Fabiano lorenzon valer


A inserção em campo: relatos de um jovem pesquisador



Baixar 443.75 Kb.
Página5/8
Encontro30.07.2016
Tamanho443.75 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8

A inserção em campo: relatos de um jovem pesquisador

Esta pesquisa exigiu saídas a campo, trata-se da já mencionada “observação participante”. Basicamente estas idas a campo se derão nos meses de julho e agosto de 2007. O que marcou essa etapa foi o rigoroso inverno gaúcho, um dos mais rigorosos dos últimos anos. Além de toda dificuldade inerente a qualquer pesquisa, o vento gélido foi mais um entrave para a execução de nosso projeto. Houve noites, como a do dia 27 de julho de 2007, sexta-feira, em que apenas o dever de cumprir as metas de pesquisa fazia-nos sair de casa. O frio era horroroso, medonho mesmo. Com isso, aliando frio com uma sexta-feira, encontramos um Blue Space vazio, com escassos freqüentadores. Terminado o espetáculo de transformistas, por volta da 1hora e 30 minutos da madrugada, a casa começou a se esvaziar e um pavor começou a subir na mente deste jovem pesquisador. Pensamentos como “o que eu estou fazendo aqui”, ou “por que escolhi este tema de pesquisa” vieram a minha mente. De veras, não é nada fácil fazer uma pesquisa desta estirpe sem apoio institucional, familiar e mesmo dos espaços pesquisados. Como já foi dito acima, o estigma da homossexualidade está muito presente entre os sujeitos homossexuais e seus familiares. Para cumprir com as metas de pesquisa, foi preciso, antes de tudo, fortalecer a nós mesmos, vencendo nossos medos e receios. Podemos afirmar que a parte mais complicada de nossa pesquisa foi justamente esta fase das “observações participantes”, pois, mesmo como sujeito homossexual, havia muito tempo que não freqüentávamos tais espaços de sociabilidade GLBT e, além disso, a academia universitária nós dá um relativo distanciamento em relação aos demais integrantes da comunidade GLBT.

Afora as observações participantes, fizemos seis entrevistas que serviram de base para nossas análises. Grosso modo, as entrevistas foram feitas com relativa facilidade. Houve casos inclusive em que tais personagens apareciam mesmo como mágica para nós. Como no caso do dia em que nós estávamos próximos a nossa casa e encontramos a “esposa” da Michelle Vargas, conhecida, que para nossa surpresa, morava uma rua após a nossa. Deixamos previamente marcada a entrevista, que se deu um mês após este encontro casual. Chegado o dia da tal entrevista, ficamos pasmos, o tal casal havia se “divorciado” e a Michelle Vargas já possuía nova companheira. O mais inacreditável é que a mãe da Michelle, a Lurdes Vargas é lésbica relativamente assumida e, inclusive, freqüentou os primeiros anos do Blue Space e relaciona este local com um episódio trágico de sua vida. O dia em que ela se separou de seu marido, onde, ao ser expulsa de casa por ele, para não ficar ao relento e como forma de auto-protesto, ela resolveu ir ao Blue Space. Isso por volta de 1984, quando esta casa era direcionada quase que exclusivamente para o público lésbico e se localizava no bairro Cidade Baixa, na capital gaúcha.

Outro episódio de fluidez ou de sucesso de pesquisa se deu no dia em que ligamos para o proprietário do Cabaret Soft, Cristiano de Menezes, e agendamos uma entrevista. Para nossa sorte, ele foi super receptivo, uma vez que o portal GLBT “Angel Loiro”, de Porto Alegre, iria entrevistá-lo no dia seguinte. Fizemos a tal entrevista em sua residência, uma sauna desativada, e saímos antes da chegada da equipe do tal portal GLBT. Como constante, podemos dizer que todas as “observações participantes”, bem como as entrevistas e tentativas de entrevistas, foram documentadas através da ferramenta antropológica do “Diário de Campos”, onde anotamos as principais informações sobre determinado dia. A partir destes Diários de Campo, podemos analisar as representações e os pré-julgamentos do próprio pesquisador, como em constatações de que existe vida durante o dia, dentro de uma casa noturna. Percebemos isso, na tarde em que entrevistamos o Paulo de Castro, sócio-proprietário do Blue Space, em que este local tinha um grande movimento de funcionários e colaboradores, e me foi afirmado que há um zelador que cuida de tal local durante todos os dias da semana, em horário comercial. Por sua vez, percebe-se que a “cena gay”, termo utilizado por Luiz Mott (2000), não é exclusivamente noturna. Ela possui um sistema logístico diurno, que a prepara para o grande ato, isto é, as noites dançantes do final de semana.

