Existe uma "forma Cristã" de Pensar? A idéia de uma Reflexão Cristã na Tradição Reformacional



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Existe uma “forma Cristã” de Pensar?

A Idéia de uma Reflexão Cristã

na Tradição Reformacional
Guilherme V. R. Carvalho1[1]

(Artigo Publicado na RTPC, ano 6, no 23, Julho/Dez 2005)
Resumo
O pensamento reformacional é uma importante tradição intelectual cristã, nascida no calvinismo holandês e cujas raízes remontam a Agostinho. A proposta reformacional de pensamento teórico se caracteriza por seu compromisso com a cosmovisão cristã, expressa na tríade Criação-Queda-Redenção. No artigo o autor procura mostrar como cada um dos elementos da tríade tem influência determinante na constituição de uma atitude reflexiva tipicamente cristã, em oposição ao pensamento humanista.
Palavras-Chave
Calvinismo, filosofia reformacional, pressuposicionalismo, cosmovisão, antítese, Abraham Kuyper.
Introdução
Quando comecei, há pouco tempo, a falar a respeito da necessidade de reformarmos a mente evangélica, a primeira reação das pessoas foi de estranhamento. Acabei descobrindo que boa parte dos crentes entende que o cristianismo é uma forma diferente de crença, mas não necessariamente de pensamento. Segundo eles, “razão é razão”: só haveria uma forma de raciocinar, válida tanto para crentes como para incrédulos.

Há, no entanto, muitos cristãos que tem uma posição diferente a respeito disso. Eles chegaram à percepção de que o humanismo secular não apenas transmite uma interpretação anti-cristã do mundo, mas também incute padrões de pensamento anti-cristãos nos indivíduos. Em resposta, propuseram uma reforma integral da ação da Igreja no mundo, que incluiria a reforma do próprio pensamento teórico. Essa proposta tem suas origens em Agostinho e Calvino; foi desenvolvida inicialmente na Holanda, com Abraham Kuyper e seus seguidores, principalmente Herman Dooyeweerd, D. T. H. Vollenhoven, e ganhou expressão mais recentemente no pensamento de Cornelius Van Til, Francis Schaeffer, Charles Colson, Nancy Pearcey, Alvin Plantinga, e muitos outros pensadores evangélicos.2[2]

A marca dessa tradição é o compromisso com a cosmovisão cristã integral como ponto de partida para o pensamento cristão, e a busca por uma reforma do pensamento científico e filosófico. Por essa razão sua proposta de pensamento tem sido denominada “filosofia reformacional”, ou “pensamento reformacional”.

Ora, se o pensamento reformacional se caracteriza exatamente pelo compromisso com a cosmovisão cristã, segue-se que a primeira palavra sobre o pensar cristão deve ser uma interpretação desse ato a partir da cosmovisão cristã. Durante a história da igreja vários pensadores cristãos apontaram os elementos básicos da Cosmovisão Cristã como sendo a tríade “Criação-Queda-Redenção”.

Assim uma visão cristã da reflexão precisa considerar o pensamento humano sob estes três pontos de referência: como criatura de Deus, como criatura caída, e como parte da obra redentiva de Deus em Cristo. Isso é o que pretendemos fazer em nosso artigo.3[3]


  1. O Pensamento como Criação de Deus e o “Teocentrismo”

É o homem quem pensa; mas ele só o faz porque Deus pensa e criou o homem “à sua imagem”. Esse é o elemento central de uma visão cristã da reflexão: que tal capacidade faz parte de nossa estrutura criada e, portanto, é algo intrinsecamente bom. Não é ruim pensar, e é antibíblico ensinar as crianças evangélicas a idéia de que quanto menos pensamos, melhor para a nossa fé.

Mas há algo mais aqui. Nós fomos criados “à imagem de Deus”. Isso significa que a glória de Deus se revela naquilo que nós fazemos. Não é que algo em nós seja a imagem de Deus, mas que nós o somos! Portanto o “homem pensante” revela a sabedoria de Deus.

