Fabiano lorenzon valer



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1 INTRODUÇÃO


Esta monografia é um dos requisitos para a obtenção do diploma de licenciatura, do curso de História do Unilasalle. A idéia de pesquisar os espaços de sociabilidade GLBT surgiu de 2003, 2004 quando, embalados pela contagiante música de tais espaços, pensamos o porquê de não estudarmos este tema. Passada a “febre” inicial, no final de 2005 falamos com a nossa hipotética orientadora, no caso a Profª Maria Cristina França, sobre a idéia de este assunto ser por nós pesquisado em nosso TCC, ou melhor, Trabalho de Conclusão de Curso.

Podemos dividir esta pesquisa em quatro etapas. A primeira varreu todo o ano de 2006 e consistiu em uma revisão teórico-bibliográfica sobre o tema, bem como a busca pelo recorte de pesquisa. Em um segundo momento, no primeiro semestre de 2007, sob a égide da profª Rejane Penna, cursamos a disciplina Trabalho de Conclusão de Curso I, o que deu origem ao nosso projeto de pesquisa, que por motivos de adaptação, teve que sofrer algumas mudanças. A terceira etapa consiste na pesquisa propriamente dita, isto é, as observações participantes, bem com as entrevistas semi-estruturadas. Por fim, temos o ápice de qualquer pesquisa, que nada mais é que a transcrição e compilação das idéias pesquisadas que devem ser transpostas ao papel, transformando-se assim, em monografia.

Escolhemos este tema, por vezes ardiloso, por razões simples. A primeira delas é a escassez de pesquisas na área da história que versem sobre a homossexualidade, com a exceção do historiador norte-americano James Green, que sintetizou a história das sociabilidades homossexuais nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo ao longo do século XX, ou melhor, dos anos 1900 ao começo da década de 1980. Portanto, ele não discute a homossexualidade no pós-Aids ou atual momento histórico. A importância de tratar esse tempo se deve ao fato desta doença, o “câncer gay”, como era conhecida na época de seu surgimento, ter causado profundas transformações nas representações acerca das homossexualidades, bem como nas estratégias dos movimentos sociais para contornar o

estigma da homossexualidade. Por outro lado, existem as razões pessoais que guiaram o nosso olhar em direção a este tema. Portanto, como texto acadêmico não cabe discorrer o tema a partir de juízos de valor, tampouco submetê-lo às próprias impressões e vivências, isto é, a monografia é baseada em um corpo teórico, e não tem por principio ser favorável ou contrária ao “estilo de vida” homossexual. Entretanto, nos autodenominamos “militante acadêmico”, pois a inserção desta temática no rol de discussões acadêmica é sim uma forma de luta e de visibilidade à causa homossexual. Inclusive, porque para defendermos uma cidadania homossexual o mínimo que se espera é que o sujeito homossexual tenha o direito a ser integrante da história, a possuir uma memória de seu grupo social.

Para chegarmos a este texto escrito, utilizamos o método da “observação participante”, feito em dois espaços de sociabilidade GLBT. Nosso trabalho foi direcionado para os espaços privados de sociabilidade, mais especificadamente as casas noturnas homossexuais. As trocas homossexuais, afetivas, sexuais ou sociais, ocorrem nos locais mais variados. Desde praças, passando por banheiros públicos, saunas, chegando a bares e casas noturnas GLBT. Há ainda a internet, que é um grande pólo de encontro para homossexuais, especialmente os que “estão dentro do armário”, isto é, que não assumiram a sua sexualidade, e que conseguem encontros casuais graças a rede mundial de computadores. Pesquisamos o Blue Space, que é um local de tradição GLBT na capital gaúcha, especialmente na área de espetáculos de transformistas, e que está há 24 anos no mercado homossexual porto alegrense. Como contraponto de análise e para poder legitimar algumas de nossas hipóteses de pesquisa, observamos e entrevistamos o proprietário do Cabaret Soft, que também possui espetáculos de transformistas, mas abriga em seus aposentos itens emblemáticos da “marginalidade gay”, isto é, do “dark room”, quarto escuro onde há a possibilidade de prática do sexo casual, além dos habituais “transgêneros”, isto é, travestis, top drags, transformistas, etc. Por fim, esperamos contribuir com a discussão sobre a homossexualidade e que este tema deixe de causar desconforto e passe a ser tratado abertamente.


2 A HOMOSSEXUALIDADE PELAS PÁGINAS DA HISTÓRIA: UMA ABORDAGEM ENSAÍSTICA
Relações entre sujeitos do mesmo sexo sempre existiram. Mesmo entre os animais, o ato sexual entre dois machos ou duas fêmeas está presente. O que propomos neste capítulo é uma vigem pelos processos históricos que levaram a construção do atual sujeito homossexual. A partir dos subtítulos abaixo descobriremos que a idéia da homossexualidade não é a - histórica, como muitos grupos defendem, mas sim uma construção social, que reflete cada período da história da humanidade. Desde a valorização de um sujeito bem sucedido, cidadão, e mais velho que assume o papel ativo na relação sexual com um adolescente, na Grécia e Roma clássicas, passando pela inquisição e pelo discurso religioso do pecado da sodomia até chegarmos à aberta luta pelos direitos dos homossexuais, no mundo ocidental do pós-guerra.



