Família, Poder e Controle Social concepções de família no Brasil na passagem à modernidade 1



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Família, Poder e Controle Social

concepções de família no Brasil na passagem à modernidade 1
Gizlene Neder 2

Gisálio Cerqueira 3


Neste texto abordamos a história das famílias no Brasil, com ênfase no aspecto plural de sua constituição, tendo em vista a multiplicidade étnico-cultural que embasa a composição demográfica brasileira. O tema merece, portanto, um tratamento especial que leve em conta aspectos históricos e culturais presentes na formação social. Trabalhamos o mapeamento das concepções hegemônicas sobre família na formação histórica brasileira, com destaque para aquelas ligadas à cultura ocidental: de um lado, localizamos o pólo de produção fundado na cultura ibérica de orientação católica romana e, de outro, as atualizações históricas formuladas no bojo do processo de passagem à modernidade burguesa. Ambos os acentos aqui referidos encaminham processos de disciplinamento social e sexual, enquanto expressões específicas, antagônicas e complementares, do campo político e ideológico.

Colocamos uma lente de aumento nas concepções sobre família erigidas no bojo do processo de passagem à modernidade que acompanha o processo de aburguesamento da sociedade brasileira, na primeira metade do século XX. Trabalhamos algumas permanências culturais de longa duração da concepção religiosa (o tomismo da terceira escolástica), combinadamente com as modernidades/modernizações introduzidas pela perspectiva republicana, que estrutura as idéias de nação e indivíduo. Analisamos algumas representações sobre famílias, mulheres e alguns aspectos da vida privada presentes na produção pictórica de Alberto da Veiga Guignard (1896/1962). Confrontamos estas representações com aquelas que aparecem na produção de Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, Di Cavalcanti (1897/1976), tentando alargar e verificar a polissemia numa mesma conjuntura histórica. O período enfocado engloba desde a virada do século XIX até a década de 1950, considerado aqui como de transição à modernidade. Datam da década de 1930 os primeiros quadros analisados e de fins da década de 1950 os últimos.

Repomos no palco das atenções um debate conhecido desde a proclamação da república brasileira, em 1889, quando a discussão sobre a formação da nacionalidade e da cidadania tinha que levar em conta a massa de ex-escravos e de miscigenados de origem africana e indígena. Vale dizer, na sua origem, a formação da nacionalidade no Brasil teria de englobar e amalgamar as “três raças” e, como o paradigma científico hegemônico na virada do século XIX para o XX era o racismo de inspiração biologista (o darwinismo social que fundamentava o positivismo e o evolucionismo), tal situação criava um constrangimento. Como formar a nacionalidade e cidadania num país de ex-escravos e de miscigenados, de “raças inferiores”? Atente-se para o fato de que a miscigenação era pensada como mistura de “raças”, forjando novas crenças (agora ditas “científicas”) sobre a superioridade de brancos de origem européia presente na proposta do “branqueamento”. Reificavam-se ou reforçavam-se velhos preconceitos sobre a “barbárie” e a “inumanidade” dos africanos, eivados do racismo tradicional (inspirado no pensamento cristão de corte aristotélico-tomista presente na formação histórica ibérica, que justificou a dominação colonial escravista)4. As políticas públicas para as áreas de assistência social e educação têm operado sem levar em conta as diferenças étnico-culturais: as “famílias-padrão” (quer se tome por base a família tradicional, patriarcal, extensa, de origem ibérica, quer então o modelo “higiênico” e moralista da família burguesa de inspiração cientificista, introduzido no país a partir do processo de urbanização/industrialização nos primeiros anos do século XX) convivem no acontecer social com outras famílias, até há algum tempo atrás bem pouco conhecidas, de várias origens, indígenas ou africanas (matrilienares, patrilineares, poligâmicas/islamizadas, etc.). O que nos leva a enfatizar várias formas de organização das famílias no Brasil, tal como André Burguière e François Lebrun se referem às “mil e uma famílias da Europa”, ao trabalharem a enorme diversidade presente no continente europeu, a tal ponto que não se poder fazer um estudo de caráter geral para o tema5.