Em nossas entrevistas, fora os proprietários de tais locais de sociabilidade GLBT, preferimos direcionar nossos estudos nos indivíduos que sofrem estigmas múltiplos, que além de serem homossexuais, não têm uma condição monetária muito favorável, bem como sofrem pelo estigma étnico. Por seu turno, não será analisada nesta monografia as relações étnico-raciais no meio GLBT. Estes sujeitos entraram na pesquisa por não pertencerem às camadas médias brasileiras e não pelo fato de serem afro-descendentes. Destes entrevistados, um mora em Alvorada, no bairro Jardim Sorriso, e as outras duas, mãe e filha, moram em casas separadas, embora no mesmo terreno, na periferia de Canoas, mais especificadamente no bairro Mathias Velho. Obviamente que não são sujeitos vítimas de miséria extrema, mas não pertencem a imagem recorrente de que “toda bicha tem dinheiro”. Pois, esta imagem de poder econômico homossexual, na imensa maioria dos casos é irreal. Conforme diz Cristiano de Menezes, proprietário do Cabaret Soft tem muito homossexual que quer aparentar ter dinheiro, mas na verdade não possui.

Após o início desta pesquisa, ou mesmo antes, desde meados do ano 2006, qualquer visita ao portal de relacionamentos “Orkut” se transformava em um breve insight de pesquisa. Mesmo conversas em “chats”30 gays do portal Terra, com homossexuais de outras regiões do país tornavam-se potenciais pontos de análise. Somado a isso, conhecidos homossexuais nossos que não eram muito “fãs” de tais espaços de sociabilidade GLBT entraram no rol dos pontos de interrogação. Se eles são homossexuais, porque não freqüentam tais espaços de sociabilidade? As respostas não são tão simples assim. Nós mesmos, durante parte do ano de 2001, vivemos intensamente as saídas noturnas rumo a Enigma, que chamaremos logo abaixo de “síntese homossexual”, já que este local era capaz de abrigar as mais variadas nuances da homossexualidade porto alegrense. Houve assuntos e temáticas, que embora não relacionadas diretamente ao nosso objeto de pesquisa, aguçaram a nossa curiosidade acerca das homossexualidades e na tentativa de construção de uma cidadania homossexual, com sujeitos assumidos, para si mesmos e para a sociedade. Um destes “assuntos paralelos” foi a descoberta do escritor gay gaúcho, Caio Fernando Abreu, que faleceu na segunda metade dos anos 1990, vítima do “câncer gay”, isto é, a Aids. Um dia antes da escrita desta página, 03 de novembro de 2007, pudemos acompanhar uma entrevista sua, em uma reprise do programa “Perguntar não ofende”, exibido pela TV COM, do Rio Grande do Sul.

Todavia, este trabalho não possui apenas loros. As dificuldades de inserção em campo foram enormes. Além desta pesquisa de campo ter sido feita no alto inferno, digo inverno gaúcho, o que certamente modifica e reduz o público que procura tais espaços de sociabilidade GLBT, a recepção como um todo não foi das mais amistosas. Até porque, este objeto de pesquisa causa estranhamento, inclusive entre os habitués do meio GLBT local. Sem temer ser repetitivo, mas aceitando as idéias de Goffman sobre estigma, acreditamos que a homofobia está internalizada, isto é, os próprios sujeitos homossexuais não se assumem plenamente. Podem moldar seus corpos, serem promíscuos, mas não dão um passo além, o passo do reconhecimento social. Porém, dificuldades de inserção em campo são relatadas pelo Hélio Silva, que desenvolveu uma etnografia com travestis no bairro da Lapa no Rio de Janeiro-RJ, ou mesmo pelo José Magnani, que pesquisou sobre a diversão operária em uma periferia paulistana.

