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FACULDADE DE LETRAS

UNIVERSIDADE DO PORTO






MÁRIO CARLOS SOUSA GONÇALVES

2º Ciclo de Estudos em Arqueologia



O PÃO NA REGIÃO DO LIMA:

Estruturas e sistemas primordiais – das origens à Idade Média

Ano

2013


Orientador: Carlos Alberto Brochado de Almeida

Classificação: Ciclo de estudos:

Dissertação/relatório/Projeto/IPP:

Versão definitiva



Aos meus pais pelo inabalável apoio

Ao meu saudoso amigo João Antunes

E por fim ao meu Padrinho, falecido nos últimos dias…


Agradecimentos
O presente trabalho não seria possível sem o apoio, ajuda e compreensão de um conjunto de pessoas, pelo que é justo elenca-las aqui. Ao Prof. Doutor Brochado de Almeida pela amizade de largos anos, pela paciência que tem para comigo, pelas viagens que fizemos à região e pela sábia orientação deste árduo trabalho e partilha de opiniões e fotografias. À Doutora Marta Miranda Marques, pela ajuda que me deu nas visitas de campo e nas correções deste trabalho. À Dr.ª. Sofia Alves Soares pelo enorme auxílio que me deu na elaboração do abstrat. Ao meu fiel amigo Dr. João Soares pela troca de impressões sobre Santa Maria de Geraz do Lima e pelos dados que me facultou sobre o cereal na Época Moderna. Ao Dr. Luís Sousa não só por me ter feito os mapas que lhe pedi mas também pela sua amizade e disponibilidade. Ao Mestre João Araújo pelos livros que me emprestou e pela troca de opiniões. Ao Prof. Doutor Armando Nogueira pelo enorme apoio e incentivo que me deu. Ao Prof. Doutor Rui Morais que não conheço pessoalmente mas que teve a amabilidade de me facultar um artigo extremamente importante. Às câmaras municipais de Viana do Castelo, de Ponte de Lima, de Ponte da Barca e de Arcos de Valdevez pela colaboração, assim como aos serviços da secretaria da Faculdade de Letras pela sua permanente prontidão em solucionar os problemas e as dúvidas burocráticas. Ao Arquivo Hidrográfico do Porto. Por fim, porque nunca os esqueço, a todos os que foram meus alunos pois muito aprendi com eles, e aos meus queridos pais que me acompanham desde o dia em nasci. Sem o apoio deles nunca teria pois chegado aqui.

RESUMO
O presente trabalho centra-se na região do Lima e propõem-se à luz do conhecimento produzido pela Arqueologia analisar e caracterizar a evolução do pão e das estruturas a ele associado. Nesse sentido, recua-se aos meados do V milénio a.C., época em que se inicia por aqui o cultivo dos cereais. Com o avançar do tempo, à medida que as comunidades agrícolas se tornam mais efectivas, começa a surgir no registo arqueoetnográfico da região certas estruturas que têm como finalidade armazenar, moer e cozer o cereal. Este cultivado no campo, armazenado e moído em estruturas apropriadas, as quais variam e evoluem ao longo do tempo, era depois cozido à lareira ou no interior de fornos, sendo que estes se começam a documentar por aqui a partir do câmbio da Era. O produto final resultante da cozedura é o pão o qual variou também ao longo do tempo na forma e no estilo. É possível que no início o mesmo tenha sido consumido ainda no estado cru, contudo com o avançar do tempo assumiu formas sólidas e líquidas, as quais chegaram até aos dias de hoje.

Palavras-Chave: Lima/ Agricultura/ Cereais/ Água/ Moagem/ Armazenamento e Secagem/ Pão
ABSTRACT
The focus of this study is centered on the Lima region and it aims to offer, in the light of the knowledge produced by Archaeology, an analysis and characterization of the evolution of the production of bread and the structures associated with it. In order to achieve this, we need to recede to the mid-fifth millennium BC, at which time the cultivation of cereals was introduced in this region. As farming communities became more effective, certain archeological remains and ethnographical traces begin to emerge in the region such as certain structures intended for storing, grinding and baking cereal. Cereal was grown in the fields, stored and milled into appropriate structures, which varied and evolved over time, and then was baked in fireplaces or in furnaces. These types of structures can be documented here and dated from the beginning of the Era. The resulting end product after baking the cereal is bread, which also varied over time in form and style. It is possible that at the beginning it was still consumed in raw state, however with time it assumed solid and liquid forms, as we know them today.

