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SISTEMAS TRADICIONAIS DE MOAGEM NA REGIÃO DO LIMA – origens, evolução e caracterização
A agricultura na região do Lima, de acordo com o conhecimento científico atual, surgiu em meados do V milénio a.C., e a ela se associou, logo nos primeiros tempos, o cultivo dos cereais, designadamente o trigo e a cevada74. A produção destes cereais, tal como noutras partes do globo, onde a agricultura fez também a sua aparição, destinar-se-ia à produção de papas e de pão, estes incorporados agora na dieta alimentar das comunidades agro-pastoris que lentamente foram abandonando as práticas e os costumes paleolíticos. Tal destino porém – a fabricação de papas e de pão, este provavelmente mais recente que o primeiro – implicava o prévio descasque e esmagamento do grão, pelo que o início da moagem do cereal na região do Lima deverá remontar a este período. Assim, como objetivo do presente trabalho propõem-se, neste capítulo, a identificação, a evolução e a caracterização do ponto de vista arqueológico dos sistemas de moagem aqui dominantes.

À luz do conhecimento arqueológico atual sabemos que as primeiras comunidades agro-pastoris socorreram-se essencialmente de duas práticas para moer o cereal, a saber: o ato de esfregar e a trituração. O ato de esfregar era feito primitivamente com recurso a duas pedras, uma fixa e côncava, e outra móvel, o rebolo, normalmente pequeno, polido e afeiçoado de maneira a que o mesmo pudesse ser agarrado com ambas as mãos (Fig. 12 e 13). O seu funcionamento era de resto muito simples: o cereal, depositado na parte côncava, era esfregado com o rebolo através de um movimento contínuo de vaivém, resultando com o mesmo a farinha. Quanto ao ato de triturar o mesmo era feito com recurso a um almofariz e a um pilão (Fig. 14). Este sistema implicava pois a existência de uma pia côncava, o almofariz propriamente dito, normalmente pequeno, circular ou semicircular e relativamente profundo, e um pau, isto é o pilão. Assim, o cereal – depositado sobre a pia – era triturado por um pilão através de batidas sucessivas. Em resumo, destes dois atos, que têm em si a mesma finalidade, isto é, a transformação do grão em farinha, resultaram pois dois instrumentos complemente distintos: a mó de rebolo e o almofariz (Oliveira et alii 1983, 12).

Estes dois sistemas de moagem, primitivos é certo, pois ambos aparecem no contexto arqueológico dos primórdios da agricultura, têm disputado entre si a primordialidade cronológica e despertado com isso acesa discussão no seio da comunidade científica. No caso da investigação portuguesa as posições assumidas quanto à primordialidade de um ou outro sistema, ou até dos dois em simultâneo, podem, grosso modo resumir-se no essencial a três. A primeira, preconizada por um conjunto de investigadores, entre os quais se contam Jorge Dias e Mário Cardoso, considera que o sistema de moagem mais antigo passava pelo ato de esfregar, logo as mós de rebolo e vaivém que aparecem nas estações arqueológicas são mais antigas que os sistemas baseados na trituração (Oliveira et alii 1983, 11). A segunda corrente sobre o tema, que tem como figura de proa Nelson Borges, defende precisamente o contrário, isto é, para esta o almofariz é, em relação à mó de rebolo, cronologicamente mais antigo (Borges 1981a, 43)75. Posição mais conciliadora têm Ernesto Veiga de Oliveira, Benjamim Pereira e Fernando Galhano. Para estes investigadores é provável que tanto um sistema como o outro sejam cronologicamente contemporâneos pois os mesmos aparecem nas estações arqueológicas. Nesse sentido, estes especialistas colocam a possibilidade de ambos os sistemas serem complementares, isto é, o almofariz seria utilizado no descasque prévio do grão e numa trituração mais grossa do mesmo, enquanto o rebolo estaria destinado a uma moagem mais fina e cuidada (Oliveira et alii 1983, 11).

A discussão em torno do sistema mais antigo de moagem, patente nas três posições que sucintamente descrevemos, apesar de lógicas e fundamentadas não é capaz de solucionar por si o problema. É provável até que nunca se venha a descobrir qual foi de facto o sistema mais antigo de moagem utilizado pelas primeiras comunidades agro-pastoris, contudo, quanto a nós, as raízes de tais sistemas não se encontram nos primeiros tempos da agricultura mas nos tempos anteriores a esta.

O ato de esfregar, tal como o de triturar, numa perspetiva redutora e até primária, é inerente ao ser humano. A ele recorre frequentemente o homem desde as suas origens, através da dentição para esfregar, triturar e moer os alimentos que leva à boca. Assim, é possível que o homem tenha partido da sua realidade biológica para produzir instrumentos que o ajudassem a moer aquilo que metia na boca. Tais instrumentos, sobretudo aqueles que são feitos em pedra, são bem conhecidos dos arqueólogos que, grosso modo, lhes atribuem cronologias paleolíticas.

Na área em estudo, a bacia hidrográfica do rio Lima, abundam instrumentos líticos paleolíticos. Tais instrumentos pressupõe técnicas de percussão, esfregamento, trituração e moagem, ainda que esta última não se refira ao cereal. As comunidades paleolíticas que aqui se instalaram produziram pois lascas, núcleos, pontas de seta, trituradores e, entre outros, bifaces, estes de resto os mais abundantes na região, sobretudo nas praias de Carreço, Afife e Rodanho. Tais instrumentos, de acordo com os estudos elaborados por diversos especialistas no assunto, eram utilizados nas atividades cinegéticas e piscívoras, assim como na preparação do peixe, no retalhamento da carne dos cervídeos caçados, no tratamento das suas peles e no esmagamento das sementes mais grossas que ingeriam (Almeida CAB 2008b, 51). Em suma, os atos de moer, triturar e esfregar são mais antigos que os primórdios da agricultura.

Do exposto aqui fica pois claro, quanto a nós, que os sistemas primordiais de moagem de cereal resultam de conhecimentos e práticas anteriores à agricultura, contudo não se julgue, pelo exemplo que aqui demos, que tal evolução se deu no seio das comunidades agro-pastoris que se estabeleceram em torno do Lima. Como se sabe, os sistemas de moagem são muito mais antigos que a agricultura aqui, pois os mesmos surgem no registo arqueológico das primeiras aldeias neolíticas do Médio Oriente, as quais datam sensivelmente do décimo e nono milénio a.C. (Toussaint-Samat 2009, 116). Assim, os sistemas primordiais exumados nas estações arqueológicas da região do Lima não resultam de uma qualquer evolução de pensamento, mas sim da importação de um conhecimento há muito praticado noutras áreas do globo.

Tal como noutros pontos do país e áreas do globo, os sistemas primordiais de moagem de cereal encontrados na região do Lima são, grosso modo, condizentes com o ato de esfregar e triturar. A dúvida porém, no que respeita a saber qual é o sistema mais antigo, ou se são os dois contemporâneos nas suas origens, resulta fundamentalmente da falta de informação arqueológica. Como se sabe, a Arqueologia do século XIX e de boa parte do século XX preocupou-se mais com o artefacto do que com a escavação e o registo científico e metódico das estações. Daqui resultou pois a falta e a omissão de informação, sobretudo de cronologias e locais de proveniência de muitos objetos que se encontram à guarda do Museu Municipal de Viana do Castelo. É, entre outros, o caso dos almofarizes. Sabemos que existiram nesta região, pois encontram-se no Museu Municipal de Viana do Castelo, calculámos até que os mesmos se relacionam como os povoados da região, mas desconhecemos por completo, em alguns casos, as suas cronologias e se são ou não contemporâneos das mós de rebolo no que às origens diz respeito. Independentemente deste aspeto, tendo em conta o conhecimento arqueológico produzido até ao momento na região, é possível traçar, com razoável certeza e segurança, um quadro cronológico e evolutivo dos sistemas de moagem na região do Lima, assim como apontar as suas principais características.

A agricultura nesta região foi antes e depois da cultura Castreja, pelo menos até ao advento da romanização, uma atividade de subsistência76. Assim, e no que aos sistemas de moagem diz respeito, sabemos, em concreto, que o modelo de mó manual, a mó de rebolo e vaivém, é o mais utilizado nesta região até pelo menos ao século II a.C., tal é a sua quantidade nos registos arqueológicos até esse período (Almeida CAB et alii 2009, 107).