Certamente, as causa do fracasso escolar, por exemplo, não podem ser explicadas pela “desestruturação” ou “irregularidade” das famílias das classes populares, ou pela desnutrição (duas visões calcadas em “causas biológicas”, naturalizadas). O referido fracasso tem que ser identificado na incapacidade da política educacional pública de enxergar as diferenças culturais, para então formular estratégias eficazes de educação pública de qualidade. O agente social, no caso o professor, já parte de pressupostos muito arraigados sobre as “deficiências” e “incapacidades” do aluno sob sua responsabilidade. O mesmo pode-se dizer do policial ou do assistente social, quando atende o público, mormente os meninos e meninas classificados em categorias vagas e sociologicamente imprecisas como “pobres urbanos”, “carentes”, “meninos e meninas de/na rua”, ou como, no imaginário jurídico-social seletivo e discriminatório, “menores, pivetes, pixotes”6.

Objetiva-se, neste artigo, apresentar algumas possibilidades interpretativas sobre a questão da organização das famílias no Brasil.

Parte-se, portanto, da idéia de que não existe, histórica e antropologicamente falando, um modelo-padrão de organização familiar; não existe a “família regular”. Menos ainda que o padrão europeu de família patriarcal, do qual deriva a família nuclear baseada na idéia de indivíduo, da cristandade ocidental, convertida em burguesa (que a moral vitoriana da sociedade inglesa no século XIX atualizou historicamente para os tempos modernos), seja a única possibilidade histórica de organização familiar a orientar a vida cotidiana no caminho do progresso e da modernidade. Pensar as famílias de forma plural pode significar uma construção democrática baseada na tolerância com as diferenças, com o Outro7. Destarte, este trabalho é uma tentativa de desconstrução dos alicerces das concepções políticas e psico-afetivas que sustentam o racismo que, recrudescido, está tão em voga nos tempos atuais, e que, sem dúvida, constitui pano de fundo do debate sobre as famílias.


Visões hegemônicas sobre a família

Observa-se, inicialmente, que, de um modo geral, os trabalhos sobre famílias no Brasil apresentam certos recortes temáticos e certas ênfases interpretativas que precisam ser mapeados para que se possa ter uma melhor compreensão dos problemas envolvidos. Acreditamos que o avanço dos estudos e das práticas historiográficas, no tempo presente, tem contribuído para esta desconstrução do discurso hegemônico, mais que outros campos de saber tidos como bastante críticos, como a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia.

Que a família patriarcal (de origem ibérica) é extensa, constitui tema já há muito repetido, desde a publicação do magistral Casa-Grande & Senzala de Gilberto Freyre8.

Estudos históricos recentes têm desenvolvido argumentos que apontam para algumas diferenciações que merecem destaque e que, em certa medida, matizam a obra de Freyre. Estas dizem respeito às particularidades regionais (norte-sul). Sobretudo no Nordeste a mulher da família patriarcal (chamada sinhazinha) apresenta o perfil delineado pelo autor pernambucano quanto à docilidade, obediência e passividade, com atividades voltadas mais para o interior da casa-grande. Já no Sul, ao invés de “sinhazinhas”, são encontradas as “bandeirantes”. Dado o caráter militar e estratégico da colonização do Sul (sobretudo em São Paulo) as mulheres foram convocadas a administrar fazendas e a controlar os escravos; na ausência do homem, o bandeirante, desbravador, freqüentemente ausente9. Sem dúvida, este perfil aponta para um modelo muito mais ativo que passivo de mulher, sem perda, contudo, do seu caráter subordinado e submisso, nem das características extensivas da estrutura familiar do colonizador europeu aqui presente. Sublinhe-se, por fim, o caráter altamente repressivo desta estrutura familiar, reprodutora de normas de disciplinamento e controle social (e sexual), ditadas pela Igreja. Os historiadores têm se debruçado sobre os manuais para confessores, e sobre os tratados dos teólogos moralistas para o “casamento perfeito”, ou para a “perfeita casada”, disseminados pela cristandade ocidental nas duas margens do Atlântico, desde o tempo das reformas religiosas puritanas (a católica e a protestante)10. Decerto, grande parte das práticas pedagógicas autoritárias, inculcadas historicamente desde muito tempo, ainda perambulam pela formação histórica e ideológica brasileira. O sadismo e os castigos físicos praticados por pais e professores obedecem a uma concepção de educação fundada na culpa e na punição11 e impõe sanções antes mesmo de dar ao “acusado” o direito de se defender.

