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ALMEIDA CAB – Sítios que fazem história: Arqueologia do concelho de Viana do Castelo, da Pré-História à Romanização, Câmara Municipal de Viana do Castelo, 2008b.

84 O seu aparecimento deu-se na Grécia no decurso do século III a.C. Trata-se, no essencial, de um deveras sistema engenhoso, pois utiliza mós giratórias de dimensões e peso consideráveis, isto quando comparadas com as pequenas mós manuais de rebolo e vaivém, e funcionava com base na tração animal. Em termos gerais pode dizer-se que é a primeira máquina de produção industrial propriamente dita a utilizar uma força motriz que não a humana, pelo que com ela alteraram-se, radicalmente, as tradicionais formas e relações de produção que até então se conheciam e praticavam (Oliveira et alii 1983, 44).

85 Convém salientar que as atafonas da Época Moderna são bem diferentes das romanas. Ao contrário do que se verifica na Época Moderna, as atafonas do Mundo Romano têm como elemento característico as mós cónicas.

86 Sobre as diferentes tipologias e particularidades regionais destes sistemas vide OLIVEIRA, Ernesto Veiga; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim – Sistemas de Moagem – Tecnologia Tradicional Portuguesa, Instituto Nacional de Investigação Científica/ Centro de Estudos de Etnologia, Lisboa, 1983.

87 Em São Paio de Antas, Esposende, a adornar o jardim de uma casa encontramos precisamente um exemplar deste género, só que desmontado. O dormente – tendencialmente circular na parede exterior – encontra-se cavado na forma côncava e apresenta em todo o seu diâmetro rebordo de maneira a que o movente não descarrilasse. O mesmo sistema, igualmente desmontado, encontramos também em Forjães, uma freguesia do concelho de Esposende. Dois casos, duas reminiscências portanto em como este sistema prevaleceu nos hábitos das comunidades rurais até há pouco tempo. Além destes, refira-se que Ernesto Veiga e Oliveira et alii refere e desenha um exemplar em Montedor, Carreço, Viana do Castelo (Oliveira et alii 1983, 41).

88 Do ponto de vista arquitetónico e sobretudo arqueológico o moinho mais antigo em Viana está localizado em Afife, junto da margem direita do ribeiro de Cabanas. Igual a tantos outros o elemento que define a sua antiguidade é uma entrada de arestas chanfradas de estilo manuelino (Almeida CAB 2008b, 340). Mais antigas serão certamente as mós de moinhos de rodizio encontradas na necrópole de Fão, em Esposende. Embora esta estação se fixe fora da zona do nosso estudo, não deixa de ser significativo a ocorrência deste achado, o qual remonta à Baixa Idade Média. Igualmente importante para o conhecimento arqueológico é o facto de as referidas mós aparecerem a adornar as sepulturas o que por sua vez nos diz que os moinhos que por aqui laboraram já não estavam em uso nesse período (Almeida CAB 1990-1992, 111-126).

89 Estava sediada no lugar da Azenha. No local ainda hoje se encontram alguns engenhos de moagem.

90 Além deste, existem outras referências a moinhos, nomeadamente em Santo André da Portela, em Santa Maria de Azere e em Vilela (PMH, Inquirições de 1258, 385, 414, 388)

91 Têm sido feitas algumas contagens de moinhos medievais com base nas Inquirições de 1220 e 1258. Entre outros estudos, destacamos o realizado por Maria Rosa Ferreira Marreiros para a área de Guimarães. Esta estudiosa contabilizou nas Inquirições de 1220 um mínimo de 13 moinhos em Guimarães e nas de 1258 cerca de 46 (Marreiros 1996, 401-475).

92 De acordo com os dados existentes no Arquivo Hidrográfico do Porto a maioria dos engenhos de moagem de cereais na região do Lima compreende apenas um proprietário. Dos 2041 engenhos de moagem apenas pouco mais de 300 estão na posse de dois ou mais proprietários, sendo que na esmagadora maioria desses casos tal se deve ao regime de heranças.