Em termos concretos, os vestígios mais antigos de moagem baseados nos sistemas primordiais atrás descritos, remontam pelo menos ao Calcolítico e à Idade do Bronze. Tais sistemas, sobretudo as mós de rebolo e vaivém, aparecem em alguns povoados desse período, nomeadamente em Bitarados (Esposende), Regueira (Ponte de Lima), e Penedos Grandes, no concelho de Arcos de Valdevez (Bettencourt et alii 2003, 33; Bettencourt 2004a, 96; Bettencourt et alii 2000-2001, 209). Além dos exemplares encontrados nestas estações merece igualmente destaque um outro exumado numa mamoa sediada no lugar do Monte, em São Paio de Antas, Esposende, localidade que fica nas proximidades da Ribeira Lima pois dela dista apenas 15 km. No local, conhecido também por Agra de Antas, encontrou Brochado de Almeida nos anos oitenta junto a uma mamoa o fragmento de “… uma mó de sela bastante desgastada pelo muito uso que teve…” (Almeida CAB 1986, 43). De acordo com este especialista é possível que a mesma provenha da couraça ou mesmo da câmara funerária, que se encontra violada, pelo que a ser verdade será porventura um dos mais antigos vestígios de moagem na região. Apesar desta possibilidade, fica-nos contudo uma dúvida: a que época pertencerá este fragmento de mó? Ao Calcolítico ou à Idade do Bronze? É que na região várias são as mamoas de Época Calcolítica reutilizadas durante a Idade do Bronze (Almeida CAB 1986, 39-59). Em todo o caso, embora subsistam dúvidas quanto à sua cronologia, dois pontos de análise podem ajudar ao seu esclarecimento. Em primeiro: se a mó fizer parte da couraça então é provável que a mesma esteja relacionada com o momento da sua construção. O segundo ponto tem a ver com um outro caso, de resto bastante semelhante a este. Em Canidelo, Vila do Conde, anos antes do achado do Professor Brochado de Almeida, recolheu o Abade Sousa Maia também uma mó junto a uma antela – Antela das Alminhas (Maia 1908, 619-625). Fora da Ribeira Lima mas enquadrado no aro territorial do Entre-Douro-e-Minho, pois o mesmo não nos é indiferente neste estudo, entre outros casos, destacamos o povoado da Cimalha, em Sernande, Felgueiras, em cuja intervenção arqueológica tivemos a oportunidade de participar. Neste povoado, com datação atribuível ao Bronze Médio e Final, apareceram algumas mós de rebolo e vaivém bastante rudimentares, uma delas in situ, isto é, no interior de um silo de armazenamento de cereal (Fig. 15) (Almeida CAB et alii 2008a, 32)77. Enfim, à falta de melhores dados para os primeiros tempos da moagem na região do Lima, sabemos, pelo menos, que entre o Calcolítico e a Idade do Bronze já se utilizavam para moer o cereal as mós de rebolo.

A predominância da mó de rebolo e vaivém não se circunscreve somente ao Calcolítico e à Idade do Bronze. Este sistema perdurou no tempo e o mesmo aparece no registo arqueológico de vários povoados conotados com a Idade do Ferro e com a própria Idade Média (Almeida CAF et alii 1981; Almeida CAB et alii 2009, 137 e 173). Exemplos disso mesmo têm sido pois recolhidos em diversos povoados intervencionados (Fig. 16). Em Santa Leocádia de Geraz do Lima, por exemplo, no centro paroquial e social, encontra-se exposto o fragmento de uma mó de sela exumada no castro do Peso e que data da Época Castreja (Viana 2009, 206). Em Santa Maria, entre outros artefactos exumados, o destaque vai para uma pequena mó naviforme altimedieval (Fig. 17). Esta peça, que hoje se encontra hoje exposta na sala-museu da igreja, tem similitudes com outros exemplares ibéricos, nomeadamente com os de Época Castreja o que atesta a longa diacronia e vigência deste sistema. O “moleiro”, ajoelhado, aconchegaria entre as pernas a mó e com o rebolo esfregava o cereal resultando daí a farinha (Oliveira et alii 1983, 12). Por último, dentro da mesma perspetiva, o caso de Santo Estevão, na freguesia da Facha, Ponte de Lima, um povoado com larga cronologia, pois o mesmo estende-se da Idade do Bronze à Idade Média78. Aqui, de acordo com a equipa de arqueólogos que escavou esta estação, boa parte das mós oblongas de vaivém79 foram encontradas nos níveis castrejos e medievais (Almeida CAF et alii 1981, 21 e 35). Em suma, de acordo com os resultados obtidos em algumas estações arqueológicas da região é possível afirmar com razoável segurança que o sistema de moagem baseado no acto de esfregar perdurou pelo menos até à Idade Média.

Além das mós de rebolo e vaivém, também os almofarizes têm feito a sua aparição no registo arqueológico, ainda que em menor número. Apesar da limitação de dados, que resulta como vimos do desconhecimento cronológico e proveniência de alguns exemplares que se encontram à guarda do Museu Municipal de Viana do Castelo, sabemos da existência de uns quantos. Desde logo o belo artefacto castrejo extraído na “Cidade Velha” (Fig. 18), e depois um almofariz medieval em vidrado de chumbo com tons verdes e com cerca de 50 cm de diâmetro e 30 de fundo e que foi recentemente encontrado numa intervenção arqueológica realizada junto à igreja de Santa Maria de Geraz do Lima80. Um outro caso tem a ver com uma escavação arqueológica realizada nos anos 80 do século passado em São João de Ester (Chafé) e que foi dirigida por Abreu Lima. Do local, sede de uma pequena paróquia da Baixa Idade Média, além dos alicerces de casas postos a descoberto, da extração de alguns esqueletos ainda intactos e de umas quantas moedas e fragmentos cerâmicos, alguns romanos até, retirou-se um almofariz (Almeida CAB 2008b, 38). Além destes casos releve-se na investigação arqueológica o achado em alguns povoados da região de pias circulares cavadas na rocha e que muito provavelmente serviram como almofarizes. Entre outros exemplos, destacamos aqui a pequena “… pia circular…” cavada na rocha posta a descoberto pela equipa que participou nas escavações do castro São Estevão (Facha, Ponte de Lima) e que tem bastantes similitudes com as que se encontram na cividade de Âncora (Almeida CAF et alii 1981, 35). Fora da região do Lima, entre outras estações arqueológicas de relevo, destaque para os resultados obtidos em Monte Mozinho, Penafiel. Aqui, entre outros objetos exumados, muitos dos quais de elevada qualidade, merece-nos destaque os “… almofarizes de paredes fortes, internamente estriadas ou ásperas, [onde] esmagam-se e fazem-se preparados…” (Soeiro 1999, 29). Enfim, como se vê, o ato de triturar, mesmo que não aplicado em certos casos à moagem de cereais, era bem conhecido.

A partir do século II a.C., de acordo com o registo arqueológico da época, surge na região do Lima um novo sistema e mecanismo de moagem que é em tudo diferente ao que até então aqui se fazia e praticava. Falámos pois, muito claramente, no advento do moinho manual rotativo, também conhecido como moinho romano e que grosso modo não figura nas estações arqueológicas anteriores a este período (Almeida CAB et alii 2009, 137). Esta tipologia de moinho, que se acredita ter surgido no Próximo Oriente nos finais do II milénio a.C., foi divulgada na Europa, primeiro pelos gregos e depois pelos romanos, pelo que no caso vertente da região em estudo deverão ter sido os segundos a introduzi-los aqui (Almeida CAB et alii 2009, 137). Trata-se, no essencial, de um sistema constituído por duas peças, duas pedras circulares, picadas, polidas, sobrepostas e unidas entre si por um eixo de modo a evitar que o dormente – pedra circular inferior – descarrilasse. Na pedra circular superior, isto é, no movente propriamente dito, colocava-se, sobre a parte superior ou lateral81, num orifício ou cavidade circular aberto para o efeito, um cabo de madeira que assumia a função volante (Fig. 19) (Oliveira et alii 1983, 25). Desta forma, no essencial, este sistema introduziu duas novidades. Em primeiro, o movimento giratório assegurado por um movente através de um cabo de madeira e em segundo a moagem obtida pelo método abrasivo e que era completamente oposta aos atos de esfregar e triturar típicos das mós de rebolo e vaivém e dos almofarizes82.

Quando comparado o funcionamento dos três sistemas de moagem utilizados pelo menos até ao advento dos moinhos hidráulicos, constata-se que o moinho manual rotativo é de longe o mais fácil de manejar. Tal sistema exigia um esforço humano menor e permitia que se obtivesse um produto final muito melhor, isto é, uma farinha mais fina e cuidada. Estas serão porventura, quando aliados ao aumento da superfície agrícola e cerealífera, sobretudo no decurso da dominação romana e depois dela, as principais razões que justificam o sucesso e a abundância destes mecanismos de moagem em várias estações arqueológicas da região do Lima. Exemplos disso mesmo, sobretudo para o período romano, recolheram-se em povoados como a “Cidade Velha” (Fig. 20), a cividade de Âncora (Fig. 21), o castro de Santo Estevão, o castro do Peso (Santa Leocádia de Geraz do Lima), o castro do Vieito (Perre), o lugar do Paço e do Outeiro (Alvarães), assim como nos sítios da Padela e São João (Anha)83. Fora da Ribeira Lima, mas ainda assim dentro do aro territorial do Entre-Douro-e-Minho, sem prejuízo de outras estações arqueológicas, destacamos os exemplares obtidos nas citânias de Briteiros e Sanfins, assim como em Monte Mozinho (Soeiro 1999, 23)

A longevidade deste novo sistema de moagem – o moinho manual rotativo – parece ser um facto, sobretudo no Período Altimedieval e Medieval. A afirmação de tal ideia advém-nos dos resultados obtidos em algumas intervenções arqueológicas realizadas na região, senão vejamos.

