Evangelizar de novo converter sempre



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EVANGELIZAR DE NOVO – CONVERTER SEMPRE

3ª Conferência

No século XVI voltou a ser urgente “evangelizar de novo”. Conhecemos os factos que acompanharam o fim da Idade Média e os alvores da modernidade: desequilíbrios cidade-campo, desenvolvimento mercantil, abertura dos espaços ultramarinos, circunspecção mental e religiosa em contraste com formalismos e superstições persistentes, divisões e rupturas entre cristãos (católicos, protestantes, anglicanos…), reforço dos Estados em detrimento da supremacia papal…

O estímulo de monges e frades não chegava já e os seus próprios institutos tinham conhecido desvirtuamentos e pediam reformas. Paróquias e dioceses requeriam pastores mais preparados, dedicados e presentes. E onde o desafio evangélico esmorecera voltava ao de cima o substrato de sempre: os autos e farsas de Gil Vicente dão-nos o retrato fidedigno do que acontecia, demorando a encher a Barca da Glória.

O Concílio de Trento (1545-1563) precisou doutrinas e reformou práticas. Isto quanto a decisões e escritos. Quanto às reformas reais, na catequese e na formação de pastores, alguma coisa se fez, alguma coisa… O decreto tridentino para a fundação de seminários diocesanos é de 1563: o do Porto abriu em 1822…

Como sempre tem acontecido, as grandes campanhas evangelizadoras não partem da massa eclesial, mas do fermento que as levede. Jesus com os seus mártires – todos os apóstolos o foram, dum modo ou doutro – para 1ª evangelização. Os monges da Alta Idade média para a 2ª. Os mendicantes para a 3ª. A 4ª evangelização, também “nova” no seu tempo, foi especialmente protagonizada por missionários de além e aquém-mar que, do século XVI para cá reanimaram e projetaram em redor as comunidades cristãs.

No Porto foram e continuam a ser vários. Mais característicos terão sido os discípulos de Inácio de Loiola. É muito interessante lembrar-lhes a história, ainda que brevemente, não só por incluir alguns que entretanto subiram aos altares – como Francisco de Borja e Inácio de Azevedo – mas por evidenciar a seu modo o que é cíclico em cada “nova evangelização”, como temos visto: o apelo à conversão, o grupo escatológico e a sua fermentação no Povo de Deus.

Henrique Nunes de Gouveia, açoriano casado com a nobre Beatriz de Madureira, brilhava no Porto de meados desse século, pela posição social e os dotes naturais, concorrendo muitos à sua convivência e morada na Ribeira. Em Maio de 1546 chegou ao Porto o jesuíta Francisco Estrada, que deixara noutros países um largo rasto evangélico. Assim entre nós, quer pregando quer ouvindo e aconselhando. Quando chegou a vez do referido Henrique, o fruto não tardou: juntou amigos para meditar, rezar e fazer apostolado; fez-se também irmão da Misericórdia, para praticar as boas obras. Um dos que verdadeiramente tocou foi o jovem fidalgo Inácio de Azevedo, que deixou honras e bens para ser jesuíta e mártir[1].

Na sequência de tudo isto, o bispo D. Rodrigo Pinheiro aproveitou a passagem de S. Francisco de Borja pelo Porto para lhe pedir a fundação dum colégio jesuíta na cidade. Aceite o convite, o colégio inaugurou-se a 10 de Agosto de 1560 nas casas de Henrique Nunes de Gouveia, na Ribeira. Sendo dia de S. Lourenço, foi esse o nome do colégio, que não mudou quando este se transferiu para onde é hoje o Seminário da Sé.

Curiosamente há uma mudança em relação ao sucedido no século XIII com os franciscanos: aqueles instalaram-se a convite de particulares e contra a resistência do “alto clero”; os jesuítas ficaram a convite do bispo, que teve de convencer os moradores, temerosos estes de que o colégio puxasse para cá a Universidade e encarecesse a vida ou lhes aliciasse os filhos para a Companhia[2].

Os jesuítas e outros que se lhes juntaram do século XVI para diante – dos vicentinos e oratorianos aos capuchinhos, passionistas, redentoristas, claretianos, dehonianos, etc, sem esquecer os institutos da 3ª evangelização que também se lançaram em idênticas campanhas -, foram protagonistas por excelência da 4ª evangelização da Europa, em torno da missão externa e interna, chamada também “popular”. Salienta-se nesta última o retorno ao anúncio querigmático, a catequese essencial e a iniciação à oração, o apelo à conversão autêntica, acompanhada de boas obras, a prática sacramental e o acompanhamento espiritual. Como já sucedera com as anteriores ordens terceiras, irmandades e confrarias, também agora se constituem grupos de oração e vida que prolonguem as missões e lhes mantenham o espírito. As missões apresentam-se como retorno cíclico ao cristianismo autêntico, estimulando as comunidades que as acolham a serem também fermento evangélico nos meios envolventes. Da época moderna para a contemporânea, são o rosto mais expressivo da evangelização.