Se acreditamos, no entanto, que o homem existe à imagem de Deus, não há lugar para a crença de que o homem seja essencialmente um ser “racional”. Deus é uma pessoa divina que também pensa, mas ele não é uma “razão cósmica”. Numa perspectiva cristã o homem deve ser visto como um centro pessoal, ou um “coração” que tem uma razão, mas que tem também outras funções igualmente importantes: a corporalidade, as emoções, a fé, a sociabilidade, o senso moral, etc.

Portanto a primeira contribuição que a cosmovisão cristã pode dar para a nossa reflexão é a compreensão do lugar da racionalidade na vida humana: trata-se de um aspecto fundamental da nossa vida, intrinsecamente bom, mas que não pode ser posto à frente de outras qualidades humanas. Essa constatação está diretamente ligada a um debate muito antigo da filosofia e da teologia.

Na entrada do oráculo de Delfos havia uma inscrição: “conhece-te a ti mesmo”. Sócrates, referindo-se a essa expressão, disse certa vez: “a alma nos ordena conhecer aquele que nos adverte: Conhece-te a ti mesmo”. Um dos temas centrais do pensamento de Sócrates era a descoberta da “essência” do homem, que para ele se encontrava na alma racional.4[4] Séculos mais tarde Santo Agostinho nos ajudaria a conhecer a resposta cristã a essa pergunta tão importante: “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.”5[5] Para ele a essência do homem não é uma alma racional, mas uma orientação da vontade, como um rio que corre para o mar.


Contrariamente aos filósofos gregos, Agostinho insistia que conhecer a verdade não é necessariamente fazer a verdade, pois a natureza essencial do ser humano não é a razão mas a vontade. O ser humano é criado de tal forma que não tem outra escolha que não amar, orientar seu ser para algum objeto, princípio, pessoa, com total devoção. O objeto supremo querido por cada pessoa caracteriza seu ser total, dando-lhe suas pressuposições, motivações, razões, vitalidade e objetivo. Não há ser humano sem tal fé, ‘religião’, ‘Deus’. Não se raciocina para tal objeto, mas se raciocina a partir dele.6[6]
Por isso para Agostinho o autoconhecimento estava ligado ao conhecimento de Deus,7[7] e esse conhecimento não poderia ser obtido sem a influência divina na vontade e a prática da verdade.8[8] Mais de mil anos depois Calvino diria:
“... pelo conhecimento de si mesmo é cada um não apenas aguilhoado a buscar a Deus, mas até como que pela mão conduzido a achá-lo. Por outro lado, é notório que jamais chega ao homem ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus e da visão dele desça a examinar-se a si próprio.”9[9]
Chegamos assim à concepção que eu chamaria socrática-agostiniana-calvinista de pensamento: o homem só pode realmente chegar a um conhecimento verdadeiro do mundo se obtiver um conhecimento crítico de si mesmo, e esse conhecimento de si é o conhecimento de sua orientação religiosa fundamental em direção a Deus. Descobrindo em seu próprio coração o ponto de partida religioso de toda a sua existência o homem é confrontado com a necessidade de adorar, unir-se e realizar-se a partir da realidade última, seja ela o que for. É assim, no coração, que o homem se perde em algum ídolo ou se encontra em Deus.

Os pensadores ocidentais tem apresentado críticas ao pensamento teórico há séculos. Exemplos recentes são a filosofia transcendental de Kant, o marxismo, a psicanálise e o pensamento hermenêutico. Mas parece que em nenhum desses modelos de criticismo foi jamais lançada a questão da autonomia da razão, aceitando-se tacitamente a solução socrática. Na verdade, essa autonomia foi sempre pressuposta como a única condição incorrigível e capaz de conferir ao pensamento o status de crítica científica. No princípio do século XX os pensadores reformados começaram a chamar o pensamento ocidental para prestar contas sobre o dogma da autonomia da razão, e a responder à questão específica: como o pensamento moderno constrói seu ponto de referência a partir do qual dá sentido à realidade? Herman Dooyeweerd chamava isso de “ponto arquimediano”. Arquimedes se tornou famoso por dizer que se lhe dessem um ponto fixo, poderia mover o mundo usando uma alavanca. Dizemos assim que todo pensamento tem um ponto arquimediano, o ponto fixo a partir do qual o pensador tem a sua “visão de conjunto”, para relacionar as coisas entre si.