    1. A homossexualidade masculina na antiguidade clássica

Faz parte do senso comum a idéia de que a homossexualidade era aceita na antiguidade clássica, isto é, Grécia e Roma. Que estas duas civilizações inclusive incentivavam a homossexualidade, a relação afetivo-sexual entre atores sociais do mesmo sexo. Logicamente, se compararmos estes povos clássicos, com a pregação religiosa que ultrapassou as cercanias do medievo, somente sendo substituída pelo discurso científico do século XIX, Grécia e Roma foram cidades que relativamente respeitavam os direitos dos homossexuais. No entanto, a partir de um olhar crítico, perceberemos que o quadro histórico não possui tintas tão belas assim. O que era aceito e socialmente valorado, era o fato de um sujeito, mais velho, cidadão e bem sucedido “educar” um jovem adolescente, para ele ser um bom cidadão. Este “educar”,

nada mais era que exercer o papel sexualmente ativo perante o jovem pretendente a cidadão grego ou romano. Esta relação possuía uma dupla finalidade. Mostrar o prestígio sócio-econômico do sujeito mais velho e como método de aprendizagem, ou “rito de iniciação”, como diz o psicólogo Sérgio Gomes (2007), para o pré-adulto, no caso o adolescente. Sobre a homossexualidade na Grécia antiga:

[...] para um cidadão, a passividade sexual é que representa problema. [...] Ora, a função social da pederastia é a de ensinar ao rapaz a tornar-se um cidadão, consequentemente, um homem sexualmente ativo, por meio de uma situação paradoxal de passividade na relação amorosa. [...] A relação cessa quando o jovem rapaz deixa de sê-lo: o sinal da metamorfose é indicado pelo surgimento de pêlos, no queixo e nas pernas. Via de regra, se é rapaz entre os doze anos, a idade da flor, e os dezessete, a idade dos pêlos. (GOMES apud CATONNÉ, 2007).


Nesta mesma linha de raciocino, afirma Peter Fry e Mac Rae que na Roma antiga a passividade sexual de um cidadão era muito mal vista. Sendo que esta “hierarquia sexual” refletia uma “hierarquia social” (1983, p.53). Portanto, a partir das palavras do historiador Jean-Philippe Catonné e dos antropólogos Peter Fry e Mac Rae, percebe-se claramente que a passividade sexual não era aceita. Além disso, estas relações sexuais deixavam de existir quando o rapaz, ou o “eromenes” se tornasse adulto. Não havia o sujeito homossexual, havia sim a valorização deste aprendizado mais “próximo” entre um homem mais velho, o “erastes” - ou um urso ou uma Irene na gíria dos homossexuais de hoje – e um jovem adolescente. Além disso, a existência de casais declaradamente homossexuais, não era uma prática comum na antiguidade clássica. Uma relação estável entre dois homens na Atenas clássica, seria algo inimaginável. Obviamente, que “dentro do armário” muitos sujeitos deveriam vivenciar a sua homossexualidade como uma inversão de papéis, no qual o jovem adolescente adotaria uma postura sexualmente ativa perante seu mestre. Mas isso, geralmente a documentação omite, e não temos o recurso da história oral para percebermos estas nuances da sexualidade humana.

Logo, a relação homossexual na antiguidade clássica não era completa, uma vez que a passividade sexual não era socialmente aceita e a relação entre dois sujeitos homossexuais adultos era algo quase que inimaginável. Como defendemos uma noção ampla de homossexualidade, além dos muros do ato sexual, abrangendo afeto e companheirismo, consideramos a sociedade greco-romana como não tolerante à homossexualidade como um todo. Se não há uma cultura homossexual, com casais do mesmo sexo assumindo o seu companheirismo, então não há respeito e valorização do indivíduo homossexual. Inclusive porque, mesmo no Brasil atual, existem inúmeros sujeitos, “homens de bem”, “pais de família”, que procuram resolver seus anseios sexuais com outros homens em saunas. Isso é valorização da homossexualidade? Cremos que não. Na antiguidade clássica, o ato da pederastia – que era como os gregos denominavam esta forma de relação entre um homem mais velho e um adolescente, sem a conotação dos dias atuais de ato sexual com crianças – era um mecanismo de poder, ativo versus passivo, bem como uma pedagogia para a formação do cidadão greco-romano.


2.2 Discurso religioso versus ciência: da sodomia ao homossexualismo
Embora seja incorreto afirmar que a homossexualidade era aceita na antiguidade, ela foi muito mais tolerada na sociedade greco-romana que no posterior discurso religioso, presente na Europa e no mundo ocidental. A partir de uma leitura descontextualizada do Velho Testamento, religiosos passaram a pregar o pecado da sodomia, isto é, a relação sexual entre dois indivíduos do mesmo sexo, especialmente a penetração anal. Olhando sob esta ótica do pecado, na antiguidade clássica as relações homoeróticas não eram consideradas pecado, no máximo havendo um desprezo social perante o ser sexualmente passivo e a demonstrações públicas de afeto homossexual. No entanto, a falácia religiosa é implacável, a relação entre dois indivíduos do mesmo sexo é considerada pecado e ponto final. A hegemonia da religião perderá relativo espaço a partir do século XIX, quando a ciência médica entra em cena e classifica a homossexualidade como doença. Deixando ela de ser pecado, que inexoravelmente levaria às trevas do inferno, para ser tratada como doença, passível de cura.

Conforme o historiador Ronaldo Vainfas (1986, p. 64-70), em seu livro “Casamento, amor e desejo no ocidente cristão”, a palavra sodoma tem origem no Antigo Testamento da Bíblia, sendo a homossexualidade condenada em alguns trechos deste documento pré-cristão. Vainfas afirma ainda que foi o apóstolo Paulo quem “retomou e ampliou” a condenação aos atos homoeróticos, ampliando este conceito à homossexualidade feminina. Credita-se a ele a utilização do termo “sodomita”, em alusão direta ao texto de destruição de Sodoma, do Velho Testamento. Por ventura, nos primeiros séculos da era cristã o conceito de sodomia era muito difuso, englobando inclusive a cópula anal entre casais heterossexuais. Sobre a descontinuidade histórica da condenação da sodomia no medievo cristão, afirma Vainfas:

