Fabiano lorenzon valer


Os ritmos da cena gay porto alegrense de meados da década de 1990 aos nossos dias



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Os ritmos da cena gay porto alegrense de meados da década de 1990 aos nossos dias

Os espaços destinados a sociabilidade homossexual possuem o seu próprio ritmo que se difere, em alguns pontos, com os lugares heterossexuais. Podemos dizer que tais espaços possuem um tripé de sustentação composto pela dança/música, pelas relações sociais entre os seus freqüentadores e, por fim, pelos espetáculos de transformistas, drags, top drags, travestis, enfim o grande rol dos transgêneros. Estes ritmos, como qualquer outro campo da vida cotidiana, também é histórico e é influenciado pelo “extra muros” de determinada casa GLBT. Um caso ilustratório é a música. Em meados da década de 1970 era a “Disco Music” que embalava o Flower’s ou a Number One e, atualmente, o som preponderante é a música eletrônica como um todo, nas suas mais variadas nuances.

Não cabe discutirmos aqui as várias subdivisões da música eletrônica da atualidade. Isso por si só serve de sugestão para pesquisas futuras. Entretanto, o fato marcante é que a musica eletrônica embala a noite gay porto alegrense e os vários locais de sociabilidade GLBT mundo afora. Nas pistas que tocam este estilo de música o DJ é o mestre, o orientador destes momentos de êxtase que cessam ao término da música. Geralmente ocorre isso, pelo menos pessoalmente, sentimos esta sensação, de grande exaltação com esta batida eletrônica seguida de queda que mexe com a nossa emoção, isto é, com a perda deste instante de êxtase há um breve sentimento de fracasso, de fim de festa. Para se acompanhar este ritmo musical, dança-se individualmente ou de frente a seu parceiro afetivo, mas mantendo a individualidade. Um paradoxo em relação às danças se dá quando um grupo de amigos dança em roda, mas de forma individual, em uma alusão às brincadeiras de roda da infância. Obviamente que a razão para isso é o fato de ficarem próximos e cara a cara com seus amigos.

O que me chamou a atenção foi a forma de dança de alguns dos freqüentadores. A dança era individual, cada um dançando sozinho, porém, esta dança se dava em rodas com 5, 7 e até 8 integrantes. Nesta sexta-feira, havia muito poucas pessoas sozinhas, encostadas nas paredes como que a mirar a todos. No domingo, por exemplo, há um número significativo de indivíduos que vem sozinho em busca de companhia, um novo amor ou mesmo sexo casual. Nesta sexta não percebi este tipo de comportamento. Havia um número superior de gays em relação as lésbicas. Não vi nenhum casal hetero. (Diário de Campo, 27/07/2007)


As redes de sociabilidade não são semelhantes para todos os indivíduos homossexuais. O sujeito que vai sozinho ao Blue Space em um domingo à noite, e fica encostado nas paredes da pista de dança mista, como que cuidando a todos, não é o mesmo que vai em uma sexta-feira, que assiste ao espetáculo de transformistas e ruma para outra casa noturna. Geralmente o freqüentador de uma sexta-feira à noite vem acompanhando de um grupo de amigos. Em um mesmo dia, como o domingo, a sociabilidades são distintas conforme o ambiente do Blue Space a ser analisado. Há o fato de as lésbicas preferirem a pista de dança mista e os homossexuais masculinos migrarem maciçamente para a pista de música eletrônica, que possui um som mais alto, bem como um jogo de luzes mais elaborado que o outro ambiente dançante. No Blue Space, temos ainda mesmo aos domingos, alguns casais homossexuais, tanto masculinos quanto femininos, que buscam um local para namorar, trocar carícias homo-afetivas sem correrem o risco de serem vítimas de preconceito de garçons homofóbicos.

Um dos pontos marcantes dos espaços de sociabilidade GLBT é justamente as apresentações dos artistas transformistas, sendo o Blue Space um espaço de tradição (Giddens, 1995) no quesito espetáculos homossexuais. Por seu turno, Cristiano de Menezes, do Soft, que já foi ator, mantém a atividade de produção de shows de travestis, atividade esta que fazia ainda na época em que morava na capital fluminense. Segundo Cristiano, ele trabalhou com “Gonzaguinha, Nara Leão, Edu Lobo, Bibi Ferreira, Tônia Carreiro”, entre outros. O proprietário do Soft fez questão de frisar sua veia artística.

A primeira pessoa a pagar cachê a artista (transformista) em Porto Alegre fui eu. O artista, antes de mim, ele recebia cachê em drinque. Ele chegava na casa tinha dois ou três drinques para tomar e era o cachê dele [...] eu achava que a pessoa podia viver da arte, como vivem hoje. A Glória vive disso, a Charlene. Antigamente não se vivia. Você tinha que trabalhar em alguma coisa pra comprar roupa e se apresentar de graça na minha casa. (Cristiano de Menezes, 58 anos, 05/08/2007)
O Blue Space é um incentivador dos novos talentos do show business gay local. Inclusive a freqüentadora Lurdes Vargas afirma ter ido ao teatro por ter visto anteriormente uma esquete de determinada peça homossexual no Blue Space. Sobre o enfoque do Blue Space na questão dos espetáculos de transformistas, afirma Michelle Vargas.

Tinha uma época que fazia stripetease (final dos anos 1990), de homem de mulher, agora passou pro lado cultural, então tem dublagem, tem shows, tem peças de teatro, partes né, uma coisa bem mais culta eu acho. Acho bom, tanto que por eu ver uma parte de uma peça no Blue Space acabei indo assistir a peça no Teatro depois. (Michelle Vargas, 32 anos, 11/09/2007).