Santa Maria de Geraz do Lima, outrora sede do antigo concelho de Geraz, compreende no espaço circundante com a igreja vestígios de várias épocas, os quais vão do Castrejo, passam pelo Romano e, em termos ocupacionais e vivenciais do espaço, encerram-se na Idade Média. Aqui abundam fragmentos cerâmicos, sepulturas, muros e alicerces de casas circulares e retangulares, as quais nos deixam adivinhar um povoamento deveras ancestral e contínuo (Almeida CAB 2008a, 291-293). Sem prejuízo de outros elementos, numa intervenção arqueológica aqui realizada em 2011 por João Soares e coordenada pelo Professor Brochado de Almeida, relevam-se no registo arqueológico Altimedieval e Medieval cerca de vinte e um silos de armazenamento de cereais cavados no solo, e alguns moinhos manuais rotativos, este agora conotado com a Alta e a Baixa Idade Média. Em suma, um caso, um exemplo portanto que atesta perfeitamente a longevidade deste sistema e certamente muitos outros existirão mas que só poderão advir de futuras intervenções arqueológicas.

A popularidade que o moinho manual rotativo romano logrou ter entre as comunidades agrárias da Ribeira Lima e áreas circundantes não invalidou o aparecimento de outros sistemas e mecanismos de moagem na região. É o caso, por exemplo, das atafonas84, que sabemos terem aqui existido (Fig. 22). As referências documentais, tal como os vestígios arqueológicos, são quase nulos, contudo com algum esforço é possível identificar e provar não só a sua existência como também os seus eventuais locais de implantação. Tais indícios encontram-se patentes em alguns topónimos e documentos, estes sobretudo referentes à Época Moderna. A respeito destes segundos – os documentos – veja-se o que os mesmos nos dizem sobre a porta oriental da antiga muralha da cidade de Viana e que ficava situada ao fundo da rua de São Pedro. De acordo com o Padre Carvalho da Costa em 1706 esta porta – a oriental – tinha duas designações, a saber: Porta da Piedade e Porta das Atafonas (Costa 1706, 190; Aurora 2007, 91). Ora é precisamente esta última denominação que nos interessa, pois a mesma não só confirma como valida a existência destes engenhos de moagem na região85. Outra informação que recolhemos na bibliografia consultada diz respeito a Santa Leocádia de Geraz do Lima. Entre outras informações sobre os sistemas de moagem existentes nesta freguesia, o padre João Cunha Viana, na sua monografia, refere ter aqui laborado – no lugar de Supipe – até meados do século XX “… um moinho de tração animal…” (Viana 2009, 209).

Além da atafona, certamente que menos dominante por aqui quando comparada com outros sistemas de moagem, destacou-se na região um outro mecanismo, sendo que o mesmo teve aceitação considerável no seio da comunidade. Em termos concretos, falámos das denominadas moinholas86, também conhecidas por outros nomes em algumas regiões do país, um tipo de moinho manual rotativo que em certa medida consubstancia a evolução que o moinho manual rotativo romano teve (Oliveira et alii 1983, 31). Este sistema, de acordo até com a bibliografia especializada sobre o tema, foi muito popular entre nós desde a Época Medieval até ao século XX e era presença constante entre o mobiliário da casa (Gonçalves 2007, 62; Oliveira et alii 1983, 31). Tal sistema estaria certamente relacionado com as necessidades quotidianas da casa em farinha e constituía-se como uma alternativa viável aos moinhos de água, sobretudo no Inverno e no Verão, épocas em que estes eram muitas vezes obrigados a parar em virtude do excesso ou falta de água (Oliveira et alii 1983, 31). Além deste aspeto, certamente que importante e determinante, releva-se também o facto de se ter de pagar importantes e consideráveis maquias ao moleiro pela moagem do cereal no moinho de água, pelo que a existência deste sistema em cada casa representava uma importante poupança (Oliveira et alii 1983, 31). Apesar desta evidência, certo é que este engenho desapareceu praticamente dos hábitos e das casas dos limienses como bem o refere o padre João Cunha Viana a respeito de Santa Leocádia de Geraz do Lima: “Estas mós vulgarizaram-se, e chegaram mesmo aos nossos dias, de que podemos ver ainda um ou outro exemplar junto de antigas casas agrícolas” (Viana 2009, 207).87

De todos os sistemas e engenhos de moagem que existiram na Ribeira Lima ou que se sucederam ao longo do tempo, o moinho de água foi de longe o que maior aceitação teve entre a comunidade local, ainda que tal não tenha sido imediato. Este sistema, sobretudo o moinho de rodízio, que muito provavelmente resulta da evolução do moinho manual rotativo, é, segundo a maioria dos investigadores, uma invenção grega e tem cronologia assegurada no século I a.C., embora se admita que possa ser anterior. A ele se refere num epigrama datado do ano 85 a.C., Antipatros de Tessalónica e depois deste muitos outros autores clássicos, entre os quais Vitrúvio, que os desenha e descreve, e Estrabão, este a propósito do espanto que os soldados de Pompeu tiveram quando se depararam com “…um moinho de grão movido a água…” junto ao palácio de Mitridates, rei do Ponto (Oliveira et alii 1983, pág. 69; Vitrúvio, Livro 10). O segundo tipo de moagem hidráulica que abunda na Ribeira Lima é a azenha de roda vertical. Esta, também conhecida como moinho romano, é invento relativamente mais recente e a sua aparição no Mundo Romano resulta, muito provavelmente, de uma evolução do moinho de rodízio, pois que de acordo com Vitrúvio, na sua obra De Archichetura, data do século I a.C., mais concretamente do ano 25 (Oliveira et alii 1983, 70; Vitrúvio, Livro 10).

Apesar de algumas dúvidas quanto à ancestralidade destes sistemas de moagem, sobretudo em relação ao moinho de rodízio, pois Rivals admite que o mesmo pode ter origem no século IV ou III a.C., a verdade é que estes já figuravam na paisagem de várias de regiões conhecidas por altura do câmbio da Era (Rivals 1967, 73). Quem o diz são os autores clássicos e a arqueologia que os identifica e confirma em várias áreas do Mediterrâneo assim como em regiões tão díspares como a China, a India e o Norte da Europa, mais concretamente na Jutlândia, Dinamarca (Oliveira et alii 1983, 70; Rivals 1967, 70). Pese embora este aspeto, a difusão do moinho de água, certa e corroborada já no câmbio da Era, parece não ter sido acompanhada por uma grande popularidade. Nos primeiros tempos, de acordo com os relatos da época este novo sistema de moagem foi olhado com desconfiança no espaço romano e considerado inútil pois que a moagem era nesse período levada a cabo por escravos (Oliveira et alii 1983, 70; Rivals 1967, 73).

Independentemente deste aspeto sabe-se hoje, graças sobretudo à Arqueologia, que o moinho de água foi lentamente conquistando o seu espaço no Mundo Romano. Entre outros casos, foram detetados vestígios de moinhos de água em Barbegal, localidade próxima de Arles, na antiga província Narbonense, assim como no atual território português, mais concretamente em Beja, no sítio da Represa, onde abundam sinais de uma ocupação romana, e em Conimbriga (Oliveira et alii 1983, 70; Rivals 1967, 78; Dias 1964, 40; Brun 1997, 30-31; Almeida CAB et alii 2009, 173). Além destes e de outros casos, também a documentação histórica, sobretudo a que se refere aos inícios da Alta Idade Média, os refere frequentemente no espaço Ibérico. Referimo-nos aqui em concreto ao Código Visigótico, que entre outras premissas, não só dá particular atenção ao usufruto e partilha da água como refere a existência de vários moinhos de água, sobretudo e sem prejuízo de outras regiões, em San Millán de La Cogolla, na atual província de Castela e Leão (Castellón 1997, 38).

