as mesmas, que porventura tenham escapado desse processo de deterioração.

A não preservação dessas fontes primárias gera uma ruptura entre passado e presente, perde-se a memória da instituição, porque ela tem necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis de uma existência que só vive através delas, ou de lugares de memória.

No entanto, não basta a preservação física das fontes, porque o simples acúmulo de papéis em depósitos ou porões não os torna “lugares de memória”, uma vez que assim, esses papéis permanecem desprovidos de significados material, funcional e simbólico.

É muito importante que se dê significado ao arquivo, até então considerado “morto”, permitindo que os documentos possam interagir, através de reflexões, com o presente.2

Para mudar a concepção de arquivo “morto” é necessário um processo que dê re-significações aos documentos. Na Escola Estadual Carlos Gomes estamos desenvolvendo um trabalho com esse objetivo, mas ele está sendo gradativo e encontra algumas dificuldades; a princípio, conseguir autorização para ter contato com a documentação histórica da escola demandou um longo período, o ambiente (porão) no qual encontramos e começamos a manipular os documentos não oferecia condições adequadas para nossa permanência devido a umidade, mal cheiro, etc. Posteriormente conseguimos remanejar parte do material para uma outra sala, ainda provisória, com maior luminosidade e mais arejada, o que nos permitiu uma primeira organização e descrição dos suportes e, de forma não exaustiva, de seus conteúdos.




Vista parcial do porão no qual se encontravam as fontes primárias da instituição

O interesse e a presença da universidade, através de seus pesquisadores, está possibilitando um redimensionamento simbólico dos documentos gerados e acumulados pela escola ao longo de sua história, principalmente dos documentos com datas mais antigas, que não remetem diretamente à realidade atual da escola.


Na impossibilidade momentânea de realizar a organização do arquivo com todo o material documental disponível priorizou-se o trabalho com a documentação que abrange os anos de 1903 a 1976; sendo a primeira data correspondente á instalação do estabelecimento sob o nome de Escola Complementar de Campinas.

Todas as questões presentes, quais sejam, de produção, acúmulo, guarda, organização, eliminação, descrição, preservação, entre outras, norteiam as atividades que estamos realizando com a documentação histórica da Escola Estadual Carlos Gomes, instituição centenária da cidade de Campinas. Nosso trabalho faz parte de um projeto, junto a Faculdade de Educação da Unicamp, que busca resgatar aspectos da cultura escolar no âmbito da História das Instituições, orientado pela professora Drª Maria Cristina Menezes.

O motivo pelo qual se escolheu trabalhar com a Escola Estadual Carlos Gomes é a importância desse estabelecimento para a história da educação em Campinas e em São Paulo. Foi inaugurada na primeira década do século XX com o objetivo de formar professores para as escolas preliminares do Estado. Através das mudanças ocorridas em sua organização e estrutura, correspondente às mudanças de denominação3, pode-se evidenciar as transformações nas concepções e práticas de formação de professores no Estado.

Um outro motivo, não menos importante, está centrado na possibilidade de entender as relações que existiam entre as escolas normais, os grupos escolares e as escolas isoladas, uma vez que mesmo antes de ter anexa a si escolas isoladas modelos e o 2o Grupo Escolar Dr. Quirino dos Santos, os alunos da Escola Complementar realizavam a prática de ensino em grupos escolares e, não raro, assumiam a regência de escolas isoladas.

De forma adicional, professores de grupos escolares e de escolas isoladas tornaram-se professores da Escola Normal.

A relação entre escola normal, grupos escolares e escolas isoladas não estaria completa se fosse esquecido o papel que a municipalidade, através da câmara de vereadores, ocupava em relação à educação na primeira república, sobretudo no sentido de alugar imóveis para essas escolas, fazer a adaptação dos locais, fornecer terrenos para a construção de prédios educacionais e mesmo contribuir financeiramente para as construções.

Na reconstrução da história da instituição escolar em apreço e com a intenção de permitir a interação entre a comunidade, a escola e sua memória, foram selecionados alguns documentos e imagens, coligidos ao longo do trabalho que está sendo realizado, tendo em vista as comemorações do centenário da Escola.