A questão aqui é se a visão cristã de mundo de fato controla o seu pensamento desde o princípio ou não. Por exemplo, se você crê em Jesus, mas crê também que todas as realidades do mundo podem ser explicadas a partir de um conjunto de leis físicas simples nós temos um problema. Tendo a perspectiva cristã como ponto de partida, você será levado a tratar a realidade como algo complexo e irredutível. A crença de que poucas leis ou uma única lei pode dar conta de tudo é parte de outra cosmovisão, o naturalismo filosófico, que exclui a visão cristã.

Muitos exemplos desse tipo de incoerência poderiam ser indicados. Na teologia por exemplo, encontramos aqueles que crêem em Jesus mas procuram interpretar a Bíblia excluindo em princípio qualquer posição doutrinária – como a inspiração bíblica – para salvaguardar a “neutralidade” de seu pensamento. Nesse caso a única coisa que é protegida é o dogma da autonomia do pensamento teórico.

A influência das pressuposições em nosso pensamento pode ser ilustrada pelas palavras de Einstein: “Sem a crença de que é possível entender a realidade com as nossas construções teóricas, sem a crença na harmonia interior do mundo, não pode haver ciência. Esta crença tem sido e sempre será o motivo básico para toda criação científica.”10[10] Ao contrário do que muitos pensam, essas crenças não são algo universal nem óbvio, e essa é a razão porque a ciência empírica se desenvolveu justamente na cultura ocidental cristã.

Todo pensamento tem pressuposições, e essas pressuposições tem outras pressuposições, e assim por diante, mas não ad infinitum. Se seguirmos esse caminho até o princípio chegaremos a um conjunto de crenças fundamentais que não se fundamentam em nenhuma crença, mas que expressam a orientação fundamental do indivíduo, que poderíamos chamar de existencial, espiritual ou religiosa. É por isso que o dogma da razão autônoma é inconsistente – a própria divinização da racionalidade que ele implica não tem justificação racional. Simplesmente não é possível pensar a partir de um ponto neutro e então concluir com a fé, porque toda razão nasce a partir da fé.

Um caminho para identificar o ponto arquimedeano em qualquer teoria ou visão da realidade é fazer duas perguntas simples. A primeira é: qual é a pressuposição “imexível” desse pensamento? Ou seja: qual é o “ponto fixo” que faz tudo girar em torno dele? No seu caso, você deve perguntar: eu tenho um ponto fixo em meu pensamento que seja distinto de Jesus Cristo? A segunda pergunta é: como esse ponto fixo confere a mim identidade e autocompreensão? Ou: como esse ponto influencia a atitude que tenho para comigo mesmo e para com o mundo?

Chegamos então, de novo à pergunta inicial: temos autoconhecimento? Não se trata aqui de ter um autoconhecimento exaustivo, mas um autoconhecimento verdadeiro, ainda que elementar. A posição cristã é de que nós temos o autoconhecimento porque sabemos que nada somos sem Deus, e temos encontrado repouso nele; e assim, conhecendo-o no evangelho somos homens. Isso pode ser descrito como Teocentrismo, ou Teonomismo. Mas aquele que não conhece sua orientação religiosa fundamental jamais atingirá o autoconhecimento, pois não pode saber porquê é quem é, nem porque pensa como pensa, nem que é e pensa a partir de um ídolo. Para este, não haverá repouso.




  1. Os Efeitos Nóeticos do Pecado e a “Antítese”

Em princípio afirmamos, portanto, que o homem, na totalidade do seu ser, é um reflexo da imagem de Deus, e que a racionalidade do homem é um dos elementos que integram essa imagem. Além disso, podemos dizer que quando o homem tem “autoconhecimento”, isto é, quando conhece a Deus e se reconhece como imagem de Deus, ele sabe o lugar que o pensamento deve ocupar em sua vida.

Entretanto, “todos pecaram e carecem da glória de Deus”. A queda atingiu o homem em toda a sua totalidade, e isso inclui o seu pensamento. Os efeitos do pecado sobre a mente do homem são claramente ensinados em Romanos 1, 1Coríntios 2 e Efésios 2. A rejeição do conhecimento de Deus leva os homens a construir raciocínios falsos, a partir de ídolos.