Os dados obtidos pela Arqueologia e as referências documentais inscritas no Código Visigótico levou, entre outros especialistas, Pierre Brun a considerar que “… não há razão nenhuma para que não tenha existido um grande número de moinhos hidráulicos” espalhados por todo o território romano, o que inclui necessariamente também o espaço português (Brun 1997, 30-31). Esta posição, que parece lógica, é no entanto contestada por Brochado de Almeida para a região do Lima em concreto. Segundo este investigador, se é certa a presença de moinhos de água de Época Romana na Península Ibérica, sobretudo em várias partes da Lusitânia e da Bética, é muito pouco provável a sua presença a norte, nomeadamente nos antigos territórios pertencentes a Bracara, Lucus e Asturica, pois a Arqueologia não deteta aqui quaisquer estruturas do género. De acordo com este investigador nos níveis arqueológicos romanos e altimedievais das estações do Lima figuram essencialmente os moinhos manuais rotativos. Tal preferência por este sistema explica-se, segundo Brochado de Almeida, pelo facto de serem extremamente populares entre a população, por serem mais fáceis de manejar e por poderem trabalhar ao longo de todo o ano ao contrário do moinho de água que nos meses estios e invernosos é obrigado a parar por falta de água ou por excesso da mesma. Por outro lado, segundo ainda este investigador é provável que os custos com a moagem do cereal no moinho de água tenha também desempenhado um papel importante na preferência pelo moinho manual rotativo que teve como vimos em Santa Maria de Geraz do Lima por exemplo uma utilização até períodos tardios da própria Idade Média (Almeida CAB et alii 2009, 174-175, 177-178).

A lenta introdução do moinho de água na paisagem do Lima – parece ter sido isso que aconteceu – poderá também justificar-se com a conjuntura política e económica do final do Mundo Romano e do período subsequente. Como se sabe, estes períodos, de forte instabilidade política e de insegurança constante, motivados primeiro pela vinda dos Suevos, depois pelos Visigodos e por último pelas incursões muçulmanas, são marcados aqui por um regresso aos antigos povoados de Época Castreja como bem o comprova os níveis altimedievos da “cidade Velha” de Santa Luzia, do castro São Lourenço e de Santo Estevão por exemplo (Almeida CAB et alii 2009, 9-30).

Apesar das vicissitudes políticas, económicas e sociais que retraíram uma provável entrada do moinho de água na Ribeira Lima durante a dominação romana, a verdade é que o mesmo aparece referido em documentos altimedievos88. A sua contabilidade é impossível de fazer, contudo para o período subsequente, isto é, para a Idade Média Plena, é possível ter uma ideia aproximada do mesmo. Tendo como ponto de partida a leitura das Inquirições de 1220 e 1258 pode dizer-se que o moinho de água já figurava na paisagem da Ribeira Lima e que o mesmo encontrava-se disperso pela região, isto é, pelas áreas de Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez. Em Viana do Castelo sabemos da existência de pelo menos dois moinhos na Época Medieval, um dos quais sediado no lugar de Portuzelo, Meadela, onde de resto ainda se encontram algumas estruturas de moagem só que mais recentes: “Item, in Moyno de Gosendo jaz bouza, unde dam cada ano al Rey, quer ayam quer nom, de censoria j. teiga de pan per filio set netos de Pedrino” (PMH, Inquirições de 1258, 332). Em Ponte de Lima, sem prejuízo de outras citações, porventura mais antigas até, sabemos que existia uma “… azenia d`ommes foreiros d`el Rey…” em Arcozelo (PMH, Inquirições de 1258, 339)89, na Facha três moinhos pelo menos, o “… Moyno do Tacho…”, o “… Moyno da Portela…” e um outro sem nome (PMH, Inquirições de 1258, 344), em Santa Maria de Rebordões o “… moyno de Petro Afilado” (PMH, Inquirições de 1258, 345), e em Vitorino das Donas “… in Agrelo j. moyno…” (PMH, Inquirições de 1258, 345), etc. No aro territorial de Arcos de Valdevez pode-se destacar entre outros, em São João de Rio Frio, o “… moyno dos freires…”, assim como em Santo André de Portela, e este é importante pela “… pedra da lavada velia do moyno dos frades…” (PMH, Inquirições de 1258, 382 e 385)90. Em Ponte da Barca, além do moinho de Paredes, que estava localizado em São Tomé de Vade, merece destaque a seguinte referência por se encontrar no plural: “… Item, in Moynos, j. leira…” (PMH, Inquirições de 1258, 407 e 414). Em suma, se somarmos todas as referências compiladas nas Inquirições de 1258 obter-se-á um número próximo da vintena91. Apesar deste aspeto, é provável que o seu número fosse superior uma vez que as Inquirições de 1220 e 1258 procuram como se sabe aferir os territórios onde o rei tinha jurisdição, pelo que muitos outros moinhos de água poderão ter sido omitidos no inventário. Independente disso, certo é que o moinho de água não só vingou na região como se tornou popular e dominante na paisagem da região do Lima, sobretudo após o século XVI, aquando da introdução do milho-maís. Quem o diz e confirma são os relatos das Memórias Paroquiais da região compiladas como se sabe em 1758 para o Dicionário Corográfico e Geográfico do padre Luís Cardoso.

De acordo com o cadastro de moagens existente no Arquivo Hidrográfico do Porto nos anos quarenta do século passado havia cerca de 2041 engenhos de moagem92 de cereais na bacia hidrográfica do rio Lima93. Tais engenhos, vulgarmente denominados por azenhas e moinhos, distribuíam-se no espaço do seguinte modo, a saber. Em Viana do Castelo, dentro da bacia hidrográfica do rio Lima existiam 235 engenhos de moagem dos quais 173 são moinhos de água e 62 eram azenhas, umas de propulsão inferior e outras de propulsão superior. Em Ponte de Lima, dentro também do aro territorial pertencente à bacia hidrográfica do rio Lima, contavam-se, grosso modo, cerca de 246 engenhos relacionados com a moagem de cereais, os quais se distribuíam do ponto de vista da sua tipologia na seguinte forma: 231 são moinhos e 15 eram azenhas. Em Ponte da Barca, de acordo com o mesmo cadastro de moagens, pululavam na paisagem cerca de 382 engenhos de moagem. Destes 382 engenhos 373 são moinhos e 9 eram azenhas, a maioria das quais localizadas no curso do rio Lima e do Trovela. Em Arcos de Valdevez, em igual período, na década de 1940 portanto, coexistiam na paisagem cerca de 980 engenhos de água para moagem de cereais, os quais se distribuíam por sua vez, segundo a tipologia, nos seguintes termos: 954 são moinhos de água e 26 eram azenhas, estas implantadas fundamentalmente junto das margens do rio Vez. Por último, duas áreas mais, a primeira localizada no aro territorial de Castro Laboreiro (Melgaço), cujas águas correm para a bacia hidrográfica, e Vila Verde, esta a respeito de cinco freguesias voltadas ao Lima. No primeiro caso, em Castro Laboreiro contavam-se cerca de 114 moinhos de água e no segundo, em Vila Verde, entre as freguesias de Aboim da Nóbrega, Codeceda, Covas, Gondomar e Penascais, 84. Em suma, no que a contagens gerais diz respeito, pode concluir-se que dos 2021 engenhos de moagem existentes na região 1910 são moinhos de água e 111 são azenhas.

Além da distribuição dos sistemas de moagem implantados na bacia hidrográfica do rio Lima por concelhos é também possível aferir a sua dispersão pelos diferentes cursos de água, assim como pelas freguesias que os compõe. Tal análise, a da dispersão pelas diferentes freguesias e cursos de água, fornece-nos diversas leituras, as quais revelam-se deveras importantes, pois as mesmas permitem-nos aferir se tais sistemas se localizam na planície ou nas áreas montanhosas, qual a tipologia dominante, por exemplo se se trata de moinhos de rodizio ou de azenhas de propulsão superior ou inferior, ou ainda, entre obviamente outras leituras, onde se fixam os principais centros de moagem da região.