Um caso emblemático destes esquetes teatrais é retratado neste trecho de nosso diário de campo, feito no dia 17/06/2007, domingo. A partir dele, percebemos por meio do humor, as representações (JODELET, 2001) e (CHARTIER, 1991) que a comunidade homossexual faz de si mesma, bem como o destaque dado pelo Blue Space aos artistas homossexuais. Neste domingo houve dois horários de apresentações, um às 21h00min, com artistas menos conhecidos da comunidade GLBT gaúcha e outro à meia-noite com atores transformistas consagrados no meio homossexual e na cena teatral porto alegrense. Existem algumas peças compostas por atores transformistas que são representadas em grandes espaços da capital gaúcha, como o Teatro do Sesc, que abrigou no começo do ano de 2007 a peça “A casa das três Irenes”, composta por três transformistas gaúchos. Há ainda outras peças que ganharam destaque no cenário teatral gaúcho, como “O Bordel das Irmãs Metralha”, representada também no Teatro do Sesc e “Bonecas à beira de um ataque de risos”, representada no Teatro Carlos Carvalho, todos sediados em Porto Alegre. Cabe destacar ainda, que a Dandara Rangel, ganhou o Troféu Açorianos de melhor ator coadjuvante do ano de 200447.

Aproximadamente às 21h00min houve um espetáculo no palco, onde dois atores transformistas encenavam uma cena de assassinato, baseado em clássicos do cinema hollywoodiano. A meia-noite iniciou-se o grande espetáculo da noite. A drag oficial da casa, a Luana de York dublou uma música ao som de dance eletrônico. Após isso, a transformista gaúcha Laurita Leão (Lauro Ramalho) interpretou uma música de Maria Betânia. Além disso, Dandara Rangel interpretou uma música de sua inspiração maior, a cantora Alcione. Após alguns recados e publicidade da casa, foi feito um esquete teatral cuja Laurita Leão fazia o papel de uma menina violentada sexualmente pelo seu pai e que fugiu de casa ainda na infância. Elas estavam em um programa de televisão, como o “Casos de Família” do SBT (que é exibido todas as tardes de segunda a sexta feira). O detalhe é que a menina interpretada por Laurita havia fugido de Roca Sales e pegado carona com uma caminhoneira, que veio a se tornar o amor de sua vida. A caminhoneira era interpretada pela Dandara Rangel. Síntese da história: Laurita foi a este programa para tentar voltar para sua amada (Dandara), pois a mesma batia muito em Laurita, mas mesmo assim ela amava sua algoz. Esquete de muito humor, onde Dandara interpretava uma lésbica masculinizada e que jurava que sua mãe não sabia que ela era homossexual. (Diário de Campo, 17/06/2007)





6 ENTRE PERGUNTAS E RESPOSTAS: UMA ANÁLISE DE DADOS
Após quatro capítulos chegamos a este quinto, que trará discussões pertinentes a nossa temática de pesquisa. No primeiro sub capítulo, a partir das falas do entrevistado Juliano Carvalho, bem como a nossa experiência pessoal em tais espaços de sociabilidade GLBT, teceremos um quadro sócio-histórico de dois espaços homossexuais que marcaram a capital gaúcha nos anos 1990, o Fim de Século, que se localizava na Avenida Nilo Peçanha e o Enigma, que estava sediado no centro, sendo ambos integrantes do rol gay da capital gaúcha. No segundo sub capítulo terá destaque o debate acerca das sociabilidades GLBT, sua relação com o consumo, identidade homossexual entre outros temas.


    1. Enigma e Fim de Século: Dois espaços que marcaram a sociabilidade GLBT na capital gaúcha

Dois espaços de sociabilidade GLBT que marcaram Porto Alegre foram justamente o Enigma e o Fim de Século. Ambos surgem no final dos anos 1980 como lugares de vanguarda da capital gaúcha. Nos primeiros anos o Enigma era um local muito sofisticado que, inclusive, atraiu atores globais. Por outro lado, o Fim de Século nasceu como um “templo” da música eletrônica. O Fim de Século fechou no começo dos anos 2000 e em seu local abriu a casa noturna “Neo”, que não é declaradamente homossexual. Por outro lado, o Enigma foi entrando em um processo de declínio, de “basfondização”, em um neologismo. Em outras palavras, seu público deixou de ser o das camadas mais abastadas da sociedade, no final dos anos 1980, para terminar como um lugar sem brilho e praticamente não mais freqüentado por

homossexuais por volta de 2004. Adriano Garcia, por meio de contatos prévios via internet, enviou-nos um depoimento sobre o Enigma via e-mail.

Sobre o Enigma o que posso dizer que é de 85, comecei a freqüentá-lo em 86, a casa era uma "pirâmide", pois só iam à egípcia - com seus narizes empinados. [...]. Funcionava de sexta a domingo, uma época até quinta abriu. [...] O convite era um charme, tinha o tamanho um pouco maior que um selo postal, em um lado o logo da casa o “E” estilizado com o rosto do felino acompanhado de uma frase – Você faz parte desse lugar – ou algo do gênero, e no verso a data para próxima festa [...] A casa era administrada por um casal de homens que administraram durante de seis a oito anos até um deles vir a falecer [...] Durante esse primeiro período foi à ascensão do império, a casa era badalada e referencia para quem vinha de fora, celebridades globais quando vinham ao sul para apresentações em teatro, era certo que encontraríamos “eles lá” (Adriano Garcia, 34 anos, 2007)


Como podemos perceber, O Enigma foi um local de grande sucesso, capaz inclusive de atrair celebridades globais. Era um local como não existe hoje em Porto Alegre. Todavia, este “império” começou a ruir com a morte de um dos donos e com as dificuldades oriundas do aumento da concorrência. Nos anos 1990 e começo dos 2000 a homossexualidade passa a ser melhor aceita e jovens homossexuais, sedentos de novas experiências, migram para tais espaços de sociabilidade GLBT. Presenciamos pessoalmente este primórdio de ruína, em meados do ano de 2001. Ouvia-se o burburinho da decadência, mas uma áurea de glamour e de identificação homossexual permeava tal espaço. Pelo que pudemos presenciar o Enigma englobava várias camadas sociais em um mesmo espaço de sociabilidade GLBT, daí o considerarmos como um “espaço síntese” da homossociabilidade. Obviamente que o nosso contexto de análise é diferenciado do Adriano Garcia, que freqüentou o Enigma desde seu nascimento nos anos 1980 e foi uma testemunha ocular do término deste local emblemático da sociabilidade GLBT porto alegrense48.