Key-Words: Lima/ Agriculture/ Cereals/ Water/ Milling/ storing and drying
ÍNDICE


Resumo ----------------------------------------------------------------------------------

5

Abstrat -----------------------------------------------------------------------------------

5

Introdução ------------------------------------------------------------------------------

7

Das Origens da Agricultura na Região do Lima -----------------------------------

9

Da Importância da Água na Região do Lima e do seu Aproveitamento -------

23

Sistemas Tradicionais de Secagem, Armazenamento e Conservação de Cerais na Região do Lima: origens, evolução e caracterização -----------------

44


Sistemas Tradicionais de Moagem na Região do Lima: origens, evolução e caracterização --------------------------------------------------------------------------

61


O Pão na Região do Lima: origens e evolução ------------------------------------

90

Conclusões Finais ---------------------------------------------------------------------

118

Bibliografia -----------------------------------------------------------------------------

124

Fontes Históricas (manuscritas ou impressas) -------------------------------------

131


INTRODUÇÃO

O presente trabalho, que agora se trás a lume, centrou-se fundamentalmente no estudo da região do Lima e a partir dela procurou, à luz das evidências arqueológicas, analisar e caracterizar a evolução do pão e das estruturas que lhe andam normalmente associadas, designadamente moinhos, estruturas de secagem e armazenamento de cereais, assim como as suas estruturas e as suas formas de cozedura. Trata-se, no essencial, de um trabalho que se afasta dos demais, que por norma seguem mais ou menos a traça delineada há muito por Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, pelo que o mesmo se apresenta como inovador. No essencial, aquilo que se procura mais não é que o projetar de um novo olhar sobre um tema que se encontra muito bem documentado e estudado quer pela Etnografia quer pela Arqueologia. Assim, o que se propõe é uma nova forma de abordagem à temática, fornecendo-lhe, tanto quanto possível, uma visão de conjunto e um quadro evolutivo marcado por inovações, ruturas e continuidades. Desta forma, o âmbito cronológico inicia-se por altura dos primeiros indícios da prática agrícola na região e o mesmo encerra-se na Idade Média, sem no entanto deixarmos de resgatar épocas mais recentes, as quais evidenciam a substituição dos sistemas primordiais por aqueles que chegaram até nós.

A forma de abordagem, a natureza e o âmbito cronológico do tema, tal como a multiplicidade de assuntos que lhe andam associados levou-nos a optar por uma estrutura muito simples. No essencial, dividimos pois o presente trabalho em cinco capítulos. No primeiro procurou-se essencialmente dar enfoque aos primórdios da agricultura na região pois foi aí que tudo começou. A nosso ver não fazia qualquer sentido abordar o tema de ponto de vista evolutivo sem traçar pelo menos as características e os indícios mais elementares da introdução da agricultura na região, indícios esses que são visíveis primeiramente ao nível do sítio e depois, com o desenvolvimento da mesma, na própria paisagem. Foi o que fizemos, de forma sucinta e limitada no tempo, essencialmente até aos alvores da Idade Média, pois ir mais além significava fazer a história da própria agricultura, o que não era de forma alguma a nossa intenção. No segundo capítulo procurou-se dar uma atenção especial ao papel da água nas atividades agrícolas e nas indústrias tradicionais de moagem. No geral, este capítulo, que à primeira vista se poderá considerar desnecessário, faz quanto a nós sentido. Por um lado porque a região é fértil em água e por outro porque a mesma é há muito aplicada na agricultura, sobretudo na rega e na moagem de cereais como o maís e os milhos-miúdos. Quanto ao terceiro e quarto capítulos, o que neles se procura é essencialmente analisar e caracterizar a evolução dos diferentes sistemas e estruturas de moagem e armazenamento, os quais variam no tempo. Por último, a respeito ainda da estrutura deste trabalho, duas considerações mais. A primeira diz respeito ao quinto capítulo. Através dele procurou-se traçar, tanto quanto possível, um quadro evolutivo do cereal e do pão, aqui do ponto de vista histórico e arqueológico, pois os mesmos não são indiferentes. Assim, num primeiro momento deu-se particular importância ao aparecimento do pão, às suas formas e ao seu conceito. Num segundo procurou-se para a região em estudo identificar os cereais aí cultivados, os quais grosso modo nos rementem para o tipo de pão que se consumia. Num terceiro, debruçamo-nos sobre a caracterização e a evolução que o pão teve na região. Por fim, a conclusão. Na elaboração deste trabalho optou-se pela criação de capítulos independentes, os quais lidos de forma isolada não fornecem de forma alguma uma visão de conjunto. Tal fizemo-lo de forma consciente, pois remetemos para as conclusões finais a visão de conjunto do mesmo.

Por fim, uma palavra a respeito da extensa bibliografia. A seleção da bibliografia consultada por nós obedeceu no essencial a três critérios. Em primeiro procuramos, tanto quanto possível, os estudos de foro arqueológico que se debruçam sobre a região. Em segundo, procuramos socorrer-nos de certas obras consideradas por nós essenciais para a compreensão global do tema. É aqui por exemplo que podemos incluir as obras sobre moagens e armazenamento de produtos agrícolas, assim como todas aquelas que se debruçam sobre a história da alimentação. Por fim, o conjunto numeroso de obras estrangeiras. Aqui torna-se evidente que poderíamos prescindir de muito delas, contudo não só optamos por cita-las no texto como também por inseri-las na lista final por serem, na maioria dos casos, recentes. O nosso intuito aqui foi dar a conhecer um conjunto de obras recentes e que não se encontram à venda em Portugal.

I - DAS ORIGENS DA AGRICULTURA NA REGIÃO DO LIMA
Abordar o sempre difícil e problemático tema da origem do cultivo dos cereais implica por sua vez que se fale nos primórdios da agricultura, pois que o primeiro atua em muitos casos como causa e efeito sobre o segundo1. Este tema, tão caro à Arqueologia, à Botânica, à Biologia e à Agronomia, entre outras ciências, tem despertado a nível mundial o interesse e a paixão de inúmeros especialistas, nomeadamente de Gordon Childe, Binford, Braidwood, Flannery, Hole, Vavilov, Zohary, Rindos, Zeder, entre outros. Assim, no século passado a comunidade científica viu multiplicarem-se um sem número de estudos e teorias, que mais ou menos elaboradas e fundamentadas pretendiam explicar, criando muitas vezes modelos considerados sistémicos, as origens da agricultura no mundo e por arrastamento as origens do cultivo dos cereais.

Uma das teorias mais conhecidas no seio da comunidade científica foi a "Teoria de Oásis", preconizada e desenvolvida por Gordon Childe nos anos 50 do século passado. Segundo este investigador, no final do Plistoceno ocorreram importantes transformações climáticas que entre outros aspetos passaram pela redução dos índices de pluviosidade e pelo aumento da temperatura, o que se traduziu na expansão das áreas desérticas e no declínio das áreas florestais. Assim, homens, plantas e animais tiveram de procurar novos habitats, tendo sido então escolhidas as áreas que circundavam as margens dos lagos e dos rios, as únicas férteis e abundantes em alimento. Com tudo isto, o homem, as plantas e os animais passaram a partilhar espaços cada vez mais pequenos, que sendo comuns a todos eles facultaram o desenvolvimento de novas relações entre si. É assim, que segundo Childe, tendo como pano de fundo as alterações climáticas, se dá o aparecimento da domesticação das espécies, ou seja a descoberta da agricultura. Esta surge assim, na sua perspetiva, como uma resposta de adaptação às novas condições climáticas holocénicas (Childe 1952, 23-25).

A esta explicação ambiental contrapõem-se outras teorias e explicações que têm nos aspetos culturais e tecnológicos o motor de ignição da agricultura no mundo. Para estas, o clima, embora importante, não deverá ter desempenhado um papel assim tão determinante2. Braidwood, por exemplo, que refuta até as alterações climáticas descritas por Childe para o Médio Oriente, considera que a domesticação de sementes resultou de um processo biológico e social extremamente complexo3. Para este investigador, entre o final do Plistoceno e o início do Holoceno, o Médio Oriente seria uma região rica em várias espécies potencialmente domesticáveis, nomeadamente em trigo que em estado selvagem já cresceria entre elas. Assim, a domesticação, ao contrário do que Childe julgava, seria, segundo Braidwood, uma consequência não da escassez de recursos e de áreas férteis mas sim da abundância das mesmas, facto que implicou posteriormente mudanças culturais e sociais muito profundas e que passaram por exemplo pela acumulação de prestígio e pelo desenvolvimento da religião, esta associada agora a ritos relacionados com o cultivo dos cereais (Braidwood 1960, 134). Na mesma linha de pensamento encontra-se, entre outros, Binford para quem o sedentarismo, inerente à agricultura, desempenhou um papel extremamente importante. Este deverá ter potenciado o desenvolvimento tecnológico assim como o aprofundamento dos laços sociais que se estabeleceram entre o Homem e o Meio que por essa altura, por volta de 12 a 10 mil anos antes de Cristo, se baseava no nomadismo e na recoleção (Binford 1968, 328-337)4.

A ideia de "Cultura" associada à agricultura e à manipulação de sementes, esboçada por Braidwood e tratada por Binford na perspetiva sedentária, seria entretanto desenvolvida e aprofundada por Flannery. Para este o conhecimento do processo da domesticação dos cereais passava por reconhecer antes de mais que o mesmo pode ser o resultado final da substituição da cadeia alimentar originada pelas mudanças que ocorreram antes da transição para a própria agricultura. Assim, para Flannery a domesticação das plantas resultou de um processo biológico ao qual se juntou mais tarde um conjunto de alterações sociais e culturais (Flannery 1969, 75-76). Num primeiro momento o cultivo teria sido espontâneo e esporádico. Depois, com o avançar do tempo histórico, o Homem começou a manipular e a selecionar a semente em estado selvagem, bem como a realizar pequenas tarefas como a eliminação de ervas daninhas, que facilmente se introduziam entre o trigo. Desta forma, a dada altura, quase sem se aperceber, o Homem começou a praticar a agricultura, uma cultura deliberada que implicou entre outros aspetos a especialização de tarefas e de profissões, o abandono do nomadismo e da recoleção, ou seja, dito por outras palavras, o fim a transumância e da itinerância em grandes grupos (McCorriston 2000b, 159-160).

Às explicações ambientais e culturais para o aparecimento da agricultura, que têm como figuras de proa Gordon Childe, Braidwood, Binford e Flannery, entre outros, contrapõem-se, por assim dizer, as teorias evolucionistas que encontraram em David Rindos um dos seus mais dignos defensores. Para este estudioso a agricultura é o resultado dos princípios da seleção natural e das relações mutualistas que se desenvolvem entre as espécies. Segundo Rindos, é este pois o processo que explica a razão pela qual o trigo, por exemplo, tenha perdido as suas características iniciais, isto é, as suas características selvagens. Ou seja, dito por outras palavras, numa perspetiva coevolucionista, homens e mulheres, nos primórdios do que viria a ser a agricultura, apenas recolhiam os melhores frutos em estado selvagem. Ao mesmo tempo, inadvertidamente, selecionavam e semeavam as melhores sementes. Ao fim de várias gerações o trigo, uma planta selvagem à época, havia-se tornado extremamente dependente dos cuidados do homem (Rindos 1984, 138-139).

Como facilmente se constata, as teorias formuladas e desenvolvidas por estes e outros especialistas, que tocam domínios tão diversificados como as alterações climáticas, o desenvolvimento tecnológico, as questões culturais e os aspetos evolucionistas das espécies, apesar de consistentes e fundamentadas, cada uma por si só não foi nem é capaz de dar uma resposta cabal ao problema. Entre outros pontos de crítica, o principal problema que se lhes pode atribuir reside no facto de pretenderem apresentar uma única e universal explicação para o aparecimento da agricultura no mundo a partir do estudo de uma região concreta, o Médio Oriente, ignorando dessa forma o processo climático, cultural, social e evolucionista quer a nível diacrónico, quer a nível sincrónico noutros pontos do globo5. Assim, nos dias que correm, sobretudo de há uns trinta anos para cá, tornou-se mais ou menos consensual no seio da comunidade científica a ideia de que foram vários os fatores que estiveram por de trás do aparecimento da agricultura e que esses mesmos fatores variam de região para região em função das questões climáticas, tecnológicas, culturais, sociais e evolutivas. (McCorriston 2000b, 162; Hole 1984, 55; Henry 1989, 40-45; Ladizinsky 1989, 387; Zohary 1989, 369; Blumler 1992, 100-102, Bar-Yosef et alii 2011, 169-173)6.

Ora, o que atrás se disse é também válido para a nossa região em estudo, ou seja, para região Lima. Assim, para se percecionar as origens e a evolução da agricultura e dos cereais na região torna-se essencial aferir e historiar vários aspetos, nomeadamente ao nível do clima e ambiente, e das variantes tecnologia, sociedade, cultura e evolução, pois que estes são quem melhor podem responder ao problema.

Em geral, pode dizer-se que esta região – a região do Lima – tem merecido atenção redobrada de vários especialistas, sobretudo de arqueólogos cujo dinamismo é por demais evidente. Entre outros, destacaram-se no passado Abel Viana, Afonso do Paço, Martins Sarmento, José Leite Vasconcelos, Félix Alves Pereira, Ferreira de Almeida e Teresa Soeiro7. Na atualidade Ana Bettencout, Isabel Figueiral, e, mais recentemente, João Tereso, Cláudio Brochado e Marta Marques, entre outros. Estes autores, especialistas em diferentes áreas e temas, desde a Pré-História à Proto-História e à Idade Média, passando por outras épocas e até por outros ramos científicos, têm vindo a explicar e a reconstituir o passado da região à luz de diferentes perspetivas: a paleoambiental, a histórica, a arqueológica, etc. A visão de conjunto essa tem sido dada por Brochado de Almeida, sobretudo na sua tese de Doutoramento sobre o “Povoamento Romano do Litoral Minhoto Entre o Cávado e o Minho” (1987) e mais recentemente em “Ponte de Lima, uma vila histórica do Minho” (2007), e “Sítios que Fazem História - Arqueologia do Concelho de Viana de Castelo” (2008 e 2009), obras nucleares para o estudo e compreensão da região.

Pese embora o facto de se tratar de uma região bastante estudada, no que ao início da agricultura diz respeito, assim como à evolução do cultivo dos cereais, muito ainda está por fazer. Os estudos existentes debruçam-se frequentemente sobre uma determinada estação ou sítio arqueológico, sobre um concelho, ou mesmo sobre um achado ou conjunto de achados considerados relevantes. O início da agricultura e do cultivo dos cereais, bem como a sua evolução ao longo dos tempos raramente é tema principal, sendo por isso mesmo, na maioria dos casos, abordado de forma indireta. Em geral, aborda-se esta temática como parte de uma explicação ou argumento, este normalmente relacionado com um outro assunto ou, muito frequente também, com uma estação arqueológica.

Independentemente dos poucos estudos, as origens da agricultura, o início e a evolução do cultivo dos cereais nos primeiros tempos na região do Lima pode ser percecionado à luz de várias evidências e indícios arqueológicos, arqueobotânicos e paleobotânicos que direta e indiretamente aludem a esse facto8.

De acordo com vários estudos, sobretudo polímicos, carpológicos, antracológicos e arqueológicos, a agricultura terá feito a sua aparição no Norte da Península Ibérica9 e por arrastamento na região do Lima mais ou menos por volta de 4600 a 4200 a.C., ou seja, em meados do V milénio a.C. (Almeida CAB 2007, 32; Almeida CAB 2008b, 62; Tereso 2012, 160; Figueiral et alii 1998-1999, 77)10. Por essa altura ter-se-ão dado importantes alterações climáticas na região, facto que levou ao amanho da terra, pois parecem datar dessa mesma época algumas das ervas daninhas que aparecem em sítios arqueológicos. Entre elas, pode-se destacar o Amor-de-Hortelão, a Polygonum, e a Galium que normalmente estão associadas a cultivos cerealíferos de Inverno e de Verão. Além destas, evidencia-se também o Rumex, relacionado com antigos campo-prado, bem como a Nozella, que aparece apenas em antigas zonas de cultivo, e a Silene cuja aparição se dá normalmente em terrenos agrícolas abandonados (Bettencout et alii 2004b, 180-181).

Além das evidências Paleobotânicas, a Arqueologia testemunha para o mesmo período o aparecimento na região do Lima de novas formas de manifestações artísticas e religiosas. Em geral, são bem conhecidas algumas das construções megalíticas existentes na região ou próximo dela e que têm mais ou menos paralelismo com o que se passa noutros pontos do Entre-Douro-e-Minho (Almeida 2007 CAB, 32; Almeida CAB 2008b, 62). Aqui, no entanto, tais construções parecem agrupar-se em três grupos geograficamente distintos. Um primeiro parece localizar-se na faixa litoral e dele fazem parte por exemplo o dólmen da Barrosa (Âncora), a mamoa da Eireira (Afife), onde apareceram fragmentos cerâmicos campaniformes de estilo marítimo típicos do III milénio a.C., o dólmen da Pedreira, em São Romão de Neiva, ou a mamoa de Chafé. Todos eles parecem datar do III milénio a.C.11 Num segundo grupo parece agrupar-se um vasto conjunto de construções megalíticas, que afastadas da costa marítima, se encontram explicitamente em zonas de planície, sobretudo junto de cursos de água e de bons solos agrícolas. Sem prejuízo de outros monumentos megalíticos, destacamos, por exemplo a mamoa de Santoínho, em Darque, a mamoa da Felgueira, em Santa Leocádia de Geraz do Lima, os menires da Portela e da Barreira, em Deocriste12 e Santa Maria de Geraz do Lima, as mamoas da freguesia de Arca, em Ponte de Lima, as mamoas de Entre-Ambos-os-Rios, em Ponte da Barca, e as seis antas de Lamas de Vez, no concelho de Arcos de Valdevez. Apesar de nunca intervencionados estes sítios, se seguirmos o modelo clássico, estes monumentos deverão datar do III milénio a.C. Por último, os conjuntos megalíticos que se implantam nas terras altas, próximo ou acima dos 500 metros de altitude pelo menos. Aqui, sem prejuízo de outros testemunhos, podemos incluir por exemplo a mamoa da Chã da Pica (Montaria), a Cova da Moura (Carreço)13, as mamoas do planalto de Miranda e da Chã das Arcas, ambas em Arcos de Valdevez, as mamoas do Alto das Pias, no Soajo, as mamoas do planalto de Vila Chã, em Esposende, as mamoas da Boalhosa, no concelho de Ponte de Lima, e o menir de Salamonde, em Friastelas. A cronologia deste último grupo varia entre o V e o III milénio a.C., se nelas incluirmos as mamoas do Alto da Portela do Pau, em Castro Laboreiro (Melgaço), região limítrofe da bacia hidrográfica do rio Lima14. Nestas últimas, alvo de intervenções arqueológicas na década de 90, entre outros exumou-se um fragmento de enxó polida, um fragmento cerâmico de vaso campaniforme, bem como algumas sementes carbonizadas o que as associa inequivocamente a comunidades agro-pastoris15.

Estas construções, sobretudo os dólmens e as mamoas, constituídas ou não por corredor, cobertas ou não por terra, providas ou não de couraça a envolver a câmara funerária têm a particularidade de se poderem estender por um período de tempo que vai, como vimos, do V ao III e II milénio a.C. (Almeida CAB 2007, 32-37; Almeida CAB 2008b, 62-78). São por isso monumentos que se relacionam com os primórdios da agricultura na região do Lima e que a acompanham. Assim, pela sua larga diacronia é possível, com alguma criatividade, percecionar com relativa segurança boa parte do processo. Se a tudo isto juntarmos a corrente dominante, que afirma serem normalmente mais antigas as construções megalíticas situadas em altitude, então poder-se-á dizer, que a agricultura na região do Lima terá surgido nas terras altas e depois descido à planície (Almeida CAB 2008b, 63).

Apesar de se poder admitir que a agricultura surgiu nas terras altas do Lima, certo é que pouco ou nada se sabe sobre os primeiros habitats destas comunidades. O seu desconhecimento advém segundo vários autores pelo facto desses povoados serem construídos a partir de materiais perecíveis e também pela morfologia do terreno e do solo, pois que ao contrário de outras regiões, nomeadamente de Trás-os-Montes, não propicia aqui a existência de grutas e abrigos (Almeida CAB 2008b, 64). Além destes dois aspetos, parece-nos também claro que a quase ausência de vestígios de povoados do V ao III milénio a.C. na região minhota e mais especificamente no Lima terá a ver com um conjunto de transformações antrópicas posteriores que não permitem detetar ou identificar com facilidade esses primeiros habitats16.

Igualmente importante poderá ser também uma certa preleção para a itinerância e para a recoleção durante esse período por parte destas primeiras comunidades agro-pastoris. Assim, as construções megalíticas datadas do V ao III milénio a.C., podem não ser acompanhadas por povoados permanentes, mas sim por povoados temporários, provavelmente enquanto o local onde viviam permitia o cultivo e a recolha de cereais, pois que estas primeiras comunidades não deveriam conhecer a estrumação e a fertilização dos solos. Tal ilação pode ser extraída a partir da localização de algumas mamoas e da análise e reflexão de certo tipo de espólio exumado nas mesmas. A este respeito, tomemos como exemplos, a mamoa de Lordelo, em Chafé, e as mamoas do Alto da Portela do Pau, em Melgaço. Na primeira, aquando da intervenção arqueológica realizada foram postos a descoberto cinco esteios que pertenciam à câmara fúnebre. No seu interior recolheram-se setenta pontas de setas, lâminas de sílex, um braçal de arqueiro, um rebite e uma sovela em cobre arsenical, bem como fragmentos de ossos e de cerâmica lisa, fragmentos de cerâmica incisa, um vaso hemisférico e um vaso de carena alta. Esta mamoa, cuja cronologia oscila como se vê pelo espólio exumado entre o Calcolítico e o Bronze, aponta para a presença de uma comunidade agro-pastoril na região que mantém ainda traços evidentes de itinerância e recolecção, de resto bem patentes nas pontas de seta e nas lâminas de sílex17. No segundo caso que apontamos, o das mamoas do Alto da Portela do Pau, em Melgaço, o espólio exumado evidência a mesma tendência. Outro exemplo que se pode apontar é certamente o da mamoa da Eireira, em Afife. Esta por se encontrar implantada num território rico deveria permitir em simultâneo a exploração de recursos marinhos e a prática agrícola (Almeida CAB 2008b, 65).

Tendo em conta o que se disse, não será certamente estranho o desconhecimento arqueológico dos povoados que cronologicamente existiram na região entre o V e o III milénio a.C., e que por força de vários fatores se tornam arqueologicamente difíceis de identificar. Independentemente desse facto, certo é que com o tempo, à medida que nos aproximamos do III e sobretudo do II milénio a.C., torna-se arqueologicamente evidente que o homem do Lima domina já mais do que os princípios básicos da cultura agrícola18. Por essa altura surge uma certa preleção por outras formas e estratégias de ocupação do espaço o que por sua vez sugerem um conhecimento e um domínio mais vasto e profundo do território e dos recursos existentes (Jorge, 1997, 80; Almeida CAB 2008b, 65-66). Datam mais ou menos deste período os muitos fragmentos de mós e dormentes, assim como de cerâmicas com maior capacidade de armazenamento as quais se têm encontrado em alguns sítios arqueológicos. Tal, acompanhado pelo aparecimento de silos e de umas tantas estruturas pétreas, parece sugerir agora uma certa prelação pelo sedentarismo definitivo, ou seja, pelo abandono do nomadismo, o que significa por sua vez que a agricultura se havia entranhado nos hábitos e nos costumes do homem desta região19. Veja-se, a este respeito o caso de Bitarados, em Esposende, a cerca de 15 km apenas do rio Lima, um povoado cujas cronologias mais antigas remontam a 2880 a.C. e as mais recentes a 2460 a.C. (Marques 2012, 155). Aqui, entre outras informações, sabemos que a agricultura era a atividade dominante. Trata-se de um povoado aberto em que as habitações eram construídas a partir de materiais perecíveis. Do ponto de vista económico cultivavam-se aqui os trigos nus, a cevada, as favas e as leguminosas20. Graças ao contributo de outras ciências, nomeadamente de estudos paleocarpológicos e da antracologia, sabemos também da existência de umas quantas ervas daninhas relacionadas com a prática de rotação de culturas, assim como com o cultivo de cereais de Inverno e de Verão. A tudo isto podemos ainda juntar algumas estruturas de armazenamento, sobretudo silos que tinham como finalidade guardar os cereais (Bettencourt et alii 2008, 81; Marques 2012, 161).

Bitarados não foi nem de longe nem de perto o único povoado Calcolítico da região que evidencia o predomínio da agricultura e o cultivo dos cereais, bem pelo contrário. É apenas um dos mais mediáticos e conhecidos, fruto das intervenções arqueológicas de que foi alvo. Além dele, em vários outros pontos do Entre-Douro-e-Minho se encontram, ainda que timidamente, vestígios desse período, normalmente cerâmicos, mós e dormentes, e que em certa medida parecem confirmar não só o sedentarismo mas também um progresso ao nível das práticas e utensílios agrícolas, o que se evidencia também no aparecimento de grãos de cereais, favas, ervilhas e lentilhas, bem como de sementes de linho, sendo que estas sugerem práticas de rotatividade de culturas e pousio (Figueiral et alii 1998-1999, 78). Tais vestígios podem pois ser encontrados na região do Lima em sítios como Penedos Grandes (Arcos de Valdevez), Regueiras (Vitorino de Piães) e castro Santo Estêvão, na freguesia da Facha, onde a escassos duzentos metros da sua implantação se encontrou nos anos 80 um fragmento de bordo de vaso tipo Penha (Almeida CAF et alii 1981, 6; Almeida CAB 2007, 84; Pereira 1915, 224-258; Bettencourt et alii 2001, 201-217).

Boa parte dos povoados Calcolíticos da região do Lima ou junto a ela, alguns dos quais atrás citados, advinham já o advento de uma nova Era, a Idade do Bronze, que se prolongou por todo II milénio a.C. Durante esse período, muito para lá da emergência de povoados ora abertos, ora fechados, dependendo dos contextos e da fase em questão, situados em altura ou na planície, o que importa salientar, sobretudo em povoados como Penedos Grandes (Arcos de Valdevez)21, Pomarinhos (Calvelo), Regueiras (Vitorino de Piães), ou Cimalha (Felgueiras), sobretudo no quarto, é a multiplicação de estruturas de armazenamento cavadas no solo granítico22. No caso da Cimalha, os silos ultrapassam praticamente a centena – 122 – o que não só evidencia que a prática agrícola se havia entranhado nessa comunidade agro-pastoril como atesta ao mesmo tempo a existência de uma brutal produção de cereal, tal é a sua capacidade de armazenamento, esta muito provavelmente inserida pelo menos numa lógica comunitária e comercial (Almeida CAB et alii 2008a, 25-32; Marques 2012, 168). É possível a este respeito que povoados como o da Cimalha, que evidenciam alguma capacidade e pujança de armazenamento, estejam relacionados com a introdução de novas práticas e culturas agrícolas. Falámos aqui em concreto dos milhos miúdos que de acordo com vários especialistas chegam à Europa durante a Idade do Bronze (Zohary et alii 1988, 83)23. Estes milhos, sobretudo o Digitaria Sanguinalis, o Panicum Milliaceum e o Setaria Itálica são mais rentáveis que o trigo, pelo que tiveram grande aceitação e granjearam popularidade por todo o Entre-Douro-e-Minho durante largos séculos, pelo menos até ao século XVI da nossa Era (Wet 2000, 118; Soares 2013). Apesar deste aspeto, poderia dar-se a ideia de estas fossas, estes silos não serem de armazenamento. Hoje, a esse respeito, a maioria dos especialistas está amplamente convencida de que se tratam mesmo de fossas de silagem. Se dúvidas de resto houvessem a esse respeito, as intervenções arqueológicas efetuadas em alguns povoados as desfez. Entre outras, destacamos a da Cimalha, em que do interior de um dos silos de armazenamento se retirou uma mó de rebolo (Almeida CAB et alii 2008a, 32).



É evidente que poderíamos continuar aqui a descrever as origens da agricultura e o processo evolutivo do cultivo dos cereais a partir de aspectos arqueológicos, culturais, sociais e tecnológicos24. Assim, poderíamos com toda a certeza dizer que a Idade do Ferro, iniciada segundo a maioria dos especialistas por volta do século VIII a.C.,25 marca o advento de uma nova Era, a dos castros. Esta Era, bastante diferente da anterior em alguns aspetos, marca o fim dos povoados abertos da Idade do Bronze e por seu lado a afirmação de recintos amuralhados, sendo que será no seu interior que doravante se vão fixar as habitações, estas, se estivermos a falar do século IV a.C., em diante, construídas com pedra. Exemplos de povoados deste tipo e desta época podem ser encontrados em quase todos os cabeços existentes no Lima, muitos dos quais com ocupações até bem anteriores. Entre outros, cite-se como exemplos a “Cidade Velha” de Viana Santa Luzia, o castro do Vieito (Perre), o castro de Roques (Vila Franca) ou São Martinho (Perre). Em Ponte de Lima, entre outros, o castro Santo Ovídio (Arcozelo), ou o castro Santo Estêvão (Facha). No concelho de Ponte da Barca o Castelo de Aboim e o castro de Quintão em Sampriz, por exemplo, e em Arcos de Valdevez o castro de Álvora, o castro de Reboreda (Rio de Moinhos), ou o castro do Cabreiro (Cabreiro). Todos eles, tal como outros que não citamos aqui, têm a particularidade de apresentarem sistemas defensivos constituídos por muralhas e fossos. Tal tem sido explicado como consequência da chegada de povos tecnologicamente mais evoluídos e que se impuseram pela força, sobretudo aquando das incursões bélicas mediterrânicas via Tartessos (Silva ACF 1990, 285-287; Almeida CAB 2008b, 103). A ser verdade, tal só poderá encontrar resposta na pujança económica das comunidades aqui sediadas, nomeadamente na exploração agrícola que é já cerealífera, e nos recursos naturais, sobretudo nos metais, muito abundantes por aqui e em praticamente todo o Norte da Península. É provável pois que a mineração a par com a agricultura tenha desempenhado aqui um papel importante, uma vez que basta ver a quantidade de povoados sediados nas imediações de boas áreas agrícolas e de explorações mineiras, sobretudo depois da chegada dos romanos26. No caso da pujança agrária e cerealífera a Arqueologia é bastante taxativa e a mesma exibe-se arqueologicamente através da exumação de alfaias agrícolas em bronze e em ferro27, através de recipientes cerâmicos com maior capacidade de armazenamento, ou ainda no avolumar de fragmentos de moventes e dormentes relacionados pois com a moagem do grão de cereal. Tal pujança poderá pois ter provocado por aqui, como de resto defende Brochado de Almeida, acesas disputas territoriais pelo domínio dos melhores terrenos agrícolas (Almeida CAB 2007, 42).

