Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares



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Encontro24.07.2016
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Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares

 

Numa atitude de vanguarda e com a missão de proporcionar um novo enfoque e condução da temática do negro no país, a ONG Afrobras – Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sócio Cultural, através do Instituto Afro-Brasileiro de Ensino Superior, coloca em operação no próximo ano, em São Paulo, a Faculdade de Administração Zumbi dos Palmares, primeira fase do Projeto Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares.

 

A Zumbi dos Palmares é a primeira faculdade do Brasil e, com este perfil, uma das poucas no mundo, que visa à inclusão de pessoas menos favorecidas economicamente no ensino superior do país. É uma proposta inédita e consistente para minimizar a questão da dificuldade de inclusão das classes menos favorecidas no ensino superior.



 

Autorizada a funcionar pelo MEC - Ministério da Educação e com vestibular marcado para 14 de dezembro próximo, a Zumbi dos Palmares pretende consolidar o acesso e a permanência da população negra no ensino superior, com total subsídio das iniciativas pública e privada, mediante parcerias, assim como, viabilizar a integração de negros e não-negros em ambiente favorável à discussão da diversidade racial, no contexto da realidade nacional e internacional.

 

DIFERENCIAL DA FACULDADE

O grande diferencial da Zumbi dos Palmares é a constituição de uma faculdade de excelência, com formação humanística do Administrador - Administração será o primeiro curso da faculdade - distanciando-se da visão meramente tecnocrática. Além disso, a Faculdade oferecerá apoio ao estudante em diversas áreas. Terá um Laboratório de reforço extracurricular nas matérias: Português, matemática, inglês e informática; um Centro de Apoio Pessoal com Psicólogo, assistente social, orientador educacional e orientador profissional.

 

No currículo, outro diferencial – a transversalidade, com a centralização de foco nas matérias básicas, como por exemplo, nas matérias Comunicação e Expressão, serão tratadas a Língua e a Cultura. Na Sociologia, a relação racial e não só de classe; no Direito, a Justiça e Igualdade e na Filosofia, a Ética, a Isonomia e a Equidade.



 

O aluno da Faculdade Zumbi dos Palmares também terá a oportunidade de um treinamento prático através dos intercâmbios internacionais firmados entre a Faculdade e outras instituições; cursos de Extensão Strito e Latu Sensu; cursos de Capacitação e Qualificação pessoal e na Feira de Negócios Expo Afro-brasileira, realizada pela Multilink em parceria com a Faculdade.

Outro diferencial para o aluno é a fonte de garantia mínima de empregabilidade, uma vez que a Afrobras já conta com uma Agência de Emprego Modelo, a Afro Work; está montando uma Cooperativa de Trabalho e firmou diversos convênios para trainees e estágios com as iniciativas pública e privada.

 

Dentre os convênios Internacionais, destaca-se a Fundação Coca-Cola (Atlanta, EUA). Outra parceria de peso, com a finalidade de promover o intercâmbio de capacitação e qualificação de professores e alunos é com o Consórcio de Mississipi para o Desenvolvimento Internacional, que reúne quatro universidades negras norte-americanas e, no Brasil, além da Zumbi dos Palmares, engloba a Unesp – Universidade Estadual Paulista e a Uneb – Universidade Estadual da Bahia.



 

No Brasil, um convênio inédito com a Associação Cultural Alumni pretende proporcionar um upgrade na formação dos alunos. Reconhecido como um dos mais conceituados e renomados cursos de inglês do mundo, os alunos contarão com aula de inglês desde o primeiro ano na própria faculdade, adequada ao projeto pedagógico, com a metodologia e a qualidade Alumni.

 

COMO FUNCIONARÁ

As inscrições para o processo seletivo estão abertas desde 1º de novembro, e será classificatório. O valor da inscrição é de R$ 20,00 (vinte reais), incluindo o manual do candidato. O acesso é universal, entretanto, dados à ação preferencial aos negros, estarão garantidos até 50% das vagas para estes, para cada habilitação. O critério será o de autodeclaração, lista paralela com nota de corte, cumprimento de requisitos gerais, mais vocacionalidade, investigação social por meio de entrevista e o grau de consciência temática, além de responsabilidade e obrigatoriedade de prestação de serviço à comunidade.

 

A Zumbi dos Palmares começará a funcionar com um curso piloto de Administração, com duas habilitações, embora tenha autorização do MEC para quatro. As habilitações são: Administração Geral e Administração Financeira, somando 120 vagas noturnas, ou seja, 60 por habilitação.