A conseqüência inicial disso é que a reflexão cristã precisa guardar uma suspeita fundamental em relação a todo pensamento humano; uma suspeita religiosa. Trata-se de um questionamento permanente a respeito do ponto de partida do pensamento: há nele elementos idólatras? Quais são? Como a rejeição do conhecimento de Deus está afetando essa reflexão? Numa palavra: Antítese.

Em diversas ocasiões tentou-se sintetizar o pensamento cristão com outras visões de mundo. Esse é o caso do platonismo cristão no período patrístico, da filosofia tomista, da teologia liberal ou da teologia da libertação. O que se pressupõe nessas tentativas é que a natureza pode operar adequadamente sem a necessidade de um controle da fé, e assim sistemas compostos sem ter a fé em Cristo como ponto de partida poderiam ser verdadeiros. Mas resultado nessas sínteses foram soluções dualistas e distorções inevitáveis da fé cristã.

Essas sínteses não poderiam ser bem sucedidas uma vez que a direção de cada mentalidade é dada por seu ponto de partida religioso, e os pontos de partida são sempre absolutos. Conceitos relativos podem ser sintetizados, mas pontos de partida absolutos e contrários são mutuamente excludentes. Sistemas com pontos arquimedianos diferentes (com seus respectivos “archés”) permanecem numa oposição insolvível e mesmo que contenham idéias verdadeiras que podem ser compartilhadas até certo ponto, são estruturalmente incompatíveis.11[11] Linhas paralelas nunca se tocam.

Na verdade a oposição entre sistemas distintos é a oposição entre modos distintos de vida religiosa, pois o ponto de partida religioso do pensamento é o ponto de partida de toda a existência. Assim, o cristianismo é um modo de existência singular e fundamentalmente oposto aos modos de existência que tem como ponto de partida algum ídolo. Dizemos que há uma antítese absoluta entre a mente cristã e as mentes idólatras. Santo Agostinho falava da Civitas Dei numa oposição sem fim à Civitas Mundi. A cidade de Deus é a igreja, uma cidade que existe hoje, “sobre o monte”, e que funciona tendo Deus como centro. A cidade do homem é Babel, e seus cidadãos constroem sua identidade e sua cultura a partir da absolutização de alguma realidade do cosmo. Embora essas duas cidades estejam atualmente misturadas, são contrárias, tendo pontos de partida contrários, e projetos de civilização contrários: “Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou.”12[12]

Se queremos confrontar o humanismo, precisamos assumir uma posição antitética. “Não ameis o mundo”, disse João.13[13] O autoconhecimento nos leva naturalmente a compreender natureza irreconciliável da tensão entre a Civitas Dei e a Civitas Mundi, e a aceitar a cruz de Cristo permanecendo no mundo, mas contra mundum. 14[14] Assumir a posição antitética é obedecer ao imperativo paulino: “Não vos conformeis com este século.” Somente o posicionamento corajoso e integral pela fé cristã pode nos libertar do molde de existência imposto a nós pela Civitas Mundi, e esse posicionamento exige o pensamento antitético e o desafio consistente da mente do mundo desde as suas raízes. Como disse Kuyper cem anos atrás:


O Cristianismo está exposto a grandes e sérios perigos. Dois sistemas de vida estão em combate mortal. O Modernismo está comprometido em construir um mundo próprio a partir de elementos do homem natural, e a construir o próprio homem a partir de elementos da natureza; enquanto que, por outro lado, todos aqueles que reverentemente humilham-se diante de Cristo e o adoram como o Filho do Deus vivo, e o próprio Deus, estão resolvidos a salvar a herança cristã ... Desde o início, portanto, tenho sempre dito a mim mesmo, - Se o combate deve ser travado com honra e com esperança de vitória, então, princípio deve ser ordenado contra princípio. A seguir, deve ser sentido que no Modernismo, a imensa energia de um abrangente sistema de vida nos ataca; depois também, deve ser entendido que temos de assumir nossa posição em um sistema de vida de poder, igualmente abrangente e extenso. E este poderoso sistema de vida não deve ser inventado nem formulado por nós mesmos, mas deve ser tomado e aplicado como se apresenta na História.15[15]
Isto é pensar antiteticamente. Pensar o mundo de forma coerente, a partir da fé, e então pensar as mentes incrédulas a partir dessa mesma fé. Podemos nos lembrar aqui das palavras de Paulo em 1Coríntios 2.14-16. Pensar antiteticamente seria assumir a mente de Cristo e discernir todas as coisas por meio do evangelho. É claro que o homem natural não aceitará nossos pensamentos, porque ele não poderá entendê-los; por outro lado, nós poderemos discernir todas as coisas, mesmo que sejamos um mistério incompreensível para eles. Mas se não praticarmos esse discernimento, seremos para sempre crianças, andando segundo os homens.16[16]

