Fatal mesmo é crer na fatalidade. Dialogicidade, Superação, teoria e prática da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial



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FATAL MESMO É CRER NA FATALIDADE.
Dialogicidade, Superação, teoria e prática da Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial



Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

Laboratório Experimental de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico Existencial

... somente o ISSO pode ser ordenado. As coisas não são classificáveis senão na medida em que, deixando de ser nosso TU, se transformam em nosso ISSO. O TU não conhece nenhum sistema de coordenadas.



(...) o mundo ordenado não significa a ordem do mundo. Há momentos em que, sem motivo aparente, a ordem do mundo se apresenta como presente. Percebe-se, então, o tom do qual o mundo ordenado é nota indecifrável. Tais momentos são imortais, mas são também os mais fugazes. Deles não se pode conservar nenhum conteúdo, mas, em contrapartida, a sua força integra a criação e o conhecimento do homem, as irradiações de sua força penetram no mundo ordenado, fundindo-o incessantemente. Tal é a história do indivíduo, tal a história da espécie.

M. Buber

A única coisa que pode vir a ser fatal ao homem é crer na fatalidade.



A crença na fatalidade é falsa desde o princípio. (...) A profecia baseada na objetividade tem valor apenas para quem ignora a presença. Aquele que é subjugado pelo mundo do Isso é obrigado a ver no decurso inalterável uma verdade que esclarece a confusão. Na verdade tal dogma deixa subjugar-se mais profundamente ao mundo do Isso. O mundo do Tu, porém, não é fechado. Aquele que na unidade do seu ser se dirige a ele conhecerá profundamente a liberdade. E tornar-se livre significa libertar-se da crença na servidão.”

M. Buber.
E eis o que segredou-me a vida: ‘eu sou o que deve superar-se indefinidamente’.”

F. Nietzsche.
Sim, para o jogo do criar, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer-sim: sua vontade quer agora o espírito, seu mundo ganha para si o perdido do mundo.
Querer liberta: eis a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade ...
Todo ‘foi’ é um fragmento, um enigma, um horrível acaso -- até que a vontade criadora lhe diz: ‘Mas assim eu quis!”

F. Nietzsche.
"Ensinei-lhes toda a minha arte e finalidade de minhas pesquisas: condensar e reunir num o que no homem é fragmento e enigma e terrível acaso.

Poeta, advinho e redentor do acaso, ensinei-lhes a trabalhar o futuro e, criando, a libertar tudo o que já foi.

Libertar o passado no homem e transformar o 'era' até que a vontade possa dizer: "Mas foi assim que eu o quis! É assim que o quero.!

Foi isto que eu chamei a sua salvação, isto só que eu lhes ensinei a chamar salvação.

F. Nietzsche.

A Filosofia Dialógica da Relação de M. Buber, como fenomenologia e como ontologia da relação, e do humano, tem um poder singular para a compreensão do processo e do que podemos entender como produção dos efeitos da psicoterapia.

Muito além da mera conceituação das palavras princípio Eu-Isso e Eu-Tu --, ou da tola confusão de palavra com verbalização (mesmo que sub vocal), que tão freqüentemente se lhe atribui, a Filosofia da Relação oferece-nos preciosas perspectivas.

Não apenas para a formulação, ou para a compreensão, de uma concepção e de um método de psicoterapia ou de psicologia. Mas, fundamentalmente, para uma compreensão do como o humano, no seu mero ser como devir, foge, supera, desvencilha-se, do dado e do estabelecido. Como o ser humano transcende o determinado, o factual, o útil, cotidiano e inevitável mundo e vida do Isso, mundo, e vida, da coisificação e da coisidade, da fatalidade, do decurso inalterável das coisas, através da criação e re-criação de si e do mundo, que lhe é possibilitado pelo ontológico modo de ser do evento da relação em sua vida, pelo dialógico, na sua superabundância de forças e de plasticidade.

É tardia a dedicação específica de Buber ao processo da psicoterapia ou do trabalho psicológico. O que lhe ocupava era a ontologia da relação e do humano, era o processo de (auto) engendramento do ser (devir) do humano, e do humano mundo.

Com uma compreensão do dialógico, e de suas possibilidades na vida e no mundo humanos, Buber nos oferece uma perspectiva de compreensão do que, naturalmente, pode ocorrer de melhor no processo da psicoterapia, ou do trabalho psicológico, de base fenomenológico existencial.

Antes de ser processo ou efeito psicoterapeutico, todavia, a possibilidade das forças, e a possibilidade plástica do dialógico, na vida e no mundo humanos, são, naturalmente, uma dimensão fundamental, e natural potencialidade, latência constante, do processo e das forças da existência.