93 Sobre os moinhos de Viana do Castelo vide ALMEIDA CAB; GONÇALVES, Mário – Inventário dos moinhos de água e de vento, engenhos e lagares de azeite, in Cadernos Vianenses, tomos 42-47, 2007-2013.


94 Na verdade são 46 os sistemas de moagem aqui existentes, só que seis deles encontram-se localizados na bacia hidrográfica do rio Âncora.

95 Este número é mais ou menos coincidente com o que vem inscrito nas Memórias Paroquiais de 1758. De acordo com o abade José Gomes Dias, relator da memória paroquial da freguesia para o Dicionário Geográfico do Pe. Luís Cardoso, em 1758 havia em Santa Leocádia “… vinte moinhos de moer centeio e milho, e três azenhas que serviam do mesmo, e um fulão ou pisão de pisar burel”. Apesar deste aspeto o cadastro das moagens de rama referente a Santa Leocádia de Geraz do Lima encontra-se desatualizado à semelhança de resto do que se passa também em vários outros pontos da Ribeira Lima. De acordo com o Padre Cunha Viana em 1980 havia ainda em Santa Leocádia de Geraz do Lima a memória de trinta e seis indústrias que utilizavam a água como força motriz. Dos quinze moinhos de rodízio inventariados apenas três funcionavam e quatro encontravam-se em estado de o poder fazer em qualquer momento. Os restantes estavam em ruínas e um deles já nem isso. Com respeito às azenhas, doze encontravam-se em funcionamento, oito podiam ainda laborar e uma estava já dada como desaparecida (Viana 2009, 212).

96 Com efeito, tivemos a oportunidade de ver um ou outro moinho nas margens do rio Trovela há bem pouco tempo aquando do levantamento de cruzeiros e alminhas no concelho de Ponte de Lima.

97 Na generalidade dos casos os estudos existentes na região sobre os antigos complexos de moagem debruçam-se essencialmente na estrutura física e no seu inventário. Daqui resulta pois uma enorme omissão sobre os costumes e as tradições a eles inerentes. Em todo o caso, sobre o assunto quem melhor nos descreve os costumes e as tradições é o Conde d` Aurora que a respeito dos moinhos de Afife nos diz que “… quando o rendeiro de um moinho de água tem o seu dia (ou noite) para moer o milho, fica com o seu tempo totalmente, ou melhor, tem que se manter de guarda ao trabalho do moinho, indo lá duas, três ou mais vezes, para velar pelo bom resultado desse trabalho (…), verificar se a farinha fica mortinha (muito fina); se o moinho enloda [ou seja para a mó devido à farinha ficar pastosa e entalada entre as mós ou por causa do desregramento da saída do grão da moega], se o grão acabou na moega e o moinho anda em vão; se a cheia do rio (no Inverno) tomou o rodizio onde a água se projecta, etc” (Aurora 2007, 111).

98 Em Ponte da Barca a dicotomia do moinho de montanha versus moinho de planície torna-se evidente em algumas freguesias como são os casos de Britelo, Ermida, Germil e Lindoso. Aqui, ao contrário do que se passa na planície, os moinhos, além de mais pequenos, apresentam em geral coberturas formadas por grandes lajes de granito (Marques 2013).

99 Pelo que nos foi dado a observar nos moinhos existentes, ainda que estes estejam em ruína, o rodízio deveria ser móvel ao longo da péla.

100 No concelho de Viana do Castelo, fruto dos tempos modernos, também os havia em ferro.

101 No caso da azenha da Cernada, o cubo é oblíquo e circular, de resto a presença de cubos com boca circular é constante em Santa Leocádia de Geraz do Lima.

102 Nesse sentido, porque o assunto está por demais estudado até, remetemos o aprofundamento do tema para a seguinte obra: OLIVEIRA, Ernesto Veiga; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim – Sistemas de Moagem – Tecnologia Tradicional Portuguesa, Instituto Nacional de Investigação Científica/ Centro de Estudos de Etnologia, Lisboa, 1983.