Helio Silva, no inicio de sua inserção no campo de pesquisa, ou de “batalha” das travestis, sofreu certo distanciamento. Como no caso narrado por ele, no qual a dona “Emilinha”, que vendia lanches e cervejas junto a uma borracharia 24 horas, recusou-se a atendê-lo. Além disso, sobre a busca de informações da vida das travestis, Helio Silva constata que “quem não pergunta muito, descobri depois, termina sendo agraciado com informações preciosas”, uma vez que não é tido como “fofoqueiro” e, portanto, é “merecedor de confiança” (1993, p. 84). Silva, em uma “aula” de metodologia de pesquisa em campo, orienta que o pesquisador não deve guiar uma conversa, deve sim ouvir o que seu entrevistado tem a oferecer. Pois muitas vezes o detalhe de pesquisa está justamente nos vícios de linguagem, nas falas “não importantes”. Por fim, Helio Silva, expondo seus percalços de pesquisa, disserta que as informações “mais picantes” vieram apenas em uma segunda etapa do seu trabalho de pesquisa, isto é, no mestrado, quando ele já era “amigo” das travestis. Obviamente, a rejeição a nossa pesquisa não foi tão forte, embora tenha existido. Como nosso objeto de estudo era outro, as formas de fuga dos pesquisados foi o silêncio, a demora para se marcar uma entrevista e a baixa receptividade a tal proposta. A resistência maior veio do Blue Space. Ao contrário da entrevista com Cristiano de Menezes, do Cabaret Soft, que fluiu muito bem, a com Luana de York, do Blue Space, foi muito complexa. Primeiro foram vários telefonemas até marcar o dia exato para esta entrevista. Depois, no dia da entrevista, ela simplesmente havia saído mais cedo e não estava mais lá para que pudéssemos cumprir com a nossa missão. Após um novo telefonema, a entrevista ficou agendada para a semana posterior, e desta vez ela foi feita com êxito, embora Luana de York tenha-nos deixado esperar por aproximadamente 40 minutos para falar conosco. No entanto, mesmo estes tropeços aguçaram a nossa intuição de pesquisador, já que mostra um pouco da representação que ela quer nos passar, criando uma idéia de diva muito ocupada e que não pode dar entrevista. Em uma ligação telefônica, de 08 de agosto de 2007, sábado à tarde, diz ela:

Esta semana está tumultuada, não pode!

Tem que chegar exatamente na hora, não vou esperar!

(Diário de Campo. Ligação telefônica. 08/08/2007)

Uma semana antes, mesmo sem termos podido entrevistá-la, pudemos observar o funcionamento do interior do Blue Space durante o dia, e conversarmos brevemente com o zelador deste local. Nesta troca de idéias, ele me disse que sua esposa também trabalha lá, na área da limpeza, mas nos horários de funcionamento da casa. Portanto, vemos aqui que um espaço de sociabilidade GLBT abriga heterossexuais, e inclusive famílias heterossexuais. Um dos grandes perigos ao tratarmos de um tema relativamente pouco estudado e que permeia o imaginário da sociedade das mais variadas formas, é o fato de cairmos na narrativa do exotismo, nos preocupando mais com os detalhes deste fenômeno do que com a análise da problemática de pesquisa. Nosso maior cuidado foi preservar o espírito crítico mantivemo-nos firmes na luta contra a exotização de nosso objeto de pesquisa. Helio Silva, que estuda o universo das travestis, versa sobre os riscos da “bizarria”:

Eis a questão mais crítica em torno de um tema que se oferece publicamente sob o signo da bizarria: o de ser seduzido pelo seu exotismo. O estudioso pode perder-se na infindável qualificação do objeto, deslumbrar-se com cada detalhe, anotá-los todos e, maravilhado, dotá-los de valor e significado. (SILVA, 1993, p. 144)
Nossa prática de observação participante se deu em poucas vezes, haja visto que essa técnica foi um complemento de nosso trabalho e não uma grande “etnografia” sobre o mundo GLBT. Para percebermos as transformações históricas ocorridas neste meio, acreditamos ser necessário esta inserção em campo, para fins de comparação entre o passado e o presente. Conforme Helio Silva, as representações ocorrem dos dois lados, ou seja, o objeto de estudo de uma forma ou de outra também “estuda” o pesquisador. Sobre a imagem que ele passou para seu foco de estudo, isto é, as travestis cariocas, afirma Helio Silva:

Uma leve aparência gay, não fazia michê, nunca transava com ninguém, uma idade superior à todos eles, o bastante para ser tido (ou tida) como coroa. [...] Recebia-os em minha casa. Suponho que dela o que mais impressionava, sobretudo porque havia um pesado silêncio sobre isso, era minha biblioteca, o meu escritório, insignificante em termos acadêmicos, mas absolutamente acachapante para os padrões do meu universo de pesquisa. Assim, fantasias devem ter sido tecidas sobre minha identidade e o que fiz foi nunca mentir, mas deixar em branco várias informações sobre mim mesmo. (1993, p. 151)


