Experiências Educacionais Libertárias no Brasil: Autonomia, Solidariedade e Liberdade Ingredientes para uma ação educativa eficaz



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Experiências Educacionais Libertárias no Brasil: Autonomia, Solidariedade e Liberdade - Ingredientes para uma ação educativa eficaz.
Andréa Villela Mafra da Silva

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO

Programa de Pós-Graduação em Educação – Mestrado

Grupo de pesquisa NEPHEB / HISTEDBR / UNIRIO

Rio de Janeiro

Capes


RESUMO
Este trabalho descreve e analisa as experiências anarquistas que foram aplicadas à educação brasileira no início do século XX. As experiências libertárias em terras brasileiras tiveram como fundamento os ideais educacionais de Francisco Ferrer y Guardia, criador da Escola Moderna. A Escola Moderna de Francisco Ferrer y Guardia foi fundada na Espanha e apresentava uma metodologia baseada na cooperação, na autonomia do educando e no respeito mútuo. Baseada em um método racional de ensino a filosofia educacional de Francisco Ferrer y Guardia foi à inspiração para várias experiências educacionais libertárias no Brasil. Estas experiências marcaram uma profunda diferença em relação à concepção tradicional de ensino. No Brasil foram criadas escolas, bibliotecas e centros de cultura nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Ceará, Sergipe e Pará. O objetivo geral deste trabalho é descrever as escolas libertárias que funcionaram no Brasil, no início do século XX, e verificar a influência - nestas escolas - dos pressupostos educativos de Francisco Ferrer y Guardia. Como objetivos específicos, desejamos compreender como as idéias anarquistas chegaram ao Brasil, analisar a influência do movimento operário na divulgação destas idéias e investigar as escolas libertárias fundadas em alguns estados brasileiros. Metodologicamente este estudo teve como suporte as fontes primárias de Francisco Ferrer y Guardia e Paul Robin. Concluímos que as idéias da pedagogia libertária possibilitaram pensar a educação como um processo contínuo e transformador de modo que fez germinar a originalidade e a criatividade das pessoas. Acreditamos que a educação deve considerar os indivíduos em sua totalidade, buscando a autonomia como condição primordial para a realização do trabalho educativo.
PALAVRAS-CHAVE: Pedagogia Libertária, idéias pedagógicas, instituições escolares, historiografia da educação.
Experiências Educacionais Libertárias no Brasil: Autonomia, Solidariedade e Liberdade - Ingredientes para uma ação educativa eficaz.
Andréa Villela Mafra da Silva

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO

Programa de Pós-Graduação em Educação – Mestrado

Grupo de pesquisa NEPHEB / HISTEDBR / UNIRIO

Rio de Janeiro

Capes


Introdução

Com concepções educacionais inovadoras e a ênfase no aprendizado através da prática, as escolas libertárias foram experiências de grande importância no campo da pedagogia. A pedagogia libertária se expressa pelo questionamento de qualquer relação de poder estabelecida no processo educativo e das estruturas que possibilitam as condições para que estas relações se reproduzam no cotidiano das instituições escolares. Não há desenvolvimento da autonomia do educando em um ambiente onde prevaleça o autoritarismo do educador. A pedagogia libertária se caracteriza por eliminar as relações autoritárias presentes no modelo educacional tradicional e por permitir alterar os caminhos do processo de ensino e aprendizagem, quando estes se mostrarem insuficientes ou quando estes caminhos evidenciarem resultados inimagináveis.

Compreender a essência da pedagogia libertária possibilita uma intervenção nas práticas pedagógicas da escola atual, a fim de se estabelecer uma educação que priorize a construção da autonomia do educando. A construção da autonomia é um princípio educativo que, muitas vezes, é mal interpretado. Freqüentemente ele é confundido com excesso de liberdade e ausência de disciplina. O conceito de liberdade, um par inseparável da autonomia, deve ser entendido como uma expressão de criatividade e espontaneidade no processo educativo e é de grande relevância para os autores anarquistas. Segundo Gallo (2006), para o anarquismo a liberdade é fundamental e uma sociedade que não tenha como objetivo a realização plena do indivíduo, não pode ser considerada como efetivamente democrática e evidentemente, não contribui para a formação autônoma do sujeito.

