Fala sério, amor! – Thalita Rebouças



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Fala sério, amor! – Thalita Rebouças

Ah, o amor! Essa palavrinha tão cantada em verso e prosa é o tema deste livro, que reúne histórias de Malu e suas descobertas amorosas (e outras nem tanto) desde a infância até o fim da adolescência. Estão aqui o primeiro amor, o primeiro beijo, a relação dos namorados com sua família, sua mania de bancar o cupido para as amigas, os micos, os términos, o namorado grudento, o ciumento, os burros, os pais dos namorados, e, claro, as (várias) roubadas em que uma adolescente solteira pode se meter.

Encerrando a série Retratos de Malu, iniciada com Fala sério, mãe!, a escritora Thalita Rebouças, que atualmente vende quatro livros por hora e já bateu a marca de 70 mil exemplares vendidos, lança mais um livro sensível e divertido estrelado pela protagonista que virou queridinha de milhares de meninas de norte a sul do país.

Em Fala sério, amor!, Malu, ela mesma, a Maria de Lourdes, moradora da Tijuca, filha da Ângela Cristina, está de volta para contar suas descobertas amorosas desde a infância até o fim da adolescência. E a menina está afiada. Os "ficantes", os rolos passageiros, o namorado grudento, o ciumento, os doidos que aparecem pelo caminho, os fofos, os pais dos namorados, os seus pais e os namorados... ela sempre tem uma boa história para contar. Sorte das leitoras, que certamente vão se identificar com as muitas alegrias e furadas em que a Malu já se meteu e rir junto com ela.


7 anos

Meu primeiro amor

Eu era tão apaixonada pelo Guilherme Almeida desde que tinha uns seis anos de idade. Todo mundo sabia da minha paixão: minha mãe sabia, meu pai sabia, meus irmãos sabiam, meus avós sabiam, até a minha professora sabia. Menos ele. Ele estava naquela fase de chegar do recreio suado depois de correr em campo atrás de uma bola idiota e de olhar para as garotas como se elas fossem os seres mais repulsivos do planeta. Guilherme Almeida ignorava minha presença, apesar dos meus olhares apaixonados e insinuantes.


Foi ele quem me ensinou a fazer o oito. Eu achei o máximo ele saber fazer o oito tão perfeitamente com seis anos de idade, em tão pouco tempo de aprendizado. Um número que eu achava difícil à beça. Eu fazia uma bolinha em cima da outra e ele já sabia fazer direitinho, com precisão cirúrgica.

Que menino inteligente!, eu suspirava.

E me ensinou com a maior paciência, pegou na minha mão para me ajudar a fazer as curvas do número, não se importou com meus erros infantis e não sossegou enquanto não viu meu 8 parecer um 8. Acho que foi nesse dia que me apaixonei e decidi namorar com ele. Ele, claro, continuava não sabendo de nada. Só eu namorava com ele. Guilherme Almeida nem tchum pra mim.


O meu namoro solitário durou mais ou menos um ano. Numa manhã, depois do recreio, suado, vermelho, cabelo desgrenhado, camiseta suja e meio rasgada, arranhão no queixo, o charme em forma de criança, ele se aproximou de mim e disse:
— Eu acho que gosto de você, Malu.
Meu coração pequenininho que pulou para a garganta.
— Eu também acho!
— Impossível! Eu descobri agora que acho que gosto de você, como você pode saber?
— Não, Guilherme! Eu acho que eu gosto de você também — minto. Se havia uma coisa de que eu tinha certeza absoluta, era de que o Guilherme Almeida era o homem da minha vida, meu príncipe encantado.

— Sério, desde quando? — quis saber, cabreiro.

— Ah... desde... desde ontem — menti de novo, aprendendo na prática, aos sete anos de idade, a jogar o xadrez da conquista.
— Quer namorar? — perguntou ele, na lata.
Como seria bom se os meninos mais velhos fossem assim, tão diretos!
— Quero — respondi, com a felicidade estampada em meu sorrisinho banguela.
— Então me mostra.
Ô-ou... Mostra o quê, cara-pálida?, eu tive vontade de perguntar. Guilherme Almeida, daquela idade, era um menino que já pensava em indecências?, imaginei, com o pé atrás que toda mulher deve ter em começos de relacionamento, mesmo com sete anos de existência.
— O que você quer que eu mostre?
— Seu pé.
— O quê?
— Anda, deixa eu ver seu pé, Malu.
Aquilo me pegou de surpresa. Guilherme Almeida tinha um brilho ansioso no olhar, uma curiosidade que beirava a esquisitice.
Eu sempre odiei meu pé. Magro, cheio de veias, quase chato, dedos compridos, calos por todos os lados.
— Pra quê?
— Porque eu quero ver, ué. Mostra? — pediu, como se precisasse do meu pé para viver.
— Por quê?
— Porque eu gosto de pé.
Puxa vida. Eu estava ferrada. Ele era um menino que gostava de pés, mas eu odiava meus pés. Morria de vergonha deles!
— O meu pé não tem nada de mais...
— Mas eu quero ver mesmo assim... Tira o tênis.
Putz! Pra tirar o tênis vou ter que tirar a meia e Guilherme Almeida vai sentir meu chulé. Chulé de pé suado depois do recreio!, gelei. Meu quase namoro estava por um fio. Droga! E eu era tão apaixonada por ele... Não queria que acabasse daquele jeito.
Não tive outra alternativa. Tirei o tênis, depois a meia, dei uma abanada no pé para tentar disfarçar o chulé e mostrei pra ele.
— É horrível, eu sei... — entristeci-me, já antevendo o primeiro pé na bunda que levaria na vida.
Ele olhou, olhou, olhou... Abriu um sorrisinho lindo e disse:
— É nada horrível. É lindo — elogiou, visivelmente encantado.
Feliz da vida, descobri que Guilherme Almeida estava realmente apaixonado por mim. E entendi o significado da frase "a paixão é cega".

