Extensões paralelas e extensões objetivas



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Extensões paralelas e extensões objetivas

A construção da associação entre células-tronco, terapia celular e medicina regenerativa



Danilo Mariano Pereira

Esse trabalho consiste numa descrição e análise do processo de produção do conhecimento científico nas pesquisas com células-tronco. Ele não será analisado em sua totalidade, pois não caberia nos limites deste artigo, uma vez que isso exigiria reconstruir uma história que começa na década de 1980 e ainda está em curso nos dias atuais, através das diversas parcerias que estão sendo estabelecidas entre universidades, empresas do ramo da biotecnologia, entre inúmeros outros agentes. Nesse sentido, focarei, em primeiro lugar, no que podemos chamar de “fase laboratorial” desse processo, ou seja, no trabalho de produção desse conhecimento através da pesquisa básica que vem sendo desenvolvida no Brasil desde 2008, quando a aprovação da Lei de Biossegurança passou a regulamentar o uso dessas células para fins científicos.

Além disso, limitarei a análise às pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de técnicas de terapia celular utilizando células-tronco embrionárias, isto é, tratamentos clínicos que envolvem a reposição de células e/ou tecidos que, por algum motivo, tenham sido perdidos, seja por processos naturais de envelhecimento do organismo, seja por lesões ou por qualquer tipo de degeneração patológica. Essa não é a única aplicação possível do conhecimento sobre as células-tronco embrionárias, mas certamente é uma das mais importantes e a que fez com que elas se tornassem um assunto público de interesse generalizado.

Para a construção dessa análise, utilizarei o material etnográfico que produzi durante a pesquisa que realizei para a elaboração de minha dissertação de mestrado. Trata-se de um trabalho de campo de três meses junto ao Laboratório Nacional de Células-tronco Embrionárias – LaNCE, localizado no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Entrevistei os pesquisadores, acompanhei a rotina de trabalho do laboratório e observei o funcionamento do processo de produção desses conhecimentos.

Embora seja um dos grandes acontecimentos da história recente das biociências, o desenvolvimento de técnicas de terapia celular utilizando células-tronco embrionárias encontra dificuldades tão grandes quanto os benefícios que supostamente serão conquistados quando todas as pesquisas estiverem concluídas, de modo que, a superação dessas dificuldades vem ocupando uma parte considerável dos esforços dos cientistas do LaNCE. Cada uma delas deu origem a um programa de pesquisa diferente. Em todos eles, o objetivo essencial ou, pelo menos, original, é o mesmo: construir a possibilidade de uso dessas células em técnicas de terapia celular. Assim, há no LaNCE uma série de pesquisas extremamente diferentes, que lidam com problemas específicos e requerem esforços de naturezas totalmente diversas, mas que estão relacionadas a um mesmo objetivo final, ou seja, possibilitar o desenvolvimento dessas técnicas de terapia celular utilizando células-tronco embrionárias. Entre essas pesquisas, destacam-se o desenvolvimento de biorreatores adaptados ao cultivo de células-tronco, a produção de meios de cultura sintéticos livres de componentes animais e de humanos patógenos, técnicas de controle sobre o processo de neurodiferenciação celular, a criação de antitumorais e de inibidores de hostilidade de ambientes de lesão, entre outros. Todas elas serão etnograficamente analisadas no presente artigo.

De acordo com a formulação de Isabelle Stengers, podemos dizer que cada uma dessas pesquisas está reunindo os operadores, isto é, as ferramentas necessárias à construção de um conhecimento, enquanto que o produto final desses esforços, isto é, o desenvolvimento das técnicas de terapia celular utilizando células-tronco embrionárias, pode ser considerado como o conceito científico que está sendo criado.

Deve-se destacar ainda o fato de que cada um desses operadores poderá representar a disponibilização de uma ferramenta biotecnológica que não necessariamente será útil apenas para os pesquisadores das células-tronco, tampouco será útil apenas no contexto da produção científica. Vários outros setores da produção científica e/ou industrial, que, a princípio, não tinham nenhuma relação direta com células-tronco, estão se tornando parceiros potenciais ou mesmo atuais do LaNCE, pois têm a intenção de explorar os benefícios proporcionados por esses operadores em nichos completamente diferentes do universo da produção de pesquisa básica no campo da biologia celular, ao qual eles estão vinculados nesse momento.

Escolhi o termo extensões paralelas para me referir a esses usos e conexões colaterais, ou seja, o estabelecimento de conexões com agentes que a princípio não tinham nenhuma relação com as células-tronco. Essa é uma das formas pelas quais o LaNCE ou qualquer laboratório de pesquisa científica pode criar em torno de si uma rede de atores interessados em seus conhecimentos, de forma a estendê-los para as mais diferentes arenas da sociedade, além de obter vários tipos de retorno para suas pesquisas, como financiamentos e publicações. Algumas das parcerias constituintes dessa rede já estão sendo criadas e outras imprevisíveis poderão surgir ao longo das pesquisas.



Além das extensões paralelas, há também o que podemos chamar de extensões objetivas, que se caracterizam por serem usos e conexões não projetados das próprias técnicas de terapia celular, ou seja, aplicações, não dos operadores, mas do próprio conceito científico em contextos que fogem à projeção inicial que aparecia no discurso e nos artigos científicos. No caso das pesquisas com células-tronco, refiro-me a usos de terapia celular em outros ramos da medicina (como a medicina estética, por exemplo) que não a medicina regenerativa, à qual essas pesquisas estavam fortemente associadas no começo de sua história.

Essas conexões entre laboratórios de biociências e outros agentes sociais são, em alguma medida, generalizáveis, constituindo-se como mecanismos importantes e relativamente comuns no processo de articulação entre conhecimento científico e sociedade. Nesse sentido, o objetivo desse trabalho, ao propor essas noções de extensões paralelas e extensões objetivas, é mostrar que, nas pesquisas com células-tronco, essas articulações entre conhecimento científico e outros setores da sociedade, como empresas, órgãos financiadores, governo, etc, se dão ainda no que chamamos de fase laboratorial do processo de produção desses conhecimentos, ou seja, no trabalho realizado pelos cientistas junto às bancadas do laboratório, através do qual esse conhecimento vem sendo produzido. Assim, buscarei sustentar a hipótese de que tanto a análise quanto a própria intervenção política sobre questões relacionadas à ciência que se passam fora dos laboratórios, como a análise da atual política de inovação ou da lógica na distribuição de recursos para a produção de conhecimento, não podem ser levadas a cabo sem considerar tudo o que se passa dentro desses laboratórios, pois é lá que as conexões começam a ser estabelecidas.


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