Em relação às famílias de origem africana, escravizadas, eram (são ainda?) vigentes as concepções racistas mais arcaicas de não-reconhecimento de sua condição humana, relacionadas às justificativas da própria escravidão africana no pensamento católico ibérico. Ou seja, a escravidão justificava-se pela “inumanidade” dos africanos. Esta foi a visão passada e reificada pelos europeus que visitaram o Brasil no tempo da escravidão e escreveram seus relatos de viagem, e que constituem hoje fonte de memória histórica, onde pode ser observado o que pensavam os europeus sobre as famílias dos escravos: morando em senzalas, viviam em promiscuidade sexual, como animais12. Esta é a concepção que foi cravada na formação ideológica brasileira e que está ainda muito viva, ainda que tenham sido introduzidos modernismos de toda sorte, ou de cientificismos que procuram escamotear esta visão tradicionalista e racista.

A República, o conservadorismo clerical, o positivismo e as concepções de família

A Proclamação da República (1889) introduziu no país um conjunto de modernizações que envolveram o fim do trabalho escravo e a urbanização (com desdobramentos para o processo de industrialização), como também o deslocamento para o Sudeste dos pólos econômico e de decisão política e cultural. O projeto republicano vitorioso dos militares jacobinos, assim chamados porque apresentavam alguns pontos em comum com os republicanos radicais da Revolução Francesa (propunham a separação da Igreja do Estado e tinham preocupações com a Educação, dentre outros pontos), traça as possibilidades de construção da ordem burguesa no Brasil. Deblatera-se, entretanto, com o republicanismo casuístico dos setores agrários, sobretudo paulistas, que estavam fora do jogo político do poder durante o Império e que viam no fim do regime monárquico a possibilidade de ingresso no processo político decisório. Desse modo, o republicanismo dos militares que implantaram o novo regime conviveu com o republicanismo das oligarquias agrárias, que se articularam no Partido Republicano Paulista (PRP), aliado ao Partido Republicano Mineiro (PRM), que dominaram a República Oligárquica nas primeiras décadas de sua vigência.

O projeto republicano dos militares inspirava-se no positivismo de Auguste Comte que penetrou no país nas últimas décadas do século XIX e deitou raízes na formação ideológica. Assim como projetavam as modificações no plano econômico de caráter moderno-conservador, mantendo, contudo um padrão de controle político e social excludente (sobretudo da massa de ex-escravos), pensavam também na organização da família moderna, chamada “nova família”13. Neste particular, evocava-se o padrão de organização burguês, mirando a família nuclear moderna. Novas práticas de sociabilidade foram adotadas, inspiradas nos modismo da belle-époque francesa e, antagônica e contraditoriamente, no conservadorismo moralista vigente no reinado da rainha Vitória, que durou quase toda a segunda metade do século XIX na Inglaterra.

Modernizaram-se, então, as concepções sobre o lugar da mulher nos alicerces da moral familiar e social. Ao contrário da “família tradicional”, aquela extensa, com a centralidade no pater-familia, que vinha dos tempos passados (da época colonial e do período do Império), a “nova mulher” deveria ser educada para desempenhar o papel de mãe (também uma educadora – dos filhos) e figura de centralidade no desenvolvimento da sensibilidade romântica14. Sobretudo, tornara-se figura chave de suporte do homem. A “boa esposa” e a “boa mãe” deveria ser prendada e deveria ir à escola, aprender a ler e escrever para bem desempenhar sua “missão educadora”. Neste sentido, os filósofos moralistas, desde Rousseau, como acentua Robert Darnton, trabalham no mesmo diapasão dos teólogos moralistas: indicando e conduzindo um padrão de comportamento esperado da “nova mulher”. Aí está o perfil desta mulher no projeto dos positivistas brasileiros do início do século, a talhar como modelo para o “novo” Brasil. Sobretudo, no projeto republicano dos positivistas, a Educação ocupa um lugar fundamental para o ideal de “ordem e progresso”.