Namoramos alguns meses, sem um beijinho sequer, apenas olhares apaixonados e mãozinhas dadas no recreio.


Guilherme Almeida, o primeiro amor da minha vida, gostou sinceramente de mim. Mas amor de verdade, mesmo, o meu pé.

8 anos


Um pato no meio do caminho

Meu segundo namorado foi o filho de uma vizinha, o Mateus. Toda vez que minha mãe ia para a casa dela falar da vida alheia, eu ia junto pra brincar com ele.


Era aquele namoro bobo, sabe? A gente dava um selinho muito do sem graça e molhadinho demais pro meu gosto e ficava por isso mesmo.
Eles moravam na cobertura, que tinha um terraço com muitas plantas, um campo de futebol, gato, cachorro e uma vista bem bacana. Um dia, ele me fez ir até o terraço para ver seu novo bichinho de estimação. Estava esperando mais um cachorrinho, um hamster (aquele rato metido a besta que todo mundo ama, mas eu odeio), um miquinho (que também me dá nervoso), ou algo do gênero. Eis que, para a minha surpresa, sai de um curralzinho Marcelino. Marcelino não era um bicho qualquer. Marcelino era um pato. Um pato!
— Pato, não! Marcelino é marreco, Malu, é diferente! — Mateus fez o favor de explicar.
Sempre fui avessa a bichos de penas. Galos, pintos, pombos, pavões, andorinhas, beija-flores... nunca gostei nem de chegar perto. De repente, eu vejo um pato na minha frente. Pato, aquele bicho idiota e sem iniciativa que não faz outra coisa a não ser qüé-qüé, é fanho, tem bico achatado, o pé horrendo (pé de pato, pô!), o andar esquisito de quem queria ser pingüim e uma cara mal-humorada que me dá frio na espinha.

— Vem cá, Malu! Ele é filhote!


— Não, eu tô bem aqui! — disse, colada aos degraus que separavam a escada do curralzinho.
— Vem, Malu, deixa de ser boba! Não vai me dizer que tem medo de marreco!
— Claro que não! É que pato fede! E eu odeio bicho fedorento. Só isso.
— Aí, que fresca! Meu marreco não fede, não, tá? É limpinho.
— Tô sentindo o cheiro dele daqui.
— Malu, você tem que trabalhar melhor essa sua relação com o mundo animal... A gente é animal, sabia?
— Animal racional, dâ-â! E eu não sou uma pessoa ligada a bichos, isso não tem nada de mais.
— Eu se fosse você perderia esse medo. Bichos são legais.
— Eu gosto de bichos. Só não amo bichos...
— Então por que fugiu do filhote do cocker spaniel da dona Zazá do segundo andar? Ela ficou magoada...
— Cachorro esquisito, veio pra cima de mim querendo me lamber! Nem me conhecia e já veio cheio de intimidade! E se ele me desse uma mordida?
— Ele é neném, Malu!
— Mas tem boca e dentes! Podia me morder. Eu gosto de bichos na floresta, nos filmes...
— Tá bom, deixa de ser medrosa, vai. Eu tô aqui, o Marcelino não vai fazer nada, você não confia em mim?
— Arrã... — disse, zero confiante.
— Então desce. Vem aqui fazer carinho nele.
Lutando contra todos os meus temores, desci a escada e, quando vi, estava no mesmo chão que o pato fedorento.
— Dá um beijinho no Marcelino.
— Fala sério, Mateus! Tá maluco?
O pato idiota começou a ficar agitado. A fazer qüé-qüés esquisitos, a bater as asas, parecia querer levantar vôo.
Assustada, comentei:
— O é que é isso? O que deu nesse bicho?
— Iihhhh... Agora que reparei... você tá de vermelho.
— E o que é que tem?
— Bicho de pena não pode ver vermelho que...
— Que o quê, Mateus?
Mateus não teve tempo de responder. O idiota do pato saiu correndo atrás de mim como se fosse um touro. Corri em círculos pelo campo de futebol com um pato imbecil atrás de mim fazendo qüé-qüé em looping, louco para me bicar e me matar sufocada com seu fedor e suas penas horrorosas e sujas.

Chorava como se estivesse no meio do pior dos pesadelos.