A casa ampliou e ganhou nova entrada, por baixo. Então acho que as circunstancias financeiras da era Collor somadas a morte de um dos proprietários forçou a venda. Começava o declínio do império, a troca de mão tirou o glamour. Claro, os tempos eram outros, e uma leva de jovens se descobria com muito mais facilidade sua sexualidade, mas não sabiam o que fazer com isso. E assim surgiram novidades, onde se escutava apenas lançamentos musicais europeus que levam até dois anos para serem escutadas na rádio, na pista e bossa nova ou o que viria a ser o Lounge no bar, virou na parte de baixo um bar de pagode e na parte de cima o pop das rádios. O público que freqüentava antes se sentiu perdido pela descaracterização e claro que ocorreu um choque cultural e de idades. E os novos adolescentes vinham atraídos pela badalação que o nome atraia. (Adriano Garcia, 34 anos, 2007)


Este depoimento de Adriano Garcia está repleto de representações (JODELET, 2001), (CHARTIER, 1991) como no termo “choque cultural” em alusão ao embate entre os homossexuais mais velhos e hipoteticamente com maior “capital cultural” (BOURDIEU, 1994) e os jovens gays, geralmente periféricos, que estariam “invadindo” o Enigma. Além disso, percebemos que o “encanto”, o nome construído permanece por um bom tempo, mesmo com a mudança dos proprietários desta casa noturna. O entrevistado Juliano de Carvalho, que freqüentou o Enigma do final dos anos 1990 até aproximadamente 2003, afirma que no período de maior decadência deste local, “começou a ir muito travesti, saiam da Redenção, faziam prostituição na Redenção e iam, começaram a invadir o Enigma” (Juliano de Carvalho, 26/07/2007). Trata-se portanto, do discurso da exclusão. São os homossexuais mais jovens e periféricos que “quebraram” esta casa. A culpa é das travestis que se prostituem, já que elas trazem um público heterossexual, especialmente o de baixo poder aquisitivo, que buscam uma travesti para satisfazer suas fantasias sexuais49. No recorte de entrevista abaixo, percebemos a relação que Juliano de Carvalho possuía com o Enigma, que entre 1999 ao final de 2001 estava em processo de ruína, mas ainda mantinha um ar de ebulição, de efervescência, atraindo para o seu seio os mais variados segmentos da homossexualidade gaúcha.

Eu adorava o Enigma (risadas saudosas). Às vezes eu ia só com o dinheiro da passagem e da entrada e tomava porres lá dentro. Já entrava controlando quem [...] chegava, aquele ali tá bebendo, aquele não, aquele ali que eu vou ficar hoje. Ele tá tomando bastante cerveja. Ele que vai pagar a noite para mim. É isso ai, eu me divertia mesmo lá dentro. [...] fazia tudo que me dava na telha, não tava nem aí. [...] Até metade de 2001 eu fui direto no Enigma. (Juliano de Carvalho, 27 anos, 26/07/2007)


O Fim de Século Club, ou simplesmente FDSC, surgiu em 1987 e fechou suas portas nos primeiros anos deste novo milênio. Uma casa que se representava como algo moderno, futurista, teve seu fim justamente após a entrada do terceiro milênio. Atualmente encontra-se a casa “Neo” em suas antigas dependências. Juliano Carvalho nos cedeu alguns convites desta casa50, no qual percebemos qual a representação que este espaço desejava passar para o seu público e à sociedade como um todo. Em um convite datado de 1997, em alusão ao lançamento da revista GLBT “Homens”, uma edição da revista “Sui Generis”, que existiu durante um trecho dos anos 1990, e que influenciou Patrício Barbosa51 no ato de se assumir como sujeito homossexual em sua adolescência. Neste papel publicitário, há conceitos de “varguarda” para a época, como “Top Drag”, além do termo “DJ residente”. Por fim, está estampado os dois logotipos desta casa, o primeiro de 1987 e o da respectiva festa, datada de 1997. Os acontecimentos do país geram reflexos na sociabilidade GLBT, como pode ser constatado no convite sem data, sendo provavelmente também de 1997 ou 1998, em que se lê “Tudo a partir de 1,99”52, em uma clara alusão as lojas de R$ 1,99, que foram muito comuns no Brasil da segunda metade dos anos 1990 em decorrência da entrada de mercadoria barata oriunda da China. Juliano de Carvalho traça um panorama da casa noturna Fim de Século, no final dos anos 1990, conforme trecho abaixo:

Eu ia quinta, sexta e sábado, era em 97 [...] eu gostava na época. Eu me dava com todo mundo lá dentro. Os fashions, os não fashions. Mas hoje em dia eu vejo que eu era diferente daquela gente que ia para o Fim de Século. Até no estilo de me vestir. Hoje em dia eu vejo. [...] ali era um pessoal que estava soltando a homossexualidade, a maioria brigado com pai, brigado com a mãe, usuários de droga, isso tudo, e eu era, como é que eu te digo, eu era aquele gurizinho que apesar de me soltar bastante lá dentro, fazer festa, ficar com um, ficar com outro, tinha uma vida estabilizada, eu estudava, eu chegava em casa tava o pai, a mãe, a família, não precisava me estressar em procurar trabalho como (a) grande maioria, (que) tava no início da procura por sua vida profissional né. (Juliano Carvalho, 27 anos, 26/07/2007)


