Exercícios de preparação para Exame – Português (639) grupo I



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Biblioteca - 2013/14


Exercícios de preparação para Exame – Português (639)

GRUPO I

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eia, atentamente, o texto a seguir transcrito.

De Montemor a Évora não vão faltar trabalhos. Voltou a chover, tornaram os atoleiros, partiram-se eixos, rachavam-se como gravetos os raios das rodas. A tarde caía rapidamente, o ar arrefecia, e a princesa D. Maria Bárbara, que enfim adormecera, auxiliada pelo torpor emoliente dos caramelos com que aconchegara o estômago e por quinhentos passos de estrada sem buracos, acordou com um grande arrepio, como se um dedo gelado lhe tivesse tocado na testa, e, virando os olhos ensonados para os campos crepusculares, viu parado um pardo ajuntamento de homens, alinhados na beira do caminho e atados uns aos outros por cordas, seriam talvez uns quinze.

Afirmou-se melhor a princesa, não era sonho nem delírio, e turbou-se de tão lastimoso espetáculo de grilhetas, em véspera das suas bodas, quando tudo devia ser ledice e regozijo, já não chegava o péssimo tempo que faz, esta chuva, este frio, teriam feito bem melhor se me casassem na primavera. Cavalgava à estribeira um oficial a quem D. Maria Bárbara ordenou que mandasse saber que homens eram aqueles e o que tinham feito, que crimes, e se iam para o Limoeiro ou para a África. Foi o oficial em pessoa, talvez por muito amar esta infanta, já sabemos que feia, já sabemos que bexigosa, e daí, e vai levada para Espanha, para longe, do seu puro e desesperado amor, querer um plebeu a uma princesa, que loucura, foi e voltou, não a loucura, ele, e disse, Saiba vossa alteza que aqueles homens vão trabalhar para Mafra, nas obras do convento real, são do termo de Évora, gente de ofício, E vão atados porquê, Porque não vão de vontade, se os soltam fogem, Ah. Recostou-se a princesa nas almofadas, pensativa, enquanto o oficial repetia e gravava em seu coração as doces palavras trocadas, há de ser velho, caduco e reformado, e ainda se recordará do mavioso diálogo, como estará ela agora, passados todos estes anos.

A princesa já não pensa nos homens que viu na estrada. Agora mesmo se lembrou de que, afinal, nunca foi a Mafra, que estranha coisa, constrói-se um convento porque nasceu Maria Bárbara, cumpre-se o voto porque Maria Bárbara nasceu, e Maria Bárbara não viu, não sabe, não tocou com o dedinho rechonchudo a primeira pedra, nem a segunda, não serviu com as suas mãos o caldo dos pedreiros, não aliviou com bálsamo as dores que Sete-Sóis sente no coto do braço quando retira o gancho, não enxugou as lágrimas da mulher que teve o seu homem esmagado, e agora vai Maria Bárbara para Espanha, o convento é para si como um sonho sonhado, uma névoa impalpável, não pode sequer representá-lo na imaginação, se a outra lembrança não serviria a memória.

José Saramago, Memorial do Convento, 27.ª ed., Lisboa, Caminho, 1998

Apresente, de forma bem estruturada, as suas respostas aos itens que se seguem.



1. Vários são os imprevistos da viagem que a princesa e a sua comitiva fazem, de Montemor a Évora.

Refira três desses imprevistos, fundamentando a sua resposta com elementos do texto.



2. Explicite o sentido do seguinte excerto: «turbou-se de tão lastimoso espetáculo de grilhetas, em véspera das suas bodas, quando tudo devia ser ledice e regozijo» (linhas 8 e 9).

3. Identifique um dos recursos de estilo presentes no último parágrafo do texto e comente a respetiva expressividade.

4. Divida o texto em partes lógicas e apresente, para cada uma delas, uma frase que sintetize o respetivo conteúdo.
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eia o excerto a seguir apresentado e responda, de forma correta e completa, às perguntas que lhe são colocadas:


Madalena – Que tens tu, dize, que tens tu?

Manuel – tenho que não hei de sofrer esta afronta… e que é preciso sair desta casa, senhora.

Madalena – Pois, sairemos, sim: eu nunca me opus ao teu querer, nunca soube que coisa era ter outra vontade diferente da tua; estou pronta a obedecer-te sempre, cegamente, em tudo. Mas, oh! esposo da minha alma… para aquela casa não, não me leves para aquela casa (Deitando-lhe os braços ao pescoço).

Manuel – Ora tu não eras costumada a ter caprichos! Não temos outra para onde ir; e a estas horas, neste aperto… Mudaremos depois, se quiseres… mas não lhe vejo remédio agora. – E a casa que tem? Porque foi de teu primeiro marido! É por mim que tens essa repugnância? Eu estimei e respeitei sempre a D. João de Portugal; honro a sua memória, por ti, por ele e por mim; e não tenho na consciência por que receie abrigar-me debaixo dos mesmos tetos que o cobriram. – Viveste ali com ele? Eu não tenho ciúmes de um passado que me não pertencia. E o presente, esse é meu, meu só, todo meu, querida Madalena… Não falemos mais nisso; é preciso partir e já.