Evidentemente, este projeto voltava-se para a modernização das famílias representadas brancas, de origem européia, e inscrevia-se no quadro das modificações ensejadas pela urbanização e industrialização e pelos modismos que mimeticamente impunham novos padrões de comportamento, uma vez que o país inseria-se no mercado mundial, e das tantas trocas atlânticas (de mercadorias, pessoas e culturas). Considerando-se o conjunto da sociedade brasileira, os setores populares foram excluídos e colocados num lugar de exacerbação das fantasias relacionadas ao “medo branco”, diante das massas de ex-escravos recém-libertos naquela conjuntura. “Educar o ex-escravo para a cidadania e a nacionalidade”: esta a preocupação de Joaquim Nabuco15. Ao lado das formulações mais gerais acerca da Educação, uma outra questão pairava sobre as consciências: como garantir a continuidade da exclusão dos homens pobres e livres (agora um contingente numericamente expressivo, com o fim da escravidão) do acesso à propriedade da terra?

Na medida em que os militares foram se afastando e as oligarquias assumiram o controle do campo político, esfumaçaram-se quaisquer preocupações com uma política voltada para a família e para a educação a partir do Estado. Isto porque, do ponto de vista das famílias afro-descendentes, sobretudo nos centros urbanos mais populosos do país na virada do século XIX para o XX (Rio de Janeiro, Salvador, Recife), representava-se que pouco se podia fazer, pois o determinismo biológico que inferiorizava os negros conduzia a uma profunda descrença na eficácia de qualquer política social de inclusão destes setores.

Resulta deste quadro acima exposto definição de estratégias de controle social voltadas à repressão de caráter militarista e excludente, com pouca ênfase na educação e na assistência social. Com isto, a jovem República aprovou em primeiro lugar o serviço militar obrigatório em detrimento da obrigatoriedade da educação básica.

No período do Estado Novo esboçaram-se as primeiras incursões do Estado no que se refre à realização de políticas públicas na área de família e educação. Ênfase especial passou a ser dada à idéia de “família regular”, “saudável”, suportada na eugenia, com desdobramento no racismo assimilacionista que apostava no branqueamento da sociedade brasileira. Forte aliada do Estado Novo, a Igreja deu mais que apoio político; deu, sobretudo, suporte teórico e prático para a implementação de políticas públicas nesta área. O lema do integralismo, “Deus, Pátria, Família”, movimento político de caráter regressista e conservador liderado por Plínio Salgado, não fazia outra coisa que sublinhar um viés profundamente moralista na prática política.

Separada do Estado, no início da República, a Igreja traçou estratégias de atuação no Brasil que resultaram na definição de uma política educacional católica de amplo alcance, com a implantação de escolas confessionais em todo o país. Padre Leonel Franca destacou-se como expoente do pensamento católico para questões educacionais e compareceu ao debate que se travou na vida nacional naquela conjuntura.

Relativamente às famílias, a Igreja apresentou as primeiras estratégias neste campo a serem desenvolvidas no Brasil. Portadores de um conhecimento prático adquirido a partir das Santas Casas de Misericórdia (estruturadas primeiro pelo absolutismo português e perdurando durante todo o período do Império, quando a Igreja estava intimamente liga ao Estado, através do Padroado), os setores católicos foram os mais aptos a preencher as lacunas deixadas pela nova ordem republicana nos campos da Educação e da Assistência Social.

Esta a razão pela qual, seja com o conservadorismo clerical (na conjuntura da primeira metade do século), seja na teologia da libertação (na conjuntura dos anos setenta) ou sob a tônica do fundamentalismo religioso (mais recentemente), o tema da família tem recebido um tratamento religioso, com fortes conotações europeizadas, calcadas na idéia de “família-padrão” (higienizada e patriarcal), com presença marcante do moralismo e do controle sexual típicos desta matriz ideológica.
A produção pictórica brasileira e as concepções sobre família

Contudo, o processo de ideologização é complexo, e envolve uma participação bem mais diversificada socialmente do que o acento que apontamos acima, quando destacamos as duas principais forças ideológicas na passagem à modernidade no período republicano (conservadorismo clerical e positivismo). Reside nesta diversidade a possibilidade de evocação das representações de outros agentes históricos que reproduzem a idéia de família nuclear inspirada na cristandade ocidental e sua referência consecutiva burguesa.