Buscou-se a organização de uma exposição documental resgatando as várias denominações que a instituição escolar possuiu e o contexto no qual essas várias alterações foram ocorrendo, resultando, inclusive, em mudança de prédio, do “provisório” ao “adequado”.




Vista parcial da exposição documental e fotográfica

A exposição privilegiou o período entre 1903 a 1976 por corresponder à parte mais antiga do corpo documental e estar quase que na sua totalidade assentada tendo como suporte físico livros de registro; característica essa que passa não mais a ocorrer após a década de 70.

Dentre o material disponível do período que eligimos, procuramos oferecer uma amostra que abrangesse as séries documentais: administrativo, curso primário, curso normal e segundo grupo escolar.

Ainda outro critério que utilizamos, paralelamente ao das séries documentais, foi o de possibilitar que as várias denominações que a escola possuiu estivessem representadas nos documentos a serem expostos. Desta forma, figuraram na exposição diversos documentos, dos quais citamos: a Ata de Instalação e Inauguração da Escola Complementar de Campinas, datada de 13 de maio de 1903, Livro Ponto do Pessoal da Escola Complementar, Termo de compromisso dos professores do 2o Grupo Escolar, anexo à Escola Normal Primária, com a República, Livro de Registro de diplomas da Escola Normal Primária, Registro de Visitas dos Inspetores Escolar à Escola Normal Carlos Gomes, Fotos avulsas de formandos de diversos anos e álbum dos formandos de 1942, Livro de Ata de promoção do Curso Ginasial de 1943, Registro de Títulos e de Quitação Militar de 1946, Livro de Ata de Exames do Curso Normal de 1951, Livro de Registro de Visitas de Autoridades do período de 1950 a 1959, Livro de Chamada da educação primária de 1952, Partitura do Hino do Instituto de Educação Carlos Gomes.

Complementarmente à seleção documental, reunimos uma série de fotos que abrangesse os diversos períodos da escola e que servisse para contar sua história desde a fundação em um prédio comercial adaptado para fins educacionais, alugado pela municipalidade e localizado no centro comercial da cidade, passando pela construção de um edifício próprio ao lado de uma área verde, até o momento atual no qual o entorno reduziu as dimensões de seus jardins e possibilitou a pichação de suas paredes.




Página 4 do Catálogo da Exposição Documental

Como resultado dessa seleção de documentos e imagens foi elaborado um catálogo no qual a dimensão da importância da instituição e de suas fontes primárias foi contemplada, intentando uma reapropriação da história institucional (representações, práticas, procedimentos) no sentido de fornecer novas formas de interlocução com o presente, atuando sobre o processo de esquecimento e viabilizando subsídios para as práticas atuais.


‘’ Página 4 do Catálogo da Exposição Documental


Esse catálogo da exposição documental, financiado pela Faculdade de Educação da Unicamp, foi distribuído durante a semana comemorativa do centenário, realizada nas dependências da Escola, cujo prédio é tombado pelo patrimônio histórico estadual e municipal.
Conclusão
São muitos os caminhos que se apresentam para que se possa construir um diálogo entre o passado da instituição e suas práticas atuais, essa exposição, com seu catálogo, foi uma forma contextualizada de iniciar um processo de resignificação das fontes, possibilitando que as mesmas ganhem vida.

Como conseqüência da exposição documental, e da elaboração do catálogo sobre a mesma, conseguimos divulgar uma parte do trabalho que está sendo realizado para a comunidade acadêmica, autoridades e para a comunidade escolar como um todo, incluindo seus professores, alunos, direção e funcionários, conseguindo aumentar o respaldo para a continuação do projeto.

O objetivo de apresentar ao público imagens e documentos históricos previamente selecionados está em problematizar ou desnaturalizar a “compreensão histórica” que se têm a respeito da instituição, e por extensão da própria educação, uma vez que se tenha vivenciado apenas um momento histórico4.

Não raro, observamos o estranhamento que as pessoas vivenciavam, através da exposição, ao descobrir que a escola já havia funcionado em outro prédio, que os professores eram obrigados a jurar fidelidade à República, que o entorno da escola sofreu alterações radicais, que práticas escolares foram extintas, enfim, que existem permanências e rupturas e que a constituição de uma instituição não é um processo linear e harmônico.