— Corre atrás dela, Marcelino. Pega ela! — gritou Danilo, irmão mais velho do Mateus, para o pato assassino.
— Pára, gente! Me tira daqui, Mateus! — berrei para ninguém, já que Mateus rolava de rir ao lado do irmão.
— Marreco não pode ver gente de vermelho que acha que tem que perseguir! — explicou Mateus, rindo como se estivesse vendo uma comédia pastelão.
— E por que você não me disse isso antes, seu demente?
Ouvindo a gritaria, nossas mães apareceram na janela.
— O que foi, filha?
— Esse bicho idiota quer me matar, mãe! Eu vou morrer assassinada por um bicho de dois palmos de altura! Que fim terrívelll! — expliquei quase sem fôlego e aos prantos, enquanto corria em velocidade de maratonista.
— Pega o pato, Mateus! — ordenou a mãe dos meninos.
— É marreco, mãe!
Cena grotesca: Mateus e Danilo correndo atrás do pato que corria atrás de mim.
Depois de algumas voltas, eu suando de tanto correr e temer uma tragédia, o pato foi pego e a paz voltou a reinar. Com o fôlego retomado e o choro suspenso, perguntei a mãe do Mateus, injuriada:
— Tia Cidinha, por que você deu um pato pros meninos? Que presente louco é esse?
Depois descobri pela minha mãe, que soube pela Cidinha, que Mateus não queria mais namorar comigo e, sabendo do meu medo de bichos de pena, achou que um pato seria um ótimo motivo para eu me separar dele. Podia ter dito que não queria mais, teria sido muito mais fácil. Até porque eu já não estava mais a fim de ficar com ele. Além de ele ter muitos bichos para o meu gosto, ele tinha, crueldade das crueldades, passarinhos coloridos numa gaiola. Deprimente!
Depois dessa experiência com o pato psicopata (praticamente um psicopato), passei a odiar o Mateus. E patos.
Odiar não é bem a palavra. Eu tenho medo de patos. Eu sei, essa frase soa ridícula, mas fazer o quê?
Pato pra mim, só o Pato Donald. E olhe lá.
12 anos


Beijo de lingua

— Quer bala?


U-hu!, urrei por dentro. O primo da Alice está dando muuuuito mole!, comemorei internamente.
O cara tinha acabado de fazer 15 anos, morava em Friburgo e estava aqui no Rio de passagem. Ou seja, perfeito para um primeiro beijo.
Toda vez que a gente se encontrava rolava aquele clima purpurina. Clima diferente. Clima bom à beça.
A Alice achava que o clima era só na minha cabeça e que eu continuaria BV (Boca Virgem) se dependesse do Nando.
— Ele não está a fim de você, Malu! Meu primo é bobão, nem pensa em namorar.
— Eu não quero namorar! Quero beijar!
A despeito da descrença da Alice, eu tinha certeza: estava vivendo meus últimos momentos de virgindade bucal. Dentro de pouco tempo, eu entraria pra o time dos que beijam. Eu, a mocinha da novela das oito, Madonna, Ronaldinho...
Saímos da bombonière do cinema rumo à sala de projeção. O filme escolhido por ele: O massacre das serras assassinas VIII.
— É para eu ficar com medo e agarrá-lo no cinema, assustada.
— Não é nada disso, Malu! É porque ele é um débil mental que só pensa em sangue, crimes violentos e terror.
— Tá com frio, Nando? — perguntei, fofa. — Eu não estou, se quiser meu casaco te empresto.
— Tô a fim não, Manu. Valeu.
Manu! O cara me chamou de Manu! A purpurina tinha visivelmente ficado em carnavais passados.
— Malu, Nando. Ma-lu! — corrigi, indignada.
— Claro, desculpa, Malu. É que tenho uma amiga em Resendo que se chama Manu. Ela é amiga da Ritinha, da Gabi...
— Tô nem aí pra essas meninas, nunca vi essas meninas. Eu sou Malu! Malu!
— Você... Você tem medo de filme de terror?
— Tenho! Tenho! Tenho! — foi o que consegui responder.
Virei-me na hora para Alice e comemorei baixinho a volta da purpurina.
— Caraca, ele está completamente apaixonado por mim! Você viu? Veio com papinho de querer me proteger do medo...
— Ele só te perguntou se você gosta de filme de terror.

— Se eu tenho medo de filme de terror! Para quê? Para eu ficar com medinho e ele me dar o ombro para me acolher dos horrores do filme.


— Viajou!
A Alice me irritava nessas horas.
Fiz questão de ignorá-la.
Sinistro! Meu poder de sedução é muuuito bom! Conquistei o garoto com meu charme e com a minha beleza interior em pouquíssimos segundos. Eu sou ótima!, pensei.
Na sala 12 do multiplex, sentamos lado a lado. Assim que apagaram as luzes, a Alice, a Joana e a Duca zarparam com o Homero e o Neco para umas filas na frente. Suuuper discretinhos.
Aí rolou aquele clima estranho. Aquele clima olha-não-olha, beija-não-beija, conversa-não-conversa.
O coração bateu numa velocidade que eu nem achei que ele poderia atingir. Parecia querer sair do meu corpo.
— Tem pipoca aí ainda?

Essa pergunta era claramente um suuuuuper primeiro passo. Que fofo o Nando! Afinal, dividir pipoca é sinal de carinho, amizade, de companheirismo, de energia boa. Definitivamente ele está muito a fim de me beijar, vibrei por dentro.


Como pensamos bobagens quando temos 12 anos...
Tinha pipoca. Ele comeu pipoca, eu comi pipoca, a gente encheu a cara de pipoca. Nunca comi tanta pipoca. No cinema, eu jurava que o som do nosso mastigar era mais alto que o das serras assassinas em ação.
Acabou a pipoca.
E começou aquela desconfortável sensação de milho no dente.
— Posso dar um gole na sua Coca?
Uau! Isso sim é um primeiro passo decente!, surtei. Afinal, beber no mesmo canudo é praticamente um beijo de língua, surtei mais ainda.
Ele deu um gole e eu dei um logo depois. Eu era charme puro.
E a cada minuto que passava ficava com mais vontade de jogar mais charme, só para dar um beijo na boca daquele friburguense. Friburguense meio devagar, vamos combinar! Meio não, totalmente devagar! Eu dando aquele mole descarado e ele nada! Depois aprendi que muitos meninos são devagar, independe da idade. Eles são simplesmente muito lerdos na arte de conquista.