As definições que o conceito de autonomia apresenta para as concepções educacionais são diversas. De uma maneira geral, consideram que priorizar a autonomia do educando na escola é prepará-lo para a vida em sociedade. Consideramos que, somente na pedagogia libertária, encontraremos objetivos educacionais que verdadeiramente possibilitarão a criança de se encarregar de construir uma nova sociedade e de fazer germinar tempos melhores de convívio social entre os povos.

No Brasil, as idéias anarquistas vieram através dos imigrantes e dos impressos libertários. Veremos a seguir como o Movimento Operário Brasileiro influenciou a divulgação das idéias anarquistas no país.

1 - As Idéias Anarquistas no Brasil e a contribuição do Movimento Operário Brasileiro na Educação Libertária.

Com a abolição da escravatura, em 1888, lentamente foram surgindo pequenos estabelecimentos industriais com trabalhadores livres, que aos poucos, formaram grupos que depois se transformariam em organizações sindicais. Os imigrantes estrangeiros, em sua maioria italianos e espanhóis que vieram para o Brasil para substituir a mão-de-obra escrava, divulgaram entre os operários as idéias do socialismo libertário. Com a imigração, o trabalho assalariado, lentamente vai surgindo e, desta forma, o proletariado brasileiro vai se formando. A partir de 1890, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, há o predomínio da força de trabalho estrangeira, especialmente italiana. As migrações inter-regionais e internacionais formaram a base da classe operária brasileira neste período (VIANA, 2006).

O processo de industrialização foi constituindo uma classe operária cada vez mais numerosa e com condições de vida e de trabalho precárias. Os operários, em sua maioria, moravam em cortiços, estalagens e casas de cômodo e eram atingidos por epidemias e doenças endêmicas.

A sociedade capitalista foi se formando a partir da exploração intensa destes operários, que vitimizados denunciavam na imprensa operária os abusos que sofriam nas fábricas. Neste contexto surgem as idéias sindicalistas, socialistas e principalmente, anarquistas que assumem um papel importante como força de resistência. Os anarquistas defendiam autonomia individual e combatiam os governos, a Igreja, os partidos políticos e o conceito de propriedade. Imbuídos destes ideais os operários passam a reivindicar melhores condições de vida e principalmente a redução da jornada de trabalho. A recusa dos patrões em atender tais reivindicações provoca as primeiras greves e as primeiras iniciativas de mobilização dos operários. As idéias anarquistas européias, que chegavam a terras brasileiras, falavam da propaganda pela ação e de anarquistas no sul da Europa que participavam de insurreições e atentados terroristas (DULLES, 1977, p. 19).

No final do século XIX crescia o número de militantes e de associações anarquistas e, segundo Gallo e Moraes (2005), os anarquistas marcavam presença na organização dos sindicatos, nas federações e na Confederação Operária Brasileira (COB). Participavam da organização das greves dos operários, que reivindicavam melhores condições de trabalho, diminuição da jornada diária, fim do trabalho infantil e pelo fim do trabalho noturno para as mulheres. Os jornais brasileiros publicavam em suas colunas notícias que marcavam as primeiras concepções do anarquismo.

Entretanto, a divulgação das idéias anarquistas entre os operários brasileiros não foi uma tarefa fácil. Havia entre os operários um grande número de analfabetos. Era necessário que os operários rompessem com essa barreira para que assim enfrentassem a ordem social injusta. A ruptura com essa ordem social facilitaria, no entendimento dos anarquistas, o surgimento de uma nova sociedade, cujo objetivo seria a emancipação da humanidade e a abolição do sistema capitalista.

Na cidade do Rio de Janeiro, uma das personalidades que se destacava no anarquismo brasileiro era o médico, jornalista e professor - Fábio Luz (1864-1938). Em 1904, Fábio Luz e Elysio de Carvalho (1880-1925), organizaram a Universidade Popular, que possibilitou ao operariado carioca ter acesso ao conhecimento formal e sistematizado que circulava nas escolas superiores do Brasil (SAMIS, p2006, 1 CD).