Ou seja: a mudança, a irrupção da criatividade existencial, a superação cri-ativa de um indesejável decurso que tornou-se aparentemente inevitável, e que trás o cliente ao consultório, e que é possibilitada pela vivência do dialógico, é uma possibilidade natural, uma necessidade, da existência, sempre latente e naturalmente atualizável, na medida em que possamos intuí-la e afirmá-la.

De modo que Buber deixa claro para nós que o que vemos de melhor no processo da psicoterapia, ou do trabalho psicológico, o melhor do crescimento humano, a mudança terapêutica, a superação, a potencialização da criatividade existencial, a partir da mobilização de uma super-abundância de forças, é, na sua efetividade, a natural implicação da humana abertura para o dialógico, a sua afirmação, a atualização do sempre latente e disponível potencial para a relação, a assunção plena da concretude da existência, em sua contingência, afetividades e devires.

Buber nos mostra, de um modo cristalino, como a relação, o dialógico, borram a consistência da dureza do mundo e da vida do isso, do mundo e da vida coisificados, e de seus poderes. Como eles re-fundem a estanquização e a estagnação tensa do mundo e da vida coisificados. E infundem-lhes movimento, plasticidade renovada, dinamismos, possibilidades, libertação de suas potencialidades. Como a relação e o dialógico suspendem a gravidade da força de rolo compressor do decurso aparentemente inalterável das coisas, e engendra deles, deles re-gen-era, novas formas e possibilidades.

Mostra, também, como, num esgotado e estereotipado eu, carente de atualidade, o dialógico e a relação infundem a possibilidade do devir, a possibilidade de sua própria super abundância renovada de forças, de cor e brilho.

E tudo isto, evidentemente, não é privativo da psicoterapia ou do trabalho psicológico, de um método, abordagem, ou situação determinados. De fato, trata-se apenas da natural atualização da sempre presente, não importa o quanto negligenciada e enfraquecida, ontológica potencialidade humana para o dialógico e para a relação.

Busco neste texto apresentar alguns destes aspectos da Filosofia do Diálogo, Filosofia da Relação. Explicitar elementos que evidenciem a sua importância para a aprendizagem e para o trabalho psicoterapeutico e psicológico, assim como para a vida humana em geral. Para tal, uso abundantemente o próprio texto de Buber, no Eu e Tu1, evidentemente a melhor forma de exposição de suas perspectivas. De modo que o texto segue fundamentalmente, por um tempo, as pegadas de Buber em um trecho de sua obra.

Buber tematiza a coisific/ação do mundo e da vida e as características, implicações e potencialidade da dimensão do mundo e da vida coisificados. Em primeiro lugar, a sua necessidade, a sua inevitabilidade, a sua importância para a vida humana individual e coletiva. Tematiza, a seguir, a latência sempre presente do dialógico na vida humana, a importância da preservação da força de sua possibilidade e potencialidade, neste mundo e vida coisificados. E a implicação do enfraquecimento e perda desta possibilidade. Aborda, de modo brilhante, o modo como a relação dialógica pode converter as implicações decorrentes da coisificação ilimitada da vida e do mundo, a causalidade ilimitada, o decurso inalterável das coisas, a fatalidade, a crença na inalterabilidade do decurso e da fatalidade.



1. COISIFICAÇÃO, COISIDADE E A POSSIBILIDADE DA RELAÇÃO NO MUNDO DAS COISAS.

Somente o ISSO pode ser ordenado (...) O TU não conhece nenhum sistema de coordenadas.



Porém (...) o mundo ordenado não significa a ordem do mundo.”

M. Buber
Praticamente tudo o que não é coisa na vida humana, apesar de configurar o que existe de mais importante e definidor no humano, é fugaz, efêmero, pontual e sofre o melancólico destino de coisificar-se, de constituir-se inevitável e necessariamente em coisa, em Isso. Sejam os objetos materiais, sejam os afetos, o pensamento, a alteridade, as relações, o Tu vivido no instante.

Buber coloca:


... a grande melancolia de nosso destino é que cada TU em nosso mundo deve tornar-se irremediavelmente um ISSO. Por mais exclusiva que tenha sido a sua presença na relação imediata, tão logo esta tenha deixado de atuar ou tenha sido impregnada por meios, o TU se torna um objeto entre objetos, talvez o mais nobre, mas ainda um deles, submisso à medida e à limitação. A atualização da obra em certo sentido envolve uma desatualização em outro sentido. A contemplação autêntica é breve; o ser natural que acaba de se revelar a mim no segredo da ação mútua, se torna de novo decomponível, classificável, um simples ponto de interseção de vários ciclos de leis. E o próprio amor não pode permanecer na relação imediata; ele dura mas numa alternância de atualidade e de latência (...).