Com medo de que Nando não tomasse atitude que eu esperava dele, resolvi meu futuro naquele instante.


— Nando... a gente já dividiu um canudo, comeu pipoca do mesmo saco... O que você quer esperar mais para me dar um beijo?
É! Eu falei isso! Eu virei Malu, a Cara-de-Pau! A que parte-pra-cima-mesmo-e-que-se-dane-o-que-outros-pensem.
E olha que eu nem era a fim do cara! Estava mesmo a fim de saber o gosto de um beijo e nada melhor do que com um garoto que eu conhecia desde pequena e que era um feinho (sempre gostei de garotos feios) bem charmosinho.
— Você quer que eu te... que eu te... que eu te dê...
— Um beijo, quero, mas eu posso dar um em você também.
Disse isso e, smack!, tasquei um beijo nele.
Eu estava impossível! E decididéssima!
Caraca!
Beijei.
Beijei. beijei, beijei.
Na boa, achei muito, muito melado. Uma baba só. Muito estranho. A língua dele rodava que nem uma manivela, parecia querer brigar com a minha!
Achei o beijo com gosto de tampa de caneta. Tampa de caneta ao molho de esmalte incolor.
É, não foi legal o nosso primeiro beijo. Foi bem desencaixado.
Mas pela cara do Nando ele tinha gostado bastante da beijação.
— Malu, menina! Você, hein? E pensar que eu nunca pensei em te beijar, nunca te olhei como uma garota.
Leso!, pensei. E as nossas conversas na lanchonete, na fila, nossa divisão de pipoca e carinho, nosso beijo no canudo?, eu tive vontade de perguntar, muito injuriada.
Mas não perguntei. Se ele era um menino que demorava a entender a intensidade de um clima purpurina como o nosso, problema dele. Eu, pelo menos, não era mais BV, nem BVL (Boca Virgem de Língua), muito menos BVBL (Boca Virgem de Beijo Longo).
Meu pensamentos foram surpreendidos pelo segundo beijo daquela tarde promissora. O Nando me beijou! E agora eu já estava no meu segundo beijo. Segundo! U-hu! E este não tinha gosto de tampa de caneta. Só de fita crepe. Tinha melhorado.
Beijamos mais uma, mais duas, mais cinco, mais nove vezes...
Nossa, foi muito beijo. Beijei muito! E cada vez melhor.

Ficamos um tanto babadinhos, mas super valeu a pena.


— A gente... a gente... a gente tá...
— Namorando? — perguntei.
— É.
— Fala sério, Nando! Claro que não! A gente só ficou. Mesmo porque eu moro aqui, você lá longe, quase nunca a gente ia se ver... melhor assim. A gente continua amigo e se der vontade a gente fica quando se encontrar.
— Sério, Malu? Caraca, você é demais! Concordo com tudo!
E assim eu decretei, maduríssima, que não ia namorar.
Depois de fofocar com as meninas na casa da Alice e contar detalhinhos do episódio primeiro beijo, fui para casa flutuando. Se aquele sucesso Tribalista já existisse na época, com certeza eu ia cantarolar: "Já sei namorar, já sei beijar de língua, agora só me resta sonhar"...
Assim que cheguei, resolvi me abrir com a minha mãe. Ela quase surtou, embora tenha tentando fazer uma cara de que achou tudo muito normal. Por isso não contei nem a metade da história para ela.
Uma semana depois, a Alice me contou que o palhaço do Nando chegou a Friburgo contando para todo mundo que passou o rodo geral no Rio, que as cariocas são muito fáceis.
Garotos... humpf!
13 Anos

Mamãe e meus namorados

— Mãe esse é o Paulinho.
— Paulinho? — reagiu, com uma fisionomia que beirava o nojo.
— É, mãe, Paulinho.
— Paulinho de quê?
— Só Paulim, tia.
— PAULIM? Paulim tá fora de questão, Paulo. E tia também. Dona Angela Cristina, por favor.
— Desculpa.
— É Paulo puro?
— É Paulo Silva.
— Meu Deus do céu, Maria de Lourdes, o nome do menino é esse? Paulo Silva? Paulo Silva e ponto? Ai, tadinho! — exclamou, sinceramente com pena dele. — Não podia ser Paulo Emílio, Paulo Ernesto, Paulo Afonso ou Paulo Sérgio? Adooooooooro Paulo Sérgio.
— Mãe!.
— Eu gosto de nome duplo, Maria de Lourdes, você sabe disso. Passa seriedade, nobreza, comprometimento com a verdade e com o trabalho. Passa felicidade.
— Eu não gosto de nome duplo não, dona. Tô feliz com o meu.
— Ah, isso é porque você é bobo. Garoto é bobo, não tem jeito.
— Eu não sou bobo. Estou bobo é com a beleza da sua filha, a Malu.
Ela quase teve um ataque. Fechou os olhos, meditou por alguns segundos, tremelicou os lábios como se tivesse ouvido a maior ofensa do mundo.
— Eu não conheço nenhuma Malu, Paulo Silva. A minha filha se chama Maria de Lourdes.
Caraca, a minha mãe sabia ser antipática quando não ia com a cara de um garoto — o que acontecia dez entre dez vezes que eu apresentava um pra ela.
— Mãe, eu tô saindo com o Paulinho.. quer dizer, com o Paulo, há uma semana.
— Uma semana? Espero que não tenha acontecido nenhum tipo de saliência entre vocês dois.
— Que isso, dona Ângela? Eu sou muito respeitador.
— Tem quantos anos?
— Quinze.
— Quinze? Um homem praticamente, não é, Maria de Lourdes? Não podia ter 13, que é a sua idade?
— Mãe! Já, já faço 14. E o Paulinho tem uma cabeça ótima!
— De onde vocês se conhecem?
— Ele é da minha sala.
— É re.. é re .. é repetente?
— Arrã... — respondi.
— Mas o garoto ainda por cima é burro, Maria de Lourdes?
— Manhê!
— É virgem?
— Quê?! — Paulinho ficou roxo, roxo, roxo.