Fábio Luz organizou campanhas a favor da higiene nas fábricas, restaurantes, bares e cafés; e escreveu nos jornais a respeito deste tema. Em sua residência ministrava, informalmente, cursos de idiomas para que os operários pudessem compreender leituras em outras línguas (LIBERA 2008, p.2).


2 - A Concepção Libertária de Educação.
Do ponto de vista da História da Educação Libertária, segundo Codello (2007), teorias, experiências e idéias anarquistas foram aplicadas à educação. Por meio da propaganda oral, escrita e pela participação ativa nos sindicatos, as idéias anarquistas foram se espalhando pelo mundo, atraindo aqueles que desejavam a libertação do homem dos laços econômicos, sociais e políticos. Esses movimentos de difusão de idéias impulsionavam outras intervenções a favor da educação libertária. A educação libertária é contra o doutrinamento social e político do indivíduo. Assim, dirige sua crítica à educação estatal, que ao longo do século XIX e no decorrer do século XX, reforçou as diferenças de classe, perpetuando as desigualdades sociais.

O anarquismo, em sua concepção educacional libertária, adota como pressupostos a liberdade individual e a igualdade social. Permitindo ao homem ser livre, esta concepção de educação irá valorizar a autonomia como um princípio a ser adotado. Prioritariamente, a concepção libertária livrará os homens e as mulheres de atitudes passivas e alienadas na vida em sociedade. Para os anarquistas, a educação depende do ambiente social, daí a idéia de renovar a sociedade através de uma mudança de mentalidade.

Nas escolas libertárias os operários eram alfabetizados no turno da noite e nos Centros de Cultura eram oferecidos cursos e palestras. A Concepção Libertária de Educação na prática escolar apresenta como pilares o ensino integral de Paul Robin e o ensino racional de Francisco Ferrer y Guardia. Paul Robin (1837 - 1912), oriundo de uma família burguesa, nasceu em Tolón e se destacou como aluno em seu tempo de escola no Liceu Burdeos y Brest. Inscreveu-se na Faculdade de Medicina, mas logo desistiu para freqüentar a École Normale. Durante 14 anos, Paul Robin dirigiu o orfanato de Cempuis. Sobre a educação integral afirmava que,
a idéia de educação integral só há pouco tempo alcançou a sua completa maturidade. Rabelais penso eu, é o primeiro autor a dizer algo sobre ela; com efeito, lemos em suas obras que Ponocrates ensinava a seu aluno as ciências naturais, a matemática, fazia-o praticar todos os exercícios corporais e aproveitava os dias de tempo chuvoso ‘para fazê-lo visitar as oficinas e se pôs a trabalhar’. Porém, esta concepção requer um desenvolvimento e que seja aplicada a todos os homens. [...] A idéia moderna nasceu do sentimento profundo de igualdade e do direito que cada homem tem quaisquer que sejam as circunstâncias do seu nascimento, de desenvolver, da forma mais completa possível, todas as faculdades físicas e intelectuais. Estas últimas palavras definem a Educação Integral (ROBIN s/d apud MORIYÓN, 1989, p. 88).

A educação integral para Paul Robin significa uma educação completa e harmônica: “um conjunto completo, encadenado, sintético, paralelamente progresivo em todo orden de conocimientos, y todo ello a partir de las más joven edad y de los primeros elementos” (ROBIN, 1893, p.47).

Outro representante da concepção libertária de Educação é Francisco Ferrer y Guardia (1859 - 1909) , que nasceu na cidade de Alella, Espanha. Nascido em uma família católica e de origem humilde, ainda jovem participou de experiências de educação popular. Nos fins do século XIX, Francisco Ferrer y Guardia tem seu primeiro contato com a pedagogia racionalista inspirada em Pestallozzi, Elisée Reclus e adotada por Paul Robin.

Anos depois, em 08 de setembro de 1904 ele inaugura a primeira Escola Moderna. Com um efetivo de 30 alunos, sendo 12 meninas e 18 meninos, a escola era financiada pelos pais das crianças e pelos estudantes adultos. Admitia a co-educação dos sexos e das classes, e o princípio fundamental de educação se baseava na liberdade da criança, sem coação, sem competição e sem castigo.