103 Na extremidade do caleiro de madeira normalmente fixava-se uma seteira, mais à frente ou mais atrás, e que tinha como finalidade regular a intensidade com que a água era projetada sobre a roda. Além desta função, cabia a esta seteira determinar o movimento giratório da roda. Se colocada mais à frente a roda seguia o sentido dos ponteiros do relógio. Se colocada mais atrás a roda iniciava um sentido contrário ao do ponteiro dos relógios.

104 Em Santa Leocádia ainda persiste uma azenha com boa parte deste sistema intacto. Na azenha do Barros, entre outros elementos, destacam-se uma roda vertical de propulsão superior dianteira alimentada de água através de um caleiro de madeira com pejadouro. Este pejadouro está alinhado à parte dianteira da respetiva roda.

105 Importa referir aqui também o facto de algumas destas construções serem mais cuidadas. Tal, além de se constatar no cuidado colocado nas fachadas e nos materiais utilizados, evidencia-se também na própria arquitetura do cabouco. A este respeito encontramos em Perre (Viana) um moinho que apresenta cabouco com arco de volta perfeita.

106 Igual situação se constata nos moinhos de montanha, cujas águas escasseiam no Verão. Entre outros exemplos destacamos o testemunho de Francisco José Rodrigues de Cerqueira em 1897. Morador na freguesia de Salvador, concelho de Ponte da Barca, a certa altura do seu requerimento para a reparação de um açude refere que no Verão a população “Atendendo à falta de ágoas em quase todas as freguesias das montanhas, por não terem onde moer os milhos e senteios, afluem aos moinhos de Val de Fontes para terem pão” (ADVCT – 2.38. 3-5-40).

107 Os moinhos de Santa Maria de Rebordões contemplavam no interior da moenda duas e três mós. À semelhança do que se passava noutros pontos da bacia do Lima, a farinha moída nestes moinhos destinava-se exclusivamente ao consumo doméstico. Os cereais aqui moídos eram o milho e o centeio (Teixeira 1995, 12-13).

108 No rio Lima estas azenhas, as de propulsão inferior, encontram-se implantadas acima do sítio do Carregadouro. A grande maioria está hoje em ruína e, sobretudo acima da albufeira da barragem de Ponte da Barca, foram tomadas pela subida do caudal da água. São estruturas retangulares isoladas na paisagem, apresentavam cobertura de duas águas e, regra geral, não serviam de habitação ao moleiro.

109 Tal evidência encontramos em Portuzelo, freguesia de Meadela, no moinho do Dante. A mesma situação é encontrada em Santa Marta de Portuzelo, mas neste caso relacionada com uma azenha de propulsão superior.

110 A este respeito a Arqueologia tem hoje dados muito concretos sobre o assunto. Sabe-se pois que entre 10.000 e 7.000 a.C., já existiam plantações de cereais, mormente trigo e cevada, em várias regiões da Anatólia, Palestina e Eufrates. Entre outros, o caso mais conhecido é sem dúvida Jericó (Aguilera 2001, 16).

111 É importante reforçar aqui o papel diacrónico e sincrónico do pão. Compreenda ele as papas, as massas, os bolos ou as bolas, o pão não surge ao mesmo tempo nos diferentes espaços. Se no Médio Oriente é possível encontrar indícios da sua presença logo no início das civilizações, para a Península Ibérica, por exemplo, será necessário esperar mais algum tempo pelo seu advento. Além deste aspeto, importa referir igualmente que entre as civilizações mais antigas as papas, os bolos e as bolas, assim como as massas coabitam frequentemente os mesmos espaços temporais. Em geral, a descoberta de uma forma não acarreta o abandono de outra, pelo contrário.

112 Entendamo-nos a este respeito. Na Antiguidade o conceito de pão é muito abrangente e o mesmo engloba tanto as papas como as massas, os bolos e as bolas (Giammellaro 2008,76). Como refere Montanari, deveríamos falar mais em cereais do que em pão. Por exemplo, a respeito do consumo de pão por parte de gregos e romanos, diz-nos este historiador que os gregos surgem fundamentalmente como “…comedores de cevada…” enquanto os romanos eram “… comedores de papas…” (Flandrini et alii 2008a, 95).