Ao pensar antiteticamente, examinamos os pensamentos dos incrédulos até às suas raízes religiosas, e observamos os efeitos malignos dessas raízes em sua produção cultural e em suas existências individuais. Examinamos também os problemas contemplados pelos pensamentos dos incrédulos a partir de nossa fé, e damos forma assim à resposta cristã a esses problemas libertando-nos de forma consciente e decidida da tirania do “príncipe da potestade do ar.”17[17] Assim, pensar antiteticamente é descobrir exatamente em que ponto o pensar cristão é irredutivelmente distinto do pensar não cristão, ordenando princípio contra princípio, mente contra mente, civitas contra civitas. Todos os cristãos, mas especialmente aqueles envolvidos com educação e produção de conhecimento devem sujeitar os conceitos e teorias de seu próprio campo à análise antitética.




  1. Redenção e Reflexão “Reformacional”

A Queda comprometeu o pensamento humano, razão porque precisamos praticar a antítese. Mas nem mesmo poderíamos pensar em antítese se Deus não tivesse iniciado sua obra redentiva. A graça de Deus opera no mundo preservando e redimindo a sua criação, e isso inclui a mente. E nós cristãos, como primícias da redenção, temos o dever de “desenvolver a nossa salvação” manifestando em nossa vida e obra o impacto redentivo da obra de Cristo. Isso significa, entre outras coisas, que os nossos padrões de pensamento devem ser transformados: isso é exatamente o que Paulo ensina em Romanos 12: a renovação da mente. Ou, para usar um termo historicamente importante: a “Reforma” do pensamento.

O pensamento antitético não é meramente uma atividade destrutiva. É antes a preparação do terreno para uma atividade positiva de construção. O pensamento reformado sempre enfatizou o lugar da criação na mente cristã, e a tarefa que Deus deu ao homem no princípio de tudo, o mandato cultural.18[18] O homem foi posto no mundo para manifestar a imagem de Deus por meio da atividade cultural, desvelando os potenciais presentes na criação no serviço ao próximo para a glória de Deus. A produção cultural é fruto do mandamento de Deus.

A queda tornou essa produção cultural idólatra, destrutiva para a criação e para o próprio homem, mas não a tornou impossível. Por causa da graça comum, Deus impede que o pecado tenha seu efeito total sobre o homem, conferindo-lhe a possibilidade de viver em sociedade e cumprir o mandato cultural por meio da arte, da filosofia, da ciência, da política, e de toda a sua produção cultural. Mesmo assim, toda essa produção é orientada contra Deus.

O cristão, no entanto, está numa posição muito especial. Como qualquer homem, ele pode e deve cumprir o mandato cultural; mas o pecado não tem sobre ele a mesma influência que tem sobre o homem natural. Ele recebeu a revelação de Deus em Cristo pelo Espírito, e participou da palingênese, 19[19] a restauração de todas as coisas por meio de Cristo, recebendo assim novos olhos, para ver o mundo na perspectiva divina. Assim ele não atua sobre o mundo apenas com o auxílio da graça comum, mas também da graça especial, manifestando em sua própria produção cultural os efeitos da palingênese, mesmo que de forma imperfeita.20[20]

Isso significa, em primeiro lugar, que o cristão tem dever de produzir cultura. O pensar cristão deve ser criativo, propondo soluções originais para os problemas teóricos e construindo uma cultura cristã. Por outro lado o cristão não deve “sair do mundo”, pois Jesus nos enviou ao mundo, para viver no mundo.21[21]