Juliano de Carvalho foi um assíduo freqüentador da noite GLBT gaúcha, no final dos anos 1990 e início dos 2000. Nesta época, ele estava saindo da adolescência, isto é, o “auge” de sua vida noturna se deu por volta dos 20 anos de idade. Este é um fenômeno que pudemos notar no Blue Space, especialmente aos domingos, em que os jovens homossexuais, com menos de 25 anos, formavam a grande maioria neste espaço de sociabilidade GLBT. No relato abaixo, nosso entrevistado conta-nos como era a sociabilidade no “Doce Vício”, um bar que também deixou sua marca na história da sociabilidade GLBT porto alegrense, embora tenha tido o mesmo destino do Enigma e do Fim de Século, o encerramento de suas portas. Ele estava sediado na Rua Vieira de Castro, próximo ao Colégio Militar, e ao Parque da Redenção, na capital gaúcha.

O pessoal ficava lá, bebendo, conversando, até; todo mundo se encontrava por volta de umas 09h30min, 10h00min e lá pelas 11h30min, meia noite começava a ir para as boates. Aí o Doce Vício esvaziava [..] Era um barzinho legal assim, divertido, eu ia várias vezes lá. (Juliano Carvalho, 27 anos, 26/07/2007)


Ao término, um convite datado de outubro de 1999, em que há uma clara representação do Fim de Século como um local do futuro. O título desta festa era “Contagem regressiva para o ano 2000”, que estampa o rosto de uma mulher com assessórios futuristas e, do lado esquerdo, de forma vertical, lê-se “Future”53. Observamos que boa parte do glossário da noite GLBT é oriunda dos EUA e da Europa, como “Top Drag”, “Dance Music”, “DJ”, “Dark Room”, “Lounge Bar”, “Fashion”, “go-go boys”, “clubber”, entre outros. Em relação ao sentimento de identificação dos freqüentadores com o Fim de Século, há uma comunidade no site de relacionamentos “Orkut”54 intitulada “Fim de Século 20 anos” que, inclusive, organizou uma festa em homenagem aos 20 anos desta extinta casa noturna, no dia 13 de setembro de 2007. Esta “comunidade” possui 748 membros. O Enigma não possui uma comunidade que agregue seus ex-freqüentadores, talvez porque o nível sócio-econômico dos “modernos” que iam ao Fim de Século fosse, grosso modo, superior aos do que se deslocavam ao Enigma. Aliás, ambos contribuíram, à sua forma, para a construção da história da sociabilidade GLBT na capital dos gaúchos.


    1. Universo GLBT: um olhar histórico para a compreensão da contemporaneidade

O movimento homossexual no pós-guerra e especialmente no pós-Aids pode ser dividido em duas correntes distintas. De um lado os defensores da “teoria queer55” que se são contrários a uma assimilação heteronormativa, isto é, de homossexuais bem comportados que sejam aceitos pela sociedade patriarcal. Defendem eles uma nova postura de vida, cujos homossexuais possam ser quem for, sem as “amarras” de uma normatividade heterossexual (CARRARA; SIMÕES, 2007, p.77). Com o aparecimento da Aids, setores do movimento homossexual mundial adotam uma nova postura, mais voltada ao assimilacionismo dos homossexuais à sociedade. Sobre esta nova postura das lutas GLBT no pós-Aids, afirma Miskolci:



Nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil, a AIDS levou a uma reconfiguração dos grupos, que se pautou pela organização em torno da defesa de direitos civis, a aceitação de certa “essencialização” identitária para esta luta (o famoso “essencialismo estratégico” definido por Gayatri Spivak) e a desvalorização de aspectos “marginais” das vivências gays e lésbicas em benefício de objetivos assimilacionistas. (MISKOLCI, 2007, p.108).
Richard Miskolci (2007, p.118) percebe o “casamento gay”, tão defendido, inclusive com a aceitação legal por parte de alguns países, como uma “privatização” e “despolitização” do movimento GLBT, afirmando que o ideário do “casamento gay”, defendido por setores da homossexualidade, é uma resposta ao aparecimento do “câncer gay”, isto é, a Aids56.
O casamento gay é um bom exemplo do processo citado. Foi diante do pânico sexual gerado pelo HIV que se estabeleceu esse direito com um objetivo político. Os primeiros países a concederem a parceria civil a pessoas do mesmo sexo o fizeram na década de 1980, sob a justificativa de que esse direito incentivaria a constituição de relações estáveis e coibiria o avanço da epidemia da AIDS. Além do enquadramento das relações a um modelo, algo por si só questionável, a parceria civil se tornou o novo alvo daqueles que se opõem à extensão da equidade de direitos a gays e lésbicas. (MISKOLCI, 2007, p. 121)
Para observarmos qual representação que os usuários do site de relacionamentos “Orkut” possuem dos espaços de sociabilidade GLBT, colocamos duas enquêtes. Uma na comunidade “História e Homossexualidade”, que possui um caráter de discussão mais acadêmico e outra na “The Week Internacional”, a oficial desta casa noturna GLBT paulistana. O internauta poderia marcar uma das seis opções disponíveis, sendo que o item “sou homossexual mas não freqüento a noite gay” foi o mais votado na comunidade “História e Homossexualidade”, com 36% dos votos, e o “vou na boate apenas para me divertir” foi o mais votado na “The Week Internacional”, com 49% dos votantes. Na comunidade paulistana, dois itens ganharam destaque “nas boates me sinto aceito com sou” e “gosto da noite GLS como auto-identidade gay”, totalizando 32 % dos votos. Portanto, somando-se aos 49% que dizem ir a The Week “apenas” para se divertirem, temos 81% dos votantes com algum tipo de identificação com este espaço GLBT. Pois acreditamos que a “diversão” também faz parte da sociabilidade e da identidade homossexual. Basta para isso, lembramos da Drag Music, que nada mais é que uma música eletrônica dublada por uma Top Drag que “bate peruca”, isto é, balança a cabeça em sincronia com a música. Na comunidade “História e Homossexualidade” constatamos que nem todos os homossexuais freqüentam a noite GLBT, já que o “sou homossexual mas não freqüento a noite gay” e “a boate GLBT representa pouco na minha vida” somam 44% dos votos. Somado a isso, 10% votaram no “gosto da noite GLS como auto-identidade gay”, ou seja, relacionam diretamente os espaços de sociabilidade GLBT com a identidade homossexual57.