Conseguimos também estabelecer contato com diversos ex-alunos e ex-professores que se dispuseram a contribuir para escrever a História da Instituição através de depoimentos pessoais sobre as práticas escolares vivenciadas na Instituição durante o período em que esses personagens viviam o cotidiano escolar, bem como através da disponibilização, para cópia, de acervos pessoais fotográficos que retratam professores, alunos, diretores, eventos, atividades escolares, datas comemorativas, entre outras, possibilitando enriquecer significativamente o acervo documental e iconográfico da Escola Estadual Carlos Gomes.
Índice de Imagens

Imagem 1. Eva Cristina Leite da Silva, 2002

Imagem 2: Oscar Teixeira Junior, 2003

Imagem 3: Catálogo da Equipe organizadora do Acervo Documental da Escola Estadual Carlos Gomes



Referencias Bibliográficas



Estado de São Paulo. Coleção de Leis e Decretos do Estado de São Paulo: volumes referentes aos anos de 1902, 1911, 1920, 1942 e 1951. São Paulo – SP: Imprensa Oficial do Estado.

KOTHE, F. R. Walter Benjamin: sociologia. 2a ed. São Paulo: Ática, 1991

MENEZES, M. C.; SILVA, E. C. L.; PINHEIRO, M. L. e TEIXEIRA JUNIOR, Oscar. 100 Anos de História da Escola Estadual Carlos Gomes. Jornal da Apeoesp, subsede Campinas. Volume 1, Edição 7, 30 de abril de 2003.

THOMPSON, E. P. A Miséria da Teoria ou um Planetário de Erros. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.



1 A opção por trabalhar história da Educação através da História das Instituições, e em nosso caso específico, através de uma instituição localizada no tempo e no espaço, se dá fundamentada na crítica do historicismo feita por Benjamin, sendo esse caracterizado como o processo de adição de fatos para preencher o tempo e o espaço vazio. Aproxima-se, portanto, do materialismo histórico conforme entendido por esse mesmo autor, uma vez que aproveita-se “para destacar uma determinada época do transcorrer homogêneo da história... O resultado de seu procedimento é que na obra é resguardada e preservada a obra de uma vida; na obra de uma vida, a época; na época, a totalidade do transcurso histórico”. BENJAMIN, W. Teses sobre a Filosofia da História In: KOTHE, F. R. Walter Benjamin: sociologia. 2a ed. São Paulo: Ática, 1991, p. 163.

2 O diálogo do presente com o passado dentro do processo histórico é definido por Thompson da seguinte forma: “a ‘história’ (quando examinada como produto da investigação histórica) se modificará, e deve modificar-se, com as preocupações de cada geração ou, pode acontecer de cada sexo, cada nação, cada classe social. Mas isso não significa absolutamente que os próprios acontecimentos passados se modifiquem a cada investigador, ou que a evidência seja indeterminada”. THOMPSON, E. P. A Miséria da Teoria ou um Planetário de Erros. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981, p.51.

3 Foi criada pelo Decreto 861 de 1902 com o nome de Escola Complementar de Campinas. Tem seu nome alterado pelo Decreto 2025 de 1911 para Escola Normal Primária. Em 1920 através da Lei 1750 passa a ser designada por Escola Normal de Campinas. Em 1936, recebe o nome do maestro campineiro Carlos Gomes. Em 1942 o Decreto-Lei 4244 realiza nova alteração, passando a ser designada Escola Normal e Ginásio Estadual Carlos Gomes. A Lei 1416 de 1951 a transforma em Instituto de Educação Carlos Gomes. Em 1976 passa a Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus Carlos Gomes e, finalmente, em 1998 recebe o nome de Escola Estadual Carlos Gomes. SILVA, E. C. L. MENEZES, M. C. PINHEIRO, M. L. e TEIXEIRA JUNIOR, O. Escola Estadual Carlos Gomes: 100 Anos de História. In Jornal da APEOESP, subsede Campinas. Vol. I Edição 7. Campinas, 30 de abril de 2003.


4 Destacando-se, sobretudo, o momento presente.



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