Com respeito à parte Norte do concelho de Viana do Castelo, dentro da rede hidrográfica do rio Lima, pois este município compreende mais do que uma bacia principal, a freguesia de Outeiro é a que se evidencia como o principal centro de moagem. Aqui, no total, laboravam cerca de 40 engenhos de moagem de cereais94 os quais se distribuíam segundo a tipologia nos seguintes termos: 20 são moinhos de água e 20 eram azenhas, sendo que nestas últimas relevam-se no espaço e na tipologia do aparelho motor as azenhas de propulsão superior e as azenhas de propulsão inferior. Este polo de moagem, tendo em conta a concentração e desenvolvimento dos engenhos, assim como a sua fixação nos mesmos cursos de água, prolongava-se ainda pelas freguesias de Perre, Meadela e Santa Marta Portuzelo. Assim, em Perre laboravam cerca de 21 engenhos, dos quais 18 são rodízios e 3 eram azenhas. Em Santa Marta de Portuzelo havia 7 moinhos e uma azenha enquanto na freguesia da Meadela laboravam 14 moinhos e 4 azenhas. No total, se somarmos os dados destas três freguesias, contiguas todas elas do ponto de vista territorial e hidrográfico obtém-se o módico número de 87 engenhos de moagem, os quais se repartem tipologicamente nos seguintes termos: 59 são moinhos de rodizio e 28 são azenhas. Nas restantes freguesias de Viana do Castelo, na parte Norte da bacia hidrográfica, podem-se ainda relevar no espaço os casos de Nogueira, que conta com cerca de 22 engenhos de moagem, 15 dos quais são moinhos e 7 são azenhas, assim como as freguesias de Meixedo e Vilar de Murteda. Em Meixedo existiam cerca de 13 moinhos de água e uma azenha e em Vilar de Murteda 11 moinhos. Nas restantes freguesias o número é francamente residual. Enfim, no que à parte Norte do concelho de Viana do Castelo diz respeito pode dizer-se que nos quarenta do século passado laboravam cerca de 169 engenhos de moagem os quais se repartiam de acordo com a tipologia do aparelho motor nos seguintes termos: 129 moinhos de água e 40 azenhas.

A Sul do Lima, ainda no concelho de Viana do Castelo e bacia, o principal centro de moagem estava sediado em Santa Leocádia de Geraz do Lima, outrora uma freguesia do antigo concelho de Geraz. É aqui que se vislumbra o maior número de engenhos e mecanismos de moagem os quais no seu total ascendem ao módico número de 24 engenhos, sendo que deles faziam parte 16 moinhos de água e 8 azenhas, todas elas de propulsão superior95. A Sul a segunda freguesia com maior número de sistemas de moagem hidráulicos era Subportela. Ao todo laboravam aí 14 sistemas do género, fazendo parte deles 10 moinhos de água e 4 azenhas.

Quando comparado os números de engenhos de moagem existente na parte Norte de Viana do Castelo com a parte Sul do mesmo, dentro da bacia hidrográfica do rio Lima, constata-se que é a Norte que se fixa o maior número de sistemas de moagem. Tal poder-se-á certamente explicar pelo carácter montanhoso e regime de pluviosidade, que é maior a Norte do que a Sul, e pelo perfil dos rios, estes muito mais abruptos e ingremes também a Norte. Outra explicação para a prevalência de um maior número de sistemas de moagem a Norte poderá ter a ver com o facto de a Sul ter existido até meados do século XIX o concelho de Geraz do Lima. Esta região, Geraz do Lima, foi durante séculos uma entidade administrativa e política autónoma em relação a Viana do Castelo o que obviamente também se repercutiu nas vicissitudes económicas. Com isto queremos dizer que os engenhos de moagem existentes no antigo aro territorial de Geraz do Lima seriam muito provavelmente suficientes para abastecer a população de farinha e consequentemente de pão.

No concelho de Ponte de Lima, que à semelhança de Viana do Castelo vê o seu território distribuído por ambas as margens do rio Lima, contam-se, de acordo com o cadastro de moagens da década de quarenta do século XX cerca de 246 engenhos de moagem os quais se repartem por ambas as margens nos seguintes moldes. A Norte do rio Lima nos anos quarenta havia em laboração cerca de 138 engenhos de moagem dos quais 131 são moinhos de água e 7 são azenhas. Na margem Sul do Lima estavam em funcionamento 108 engenhos de moagem, sendo que desse número faziam parte apenas 8 azenhas. Em suma, tal como o sucedido em Viana do Castelo, as terras localizadas a Norte do rio Lima são as que mais engenhos de moagem ostentam na paisagem.

No concelho de Ponte de Lima os principais centros de moagem a Norte, isto é, as freguesias que ostentam um maior número de engenhos são Esturãos, Arcozelo, Cabração, Bárrio, Cepões e Calheiros. De acordo com o cadastro dos anos quarenta sabemos que em Esturãos laboraram cerca de 21 engenhos, 18 dos quais moinhos de água e 3 azenhas, estas localizadas fundamentalmente nas margens do rio Esturãos. Em Arcozelo havia cerca de 24 engenhos, designadamente 21 moinhos de água e 3 azenhas enquanto em Cabração laboravam 15 moinhos de água. Em Bárrio na década de 1940 estavam em funcionamento cerca de 22 moinhos de água e em Cepões, freguesia também de forte tradição cerealífera, cerca de 23 moinhos. Por último, no que à parte Norte do concelho de Ponte de Lima diz respeito, a freguesia de Calheiros que contava com cerca de 19 moinhos.

A Sul da Bacia, ainda no concelho de Ponte de Lima, podem-se identificar pelo menos três núcleos industriais de moagens tradicionais. O primeiro, localizado na zona mais Ocidental do concelho, diz respeito à freguesia da Facha onde contabilizamos cerca de 31 engenhos de moagem, mais concretamente 29 moinhos de água e 2 azenhas, o que comprova de forma clara e inequívoca uma forte tradição cerealífera e farinheira aqui. O segundo núcleo de engenhos tradicionais parece localizar-se na parte central do concelho, mais concretamente em Fornelos e a ele podem-se certamente juntar os complexos industriais que se encontram implantados junto do rio Trovela, mais concretamente em Santa Maria de Rebordões e em Souto-Rebordões. Em Fornelos, freguesia que se desenvolve em socalcos sucessivos até às margens do rio Trovela, contabilizamos 25 moinhos de água e 3 azenhas. Em Santa Maria de Rebordões, cujos dados dos moinhos não se encontram inexplicavelmente no Arquivo da Direção Hidráulica do Douro, sabemos da existência de pelo menos 21 moinhos, 10 dos quais privados (Teixeira 1995, 7-14). Em relação a Souto de Rebordões não dispomos de números, contudo sabemos da existência de uns quantos moinhos aqui, sobretudo em volta do rio Trovela96. O terceiro núcleo de moagem de cereais encontra-se sediado na zona Leste do concelho mais concretamente na freguesia de Beiral do Lima. Esta região, extremamente montanhosa e declivosa, desenvolve-se em socalcos sucessivos desde de São Lourenço da Armada até às zonas mais baixas e planas, estas já bem próximas do rio Lima. É aqui, sobretudo na área de socalcos, que se fixam a maioria dos 23 moinhos de água.

No que respeita ao concelho de Ponte da Barca, uma vez mais tendo por base o cadastro da moagem de rama que se encontra no Arquivo da Direção Hidráulica do Douro, sabemos que na década de quarenta do século passado laboravam aqui cerca de 382 engenhos de moagem os quais se repartiam tipologicamente em 373 moinhos e 9 azenhas, estas fundamentalmente localizadas no rio Lima e Vade. Também aqui, à semelhança do que se passa na margem Sul da bacia, mas no concelho de Ponte de Lima, é possível identificar alguns pólos de moagem, isto é, algumas freguesias ou conjunto de freguesias que muitas vezes servidas pelo mesmo curso de água agregam entre si um vasto conjunto de moinhos. É o que se passa por exemplo no aro territorial que se estende pelas freguesias de Lavradas e Bravães. Na freguesia de Lavradas, situada na parte mais Ocidental do concelho, laboravam nos anos quarenta do século XX cerca de 25 engenhos de moagem, um dos quais era azenha. Se a este número lhe juntarmos os 10 moinhos e as 3 azenhas que existiam em Bravães facilmente se concluirá que nesta zona Ocidental do concelho havia pelo menos 38 engenhos relacionados diretamente com a moagem de cereais. O segundo núcleo de complexos industriais de moagens tradicionais encontrava-se localizado na zona central do concelho, mais concretamente entre nas freguesias Vila Chã, São João e São Tiago respetivamente. Em São João de Vila Chã, freguesia que se situa a meia encosta, imediatamente acima de São Tiago, encontravam-se em funcionamento nos anos quarenta do século XX cerca de 42 moinhos de água. Abaixo desta, isto é, já no aro pertencente a São Tiago havia 11 moinhos de água. Em suma, com respeito a este segundo núcleo, o mesmo agregava em si cerca de 53 engenhos de moagem tradicional e todos eram moinhos. Por último, o terceiro núcleo. Este está localizado na parte mais Oriental do concelho e o mesmo pode ser considerado um tanto exagerado, tal é extensão do território que cobre. Apesar deste aspeto, o número de indústrias tradicionais de moagem é aqui bastante relevante e significativo. Na freguesia de Lindoso sabemos que havia 62 moinhos de água em funcionamento nos anos quarenta, pelo que o número, extremamente elevado como se vê, sobretudo quando relacionado com outras áreas do concelho e até da bacia hidrográfica, justifica só por si que possa ser considerado um pólo de moagem. Em Britelo, logo depois de se ultrapassar a freguesia de Ermida, que conta com 11 moinhos de água, laboravam cerca de 39 engenhos de moagem, mais concretamente 37 moinhos de água e duas azenhas, enquanto em Entre-Ambos-os-Rios havia 34 moinhos. Enfim, se somarmos todos estes complexos industriais de moinhos e azenhas, chega-se ao módico número de 147 engenhos de moagem só na zona Oriental do concelho.