Nossa inserção em campo não foi tão densa quanto a de Helio Silva, mas pudemos perceber que as representações dos freqüentadores sobre a nossa imagem variavam conforme o local pesquisado. No Blue Space os clientes eram mais individualistas, o que dificultava o acesso a eles. Por seu turno, os freqüentadores do Cabaret Soft eram mais acessíveis, talvez até pelo excessivo número de garotos de programa que ofereciam seus serviços. Este é um ponto cabal de diferenciação entre o Blue Space e o Cabaret Soft, os garotos de programa. Pelo que pudemos observar o Blue Space não possui garotos de programa e nem um escancarado apelo ao sexo quanto no outro local visitado. Os nossos diários de campo, escritos no “calor do momento”, isto é, logo após o término de alguma saída a campo, revelam coisas que muitas vezes a memória apaga, como a razão da escolha e do acréscimo do Cabaret Soft, servindo de contrabalanço de análise.

Nesta sexta-feira, 13/07/2007, dia do início do Pan do Brasil, [...] peguei um ônibus rumo à capital gaúcha. Desci próximo ao Blue Space, por volta das 23h15minh da noite. Neste momento, me deu uma intuição para ir ao Cabaret Soft (na escrita original aparecem os verdadeiros nomes destes estabelecimentos), que fica a poucas quadras do Blue Space. Minha intenção inicial era conhecer o Cabaret Soft, ficar uma hora no máximo e terminar a noite no Blue Space. Todavia, o Cabaret Soft me encantou, desde a fila de entrada me senti mais acolhido e as pessoas pareciam mais dispostas a colaborar. (Diário de Campo, 13/07/2007)


Nestas observações, novos dados foram processados por nosso cérebro. Um exemplo disso foi a fala de um senhor do Cabaret Soft que associou “internet” e poder econômico. Mesmo não sendo temáticas que são diretamente tratadas nesta monografia, cabe o registro. São representações do pesquisador que muitas vezes caem por terra. No trecho transcrito de nosso diário de campo, foram mantidos os eventuais erros de português e de concordância, uma vez que, a intenção é demonstrar a sensação do momento, da intuição, e não do enquadramento científico da escrita final deste trabalho. A análise mais acurada, científica, será feita no capítulo 5. A partir das palavras abaixo se percebe uma clara distinção entre a representação do homossexual jovem, malhado e bem sucedido, dos demais integrantes do grupo GLBT. O Enigma, casa noturna GLBT que não mais existe, também tinha este papel de inserir as camadas populares, com o diferencial de atrair a elite gay porto alegrense, tornando-se com isso um espaço síntese.

(Fala do Senhor) _Tu qué um trabalho decente ou um trabalho internet?. Eu, muito ingênuo pensei que estivesse falando da falta de rigor acadêmico da rede mundial de computadores [depois é que fui perceber que ele estava se referindo a condição social, isto é, internet como sinônimo de riqueza e o Cabaret Soft como um “lugar de pobre, de negro”]. Quando ouvi isso, fiquei meio sem reação e disse que quero um trabalho decente. Pois bem, aquele senhor (com ar professoral) me admite que é zelador de um prédio de luxo em Porto Alegre, e pelo que deu a entender, ele mora neste prédio, já que ele me falou que era de Guaíba e que a há 10 anos mora em Porto Alegre. Ele me falou umas 15 vezes, “aqui é lugar de pobre, que tem bastante negro” e que “aqui a gente se sente bem, não tem ‘bundinha’ (pelo contexto significa uma bixa barbie) como em outras boates”. Ainda em suas palavras, ele comentou que ali havia pessoas de todos os tipos e que as pessoas não eram tão produzidas (em outras palavras) quanto nas outras boates. E que faltava um lugar assim em Porto Alegre, para os homossexuais de baixa renda. Que querem se divertir, tomar uma cerveja, conversar, etc. Por fim, ele comentou que poderia pagar a entrada da Refugiu’s (mega danceteria), mas que não se sentiria bem lá e, além disso, “o que os moradores de seu prédio diriam ao ver o zelador na mesma boate GLBT que eles?”.(Diário de Campo, 13/07/2007)


Nota-se ainda, que na citação acima aparece o termo “boate” ao invés de Casa Noturna, uma vez que este conceito foi modificado ao longo da escrita desta monografia, pois “Casa Noturna”, segundo um dos proprietários do Blue Space é a palavra apropriada. Pois “Boate” está associada a um local de prostituição, de sexo. A partir desta fala, pudemos perceber claramente a imagem que o Blue Space quer passar aos seus freqüentadores e a sociedade como um todo, a de ser um local limpo, saudável, seguro e que, embora sendo GLBT, possua todas estas características de qualquer lugar heterossexual. Destacamos ainda, que nossa pesquisa foi relacionada a algo mercadológico, ou melhor, que nós fôssemos espiões contratados por outra empresa.