Na Idade Média, a condenação da sodomia conheceu várias nuanças: foi pouco rigorosa antes do século XII e violentíssima nos séculos XIII e XIV; mais indulgente com crianças e adolescentes do que com os adultos; menos severa com mulheres, mais hostil em relação a clérigos do que com respeitos a leigos. E, ao nível dos atos, foi particularmente severa em relação ao coito anal. (1986: 70)
Nota-se então, segundo Vainfas (1986), que nos primeiros séculos da era cristã, havia o ideal da virgindade, do não casamento, já que o mundo estava passando pela transição da queda do Império Romano e caindo em um campo desconhecido, com novas estruturas sociais, chamado Idade Média. Antes do século IX, inclusive o casamento heterossexual não era plenamente recomendável, uma vez que, envolvia os prazeres mundanos da carne. Após o século IX é que o foco de perseguição da Igreja passou a ser as atividades extraconjugais, sendo permitido, com as devidas considerações, que indivíduos casados tivessem prazer sexual em seu leito conjugal. Para Vainfas, o III e IV Concílios de Latrão, ocorridos em 1179 e em 1215, foram categóricos na condenação da sodomia. Inclusive penalizando padres que acobertassem tais práticas ditas pecaminosas. A partir destes dois eventos, o cerco contra as atividades sodomitas ou homoeróticas foi acentuado. Este autor conclui que este aumento da repressão sexual entre os séculos XII e XIII é uma “técnica de poder” da Igreja Católica medieval para incentivar a população a deixar de lado os prazeres terrenos, neste caso da carne, para um maior “amor a Deus” e “respeito ao clero”. Como maior ferramenta da Igreja nesta construção do poder está a confissão, que se tornou obrigatória no IV Concílio de Latrão, de 1215.

A renascença foi a aurora da beleza artística da humanidade. Roncierè, que assina um capítulo sobre a elite toscana no período renascentista, pertencente ao livro “História da Vida Privada 2”, organizado por Georges Duby (1990, p. 297), afirma existirem homossexuais “em toda parte”, a contar “Nápoles, Bolonha, Veneza, Gênova”. Como “prova” disso, este autor menciona as falas de condenação à homossexualidade, ditas por pregadores toscanos, como Giordano de Pisa, ainda na década de 10, do século XIV e por Bernardino de Siena, que utilizou a oratória anti-sodomia por volta de 1420, portanto um século após Giordano de Pisa. Inclusive menciona Roncierè, que os “bordeis” foram incentivados na região de Florença e Veneza, já que eram vistos como um mal menor, frente a homossexualidade. Por outro lado, o mais interessante, ainda segundo Roncierè (1990, p. 297) de que as “discussões alarmadas” e as “medidas muito severas”, por parte das autoridades toscanas, denota que cidades como Siena e principalmente Florença, foram centros de atração de homossexuais. Inclusive o autor menciona que florenzer tem o significado de homossexual na língua alemã, o que mostra a fama que esta cidade teve nos idos da Renascença.

Não obstante o raiar do sol da modernidade, o fim do período medieval, não significou tolerância para com os homossexuais. A fase conhecida como História Moderna foi de grande perseguição dos atos sodomitas, especialmente pelos Tribunais da Inquisição. Mas cabe lembrar que a nova oferta de religiões, surgida com a reforma de Martinho Lutero, a partir da segunda década do século XVI, não altera o quadro de repressão ao “pecado” da sodomia1.

Com o aumento das relações capitalistas, bem como o crescimento das cidades e a crescente crença no poder da ciência, além da necessidade de controle da população por parte de um Estado centralizado, surge na metade final do século XIX a explicação científica para a homossexualidade. Aparece a palavra “homossexual” para categorizar indivíduos que se sentem sexualmente e afetivamente atraídas por indivíduos do mesmo sexo biológico. Com isso, as religiões perdem sua hegemonia sobre o discurso acerca da homossexualidade, entrando parcialmente em seu lugar a ciência e a “doença” do “homossexualismo”. Foi o médico húngaro Karoly Maria Benkert que cunhou o termo homossexualismo, em 1869, expressão esta que tem o claro significado de doença e não de uma cultura, de um estilo de vida. (FRY; RAE, 1983, p. 61).

Nos primórdios do século XX, Sigmund Freud introduz um novo discurso sobre a homossexualidade, na qual busca explica-la a partir de uma análise da mente, dos distúrbios psicológicos, não a percebendo sob uma ótica moralista, mas sim, reforçando o ideário cientifico. (Lacerda et al, 2002). Uma vez que, como se tratava de algo fora do padrão considerado normal, a homossexualidade podia ser tratada, utilizando-se para isso de psicanálise e métodos mais “científicos”, como os utilizados nos antigos manicômios. Entretanto, este novo ideário científico não altera automaticamente as antigas crenças sobre o pecado da sodomia, servindo inclusive para inflamar os ânimos de sujeitos e instituições mais moralistas. (LACERDA apud BULLOUGH, 2002). Sobre o discurso psicológico, que depois se transforma em senso comum, afirma Peter Fry e Mac Rae:

O famoso paradigma da fábrica de bichas constituída de uma mãe dominadora e de um pai ausente é seguramente apenas uma reiteração da ideologia de que apenas a família patriarcal é realmente saudável, ignorada a realidade da vida familiar em geral. (1983, p. 74)