Tomaremos, nesta parte do trabalho a produção pictórica de dois pintores brasileiros, Guignard e Di Cavalcanti, cujos quadros aqui selecionados enfocam temáticas onde podemos observar a idéia sobre família e controle da sexualidade feminina. Elegemos as seguintes obras: 1) de Guignard, analisaremos uma seqüência de duas telas sobre um casal (“Os Noivos, 1937) e o mesmo casal com os filhos (1959); outra sobre um casal e filhos já crescidos (“Família do Fuzileiro”, 1938). Uma outra tela intitulada “Família de Negros”(1955). De Di Cavalcanti, tomaremos como referência a séria que enfoca as mulheres afro-descendentes (nomeadas pela totalidade da crítica especializada, pela bibliografia de história da pintura no Brasil e pela grande imprensa em geral de série “mulatas”) e analisaremos a tela intitulada “Moças com Violões” (1937).

Há, em todas as telas citadas um pano de fundo comum: tratam-se de retratos de sala de visitas com o mesmo enquadramento e praticamente os mesmos objetos evocativos das cenas da vida privada. Uma porta que se abre para uma sacadinha ... entretanto, o casal ou casal com filhos, estão olhando para o interior do aposento e nunca para o longe que a janela da sacada enseja. Observamos que há um deslocamento da configuração familiar do interior da sala para o limiar da sacada e enfim para a sacada propriamente dita, mas o olhar permanece fixado no interior da casa na expectativa de capturar o ohar do observador. O mesmo ocorre com “Moças com Violões” (1937), de Di Cavalcanti. As três mulheres, com seus violões, estão sentadas num sofá numa saleta, de costas para um pequeno alpendre. Há ainda vasos de flores sobre mesas, tapetes, quadros, cortinas, poltronas – sala de visitas de qualquer ambiente burguês e urbano. Todas as mulheres retratadas vestem roupas e sapatos da moda: scarpins aparecem nos pés das mulheres. Os vestidos portados pelas mulheres de Guignard são todos, ainda, expressões da belle-époque e estavam inteiramente fora de moda para a conjuntura quando as telas foram pintadas: vestidos compridos até os pés, floridos, pouco decotados; muito recatados. Os vestidos das moças com violões são do modelo de melindrosas e suas pernas são expostas de forma lânguida e displicente; uma das moças pousa o violão entre as pernas. Se considerarmos a conjuntura histórica desta tela de Di Cavalcanti, quando o próprio instrumento musical (o violão) não era muito bem visto, sobretudo, para moças, devemos destacar o progressivismo do pintor, de resto já bastante conhecido pelas suas ligações políticas com o comunismo. Neste sentido, estamos tomando a tela de Di Cavalcanti como um contraponto às representações sobre família, mulheres e vida privada de Guignard, que está muito mais próximo da idéia de família veiculada e inculcada pelas duas matrizes institucionais que encaminham políticas normatizadoras acima pontuadas.

Mas há contudo, uma alegoria que aparece em todas as telas que deve ser destacada, além dos outros objetos que compõem o pano de fundo de sala de visitas urbana e burguesa que já descrevemos. A bandeira do Brasil aparece em todas as telas (inclusiva na de Di Cavalcanti). Está a nos indicar que a problemática da construção da idéia de nação apresenta-se de forma repetida e insistente na conjuntura enfocada.

E ressaltamos que todas as figuras humanas retratadas são de afro-descedentes. No caso do Guignard, mais emblemático, a “família negra”, assim nomeada numa das telas, sofre um processo de branqueamento ideológico ao ser representada dentro do modelo de família-padrão européia. Finalmente, a belíssima tela “Os Noivos”, da exposição permanente do Museu da Chácara do Céu (Fundação Castro Maia) em Santa Teresa, apresenta de forma condensada a simbologia das duas forças políticas institucionais que dão suporte à República no Brasil: no pano de fundo, além das tantas referências a uma sala de visitas burguesa, encontram-se, lado a lado a bandeira nacional e um quadro do “sagrado coração de Jesus”, presente na quase totalidade dos ambientes de estar das casas brasileiras.