— Escuta bem uma coisa, Paulo Silva: Maria de Lourdes é virgem. Super virgem. E eu não acho nada bacana a minha filha perder a virgindade com um garoto de nome simples, repetente, que sai com ela há uma semana. Ok? Entendido?


— Ô, mãe! Você tá assustando o menino! — Estrilei — Ela tá brincando, Paulinho.
— Dona Ângela, antes de a gente se pegar a gente já era amigo, então não precisa se preocupar, eu gosto mesmo da Malu. De verdade.
Ela respirou fundo. Pareceu usar sua tática de contar até 36 quando ficava tremendamente irritada.
— Paulo Silva Repetente, quer dizer que você.. v-você.. você e a minha filha.. estão se pegando? Que palavreado é esse? — quis saber, absolutamente indignada.
— Mãe, todo mundo pega todo mundo hoje em dia!
— Eu não sou mãe de todo mundo. Eu sou sua mãe! E ninguém pega filha minha! As pessoas namoram filha minha!
— Pegar é modo de dizer.. A gente ficou.. — tentou corrigir, suando frio.
— Fala sério, amor! — Soltei, desesperadamente, antevendo a reação materna.
— Ah, então vocês estão 'ficando'? Quer dizer que nem namoro é?
— Não é isso, mãe...
— Quais as suas reais intenções com a minha filha, Paulo Silva?
— Eu gosto dela. Gosto muito.
— Gosta? Gostar eu também gosto. O pai dela gosta, os irmãos gostam, o jornaleiro gosta, até o açougueiro gosta dela. Você tem que Amar a Maria de Lourdes. Amá-la acima de todas as coisas, respeitá-la, fazê-la feliz, ensinar a ela matemática. Você é bom em matemática?
— Ótimo.
— Enfim uma coisa boa em você, Paulo Silva.
— Eu também jogo xadrez muito bem, modéstia à parte. Estou ensinando pra Malu.
— Ah, Paulo Silva é repetente, mas tem um lado inteligente. Pelo menos isso. Olha, mão no peito neeeeeeem pensar! Na bunda, só se for de passagem, e por cima da calça jeans.
— Beleza! — Empolgou-se Paulinho.
— É brincadeira, Paulo Silva! Eu estava te testando, Paulo Silva, pra ver se você é o que eu estava pensando: um malandrinho aproveitador de meninas indefesas!
— Eu não sou nada disso! — defendeu-se Paulo Silva.

— Menino não presta, é impressionante. Mão só no cabelo e no rosto, e olhe lá! Maria de Lourdes é uma criança!


— Tá certo.. Desculpa..
— E seus pais? Eles sabem do namoro?
— Sabem. A minha mãe, dona Augusta, que é a diretora da escola, adora a Mal.. a Maria de Lourdes.
Nesse momento, minha mãe, Ângela Cristina, mudou da água para o vinho e abriu seu melhor sorriso, já imaginando o desconto que teria na mensalidade da escola, certamente.
— Dona Augusta é sua mãe? Dona Augusta, diretora do colégio, é a sua mãe?
— É, sim senhora.
— E deixou você repetir de ano?
— Deixou sim, senhora.
— Que Profissional exemplar! Paulo Silva, porque você não me disse isso antes? A-do-ro dona Augusta! Ela é uma querida! Tá super aprovado esse namoro, viu?
— Oba! — Comemorei.
— Agora vou ter mais intimidade com a sua mãe e vou poder levá-la ao salão para conhecer a Célia, a melhor cabeleireira do mundo. Sua mãe precisa mudar urgentemente aquele corte de cabelo da década de 80, parece que ela saiu de Os embalos de sábado à noite.
— Manhê! — Bufei
— Eu também acho, mas nunca falei isso pra ela porque sou menino, e mulheres não dão muita bola pra nossa opinião,né?
— Muito bem. Tô gostando de Paulo Silva, Maria de Lourdes! — afirmou, dando tapinhas no ombro dele. — Quando eu for ao salão com sua mãe vou fazer muitos elogios a você, viu?
— É o mesmo salão da minha depiladora, Malu?
— É o quê? Repete isso, filhinho.
— Eu me depilo no mesmo salão da..
— Pára o mundo que eu quero descer!!!! — Deu escândalo minha mãe. — Você se depila? Você se de-pi-la? Por quê, Santo Cristo? Pra quê? Depilar é coisa de mulher, não de homem, Paulo Silva! Você é macho, Paulo Silva!.. Diz pra mim.. Você tem tendências homossexuais, é isso? Pode dizer, eu não sou preconceituosa!
— Não, dona Ângela. É que eu nado. Quero ser nadador profissional e é melhor depilar os pêlos, aumenta a velocidade da gente na água.