Cada TU, neste mundo é condenado, pela sua própria essência, a tornar-se uma coisa, ou então, a sempre retornar à coisidade.”2
Esta inevitabilidade da coisificação, a transformação necessária do Tu em Isso, é natural, não configura algo de negativo em si. É própria da condição humana. E é ela que permite a objetivação e a organização do mundo e da vida humanos. É ela que permite o desenvolvimento da cultura, do conhecimento, da língua, dos usos, da arte, do ordenamento científico da realidade. Na verdade, a nossa vida cotidiana desdobra-se normalmente na esfera do Eu-Isso, do mundo da coisificação e da coisidade, e é, ela própria, coisificada. E isto é natural.

O dialógico, a atualização da possibilidade do Eu-Tu é eventual, episódica e fugaz. E isto é natural.


A palavra princípio EU-ISSO não tem nada de mal em si porque a matéria não tem nada de mal em si mesma.3
O que é fundamental reter, todavia, é que as coisas, o mundo e a vida coisificados, assim constituídos, não são absolutos em sua condição. Guardam, em latência, em si sempre pronto o potencial de uma “reversibilidade”, o Tu neles encantado, e a possibilidade de seu “desencantamento”.
O ISSO é a crisálida, o TU a borboleta. (...) não como se fossem sempre estados que se alternam nitidamente, mas, amiúde, são processos que se entrelaçam confusamente numa profunda dualidade.4
Empobrecimento e fatalismo na condição humana começam a desenvolver-se quando esta latência do TU no ISSO – ou seja, latência da possibilidade da relação dialógica no mundo e na vida coisificados -- começa a enfraquecer-se ou a extinguir-se. Quando sobre o mundo do Isso não paira, ou enfraquece-se, a possibilidade do Tu, da latência do Tu por sobre o mundo do Isso, como “quando o espírito pairava sobre as águas (Buber)”. Quando o mundo coisificado, o mundo do ISSO, ganha autonomia e absolutiza-se, quando o homem assim submetido ao poder das coisas e da vida coisificada perde a possibilidade da relação dialógica com a natureza, com o humano, com o misterioso.

Na possibilidade do dialógico reside, especificamente, o poder humano de regeneração, de recriação e de ordenamento criativo do mundo das coisas.



É sempre uma possibilidade, e um desafio para o homem, a preservação constante de seu poder de momentânea e pontual relação Eu- Tu. A relação Eu-Tu na esfera da relação com os seres da natureza não humana, na esfera da relação inter humana, ou na relação com o sagrado em sua vida.
A possibilidade arrisca-se cada vez mais, e o desafio potencializa-se (Buber), na medida em que o homem vive e na medida em que dura a vida humana, tanto coletiva quanto individual. Porque o desenvolvimento da história de sua vida -- da mesma forma que o desenvolvimento das civilizações -- implica inevitavelmente num inexorável e progressivo crescimento, e progressiva estruturação, e potencialização como tal, do mundo e da vida do Isso, do mundo e da vida coisificados.
A história do indivíduo e a história do gênero humano (...) manifestam um crescimento progressivo do mundo do Isso.5
Preservar a possibilidade e a potencialidade da relação dialógica na condição em que cresce, potencializa-se e estrutura-se a coisificação e a coisidade: o poder do mundo do Isso. Este é, para Buber, o desafio propriamente ontológico e ontogênico do ser humano.
(...) O que existe de mal é o fato de a matéria pretender ser aquilo que existe. Se o homem permitir, o mundo do ISSO, no seu contínuo crescimento, o invade e seu próprio EU perde a sua atualidade, até que o ‘pesadelo sobre ele’” (o mundo do isso alienado) “e o ‘fantasma no seu interior’** ” (o eu carente de atualidade) “sussurram um ao outro confessando sua perdição.6
Como é próprio, o contato do homem com o mundo do Isso implica a experiência, o conhecimento e a utilização. Funções que permitem ao homem utilizar as coisas, utilizar o mundo e a vida coisificados, para a sua conservação, para o provimento e facilitação de sua vida. De modo que, à medida que há um crescimento progressivo do mundo do Isso, desenvolve-se também a capacidade humana de experimentar e utilizar. E como capacidade é necessidade, potencializa-se a possibilidade de atrelamento cada vez maior do homem ao mundo das coisas e o empobrecimento e a perda de sua capacidade de relação.
O aperfeiçoamento da função de experimentação e de utilização realiza-se, geralmente, no homem em detrimento de seu poder de relação.7
Buber8 comenta que o aperfeiçoamento da função de experimentação e de utilização pode implicar no desenvolvimento da experiência indireta ou a “aquisição de conhecimento”. Ou, uma redução da utilização a uma “aplicação especializada”, que são desenvolvidas de geração a geração. Erroneamente, este processo pode ser compreendido como “vida espiritual”. Buber enfatiza que a expressão é fundamentalmente equivocada:
... pois esta ‘vida espiritual’ representa geralmente um obstáculo para a vida do homem no Espírito; ela é, quando muito, a matéria que, depois de vencida e modelada, a vida do espírito deve consumir. É um obstáculo, pois a capacidade de experimentação e de utilização se desenvolve no homem freqüentemente, em detrimento de sua força-de-relação, único poder, aliás, que lhe permite viver no Espírito.”
O espírito tem para Buber um sentido particular, sempre ligado ao mundo e ao vivido:
O Espírito em sua manifestação humana é a resposta do homem a seu Tu. ... O homem vive no espírito na medida em que pode responder a seu Tu. Ele é capaz disto quando entra na relação com todo o seu ser. Somente em virtude de seu poder de relação é que o homem pode viver no Espírito.9