A Norte do concelho de Ponte da Barca está como se sabe Arcos de Valdevez que de acordo com o “Cadastro da Moagem de Rama” da Direção Hidráulica do Douro era titular de cerca de 980 engenhos de moagem, mais concretamente 954 moinhos de água e 26 azenhas. Aqui a situação difere ligeiramente da de outros concelhos. Se em Viana do Castelo, Ponte de Lima ou Ponte da Barca é possível identificar com razoável segurança núcleos de indústrias de moagem tradicional em diferentes espaços, aqui tal torna-se impossível uma vez que as mesmas se perpetuam pelas diferentes freguesias em números verdadeiramente consideráveis. Apesar deste aspeto, tendo em conta o conhecimento da região, assim como a análise dos dados que recolhemos no Arquivo da Direção Hidráulica do Douro, pode-se dividir o concelho em três áreas de moagem de cereal. A primeira, situada na zona mais oriental do concelho e desfasada da realidade do Vez, fixamo-la em torno do Soajo, pois aqui laboravam nada mais nada menos que 119 engenhos tradicionais de moagem, sendo todos eles moinhos de água. A segunda colocamo-la na margem esquerda do rio Vez, uma vez que é a área que acolhe o maior número de engenhos de moagem. Por último, uma terceira área, também ela, tal como a segunda, delimitada pela margem do rio Vez, só que agora na margem direita. É aqui, nesta margem, que se situa o menor número de engenhos tradicionais de moagem, mas ainda assim com números consideráveis.



Como atrás se disse, no concelho de Arcos de Valdevez, tal é a quantidade e número de engenhos tradicionais de moagem movidos a água, é praticamente impossível identificar núcleos específicos no espaço. Assim, em jeito de síntese, enumeramos aqui as freguesias com o maior número de moinhos e azenhas, sendo que esse número se refere tanto ao que se passa na margem direita do rio Vez, como na esquerda. Entre outras freguesias, salientamos Cabreiro, com 66 moinhos de água, Cabana Maior, com 31, Gavieira, com 40 moinhos, Gondariz, com 61 moinhos e 1 azenha, Rio Frio, com 52 moinhos, Sabadim, com 31 moinhos, e Sistelo que possuía 42 moinhos de água. Por último, a respeito ainda do concelho de Arcos de Valdevez, dois aspetos mais. O primeiro diz respeito ao número de mós. Ao contrário dos moinhos implantados na montanha, que por norma compreendem apenas uma mó, nas zonas planas, sobretudo nas margens do rio Vez abundam vários complexos de moagem com duas, três e mais mós. Em segundo, os complexos industriais de moagem são aqui, nas margens do rio Vez, relativamente maiores quando comparados com os moinhos que se implantam nas áreas mais altas e montanhosas do concelho.

A distribuição dos sistemas tradicionais de moagem movidos a água no território que abarca a bacia hidrográfica do Lima demonstra de forma clara e inequívoca uma forte tradição cerealífera. Tal distribuição no espaço justifica-se, entre outros aspetos, pela abundância de cursos de água que alimentam o Lima. Tendo em conta uma vez mais o “Cadastro da Moagem de Rama” da Direção Hidráulica do Douro, constata-se que a maioria dos complexos industriais de moagem movidos a água não se encontram implantados nos principais rios mas antes em pequenos regatos e ribeiros que por norma alimentam os primeiros. Em Viana do Castelo o curso de água que alberga o maior número de engenhos de moagem é o ribeiro de Portuzelo que recebe várias denominações consoante a freguesia por onde passe. Ao todo laboravam aqui cerca de 45 engenhos. Em Ponte de Lima, onde se identificam cerca de 246 engenhos, os principais cursos de água, isto é, os que compreendem um maior número de moinhos e azenhas são o rio Labrujó, com cerca de 31 engenhos de moagem, o rio Covo, em Beiral do Lima, com cerca de 22 e o rio Trovela com 29. No concelho de Ponte da Barca, terra fortemente marcada pelo carácter montanhoso, detetam-se sistemas de moagem tradicionais fundamentalmente junto dos cursos de água provenientes da montanha. A exceção é, porventura, o rio Vade que se desenvolve aqui e até ao Lima numa região mais ou menos plana. Neste abundam em geral cerca de 17 engenhos de moagem os quais tomam as feições típicas dos moinhos de planície. Nas áreas montanhosas é onde se encontra o maior número de moinhos os quais se implantam na bordadura dos respetivos cursos de água ou afastados dos mesmos, sendo nesses casos alimentados por levadas. Entre outros, pelo número e abundância de engenhos implantados nas suas margens merece destaque o ribeiro da Levada, com cerca de 47 moinhos, o ribeiro de Cabaninhas, com 32 engenhos de moagem tradicional, o ribeiro da Fervença, com 32 moinhos também, o ribeiro de Porto das Vacas com 17 moinhos, o rio Cabrão, com 12, e o ribeiro do Castelo, em Lindoso, com 12 moinhos de água. No concelho de Arcos de Valdevez, sem prejuízo de outros cursos e linhas de água, são dignos de relevo o ribeiro de Santa Vaia, com 19 engenhos de moagem, o ribeiro de Sabadim, com 18, o ribeiro de Senharei, com 21, o ribeiro de Guidão, com 24, o ribeiro da Paradela, com 19, o ribeiro de Távora, com 23, o ribeiro de São Cosme, com 22, o ribeiro de Lingorinho, com 24, o ribeiro de Gondariz com 25, e o ribeiro de Padroso, com 29. Acima três dezenas de engenhos de moagem tradicional movidos a água relevem-se os casos do ribeiro da Ladeira, com 37 sistemas do género, o ribeiro de Tóra, com 34, o ribeiro do Extremo, com 46, o ribeiro de Cabrão, com 61 moinhos e, finalmente, o ribeiro de Cabreiro, com 40. Além destes cursos de água merece igualmente destaque o rio Vez, o mais importante na região, assim como o rio Ázere. O segundo pela importância que sempre teve entre a comunidade e por apresentar cerca de 32 sistemas de moagem tradicional e o primeiro pelo número e características que tais sistemas ostentam. Quanto o número contabilizam-se no Vez cerca de 71 engenhos tradicionais de moagem, sendo que os mesmos se distribuem em moinhos de montanha, moinhos de planície e azenhas de propulsão inferior, estas localizadas fundamentalmente na zona terminal deste curso de água. É também nesta zona, como atrás se aludiu, que se encontram os moinhos com mais de uma mó.

Os sistemas tradicionais de moagem que laboraram na bacia do Lima e que utilizaram a água como força motriz, associados primeiro à moagem de cereais como o trigo, o centeio, o milho-alvo e o painço e depois ao milho-maís, a partir do século XVI e XVII, são hoje meros fragmentos históricos, meras memórias de um passado não tão longínquos quanto isso, pois, na maioria dos casos laboraram até às últimas décadas do século passado. Tais sistemas encontram-se hoje, na maioria dos casos, abandonados e em estado de ruína, sendo que alguns até já desapareceram da paisagem. É precisamente o estado em que se encontram, abandono e ruína portanto, que permite que estes sistemas sejam hoje tratados e considerados como autênticas ruínas arqueológicas. Assim, dentro do possível, pois no conjunto trata-se de um número extremamente elevado, é nesta perspetiva que os iremos caracterizar97.

O moinho que se fixa nas áreas montanhosas da bacia hidrográfica do rio Lima é por norma pequeno. A construção, em alvenaria seca, rude e tosca na maioria dos casos, utiliza os materiais pétreos próprios da região, isto é, o granito e o xisto, este onde o há. Por norma, quatro paredes de pedra irregular, umas pequenas, outras médias, dão corpo e forma a uma planta retangular que é fechada a nível superior por uma armação de madeira que recebe cobertura telhada, normalmente em meia cana e por vezes enriquecida com beirais lajeados. Casos há porém em que a cobertura, maioritariamente de uma água por enfrentar apenas a pluviosidade vinda de um dos quadrantes, é feita com lajes de pedra, como acontece, por exemplo, num moinho do lugar de Parada, em Lindoso, ainda que este apresente duas águas (Fig. 23)98.