Muito temeroso, me indagou diretamente se minha pesquisa não tinha um viés mercadológico ou, em outras palavras, se eu não era um “espião da concorrência”. Nesta momentânea conversa com um dos sócios proprietários do Blue Space, ele me afirmou que o termo “boate” não se utiliza desde os anos 1980, já que ficou muito associado a prostituição e que danceteria foi um termo surgido nesta mesma década mas que não vingou. Por fim, destacou – inclusive com alusão ao Google – que o termo “Casa Noturna” é o mais utilizado nos dias atuais, tanto em locais GLBT quanto heterossexuais. (Diário de Campo, 14/08/2007)


O trabalho de campo em um local de sociabilidade GLBT, ao contrário do que possa parecer, não é fácil e por vezes é altamente complexo. Primeiramente, todas as despesas necessárias a tal pesquisa saíram de nossos bolsos. Não tivemos apoio institucional e muito menos de órgãos de fomento à pesquisa. Aliado a isso, todos tinham a impressão de que tínhamos muitos recursos financeiros, ou pelo fato de um hipotético empresário estar bancando esta “pesquisa de mercado” ou sendo assediado por sujeitos que se prostituem e encontram seus clientes no Soft. Pois, ao contrário da imagem recorrente, muitos homens, por vezes heterossexuais, se prostituem por muito pouco, algo em torno de 10, 20 reais. São seres altamente marginalizados, sem emprego e que vêem na possibilidade de alugarem seus corpos a única chance de sobrevivência. Por fim, temos a questão familiar, onde ao contrário de nossos colegas de curso, não podíamos contar abertamente para nossos familiares o real quadro de pesquisa. Estigmas que se entrecruzam, mas que acreditamos serem importantes, já que geram um aguçado espírito crítico em nossa escrita. A solidão muitas vezes assombrou a nossa alma, conforme aparece na transcrição abaixo:

O gelo tomou conta deste dia de observação participante. A noite, sem sombra de dúvida, foi uma das mais frias do ano. Somado a isso, devemos levar em consideração que é final de mês e poucas pessoas têm dinheiro para sair. Por volta da meia-noite chego ao Blue Space, no centro de Porto Alegre. Este espaço estava, ou melhor, esteve vazio durante a noite toda. (Diário de Campo, 27/07/2007)


Houve também histórias engraçadas, como no momento em que conheci um senhor e seu namorado no Cabaret Soft. Como eu estava absorvido pela música eletrônica, bem como havia lido a pouco as etnografias de Helio Silva e de José Magnani, cometemos uma pequena “traição”, ao utilizarmos a profissão “antropólogo” ao invés de “historiador” para citarmos a nossa função naquela observação prática. Todavia, isso se explica, pois o lado historiador está presente nas entrevistas, bem como na análise sócio-histórica dos dados, mas na pesquisa de campo, a identidade de antropólogo falou mais alto. O pesquisador que mistura estas ciências corre justamente o risco de cair em uma “crise identitária”. Porém reiteramos nossa busca das transformações sócio-históricas desta sociabilidade GLBT. Neste causo que contamos logo abaixo, apareceu a “cerveja” como multa, isto é, como chave para novas informações. Neste exato momento, lembramo-nos do episódio descrito pelo Magnani, que vivenciou situação semelhante em sua pesquisa na periferia paulistana. Helio Silva e José Guilherme Magnani Cantor, foram mais que teóricos, foram alicerces, verdadeiros livros de auto-ajuda.

Em um determinado momento da noite, estava fazendo algumas anotações na penumbra, quando um senhor, o Sandro, acendeu o isqueiro para iluminar minhas anotações. Quando ele disse “escrevendo no escuro?” Aproveitei para dizer que era uma oportunidade de puxar assunto com eles. Estava ele, o seu namorado (um menino auto-proclamado Emo31 “que chora por qualquer coisa” e duas lésbicas de Guaíba). Conversa vai, conversa vem, ele disse que para alguém estar ali (no Cabaret Soft) com uma caneta e papel na mão, só se fosse um louco (não me lembro se isso mesmo) ou um “jornalista fodido” (fazendo uma matéria sobre a noite gay). Complementei dizendo, já embriagado com a batida musical, ou um antropólogo fazendo uma pesquisa. Ele me olhou com perplexidade. E disse que para eu conquistar a confiança deles, deveria pagar uma multa, isto é, uma cerveja. (Diário de Campo, 13/07/2007)


Nesta sexta-feira, 13 de julho de 2007, dia que não estava tão frio assim, cometemos nossa primeira gafe, ao não reconhecermos um ícone da noite gay gaúcha: Charlene Voluntaire.