113 No meio arqueológico e historiográfico este pão é conhecido como Pão Subcinerício.

114 Aguilera refere ainda um outro método de cozedura para o pão Subcinerício, sendo que o mesmo veio a ser utilizado mais tarde também por hebreus e gregos. Segundo este historiador, a massa de pão Assírio, o pão Subcinerício, podia também ser cozida em grandes vasilhas invertidas de boca larga, entrando o lume pela parte inferior e lateral (Aguilera 2001, 18).

115 Sobre a forma de fazer farinha diz-nos Edda Bresciani que os egípcios a faziam em casa utilizando uma técnica rudimentar mas eficiente: “ Os grãos eram primeiro triturados num almofariz de pedra, antes de serem moídos numa placa de pedra inclinada; este pó grosseiro era depois peneirado. Para obter uma farinha mais fina, os grãos de cereais eram levemente torrados ou secos ao sol antes de serem moídos” (Bresciani 2008, 56).

116 Pão Ázimo

117 Trata-se, no geral, de papas não levedadas feitas com farinha de farro (Triticcum Dicoccum) ou com espelta (Bustamante Álvarez 2013, 2)

118 No caso do povoado da Cimalha (Idade do Bronze), em Sernande, Felgueiras, verifica-se presumivelmente esta mesma crença, pois que da cabeceira das sepulturas cavadas no saibro foram extraídos recipientes cerâmicos.

119 No continente americano, entre outros casos, os Astecas. Estes ofereciam espigas de milho aos seus deuses (Toussaint-Samat 2009, 117).

120 Importante também nos ritos religiosos da Antiguidade é o papel da carne. Esta, tantas vezes sacralizada e utilizada em ritos e sacrifícios, com o advento do Cristianismo, sobretudo a partir do século III-IV d.C., é dessacralizada e passa a ser consumida quotidianamente como um alimento comum. A isto, além do papel do Cristianismo, não terão sido certamente alheias as incursões bárbaras que a partir deste período se intensificam um pouco por todo o Império Romano (Flandrini et alii 2008, 100-101).

121 É também conhecido pelo nome de Farro e foi entre os trigos a espécie mais cultivada, sobretudo no Neolítico e na Idade do Bronze (Zohary et alii 2011, 240).

122 As datações destes grãos foram entretanto questionadas e revistas por alguns especialistas. Hoje a cronologia que lhe é atribuída e a seguinte: 10. 500/ 10. 300 ou seja, 8.500 a 8. 300 a.C. (Zohary et alii 2011, 240).

123 Os indícios mais antigos correspondem a níveis estratigráficos que se situam cronologicamente num intervalo de tempo entre os 8. 600 e os 7. 800 anos a.C.

124 Com efeito a maioria da comunidade científica está hoje convicta de que a domesticação da cevada ocorreu mais ou menos aquando da do trigo. Em geral, considera-se que a cevada foi domesticada e cultivada em pequenas áreas agrícolas onde o trigo não existia e que depois por força dos movimentos migratórios deverá ter-se expandido a todo o Crescente Fértil. De acordo com estudos recentes, sobretudo ao nível da genética e da biologia, a cevada teve origem em dois locais: vale do rio Jordão (Israel) e Irão (Zohary et alii 2011, 244).

125 Como abordamos o cereal apenas do ponto de vista da aparição arqueológica, remetemos a vertente etnográfica para as seguintes obras: AURORA, Conde d` –  Malhadas de Centeio no Entre-Douro-e-Minho, in Revista de Etnografia, vol. VII, tomo I, Porto, 1966, págs. 24-54. BARBOFF, Mouette – Terra Mãe Terra Pão, Âncora Editora, Lisboa, 2005. BARBOFF, Mouette – A tradição do Pão em Portugal, edição Clube do Coleccionador dos Correios, Correios de Portugal, 2011.