 

O custo da mensalidade é de um Salário Mínimo (R$ 240,00). O formato operacional é o pool de parcerias públicas e privadas. A Faculdade tem caráter comunitário e, por conseguinte, não tem fins lucrativos. Por conta disso, as mensalidades estarão abaixo daquelas que as instituições congêneres praticam e poderão ter diminuição em função da efetivação de parcerias governamentais e empresariais.

 

A meta da Faculdade é despertar nos alunos a consciência do direito à vida em sua plenitude. Para tal não importa a cor ou a raça, vale o ser humano. Nesta direção, a Faculdade Zumbi dos Palmares tratará abertamente, através de projetos e do elenco das disciplinas da grade curricular, a cidadania, a ética, os direitos e deveres do homem brasileiro. “Abordaremos não somente a história social do brasileiro, mas também os reflexos da pobreza e de suas causas que incidem sobre toda a população; privilegiaremos sim o homem negro enquanto marcado historicamente por este percurso sustentado por um modelo de exclusão político-social”, afirma o professor Jarbas Nascimento, diretor da faculdade.



 

Desenvolvido ao longo de quatro anos, primeiramente em parceria com o Núcleo de Políticas e Estratégias da Universidade de São Paulo e Universidade Metodista de Piracicaba, a Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares nasceu como um dos vários projetos que engloba o macro Projeto Pererê-Pererê desenvolvidos pela Afrobras com a finalidade de valorizar, qualificar, capacitar, formar, informar e dar visibilidade ao negro paulista e brasileiro. O subprojeto “Mais Negros Nas Universidades”, por exemplo, que promove o ingresso de jovens negros em universidades privadas conta com quase 300 bolsistas em universidades privadas da capital e interior de São Paulo.

 

Na atualidade, juntam-se ao projeto os mais diferentes parceiros, somando mais de dez instituições privadas de Ensino Superior do Estado de São Paulo que, juntos, garantirão a excelência e o corpo técnico e acadêmico da Faculdade.



 

“A formação da sociedade brasileira não pode continuar excluindo a maior parcela de sua população e nem condenando os afrodescendentes brasileiros a ficar pelo caminho, fora das universidades e, por conseqüência, longe dos melhores postos de trabalho”, observa José Vicente, Presidente da Afrobras.

 

“É imprescindível trabalhar no sentido de fomentar a formação profissional da comunidade negra, reduzir a desigualdade e a exclusão e multiplicar esses esforços no sentido de se espalhar liberdade e educação por todos os lugares deste País”, afirma o Vicente.



SÃO PAULO, 14 DE DEZEMBRO DE 2003

Reitor pretende aumentar vagas no ano que vem*
INGRID GRIEBEL

O advogado e sociólogo José Vicente, de 44 anos, é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, a primeira voltada para negros da América Latina. Lá, a mensalidade será de R$ 240. A faculdade é trabalho da Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sociocultural (Afrobras), criada por 12 ex-alunos do curso sociologia. O grupo estava indignado com o número de jovens negros no ensino superior. Hoje, apenas 2,2% dos alunos das universidades públicas são negros. Na Universidade de São Paulo (USP), o índice é de 1,3%.



DIÁRIO — O senhor enfrentou muitas dificuldades quando decidiu prosseguir os estudos?

José Vicente — A minha trajetória é a mesma de muitos outros jovens negros. Eu costumo brincar que somos todos filhos de lavadeira. Paguei pelos dois cursos. Quando fiz Direito, dos 120 alunos, apenas dois eram negros. Passei a me interessar pela questão da exclusão no Brasil e decidi estudar sociologia.

Como surgiu a Afrobras?

Tudo começou na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Éramos apenas 12 negros em meio a 200 alunos. Usávamos a sociologia para debater a exclusão do negro. No final do curso, decidimos formar uma entidade que se preocupasse com a educação do negro. O primeiro passo foi a criação de um curso pré-vestibular.



O curso pré-vestibular para negros ainda existe?

Não. Funciona hoje num outro contexto. Percebemos que havia um problema muito sério. Os alunos tinham uma trajetória educacional tão acidentada que nem se passassem dez anos no cursinho conseguiriam conquistar uma vaga na USP. E quando passavam no vestibular, só ingressavam na universidade privada, muito cara.



Como a Afrobras conseguiu quebrar o círculo vicioso?

Batemos na porta das Universidades privadas para pedir bolsas. Criamos, então, o projeto “Mais Negros nas Universidades”, que funciona até hoje. Os candidatos precisam se inscrever no projeto, passar no vestibular e participar de uma seleção. Em troca, os bolsistas prestam serviços à comunidade nos fins de semana.



Qual é o objetivo da Faculdade Zumbi dos Palmares?