Muitas vezes o estigma da homossexualidade é abrandado pelo consumo, isto é, se você tem poder aquisitivo você é aceito, se você não tem este poder monetário a exclusão é quase certa. Um exemplo claro disso ocorre no Shopping Nova Olaria, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Quando ele era freqüentado por homossexuais das camadas médias, detentores de um “capital cultural” (BOURDIEU, 1994) não havia problemas. Inclusive eles eram bem aceitos, pois davam um ar de modernidade a tal espaço. Todavia, com a divulgação da notícia de que o Nova Olaria era um “shopping gay”, homossexuais mais jovens, em sua maioria periféricos, começaram a freqüentar tal local nos finais de tarde de domingo. O novo público não agradou aos comerciantes locais, muito menos a elite heterossexual que se sentia “chocada” com as atitudes indiscretas dos novos “clientes”. Nas palavras de André de Oliveira, que assinou uma reportagem-denúncia para o Jornal do Nuances:


Como a rapaziada (gay) não consumia muito nos bares por causa dos elevados preços e acabava comprando bebida fora do Centro, a diminuição da clientela foi diretamente relacionada à chegada do novo público, interpretação um tanto duvidosa, sem lastro real. Existia, e existe, sim, preconceito social58.
Em outra edição do Jornal do Nuances, a discussão sobre o preconceito de classe e de gênero pelo Shopping Nova Olaria continua, só que desta vez a matéria é assinada pelo responsável por este grupo, Célio Golin:
As alegações sustentadas pela direção do Centro Comercial, de porte de bebida alcoólica, atos obscenos, mau comportamento, reforma do chafariz, não passam de desculpas esfarrapadas para esconder o preconceito de classe e homofobia. [...] Tanta contradição: nesse local a bichice explícita só é admitida nas telas do cine Guion (os cowboys das montanhas que o digam), ou quando se orienta em direção ao consumo. De outra forma, as portas do shopping estão fechadas59
Fica claro portanto, essa relação consumo-aceitação. Por seu turno, o fenômeno mais interessante são as mudanças geográficas feitas pela direção deste shopping, que retirou os bancos que circundavam o chafariz, como método de “expulsão” dos indesejáveis homossexuais sem poder de consumo. Porém, estes homossexuais não aceitaram pacificamente esta afronta e, em todos finais de tarde de domingo, se reúnem na Avenida Lima e Silva em frente a tal estabelecimento. Como a rua é pública, a direção do Nova Olaria nada pode fazer. Isso é um claro exemplo de demarcação de território e de resistência homossexual60. Juliano de Carvalho, em sua entrevista, nos mostra um pouco das representações que os homossexuais das camadas altas, que freqüentavam o Nova Olaria no passado queriam passar. “Fui e odiei. Aquela gente parecia que tava todo mundo igual, de uniforme, todo mundo com as mesmas caras, atitudes do mesmo jeito, tudo muito igual”. (Juliano de Carvalho, 26/07/2007).

Esta cidadania calcada no consumo gera uma “violência simbólica” perante os indivíduos homossexuais que não podem ou não querem seguir determinado “estilo de vida”. Para Bourdieu (2004) quanto mais nos guiamos pelo “supérfluo, ao não essencial”, mais o estilo de vida se transforma em uma “estilização da vida”. (1994: 87). Esta “estilização de vida” existente especialmente entre as elites econômicas, gera um processo de violência simbólica no restante da comunidade homossexual que, aliado estigma da homossexualidade, leva muitos sujeitos com parcos recursos criarem uma falsa representação de si mesmos. Como fica claro nesta constatação de Cristiano de Menezes, do Cabaret Soft.