126 Tal indicia claramente a possibilidade do cultivo da cevada e do trigo serem contemporâneos nos inícios da agricultura pelo menos nestas regiões.

127 Além destas espécies refira-se também um outro dado: a presença de inúmeros grãos de Triticum Spelta em povoados como Castrovite e Palheiros. A presença de tais grãos atesta a ideia de que o Triticum Spelta era já muito cultivado antes da chegada dos romanos ao território (Tereso 2010, 68).

128 Um alerta apenas a este respeito. As cronologias de sementes de trigo atribuídas ao século I a.C., em Briteiros e ao período romano em Mozinho e São Lourenço não significa que o trigo não fosse cultivado antes. No caso de São Lourenço, realidade que conhecemos melhor, as datações atribuídas têm a ver com o sector que foi analisado e que se prende precisamente com essa cronologia.

129 São várias as referências bibliográficas ao milho-miúdo, muitas vezes sem especificar a respetiva variante. Em linhas gerais para a Idade do Ferro este cereal está documentado em sítios como o Coto da Pena (Caminha), o castro de São Estevão da Facha (Ponte de Lima), o Castelo de Faria (Barcelos) e, entre outros, em São Lourenço, Esposende (Almeida CAB 2003, 243; Silva ACF 1986, 112).

130 A passagem do estado selvagem ao estado domesticado parece ter-se dado no continente asiático por volta de 5000 a.C., e na Europa por volta do terceiro milénio a.C., (Wet 2000, 118-119).

131 As evidências atuais apontam para uma ancestralidade próxima dos sete mil anos a.C. no Norte da China e para os cinco mil a.C. na Europa (Zohary et alii 1988, 83).

132 Os indícios mais antigos da sua cultura, que se encontram no continente asiático, remontam a um período que se cifra entre os 7.000 e os 5000 a.C. Na Europa a sua aparição parece ser mais tardia. Até ao momento a Arqueologia tem dificuldade em encontrar grãos anteriores ao segundo milénio a.C. (Zohary et alii 1988, 82-86).

133 As suas origens são um tanto obscuras uma vez que se trata de um cereal muito semelhante ao Triticum Spelta e que também se dá em ambientes frios (Behre 1992, 143).

134 As evidências mais antigas da sua domesticação encontram-se inscritas no registo arqueológico de algumas estações montanhosas sediadas na Turquia e na região o Cáucaso. Trata-se de um cereal que é capaz de germinar a 1 ou a 2 graus negativos (Zohary et alii 1988, 64-65).

135 Há também, entre outras obviamente, notícias de centeio no Castelo de Faria (Almeida CAB 2003, 243).

136 Uma referência ainda para a aveia. Não tendo sido um cereal muito divulgado por cá é de salientar no entanto a sua presença em São João do Rei em níveis do século IV e III a.C., (Bettencourt et alii 2004b, 180).

137 Além da bolota releve-se também o papel da castanha. Segundo Orlando Ribeiro durante quatro a cinco meses do ano era a castanha quem substituía na alimentação o pão. Não negando o papel que esta teve na alimentação temos no entanto dúvidas quanto ao seu papel na substituição do pão por um período do ano tão longo. As fontes, arqueológicas e sobretudo medievais não parecem dizer isso.

138 Com efeito, na região ela está presente em povoados como Senhor dos Desamparados, em Esposende, e no castro Santo Estevão, na freguesia da Facha, Ponte de Lima. Tanto num caso como no outro foram encontradas bolotas queimadas em contexto de lareiras (Marques 2012, 246).

139 No sentido de não nos darmos a interpretações dúbias contestamos aqui não o facto de Estrabão afirmar que os povos que aqui viviam consumiam pão de bolotas, mas antes o enfase dado a esse consumo que nos parece exagerado face às evidências arqueológicas.