Percebe-se claramente que tanto as idéias de Bullough como as de Fry e Rae chegam a uma mesma conclusão: que tanto o pecado da sodomia quanto o discurso médico são formas de poder de grupos dominantes, defensores da tradicional família patriarcal. Nos Estados Unidos esta simbiose entre ciência, religião e progresso dizimou e destruiu a identidade dos índios berdaches daquele país. (FRY; RAE, 1983). Os berdaches eram homossexuais que desde crianças eram tratados como mulheres, em certas comunidades indígenas norte-americanas, compondo uma “forma institucionalizada” de homossexualidade masculina (BENEDETTI, 2005). Segundo Fry e Rae, os berdaches foram liquidados da sociedade norte-americana, não existindo mais atualmente. Sobre as características deste fim dizem os autores: “seu fim foi brutal perante a ‘civilização’ que os conquistou em nome de Cristo e do progresso” (1983, p. 59). Fry e Rae (op. cit.) narram ainda as humilhações que estes indivíduos sofreram por parte dos colonizadores brancos e mesmo por órgãos oficiais do governo, como o “Bureau de Assuntos Indígenas”, o equivalente a nossa Funai. Esta instituição pública norte-americana obrigava os berdaches a se vestirem conforme seu sexo biológico. Além disso, os berdaches foram coagidos a adotarem práticas sociais masculinas, o que não era comum em suas sociedades de origem, com regras não ditadas pelo Estado norte-americano.

Por fim, percebemos a transformação histórica do conceito de homossexualidade. Entre a pederastia grega, a sodomia cristã ou a prática cientifica há muitas continuidades e descontinuidades. Além disso, mesmo em uma determinada época histórica, a idéia e o que é ou não aceito no que tange a homossexualidade pode variar conforme a população e os interesses centrais de determinados grupos dominantes. Observa-se, nesse sentido, o caso das cidades renascentistas, onde o número de homossexuais era expressivo, já que Florença, por sua vez, era um grande pólo de atração de jovens artistas e de potenciais homossexuais.


2.3 A saída do armário: O movimento GLBT e a crescente visibilidade da homossexualidade
Como vimos nas páginas acima, o homossexual foi historicamente marginalizado, tratado com escória da sociedade. Porém, a categorização médica serviu para abrir os olhos dos homossexuais. Se a idéia de pecado perturbava os próprios sujeitos praticantes da sodomia, bem como seus familiares e a sociedade na qual estavam inseridos, o discurso científico deu uma relativa guinada no tratamento dados a tais indivíduos. A ciência não busca a punição, mas sim a cura do “problema” do “homossexualismo”, como se trata um câncer ou uma hérnia de disco. O homossexual já não vai mais para a fogueira ou para o inferno, sendo redirecionado para os consultórios médicos, com destaque aos psiquiátricos e psicanalíticos. Neste contexto de perseguição por parte da ciência, do Estado e da religião, surge o gérmen do movimento homossexual. Iniciado pelo advogado alemão Karl Ulrichs, tido como o primeiro militante gay, cujas idéias remontam ao final do século XIX. A luta homossexual sofre uma pausa no período entre guerras, isto é, no interregno entre a primeira e segunda guerra mundial. Ressurgindo com mais força em meados dos anos 1960, nos EUA e Europa, com o movimento “gay power”. Um dos reflexos diretos desta crescente visibilidade, conquistada pelo crescente movimento pelos direitos dos homossexuais, foi o aumento do número de locais comerciais destinados ao público GLBT, no Brasil e no mundo.
2.3.1 Opressão e lutas: a batalha pela conquista do respeito De Ulrichs a Stonewall Inn
Em meio a tantas lutas pelo direito de se amar a um individuo do mesmo sexo e ao grande estigma social da homossexualidade (GOFFMAN, 1988), eis que surge no final do século XIX um ser iluminado, o advogado alemão Karl Heinrich Ulrichs (1825 – 1895) o primeiro militante gay da história. Ulrich conjugou teoria e prática, sendo ao mesmo tempo ativista e teórico da homossexualidade. Segundo a jornalista Thereza Pires, do portal da internet Mix Brasil2, em matéria que adapta um texto em inglês de Paul J. Nash, dos EUA, Ulrich trabalhou na corte de Hildesheim, do Reino de Hannover, período este que a Alemanha ainda não era unificada. Competente ativista político e inspirado orador, foi afastado de seu trabalho em virtude da sua declarada homossexualidade. Mais tarde, ao escrever tratados de defesa da livre expressão sexual, teve seus livros retirados de circulação pela polícia de Berlim. Suas idéias iam além da defesa dos homossexuais, incentivando que gays e lésbicas assumissem publicamente sua orientação sexual. Ele próprio escolheu o dia 26 de maio de 1864, dia em que seus livros foram liberados pelo governo alemão, como data inaugural do movimento de defesa dos homossexuais.

Peter Fry e Mac Rae incluem o médico Benkert com um sujeito declaradamente homossexual, nas últimas décadas do século XIX. Segundo eles, Ulrich criou, na metade final do século XIX, o termo “Uranista”, em alusão a musa grega “Urânia”, que inspirava amor entre sujeitos do mesmo sexo. (1983, p. 62). O termo “uranista” propunha a existência de um “terceiro sexo” tão natural quanto os outros dois. (1983, p. 82). A Alemanha é o centro da efervescência homossexual na virada dos séculos XIX para o XX. Embora existisse o artigo 175, do código penal alemão, que previa punição para os praticantes de atos homossexuais, a consciência homossexual ganha um grande impulso entre os alemães. Segundo Fry e Rae, após 1897 surgem os primeiros grupos de luta pelo respeito aos direitos dos homossexuais, liderado pelo médico judeu e homossexual Magnus Hierschfeld. Suas idéias atingem grande repercussão, inclusive com a adesão pública do líder do Partido Social Democrata, August Bebel, para a causa em defesa da homossexualidade. Estes autores afirmam que Berlim era a “capital da homossexualidade” nos década de 1920. (1983).

Fry e Rae debateram sobre a guinada da esquerda mundial, no que tange a livre vivência das sexualidades. Os comunistas anteriores a Revolução de Outubro não eram contrários a homossexualidade. Em 1919, Berlim sedia o 1º Congresso Internacional para a Reforma Sexual. Em 1928, no 2º Congresso, em Copenhague, Dinamarca, é criada a liga mundial para a reforma sexual. Alexandra Kollontai, líder bolchevista, participa ativamente desta liga. (FRY; RAE, 1983).

