Excelentíssima senhora diretora da Faculdade Novos Horizontes



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Encontro02.08.2016
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  • Excelentíssima senhora diretora da Faculdade Novos Horizontes

  • Prezados patrono, coordenadores dos cursos de administração, senhores membros da mesa, professores homenageados

  • Demais autoridades, professores homenageados, parentes, convidados

  • Um dos princípios que prezo em minha carreira é a de não ter ex-alunos; todos são alunos meus, enquanto na faculdade estiverem e de mim precisarem. Neste momento, eu tenho o prazer de saudá-los: caros ex-alunos, caros colegas,

Vou iniciar (como não poderia deixar de ser) fazendo uma citação direta. Pablo Neruda, ironizando a árdua tarefa da escrita, nos presenteou com a célebre frase: ESCREVER É FÁCIL: VOCÊ INICIA COM UMA LETRA MAIÚSCULA, E NO FINAL, COLOCA UM PONTO. NO MEIO, PÕE AS IDÉIAS. Fácil, não?


Escrever este discurso não foi assim tão fácil. Não que a escrita seja grande barreira para mim; até que eu lido bem com a pena; difícil foi traduzir, acomodar sentimentos fortes, intensos em palavras.
Mas, vou tentar. E vou iniciar dizendo-lhes que me honra estar aqui. Muito!

Estar aqui dignifica-me os princípios, fortalece-me as crenças, solidifica meus valores, minhas idéias, abranda-me os deslizes, equívocos. É injeção de ânimo e força para batalhar por uma escola melhor, um ser humano melhor, uma sociedade melhor, um mundo melhor. Com este convite, vocês assentaram vários tijolos na construção da minha história. Vocês, agora, fazem parte da minha história.


Agora, parafraseando o mesmo autor, poderíamos dizer que se tornar um administrador é fácil: basta fazer a matrícula no início de cada semestre, e, ao final do curso, requerer o diploma. No meio, você coloca o curso! O dia-a-dia dos quatro anos de estudo, esforço, provas, trabalhos, alegrias, cansaço, renúncias, vitórias, dificuldades, gastos, páginas e de notas de aulas, trabalhos, projetos interdisciplinares, relatórios de ESU, TC. Terá sido tão fácil?
Quanta coisa se passou! Entre a matrícula e o diploma, houve também crescimento, aprendizado, às vezes arrependimento, outras esperança, amizades, amores feitos, desfeitos. Uma vida, enfim, intensamente vivida em quatro anos! Não foi fácil, sabemos, já vivemos isso. Por isso, é importante fazer parte deste momento da história de vocês.
Uma colega nossa, ao ser homenageada, ressaltou como era gratificante encontrar os alunos no primeiro semestre do curso, e reencontrá-los alguns semestres à frente, mais amadurecidos, confiantes, críticos. Claramente, percebemos vocês irem se modificando, se tornando mais críticos, olhares mais curiosos, atentos, mais vivos; voz mais confiante, ombros mais erguidos, sorriso mais aberto. Realmente, entre a matrícula e o diploma, há o curso e o curso é toda uma vida.
No início de cada semestre, ao perguntar aos alunos o que vieram buscar na faculdade, eles me respondem: conhecimento, diploma, habilidade técnica, domínio da área. O que eles não sabem é que nós temos outros planos para vocês. Não é nossa intenção apenas passar-lhes conhecimento, mesmo porque o conhecimento se obsoleta a cada instante. Pretendemos mais: queremos fazer de vocês pessoas capazes de lidar com o conhecimento, criticar, modificar, gerar novos conhecimentos; queremos pessoas que possam fazer a diferença numa organização, na sociedade e no mundo.
O conhecimento e a técnica são instrumentos que utilizamos para ultrapassar a barreira do aluno e chegar até o ser humano, o cidadão, a pessoa, e fazer dele um agente transformador da sociedade, prepará-lo para nos suceder na condução do nosso país.
O mundo dos negócios, caracterizado por rápidas mudanças, constante evolução técnica e científica, aumento das comunicações, necessita de um novo tipo de profissional. A globalização permite que as organizações enviar seu processo produtivo para qualquer lugar do planeta, onde a mão de obra for mais barata. Vivemos claros exemplos disse. Não há barreiras para a produção. As barreiras, agora, estão no processo de criação e desenvolvimento intelectual. E as organizações já estão se conscientizando de que idéias, criatividade, inovação, intuição, sensibilidade, emoção, estão nas pessoas, somente nas pessoas.
Se antes, competência técnica era fator determinante para o exercício de uma profissão, hoje, além do domínio da técnica, o profissional tem que ser também cidadão, envolvido e comprometido com o meio em que vive, capaz de trabalhar em equipe e tomar decisões rapidamente e com qualidade.
As organizações estão aprendendo que ética, princípios, valores, inteligência emocional, função social, integração à família, respeito ao meio ambiente, são fatores que determinam a sua sobrevivência. Demitem mais por falta de competência interrelacional do que por falta de competência técnica.
Engana-se, portanto, quem pensa que a nossa missão é transformar o aluno num depósito de dados, informações, técnicas. Engana-se quem pensa que pretendemos apenas formar o profissional e fornecer-lhe um diploma de competência na área.
Para nós, formar um profissional é mais, é bem mais do que conceder diplomas e habilitar profissionais numa área de atuação; é promover no aluno mudanças que o transformem no profissional que as empresas necessitam e exigem.
A competência técnica e o diploma só terão sentido se a eles estiver agregado um sujeito, um indivíduo de valor. Formar um indivíduo significa mais que instrumentalizá-lo para a profissão; significa fazer dele um cidadão de bem, crítico e comprometido com a realidade que o cerca.
O mercado não se propõe (e nem é sua função) a fornecer essa formação integral. Ele proporciona ambiência, oportunidade de treinamento, aquisição de experiência, vivência prática e conhecimentos direcionados para os objetivos da organização; mas quer receber o profissional já formado.
Por isso, nosso propósito é provocar em vocês mudanças, inquietações, inconformidade, revisão de princípios, valores, posturas, porque a verdadeira missão da universidade frente à sociedade e ao mercado é gerar cidadãos competentes e capazes de tomar decisões livres.
E um cidadão livre é uma pessoa, um ser humano integral: corpo e mente, solidário, criativo, de bem com a vida. É profissional competente, empreendedor, inovador, transformador. Mas, sobretudo, um cidadão ético, responsável, capaz de reconhecer falhas e promover mudanças.
E para ser livre, ele deverá exercitar sua capacidade de pensar, refletir, criticar, analisar, perceber o ambiente que o cerca. Exercitar a lógica, a razão, sem, entretanto, abrir mão do que lhe diz o coração. Um cidadão livre está sempre procurando agregar conhecimento e valor às coisas. É alguém que aprender a aprender...