Por norma, estes moinhos, implantados na bordadura dos pequenos ribeiros e regatos ou ainda nos socalcos que os marginam, e quando tal acontece instalam a moenda na leira de cima e o cabouco na debaixo, nem que para isso tenha sido necessário escavar o terreno ou parte dele, apresentam apenas duas ou três aberturas (Fig. 24). A entrada para a moenda, normalmente estreita, exibe por vezes na padieira a data da sua construção e nas ombreiras pequenos símbolos de valor apotropaico, geralmente cruzes e cálices insculpidos e que se destinam a esconjurar o demónio e a proteger o pão (Fig. 25, 26 e 27). No lado oposto à entrada, por cima do cabouco, fixa-se por vezes uma pequena fresta vertical retangular que se encarrega de iluminar o interior. A terceira abertura, sempre presente, está situada na zona inferior do edifício e, grosso modo, resguarda um rodízio, este em madeira ou em ferro, porque também os há por aqui (Fig. 28 e 29). Trata-se, em concreto, do cabouco, também denominado frequentemente por inferno, e o mesmo apresenta em geral planta retangular ou trapezoidal. Segue por norma a traça arquitetónica do edifício e alberga no interior, além do rodízio, este geralmente fixo à péla aqui, um pejadouro, frequentemente pétreo, e uma seteira de madeira que permitia a regulação da água sobre as penas a partir de mecanismo próprio instalado na moenda. Entre o cabouco e a moenda fixa-se o pavimento. Este varia de região para região e de acordo com a topografia onde o moinho se encontra instalado. Assim, casos há em que o pavimento é feito em madeira, por exemplo no moinho Pequeno, em São Lourenço da Montaria (Fig. 30). Noutros porém, sobretudo nos moinhos instalados em socalcos, o pavimento é térreo ou pétreo, sendo neste caso formado por lajes (Fig. 24). Nestes casos o acesso ao rodízio faz-se através do cabouco, sendo o movimento do rodízio interrompido quando o moleiro fecha o pejadouro ou encerra a cale que antecede a entrada da água no cubo.

O moinho de montanha é na bacia hidrográfica do rio Lima alimentado por presas e levadas que frequentemente se transformam junto ao edifício em caleiros, por vezes sobrelevados até, e entre este e o cubo fixa-se uma pequena grelha que impede que os detritos vão ter ao rodízio (Fig. 31 e 32). A arquitetura e tipologia do cubo varia de região para região em função não da estética, mas antes da topografia do terreno e do perfil do curso de água ou da levada. Assim, casos há em que o cubo apresenta planta retangular, inclinação de cerca de 60º e é constituído por várias lajes. Noutros porém, fundamentalmente nas regiões altas de Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, por exemplo em São Cosme e São Damião, em Couto, no Soajo ou no Lindoso, o cubo, circular e quase vertical, é constituído por várias aduelas sobrepostas. Igual tipologia encontramos também em alguns moinhos de Viana, sobretudo em Santa Leocádia e Subportela, mas com uma pequena diferença. Embora circulares estes apresentam aqui inclinações de cerca de 60º (Fig.33, 34 e 35).

Em menor número é certo, quando comparada com o moinho de montanha, a azenha de propulsão superior preenche contudo alguns espaços da bacia do Lima. Sem prejuízo de outros casos e regiões, elas encontram-se em maior número nas freguesias de Outeiro, Nogueira, Subportela, Deocriste e Santa Leocádia de Geraz do Lima, aqui com uma particularidade interessante uma vez que resultam de velhos moinhos reconvertidos em azenhas.

A azenha de propulsão superior pulula fundamentalmente nas encostas e socalcos da bacia do rio Lima e a sua construção é por vezes até relativamente mais cuidada que a dos moinhos de montanha. Dentre os vários exemplares merece destaque a azenha do Maral, em Outeiro, hoje musealizada e integrada no núcleo museológico local alusivo ao pão e que pretende perpetuar a memória de um tempo e de um mundo que por força do progresso e da Globalização se tornou nostálgico: o Mundo Rural (Fig. 36). Trata-se sobretudo para as gerações recentes de um espaço de novas experiências e aprendizagens na medida em que essas gerações entram em contacto com um vasto manancial de instrumentos e alfaias agrícolas que outrora faziam o amanho das terras e das culturas do cereal sendo este depois levado ao moinho para ser transformado em farinha. Do mundo rural de antemanho sobressai aqui fisicamente o aspeto rústico das fachadas, bem como as frestas verticais de formato retangular que timidamente iluminam o espaço interior. Além destes aspetos, merecem destaque, pela feição rústica que emprestam, o recorte de duas entradas, uma ao nível do rés-do-chão, onde se encontra o aparelho motor interno, e outra no primeiro andar que dá acesso à moenda e que ostenta gravada na padieira a data da sua construção: 1900. Construída sob terreno cavado de propósito para o efeito, destaca-se no conjunto visual e didático uma roda vertical de madeira abastecida de água por meio de um caleiro de pedra que junto ao edifício dá lugar a uma estrutura de madeira com inclinação considerável. Esta estrutura remata junto à roda com pejadouro móvel de madeira que regulável permite que a água incida sobre a parte dianteira.

No caso de Santa Leocádia de Geraz do Lima várias são as situações. Ainda que não as refiramos todas, relevem-se dois casos, os quais se podem considerar típicos aqui. O primeiro diz respeito à azenha da Cernada e a mesma foi “…outrora moinho de cubos…” (Viana 2009, 210). De planta retangular e com piso térreo no interior, apresenta a uma cota inferior à do próprio pavimento um antigo cabouco que deu posteriormente guarida ao aparelho motor interno de uma roda vertical de madeira que de resto ainda se encontra no exterior. As paredes são aqui em alvenaria, apresentam símbolos apotropaicos no lintel da entrada e o telhado, de uma só água, encontra-se hoje coberto com folha de zinco. O cubo, que ainda se conserva e que noutras eras alimentou um rodízio, é de boca circular (Fig. 37, 38 e 39).

O segundo respeita ao moinho do Manuel da Ponte. À semelhança do que se passou com a azenha da Cernada, o cérebro do moinho foi aqui, pelo menos nos primeiros tempos, dois rodízios99 que os dois caboucos – toscos e de gosto popular – deixam adivinhar (Fig. 40). Eram como que dois cilindros em madeira100, estavam providos de penas a toda a volta e recebiam as águas sacadas ao Lourinhol. Estas, uma vez desviadas por meio de uma levada térrea, seguiam depois por um caleiro em pedra e entravam diretamente para um cubo de pedra. Este, vertical e de boca circular, direcionava depois a água para o interior, sendo que este à medida que se aproxima do rodizio tornava-se mais afunilado e rematava com pejadouro e seteira101. A verticalidade do cubo permitia que a água fosse projetada sobre as penas dos rodízios com a força suficiente, o que por sua vez acionava as respetivas penas, iniciando-se assim um movimento de rotação contínuo. Este movimento era depois transmitido a um eixo vertical – a péla – que por sua vez comunicava com a mó andadeira por meio de veios que se decompunham em várias partes estruturantes, as quais nos abstemos aqui de os mencionar por razão de tornar o tema longo e fastidioso102.

À semelhança do que se passou com outros tantos moinhos de Santa Leocádia, também o moinho do Manuel da Ponte e a azenha da Cernada foram transformados em azenhas (Viana 2009, 206-211). Tal como os moinhos de rodízio, as azenhas relacionavam-se aqui com a trituração do cereal a partir do qual se obtinha a farinha. O que as distingue é fundamentalmente a colocação da roda de propulsão que acionava o aparelho motor e consequentemente a mó andadeira. Ao contrário do moinho, em que o rodízio se fixava no cabouco, na azenha a roda está localizada numa das fachadas laterais exteriores do edifício – o que se pode constatar na azenha da Cernada – e comunica com um aparelho motor que se encontra no interior. A propulsão da roda, hoje não tão fácil de apurar por falta de elementos, podia ser obtida de três formas, sendo que a mesma se refere sempre ao ponto onde a água caía sobre a roda. Assim, a água transportada à roda por meio de uma levada e depois por caleiro, que pode ser também em madeira, era despejada por cima da roda ou pela parte intermédia103. De acordo com o que nos é dado a observar noutros casos pode dizer-se que as azenhas de Santa Leocádia eram copeiras104. Assim, a transmissão da força motriz era aduzida pela água que caía sobre a roda, enchendo os respetivos copos. Tal, aliada à força gravítica proporcionada pelo jato de água, fazia com que se iniciasse o respetivo movimento de rotação. Desta forma, o movimento rotativo da roda exterior, que podia seguir ou não o sentido dos ponteiros do relógio, consoante a água caiasse à frente ou atrás da roda, comunicava através de um eixo com o aparelho motor instalado no interior do edifício e este por sua com a mó andadeira que se situava no patamar superior, isto é na moenda propriamente dita.