Entretanto, as últimas décadas aumentam-nos a convicção de que o tempo pede outra vez uma “nova evangelização”, que – sendo a 5ª no que à Europa diz respeito – corresponda “no ardor, nos métodos e nas expressões” (João Paulo II) aos grandes reptos que a sociedade e a cultura fazem ao Evangelho de Cristo.

Não querendo repetir o que já disse em várias circunstâncias - dos textos referentes à Missão 2010 à conferência de encerramento das Jornadas de Teologia no passado Fevereiro -, concluo em poucas alíneas, por demais evidentes:

a) A sociedade – particularmente a que nos toca na diocese do Porto – está fragilizada nas famílias, incerta na juventude, perplexa na meia-idade e desacompanhada na velhice. Está geralmente deslocalizada, por razões de trabalho ou falta dele, muitas vezes peregrina da subsistência possível, com grande diluição dos ritmos e pontos de encontro tradicionais e inter-geracionais.

b) A cultura apresenta notas correspondentes de fragmentação, errância e retraimento subjectivo, desconfiando quase instintivamente de quanto apareça como pré-determinado, institucional ou coactivo. A grande massa de informação e distração, não criticada nem assimilada, reduz facilmente a realidade ao virtual ou imediatamente compensatório, sobretudo sem compromisso.

c) Estes aspectos “contracenam” com outros: grandes generosidades de pessoas e grupos, em relação a muitas necessidades alheias, com picos surpreendentes de adesão a iniciativas solidárias, da parte de jovens ou de menos jovens; acolhimento fácil de propostas culturais variadas, campanhas ecológicas e um ou outro movimento cívico; disponibilidade para partir, descobrir, conhecer…

d) Neste quadro genérico, a “nova evangelização” terá de retomar criativamente o contributo das quatro anteriores – testemunho evangélico (mártires), experiência comunitária de adoração e serviço (monges), proximidade com todos, de pobres para pobres (frades), evangelização permanente do mundo em redor (missionários).

e) Não enfrentado – em geral e na Europa – a oposição frontal dos primeiros séculos, o testemunho de hoje, tem de ser convicto, coerente e persistente, nos vários meios em que a vida decorre, qual “martírio da paciência” (expressão do cardeal Casaroli).

No mundo urbano que hoje prevalece, também as comunidades se devem tornar locais disponíveis e acolhedores de adoração e serviço, autênticos “mosteiros na cidade”, alargando e revendo horários, num ritmo que já não é rural em tantos casos. Na aproximação a todas as pobrezas, antigas e novas, a caridade será necessariamente criativa, procurando os sós, refazendo vizinhanças, animando tudo o que promova a todos: ao contrário do “irmão mais velho” da parábola, que ficou em casa, teremos de ir em busca de todos os “pródigos” para os trazer a um Pai que não desiste de ninguém.

A missão permanente deverá integrar toda a riqueza carismática que o Espírito reconhecidamente nos tem oferecido, em tantas formas de comunhão eclesial e expansão evangélica. Integrará também o contributo indispensável das famílias, “igrejas domésticas” onde se fará a primeira aprendizagem de fé, da partilha e do testemunho.

f) Tudo isto irá por diante na rede alargada e complexa em que hoje se articulam as pessoas e os grupos, verdadeiramente translocal, ainda que indispensavelmente situada – em localizações múltiplas, aliás, tanto territoriais como mediáticas e informáticas.

Sendo primeiríssima a “localização” última em que a Páscoa de Cristo nos situa já: a novidade evangélica e a conversão a fazer residem precisamente aí.