— Atleta.. Veja você.. Paulo Silva é atleta. Ou seja, pobre. Você gosta de um pobre, né, Maria de Lourdes? Mas tudo bem. O rapaz parece de boa família. Tá liberado o namoro. Mas existe uma coisa chamada lâmina de barbear. Pára de depilar e passa a se raspar. É mais masculino e não dói.


— Mas coça.
— Deixa coçar Paulo Silva! Que é que tem uma coceirinha aqui, outra ali?
Quando ele foi embora, minha mãe voltou, cheia de si :
— Essa juventude tem muito a aprender comigo, sabe, Maria de Lourdes? Você tinha que se orgulhar de ter uma mãe maravilhosa como eu. Aposto que o Paulo Silva saiu um menino melhor daqui de casa, depois da nossa conversa.
Não resisti, o momento urrava por um:
— Fala sério, mãe!
Papai e meus namorados

Sempre foi mais fácil apresentar meus namorados, ficantes e trelelês para o meu pai. Ele é bem menos implicante e bem mais simpático com eles do que a minha mãe. O problema é que às vezes meu pai é simpático demais, sorridente demais, amiguinho demais. E eu não suporto esse negócio de pai virar amiguinho de namorado/ficante/trelelê.


Eu estava com o Léo havia duas semanas, a gente estava naquela fase de paixão profunda, amorzinho total, beijinhos carinhosos sem ter fim e horas a fio ao telefone. Era chegada a hora de apresentá-lo para meu pai.
— Pai, esse aqui é o Léo.
— Léo de Leonardo ou de Leopoldo?
— De Leônidas, mas graças a Deus todo mundo me chama só de Léo.
— Mas, Léo, Leônidas foi um grande craque do nosso futebol. Passou pelo Botafogo, pelo Vasco, pelo Flamengo, jogou na seleção na década de 40, ele era chamado de Diamante Negro do futebol, você tinha que se orgulhar desse nome!
— Eu achei que o senhor era Fluminense, tio.
— Senhor tá no céu. E tio é horrível, Léo. Eu não tenho idade pra ser tio, pode me chamar de primo — fez gracinha.
Comecei a ficar com medo. Ele continuou:
— Eu sou tricolor, mas entendo de futebol modéstia à parte. Sou jornalista esportivo, trabalho com isso há anos. Infelizmente o Leônidas nunca passou pelo Flu, mas foi, sem dúvida, um dos maiores ídolos do futebol.
— Meu none é Leônidas por causa desse cara aí, mesmo. Eu odeio esse nome.
— Não diga bobagem! É uma honra ter o nome de um ídolo. Pior é o meu: Que é que cê tá armando, Armando? — gracejou e caiu na gargalhada. Sozinho.
Vendo que não estava agradando, partiu para o golpe baixo.
— A Malu já te contou dos campeonatos de pum que a gente fazia lá em casa? Ela sempre ganhava! O pum dela é um pum de categoria, desde pequena!
— Paiê! — protestei, os olhos arregalados.
— Que é que tem, Malu? Se você veio me apresentar o cara é porque o negócio é sério. E se é sério um pumzinho vai acabar escapulindo mais cedo ou mais tarde.

Agora o Léo ria com gosto. E meu pai, feliz por finalmente arrancar um sorriso do menino, continuou seu repertório flatulento:


— Que cara feia é essa, Malu? Todo mundo solta pum, minha filha!
— Paaaaaaaaai! — gritei, roxa de vergonha.
Léo ria mais ainda, parecia amigo de infância do meu pai.
— O que mais ela fazia quando era pequena?
— Ah!Ela adorava pintar a cara de vermelho e sair correndo pelada pela casa dizendo que era o Cacique Manda-chuva. Ela peladinha pulando com o rosto pintado de vermelho era a coisa mais linda do pai.
— Cacique Manda-chuva?! Rá, essa é boa!Tem foto?
— Claro! Te mando por e-mail.
— Tá maluco, pai? Manda nada!
— Manda-chuuuuuuva! Era esse o nome do seu Cacique! Ô, menina desmemoriada!
E os dois riram juntos como se fossem velhos amigos. Quá quá quá, pra cá, quá quá quá quá, pra lá.
— Mais podres, primo! Mais podres da Malu!
— Esse peito aqui não existe, cê sabe, né? É tudo enchimento! — avisou, enquanto apertava meu sutiã de enchimento — Por isso nem se empolga pra chegar perto dessa área. Não tem nada pra ver aqui. Confio em você, hein, moleque? Respeito com a minha mina! — Completou, dando soquinhos amigos no Léo, que retibuiu com os mesmos soquinhos amigos.
Odeio soquinhos amigos.
— Caraca, pai!' Minha ‘mina’ ninguém merece!
— É carinho, filhota. Eu me preocupo com a minha porquinha frufru!
— Porquinha frufru? Rá rá rá!!!
— Era assim que eu chamava a Malu quando ela era pequena, sabe Léo?
— Mas por que porquinha? Ela tinha cara de porquinha?
— Que nada! Ela nunca foi chegada num banho, né, filha? Até hoje é assim.
— Nunca mais apresento ninguém pra você, pai! — reagi, fora do sério!
— Ih, ó! Vai se preparando, a Malu é brava!
— Não sou NADA brava!
— Porquinha frufru é brava, é? — quis saber o debochado do Léo.
— É, sim, vai se acostumando! Teve um dia em que ela mordeu a minha perna na praia porque eu não tava dando atenção pra ela.
— Mordeu?
— Eu tinha 4 anos, isso você não conta, né?