Assim, o cristão deve não apenas produzir, mas também reformar. A finalidade do pensamento antitético é tornar possível a reforma, que é a expressão provisória da graça no mundo, até à consumação. Por isso, o pensar cristão é criativo e reformacional. Criticamos sim, até às raízes, a mente do mundo, e denunciamos a sua apostasia, mas reaproveitamos todos os vislumbres de verdade que ela produziu na construção do modo cristão de pensar e viver. Buscamos manter um processo permanente de reforma de nosso pensar e de nossa vida cultural, de forma a mantê-la coerente com o evangelho.

Ao pensar reformacionalmente reconhecemos que toda produção cultural humana se fundamenta na graça comum e nos apropriamos dessa produção cultural buscando sua conversão estrutural de forma que ela reflita a nossa fé em Deus. Pensar reformacionalmente é assumir uma atitude positiva em relação à cultura, agindo redentivamente no meio dela ao cumprir o mandato cultural com a força renovada do evangelho. Pensando reformacionalmente, poderemos construir uma mente cristã, sólida, rica, profunda, contextualizada e abrangente, que dará respaldo teórico ao grande projeto cultural reformado: a revelação histórica da Civitas Dei.




  1. Sintetizando: “Fides quaerens Intellectum”

Para concluir, destacamos então que o pensamento cristão precisa partir, antes de tudo, do “autoconhecimento”, que é fruto do conhecimento de Deus. Isso significa que devemos ver a nós mesmos do ponto de vista de Deus, e isso só pode ser feito pela fé. A partir desse ponto de vista, compreendemos que o pensamento é algo bom, mas que não deve ser posto à frente das outras funções, mas cooperar com elas. Isso inclui a própria fé.

Além disso o cristão precisa praticar a antítese, suspeitando e criticando o pensamento secular. Mas não se pode parar na antítese: é preciso prosseguir em direção à “Reforma”, transformando e absorvendo o produto cultural a partir da fé. Assim uma reflexão cristã precisa ser Teocêntrica (ou teonômica), Antitética e Reformacional.

Seria possível resumir essas três atitudes básicas numa única expressão? Eu acredito que a fórmula que melhor expressa tudo isso é aquela usada por Agostinho, Anselmo e vários outros pensadores cristãos: “Fides quaerens Intellectum”: A Fé em Busca de Compreensão”.



Mas há uma palavra, bastante utilizada nos últimos anos, que também expressa de modo objetivo a nossa posição: a palavra “pressuposicionalismo”. A forma cristã de pensar que defendemos pode ser descrita como “pensamento pressuposicional”, porque se caracteriza pelo reconhecimento da influência decisiva que as pressuposições religiosas tem sobre o nosso pensar. Pensar pressuposicionalmente é assumir a verdade do evangelho e enfrentar com seriedade, mas também com fé os desafios do pensamento.





22[1] O autor é mestre em Teologia com ênfase em Novo Testamento (Faculdade Teológica Batista de São Paulo) e bolsista do CNPq no programa de mestrado em Ciências da Religião da UMESP. É também pastor batista (CBN) e diretor do Centro Kuyper de Estudos Cristãos de Belo Horizonte.

23[2] O pensamento reformacional surgiu como movimento autoconsciente ao final do século XIX entre os neo-calvinistas holandeses, sob a liderança Abraham Kuyper, e depois de Herman Dooyeweerd. Essa tradição está estruturalmente conectada a uma compreensão calvinista das Escrituras, da relação entre Deus e sua criação, da Queda, etc.

24[3] Em uma próxima oportunidade discutiremos os principais obstáculos ao pensamento reformacional, e sua relevância para a igreja evangélica atual.

25[4] Curiosamente, parece que o Deus supremo era, para Sócrates, a mente ou a inteligência infinita.

26[5] AGOSTINHO, Aurélio. Confissões, Livro 1, cap. 1:1. São Paulo: Paulus, 1997, p. 19.