Madalena – Mas é que tu não sabes… eu não sou melindrosa nem de invenções: em tudo o mais sou mulher e muito mulher, querido; nisso não… mas tu não sabes a violência, o constrangimento de alma, o terror com que eu penso em ter de entrar naquela casa. Parece-me que é voltar ao poder dele, que é tirar-me dos teus braços, que o vou encontrar ali… - Oh, perdoa, perdoa-me, não me sai esta ideia da cabeça… - que vou achar ali a sombra despeitosa de D. João, que me está ameaçando com uma espada de dois gumes… que a atravessa no meio de nós, entre mim e ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre… - Que queres?... bem sei que é loucura; mas a ideia de tornar a morar ali, de viver ali contigo e com Maria, não posso com ela. Sei decerto que vou ser infeliz, que vou morrer naquela casa funesta, que não estou ali três dias, três horas, sem que todas as calamidades do mundo venham sobre nós. Meu esposo, Manuel, marido da minha alma, pelo nosso amor to peço, pela nossa filha… vamos seja para onde for, para a cabana de algum pobre pescador desses contornos, mas para ali não, oh! Não.

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anuel –
Em verdade nunca te vi assim; nunca pensei que tivesses a fraqueza de acreditar em agouros. Não há senão um temor justo, Madalena, é o temor de Deus; não há espetros que nos possam aparecer senão os das más ações que fazemos. Que tens tu na consciência que tos faça temer? O teu coração e as tuas mãos estão puros; para os que andam diante de Deus, a terra não tem sustos, nem o Inferno pavores que se lhes atrevam. Rezaremos por

alma de D. João de Portugal nessa devota capela que é parte da sua casa; e não hajas medo que nos venha perseguir neste mundo aquela santa alma que está no Céu, e que em tão santa batalha, pelejando por seu Deus e por seu rei, acabou mártir às mãos dos infiéis. Vamos, D. Madalena de Vilhena, lembrai-vos de quem sois e de quem vindes, senhora… e não me tires, querida mulher, com vãs quimeras de crianças, a tranquilidade do espírito e a força do coração, que as preciso inteiras nesta hora.

Madalena – Pois que vais tu fazer?

Manuel – Vou, já te disse, vou dar uma lição aos nossos tiranos que lhes há de lembrar, vou dar um exemplo a este povo que o há de alumiar…

Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett


  1. Insira o excerto na obra a que pertence, fazendo a sua contextualização.

  2. Atente nas falas de Madalena e Manuel, entre as linhas 1 e 11 e responda:

    1. Identifique a causa da discórdia entre o casal, justificando com expressões textuais.

    2. Refira dois motivos pelos quais, segundo Manuel, o casal não deve sentir receio da mudança. Justifique com o texto.

  3. Caracterize o estado de espírito de Madalena, recorrendo a exemplos do texto.

  4. Partindo das falas de Manuel, demonstre que esta personagem se insere nos ideais preconizados pelo Romantismo.

  5. Atente na fala de Madalena, entre as linhas 13 e 21 e demonstra que, na obra em análise, a família constitui, de facto, o problema central para o qual o dramaturgo pretende chamar a atenção.

  6. Retire do texto três exemplos que demonstram a perturbação e o conflito interior vividos pelas personagens, explicando-os.

  7. Tendo em conta o excerto em análise, classifique os seguintes atos ilocutórios:

  1. “Que tens tu, dize, que tens tu?” (linha 1);

  2. “Não há senão um temor justo, Madalena, é o temor de Deus;” (linhas 22 - 23);

  3. “Rezaremos por alma de D. João de Portugal nessa devota capela que é parte da sua casa” (linhas 25-26).

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rupo II

Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos fui publicando […]. A estranheza do título justifica uma explicação, para que ele não passe como um mero exercício de estilo.

Quando era pequeno – muito pequeno, talvez oito ou nove anos – lembro-me de estar deitado na banheira, em casa dos meus pais, a ler um livro de quadradinhos. Era uma aventura do David Crockett, o desbravador do Kentucky e do Tenessee, que haveria de morrer na mítica batalha do Forte Álamo. Nessa história, o David Crockett era emboscado por um grupo de índios, levava com um machado na cabeça, ficava inconsciente e era levado prisioneiro para o acampamento índio. Aí, dentro de uma tenda, havia uma índia muito bonita – uma «squaw», na literatura do Far-West – que cuidava dele, dia e noite, molhando-lhe a testa com água, tratando das suas feridas e vigiando o seu coma. E, a certa altura, ela murmurava para o seu prostrado e inconsciente guerreiro: «não te deixarei morrer, David Crockett!»