— E a leitura da Malu? Só lê bobagem: revistas de fofocas, revistas de adolescente, gibi e livrinhos bobinhos. Mas no banheiro só entra Cara, né, Malu? Como diz a mãe dela, essa menina senta na privada e esquece da vida, né, filha?


— Fala sério, pai!
— E o gosto musical? Já sabe, né?
— Não! Conta, primo!
— É péssimo! Ela chora quando vê essas bandinhas de menininhos rebolando na tevê, guarda pôster de artista; se faz de moderna, mas é cafona toda vida!
— Quem diria, hein, Malu? — perguntou Léo, roxo de tanto rir.
— Não é nada disso, não guardo nada de ninguém há séculos! Que viagem, pai!
— Mas guardou daqueles mexicanos que vieram pro Brasil. Ou eram colombianos? Até pra porta do hotel você quis ir! Eu que não deixei.
— Você gostava daqueles mexicanos? Ecaaaaaaa! Fala sério, Malu!
— E pior: ela só é botafoguense porque acha a estrela bonitinha. É muito perua, né não?
Eu quase voei na jugular do meu pai. Só não fiz isso porque ele e Léo se adoravam. Foi amor à primeira vista.
O problema foi aturar o Léo me chamando de porquinha frufru pra cima e pra baixo e espalhando meu infame apelido de infância para todos nossos amigos.
Homens... Não importa a idade que tenham, são sempre umas crianças.
Presente para o amor

Eu estava com o Tadeu havia dois meses e cinco dias, mas a gente se conhecia há um tempão, ele morava na minha rua, brincávamos juntos no play quando éramos crianças, fazíamos guerra de pipoca, íamos ao cinema só pra fazer barulho e atrapalhar a sessão.. Enfim, éramos amigos antes de tudo.


Chegou o dia dos namorados. Adoro dia dos namorados. Ganhar presente só por estar namorando é tudo de bom. O que o comércio não inventa pra faturar? Estava ansiosa pra encontrar o Tadeu. Tinha comprado pra ele um presente que eu tinha certeza de que ele ia amar, uma bola, uma chuteira e a camisa do Ronaldinho Gaúcho no Barcelona, que era o sonho de consumo dele. Não era um presente, eram três presentes, presentaços! Eu estava tão orgulhosa de mim! Gastei toda a minha mesada e ainda tive que pedir adiantamento da próxima para meus pais, para poder caprichar, mas não me arrependi, sabia que iria agradar em cheio ao Tadeu.
— Tô passando aí pra gente sair.
— Tô descendo.
Botei tudo numa caixa estampada com corações que custou os olhos da cara, tasquei um laçarote branco e escrevi um cartão 'Nosso amor está só no começo, mas é lindo, é fofo, é bem fofinho mesmo.Vamos ficar juntos muitos e muitos anos, meu amor, minha vida, minha beleza, meu torpor'. Torpor peguei emprestado do meu pai, para rimar com 'amor'. Nem sabia bem o que era torpor, mas achei a palavra um espetáculo.
Estava ansiosa na portaria esperando por ele e o vi se aproximar.
Estava de mãos abanando.
Quase tive uma sincope nervosa em plena portaria, mas resisti.
Fui ao encontro dele.
Dei um selinho.
Mostrei a caixa, como se mostrasse um tesouro.
— É pra você. — Sorri, orgulhosa.
— Pra mim? Caraca, Malu! Não precisava!
— Claro que precisava..
— Mas a gente só tá junto há dois meses..
Tóin! Um martelo imaginário, porém pesado, martelou a minha cabeça. Quase tirei o laçarote do presente para enforcar o Tadeu, em virtude da frase odiosa, mas me controlei.

Insensível, palhaço, idiota!, tive vontade de gritar antes de dizer: — Mas você merece os melhores presentes.Só por me fazer tão feliz..
— Ah.. Tá.. Beleza..
— Abre!
— Agora?
— Agora!
Ele abriu. Seus olhinhos faiscaram de tanta felicidade. Foi um festival de uaus e caracas que me deixou extremamente empolgada e certa de que seria, de longe, a vencedora do prêmio de melhor namorada do mundo, se ele existisse.
Ainda embasbacado com a trinca de presentes perfeitíssimos, ele revelou:
— O seu presente eu.. eu esqueci lá em casa. Achei que a gente ia se ver mais tarde também.
Ufa! Ele tinha comprado, só tinha esquecido.
— Não tem problema, vamos até lá buscar.
— Agora?
— É, ué.É aqui do lado.
— Ah, é?
— É, Tadeu! Você mora no prédio ao lado do meu desde que tem três anos.
— Tá.
Chegamos à casa dele.
— Oi, tia Sueli — cumprimentei a mãe do Tadeu.
— Oi Malu. Ganhou presente, é, filhote?
— Ganhei. Três presentes irados.
— Por quê?
— Porque hoje é dia dos namorados, tia.
— Ih, é mesmo, tinha até esquecido.
— Mãe, a Rafa tá ai?
— Não, sua irmã saiu com o Bodão.
— Ah, tá. Malu quer água, refri, alguma coisa? — perguntou, fofo.
— Não, tô bem assim. Quero só meu presente mesmo, tô curiosa.
— Ah, tá. Ah, tá. Arrã. Mãe, dá um pulinho aqui?
— Não, filho, vou ficar fazendo sala pra ela.
— Ela é de casa, pode ficar sozinha um pouco.
— De jeito nenhum, que desfei..
— Vem mãe! Por favor!! — insistiu.
— Com licença, Malu.
Os dois entraram e ficaram lá dentro por longos minutos. Deu tempo de ligar pra Alice e pra Duca, deu tempo de ler o horóscopo no jornal que a tia Sueli estava lendo e ainda fui dar uma vasculhada na geladeira, porque depois de tanto tempo fiquei com sede.
Eles reapareceram.
— Tchanãã.. — Fez Tadeu, com um saco marrom de supermercado, meio amassado, e uma fita de cetim um tanto amarrotada fazendo um laçarote, grampeada no saco.
— Pra mim? — perguntei, sem esconder a decepção.
— Pra você.
— Tá calor aqui, né? Vou lá dentro tomar uma chuveirada fria — avisou tia Sueli, antes de sumir corredor adentro.