... Com efeito, quando o espírito age livremente na vida, ele não é mais espírito ‘em si’ mas espírito no mundo, graças a seu poder de penetrar no mundo e transformá-lo. O espírito não está ‘consigo’ a não ser no face-a-face com o mundo que se lhe abre, mundo ao qual ele se doa, que ele liberta e pelo qual é libertado. A espiritualidade esparsa, debilitada, degenerada, impregnada de contradições, que hoje representa o espírito, poderá realizar esta libertação somente na medida em que atingir novamente a essência do espírito, a faculdade de dizer Tu.10


Seguindo na perspectiva de sua tradição hassídica, Buber dirá: “Não conheço nenhum caminho para Deus que não passe pelo mundo.” Esta perspectiva será reafirmada na conversão espiritual que Buber experimenta como crise na seqüência do suicídio de um orientando seu:

Desde então eu abandonei aquele "religioso" que não é nada mais que exceção, retirada, saída, êxtase; ou ele me abandonou. Eu não possuo nada além do cotidiano, do qual eu nunca sou retirado. O mistério não se abre mais, ele se subtraiu ou fixou domicílio aqui, onde tudo acontece como aconteceu. Eu não conheço mais nenhuma plenitude além daquela de cada hora mortal, de exigência e responsabilidade. Longe de estar à altura dela, eu sei, porém, que sou solicitado pela exigência e posso responder à responsabilidade, e sei quem fala e quem exige resposta. Muito mais eu não sei. Se isto religião, então ela é simplesmente tudo, o simples todo vivido na sua possibilidade do diálogo*.

E prossegue:



Aqui também há espaço para as mais altas formas. Como quando tu rezas e com isto não te afastas desta tua vida, mas justamente te referes a esta vida rezando, quer dizer, admitindo-a, seja no inaudito como no assaltante, quando és chamado do alto, requerido, eleito, autorizado, enviado. Com este teu pedaço mortal de vida estás na mente, este instante não é retirado, ele se apóia no que foi e acena para o resto ainda muito vivo. Não és tragado em uma plenitude sem compromisso, és desejado para a solidariedade11.

Manter a possibilidade e a potencialidade da relação dialógica é manter a possibilidade e a potencialidade da vida espiritual. Uma vez que a vida no espírito é, para Buber, a resposta existencial do homem ao seu Tu. É esta possibilidade desta resposta que permite ao homem exercer e subverter os seus limites e o seu ilimitado como ser, e libertar-se e constituir e reconstituir a esfera do mundo e da vida coisificados.

Mas o paradoxo humano, implica no fato de que a relação com o Tu é momentânea e excludente, é instantantânea, é vivência imediata e face-a-face.
... Somente o silêncio diante do Tu, o silêncio de todas as línguas, a espera silenciosa da palavra não formulada, indiferenciada, pré-verbal, deixa ao Tu sua liberdade, estabelece-se com ele na retensão onde o espírito não se manifesta mas está presente.12
A própria resposta do homem a seu Tu conduz à coisificação:
Quanto mais poderosa é a resposta, quanto mais ela enlaça o Tu, tanto mais o reduz a um objeto. ... Toda resposta amarra o Tu ao mundo do Isso. Tal é a melancolia do homem, tal é também a sua grandeza. Pois assim surgem no meio dos seres vivos o conhecimento, a obra, a imagem e o modelo.13
O homem vive, assim, num mundo de coisas e não pode evitar a coisificação no mundo e em sua própria vida. O mundo e a vida coisificados servem ao homem e organizam a sua realidade.