Figura 11 – Crianças na Escola Moderna de Francisco Ferrer y Guardia - 1904.

Segundo Francisco Ferrer y Guardia, “no se educa íntegramente al hombre disciplinando su inteligência, haciendo caso omiso del corazón y relegando la voluntad” (Ferrer y Guardia, s/d, p.44). Os métodos de ensino da escola de Francisco Ferrer y Guardia tinham como base o respeito à liberdade, à individualidade e à expressão da criança. Ainda, segundo ele, é preferível a espontaneidade livre de um indivíduo à instrução de palavras. Entre 1904 e 1909, Francisco Ferrer y Guardia organizou 109 escolas na Espanha.

Em maio de 1906, após um atentado a bomba contra a carruagem real, no dia do casamento de Afonso XIII, a Escola Moderna é fechada pelo governo. Tal ato fora praticado pelo bibliotecário da Escola Moderna, mas Francisco Ferrer y Guardia foi preso acusado de participação no atentado. Entretanto, sem provas que indicassem essa sua participação, ele é solto. Em julho de 1909, no levante antimilitar na Espanha, Francisco Ferrer y Guardia novamente é preso e em outubro do mesmo ano é fuzilado (RODRIGUES, 1992). No Brasil aconteceram manifestações públicas contra o fuzilamento do educador Francisco Ferrer y Guardia na Espanha.


Figura 22 – Capa do livro “La Escuela Moderna” que Francisco Ferrer y Guardia escreveu na prisão.


Figura 33 – Publicação, em número especial, editada no Rio de Janeiro em 13 de dezembro de 1919, contra o fuzilamento de Francisco Ferrer y Guardia.

Foi com base nos ideais educacionais de Francisco Ferrer y Guardia que foram surgindo diversas experiências educativas em vários países, inclusive, no Brasil. As experiências libertárias na educação marcaram uma profunda diferença em relação às demais concepções de ensino. No Brasil foram criadas escolas, bibliotecas e centros de cultura nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Ceará, Sergipe e Pará. Foram iniciativas importantes para a classe operária brasileira mediante a falta de compromisso do governo com a educação do trabalhador e de seus filhos (KASSICK, Clóvis, KASSICK, Neiva, 2004).
3 - As experiências pedagógicas libertárias no Brasil.
Ao trazermos para análise as experiências pedagógicas libertárias desenvolvidas no Brasil, é nossa intenção não apenas recolocar a presença desta pedagogia e sua importância na educação da classe trabalhadora no início do século 20, mas também, rever seus princípios na busca de novas possibilidades para uma ação educativa menos autoritária na atualidade (KASSICK, 2004, p. 14).

Várias experiências educacionais libertárias aconteceram em terras brasileiras. Em 1902, foi criada a Escola Libertária Germinal, no bairro do Bom Retiro, na cidade de São Paulo. Outras escolas foram surgindo pelo Brasil, como a Escola Elisée Reclus, em Porto Alegre (1906), a Germinal, no Ceará (1906), União Operária em São Paulo (1906), Liga Operária, em Sorocaba (1911), Escola Operária 1º de Maio, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro (1912), Escola Moderna, em Petrópolis (1913), e as Escolas Modernas nº 1 e nº 2, em São Paulo (1912). A Escola Moderna n° 1 de São Paulo foi fundada em 13 de maio de 1912, por João Penteado (1877-1965). Em 1913, é criada a Escola Moderna nº 2 por Adelino Tavares de Pinho4 (RODRIGUES, 1992, p. 51-52 apud MORAES, 2007, s/p).

A escola de Adelino Tavares e de João Penteado eram localizadas em bairros operários e ambas tinham ligação com o Sindicato de Resistência dos Laminadores de São Caetano que contribuíam mensalmente com donativos para estas escolas (LUIZETTO, 1984).

O Boletim da Escola Moderna era organizado por João Penteado que utilizava este veículo para divulgar a proposta pedagógica da escola (LUIZETTO, 1986). Acusadas de divulgarem os ideais anarquistas as duas instituições foram fechadas em 1919. Um ano depois João Penteado, um estudioso da Pedagogia de Francisco Ferrer y Guardia e militante ativo do movimento anarquista, reabre a escola, sendo que desta vez com nome de Escola Nova.