A URSS, pré-Stalin, defendia que a homossexualidade não era um problema legal, mas sim científico, se não defendendo pelo menos aceitando a livre escolha sexual de cada sujeito. Porém, com a tomada de poder por parte de Stalin, uma rígida moral foi gradativamente se instalando na terra dos cossacos. Para atingir esta meta de moralização da URSS, inúmeros homossexuais foram expulsos do Partido Comunista Soviético. Inclusive, em meados da década de 1930, muito homossexuais foram brutalmente assassinados pelo Estado soviético que além do poder político-militar possuía os meios de comunicação nas mãos, cabendo à imprensa a tarefa de inflamar os ânimos com violentas campanhas contra a homossexualidade. Inclusive a arte, através do Realismo Socialista e de seu maior expoente Máximo Gorki, serviu para difundir idéias homofobicas no seio da sociedade soviética. (FRY; RAE, 1983). Até hoje estas idéias continuam presentes na Rússia, haja vista as dificuldades que os grupos de direitos homossexuais têm para organizar uma Parada Gay em Moscou. Porém, somado ao jugo estatal, atualmente na Rússia, a Igreja Católica Ortodoxa Russa adota posição veementemente contrária aos direitos dos homossexuais. Sobre a homossexualidade na União Soviética, sintetizam os autores3:

Os stalinistas começaram a desenvolver uma visão da homossexualidade como produto da decadência do setor burguês da sociedade. [...] Finalmente em março de 1934, com o apoio pessoal de Stalin, foi introduzida uma lei punindo homossexuais masculinos com até oito anos de prisão (FRY; RAE, 1983, p. 89).
Os homossexuais historicamente foram muito perseguidos, embora não haja quase que nenhuma menção a tais atrocidades nos grandes veículos de divulgação de idéias, isto é, os meios de comunicação. Como no caso do holocausto nazista, em que as atenções são quase que totalmente voltadas a retratar a perseguição aos judeus, sem menção aos demais grupos que foram vítimas do governo de Hitler. Obviamente que eles foram o grupo social que numericamente tiveram mais baixas, entretanto outras minorias também foram perseguidas e altamente estigmatizadas, entre eles os homossexuais, que eram obrigados a desfilar com um triângulo invertido na cor rosa, costurado em suas roupas, mostrando para todos a sua condição de sujeito homossexual. Havendo uma repressão dupla: a do Estado Nazista Alemão e os olhares de menosprezo dos demais presos dos campos de concentração. Partimos daí para a constatação, existe algum filme de grande repercussão que verse sobre esta perseguição aos homossexuais? Algum grande diretor de Hollywood assinou alguma película sobre este tema? Não. 4 (FRY; RAE, 1983).

Peter Fry e Mac Rae, intelectuais homossexuais e participantes do movimento gay brasileiro, desde os seus primórdios no final da década de 1970, dão um tom poético à história de lutas e conquistas dos homossexuais brasileiros e mundiais. Para eles, que intitulam o surgimento do movimento de defesa GLBT como o nascer de uma estrela, esta luta que se iniciou no final do século XIX teve uma breve parada no período entre guerras, ressurgindo com maior força nos EUA, com a Frente de Libertação Gay e a, por assim dizer, gota d’água, se deu quando a polícia de Nova York invade o bar GLBT Stonewall Inn, no dia 28 de julho de 1968. Nesta data, os homossexuais não aceitaram passivamente a repressão do Estado e resistiram as investidas policiais. Houve alguns feridos. Nos dias seguintes, houve manifestações próximas a este local, onde sujeitos homossexuais empunhavam cartazes com os dizeres: “poder gay”, “eu gosto de rapazes”, “assuma-se e vá para as ruas”. Além disso, o grupo Frente de Libertação Gay, dos EUA, em seu jornal “Come Ou5t” intitulava o 28 de junho como o “Dia do Orgulho Gay”. Data que até os dias atuais norteia boa parte das paradas livres pelo mundo afora. “[...] a Rebelião de Stonewall, que é para o movimento homossexual algo parecido com a tomada da Bastilha para a Revolução Francesa” (FRY; RAE, 1983, p. 96 grifo nosso). Embora eles utilizem o termo “Rebelião”, acreditamos ser um termo um tanto passional, para dar a idéia de grandeza deste evento. Manuel Castells, por outro lado, também considera Stonewall Inn como um marco da retomada da luta homossexual no mundo e o ponto de partida para esta luta nos EUA, já que, como vimos a resistência homossexual surge na Europa do pré-guerra (CASTELLS, 2002, p. 248). Chamando este evento de “incursão violenta” ao contrário da terminologia utilizada por Fry. Logo, defendemos que a expressão “incursão violenta” é a mais apropriada para explicar esse fenômeno que o termo “rebelião”. Embora, ambos os autores defendam a relevância histórica do dia 28 de junho e da resistência de Stonewall Inn.

Percebe-se então que ao longo destes dois mil anos de civilização cristã, apenas anteontem, no final do século XIX é que os homossexuais ousaram ter voz e expressar publicamente suas opiniões que, ao contrário do que muitos pensam, não exige privilégios, mas sim respeito com as próprias escolhas. Não queremos com isso, afirmar que todos os homossexuais são sujeitos políticos e que tenham uma consciência cidadã de seus atos. A maioria, mesmo os integrantes das elites econômicas da sociedade, percebe a homossexualidade como um mero ato individual, sem saber elas que é sim um ato coletivo e político, já que questiona a ótica restrita da família patriarcal. 6.