Não vou me alongar muito mais, fiquem tranqüilos. Antes, quero relatar-lhes um episódio ocorrido comigo no ano passado, pouco antes da minha mãe falecer. Um dia, ao viver uma determinada situação complicada, eu fiz, digamos, a coisa certa. Ao saber, minha mãe não ficou a exaltar minhas qualidades, nem me fez elogios. Ela pronunciou apenas: EU NÃO ESPERAVA OUTRA COISA DE VOCÊ, MINHA FILHA.


Estas palavras falaram muito profundamente em mim. Primeiro, porque me deram a dimensão da confiança e da crença que a minha mãe deposita em mim. Deposita, pois ela vai estar sempre viva em mim. Esta confiança, esta crença, serão as minhas referências, as minhas âncoras, os meus limites na vida. É a minha mãe se eternizando em mim.
Por outro lado, a fala dela conferiu-me uma grande responsabilidade, porque delineou meus limites e minha conduta. Com esta frase, a minha mãe deixou claro que espera de mim a coisa certa, e decidiu que eu não posso decepcioná-la, nunca. Eu, também, meus caros, espero de vocês a coisa certa.
Nós estamos lhes deixando um país doente; um país acometido por um vírus perigoso, aparentemente inofensivo, mas letal a longo prazo e que acarreta outras doenças periféricas: um vírus chamado EGOCENTRISMO. Um vírus que prega que o outro é o instrumento do meu prazer; que o meu interesse está acima de tudo e todos, e por ele tudo é permitido: posso apunhalar, matar, violentar, trair, usar, desde que eu leve alguma vantagem com isso.
Esse vírus está proliferando fartamente porque o ambiente lhe está sendo favorável. O nosso país está com o seu sistema imunológico fragilizado, impotente: não consegue punir, não consegue repreender, não consegue recuperar, não consegue educar, nem fazer justiça.
Estamos caminhando para uma situação complicada, que pode inviabilizar a vida em sociedade. Não há possibilidade de vida onde não houver paz. E paz só é possível se houver respeito e confiança no próximo. Eu preciso poder virar as costas ao meu próximo sem medo de ser apunhalado. E esta confiança nós estamos perdendo, e precisamos recuperar.
Nós torcemos por vocês porque estamos lhes deixando o país nas mãos. Não é o melhor dos mundos, sabemos, mas é o que temos: um país cheio de problemas, cheio de defeitos, cheio de esperanças e possibilidades. Mas, também, estamos lhes entregando um país jovem, lindo, repleto de possibilidades, de recursos; um país, cuja gente é potencialmente boa, dócil, maleável, adaptável.
Se somos tão pródigos em copiar modelos estrangeiros de vestuário, moda, alimentação, linguagem, modelos de trabalho e gestão, é porque somos carentes de valores, de identidade. Somos um país facilmente semeável, ainda por construir, um país possível. E serão vocês os responsáveis por transformar a esperança em projeto e a possibilidade em fato.
As organizações já se conscientizaram que o ser humano é o seu bem mais precioso e precisa ser preservado como pessoa e não como objeto de manipulação e consumo de produtos e serviços. O ser humano precisa se realizar profissionalmente, mas também precisa ser pessoa, sonhar, viver em paz, sem medo.
É necessário e urgente que as pessoas possam ter mais tempo para contemplar o mundo, amar o seu semelhante, refletir sobre a vida, desejar um futuro e viver com mais plenitude. Sem as pessoas, não há organizações; e pessoas estressadas, amedrontadas, alienadas, infelizes, certamente não poderão retribuir com o melhor de si para o crescimento das organizações.
Meus caros, eu os quero empreendedores, ousados e determinados. Quero-os inovadores, críticos, criativos, dinâmicos, fazedores de dinheiro, líderes, trabalhadores, lutadores, transformadores, promotores de mudanças.