O moinho de planície pode ser encontrado nas partes baixas e planas, mais concretamente próximo das bacias terminais dos afluentes do rio Lima. Entre outros, podem relevar-se aqui os moinhos de água de Santa Maria de Rebordões (Ponte de Lima), assim como os que se encontram na freguesia da Gemieira (Ponte de Lima) e na bordadura das margens do rio Vez, os quais compreendem mais do que uma mó (Fig. 41 e 42). O edificado deste tipo de estrutura, sempre maior do que a dos moinhos de montanha, varia contudo. Nuns casos a estrutura é ampla e serve de habitação ao próprio moleiro, pelo que apresenta vários recortes de janelas e entradas. É, por exemplo, o que se pode constatar em Ponte da Barca, Gandra e Correlhã, estas em Ponte de Lima. Noutros casos porém a estrutura é mais pequena, pois o moleiro não habita aí. É, entre outros casos e evidencias, o que se pode observar por exemplo em Santa Maria de Rebordões (Ponte de Lima) e nas margens do rio Vez (Arcos de Valdevez). Aqui, agrupados em núcleos ou dispersos na paisagem – o mais frequente é mesmo a sua dispersão – o moinho é normalmente construção granítica cuidada, por vezes rebocada, e apresenta planta quadrangular ou retangular. Coberto com telha de meia cana ou francesa e por vezes coroado com beirais lajeados, apresenta duas águas e a sua dimensão varia em função do número de mós, entre uma e cinco respetivamente105. De resto o seu funcionamento é em tudo idêntico ao dos moinhos de montanha. Pese embora este facto, o cubo é aqui menos acentuado e por vezes até substituído por um canal que leva a água diretamente ao interior do cabouco onde se encontra o rodízio. A tipologia do rodízio varia aqui, principalmente em função do curso de água. Nuns casos, por exemplo em Santar, o rodízio é móvel à péla o que permite que o mesmo possa funcionar durante a maior parte do ano. Em Santa Maria de Rebordões, junto ao rio Trovela, os rodízios dos moinhos eram todos fixos à péla. Aqui, na esmagadora maioria dos casos moía-se o cereal apenas no Inverno e na Primeira e por vezes nestas estações os mesmos eram obrigados a parar por ficarem completamente alagados. No Verão e no Outono os mesmos moinhos e respetivos rodízios, por vezes dois e três, eram obrigados a parar pela escassez de água106. Quando tal acontecia o moleiro recorria aqui à “poçada”, costume que consistia em encher uma poça de água (Teixeira 1995, 12-13)107.

Na planície da bacia do rio Lima abundam também azenhas de propulsão inferior. Estas estão localizadas nos principais cursos de água da região assim como nas margens do próprio rio Lima e por vezes até dentro do mesmo108. É o que acontece por exemplo numa azenha de propulsão inferior que se encontra na margem direita do Lima, em Santa Maria de Távora, concelho de Arcos de Valdevez (Fig.7). À semelhança do moinho de planície esta azenha é maior que o moinho que se encontra na montanha. O edifício, retangular, em alvenaria rebocada nos interstícios e com cobertura de duas águas, possui várias aberturas, uma das quais a dar acesso ao interior do espaço onde se encontra o aparelho motor, e na entrada principal, sobre a padieira, a data da sua edificação: 1786. A montante porém este complexo edificado deixa para trás a planta retangular para formar um talhamar, impedindo assim que a força das águas do rio, sobretudo no Inverno, derruam o edifício. Na fachada oposta ao curso de água apresenta orifício próprio que permite a colocação de um eixo que estabelece a comunicação da roda de propulsão inferior com o aparelho motor interno. A roda era aqui alimentada de água por meio de um açude de alvenaria seca que se fixa a montante e cuja disposição permite o desvio de parte da água do rio para um canal. Neste sistema, a montante do local onde se encontra a roda, há um sistema de bloqueio e retenção do canal para desvio das águas sempre que estas não eram necessárias.

A azenha que acabamos de descrever é apenas um exemplo. Como se disse, as azenhas de propulsão inferior, pouco numerosas é certo, encontram-se implantadas nas zonas planas, sobretudo nas bacias terminais dos cursos de água que alimentam o rio Lima. Entre outros, é o que se passa por exemplo em Esturãos, Ponte de Lima, e na freguesia da Meadela, sobretudo no lugar de Portuzelo e em alguns casos o complexo edificado serve aqui até de morada para o moleiro. Em ambas as situações os edifícios, amplos e cuidados, com telhado de duas águas, são em alvenaria, às vezes rebocada, e apresentam planta retangular que por vezes se torna alongada e estendida longitudinalmente, formando assim mais do que um corpo. A roda vertical – de propulsão inferior – encontra-se sempre voltada para o rio e entre este e o edifício fixa-se um canal cavado que nuns casos apresenta talude térreo e noutros muretes de pedra. A roda, nos complexos que ainda as têm, é quase sempre de madeira, mas casos há em que este material foi substituído pelo metal (Fig. 43)109.

Por último, no que aos complexos e sistemas de moagem que utilizam a água como fonte de energia diz respeito, o moinho de maré. Esta tipologia, frequente em algumas áreas do país, tem aqui, na bacia hidrográfica do Lima, uma presença residual e o único exemplar do tipo que se conhece encontra-se localizado na freguesia de Meadela, mesmo às portas de Viana do Castelo. O edifício, hoje reconvertido em museu e integrado no Parque da Cidade, apresenta planta retangular alongada que uma parede disposta longitudinalmente divide em dois corpos. As paredes, em alvenaria e recortada por grandes janelões e abertas envidraçadas, são em granito. O telhado, de duas águas, que segue de perto o alinhamento longitudinal da planta, encontra-se coberto com telha marselhesa e os caboucos, inicialmente destinados a quatro mós, rematam com arcos de volta perfeita. O interior, todo ele remodelado, conserva ainda duas moegas da Época Industrial ligadas aos caboucos por intermédio de um engenhoso e complexo sistema de rodas dentadas em ferro. O sistema de condução e regulação de águas é distinto de todos os que se podem encontrar na bacia do Lima. Em linhas gerais, o mesmo baseia-se no princípio da preia-mar e da maré baixa. Compreende um canal e comportas, uma a montante e outra a jusante, que se abriam ou fechavam consoante a maré. Aquando da maré baixa, as comportas, que alimentavam os rodízios da Época Industrial, eram abertas e a água, sobre a forma de jato, incidindo sobre eles, fazia girar todo o sistema de rodas dentadas e consequentemente as respetivas moegas (Fig. 44).

O último sistema de moagem que se pode encontrar na região do Lima é o moinho de vento. É, como refere Brochado de Almeida, “… tradição menor no Entre-Douro-e-Minho” pois o mesmo enfrentou a concorrência do moinho de água, muito popular por estas bandas como se viu (Almeida CAB et alii 2009, 181). O facto de a região ser rica em água, aliado à construção e funcionamento mais simples destes sistemas serão porventura as principais razões explicativas para uma presença menor aqui do moinho de vento. Ainda assim, com algum esforço e dedicação é possível vislumbra-los na paisagem. Sem prejuízo de outras localidades e concelhos até, o moinho de vento abunda fundamentalmente na orla litoral de Viana, contudo o mesmo pulula na paisagem interior do Lima, sobretudo em freguesias como Vila Franca, Santa Leocádia de Geraz do Lima, Perre, Santa Marta de Portuzelo e Nogueira, porém, o estado em que se encontram impede-nos de aferir com razoável certeza e segurança a sua tipologia. Do que pudemos observar, apresentam estrutura arquitetónica circular obtida pela sobreposição de fiadas sucessivas de pedras irregulares de pequeno e médio porte. O edifício é geralmente alto e compreende dois patamares, um fixado ao nível do rés-do-chão e outro, com pavimento que era em madeira, no primeiro andar. O tejadilho, seguramente circular, já não abunda pelo que nos é impossível saber se eram rotativos como aqueles que se encontram por exemplo em Montedor, lugar de Carreço. Aqui, entre outros merece destaque o moinho do Marinheiro. Este, contruído em 1877 e com dois pisos e planta circular, evidencia-se pela armação trapezoidal de madeira das suas velas com quatro braços, assim como pela cobertura cónica em igual material e que excedendo o próprio diâmetro do edifício, forma com isso um pequeno beiral. A adaptação do velame à direção do vento fazia-se aqui através do telhado. Este, cónico como se disse, é rotativo e compreende um pequeno cavalete (Fig. 45). No mesmo local encontram-se ainda mais dois moinhos de vento, designadamente o moinho do Petisco e o moinho de Cima, este com o ano 1835 inscrito na padieira da porta de entrada para o interior. Estes, não tão significativos do ponto de vista arqueo-etnográfico, têm a particularidade de tal como o primeiro serem hoje imóveis de interesse público.

V –

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