Como sempre, os militantes que pretendiam politizar explicitamente a questão homossexual eram uma minoria. Mas o seu posicionamento refletia uma mudança mais generalizada entre uma proporção considerável da população homossexual (FRY; RAE, 1983, p. 96-97).


2.3.2 Movimento homossexual na Terra Brasilis: Entre a macro e a micro esfera política
Segundo os escritos de Luiz Mott, baseados em documentos da Santa Inquisição, o Brasil possui homossexuais ou sodomitas oficiais desde a segunda metade do século XVI, isto é, nos primeiros anos da colonização de fato de nosso país. O movimento gay brasileiro surge apenas na época da abertura política, isto é, no final dos anos 1970. No entanto, segundo o historiador norte-americano James Green, a década de 1960 viu nascer vários “jornais caseiros”, de circulação restrita, produzido por homossexuais com temas de interesse para esta comunidade. O mais significativo foi o “Snob”, que circulou entre 1963 a 1969 na capital fluminense, mais especificadamente entre amigos e conhecidos de seus idealizadores, nos bairros de Copacabana e Cinelândia na cidade do Rio de Janeiro. Esta publicação não tinha uma clara conotação política, se auto-declarando centrista. As pautas, como já foram mencionadas, tratavam de temáticas do cotidiano destes homossexuais, como entrevistas com renomados travestis da época. Ainda no caminho da análise de Green, o título “Snob” designava gente de bem, pessoa de bom gosto, servindo como uma afirmação de hipotéticos valores gays. Logo, segundo o autor, trata-se de uma publicação de afirmação de uma identidade homossexual, mesma que restrita a um restrito número de pessoas. (GREEN, 2000, p. 296 a 304).

Segundo James Green (2000), Peter Fry e Mac Rae (1983), a relação homossexual no Brasil historicamente se dava na dicotomia bicha-bofe, ativo-passivo. Até a década de 1970 este modelo de vivência da sexualidade era o que predominava em nosso país, daí a imagem do homossexual como um ser frágil e com muitos trejeitos femininos. Green propõe que este modelo começou a ser questionado no final dos anos 1960 e cita o caso da supra citada revista “Snob”, que em 1966 publicou um artigo questionador deste modelo binário ativo X passivo. Porém, este texto não reflete a opinião desta publicação como um todo, consistindo na opinião pessoal do colunista “Gato Preto”. Paralelo a isso, e sob o clima do Concílio Vaticano II e a emergência da Teologia da Libertação em nosso país, o padre e teólogo Jaime Snoek, de origem holandesa, publica um artigo na Revista Vozes, em 1967, defendendo os direitos dos homossexuais. Com isso, ele põe em cheque a afirmação de que a homossexualidade era doença, além de incentivar “amizades homossexuais”, isto é, a união entre dois homens ou duas mulheres, baseadas na fidelidade ao invés da promiscuidade. Entretanto, ele foi uma voz que não obteve eco na Igreja Católica. Finalmente, na metade final dos anos 1970, após a fase mais repressiva do governo militar, intitulada “anos de chumbo”, o mercado editorial e a resistência homossexual começam a ganhar grande destaque no Brasil. Os editores do “Snob”, que haviam encerrado suas atividades em 1969, criam uma nova publicação voltada ao público GLBT em 1976, o “Gente Gay”, que segundo Green, foi “a primeira de uma onda de novas publicações que marcaram o início de um movimento politizado de gays e lésbicas no país”7 (GREEN, 2000, p. 314).

Na metade final da década de 1970 há uma efervescência das manifestações GLBT, reflexos do movimento internacional. Por esta época surge o grupo “Dzi Croquettes”, indivíduos com características efeminadas, mas preservando a sua masculinidade, destacando a liberdade sexual em seus espetáculos. Green afirma que este grupo “suscitava a questão de sua identidade sexual” (GREEN, 2000, p. 411). O Jornalismo Gay ganha destaque com a publicação “Gente Gay”, o “Gay Press Magazine”, além de colunas fixas em jornais de grande circulação, como a “Coluna do Meio”, assinada pelo jornalista Celso Curi, para o Jornal Última Hora, de São Paulo. Cabe lembrar que a Coluna do Meio, bem como o jornal Última Hora fazem parte do passado, não existindo mais. Green (2000) e Fry e Rae (1983).

Diferente dos espetáculos de travestis da Praça Tiradentes8, que evocavam a beleza, a graça e o estilo clássicos femininos em seus retratos de mulheres, os quatorze membros do Dzi Croquettes se vestiam numa mistura de roupas masculinas e femininas. (GREEN, 2000, p. 410).


James Green (2000) explica-nos que já em 1976, o escritor paulista João Silvério Trevisan, que havia morado e tido contato com o movimento gay norte-americano no começo daquela década, tentou implantar um “grupo de discussão” entre universitários gays9 brasileiros. Todavia, este núcleo de debates gays não obteve o êxito esperado, pelo simples fato de que a militância homossexual estava dividida, já que segundo os ditames da esquerda, o feminismo, o movimento negro, a luta homossexual entre outras era algo menor, frente aos graves problemas do país. Ou seja, a esquerda defendia uma união de marginalizados e não um pipocar de pequenos movimentos hipoteticamente sem expressão política. No entanto, com o início do processo da abertura política brasileira é criada a grande publicação política homossexual em nosso país, trata-se do “Lampião da Esquina”, editado por um seleto grupo de intelectuais gays, na cidade do Rio de Janeiro. Este nome, segundo Green (2000), é uma brincadeira com o leitor, já que faz alusão as ruas, por meio de seus lampiões, bem como a histórica figura da Guerra de Canudos, o “rei do Cangaço”.