[...] é aquele cara que não tem dinheiro, mas ele quer parecer que tem, e ele não quer descer do ônibus na frente (de uma casa noturna GLBT sofisticada). É capaz de ele morar em Canoas, vir de ônibus até o centro, e no centro ele pega um táxi para chegar na porta de táxi. Porque ele tem que manter um estilo, ele compra uma camisa para pagar em 20 vezes, mas ele quer chegar com uma camisa de marca, é uma tribo (quer se sentir integrado a uma “tribo urbana”) [...] Mas eu acho que é uma coisa mais da idade do que da opção sexual (ocorrendo mais com jovens do que com indivíduos de meia idade ou idosos) (Cristiano de Menezes, 58 anos, 05/08/2007)
O corpo desempenha grande papel nas representações acerca da homossexualidade. Atualmente, a representação do homossexual como um sujeito repleto de trejeitos afeminados está caindo por terra, presente em apenas alguns parcos programas de humor. Mesmo programas humorísticos como o “Casseta e Planeta Urgente” da TV Globo, fazem piadas a partir das novas representações do homossexual, isto é, de um sujeito com o peitoral ultra definido, mas mantendo a já comum promiscuidade. O quadro “Vanderlei, da sauna gay”, ilustra perfeitamente esta nova imagem do homossexual. José Carlos Rodrigues (2006) afirma que o corpo é uma forma de “distinção social”. No meio GLBT isso é muito claro. O ideal do corpo perfeito está por toda parte, seja nos go-go boys de algumas casas, como do Cabaret Soft, seja nas Barbies e seus corpos ultra-definidos, seja na travesti siliconada, o corpo é parte importante dos locais de sociabilidade GLBT. Esse elemento vem sendo, inclusive, fator excludente, de “violência simbólica” para quem não possui as curvas perfeitas. Reflete também, um paradoxal ideal de masculinidade, já que as partes do corpo mais “malhadas” são justamente o peito e os braços, como qualquer homem heterossexual61. Não se destacam muito outras partes do corpo como as nádegas, pois a passividade e a afetação não são muito bem vistas dentro do meio GLBT. Peter Fry e Mac Rae (1983) afirmam que o ideal de sexualidade das camadas gays médias da população é a flexibilidade, isto é, com o sujeito homossexual sendo ativo e passivo em uma relação sexual. A relação “bicha-bofe” dos extratos mais populares da sociedade não deixa de existir, mas perde força perante os homossexuais mais bem posicionados financeiramente.

Este ideal de masculinidade vem associado a um preconceito de classe, pois a passividade e afetação sexuais são diretamente associadas às camadas mais pobres da homossexualidade que, muitas vezes, tem que adotar uma postura de afetação como forma de marcar território em suas comunidades de origem, nas periferias. Neste binômio homossexualidade-periferia constata Michelle Vargas, nossa entrevistada que é negra e residente no bairro Mathias Velho, em Canoas, no qual se percebe a rede de solidariedade dos bairros menos favorecidos.

Eu trabalho em uma periferia (enfermeira, em um posto de saúde do Partenon, em Porto Alegre). Então eu noto que tem pessoas que moram em uma casa de 6 metros quadrados, uma peça, e mora todo mundo junto. Mora o pai, a mãe, os irmãos, o rapaz com o companheiro. Eu vejo assim, que pela questão de idade, por exemplo, ele é gay, o companheiro, a família não aceita, expulsa de casa, a outra família abraça e leva para casa. (Michelle Vargas, 32 anos, 11/09/2007, grifo nosso)
A cidade de Canoas não possui um local, uma casa noturna dedicada à comunidade GLBT e, pelo que sabemos, nunca teve. Michelle Vargas, juntamente com sua “esposa”, organizou uma festa GLBT “não-oficial”, isto é, elas não possuem um espaço formal, comercial, de sociabilidade homossexual. Esta festa foi feita em um ginásio no bairro Rio Branco, em Canoas, e reuniu um público bom, composto basicamente de amigos e conhecidos homossexuais. Ela diz ainda, que existem outras festas GLBT “paralelas” em nossa cidade, que ocorrem três vezes por mês, cada qual com um lugar e organizador distinto. Sua mãe, Lurdes Vargas, 58 anos, e que possui uma considerável rede de amigos homossexuais, diz que a Zona Sul abriga festas paralelas desta espécie. Talvez isso ocorra, porque a maioria das casas noturnas GLBT de Porto Alegre encontram-se no centro ou nos bairros centrais da capital gaúcha62.

Luana de York, a partir da frase “o que o amor constrói, uma bicha destrói”63 dita em um “domingão da alegria”, revela mais que bom humor, desvenda a representação que os homossexuais tem de si mesmos. Jodelet (2001) afirma que a representação social é um “conhecimento prático” e que tem relevância na formação da “realidade” de um determinado grupo social. Nesta frase, entende-se que há uma “inveja” aos casais afetivamente estáveis. Todavia, esta frase não deve ser ampliada a todo o segmento homossexual, pois por trás do estigma há indivíduos que amam, que choram, enfim, que são cidadãos como quaisquer outros. Ao explicar esta frase, diz a hostess64 do Blue Space.

É porque na verdade assim, quando, porque o público gay tem esse problema, quando tu arruma um namorado ou uma namorada, eu sempre digo para as pessoas que até um relacionamento se firmar, não sair. Não sair no mundo gay. [...] Por que é verdade, as bixas enquanto não te vêem (amargurada pelo fim do namoro), mesmo que seja pelo gosto de ficar contigo só um dia, ela(s) vão lá, ficam contigo só para destruir um relacionamento. (Luana de York, 32 anos, 14/08/2007)
O Blue Space nasceu como um local lésbico, logo esta representação de um espaço voltado à lesbiandade ainda permeia o imaginário gay gaúcho. A partir de dois personagens, Michelle Vargas e Luana de York percebemos a representação que um segmento do público homossexual possui deste espaço. Perguntada sobre a razão da escolha do Blue Space, no final dos anos 1990, quando ela começou a freqüentar a noite GLBT gaúcha, afirma Michelle, embora ela não esteja comparando o Blue Space com outros locais gays, mas sim heterossexuais.