27[6] GOUVEIA, Ricardo Quadros. Paixão pelo Paradoxo: Uma Introdução a Kierkegaard. São Paulo: Novo Século, 2000, p. 169,170.

28[7] Confissões, p. 115.

29[8] Ibid, p. 269.

30[9] CALVINO, João. As Institutas, vol 1, cap. 1. São Paulo, CEP, 1985, p. 54.

31[10] Citado por RAMACHANDRA, Vinoth. A Falência dos Deuses. São Paulo: ABU, 1996, p. 184.

32[11] Ver os comentários de Ricardo Gouveia a respeito do pensamento antitético de Dooyeweerd em Paixão pelo Paradoxo, p. 174-177.

33[12] João 17.14.

34[13] 1João 2.15.

35[14] Cf. João 17.15; 1Jo 5.4.

36[15] KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 19.

37[16] 1Coríntios 3.1ss.

38[17] Efésios 2.2ss.

39[18] Para saber mais sobre a aliança da criação e o mandato cultural, cf. ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos Pactos. Campinas, LPC, 1997, p. 61-79.

40[19] Do grego palingenésis, que significa regeneração ou recriação.

41[20] Porque a redenção é uma realidade ainda incompleta, até que o reino de Deus seja consumado.

42[21] João 17.15-18.



Guilherme V. R. Carvalho(1)

(1)O autor é mestre em Teologia com ênfase em Novo Testamento (Faculdade Teológica Batista de São Paulo) e bolsista do CNPq no programa de mestrado em Ciências da Religião da UMESP. É também pastor batista (CBN) e diretor do Centro Kuyper de Estudos Cristãos de Belo Horizonte. ( www.aket.org.br )

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17. Saúde Reformacional;

18. Sociologia Reformacional;

19. Teologia Reformacional, todos a partir de uma perspectiva epistemológica cristã reformacional.









1[1] O autor é mestre em Teologia com ênfase em Novo Testamento (Faculdade Teológica Batista de São Paulo) e bolsista do CNPq no programa de mestrado em Ciências da Religião da UMESP. É também pastor batista (CBN) e diretor do Centro Kuyper de Estudos Cristãos de Belo Horizonte.

2[2] O pensamento reformacional surgiu como movimento autoconsciente ao final do século XIX entre os neo-calvinistas holandeses, sob a liderança Abraham Kuyper, e depois de Herman Dooyeweerd. Essa tradição está estruturalmente conectada a uma compreensão calvinista das Escrituras, da relação entre Deus e sua criação, da Queda, etc.

3[3] Em uma próxima oportunidade discutiremos os principais obstáculos ao pensamento reformacional, e sua relevância para a igreja evangélica atual.

4[4] Curiosamente, parece que o Deus supremo era, para Sócrates, a mente ou a inteligência infinita.

5[5] AGOSTINHO, Aurélio. Confissões, Livro 1, cap. 1:1. São Paulo: Paulus, 1997, p. 19.

6[6] GOUVEIA, Ricardo Quadros. Paixão pelo Paradoxo: Uma Introdução a Kierkegaard. São Paulo: Novo Século, 2000, p. 169,170.

7[7] Confissões, p. 115.

8[8] Ibid, p. 269.

9[9] CALVINO, João. As Institutas, vol 1, cap. 1. São Paulo, CEP, 1985, p. 54.

10[10] Citado por RAMACHANDRA, Vinoth. A Falência dos Deuses. São Paulo: ABU, 1996, p. 184.

11[11] Ver os comentários de Ricardo Gouveia a respeito do pensamento antitético de Dooyeweerd em Paixão pelo Paradoxo, p. 174-177.

12[12] João 17.14.

13[13] 1João 2.15.

14[14] Cf. João 17.15; 1Jo 5.4.

15[15] KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 19.

16[16] 1Coríntios 3.1ss.

17[17] Efésios 2.2ss.

18[18] Para saber mais sobre a aliança da criação e o mandato cultural, cf. ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos Pactos. Campinas, LPC, 1997, p. 61-79.

19[19] Do grego palingenésis, que significa regeneração ou recriação.

20[20] Porque a redenção é uma realidade ainda incompleta, até que o reino de Deus seja consumado.

21[21] João 17.15-18.

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