Figura 45 - Escola Moderna n° 1 fundada por João Penteado (1877-1965).


Figura 56 – Anúncio da Escola Moderna nº1.


Figura 67 - Adelino de Pinho e uma turma de alunos da Escola Moderna nº2.



Figura 78 – Capa do Boletim da Escola Moderna de São Paulo.

O que se pretende na concepção racional libertária é que a criança seja capaz de tomar decisões e que assim se responsabilize por seus atos. Na concepção libertária, a liberdade faz parte do processo educativo, para que as crianças possam demonstrar sua livre expressão e serem reconhecidas em sua individualidade. Tem como proposta desenvolver nas crianças e nos jovens suas aptidões próprias em um regime de igualdade social e de gênero.

Nas escolas libertárias o envolvimento dos educandos em diferentes contextos sejam estes, em situações formais ou informais de aprendizagem, favorece a identificação de realidades que escapam, na maioria das vezes, às práticas tradicionais de ensino. Toda criança segue o seu ritmo na escola e faz o trabalho que é capaz de fazer, com o grau de autonomia que possui. Uma intencionalidade educativa objetiva é o principal ingrediente para uma ação educativa eficaz. E para que isso aconteça o educador deve ter a preocupação com a formação de indivíduos autônomos, responsáveis, solidários e comprometidos com a construção de um destino coletivo. A concepção libertária é uma concepção de aprendizagem que respeita o desenvolvimento afetivo, social e cognitivo da criança e que a considera como um agente construtor do seu conhecimento na interação com o outro e com o objeto do conhecimento. É uma proposta com ênfase no trabalho coletivo que resguarda o princípio de liberdade favorecendo desta forma a vivência do conflito, o respeito mútuo, a solidariedade e, sobretudo, favorece a formação autônoma do aprendiz (KASSICK, 1993, p. 209).

A busca de uma educação destinada aos operários e seus filhos, livre da ideologia do Estado e da Igreja foi o que motivou anarquistas em diversas partes do mundo a criarem as Escolas Modernas ou Racionalistas, inspiradas nas idéias defendidas pelo educador espanhol Francisco Ferrer y Guardia. Com concepções educacionais inovadoras, como o ensino laico, a co-educação dos sexos e o aprendizado através da prática, as escolas operárias foram uma experiência de grande importância no campo da pedagogia. O fazer pedagógico libertário representa uma ruptura face a concepção tradicional de educação. Na pedagogia libertária existe a aprendizagem dos valores essenciais a formação da consciência social dos indivíduos.

A prática educativa que leva à formação do educando autônomo foi experimentada, diariamente, nas escolas de Pedagogia Libertária. Mas infelizmente, segundo Gallo e Moraes (2005), o movimento operário foi tomado por outras vertentes socialistas que não priorizaram o trabalho educacional e assim as escolas libertárias, ao longo do tempo, foram fechando e perdendo espaço na educação brasileira.


Considerações finais
Francisco Ferrer y Guardia afirmava que o educador é apenas um instrumento, consciente ou não da sociedade, que sofre a autoridade, e que raro são aqueles que escapam da tendência de reproduzir esta dominação autoritária na escola. A educação autoritária, tal como a sociedade, consolida a servidão do indivíduo. Segundo ele, existem dois tipos de ação para aqueles que desejam renovar a escola:
Trabajar para la transformacion de la escuela por el estúdio del niño, a fin de probar cientificamente que la organización actual de la enseñanza es defectuosa y adoptar mejoras progresivas; o fundar escuelas nuevas em que se apliquen directamente princípios encaminados al ideal que se forman de la sociedad y de los hombres los que reprueban los convencionalismos, las crueldades, los articios y las mentiras que sirven de base a la sociedad moderna (FERRER Y GUARDIA, s/d, p.79).