Sé do Porto, 28 de Março de 2012

+ Manuel Clemente



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[1] Cf. COSTA, M. Gonçalves da – Inácio de Azevedo. O homem e a sua época. 1526-1570. Braga: Cruz, 1957, p. 37-40: “Por esse tempo [1547] dava que falar nos meios aristocráticos do Porto o cidadão Henrique Nunes de Gouveia. Era açoriano, do Faial, mas viera muito novo para a Cidade Invicta e lá desposara Beatriz de Madureira, donzela distinta tanto pelas prendas do coração como pelos pergaminhos da família. […] Delicado, ativo, inteligência a tempo para um dito conceituoso, Henrique Nunes impunha-se na roda de amigos que, como ele, sabiam das coisas do mundo. Mas na primeira dezena de Maio de 1546 surgiu-lhe inesperadamente na cidade o primeiro grande rival no aplauso da sociedade. Chamava-se Francisco Estrada, era espanhol e tinha sido recebido em Roma na Companhia de Jesus por S.to Inácio de Loiola. Antes de entrar em Portugal percorreu a Itália e a Bélgica e por toda a parte a sua palavra comovia as multidões em frutos práticos de renovação espiritual. A instrução religiosa encontrava-se em lastimoso estado quando os Jesuítas apareceram na Europa. Por meio de sermões, catecismo, exercícios espirituais, eles trouxeram ao povo cristão uma grande novidade: o Evangelho. […] Desde o primeiro sermão, Estrada tornou-se no Porto o homem do dia. Pela noite adiante os escravos vinham ocupar lugar na igreja para seus amos; quando descia do púlpito, o apóstolo arrastava atrás de si para o hospital, onde alojava, uma multidão entusiasta […]. Todos queriam falar com ele, desabafar propósitos de vida nova, receber avisos espirituais. […] Na longa fila dos que aguardavam a vez à porta do hospital, achava-se também Henrique Nunes. […] Depôs cetins e brocados; agenciou umas disciplinas e um ofício divino, cuja recitação entremeava com jejuns e exortações espirituais a vários cavalheiros que se lhe juntaram no mesmo intento de vida nova; inscreveu-se como irmão da Misericórdia […]. Às quartas e sextas-feiras juntavam-se os confrades para tratar assuntos relacionados com o apostolado, e a reunião fechava com o salmo ‘Miserere’, entoado em coro, ao compasso doloroso das disciplinas. […] Foi à sua porta, na Praça da Ribeira, que Inácio de Azevedo se apeou […]. Velho conhecido da família, Gouveia foi arrastando pouco a pouco no seu entusiasmo religioso o espírito, naturalmente reto, do moço fidalgo […]. Convenceu-o de que a vida era uma coisa séria e portanto cheia de responsabilidades; ensinou-lhe que as duas grandes forças, com que os padres da Companhia asseguravam na Europa o fruto da reforma católica, eram a confissão e a comunhão; e Azevedo começou a frequentar esses sacramentos…”.

[2] Cf. FERREIRA – Memórias, vol. 2, p. 129-131: “No governo de D. Rodrigo Pinheiro e com a sua colaboração instalaram-se no Porto os Jesuítas. Em 1560 veio pela terceira vez a este país S. Francisco de Borja, Comissário Geral de Castela e Portugal, a fim de visitar as Casas desta província, e, partindo de Coimbra para o Convento de S. Fins, […] entrou no Porto, e foi alojar-se no Hospício de Santa Clara. Ali recebeu a visita do Bispo D. Rodrigo Pinheiro e das pessoas mais consideradas da terra, as quais lhe pediram com vivas instâncias para fundar um Colégio no Porto. No dia seguinte o Santo foi pagar a visita ao Bispo e levar-lhe deferida a pretensão. O Colégio inaugurou-se nas casas de Henrique Nunes Gouveia, à Ribeira, no dia 10 de Agosto, que, por ser consagrado a S. Lourenço, lhe deu também o nome. Na solenidade desta fundação pregou o Beato Inácio de Azevedo, jesuíta, natural do Porto, que, daí a dez anos, navegando para o Brasil, foi martirizado com trinta e nove companheiros […]. Ao sermão e à Missa assistiu o Bispo D. Rodrigo com um grande concurso de gente de todas as classes; porém, […] os moradores desta cidade opuseram-se com várias razões ou pretextos, principalmente dizendo que com a fundação de tal Colégio podia transferir-se para ali a Universidade de Coimbra, e essa mudança produziria a carestia da vida, além do perigo, que temiam os burgueses, dos Jesuítas lhes aliciarem os filhos para o seu Instituto. Fez-se na casa da Misericórdia uma reunião, onde esteve presente S. Francisco de Borja e certamente o Bispo D. Rodrigo Pinheiro, que com argumentos irrefutáveis convenceram os do governo da cidade dos seus infundados receios, e todas as dificuldades foram aplanadas, consentindo eles então em que os Padres ficassem no Porto e com Colégio, embora sem estudos, por afirmarem todos que não podia a terra sustentá-los. […] e por ser a casa acanhada se mudou o referido Colégio, passados dezassete anos, em 1577, para a rua das Aldas, onde se manteve até à expulsão, em 1759” (FERREIRA – Memórias, vol. 2, p. 129-131).


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