Peter Fry, que fazia parte do conselho editorial do Lampião da Esquina, ao lado de Mac Rae (1983), constata que este jornal surge em 1978 e que buscou apoio de outros grupos socialmente marginalizados, como os negros ou as mulheres. No entanto, estes demais grupos não quiseram relacionar suas lutas a questão homossexual. Preconceito dentro do preconceito. Nesta reportagem, os responsáveis por este jornal gay carioca deixam expressa sua abertura a outros grupos sociais, no caso para o movimento negro que, conforme Peter Fry e Mac Rae, não uniram forças ao movimento homossexual10.

Novamente nos trilhos de Green, Fry e Rae, fica claro que o primeiro grupo homossexual organizado de nosso país foi o Somos da capital paulista. Ele surge em 1978 sob a denominação provisória “Núcleo de Ação dos Direitos dos Homossexuais”. Por este nome ter uma característica altamente política, em um contexto de regime militar, isso desencorajou muitos homossexuais de participar deste grupo. No ano seguinte, após a disputa entre os defensores do nome “Somos”, em homenagem a uma publicação da capital argentina que perdurou de 1971 a 1976, e os demais que defendiam que uma palavra de luta aparecesse no nome deste movimento, propondo a denominação “Grupo de Afirmação Homossexual”, criou-se um nome que unisse as duas vertentes, surge aí o “Somos: Grupo de Afirmação Homossexual”. (GREEN, 2000, p. 432)

Green entrelaça história de grupo com o contexto do país. Segundo ele, em abril de 1980, “um grupo de cinqüenta gays e lésbicas assumidas” se juntaram a outros milhares de manifestantes, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, para apoiar as manifestações dos sindicalistas. “Os corajosos ativistas gays e lésbicas marchavam sob uma faixa onde se lia: ‘Contra a discriminação ao (à) trabalhador (a) homossexual” (GREEN, 2000, p. 434). Por outro lado, uma peculiaridade nos chama a atenção, o fato dos militares não ter perseguido diretamente estas organizações homossexuais. Pois, conforme Green, o Estado militar brasileiro, em época de grande ebulição e abertura política, tinha maiores inimigos em potencial, especialmente os sujeitos de esquerda, considerando os homossexuais e suas reivindicações como um mal menor. “Seja qual for razão, o recém-formado movimento de gays e lésbicas parece ter sido amplamente desprezado pelo braço repressivo do Estado”. (GREEN, 2000, p. 435).

O ano de 1980 marcou a saída das lésbicas do Somos, ao criarem a Ação Lésbico Feminista. Portanto, conforme Peter Fry e Mac Rae, este grupo foi perdendo força, bem como o movimento gay como um todo, especialmente por causa do surgimento da Aids11, tida inicialmente, inclusive com amplos discursos na imprensa, como um “câncer gay”. Na década de 1980, o grande grupo de luta homossexual, que reina quase que sozinho nestes tempos de luta contra a Aids, é o GGB, ou seja, Grupo Gay da Bahia, liderado por Luiz Mott. É a partir daí, que o termo “gay” se populariza e passa a ser sinônimo de homossexual em nosso país. (FRY; RAE, 1983). Logo, a Aids foi um golpe na luta homossexual, tida por muitos como um castigo divino. Por outro lado, também simbolizou a possibilidade da forte retomada dos debates acerca dos direitos homossexuais nos anos 1990, uma vez que os gays deixaram de ser o único grupo de risco para esta doença, que atinge cada vez mais os indivíduos mais vulneráveis socialmente, isto é, com poucos recursos financeiros e com um restrito capital cultural (BOURDIEU, 1998). Mesmo o Brasil, com todo o caos que há na administração pública, tem uma competente política de prevenção e de tratamento desta doença. Nas palavras de Manuel Castells percebemos claramente esta diferenciação entre a luta homossexual dos anos 1970 e a de nossos dias, embora atualmente o movimento GLBT esteja com muita força em praticamente todos os países do mundo, ou pelo menos nos ocidentais:

A comunidade gay dos anos 90, porém, não é a mesma da década de 70 em virtude da epidemia de Aids no início dos anos 80 [...] Creio ser correto afirmar que o movimento gay mais importante dos anos 80 e 90 é a ala gay do movimento anti-AIDS em suas diversas manifestações, das clínicas de saúde aos grupos militantes (CASTELLS, 2002, p. 253)


Esta constatação de Castells pode ser transposta a Porto Alegre, onde tanto a ONG GLBT Nuances quanto o grupo Somos12, tem seu foco de atuação em campanhas de esclarecimento acerca da Aids, inclusive com a distribuição gratuita de preservativos, colaborando em campanhas promovidas pelo Ministério da Saúde, do Governo Federal. O Gapa (Grupo de apoio aos portadores de Aids) surge em meados dos anos 1980 na capital paulista, como uma tentativa de amenizar a dor dos sujeitos, predominantemente homossexuais, que foram afligidos por este mal. Pouco depois é criado o Gapa-RS, em Porto Alegre.

Em 1991, Porto Alegre ganha seu próprio grupo gay, trata-se do Nuances, que continua em atividade e contribui enormemente para a construção de uma cidadania homossexual na capital gaúcha. Na metade desta década, a visibilidade homossexual cresce ainda mais, especialmente após a novela da TV Globo, “A próxima vítima”, mostrar um casal gay comum, sem caricaturas, formado pelos personagens “Sandrinho” e “Jefferson”. Segundo material divulgatório do grupo Nuances, Porto Alegre ganhou sua Parada do Orgulho Gay, intitulada por eles como “Parada Livre”, para abarcar outros grupos sociais, em 1997, no quais 150 pessoas marcharam pela José Bonifácio, rua paralela ao Parque da Redenção na capital gaúcha. Contudo, apenas nesta comparação entre o número de indivíduos que se expõe em tal manifestação, haja vista que atualmente a parada livre de Porto Alegre reúne milhares de pessoas e a capital paulista reuniu três milhões de pessoas na Parada de 2007, percebemos a grande visibilidade que os homossexuais alcançaram nestes últimos dez anos13.