Mas, também os quero éticos, sensatos, responsáveis para com o meio ambiente e com a sociedade; quero-os amorosos e amáveis, alegres, bem humorados, amigos, companheiros; quero vocês chorando, sorrindo, vivendo com toda a plenitude, olhando nos olhos das pessoas, amando profundamente pessoas, animais, causas e a si mesmos.
Vejam que eu não pronunciei a palavra FELICIDADE. É que felicidade, para mim, não é uma sensação de alegria, um estado de euforia, uma conquista, um sucesso. Isso é satisfação. FELICIDADE é algo maior, mais amplo, mais pleno, mais sublime. Ela independe de estarmos alegres ou tristes, de sermos ricos ou pobres, porque ela só ocorre quando criamos uma conexão cósmica entre nós e o mundo. Felicidade é a liberdade de sair de si e enxergar o outro.
Felicidade é consciência, é certeza, atitude, estado de espírito; é paixão que se apodera de nós quando descobrimos o nosso papel no mundo, a nossa missão, a razão de estarmos aqui e a diferença que podemos fazer na vida do outro: seja ele uma pessoa, um animal, uma planta, a natureza. Só consegue ser feliz aquele que sente que é capaz e que pode fazer a diferença na vida do outro.
É sentimento de pertencimento, de mais valia; é saber-se um trampolim para o outro ser melhor.
Felicidade é acreditar em causas; é abraçar causas, lutar por elas. Felicidade é voltar pra casa, para seus sonhos e projetos e pedir-lhes desculpas por ter se afastado um pouco deles para cuidar do outro. E, ao pedir desculpas, chorando ou sorrindo (não importa, porque faz parte da vida), descobrir que cuidar do outro lhe fortaleceu a competência e a energia para cuidar de si próprio.
Finalmente, uma pequena história, do estilo que eu gosto de contar em sala de aula: certa vez um homem estava à beira de um lago tentando salvar um escorpião que se afogava. Cada vez que ele puxava o escorpião para fora, este o mordia, e ele era obrigado a soltá-lo. Por várias vezes fez isso, e por várias vezes, foi mordido. Alguém, assistindo à cena, aproximou-se e lhe disse: por que você está fazendo isso? Você sabe que o escorpião, não vai lhe agradecer, e ainda vai mordê-lo depois de salvo.
O homem respondeu: eu sei; é da natureza do escorpião morder, assim como é da minha natureza ajudar. Eu não posso deixar de fazer o que é correto, apenas porque o outro não o reconhece.
Eu não vou me tornar corrupto, porque pessoas em que eu deveria confiar o são; nem vou poluir o meio ambiente porque todo mundo polui; também não vou trair um colega porque é comum fazer isso.
Eu tenho que ser fiel à minha consciência, aos meus princípios, e não me tornar refém da reação do outro. Eu tenho que fazer o que a minha consciência diz que é o certo. Isto feito, pegou um galho de árvore, e distante do escorpião, puxou-o da água e o viu fugir para longe.
Meus caros: façam o que lhes cabe para tornar este país melhor. Não permitam que a sua auto-estima se torne refém de elogios ou agradecimentos. Sejam livres; façam o que a sua consciência lhes recomenda; que a sua auto-estima seja forte o suficiente para se pautar apenas pela certeza de estar fazendo a coisa certa.
Façam da vida de vocês e dos que os cercam uma obra com sentido, ética e dignidade.
Amem-se, valorizem-se, admirem-se; não sejam menos do que o máximo que puderem ser; não dêem menos de si do que o melhor que puderem dar, não negociem com a mediocridade; vocês não merecem; o país não merece. Não deixem de fazer a coisa certa!
Eu não espero outra coisa de vocês, meus caros. SEJAM FELIZES!


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