Eu estava na pista de dança observando as pessoas quando um drag queen me chamou a atenção. Fui conversar com ela, disse que ela estava muito bonita e bem vestida (ela possui um estilo de senhora elegante). Quando ela me falou que era a Charlene Voluntaire, que estava há 15 anos na noite gay de Porto Alegre e que dirigia uma casa noturna. Daí fui obrigado a me desculpar, dizendo que nunca tinha visto um show dela. No entanto, ela foi hiper simpática e se dispôs para qualquer coisa. (Diário de Campo, 13/07/2007)


Também ocorreram situações de “saia justa”, que exigiram muita criatividade para sair delas, como em uma pré-entrevista, que por fim não ocorreu, com um rapaz que pensou estar sendo “cantado” pelo pesquisador. Este é um ponto forte. Estávamos tão envoltos nesta pesquisa, que adotamos uma postura similar ao do Hélio Silva, isto é, o não envolvimento afetivo-sexual com nosso objeto de estudo.

Quando eu estava procurando indivíduos para futuras entrevistas, um cara me chamou a atenção. Ele tinha uma aparência com características gays, embora não tivesse um corpo “malhado”. Mas ele usava maquiagem e corte de cabelos bem marcantes. Ele possui 24 anos. Ao abordá-lo, eu disse: “Quero falar contigo um minuto ali fora (da pista)”. Ele pensou e disse “não”. Tive que explicar que não era uma cantada, levá-lo a um lugar com menos movimento, no outro ambiente, explicar meu projeto e solicitar o telefone dele para uma futura entrevista. (Diário de Campo, 17/06/2007)


Muitas idéias foram germinadas nos locais mais inóspitos, como no banheiro do Cabaret Soft. Pelo final da noite, o público deste espaço começa a sofrer uma leve mudança, já que homossexuais migram de outras casas noturnas para terminar sua noite ali, como pude constatar em uma rápida conversa com um grupo de quatro rapazes.

Lá pelas 05h00min, fui ao banheiro do fundo e encontrei um dos rapazes do grupinho. Cumprimentei-o e perguntei se eles sempre faziam sempre este rodízio de casas noturnas GLBT. Expliquei meu projeto de pesquisa e começamos a conversar sobre identidade gay ali mesmo, no banheiro. Até brinquei com ele dizendo que teria que por isso na introdução do meu TCC. Ele falou que é colaborador de um portal gay da capital gaúcha, o “Porto G”, que foi criado há um mês. [...] Neste momento minha cabeça fervilhava. Em conversa com o Vitor (nome deste rapaz) ele disse: “_pergunta para essas bichinhas se elas sabem o que foi do dia 28 de junho?”. Comentei de sua representação sobre os homossexuais e que esta data deveria ser lembrada como o dia 20 de novembro, dia da consciência negra. (Diário de Campo, 13/07/2007)


Finaliza-se assim, esta panorâmica de nossa prática de pesquisa. Na qual aliamos método acadêmico com vivência pessoal. Em nenhum momento, partimos para a militância acrítica ou a simples exaltação da cena gay porto alegrense. Procuramos mantermo-nos com o máximo de isenção possível e, inclusive, acentuamos nosso discurso crítico. Para compor o nosso discurso, a nossa análise, utilizamos três recursos básicos: a revisão bibliográfica e a construção de um quadro teórico; as observações participantes em tais locais GLBT da capital gaúcha; bem como as entrevistas semi-estruturadas que serviram de base para percebermos as representações dos entrevistados sobre a sociabilidade GLBT e sua relação com a identidade homossexual, em particular. Esperamos que a redação desta monografia seja frutífera, e que novas pesquisas sobre esta temática sejam incorporadas à área da História. Nosso mote de pesquisa é o tempo presente, isto é, estudamos a partir de representações que, com a devida licença poética, mal saíram do forno. Este estudo está imbricado com a vida deste pesquisador. Embora não sejamos um exemplar típico da representação homossexual, com um peitoral altamente trabalhado, defendemos uma militância a partir das idéias, ou melhor, uma militância acadêmica.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal