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A IMPORTÂNCIA DA ÁGUA NA REGIÃO DO LIMA E DO SEU APROVEITAMENTO

Na Ribeira Lima, quase sem se dar por isso, pulula na paisagem um conjunto bastante significativo de estruturas que direta ou indiretamente se relacionam com o uso e o aproveitamento da água. Tais estruturas, muito diversificadas, testemunham hábitos e práticas ancestrais – algumas das quais poderão até provir da Proto-História – pelo que ao vivificarem várias épocas podem justamente ser consideradas como Património. A abundância de tais estruturas materiais na região, designadamente açudes, presas e poças, fontes e chafarizes, levadas e canais, moinhos e azenhas, entre outras, colocam-nos na presença de um vasto património arqueológico na sua quase totalidade de tipo vernacular e que grosso modo se encontra ainda muito pouco estudado no seu conjunto. Assim, abordaremos neste capítulo, num primeiro momento, a importância das condições naturais da região, que explicam não só a abundância em água como a qualidade das mesmas, facto que justifica por si só aqui a implantação e o triunfo do milho-maís e das indústrias de moagem. Num segundo momento ocupar-nos-emos dos sistemas físicos de captação e utilização da água, quer esta se destine à rega ou à produção de energia hidráulica para fazer acionar moinhos, azenhas, lagares de azeite ou engenhos de serrar madeira, uma vez que as práticas e os hábitos são relativamente comuns. Por último, daremos atenção à importância e utilização da água desde épocas imemoriais. Para tal recorrermos aos testemunhos mais antigos e que nos falam desse mesmo aproveitamento da água na região do Lima.




  1. Condições naturais, abundância e qualidade dos recursos hídricos

Percecionar uma Arqueologia da Água na região do Lima implica que se aborde em primeiro, ainda que em jeito de síntese, as condições naturais e morfológicas, pois que as mesmas são fundamentais para a sua compreensão. Assim, diremos que o rio Lima como Fonte da Vida é a espinha dorsal de toda uma região que em Portugal se inicia por alturas do Lindoso (Ponte da Barca) e do rio Laboreiro (Melgaço/ Arcos de Valdevez) e que se encerra em Viana, junto ao mar (Fig. 1). Ao longo do seu percurso, cerca de 62 quilómetros em território português, deixa-se cercar por vários conjuntos montanhosos cujas altitudes influem no clima e nas atividades humanas. Desses conjuntos montanhosos, sem prejuízo de outras formações, destacam-se a Norte do Lima Santa Luzia, serra d` Arga (549m), Formigoso e Gávea (688m), Antelas (481m) e Penedos Brancos (471m), Soajo e Peneda. A Sul, além da emblemática serra Amarela, evidenciam-se na paisagem, pela sua altitude, São Lourenço da Armada (609m), a serra da Nó (577m) e a serra da Padela (489m), assim como o monte de Roques e, junto à foz, o monte Galeão (Almeida CAB 2003, 29).

A proximidade do mar e a predominância de conjuntos montanhosos originam um clima muito próprio e que em certa medida se distingue do de muitas outras regiões do país pela sua alta pluviosidade (Fig. 1). Aqui, a nebulosidade, sobretudo durante o Inverno e a Primavera, torna-se frequente nas vertentes e encostas expostas a Sul, a Norte e a Oeste (Almeida CAF 1987, 16). Assim, é normal e frequente os meses de Inverno e da Primavera pautarem-se por precipitações abundantes, chegando as mesmas a atingir valores na ordem dos 3000 e 2500 mm em 150 ou 160 dias, enquanto os meses estios se caracterizam essencialmente por serem mais curtos do que noutras regiões, facto que impede que a maioria dos ribeiros, dos rios e das fontes sequem (Almeida CAB 2003, 44; Almeida CAF 1987, 16; Mattoso et alii 2001, 104).

Além da precipitação, mercê da simbiose que se estabelece entre a montanha e as massas de água oceânicas resultantes do fenómeno atmosférico, a região do Lima caracteriza-se também pela frequente ocorrência de nevoeiros, sendo que estes desempenham um papel importante ao nível das atividades agrícolas. Em geral, os nevoeiros que frequentemente pululam no Lima agrupam-se em três categorias (Almeida CAB 2003, 45). Em primeiro os nevoeiros de advecção, que se formam junto ao mar e que podem ser encontrados em Viana. Depois, os nevoeiros resultantes da irradiação. Estes ocorrem normalmente nas noites límpidas e frias, gerando com isso geada, facto que levou o homem da Ribeira Lima desde tempos imemoriais a desenvolver certas práticas para resguardar e proteger as culturas agrícolas deste fenómeno atmosférico como é o caso da rega e lima que tem como finalidade precisamente o aquecimento do solo (Corvo 1881, 36)29. Por último, os nevoeiros mistos, isto é, os que reúnem características dos dois primeiros casos. Estes podem ser encontrados em vários pontos do Lima, sobretudo junto de bacias terminais como o Vez ou o Lima durante as manhãs (Almeida CAF 1987, 16).

A importância da água na Ribeira Lima não depende somente da sua abundância, nem tão pouco da relação que se estabelece entre a montanha e as massas de ar oceânicas que contra ela chocam. Igualmente importante é a morfologia do terreno, sobretudo o tipo, a natureza e a profundidade do solo, pois que este influi na qualidade da água o que por sua vez tem impacto direto nas culturas escolhidas e na forma como se desenvolveu o povoamento e as propriedades agrícolas. Assim, diremos, para começar, que boa parte do solo limiano é constituído por granitos e rochas calco-alcalinas, em geral não porfiroides e com diferentes tipos de grãos. Trata-se pois de um tipo de solo que se conserva geograficamente bem definido em zonas como Santa Luzia, serra d` Arga, Penedos Brancos, Chão de Oural, Gávea e Padela, entre outras (Almeida CAB 2003, 38). Nestes e noutros conjuntos montanhosos há superfícies de aplanamento, os designados planaltos, e vertentes de perfil abrupto, por onde de resto escorrem frequentemente as primeiras águas resultantes da precipitação atmosférica (Almeida CAF 1987, 29). Em suma, este tipo de solo, granítico e por vezes alcalino, pode pois ser encontrado um pouco por todo o lado e é em geral o mais rico e fértil da região. A sua qualidade advém da associação de várias características e, principalmente, da relação que se estabelece entre os processos de decomposição do solo com certas práticas humanas como a adubação e a estrumação das terras. Por tal motivo o grosso do povoamento e das atividades agrícolas fixa-se precisamente nas áreas onde abundam este tipo de solos (Mattoso et alii 2001, 104-106).

Além dos solos e rochas graníticas em vários pontos da região do Lima vislumbram-se também áreas onde abundam os xistos e os grauvaques. São por norma solos pouco permeáveis pelo que regra geral facilitam o escoamento das águas que resultam da precipitação atmosférica. Este tipo de solo documenta-se por exemplo junto ao rio Laboreiro, assim como em algumas encostas montanhosas como as da serra d` Arga e de Perre. A sul da bacia hidrográfica podemo-los encontrar nas freguesias de Arca e Fornelos, ambas em Ponte de Lima, assim como, por exemplo, nas encostas do monte de Roques e da serra da Padela (Almeida CAF 1987, 179). A pouca fertilidade deste tipo de solo influiu na fixação humana assim como na propriedade agrícola, pois, em geral, estes são os locais do Lima onde há menor densidade populacional (Mattoso et alii 2001, 103).

Por último, ao nível dos principais solos da região do Lima, os aluviões que pela importância agrícola que têm merecem certamente uma referência, ainda que a mesma seja aqui pequena. Este tipo de solo, pejado de detritos e depósitos, de areias e cascalheiras, assim como de lodos da mais variada natureza constituíram-se entre o final do Cenozoico e o decurso do Quaternário. Podem ser encontrados por exemplo junto ao rio Lima em locais como Moreira e Santa Maria de Geraz do Lima, cuja igreja, com vestígios que vêm já da Época Castreja, foi implantada precisamente em cima de um terraço fluvial. Em geral, por serem constituídos por detritos e matérias orgânicas da mais variada natureza, são solos ricos, pelo que a sua produtividade do ponto de vista agrícola está mais do que assegurada (Almeida CAB 2003, 41; Almeida CAF 1987, 31).

A água proveniente da precipitação atmosférica, independentemente do caminho que percorra, acaba mais cedo ou mais tarde por alimentar os cursos de água que se formam nas encostas montanhosas (Fig. 2). Estes cursos aproveitam as falhas provocadas pela orogenia para formar os seus leitos que em curta distância dão corpo e forma a pequenos regatos, ribeiros e rios (Almeida CAB 2003, 31). É o que acontece por exemplo com o rio Vez que nasce no alto da serra do Soajo e cujo vale forma como que um imenso anfiteatro que se desenvolve sucessivamente em socalcos. Ao longo do seu percurso até à foz, junto a Ponte da Barca, recebe importantes contribuições de massas de água, designadamente de rios como o Cabril, o Ázere e o Frio, todos eles importantes do ponto de vista das atividades agrícolas que aí se desenvolveram ao longo dos tempos (Almeida CAF 1987, 29).

Além do rio Vez, por ventura o mais importante da região logo a seguir ao Lima, na margem direita da bacia hidrográfica abundam ainda outros cursos de água cuja importância histórica, agrícola e económica está mais do que documentada para várias épocas (Fig.3). Também estes, a maioria dos quais encaixados por entre as principais massas orográficas da região, nomeadamente por entre a serra do Soajo, Peneda, Chã do Oural, Penedos Brancos, Antelas, Agra, Perre e Santa Luzia, são o resultado de um conjunto de fenómenos da orogenia terrestre e ao qual se associou a pluviosidade (Almeida CAF 1987, 31). Entre eles podemos destacar o rio Laboreiro, que desagua junto a Lindoso e que alimentou durante centenas de anos mais de 100 moinhos, mas também os rios Cabrão, Esturãos, Labruja, Seixo, Nogueira, Santa Martinha e Portuzelo. Em todos eles encontram-se antigos vestígios de moagens e estruturas de captação e condução de águas.

Na margem sul do Lima, região igualmente acidentada, embora abundem aqui áreas planas mais extensas, podemos destacar como principais torrentes de águas que irrompem por entre as falhas geológicas os rios Vade, Tamente, Cabril, Trovela, Tinto e Lourinhol (Fig. 3). Estes, cujas águas foram também sabiamente aproveitadas pelo homem para a rega e para a moagem, são, em geral, relativamente menos pronunciados, isto é, apresentam menor inclinação quando comparados com os rios da margem norte30. Embora insignificante à primeira vista, este aspeto revela-se fundamental para a compreensão de certas práticas e hábitos, sobretudo para aquelas que estão relacionadas com o uso da água e que originaram por vezes soluções técnicas diferentes. A este respeito, sem nos adiantarmos no tema, diremos que é neste tipo de rios – menos pronunciados na proximidade da área de vale – que se fixaram a maioria das azenhas existentes na Ribeira Lima.

As águas provenientes da precipitação, independentemente de mais cedo ou mais tarde alimentarem os diferentes cursos de água da bacia hidrográfica, dão primeiramente forma às nascentes, às fontes seminais por assim dizer. Com efeito, a água infiltrando-se no solo circula pelos vários estratos deste até encontrar uma camada impermeável. Quando tal acontece a água rebenta em fonte, isto é, aproveita as fendas existentes no solo para vir ao encontro da superfície (Corvo 1881, 22). Estas águas, que à primeira vista são tidas como de boa qualidade para o consumo e para a rega podem no entanto não o ser. A importância da água na região do Lima não resulta somente da sua abundância mas também da sua qualidade. Assim, o tipo de solo, o declive do mesmo e a distância que a água tem de percorrer infere na sua qualidade, pelo que esta pode apresentar composições orgânicas e nutritivas muito variáveis (Corvo 1881, 30-33). Desta constatação resulta pois que há fontes cujas águas, quase sempre límpidas, são puras e tanto quanto mais materiais apresentarem em dissolução mais ricas se tornam, pelo que as mesmas são aproveitadas para fins terapêuticos, industriais e científicos. Na bacia hidrográfica do Lima contamos pelo menos duas fontes desta natureza cujas virtudes mineromedicinais são reconhecidas. São elas a Fonte das Virtudes e a Fonte Santa, ambas localizadas no aro de Valdevez (Almeida CAF 1987, 17).

Fontes como a das Virtudes ou como a Fonte Santa são raras na Ribeira Lima. Aqui as águas provenientes das fontes seminais nem sempre são ricas. A qualidade da água tem a ver com uma infinidade de aspetos dos quais se podem evidenciar a composição orgânica, a morfologia do terreno, o declive do mesmo e até a sua profundidade. Assim, terrenos há que são ricos em fontes, contudo tal riqueza pode depois não ser acompanha pela qualidade da água. É o caso das fontes cuja água passa por solos argilosos (Corvo 1881, 26). Regra geral, estas águas são de pouca qualidade quer para a rega, quer para o consumo humano e animal, o mesmo se passando com as águas provenientes das fontes termais. Estas, pela sua temperatura e composição podem ser prejudiciais às culturas agrícolas, contudo quando frias tornam-se extremamente ricas e uteis, pelo que trazem grandes benefícios à agricultura (Corvo 1881, 27)31. Em sentido inverso estão as águas que passam pelos solos calcários e xistosos. Tanto num caso como no outro estas águas são de boa qualidade para a irrigação até porque se apresentam frequentemente ricas em sulfato de magnésio (Corvo 1881, 26). Apesar deste aspeto, as mesmas águas podem perder a qualidade que apresentam a montante, sobretudo quando as mesmas se afastam em demasia do seu ponto inicial. É o que provavelmente acontece por exemplo em alguns campos-prado da Facha, da Seara e de Arcozelo que tivemos a oportunidade de ver em Ponte de Lima. Aqui, em algumas propriedades agrícolas verifica-se que a captação e a condução da água é feita a distâncias bastante significativas e contemplam regos e caleiros pétreos. Estes últimos, situados à cota do terreno agrícola ou sobrelevados por um conjunto considerável de esteios que suportam o canal, são relativamente extensos e transportam a água sacada a um ribeiro, a um poço ou a uma mina, até ao campo. No seu caminho a água porém perde boa parte da riqueza química que tinha inicialmente, pelo que a rega é nestes casos menos eficiente.

Além da precipitação, dos rios e das fontes seminais, no Lima a água apresenta-se também disponível ao homem no subsolo. Porém, a captação da mesma requer por vezes meios artificiais, pois que sem eles a água não consegue vir à superfície. Entre outros métodos e estratégias, muitos dos quais conhecidos desde a antiguidade contam-se os furos verticais, normalmente conhecidos por poços, e as galerias horizontais que em linguagem corrente e popular recebem a designação de minas. Independentemente deste aspeto, a qualidade das águas, tal como noutras situações, depende sempre dos nutrientes que possui, do tipo, da natureza e da profundidade do próprio solo (Corvo 1881, 31).
b) Sistemas tradicionais de captação, condução e aprovisionamento da água: aspetos e características principais
Do ponto de vista arqueo-etnográfico os sistemas de captação, condução e aprovisionamento de água na região do Lima pouco diferem dos modelos que se podem encontrar em outras áreas do Entre-Douro-e-Minho32. A diferença, mercê porventura de um relevo mais acidentado e da abundância em água, está muito provavelmente no número de estruturas que por aqui pululam na paisagem, assim como na alternância das soluções técnicas no espaço. Tal alternância deve-se a nosso ver às especificidades geomorfológicas e topográficas da região e dos cursos de água, assim como à finalidade a que se destinem esses sistemas. Assim, diremos que às condições geomorfológicas, topográficas, finalidades e perfis físicos dos rios correspondem, grosso modo, soluções técnicas por vezes diferentes no espaço.

Comecemos então pela finalidade. Se tivermos em conta que boa parte da água utilizada no Lima se destina à rega das culturas agrícolas, sobretudo cerealíferas e hortícolas, diremos que na maioria dos casos os sistemas de captação e transporte da água passou pela abertura de poços, poças e minas, assim como pela construção de levadas, sendo que estas são responsáveis pela condução da água sacada às minas, aos poços, aos rios e aos ribeiros. No caso de a finalidade ser a moagem a situação altera-se ligeiramente. Em vez dos poços e das minas proliferam na paisagem sobretudo os açudes, os canais, as levadas térreas e os caleiros pétreos. Os primeiros sacam a água aos rios e aos ribeiros e os segundos transportam-na até ao destino final, isto é, até ao cubo do moinho ou à roda da azenha33.

Se a distinção parece aqui supérflua ou mesmo incipiente, o mesmo não se poderá certamente dizer se à finalidade lhe juntarmos os condicionalismos geo-morfológicos e topográficos da região. Da análise que tivemos a oportunidade de fazer da região constatamos que as diferentes soluções técnicas adotadas variam em função da topografia. Os poços, galerias verticais, hoje revestidas com aduelas em cimento, encontram-se fundamentalmente implantados nas zonas baixas e planas da região do Lima, sobretudo em áreas onde por vezes escasseiam os cursos de água34. Ao invés, a esmagadora maioria das minas, estruturas horizontais cavadas à mão pela acção do próprio homem e apresentando declive suave mas pronunciado de montante para jusante de forma a permitir a escorrência da água e revestidas com pedras em muitos casos, fixam-se sobretudo nas áreas altas e confinam grosso modo com as propriedades agrícolas que se desenvolvem em socalco35. Em igual situação encontram-se também as poças e as presas. Estas estruturas são autênticos reservatórios e apresentam por vezes um paredão pétreo à frente36. Este, por sua vez, é normalmente de conceção popular, raramente ostenta algo de artístico e nele sobressai, em plano inferior, um arcaico sistema para abertura e retenção da água. Este sistema, regra geral, passava pela existência de uma abertura circular ou semicircular que era tapada com uma tábua, um farrapo ou com um simples torrão de terra (Wateau 2000, 47). O destapamento do sistema permita posteriormente que a água acondicionada na poça pudesse chegar à habitação ou ao campo por meio mais uma vez de regos. No primeiro caso, a água destinar-se-ia ao consumo doméstico e à rega da horta. No segundo, a água seria empregue diretamente na cultura agrícola embora também tenhamos encontrado a sua associação a moinhos, sobretudo na zona de Rebordões, em Ponte de Lima, e em Amonde, esta já no vale do rio Âncora.

Ainda a respeito da topografia e dos sistemas de captação e transporte de água constata-se também uma outra solução técnica adotada em algumas regiões. Nas áreas baixas e planas da região do Lima, em freguesias como Facha, Seara ou Arcozelo, todas em Ponte de Lima, abundam canalizações aéreas de extensões consideráveis e que se destinam à rega. Tais estruturas compreendem em primeiro lugar a captação da água a um ribeiro, a uma mina ou até a um poço e depois o seu transporte até à propriedade. A levada dá aqui lugar a um caleiro em pedra, este quase sempre fixado abaixo da cota do terreno de cultivo ou ligeiramente acima deste, sendo neste caso suportado por pequenos esteios ou colunas. Diferente, embora dentro da mesma perspetiva, foi o que encontramos em Cardielos, freguesia de Viana do Castelo. Aqui, numa propriedade agrícola relativamente sobranceira ao castro de Cardielos, encontramos um caleiro pétreo sobrelevado e com declive acentuado que saca a água a uma mina de monte e a transporta até a uma estrutura térrea circular revestida exteriormente com pedra. Tal estrutura, rampeada numa das faces e aplanada na parte superior, não nos parece que tenha a ver com a rega, mas sim com um qualquer engenho, provavelmente de macerar linho, que aqui terá laborado noutros tempos (Fig. 4).

Se a finalidade e a topografia influem nas soluções técnicas dos sistemas de captação, condução e aprovisionamento de águas, o mesmo se pode dizer a respeito das características e perfis físicos dos diferentes cursos de água existentes na região do Lima. Fruto talvez de um conhecimento acumulado de vários séculos, que veremos adiante, as soluções para captar e transportar a água até ao destino desejado variam em função da linha de água. Destine-se esta à rega ou ao moinho e à azenha, e há aqui uma ou outra diferença menor também, as soluções de captação e transporte são ligeiramente diferentes consoante o curso de água se fixe na planície ou na montanha.

Nas áreas de planície, onde abundam por norma cursos de água mais largos e correntes bem mais civilizadas, a captação da água é feita com recurso à construção de grandes açudes, isto é, a estruturas de pedra seca dispostas em linha recta ou em plano oblíquo e que comunicam com ambas as margens. Tais estruturas, com razoáveis dimensões, quer em altura, quer em espessura, serviam de obstáculo ao normal caudal do rio, obrigando-o a subir (Fortes 2008, 51; Oliveira et alii 1983, 136-139). Rios como o Vez, o Laboreiro, o Vade, o Estorãos, o Trovela ou o Portuzelo, por exemplo, assim como o próprio Lima, este acima do Carregadouro, são ricos nestas estruturas, sobretudo nas fases terminais. Aí abundam diversas albufeiras criadas pelos açudes, muitas das quais transformadas hoje em praias fluviais, assim como os respetivos canais primários abertos na bordadura do rio e por vezes até no próprio leito como acontece em Santar, Arcos de Valdevez. Aqui o canal, cuja água é represada pelo açude, fixa-se no próprio leito do rio Vez e alimenta um velho moinho de rodízio, também ele implantado na borda do rio (Fig. 5, 6). Igual solução fomos também encontrar no rio Lima, no lugar de Milhundos, junto a uma azenha, que sita na freguesia de Santa Maria de Távora, em Arcos de Valdevez. Aqui, entre outros elementos que não vêm agora ao caso37, além do canal – aberto no leito do próprio rio – destaca-se a montante um talhamar que serve inclusive de fachada (Fig. 7).

Além destes casos, outros se podem também relevar aqui, sendo que os mesmos devem ser entendidos sempre como exemplos e nunca como tipologias permanentes, dado que verificamos que num mesmo curso de água podem ocorrer diferentes especificidades. É o caso do açude que encontramos no rio Vez, abaixo da velha ponte medieval de Vilela e que difere do exemplo que atrás descrevemos. Aqui o açude, em pedra seca, liga em linha recta uma margem do rio à outra. O canal, localizado obviamente a montante, afasta-se do curso do rio e levava a água às azenhas que se encontravam a jusante. Igual situação podemos também encontrar no rio Ázere, afluente do Vez. Próximo da bacia terminal, junto da velha ponte romana, encontram-se dois açudes, um mais velho e feito em pedra seca, e outro mais novo que além da pedra encontra-se já revestido com cimento. São ambos relativamente oblongos, isto é, apresentam a meio curvatura ligeiramente pronunciada e dão hoje forma a uma praia fluvial. A captação da água, tal como noutros casos, faz-se aqui também pelo desvio para um canal que depois a conduz até aos moinhos que se encontram a jusante. Diferente foi o que encontramos em São João da Ribeira, Ponte de Lima. Aqui, o açude, que assume até alguma imponência, distingue-se de todos os outros por apresentar a meio um sistema de comporta de abrir e fechar (Fig.8).

As soluções técnicas de captação e transporte de água nos principais e mais largos rios da região do Lima, sobretudo junto das bacias terminais, deverão remontar no essencial à Época Moderna e Contemporânea. Na maioria dos casos a sua construção deverá estar relacionada com a introdução do milho-maís na região, embora se saiba que pelo menos na Época Medieval já por aqui abundavam38. Em todo o caso, não nos parece plausível a possibilidade dos açudes da Época Medieval terem chegado até aos dias de hoje. Tal ideia, sempre possível de ser contestada é certo, surge-nos pela leitura e interpretação de diversos documentos que se encontram no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, assim como no Arquivo Municipal de Ponte de Lima. Dentre os vários casos que poderíamos aqui referir destacámos o requerimento que José Rodrigues de Cerqueira faz em 1887 à Secção Hidráulica de Viana do Castelo com o intuito de “… reparar ou reconstruir o açude no rio Lima que conduz a ágoa aos moinhos existentes na margem esquerda do dito rio e pertencentes ao mesmo requerente” (ADVCT – 2.38, 3-6-40). Pedido idêntico, referente até à mesma freguesia, São Salvador, Ponte da Barca, foi feito poucos anos depois. Em 1893 Maria Luísa Gomes requer, uma vez mais um pedido com o objetivo de “… reconstruir um açude que conduz a água para uns moinhos que possue no sítio do Valle da Fonte na margem esquerda do rio Lima limite da mesma freguesia…” (ADVCT – 2.38-2-7-27). Como se constata a reparação e reconstrução de açudes parece ser prática constante e a este facto não deverá ser alheio os invernos mais rigorosos cuja força das águas levavam por vezes não só estas estruturas como também os moinhos. No Arquivo Municipal de Ponte de Lima encontramos casos e situações em tudo idênticas. Aqui, além dos frequentes requerimentos para a construção de moinhos, azenhas, levadas e minas, releva-se também nos mesmos os pedidos para a construção de novos açudes (Araújo 1991).



Nos cursos de água mais pequenos as soluções técnicas para a captação e transporte de água variam também em função da topografia, dos perfis abruptos dos cursos de água e da finalidade. Aqui, em geral, as soluções não são assim tão distintas das que atrás descrevemos. O que as distingue, sobretudo nas áreas montanhosas, é sua impressionante capacidade de adaptação ao terreno, serpenteando muitas vezes as curvas de nível, assim como a ausência por vezes do açude ou do caleiro, bem como a sua simplicidade e ar rústico, sendo que este resulta do cuidado pouco elaborado depositado na sua realização. No caso específico da finalidade, que interfere e muito com as soluções técnicas adotadas, constatam-se sobretudo duas ocorrências dominantes. Quando a finalidade é apenas a rega o sistema compreende, regra geral, apenas uma levada térrea cuja extensão é variável, consoante a proximidade ou o afastamento da propriedade que se quer regar em relação ao curso de água ou à poça, e a mesma apresenta sistemas para abertura e desvio das águas. Nas leiras situadas a meia encosta, se amanhadas a ficarem perfeitamente planas a rega faz-se com facilidade, mas quando a propriedade apresenta alguma inclinação, muito propícia por exemplo para a rega de lima, torna-se necessário os tais sistemas de abertura e desvio das águas, os quais são tapados com um rodo de madeira ou, mais vulgar até, com um vasculho que mais não é do que uma bola de fetos enrodilhada numa sarapilheira (Aurora 2007, 223). No caso das moagens, as soluções adaptam-se ao sistema implantado no local, isto é, ao moinho de rodízio ou à azenha, quando esta aí existe39. No caso dos sistemas que alimentam os moinhos de rodizio localizados nas áreas montanhosas verificam-se três situações quanto ao caleiro. No primeiro, casos há em que o transporte da água a partir da levada se faz sem a existência de um caleiro entre esta e o cubo do moinho. Na segunda situação, verifica-se precisamente o contrário, isto é, entre a levada e o cubo do moinho existe um caleiro pétreo, sendo que este em função da topografia do terreno pode ser sobrelevado ou não (Fig.9). A terceira situação tem a ver sobretudo com esta última. Em algumas regiões do Lima abundam sistemas terminais de transporte de água que além do caleiro pétreo se distinguem dos demais casos existentes pelo facto de apresentarem cubos de boca circular completamente verticais ou ligeiramente inclinados (Fig. 10 e 11). Ainda a respeito dos sistemas de aprovisionamento e condução de águas até aos sistemas de moagem, uma nota mais. Em algumas áreas do Lima, em virtude da escassez de água que por vezes se faz sentir nos meses do Verão, adota-se o sistema de “poçada” o qual consistia grosso modo em encher uma poça de água para que o moinho pudesse trabalhar (Teixeira 1995, 12-13).
c) A importância histórica da água na região do Lima
Abordamos até ao momento a água do ponto de vista da sua abundância e qualidade física. Como tivemos a oportunidade de dizer, essa abundância e qualidade de nada servem se a água não tiver em si um destino, isto é, se não for aproveitada pelo homem. Ora, na Ribeira Lima, como vimos, a água tem sido um elemento fundamental, pois a mesma foi utilizada para regar as culturas agrícolas, para consumo das populações e para acionar os muitos moinhos e rodas de azenhas que um pouco por todo o lado pintaram a paisagem. Por este motivo, ao longo de vários séculos construíram-se e reconstruíram-se açudes e levadas, caleiros e poços, minas e presas, etc.

O papel e a importância da água antes da introdução do milho-maís tem sido de certa forma menorizado pela historiografia e geografia humana portuguesa. À cabeça desta menorização encontra-se desde logo Bruhnes, para quem o aproveitamento artificial da água em Portugal, sobretudo para rega, nem sequer se colocava pois que as águas da chuva eram suficientes para fazer crescer as culturas agrícolas. Segundo Bruhnes na Península Ibérica existem duas grandes regiões, a Ibéria Húmida, sediada em Portugal, e a Ibéria Seca, esta circunscrita à Espanha, pelo que seria nesta parte que se situariam os grandes sistemas de captação, transporte e aprovisionamento de água para a rega (Ribeiro et alii 2000, 965). Esta ideia preconizada por Bruhnes foi posteriormente contestada por vários autores, entre os quais Herman Lautensach e Orlando Ribeiro (Ribeiro et alii 2000, 965-966). Para estes, ao contrário do que julgara Bruhnes, Portugal encontrava-se dividido em duas grandes áreas: a zona atlântica e a zona mediterrânica, esta caracterizada sobretudo pela prevalência de altas temperaturas e escassez de água o que por si só implicava a construção de sofisticados sistemas de regadio, um pouco de resto à semelhança do que se passava na zona seca do país vizinho (Ribeiro et alii 2000, 965-966).

Abstraindo-nos do que se passa em concreto na área mediterrânica portuguesa, cujas especificidades e impacto do clima estão há muito estudadas, Orlando Ribeiro considerava que a utilização da água para rega na zona atlântica era bastante antiga. Segundo este, aqui, antes do século XVI, “… junto das habitações encontravam-se as cortinhas e as hortas e, perto delas, muitas árvores de fruto. Os lugares fundos e húmidos constituíam as ervagens onde se criava muito gado grosso (…). As águas destinavam-se apenas aos prados e ao linhar, que, (…); longe da importância que hoje têm, conservadas indivisas umas vezes ou compradas e vendidas com as glebes que irrigavam mostra contudo a antiguidade de uma técnica de rega que nada deve aos mouros nem talvez aos romanos” (Ribeiro et alii 2000, 1003-1004). Orlando Ribeiro demonstrava assim, desta forma, não só a antiguidade do aproveitamento da água por parte do homem na zona atlântica em certas culturas agrícolas, como também a existência de um conjunto de costumes com ela relacionada. Contudo, ao circunscrever este aproveitamento artificial somente às hortas e à produção de linho, pois que para ele os cereais eram todos de sequeiro, menorizou o seu papel e a sua importância ao longo do tempo nesta parte portuguesa.

Na esteira desta mesma opinião, talvez influenciados pelas leituras bibliográficas, colocaram-se muitos outros autores. Dentre os muitos que aqui poderíamos citar, destacamos sobretudo Castro Caldas, Jorge Rasquilho e até Jorge Dias e Fernando Galhano cujas obras sobre o tema são por demais conhecidas de todos. Estes autores reconhecem que o aproveitamento da água na zona atlântica é anterior à dominação romana, contudo consideram-na também circunscrita às hortas e à cultura do linho. Jorge Rasquilho Raposo, por exemplo, na sua História da Rega em Portugal, considera que antes da introdução do milho-maís o regadio seria reduzido e estaria limitado somente às pequenas áreas de linho, prado e hortas. Segundo este, tal dever-se-ia ao facto da agricultura anterior aos romanos ser pobre e basear-se fundamentalmente no amanho de terras enxutas localizadas à volta dos castros, onde, entre outros, se cultivavam os cereais. As zonas mais férteis, a dos vales e a das terras baixas, não eram sequer, na sua opinião, utilizadas (Raposo 1994, 29).

Estas opiniões, tendentes todas elas a secundarizar o papel do aproveitamento da água na zona atlântica antes do século XVI, foram colocadas em causa por Carlos Alberto Ferreira de Almeida num pequeno estudo de homenagem a Orlando Ribeiro. Nesse estudo, muito sucinto de resto, Ferreira de Almeida reconhece que “… a dupla maís-regadio é extraordinariamente coincidente, sem dúvida que a expansão do cultivo do maís foi o grande responsável pela exploração das nascentes de água, por meio de minas e de poços de rega (…) mas esta já era muito importante, nesta região, na Idade Média” (Almeida CAF 1988, 65). Assim, no sentido de contrariar esta corrente Ferreira de Almeida saca uma série de argumentos insofismáveis que em certa medida desmentem o muito que se tem dito sobre tema.

Conhecedor profundo da região e da sua história, Carlos Alberto Ferreira de Almeida constata desde logo que “… de modo sistemático, as margens dos rios e de ribeiros e os fundos dos vales do Entre-Douro-e-Minho estão, nos séculos XII e XIII, e mesmo antes, sistematicamente ocupados por campos, agras e vessadas, onde se cultivam o milho-miúdo, os legumes e os linhos” (Almeida CAF 1988, 65). Segundo este autor este interesse pela água e a sua ligação às propriedades agrícolas, sobretudo para a rega e alimentação dos moinhos e das azenhas de então, já aparece de forma explícita na documentação medieval mais antiga pois designações como aquis aquarum, in fontis, cum suis aquis cursiles et retretentes, cum aquis fontium atque torrentium, ou aquis agrarum et sessigas molinarum são recorrentes a quem desfolhe as páginas da Diplomat et Cartae ou do Liber Fidei (Almeida CAF 1988, 65-66). Assim, segundo Ferreira de Almeida, o aproveitamento da água não só era uma realidade como teria inclusive obrigado à construção de “… poças, largos depósitos, habitualmente, térreos, onde a água se acomulava”, sendo que era a partir destas “… que as águas eram conduzidas, devido à sua gravidade, em regos até às parcelas que irrigavam” (Almeida CAF 1988, 66).

Para o aro da região em estudo a documentação medieval portuguesa parece de facto corroborar mais a opinião de Carlos Alberto Ferreira de Almeida do que a dos demais que grosso modo defendem uma menorização do papel da água antes do aparecimento do milho-maís. Tal documentação indicia não só a abundância de água na região como o seu aproveitamento nas culturas agrícolas, assim como a existência de certas práticas e costumes. Exemplos de aproveitamento encontramo-los de forma bastante explícita na inquirição realizada à freguesia de Santa Maria de Vilela, em Arcos de Valdevez, onde se diz textualmente: “… que dam al Rey das aguas porá regar, silicet, da poza do monte a meya. Item, da poza do Longal meia. Item da poza do Freigio meia. Item, dos Ramos Ij. dias da donaa, silicet, feria ijª et feria iiijª. Item, da poza da fonte de Goyna meia. Et todas estas devanditas leiras sum demarcadas, et tragen as os omes desta collatione d`uso…” (PMH, Inquirições de 1258, 288). No que concerne aos costumes, sobretudo aos que respeitam ao uso e à partilha das águas podemos destacar dois casos. O primeiro respeitante à inquirição feita à paróquia de São Pedro do Souto entre outros elementos diz-nos que pelo uso das águas os moradores dos casais de Merloa, Lana e Sortor “… dam cada ano al Rey meyo de pam et de vino et de lino et de legumina, de quanto regam. Item, dam do que nom regam et de estivada tertia…” (PMH, Inquirições de 1258, 393). O segundo exemplo refere-se à importância que estas águas tinham para as populações. Esta importância fica quanto a nós explicita na inquirição feita à paróquia de São Martinho da Gandara, Julgado de Penela, pois que entre outros elementos se dá enfoque à sua partilha: “Item, agua do Rio Covo, de Dominica die ao sol posto ataem feria ijª ao sol posto, é d el Rey e dá a o Mayordomo d el Rey a quem li mais dá por ela. Item, desta collatione dam al Rey cada ano pro ista agua, preter estes devanditos dias, xj teigas de milo pela de Ponte” (PMH, Inquirições de 1258, 403). A mesma importância voltámo-la a encontrar numa outra inquirição, desta feita à paróquia de São João da Ribeira: “… dant pola fonte de Rooriz cada ano al Rey, scilicet, os erdadores do Outeiro ij. teigas pela medida joaneira…” (PMH, Inquirições de 1258, 404).

A documentação medieval, sobretudo as Inquirições de 1258, o Liber Fidei e a Diplomat et Cartae não nos falam somente de rega e de costumes de partilha de água. Na mesma documentação abundam informações relativas à existência de açudes, levadas e caleiros, poças e prezas, assim como a moinhos e azenhas, o que demonstram não só a sua ancestralidade na região como também a sua importância. Tais referências documentais são relativamente abundantes de tal forma que as podemos encontrar em inquirições tão díspares de paróquias que hoje pertencem aos concelhos de Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez. Sem prejuízo de outras referências e passagens veja-se a título de exemplo a inquirição de Santo André da Portela, Arcos de Valdevez, que nos fala na existência de um moinho e de uma levada velha que supostamente o alimentava: “Item, dixerunt que há y el Rey seu Regaengo, scilicet, o monte dos frades, quomo parte pela fonte do Peso, et inde pelo Coto da Vigia, et inde quomo vem aa pedra da levada velia do moyno dos frades” (PMH, Inquirições de 1258, 385). Outro caso ainda. Em Darque a inquirição de 1258 falam-nos da existência de uma levada: “… in agua levada…” (PMH, Inquirições de 1258, 315). E que dizer dos documentos n.º 291 e 457 da Diplomat et Cartae? O primeiro, respeitante ao ano de 1036 diz-nos “… cum sua aqua de aqua levada que ipso agro irrigat…” (PMH, Diplomat et Cartae, doc. 291). O segundo fala-nos na existência em 1067 de um “… molino cum sua levata…” (PMH, Diplomat et Cartae, doc. 457). Em suma, na documentação medieval da região não faltam referências ao uso da água, aos seus costumes de partilha e aos seus sistemas de captação, transporte e aprovisionamento, assim como a moinhos e azenhas. Tal, de resto à semelhança do que Carlos Alberto Ferreira de Almeida defendeu, comprovam aqui não só a existência de tais estruturas muito antes da implantação do milho-maís como também a sua abundância e importância.

Além da documentação medieval também a análise toponímica da região parece evidenciar de forma clara e explicita a importância da água bem antes da introdução do milho-maís em Portugal. Em toda a região do Lima abundam topónimos relacionados direta e indiretamente com o uso e o aproveitamento da água. Tais topónimos, sobretudo nos concelhos de Viana e Ponte de Lima, estudados por Almeida Fernandes e por António Baptista, podem ser agrupados em quatro grandes grupos, a saber: os que se relacionam com técnicas e propriedades agrícolas onde se processava a rega, os topónimos relacionados com nascentes e captação de água, os topónimos referentes a sistemas de transporte e os topónimos indicativos de aprovisionamento de água.

Na área em análise, e baseando-nos nos estudos elaborados por Almeida Fernandes para os concelhos de Viana do Castelo e Ponte de Lima, destacam-se, entre outros, como topónimos indicativos de áreas de regadio e técnicas de rega os termos Torna, Campo Limento40, Campo Limão, Bouça Molhada, Lenta, Lameiro, Prado, Senra, Seara, Bouça de Linhares, Campo das Regadinhas, Campo da Levada, Prado da Cal, Campo de Lamas, Campo de Água, Leira das Presinhas Regadas, etc. Como topónimos relacionados com nascentes e captação de água podem destacar-se os casos de Minas, Bouça Ferida, Penedos d` Augua, Bouça das Fontes, Olho-de-boi, Fonte, Fontelheira, Fonte Cachão, Fonte de Olho Marinho, Sete Fontes, Fonte da Madre, Pena de Olho, Fonte Cova, Fonte da Eira, Redolho, Tornadouro41, Olhinho, Fonte das Sete Bicas, Fonte da Virtude, Fonte do Cano, etc. Topónimos de transporte de água. Entre outros podem destacar-se designações toponímicas como Lavadouro, Levadas Novas, Rego da Pereira, Rego Longo, Chão das Valas, Água Encanada, Cale da Leira, Agualevada, Levada das Searas, Rego do Cardo, Valado, Levada do Mosteiro, Agueiro, Regueira, Cale42, Rio43, Rego de Linhar, Tarrio, Rio Seco, Corga, Córrega, Sorrêgo, etc. Por último, os topónimos de aprovisionamento de água, sendo que estes são também muito frequentes. Sem prejuízo de outros, relevam-se no espaço os nomes de Poça, Presa, Poça da Ándua, Presa da Fonte Branca, Agro da Presa, Presa Velha, Presa de Mourinho, Poças d` Água, Presinha Velha, Leira das Presinhas Regadas, Poço do Ribeiro, Poça da Cale, Tanque, Poça da Regueira, Poça do Linho, Poça do Monte, Poço do Abade, Campo das Poças, Poça da Agrela, Poça de Linhar Morisco, etc.

Boa parte dos topónimos que aqui indicamos, os quais foram recolhidos, analisados e estudados por Almeida Fernandes e António Baptista, aparecem já inscritos na documentação medieval. É o caso por exemplo da expressão Bouça Molhada. Este topónimo podemo-lo ainda hoje encontrar na freguesia de Subportela (Viana do Castelo) e está documentado na inquirição de 1258: “…in Bouza Moliada…” (PMH, Inquirições de 1258, 317). Outro caso que podemos dar é certamente o da fonte do Carvalho em Portela Susã. Na inquirição de 1258 a esta paróquia a propósito da confrontação de uma propriedade diz-se a certo momento que a mesma “… vay se ao rego da boca do Carvaliar…” (PMH, Inquirições de 1258, 403). Além destes dois exemplos, os quais são meramente indicativos das muitas evidências que encontramos na documentação medieval, relevamos um outro, o topónimo Regueira. Este topónimo é frequente na Ribeira Lima e o mesmo pode ser encontrado em várias freguesias. Dentre os vários casos evidenciamos o que se encontra em Darque e que vem mencionado no ano 1086 no Liber Fidei nos seguintes modos: “… in villa Darqui II salinas in illa corte de Regueira…” (Liber Fidei, doc. 294).

Se a documentação medieval e a toponímia nos indiciam a importância da água bem antes da introdução do milho-maís na região o que dizer da Arqueologia, sobretudo para épocas mais recuadas que a própria Idade Média? Será que a dispersão dos vestígios e os estudos arqueológicos realizados até ao momento confirmam uma importância e uso da água para o período romano e anterior? Julgamos que sim, senão vejamos três situações.

O conhecimento arqueológico resultante dos inventários e intervenções realizadas em alguns povoados têm demonstrado que o homem no Lima há muito conhecia os sistemas de captação, transporte e aprovisionamento da água. Tal constatação podemo-la recolher nos complexos mineiros da região, sobretudo em zonas como Vila Mou, Lanheses, Meixedo e Fontão aos quais foram atribuídas cronologias romanas (Almeida CAB 2003, 47; Almeida CAB et alii 2009, 127-139). Aqui, além dos indícios claros de extração mineira, abundam valas térreas profundas que sacavam a água aos ribeiros existentes com o intuito de se proceder à lavagem do minério. Em Meixedo de resto encontramos até uma galeria horizontal fixada na bordadura do rio Seixo e que se relaciona precisamente com este facto (Almeida CAB et alii 2009, 139).

A segunda situação tem a ver com o monte de Roques, monte este onde se encontra implantado um dos povoados castrejos mais importantes da Ribeira Lima (Almeida CAB 2008b, 181-185). Além do sistema defensivo e dos alicerces de umas quantas habitações com planta circular e retangular que aqui existiram e que ainda se podem ver, no local encontram-se também as ruínas de um antigo balneário, o único conhecido na Ribeira Lima (Almeida CAB et alii 2009, 184). Tal sistema, intervencionado há uns anos atrás por Armando Coelho e Tarciso Maciel, compreende os restos da câmara e do corredor (Silva ACF 2004, 115-131). A esta estrutura estaria certamente ligada um engenhoso sistema de captação e transporte de água, hoje imperceptível mas que pouco deveria diferir dos utilizados na rega e no abastecimento dos moinhos e azenhas que posteriormente na região se implantaram. Isto é, a água seria muito provavelmente captada a uma qualquer fonte seminal existente no castro e depois transportada até ao balneário por meio de regos ou caleiros de água.

A terceira situação diz respeito a dois povoados da região que são, grosso modo, muito conhecidos entre os arqueólogos: a cividade de Âncora e a citânia de Carmona. Tanto numa como noutra foram identificadas estruturas relacionadas diretamente com o consumo de água por parte das comunidades locais. Na citânia de Carmona identificou pois a Arqueologia um poço, hoje atulhado, no meio do povoado, enquanto na cividade de Âncora, entre outros elementos, se encontraram várias canalizações, recolectores de água e uma fonte de mergulho (Almeida CAB et alii 2009, 153 e 168).

Estas três situações, estes três indícios arqueológicos, como se pode facilmente percecionar, comprovam a importância e a utilidade da água desde épocas recuadas, pelo menos desde a Época Castreja. Assim, sendo as populações conhecedoras de tal sistema, relacionado com a mineração e o transporte do precioso liquido até aos locais de lavagem do minério ou até ao balneário, seria possível que essas mesmas populações tivessem ignorado os benefícios da água nas culturas agrícolas? Sinceramente parece-nos que não.

Estudos recentes, nomeadamente de João Tereso44, dizem-nos que foi na Idade do Bronze que se introduziram em muitos povoados do Entre-Douro-e-Minho as culturas hortícolas, o linho e os milhos-miúdos, os quais se juntaram por sua vez às culturas de trigo, centeio e cevada já aqui semeados antes disso. No caso das primeiras culturas, as couves e os nabos, assim como as cebolas e o linho, necessitam de água, pelo que a rega a estes se aplicará desde esse período. No caso dos cereais a situação é um pouco diferente. É certo e consensual a ideia dos cereais anteriores ao maís serem todos de sequeiro, contudo tal não implicava que não houvesse necessidade de os regar. Se excluirmos o centeio e o trigo, que não necessitam de facto de água de rega, o mesmo não se passa com os milhos-miúdos. Estes, sobretudo o milho-alvo e o painço, cultivados na região desde a Idade do Bronze, são semeados pela Primavera e colhidos no final do Verão. São espécies com ciclo vegetativo curto que se adaptam a diversos tipos de solos e condições climáticas, mas ainda assim exigem alguma humidade no solo, sobretudo na etapa inicial (Tereso 2010, 67-73). Tal facto notou também Carlos Alberto Ferreira de Almeida que refere inclusive que os milhos-miúdos eram regados com frequência na Idade Média (Almeida CAF 1988, 67). De facto assim parece ser pois que na inquirição realizada à paróquia de São Jorge de Vizela, hoje pertencente ao concelho de Vizela, é isso mesmo que se afirma: “… reguengueiros de milio regato dant médium et de quo non es regato dant tercia…” (PMH, Inquirições de 1220, 10). De resto esta e outras citações extraídas das Inquirições de 1220 por Carlos Alberto Ferreira de Almeida levaram o mesmo a dizer que “… o valor e o interesse pela utilização das águas [estava na Idade Média] no regadio do milho-miúdo…” (Almeida CAF 1988, 67).

Tal ilação, embora não tão explícita, poderá também ser extraída em duas passagens das Inquirições de 1258 que encontramos para o Lima. Entre outras, destacamos novamente à inquirição feita à paróquia de São Pedro do Souto em 1258 e que nos diz que pelo uso das águas os moradores dos casais de Merloa, Lana e Sortor “… dam cada ano al Rey meyo de pam et de vino et de lino et de legumina, de quanto regam. Item, dam do que nom regam et de estivada tertia…” (PMH, Inquirições de 1258, 393). Ora, parece pois que os primeiros eram regados. A segunda, mais explicita até, diz respeito a Beiral do Lima, Ponte de Lima. Nessa inquirição, a certa altura, diz-se claramente o seguinte: “Item, da lagoa iii teigas de milo pola agua…” (PMH, Inquirições de 1258, 406).

Se as citações que encontramos nas Inquirições respeitantes ao território da Ribeira Lima pode oferecer alguma dúvida, o mesmo no nosso entender não se passa com os indícios arqueológicos romanos e castrejos existentes na região. Se é certo que os vestígios castrejos se encontram na maioria dos casos circunscritos aos cumes de certos montes45, como demonstrou Carlos Alberto Brochado de Almeida no levantamento do território que fez para a sua tese de Doutoramento, o mesmo não se pode dizer no que respeita aos inúmeros fragmentos do período romano que frequentemente vêm à superfície nas leiras que se desenvolvem a meia encosta. Locais como Mondim e Perpescoço em Santa Leocádia de Geraz do Lima, ou Prazil, na freguesia da Facha, concelho de Ponte de Lima, são exemplos disso mesmo (Almeida CAB 2003, 317). Aqui, como noutros pontos da Ribeira Lima, boa parte das propriedades agrícolas desenvolvem-se a meia encosta, em pequenas leiras e socalcos. O facto destas propriedades se desenvolverem num terreno em declive – que foi mormente arroteado e aplanado para se tornar produtivo – leva a que a água não seja naturalmente abundante no solo. Como tivemos a oportunidade de dizer atrás, algures neste estudo, por força da gravidade a água proveniente da pluviosidade segue para os rios. Estas águas chegam ao Lima através das falhas geológicas, que aproveitam para formar os leitos dos rios e dos regatos, mas também pelos níveis freáticos. Daí que as águas das chuvas, das minas e das poças quando aplicadas na rega destas leiras rapidamente as deixam e escorram na direção da bacia hidrográfica. Este aspeto é quanto a nós de extrema importância pois que ele se constitui como o fundamento das minas, dos poças e das presas que se encontram na região do Lima. A esmagadora maioria destas estruturas encontra-se pois nas propriedades que se desenvolvem a meia encosta e podem ser contemplas em locais tão díspares como Santa Maria e Santa Leocádia de Geraz do Lima (Viana do Castelo), Beiral do Lima (Ponte de Lima), Ermida (Ponte da Barca) ou, entre outros, no lugar de Cidadelhe, em Lindoso. De resto a ideia que temos nem sequer é nova pois que no fundo trata-se de uma constatação do que já Carlos Alberto Ferreira de Almeida pensava, só que a respeito de um caso muito concreto: Vila Maior, em Santa Maria da Feira. Aí, este autor verificou que as poças e presas existentes correspondiam grosso modo aos terrenos mais antigos enquanto os poços de rega se relacionavam com os novos, estes adstritos à cultura do maís (Almeida CAF 1988, 68-69). Ora não é isso que se verifica também na Ribeira Lima? É que a maioria dos poços de rega situam-se nas zonas baixas e planas enquanto as presas e as poças se fixam na encosta.

É certo que muito havia ainda a dizer a este respeito. Contudo, em virtude da escassez de espaço a que estamos sujeitos, julgamos ter elencado pelo menos alguns argumentos e opiniões que contrariam a menorização do papel da água antes da introdução do milho-maís. Quanto a nós, como ficou explicito, e corroborando da opinião de Carlos Alberto Ferreira de Almeida, a água já desempenhava um papel importante na região muito antes da introdução do milho americano. Se os argumentos e transcrições de Ferreira de Almeida não oferecem dúvidas em relação à Idade Média, julgámos que essa importância também se aplica a épocas anteriores, nomeadamente à Romana, Castreja e Bronze. É possível aí que os sistemas não fossem tão abundantes nem tão sofisticados, contudo parece impossível, até pelos indícios arqueológicos atrás relatados, que o homem da região do Lima não conhecesse a utilidade da água. Certo no entanto é também o facto de esta ter sido nessa altura adstrita somente à rega das hortas, dos linhares e dos milhos-miúdos, pois a sua utilização na moagem não deveria aplicar-se tal é a profusão de moinhos manuais que nos vários povoados Calcolíticos, Bronze e Ferro, têm sido encontrados.

Em suma, dentro do que se disse, parece-nos lógico e claro que o triunfo do milho-maís na região, sobretudo a partir do século XVII, se deveu não só à abundância de água e de lameiros nos vales e terras profundas do Lima, como também a um conhecimento profundo do aproveitamento da água alcandorado em práticas e costumes bem mais antigos do que aquilo que se pensa.

III -

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