2.3.3 Reflexos da visibilidade: Os espaços de sociabilidade GLBT
Os espaços de sociabilidade, destinados diretamente ao público GLBT é uma invenção dos anos 1960/1970 em nosso país. Em termos de Brasil, um dos primeiros locais foi o “Caneca de Prata”, surgido em 1967, no centro antigo de São Paulo. Local este que ainda está em funcionamento, com foco nos “ursos”, isto é, em homossexuais mais velhos e de aparência masculinizada. Entretanto, locais de trocas sexuais entre homossexuais, os “pontos de cassação” existem no Brasil, segundo o historiador James Green, desde pelo menos o final do século XIX. Não se exclui com isso, a existência de tais locais em períodos anteriores. Um exemplo destes pontos de “intercursos sexuais” são as praças como o Largo do Rossio, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Este local mesmo após as reformulações propostas pelo prefeito Pereira Passos para a modernização da antiga capital federal, continuou a ser ponto de troca afetivas e sexuais, entre sujeitos homossexuais desta cidade brasileira. O relato de Green abrange as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, ao longo do século XX, ou melhor, do final do século XIX a 1980. Em seu livro não há a repercussão da Aids, nem a sociabilidade GLBT em outros estados brasileiros (GREEN, 2000). A historiadora Alice Dublina Trusz que afirma, em uma das páginas do Jornal do Nuances, em uma pesquisa com jornais da época, que já nos anos 1910 e 1920 havia na capital gaúcha os “almofadinhas”, que eram jovem afeminados, vestidos com muita elegância e que freqüentavam os cafés da cidade, e que, segundo ela, não eram bem aceitos pela elite local14.

Neste mesmo jornal, há uma entrevista com uma travesti que fez sucesso entre os anos 1950 ao início de 1990. Como ela foi uma protagonista social de seu tempo, ela narrou um pouco de sua trajetória de vida, bem como sua experiência na Cabana do Turquinho. Trata-se de um senhor, o Turquinho, que alugava galpões antigos na área central de Porto Alegre para a realização de seus bailes, que eram muito freqüentados por travestis e homossexuais da época, porém não se restringia ao público GLBT, abrigando prostitutas femininas, heterossexuais, especialmente os de mais baixo poder aquisitivo, entre outros. Este lugar nasceu nos anos 1950 e teve seu término no começo da década de 1960. Era uma espécie de circo, já que não havia local fixo e muitas vezes as festas se davam sob tendas instaladas em terrenos vazios, como funcionam as modernas raves15 de nossos dias. Sobre o surgimento da sociabilidade GLBT em locais específicos para os homossexuais, menciona Mott:

A tendência dos homossexuais de se reunir em tavernas onde encontravam outros elementos socialmente marginais, parece ter se iniciado no começo do século XV na Europa, embora só a partir do século XIX tais lugares passam a se tornar mais numerosos e privativos. Os modernos bares gays são instituições originárias da Europa Ocidental e dos Estados Unidos e em muitas localidades, são os únicos espaços de sociabilidade homossexual. (MOTT apud DYNES, 2000, p. 75).
Fica claro, portanto, a partir das palavras de Mott, os espaços destinados aos homossexuais ganham destaque apenas no final do século XIX, paralelo a crescente tomada de consciência por parte de uma intelectualidade gay. Para Mott, as saunas existem desde a antiguidade, mas aparentemente não possuíam a clara característica de proporcionar incursões sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. Logo, a sauna gay, ou Bathhouse (banho turco) surge na mesma época dos bares, na parte final do século XIX. (MOTT, 2000).

Em termos de Porto Alegre e dos grandes centros brasileiros, o grande crescimento do mercado voltado ao público GLBT tem grande expansão nos anos 1970, especialmente na metade final, quando a repressão do governo militar deixa de ser tão rigorosa. (GREEN, 2000) (FRY; RAE, 1983). Aqui no Rio Grande do Sul a primeira casa noturna voltada aos homossexuais foi o Flower’s, surgida no começo da década de 1970. No entanto, ao decorrer desta década outros locais foram abrindo suas portas, como o Number One, direcionada ao público homossexual masculino, onde se encontra o atual Blue Space16, nosso principal objeto de estudo. Bem como outras casas no final dos anos 1970 e no decorrer dos 1980, a contar o Egosun, que depois trocou de proprietário e passou a se chamar Discretus, o Local Hero, o Latourage, o bar Romeu e Julieta, o W 605, mais conhecido como Wanda, entre outros. Dentre as peculiaridades da homossexualidade gaúcha, está a “Coligay”, torcida gay organizada do Grêmio. O nome é a junção dos termos “Coli”, em alusão a casa noturna GLBT Coliseu, com o “gay”, de caráter identitário. Para Volmar Santos, proprietário da Coliseu e idealizador desta torcida, houve muita resistência por parte dos torcedores gremistas, embora o presidente do clube tenha acolhido “em seu seio as flamejantes bibas”. Esta torcida que segundo o Jornal do Nuances está imortalizada em fotos no museu gremista, teve a efemeridade das borboletas, com duração de apenas 3 anos, isto é, de 1977 a 198017. Todos estes locais que foram citados não existem mais no ano da escrita desta monografia, isto é, 2007. Portanto, parece-nos que o crescente número de espaços de sociabilidade GLBT é um reflexo direto do aumento de visibilidade social que este grupo vem alcançando desde os anos 1970 em nosso país. Cabe lembrar ainda, que este fenômeno ganha força na década de 1990 e ainda mais nestes anos 2000, cujos homossexuais estão deixando de serem vítimas de segregação social, e passam, cada vez mais, a ter o Estado a seu lado, com leis que beneficiem o pleno exercício de uma cidadania homossexual.





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