Francisco Ferrer y Guardia entendia que o educador que fosse trabalhar na Escola Moderna teria dificuldades com a rotina e com a metodologia da escola, porque o educador também sofria as influências da sociedade autoritária, pois nela havia sido formado. Assim, Ferrer cria uma “Escola de Professor”, onde se matricularam educadores de ambos os sexos para se dedicarem ao ensino racional e científico, despojado de crenças tradicionais (TRAGTENBERG, 2004, p. 145).

Nas escolas libertárias encoraja-se a aprender e a descobrir de forma autônoma uma pluralidade de saberes. As crianças participam da estruturação das normas na vida da escola em espaços abertos a negociações. É um lugar sem interdições em que pais, educadores, crianças e jovens; todos participam ativamente sem hierarquização de decisões. A Pedagogia Libertária nunca foi seduzida pelo poder, e parafraseando Tragtenberg, também nunca transformou o “saber formal em mercadoria de consumo”. Ao contrário, foi a pedagogia que, em suas concepções, buscou emancipar o indivíduo.

O ensino dirigido por Paul Robin, no Orfanato de Cempuis, foi revolucionário para a época. Meninos e meninas estudando juntos, pregar o ateísmo, desenvolver extenso programa de profissionalização politécnica, sem esquecer os aspectos políticos da vivência da solidariedade e da liberdade, em regime de autogestão foram os pressupostos que fundamentaram esta experiência inovadora na educação (GALLO, 1995, p. 42).

Os discursos pedagógicos oriundos de Francisco Ferrer y Guardia, Paul Robin e tantos outros libertários representaram a ruptura com o pensamento pedagógico vigente na época. Representaram a contraposição da ótica da educação confessional com a educação laica e a contraposição da educação estatal com a educação popular (OLY PEY, 2000, p.10).

A educação deve ser vista como um processo contínuo e transformador que possibilita germinar a originalidade e a criatividade das pessoas. A educação deve contemplar os indivíduos em sua totalidade, buscando a autonomia como condição primordial para a realização do trabalho educativo. É indispensável fazer da escola um pólo irradiador de saber e de esforço pela busca da solidariedade e do respeito às diferenças. As práticas autoritárias de educação escolar que homogeneízam a rotina em sala de aula, estabelecendo um tempo pré-determinado para todas as atividades, impedem a construção da autonomia da criança, do jovem e do adulto que aprende. As práticas pedagógicas anarquistas eram radicalmente diferentes das práticas exercidas nas escolas tradicionais. Os anarquistas se interessavam pelos movimentos de renovação pedagógica que derrubariam a concepção decadente de escola que valorizava a prática educativa autoritária.

Entendemos a educação como um processo permanente de desenvolvimento do ser humano, que deve abranger os aspectos cognitivos, emocionais e sociais. A escola como um ambiente de aprendizagem, deve possibilitar experiências que incentivem a autonomia do educando. E que exija dele a responsabilidade de seus atos e de suas escolhas. A constituição de educandos autônomos no espaço escolar só se efetivará, de fato, na concepção educacional que atenda ao conceito de liberdade com um trabalho pedagógico, que negue o autoritarismo e a heteronomia no ambiente educativo. A conquista da autonomia do educando deve ser fruto do trabalho interativo de todos os atores envolvidos no processo educativo escolar. Nenhuma concepção educacional poderá defender o trabalho de construção da autonomia do educando se partir de ações isoladas no contexto educativo. Do ponto de vista institucional, é fundamental que estas ações sejam democráticas e fundamentadas em uma pluralidade de metodologias que dêem conta da conquista autônoma do educando.
Referência bibliográfica:
Fonte primária:
FERRER Y GUARDIA. Francisco. La Escuela Moderna, Enseñanza Racionalista. Montevideo: Solidaridad, s/d. [Fac-Simile].
ROBIN, Paul. Manifesto a los partidarios de la Educacion Integral (Un antecedente de la Escuela Moderna). Barcelona: Gráficas Ampurias de Barcelona, 1981. Este manifesto foi aprovado en la Sesíon normal de pedagogía práctica, celebrada em Gante, nos dias 13 a 16 de agosto de 1893.
Fontes secundárias:
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DULLES, John W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil, 1900-1935. Tradução de César Parreiras Horta. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.
GALLO, Silvio. Anarquismo uma introdução filosófica e política. Rio de Janeiro: Achiamé, 2006.
_____________. Pedagogia do Risco. Campinas: Papirus, 1995.
_______________, MORAES, José Damiro de. Anarquismo e Educação. A Educação Libertária na Primeira República. In: STEPHANOU, Maria e BASTOS, Maria Helena Camara (orgs.). Histórias e Memórias da Educação no Brasil. Vol. III Século XX. Petrópolis: Vozes, 2005.
KASSICK, Neiva Beron. Os caminhos da ruptura do autoritarismo pedagógico: a ruptura das relações autoritárias para a construção coletiva do conhecimento. Dissertação de Mestrado- Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis/SC, 1993.
KASSICK, Neiva Beron; KASSICK, Clovis Nicanor. A Pedagogia Libertária na História da Educação Brasileira. Rio de Janeiro: Achiamé, 2004.