A pintura de Guignard enseja a construção de uma hipótese de trabalho de que as famílias miscigenadas, no Brasil, devem ser pensadas a partir de:

a) uma miscigenção étnico-cultural, a partir de diferenças étnicas, de nacionalidade, religiosidade, gênero, sexualidade, habitus culturais, etc. e nunca de “raças”, cujo conceito está sendo colocado em dúvida por recente estudos no campo da Biologia e Genética.

b) uma miscigenação (sempre étnico-cultural) por justaposição, onde as diferenças não se misturam mas “dialogam” umas com as outras e sempre a partir de um pathos de sofrimento psíquico, conforme os relatos da clínica de família exemplificam muito apropriadamente.

Fixemo-nos, portanto, n’Os noivos (1937), de Guignard. Sabemos que eles pré-existem na perspectiva escópica, do que não se vê, mas sustenta o que se vê, e na expectativa voltada para o futuro, que apontam para o casamento posterior, os filhos (afinal, a finalidade do casamento); os filhos em crescimento e já crescidos.

À esquerda e á direita do quadro estão aqueles dois símbolos fortemente institucionais: a bandeira do Brasil, altaneira e presa ao mastro, porém batida pelo vento; o que lhe dá uma dobra justamente na expressão “progresso” do dístico central. Se o lema “ordem e progresso” fosse visível, veríamos apenas a expressão “ordem” subsumida na (da)nação da norma como sugere Roberto Machado no seu belo e instigante livro sobre o ordenamento republicano. Não é de menor alcance a percepção visual de que esta vem associada à intervenção dos militares, considerados a farda que veste o fuzileiro, o aprumo do seu porte, levemente quebrado pelo braço esquerdo que pousa suave e pudicamente sobre as costas da noiva. Esta, também afro-descendente, veste, todavia, um traje recatado de desenho europeu, mas que diminui a composição erótica do corpo feminino. Os sapatos, que despontam distintos, e a cadeira na qual a mulher está sentada, apresentam-se também como peças da cultura de além-mar. Da terra, talvez o buquê de flores que lhe vai ás mãos ... O porte da noiva, embora sentada, é reto e firme, mas não há dúvida, no olhar que nos observa, que deve obediência e submissão ao futuro marido, inclusive pela altura do noivo que, de pé, quase ultrapassa em dobro a altura da noiva. O mastro se mostra como falo indefectível que porta o homem (fuzileiro) e apenas ele ...

À direita da tela, vemos a figura não exatamente do sagrado coração de Jesus , mas de um meio-Jesus, isto é, um Jesus cortado pelo meio, sem corpo do peito para baixo; portanto sem sexo ... O coração é desproporcional à imagem do tronco do “filho de Deus”, sendo porém musculoso, túrgido de sangue, latejante, quase monstruoso na sua forma esférica e avermelhada que se revela por sobre a túnica, também vermelha, do Jesus. Entretanto, pelos raios que o emolduram este coração sagrado acaba por se transformar num sol encarnado, cujo peito parece ostentar insígnias solares.

A luminosidade do sagrado coração contrasta vivamente com a face de Jesus retratada no quadro, pois esta sugere desmazelo, desleixo, sofrimento e dor que o calvário e a crucifixão propiciaram. Por simultâneo deslocamento e contigüidade, a lança que transpassou o sagrado coração jaz metaforizada e íntegra na forma do mastro da bandeira, ele próprio terminando em forma de lança. Assim, sofrimento e dor atravessam a vida “solar” de quem se submete e obedece ... ao Estado (os militares) e à Igreja (sagrado coração).

O olhar inquiridor do casal parece interrogar: o que nos aguarda o futuro? Um pathos de sofrimento e dor, para a maior glória de Deus (A.M.D.G.)?16

A miscigenação por justaposição, não exatamente a mistura, com que os elementos europeus e afro-descendentes aqui se apresentam buscam uma certa harmonia, mas também aspiram uma exaltação forçada, que por compressão e justaposição, ajustam o casal de noivos negros à moldura européia. Aí a fantasia do sujeito que acaba por configurar-se no “quadro que o sujeito pinta para ver a realidade da janela de sua subjetividade”17; no caso, da sacada para o interior da casa, da cena doméstica que acaba por enquadrar a família, sobretudo afro-descendente, na moldura aburguesada do jeito que é possível, atravessada de catolicidade romana.