140 Sobretudo a prevalência de panelas de suspensão para ir ao lume e a abundância de “malgas” o que faz supor que a alimentação na Época Castreja se baseava muito em papas e ensopados. Em relação às panelas de suspensão para ir ao lume não é de excluir a possibilidade de as mesmas poderem ter funcionado como fornos portáteis o que poderá por sua vez sugerir formas mais sólidas de consumo de pão.

141 A respeito do consumo de papas a partir de milho-miúdo, diremos que as mesmas seriam semelhante ao arroz.

142 Sobre o pão romano que por aqui circulou pouco ou mesmo nada sabemos, contudo estamos em crer que o mesmo não deveria ser, pelo menos nas formas mais elementares, diferente daqueles que se produziam em Roma. Em todo o caso, por se tratar de uma região extremamente rural à época, é possível que o mesmo tomasse formas mais ou menos rústicas, as quais muito provavelmente chegaram com uma ou outra variante à Idade Média.

143 A Arqueologia documenta para outras regiões, além da tipologia aqui descrita, pequenos fornos portáteis (Bustamante Álvarez 2013, 12). Visíveis sobretudo em Roma, desconhece-se em absoluto na área do nosso estudo a sua existência.

144 A este respeito a Arqueologia tem feito alguns progressos. Em Mozinho existem alguns quarteirões que apontam para a existência de padarias.

145 O contributo dos Visigodos foi também importante do ponto de vista agrícola. Entre outros aspetos, o Código Visigótico é disso um bom exemplo, sobretudo no caso vertente do nosso estudo, pelo cuidado que dá à partilha da água e à conservação dos moinhos existentes (Castellón 1997, 38).

146 Além dos cereais a população portuguesa recorreu durante a Idade Média com alguma frequência a outras formas panificáveis como a bolota e a castanha (Marques 1978, 201).

147 A produção de cereal na Idade Média foi quase sempre deficitária. Entre outros fatores, a maioria dos historiadores associam tal à fraca qualidade dos solos, pouco propícios ao cultivo de cereais, ao regime de propriedade, quase toda na posse das instituições religiosas e dos senhores locais, ao sistema de afolhamento bienal e respetivo pousio e, por fim, às incipientes formas de aprovisionamento do cereal, sobretudo na forma de tulhas, que não garantiam completamente a boa conservação do produto colhido no campo (Marques 1978, 89-99; Gonçalves 2007, 50-53).

148 Os textos medievais, sobretudo as Inquirições de 1220 e 1258 constituem-se como uma fonte de enorme riqueza para o historiador. Apesar disso é necessário ter em conta que as informações de carácter agrícola e económica são apenas a fração da uma realidade que seria porventura muito maior. Em geral, as inquirições reportam-se às terras que pertencem à coroa pelo que as mesmas não contemplam informações relativas às terras que estavam na posse da Igreja ou de senhores locais. Por este facto faltam informações a respeito de muitas freguesias e paróquias.

149 Fontão, São Pedro d` Arcos, Arcozelo, Facha, Santa Maria de Rebordões e São João de Vilar, hoje Vilar do Monte.

150 Colocamos aqui a duas hipóteses, contudo inclinamo-nos mais para a primeira, isto é, a produção de cereal não seria dominante nestas freguesias. Tal ilação baseia-se numa passagem das Inquirições de 1258 que sugere que o pagamento em cereal se fazia mesmo que não existisse: “ Item, dixerunt que in Sangilde há Sanctus Salvator de Torre iiij. casaes, et Sanctus Romanus j. casal et uno meyo casal que foy de Martino Suarizm, et dam cada ano al Rey de cada uno destes v, se poblados fossem, scilicet: in cada mes senas mondas centeas cum iiij. iiij. ovos; et se nom ouverem estas mondas dam li senas boroas de sesta de j. alqueire …” (PMH, Inquirições de 1258, 332-333).

151 As numerosas referências a pão, a moinhos e a fornos nas Inquirições de 1258 permitem de facto esta leitura.

152 Apesar desta nossa posição, fundamentada na evidência arqueológica do local, não descuramos a possibilidade de outras estruturas de armazenamento, pois que certamente as houve. Sobre o assunto vide
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