Independentemente dos conflitos frequentes no Mundo Castrejo, que Estrabão e outros autores como Plínio imortalizaram, certo é que tudo mudou com a chegada dos romanos à região. Por volta do câmbio da Era, fruto de um clima de paz permanente, do aparecimento de uma verdadeira economia de mercado estimulada pelos romanos e que era escoada pelo rio Lima e pela via XIX, por um possível aumento demográfico e talvez também pela introdução de novas práticas e culturas agrícolas, assiste-se à disseminação de novos povoados, não agora em altitude mas sim junto à planície (Almeida CAB 2003, 136, 166 e 315). São em concreto os castros agrícolas e os primeiros casais de famílias castrejas que lentamente começam a descer dos montes e se fixam junto à planície, onde há melhores terrenos para a prática agrícola. Foi, muito provavelmente o que aconteceu por exemplo no lugar de Prazil, na Facha, tal é a quantidade de vestígios castrejos aí encontrados. Este pequeno casal agrícola, que começou muito provavelmente com uma família castreja, parece ter conhecido alguma pujança económica, facto que viria mais tarde a traduzir-se no nascimento de uma pequena e rústica villa (Almeida CAB 2003, 306, 317). Este movimento – a descida dos montes – identificado arqueologicamente no lugar de Prazil parece ter sido um fenómeno de amplo, pois que durante a vigência romana, sobretudo no Baixo-Império, se instalam na Ribeira Lima e áreas envolventes vários casais e villae romanas. Será muito provavelmente a partir desta altura que em sítios como Agra do Relógio (Esposende), Vila Velha (Meadela), Baganheiras (Afife), Vila Mou, Santa Maria e Santa Leocádia de Geraz do Lima, Paço Velho (Facha), Beiral do Lima, Correlhã, ou Boudilhão (Moreira do Lima), só para citar alguns dos casos mais conhecidos, se terão arroteado e rompido novos solos, bem como aplicadas novas técnicas e métodos agrários que certamente terão passado pela estrumação, pelas sementeiras, pelos granjeios, pelas ceifas, pelas regas, pelo saneamento dos solos, etc. (Caldas 1991, 30; Almeida CAB 2003, 339; Soares 2013). Dado curioso a este respeito e que não pode passar despercebido é o facto de a grande maioria destas villae e casais privilegiarem a meia encosta. Em geral, e veja-se o que se passa em Prazil e em Santa Maria de Geraz do Lima por exemplo, encontram-se implantadas a altitudes variáveis mas que raramente ficam abaixo dos quarenta metros (Almeida CAB 2003, 324, 328). Enfim, estas villae e casais parecem pois anunciar o nascimento das leiras e das jeiras que na Época Medieval e Pós medieval se vão vulgarizar por toda a região do Lima28. Pese embora esta evidência, o que do ponto de vista agrícola e económica contava foi sempre a qualidade do solo e a possibilidade de o mesmo poder ser trabalhado de forma eficiente. Por isso, não é de admirar também a existência de casais e villae em zonas mais planas, como por exemplo acontece com a Igreja Velha da Meadela ou o Paço de Cardielos, este mais tarde envolvido em medievas lendas. É nesta mesma linha de pensamento que se poderá também compreender por exemplo o advento de alguns povoados como a cividade de Deião (Almeida CAB 2003, 326).

Em suma, será pois destes povoados, destes casais e destas villae, fixados ora a meia encosta ora em zonas totalmente planas, que sairá por assim dizer as primeiras formas do povoamento que iremos conhecer mais tarde na Idade Média, o qual viria a perdurar até mais ou menos aos nossos dias. Trata-se pois, no geral, de um processo que se inicia por alturas do câmbio da Era e que se arrastará ao longo de vários séculos, consolidando-se o mesmo no decurso da Plena Idade Média, época em que Carlos Alberto Ferreira de Almeida nos diz que “… de modo sistemático, as margens dos rios e de ribeiros e os fundos dos vales do Entre-Douro-e-Minho estão, nos séculos XII e XIII, e mesmo antes, sistematicamente ocupados por campos, agras e vessadas, onde se cultivam o milho-miúdo, os legumes e os linhos” (Almeida CAF 1988, 65).

II – D

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