“O quadro é uma armadilha para o olhar. Ele capta, fixa o olhar do observador que é chamado a depositar nele o seu olhar como quem entrega as armas, nos diz o psicanalista Jacques Lacan no Seminário XI, e isto confere o aspecto apaziguador, prazeroso do quadro: é a jubilação provocada pela pintura, o estado extasiado em que o espectador é deixado quando efetivamente capturado. O segredo da jubilação diante da bela pintura não é tão diferente da jubilação da criança diante do espelho. A jubilação especular é promovida pela cobertura da falta pela imagem que encobre a insuficiência e preenche as falhas do sujeito. Mas o que está em jogo na satisfação espeular é o objeto da pulsão escópica que emerge no entrecruzamento de olhares entre a criança e a mãe. Este objeto amboceptor é que se encontra também no fundamento da jubilação do quadro em seu efeito de domar o olhar, extraindo dele sua virulência, positivando o gozo que afeta o sujeito com o prazer derivado do pictural”.18

Niterói, Primavera, 2004.



gisalio@superig.com.br

gizlene@superig.com.br


1 IX Encontro da ANPUH-RJ – “Democracia e Conflito”, UERJ – Rio de Janeiro – Outubro de 2004, Simpósio Temático – História e Historiografia dos Oitocentos: balanço e perspectivas.

2 Gizlene Neder, Professora Doutora do Departamento de História da UFF e Coordenadora e pesquisadora senior do Laboratório Cidade e Poder / UFF.

3 Gisálio Cerqueira , Professor Doutor do Departamento de Ciência Política, membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental e Professor Titular de Sociologia.

4 Ver de Gizlene Neder. “Racismo e Cidadania”, in Violência e Cidadania, Porto Alegre: S. A. Fabris Editor, 1994, pp. 47,54.

5


 André Burguière & François Lebrun. “As mil e uma famílias da Europa”, in André Burguière, Martine Segalen et allii. História da Família, 3º. Volume, Lisboa: Terramar, 1998, pp. 15-82.

6 Uma análise que enfoca aspectos histórico-culturais e psicanalíticos dos apelidos das crianças em situação de risco pode ser encontrada em Gisálio Cerqueira Filho. Ideologia do Favor e Ignorância Simbólica da Lei. Rio de Janeiro: Imprensa do Estado do Rio de Janeiro, 1993.

7 I. Todorov. Nous et les Autres: la réflexion française sur la diversité humaine, Paris: Éditions de Minuit, 1989.

8 Gilberto Freyre. Casa-Grande & Senzala, 17ª. Ed., Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1975.

9 Eni de Mesquita Sâmara. A família na sociedade paulista do século XIX, São Paulo: FFLCH/USP, 1980 (tese de doutorado).

10 Citamos, no momento, Jean Delumeau. Naissance et Affirmation de la Reforme, Nouvelle Clio, Paris: PUF, 1965.

11 Gizlene Neder. “A Pedagogia da Violência”, in Violência e Cidadania, op.cit., pp. 55-68.

12 Robert Slenes. “Lares Negros, Olhares Brancos: histórias da família escrava no século XIX”, In Revista Brasileira de História, n. 16, São Paulo: Marco Zero/ANPUH, 1988.

13 Até os dias atuais, todo processo de mudança na organização das famílias que acompanha o aburguesamento da sociedade moderna: divórcio, nova parentela oriunda de filhos de outros casamentos, por exemplo, ou uma maior liberalidade dos costumes e da vida sexual que, no conjunto implique a modernidade, recebe a designação de “nova família”.

14 Robert Darnton. “Os leitores respondem a Rousseau: a fabricação da sensibilidade romântica”, In O Grande Massacre de Gatos, Rio de Janeiro: Graal, 1986. pp.277-336.

15 Joaquim Nabuco. O Abolicionismo, Petrópolis: Vozes, 1977.

16 A.M.D.G., Ad Maajorem Dei Gloriam

17 Antonio Quinet, “O espelho e o quadro” in “Imagem rainha: as formas do imaginário nas estruturas clínicas e na prática psicanalítica”, Rio de Janeiro: 7Letras, 1995, p. 78.

18 Antonio Quinet, Idem, pp. 76/77.




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