LUIZETTO, Flavio. O movimento anarquista em São Paulo: a experiência da Escola Moderna nº1 (1912-1919). In: Revista Educação e Sociedade, ano VIII, nº 24, ag /1986. Ed. Cortez, São Paulo.


_______________. Presença do Anarquismo no Brasil: Um estudo literário e educacional. Editora USP, 1984 (mimeo).
MORAES, José Damiro de. Signatárias do Manifesto de 1932: trajetórias e dilemas. Tese Doutorado em Educação. Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. São Paulo, 2007.
MORIYÓN, F. G. Educação Libertária- Bakunin e outros. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

OLY PEY, Maria (org.). Pedagogia libertária: experiências hoje. São Paulo: Imaginário, 2000.


RODRIGUES, Edgar. O anarquismo: na escola, no teatro, na poesia. Rio de Janeiro: Achiamé, 1992.
SAMIS, Alexandre. Seminário Educação e Anarquismo. Os 100 anos da Confederação Brasileira (1906-2006). Rio de Janeiro: UNIRIO, p2006. 1 CD. ISBN 978-85-61066-04-8

TRAGTENBERG, Maurício. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: UNESP, 2004.


VIANA, Nildo. A aurora do anarquismo. In: DEMINICS, Rafael, AARÃO, Reis Filho (orgs.). História do anarquismo no Brasil (volume1). Niterói: EDUFF: Rio de Janeiro: MAUAD, 2006.

Jornal consultado:
LIBERA nº140, ano 18, jul – set 2008 / FARJ.



1 Gravura disponível em: < http://www.bicen-tede.uepg.br/tde_busca/arquivo.php=140> Acesso em 20 dez 2008.

2 Gravura disponível em: < http://www.bicen-tede.uepg.br/tde_busca/arquivo.php=140> Acesso em 23 dez 2008.

3 Gravura disponível em: < http://www.bicen-tede.uepg.br/tde_busca/arquivo.php=140> Acesso em 23 dez 2008.

4 Segundo o verbete, elaborado por José Damiro Moraes, não foi possível determinar as datas de nascimento e morte de Adelino Tavares de Pinho, pela escassez de documentos. Disponível em: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb_b_adelino_tavares_de_pinho.htm Acesso em 15 dez 2008.

5 Reprodução de Carlo Romani disponível em:

<www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/iconograficos/educacao_anarquista.html> Acesso em 15 dez 2008.

6 Gravura disponível em: < http://www.bicen-tede.uepg.br/tde_busca/arquivo.php=140> Acesso em 24 dez 2008.

7 Imagem oferecida por Magda Botelho, sobrinha de Neno Vasco, acervo de família. Reproduzida por Alexandre Samis em “Pavilhão negro sobre pátria oliva: sindicalismo e anarquismo no Brasil.” (p.165) In: História do movimento operário revolucionário. São Paulo: Imaginário; São Caetano do Sul: IMES, Observatório de Políticas Sociais, 2004. Disponível em:

<www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/iconograficos/educacao_anarquista.html>

Acesso em: 15dez. 2008.



8 Gravura disponível em: < http://www.bicen-tede.uepg.br/tde_busca/arquivo.php=140> Acesso em 24 dez 2008.



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