— O pacote fui eu que improvisei, a loja estava sem embalagem pra presente. Não vai abrir?


— Vou, claro.. — Respondi, sem a menos vontade de abrir aquele pacote pobrinho.
Abri. E qual não foi a minha surpresa quando vi o presente.
— Uma meia? Noooossaaa.. ? Uma meia..
— Toda colorida, você não gosta de meias coloridas?
— Gosto, acho que gosto.. Nunca parei pra prestar atenção nas minhas meias.
Tentei disfarçar a minha cara de desânimo. Afinal, a situação não estava boa pra ninguém, ele podia estar sem grana.. Pelo menos ele não tinha esquecido de mim. Comprou uma meia colorida.
Observando mais atentamente, constatei o que não queria constatar.
— Uma meia cheia de patinhos, olha só..
— Não é linda?
— Eu odeio pato, Tadeu.
— Como assim?
— Eu tenho medo de pato.
— Fala sério, Malu!
— Tô falando. Se eu pudesse fazer um pedido para o gênio da lâmpada eu pediria que ele acabasse com os patos. O ideal de paraíso, para mim, é um mundo sem patos, Tadeu.
Silêncio constrangedor.
— Acho que você não me conhece muito bem.. — desabafei, as lágrimas começando a escorrer.
Enquanto enxugava as lágrimas com a horrorosa meia de pato, senti um cheirinho diferente. Não era cheiro de pato, não era cheiro de novo.
— Essa meia tá com xulé, Tadeu!
— Não é possível! É novinha!
— Não é novinha, Tadeu! Pode dizer, você pegou no quarto da sua irmã. Você esqueceu que hoje era dia dos namorados..
Ele ficou sem graça.
— Não, Malu, demorei horas na loja escolhendo..
— Pára de mentir, odeio mentira!
— Desculpa, Malu, desculpa! Eu não achei que a gente ia trocar presente de dia dos namorados! Você nem me falou que tinha comprado!
— Eu achei que você ia comprar também!
— Mas a gente tá junto há dois meses só.
— Que é que tem? Você acha que existe um tempo mínimo para as pessoas se darem presentes no dia dos namorados?
— Seis meses — ele respondeu, sincero.
— Beleza, Tadeu.Vou pra casa — despedi-me, pensando na minha querida mesadinha, que tinha ido embora com um monte de presentes idiotas.
Fiquei bem triste.

Enquanto chorava no meu quarto, tive de agüentar a minha mãe berrando do lado de fora:


— Gastou dinheiro à toa! Homem é tudo igual, Maria de Lourdes! Você precisa entender que homem não presta, filha! Não presta! Eles são péssimos de data! Não decoram nenhuma! É da raça, minha filha!
Chorei todas as lágrimas que existiam dentro de mim. Quando estava pensando em parar de chorar, bateram na porta.
— Não quero ver ninguém, mãe.
— Sou eu, Malu.
Era o Tadeu.
E eu estava horrorosa, com a cara de sapo, toda inchada.
— Ah.. Entra.
Ele entrou. E trazia um buquê lindo de flores numa mão e uma caixinha na outra.
— Sei que nada vai apagar o que eu te fiz, mas essas flores e esse presente são do fundo do meu coração. E eles são mais que um pedido de desculpa. São para você entender que gosto de verdade de você. Mas sou um garoto, e garotos são desligados..
Olhei pra ele meio chorosa ainda, desconfiada, mas com um sorrisinho nascente na boca.
— Vê se gosta.
Era um par de brincos.Lindo.
— Pra você sair hoje comigo mais bonita ainda. Posso botar?
Botou, me abraçou e me deu um beijo apaixonado.
— Eu te amo, Malu. Não só porque você é minha namorada, mas porque é minha melhor amiga.
Derreti.
Saímos para tomar um suco no começo da noite, olhamos nos olhos, rimos bobos um para o outro.
E eu entendi que datas são apenas datas. E que todo dia deve ser dia dos namorados. Dia 12 de junho, humpf! É só mais uma data para o comércio ganhar dinheiro. O que importa é o amor. E o amor não pode ser medido em cifras. Descobri isso naquele dia, o mesmo dia em que percebi que amava e era amada. Amada de verdade. Amor que não tinha sido comprado em nenhuma loja. Vinha do coração do Tadeu. Quer presente melhor que esse?
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