A possibilidade do Tu, todavia, reside em cada aspecto das coisas e é própria a sua natureza:


Tudo o que (...) se transformou em Isso, tudo o que se consolidou em coisa entre coisas, recebeu por sentido o destino de se transformar continuamente. Sempre de novo -- tal foi o sentido da hora em que o espírito se apoderou do homem e lhe mostrou a resposta -- o objeto deve consumir-se para se tornar presença, retornar ao elemento de onde veio para ser visto e vivido pelo homem como presente.14
Assim Buber entende tanto a vida individual do homem quanto a sua vida coletiva:
As estruturas da vida humana em comum extraem a própria vida da plenitude da força de relação que lhes penetra por todas as suas partes e sua forma encarnada eles a devem à ligação desta força ao espírito.(...)15
E mais uma vez cabe aqui cabe a observação de Buber:
A espiritualidade esparsa, debilitada, degenerada, impregnada de contradições, que hoje representa o espírito, poderá realizar esta libertação somente na medida em que atingir novamente a essência do espírito, a faculdade de dizer Tu16

2. IMPLICAÇÕES HUMANAS DA PERDA DA POSSIBILIDADE DA RELAÇÃO NO MUNDO E NA VIDA COISIFICADOS.

A potencialidade, sempre latente, de relação (Dialógica) no mundo e na vida coisificados, a possibilidade de sua transformação, é frustrada na medida em que, pela perda ou enfraquecimento desta possibilidade, conformamamo-nos e nos submetemos à vida e ao mundo coisificados, e tendemos conferir-lhes um caráter absoluto e excludente:

O homem que se conformou com o mundo do Isso como algo a ser experimentado e utilizado, faz malograr a realização deste destino: em lugar de liberar o que está ligado a este mundo ele o reprime; em lugar de contemplá-lo ele o observa, em lugar de acolhê-lo, serve-se dele.17

A vida (...) do homem não pode (...) prescindir do mundo do Isso, sobre o qual paira a presença do Tu (...). A vontade de utilização e a vontade de dominação do homem agem natural e legitimamente enquanto permanecem ligadas à vontade humana de relação e sustentadas por ela. Não há má inclinação até o momento em que ela se desliga do ser presente; a inclinação que está ligada ao ser presente e determinada por ele é o plasma da vida (...), e sua inclinação separada a sua destruição.18




CAUSALIDADE

Diferentemente do momento de relação (Dialógica), o mundo e a vida coisificados, o mundo do Isso, são constituídos por objetos, por coisas, que se dão limites umas às outras, que permitem uma organização espácio-temporal, que possibilitam a organização do mundo humano, o conhecimento, a elaboração dos artefatos humanos, a cultura, os usos, a linguagem, a ciência. Como constituído por coisas, que se limitam e determinam-se reciprocamente, o mundo do Isso se configura como mundo da causalidade, em que cada evento passa, necessariamente, por causado ou causador. O mundo do dialógico é o mundo da atualidade e da atualização de presenças.

O mundo do Isso é o reino absoluto da causalidade. Cada fenômeno “físico” perceptível pelos sentidos e cada fenômeno psíquico pré existente ou que se encontra na experiência própria, passa necessariamente por causado e causador.19
A absolutização, autonomização, do mundo do Isso, o enfraquecimento do vínculo com o dialógico, e o empobrecimento da possibilidade da relação -- possibilidade de resto sempre latente -- levam a um enfraquecimento da possibilidade de renovação e de regeneração do mundo e da vida coisificados. Mundo e vida coisificados que passam a caminhar à deriva, ao sabor da causalidade e do movimento mecânico próprio à dinâmica das coisas, na ausência do espírito.

A causalidade, inicialmente fugaz, ganha progressivamente poder, intensifica-se, transformando-se no próprio motor do “destino”. Liberdade e destino* já não se conjugam necessariamente. Seu vínculo está empobrecido e impotente. E o que prevalece, turbilhonante, é a pura e mecânica causalidade do mundo e da vida coisificados. O destino caiu na causalidade, e transforma-se em absurdo e tirânico demonismo.

O destino sábio e soberano que, harmonizado com o sentido da plenitude do universo, reinava sobre toda a causalidade primitiva, transmudado agora num absurdo demonismo, caiu nesta causalidade. (...) agora não importa o que façamos, o Heimarmene (‘destino’, em grego), estranho ao espírito, nos oprime, colocando sobre nossas nucas todo o peso da massa inerte do universo.20




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