O objetivo não é só preparar o técnico, mas preparar um técnico cidadão. Não é uma linha de produção. Hoje, podemos operar com 400 vagas anuais de Administração. Este ano, foram 100 e, no próximo ano, serão 200. Teremos outros cursos que dependerão da aprovação do MEC (Ministério da Educação).


* Entrevista publicada no jornal Diário de São Paulo
ARTIGO DR. VICENTE
O DILEMA DA NAÇÃO
No dia 21 de Março de 1967, em Shaperville, África do Sul, dezenas de Negros Africanos foram barbaramente assassinados pela polícia do regime do Apartheird porque se rebelaram contra a injustiça, pelo direito à vida, à liberdade e a igualdade de direitos em seu próprio país, construído com o sangue e suor de seus antepassados e pilhado pelo colonialismo Inglês.

Da segregação dos guetos aos fuzilamentos oficiais, dos seqüestros e mercância dos corpos, às chibatas, enforcamento e fogueiras em praça pública ao longo da história, essa trágica epopéia, negação dos mais comezinhos princípios de valores humanos, sempre representou um fardo pesado demais para ser carregado e importante demais para permanecer ignorado.

Compreendido que nenhum ente político é legítimo a supressão dos direitos indisponíveis do ser humano, menos ainda, fundamentado na intolerância e desrespeito às diferenças raciais, esse dia, a Comunidade Internacional de Países, em louvação aos valores éticos e morais do respeito à pessoa humana, elegeu como o Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial.

No Brasil, a despeito do discurso oficial em contrário que justifica a distância e a invisibilidade social na tese da discriminação social, a prática do racismo contra os negros, que sempre constituiu uma teia complexa, de difícil análise e compreensão, ganhou nos últimos tempos um aliado incontestável e surpreendentemente revelador: os dados de pesquisas isentas e bem conduzidas. Somados à porção mais perceptível aos sentidos, com predominância para o visual, esses esforços de estudiosos e técnicos abnegados e a pressão dos organismos internos e externos confluíram para colocar por inteiro e, confirmar à exaustão, o que sempre se soube informalmente: No Brasil, o Segundo maior contingente de negros ou Afrodescendentes do Planeta, a discriminação pelo racismo atinge níveis estratosféricos.

Segundo o IBGE, os negros representam 45% dos brasileiros. O IPEA noticia que nos últimos 10 anos – oito de social democracia – a distância social do negro em relação aos brancos aumentou. O DIEESE comunica que para trabalho igual, o negro recebe até 50% menos que os trabalhadores brancos e o Ministério da Educação aponta que dos quase 800 mil Universitários nas Instituições Públicas, os negros respondem por tão somente 2,2% do contingente.

Acresça-se a esses, alguns dados factuais, tais como a invisibilidade do negro nos primeiros, segundo e terceiro escalões dos Ministérios, Estatais, Secretarias Estaduais e Municipais, no Congresso, Suprema Corte, Tribunais Superiores, Magistratura e Ministério Público Federal e Estadual, Exercito, Magistério, nas hostes religiosas, nas diversas mídias, etc. No Estado de São Paulo e na Cidade de São Paulo nada é diferente.

Como se pode ver à sociedade, os números são latentes. Oitenta milhões de pessoas encontram-se fora dos equipamentos e instrumentos sociais, fato demonstrativo de que nossa geração também falhou na resolução dessa chaga estrutural da sociedade brasileira. Do racismo cordial à integração racial; do Milagre Brasileiro ao Neoliberalismo, prevalece a certeza de sempre, de que o mais intrincado e decisivo dilema da nação continua intocável: o negro brasileiro continua onde sempre esteve, no porão, separado e desigual.

Dessa realidade decorre a constatação da ilicitude de repassarmos intacta para nossas futuras gerações essa verdadeira bomba de nêutrons. Se a vocação do Brasil é de conviver em lugar de destaque no concerto das nações, esse objetivo em sua plenitude importa, antes de tudo, na obrigação moral e ética da integração no gozo e usufruto dos bens, riquezas e oportunidades nacionais de todos filhos da pátria, pois, não se conhece na história de todos os tempos, o alcance da paz e felicidade geral numa nação cindida.



O dilema da nação não poderá ser a vontade sincera, a coragem honesta e o desejo legitimo da grande maioria da sociedade brasileira de empunhada na lutas de combate ao racismo e discriminação racial, preparar para o futuro, uma nação pacificada, de glória, orgulho e felicidade para todos os brasileiros. A isso juntamos nossa voz e nossa esperança, elevando nossas orações e pensamentos à memória dos mártires sul africanos de 21 de Março de 1967 e, por conseguinte, a todas as vítimas do racismo e da discriminação racial, neste Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial.

Dr. José Vicente - Presidente da ONG – Afrobras - Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sócio-Cultural


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