Não sei porquê, esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre, quase obsessivamente. Durante muito tempo, preservei-as à luz do seu significado mais óbvio: eu era o David Crockett, que queria correr mundo e riscos, viver aventuras e desvendar Tenessees. Iria, fatalmente, sofrer, levar pancada e ficar, por vezes, inconsciente. Mas ao meu lado haveria sempre uma índia, que vigiaria o meu sono e cuidaria das minhas feridas, que me passaria a mão pela testa quando eu estivesse adormecido e me diria: «não te deixarei morrer, David Crockett!» E, só por isso, eu sobreviveria a todos os combates. Banal, elementar.

Porém, mais tarde, comecei a compreender mais coisas sobre as emboscadas, os combates e o comportamento das índias perante os guerreiros inconscientes. Foi aí que percebi que toda a minha interpretação daquela cena estava errada: o David Crockett representava sim a minha infância, a minha crença de criança numa vida de aventuras, de descobertas, de riscos e de encontros. Mas mais, muito mais do que isso: uma espécie de pureza inicial, um excesso de sentimentos e de sensibilidade, a ingenuidade e a fé, a hipótese fantástica da felicidade para sempre. [...]

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iguel Sousa Tavares, Não Te Deixarei Morrer, David Crockett,

«Nota Prévia», 26.ª ed., Lisboa, Oficina do Livro, 2007



Para responder aos itens de 1 a 6, escreva, na folha de respostas, o número do item seguido da letra identificativa da alternativa correta.

1. Com a afirmação «esta frase e esta cena viajaram comigo para sempre» (linha 11), o autor quer dizer que

A. se sentia marcado para toda a vida por aquela frase e por aquela cena.

B. transportava consigo, sempre que viajava, um livro sobre David Crockett.

C. se lembrava daquela frase e daquela cena sempre que viajava.

D. tinha aquela frase gravada na pasta que usava em viagem.

2. Na frase iniciada por «Foi aí que» (linha 18), o autor assinala o momento em que

A. leu a história aventurosa e acidentada do desbravador David Crockett.

B. tomou consciência de que David Crockett era o símbolo da sua infância.

C. sentiu a necessidade de preservar na memória o herói David Crockett.

D. julgou que era David Crockett, o mítico combatente de Forte Álamo.

3. A perífrase verbal em «e ao longo dos últimos anos fui publicando» (linha 1) traduz uma ação

A. momentânea, no passado.

B. repetida, do passado ao presente.

C. apenas começada, no passado.

D. posta em prática, no momento.

4. A locução «para que» (linha 2) permite estabelecer na frase uma relação de

A. causalidade.

B. completamento.

C. finalidade.

D. retoma.

5. O uso de travessão duplo (linha 3) justifica-se pela necessidade de

A. destacar uma explicitação.

B. registar falas em discurso direto.

C. marcar alteração de interlocutor.

D. sinalizar uma conclusão.

6. O uso repetido do nome «David Crockett»

A. constitui um mecanismo de coesão lexical.

B. assegura a progressão temática.

C. constitui um processo retórico.

D. assegura a coesão interfrásica do texto.

7. Para responder, escreva, na folha de respostas, o número do item, a letra identificativa de cada afirmação e, a seguir, uma das letras, «V» para as afirmações verdadeiras ou «F» para as afirmações falsas.

A. O segmento textual «Este livro reúne alguns dos textos que mensalmente e ao longo dos últimos anos fui publicando» (linha1) constitui um ato ilocutório diretivo.

B. O constituinte «inconsciente» em «Nessa história, o David Crockett (...) ficava inconsciente» (linhas 6 e 7) desempenha, na frase, a função de predicativo do sujeito.

C. Os vocábulos «batalha» (linha 5) e «combates» (linha 17) mantêm entre si uma relação de antonímia.

D. O antecedente do pronome relativo «que» (linha 8) é «uma índia muito bonita» (linha 7).

E. Em «molhando-lhe a testa com água, tratando das suas feridas e vigiando o seu coma» (linhas 8 e 9), as formas verbais «molhando», «tratando» e «vigiando» traduzem o modo continuado como a índia cuidava de David Crockett.

F. Na frase «ela murmurava para o seu prostrado e inconsciente guerreiro» (linha 9), os adjetivos têm um valor restritivo.

G. Em «não te deixarei morrer, David Crockett!» (linha 9 e 10), «te» e «David Crockett» são referências deícticas pessoais.

H. Na frase «preservei-as à luz do seu significado mais óbvio» (linha 12), o referente de «as» é «esta frase e esta cena» (linha 11).

I. A frase «que vigiaria o meu sono» (linha 14) é subordinada relativa restritiva.

J. O conector «Porém» (linha 17) introduz uma relação de oposição entre o que anteriormente foi dito e a ideia exposta posteriormente.

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