O Blue Space já era na época um local mais selecionado, mais discreto, e pessoas de nível mais selecionado. Então era um ambiente bom. Até assim, tem outras pessoas que são heteros, que gostam de lá porque é um ambiente que tu tem liberdade, é um local selecionado, ambiente é bom, as pessoas que vão são pessoas bem arrumadas, bem vestidas. Não é aquele local que tu chega, vem beber, vem te incomodar, vão brigar, lá não. Pelo menos eu vou lá faz uns 10 anos nunca presenciei problemas assim. Não é como em outros ambientes, ambientes hetero como a gente fala, sempre dá briga no final. (Michelle Vargas, 32 anos, 11/09/2007)


Por outro lado, a Top Drag do Blue Space comenta sobre suas antigas representações acerca deste espaço de sociabilidade GLBT:

[...] o Blue Space tinha, hoje nem tanto, uma imagem de casa só para machorra. E eu odiava show. Vou lá ver show de viado no palco vestido de mulher, e vou lá numa casa que só tem machorra, não. Eu ia em casa onde o público masculino imperava, era maior [...] Quando passou o tempo, o Blue Space começou a abrir aos domingos (e) eu comecei a vim. E comecei a freqüentar e comecei a gostar, porque eu vi que não era mais aquilo e eu comecei a me montar, eu já vinha montada. Eu freqüentei muito pouco o Blue Space desmontado. (Luana de York, 32 anos, 14/08/2007)


Giddens (2002) afirma que na “alta modernidade” ou “modernidade tardia” o “eu”, a “auto-identidade” não é algo latente ao indivíduo, sendo “construída reflexivamente”, uma vez que, o sujeito possui um conjunto enorme de possibilidades para criar seu “estilo de vida”. Isso ocorre, segundo Giddens, especialmente entre as camadas economicamente favorecidas da população, embora os sujeitos com menos recursos monetários tenham a liberdade de adotar uma “estilo de vida” contrário ao consumismo, por exemplo. Bourdieu (1994), por sua vez, destaca que os valores dos grupos detentores dos capitais “cultural” e “econômico” que são praticamente impostos às camadas menos favorecidas da sociedade e geram uma “violência simbólica”, isto é, não física, sobre as mesmas. Hall (2001), baseando-se nas idéias de Lacan, chega a uma conclusão semelhante a de Giddens, ao mencionar que “a identidade” é “formada” “ao longo do tempo”, isto é, desde o nascimento a identidade individual vai se modificando e se adaptando às circunstâncias da vida. No que tange à identidade de grupo, afirma Hall:

Cada movimento apela para a identidade social de seus sustentadores. Assim, o feminismo apelava às mulheres, a política sexual aos gays e lésbicas, as lutas raciais aos negros, o movimento antibelicista aos pacifistas, e assim por diante. Isso constitui o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como a política de identidade – uma identidade para cada movimento. (2001, p. 45).


O historiador James Green mostra-nos que mesmo os espaços de sociabilidade GLBT mais “marginais”, tais como os parques e praças para “trocas homoeróticas”, tiveram sua função social, uma vez que, serviram para muitos homossexuais criassem uma “rede de amigos”, bem como desenvolvessem estratégias para ludibriar o estigma da homossexualidade.

Esses espaços sociais públicos foram essenciais para o desenvolvimento de múltiplas formas de sociabilidade erótica entre pessoas do mesmo sexo ao longo de todo o século XX. Muito embora a função mais óbvia desses locais tenha sido facilitar a interação de homens que buscavam parceiros sexuais, eles serviram também a uma variedade de outros propósitos. Durante o século XX, os bancos de praças no Vale do Anhangabaú e na Cinelândia, alguns trechos das praias de Copacabana e Ipanema, os concursos de Miss Brasil, as audições na Rádio Nacional, diversos cinemas cariocas e paulistas e as celebrações do carnaval ofereceram inúmeras oportunidades para que os homens encontrassem outros homens, não apenas para sexo, mas para construir redes de amigos e conhecidos. (GREEN, 2000, p. 453).


Magnani (1984) utiliza o conceito de “pedaço” ao se referir as sociabilidades de determinados grupos periféricos da capital paulista. Sendo que não basta apenas “morar perto” ou “freqüentar” tais espaços de lazer para se inserir ao “pedaço”, o sujeito deve participar de uma “particular rede de relações”. O “pedaço” pode ser aplicado aos espaços de sociabilidade GLBT gaúchos. Não é tão simples se integrar ao “pedaço” homossexual. Há códigos abertos e fechados para que tal sociabilidade ocorra, um deles, conforme foi dito anteriormente, é o corpo, percebido, segundo Rodrigues (2006), como forma de “distinção social”. Além disso, há sujeitos que deixam de freqüentar a noite gay e, portanto, deixam de pertencer ao “pedaço” GLBT. Juliano Carvalho, 27 anos, negro, e morador da periferia de Alvorada, relata o motivo de sua incursão a um “pedaço” homossexual.

Eu tive que conhecer por mim mesmo. Pai e mãe não vai levar para uma discoteca para ti conhecer, ou apresentar para o filho da vizinha, “ai que bonitinho o meu moço”, quer casar. Então eu tive que ir sozinho na cara dura para conhecer, então por isso que eu sempre fui individualista, sempre fui eu e não quis saber das modas ditadas pelos outros. (Juliano Carvalho, 27 anos, 26/07/2007)


7 CONCLUSÃO

Este trabalho versou sobre a relação entre identidade homossexual e espaços de sociabilidade GLBT. Nosso local primaz de análise foi o Blue Space, localizado no centro da capital gaúcha e que surgiu no final de 1983. Antes de abrigar esta casa noturna, lá existia o Number One, igualmente um lugar de sociabilidade homossexual masculino, que carimbou sua existência na segunda metade dos anos 1970. Para fins de análise, observamos também, em menor escala, logicamente, o Cabaret Soft localizado na área central de Porto Alegre. Somadas às observações participantes, entrevistamos seis indivíduos: três diretamente relacionados aos tais espaços de sociabilidade GLBT (proprietário e ou funcionário) e os demais são freqüentadores e oriundos das periferias da grande Porto Alegre. Nossa intenção não era mostrar um quadro de brilhantes tintas fúscia, mas sim retratar a sociabilidade por um viés analítico, onde procuramos a maior imparcialidade possível. Obviamente, que esta monografia tem uma clara característica de “militância acadêmica”, isto é, a diminuição do estigma e do preconceito acerca da homossexualidade a partir do poder das idéias e da visibilização que propõe a ruptura com as representações do senso comum.. A condição de sujeito que compartilha o tema abordado exigiu um esforço dobrado sobre o comprometimento com a base teórica que sustenta as análises propostas.

Para a realização desta monografia, utilizamo-nos dos mais variados recursos metodológicos, entre eles a observação participante, isto é, a ida a campo. Nossas visitas a tais espaços de sociabilidade GLBT foram feitas durante o mês de julho e agosto, auge do inverno gaúcho. O ano de 2007, de pesquisa e escrita deste trabalho, teve um dos invernos mais “cruéis”, em um ponto de vista pessoal, dos últimos anos. Por outro lado, o rigor do inverno certamente não nos deu a devida ilustração da cena gay gaúcha. Pois, nos períodos mais quentes do ano, o grande baluarte da sociabilidade GLBT, o corpo, entra no rol dos protagonistas da noite homossexual porto alegrense.

A partir das práticas sociais entre indivíduos homossexuais buscamos dar um sentido de construção histórica a este fenômeno que, inexoravelmente, é um fenômeno histórico, haja vista que a sociabilidade e as representações homossexuais não são algo estanque, que não sofrerão alterações ao longo dos anos. Portanto, as vivências e representações homossexuais são reflexos de seu tempo histórico e, além disso, são agentes de sua própria história, mesmo que ainda permeada pelo estigma social da homossexualidade.

A identidade na modernidade tardia não é unificada. Os indivíduos homossexuais não são unificados em torno de um mesmo ideal. Cada subgrupo homossexual procura contornar dar da melhor maneira possível o estigma da homossexualidade. Por ventura o movimento de defesa aos direitos homossexuais tenha sido de extrema relevância para a sociedade como um todo, ele é dividido, pois cada qual defende um mundo a sua maneira. Um belo exemplo disso são os dois principais grupos GLBT de Porto Alegre, em que o Nuances adota uma postura “queer” e o Somos uma postura mais branda, mais “essencialista”, ou seja, um defende uma homossexualidade mais “marginal”, mais “livre”, menos “normativa” e o outro procura inserir o homossexual na sociedade, a partir do casal de “comercial de margarina” gay. Além disso, há uma disputa velada entre um ideal “queer” mais popular, mais “basfond” e uma aceitação de “classe média” 65, conforme Miskolci (2007) e Carrara e Simões (2007).

Passado esta discussão sobre o duelo entre “Teoria Queer” versus “essencialismo”, acreditamos que o ideal seja o equilíbrio, isto é, se o indivíduo homossexual deseja se “casar”, ele deve sim ter todo o apoio necessário do Estado, como qualquer cidadão. Por outro lado, a “marginalização” homossexual, o “basfond” GLBT também possui o seu valor e faz parte da construção sócio-histórica da identidade homossexual. Um exemplo disso é o “dark room”, que é vítima de “pedras moralistas”, embora ele esteja presente nas casas noturnas mais sofisticadas de Porto Alegre, do país e quiçá, do mundo. Este espaço existe somente por que há quem o utilize. Ou como diz Michelle de Vargas em relação as travestis “Tem o produto porque tem quem o consuma”. (Michelle Vargas, 32 anos, 11/09/2007).

Como ponto e vírgula desta monografia, já que o ponto final é algo restritivo, não incentivador da criatividade, concluímos que a identidade homossexual, em termos de indivíduos ou de cidadãos homossexuais está, sim, relacionada aos seus espaços de sociabilidade. Por ventura haja um número significativo de homossexuais que não vão a tais espaços de sociabilidade GLBT e outros tantos que o freqüentam esporadicamente, de uma forma ou de outra, ele e seus personagens permeiam a identidade e a representação acerca das homossexualidades. Mesmo se um homossexual adotar uma postura crítica perante tal espaço, ele está se posicionando e, logo, este lugar tem algum significado em sua vida. Como ficou constatado na enquête da comunidade “The Week Internacional”, do “Orkut”, a maioria dos votantes afirmaram irem a uma casa noturna GLBT “apenas” para se divertirem. Se fosse “apenas” para isso, então porque não se divertir em um local heterossexual? Porque enfrentar o estigma da homossexualidade e se direcionar a tais espaços de sociabilidade? São perguntas que foram discutidas nesta monografia, entretanto esperamos que as discussões não cessem por aqui, pois a homossexualidade é uma área que possui um grande potencial de pesquisa, especialmente na área histórica, James Green que o diga, um norte-americano escrevendo a história da homossexualidade de nosso país. Lembramos ainda, a historicidade de tal fenômeno, os locais destinados à sociabilidade homossexual, que ganharam força no Brasil após 1972, Green (2000). Somado ao “pink money”, que também é reflexo de nosso período histórico e consegue gerar uma situação dicotômica, pois ao mesmo tempo que gera cidadania e inclusão da homossexualidade, detentora de capital “econômico” e “cultural” na sociedade, empurra uma gama enorme de homossexuais, sem os supra citados capitais, à marginalidade social, como ficou claro no Shopping Nova Olaria, cujos homossexuais jovens e periféricos foram simplesmente “expulsos” de um determinado local, pelo fato de não consumirem, de não serem detentores do “pink money”. Por fim, a as atuais representações do homossexual como um indivíduo bem sucedido financeiramente e com um corpo invejável, gera um processo de confronto interno dentro da comunidade homossexual, no qual a elite gay, por meio da “violência simbólica” (BOURDIEU, 1994), acentua o processo de estigmatização (GOFFMAN, 1988) de milhares de homossexuais que não se enquadram no “ideal gay” divulgado pela indústria do “pink money”.

REFERÊNCIAS

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